Faculdade Engenharia da Universidade do Porto Mestrado Engenharia Biomédica MONOGRAFIA Segmentação de Estruturas em Imagens da Cavidade Pélvica da Mulher Mauro Miguel Parreira Vaz Trindade Porto, 11 Julho 2008 Segmentação de Estruturas em Imagens da Cavidade Pélvica da Mulher Segmentação de Estruturas em Imagens da Cavidade Pélvica da Mulher Por: Mauro Miguel Parreira Vaz Trindade Licenciado em Engenharia Física pela Faculdade de Ciências e Tecnologia – Universidade Nova de Lisboa (2004) Orientador: João Manuel R. S. Tavares Professor Auxiliar da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, Departamento de Engenharia Mecânica e Gestão Industrial Co-orientador: Renato M. Natal Jorge Professor Auxiliar da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, Departamento de Engenharia Mecânica e Gestão Industrial 2 Segmentação de Estruturas em Imagens da Cavidade Pélvica da Mulher Resumo: A Visão Computacional é uma das áreas da ciência que tem merecido maior destaque por parte da comunidade científica. Este interesse deve-se ao seu alargado leque de áreas de aplicação entre os quais se encontra a Medicina, onde a segmentação automática de estruturas anatómicas em imagens médicas, significa uma rentabilização de tempo e recursos dos profissionais de saúde envolvidos. A segmentação de imagens é o processo de dividir uma imagem em sub-regiões homogéneas. Por homogeneidade, entende-se em conformidade de algumas características: como a cor, ou níveis de cinzento. O processo de segmentação pode ser realizado de forma manual, semi-automática ou automática. Os referidos processos de segmentação podem ser realizados em imagens estáticas ou mesmo ao longo de sequências de imagem e muitas vezes constituem o primeiro passo de metodologias de Visão Computacional mais complexas. Por exemplo, na área da imagem médica, é comum a reconstrução 3D de estruturas representadas em imagens, sendo usual a primeira etapa consistir na segmentação da estrutura em estudo em cada imagem que constitui o exame médico em questão. Com esta Monografia pretendeu-se estudar metodologias usuais na área da Visão Computacional para segmentar objectos representados em imagens médicas, de forma semi-automática ou mesmo totalmente automática, tendo como objectivo principal a sua aplicação para segmentar estruturas em imagens da cavidade pélvica da mulher. Como algumas das estruturas da cavidade pélvica da mulher são de espessura reduzida, especial atenção será dada a técnicas de segmentação de objectos de espessura diminuta. O motivo pelo qual a cavidade pélvica da mulher merecer principal destaque nesta Monografia, deve-se ao facto de ainda não serem comuns técnicas computacionais adequadas para segmentar as estruturas presentes nas imagens desta zona anatómica do corpo humano. Palavras-Chave: Visão Computacional, Segmentação, Modelos Activos, Cavidade Pélvica da Mulher, Biomecânica. 3 Segmentação de Estruturas em Imagens da Cavidade Pélvica da Mulher Índice Capitulo I 7 Introdução à Dissertação e sua Organização 7 1.1 Introdução 8 1.2 Objectivos 11 1.3 – Metodologia 11 1.4 – Estrutura 11 Capitulo II 13 Anatomia – Zona Pélvica da Mulher 13 2.1 Introdução 14 2.2- Anatomia – Zona Pélvica da Mulher 14 2.2.1 Útero 16 2.2.2 Vagina 17 2.2.3 Bexiga 17 2.2.4 Uretra Feminina 17 2.2.5 Ovários 17 2.2.6 Trompas de Falópio 18 2.2.7 Recto 18 2.2.8 Fémur (cabeça femural) 18 2.3 Conclusões 19 Capitulo III 20 Imagem Médica 20 3.1 Introdução 21 3.2 Imagem Médica 21 3.3 Imagem Médica Digital 21 3.4 Conclusões 23 Capítulo IV 24 Métodos e Algoritmos de Segmentação 24 4.1 Introdução 25 4.2 Métodos e Algoritmos de Segmentação 25 4.2.1 Histograma 26 4.2.2 Realce 27 4.2.3 Equalização do Histograma 27 4.2.4 Especificação do Histograma 28 4 Segmentação de Estruturas em Imagens da Cavidade Pélvica da Mulher 4.2.5 Segmentação por Thresholding 29 4.2.6 Crescimento de região “region growing” 30 4.2.7 Divisão e agrupamento de regiões (splitting and merging) 31 4.2.8 Transformada de watershed 32 4.2.9 Segmentação baseada em orlas (edge-based) 33 4.2.10 - Contornos Activos 34 4.2.10.1 Modelos Deformáveis 34 4.2.10.2 Modelos Deformáveis – Snakes 35 4.2.10.3 Modelos Deformáveis – Snakes: Por minimização de energia 35 4.2.10.4 Modelos deformáveis dinâmicos 36 4.2.10.5 Discretização e simulação numérica 37 4.2.11 – Modelos deformáveis probabilísticos 38 4.3 Conclusão 39 Capitulo V 40 Ferramentas Desenvolvimento e Linguagens de Programação 40 5. Ferramentas Desenvolvimento e Linguagens de Programação 41 Capítulo VI 43 Conclusões e Perspectivas Futuras 43 6.Conclusões 44 5 Segmentação de Estruturas em Imagens da Cavidade Pélvica da Mulher Índice de Figuras Fig. 1 - Passos fundamentais no processamento de imagem (adaptado de [4]). ............. 8 Fig. 2 - Diagrama da distância entre pixéis dos i-ésimos contornos manual e automático para o cálculo do desvio médio do pixel (imagem de [3]). ............................................ 10 Fig. 3 - Esqueleto Humano ( retirada de [5]). ............................................................... 14 Fig. 4 - Estrutura óssea da cavidade Pélvica (bacia) (retirada de [5])........................... 15 Fig. 5 - Estrutura óssea da cavidade Pélvica (Fémur) (imagem de [5]). ........................ 15 Fig. 6 - Região da cavidade pélvica feminina: Corte sagital (imagem de [5]). .............. 16 Fig. 7 - Região da cavidade pélvica feminina: Corte frontal da pélvis. (imagem de [5]) ........................................................................................................................................ 16 Fig. 8 - Ilustração esquemática de uma imagem digital (retirado de [4]). ......... 22 Fig. 9 - Exemplo do efeito da equalização do histograma no contraste de uma imagem (retirado de [12]). .......................................................................................................... 28 Fig. 10 - Resultados obtidos (retirado de [12]). ............................................................ 28 Fig. 11 - Segmentação por limitação: (a) – Histograma fraccionado por um limite; (b) – Histograma fraccionado por dois limites T1 e T2 (retirado de [12]). ............................. 30 Fig. 12 - União e divisão de imagens (retirado de [4])................................................. 32 Fig. 13 – Representação de um relevo em tonalidades de cinzento (retirado de [12]).. 33 6 Segmentação de Estruturas em Imagens da Cavidade Pélvica da Mulher Capitulo I Introdução à Dissertação e sua Organização 7 Segmentação de Estruturas em Imagens da Cavidade Pélvica da Mulher 1.1 Introdução A Visão Computacional é a ciência e tecnologia das máquinas que têm a capacidade de “ver”. Esta área da ciência, tem como objecto de estudo o desenvolvimento de teorias e tecnologia para a construção de sistemas artificiais que obtém informação de imagens ou dados multidimensionais [1]. Grande parte da Visão Computacional utilizada em medicina, lida com métodos que empregam radiação electromagnética. A Imagiologia Médica é o termo utilizado para designar um conjunto de métodos de diagnóstico, com as quais se pretende obter imagens anatómicas, quer sejam de tecido mole ou tecido ósseo, e que utilizam fontes de radiação ionizante e não ionizante. Dentro da Imagiologia Médica existem diversas técnicas, a maioria das quais utiliza radiação X como o raios-X convencional, mamografia, tomografia computorizada. Mas também é utilizada radiação não ionizante como no caso da ressonância magnética ou ondas mecânicas como no caso da ultrasonografia. Em todas estas técnicas o objectivo principal é obter uma imagem tão boa quanto possível, isto é, com uma boa resolução espacial e elevado contraste entre as diversas estruturas anatómicas. No processo de formação de imagem, as ondas electromagnéticas são reflectidas pelas superfícies dos tecidos, este sinal é capturado por sensores e processadas por computadores que formam a imagem. O processo de formação de imagem é baseado nas leis da óptica e da física do estado sólido. Gonzalez, [4] apresenta o fluxograma ilustrado na figura 1, com os passos fundamentais no processamento de imagens. Este estudo está focado na etapa da segmentação de imagens. Fig. 1 - Passos fundamentais no processamento de imagem (adaptado de [4]). 8 Segmentação de Estruturas em Imagens da Cavidade Pélvica da Mulher O termo segmentação significa a identificação de uma ou mais estruturas existentes em imagens, separando-as das demais, [2,3]. A sua visualização pode ser feita não só numa imagem bidimensional como também transportada para inúmeros cortes (planos bidimensionais) definidos por planos arbitrários, como em imagens tridimensionais. A segmentação de imagens é o processo de dividir uma imagem em sub-regiões homogéneas. Por homogeneidade entende-se conformidade de algumas características: como a cor, ou níveis de cinzento. A segmentação pode ser realizada das seguintes formas, [2]: o Segmentação Manual: Neste tipo de segmentação o utilizador indica explicitamente os pixéis da imagem em análise que devem ser incluídos na região de interesse. Estes métodos incluem selecção manual de pixéis que pertencem à fronteira da área de interesse. A selecção de pixéis individuais é claramente trabalhosa e é normalmente a mais utilizada em medicina. A fronteira é o conjunto de vértices individuais que delimitam a região de interesse. Algoritmos de fronteira variam bastante entre aplicações e implementações. Alguns algoritmos são discretos, guardando somente os vértices consecutivos. Outros algoritmos de fronteira discretos são mais precisos e simples de implementar. o Segmentação Automática: Neste tipo de segmentação um algoritmo selecciona automaticamente os pixéis baseando-se num conjunto de regras previamente determinadas. Estes métodos não são normalmente muito eficientes devido à complexidade das imagens envolvidas. Para além disso, o pouco contraste entre regiões conduz por vezes a erros nos algoritmos automáticos. Assim, a intervenção humana é normalmente necessária, tornando-se estes métodos semiautomáticos. o Segmentação Semiautomática: Neste tipo de segmentação combinamse os métodos manuais e automáticos. Estes métodos consistem em fornecer informação inicial acerca da região de interesse, permitindo ao utilizador guiar e melhorar o processo de segmentação automática. 9 Segmentação de Estruturas em Imagens da Cavidade Pélvica da Mulher Deste modo, quaisquer erros ainda presentes e introduzidos pelo processo de segmentação automática podem ser corrigidos pela edição manual. A segmentação é um processo de elevada complexidade que deve ter em conta as diferentes deformações que caracterizam a região anatómica a ser segmentada. No campo clínico, a delineação manual de estruturas anatómicas consome muito do tempo laboral dos profissionais de saúde e está muitas vezes sujeita a erros por falta de contraste entre as estruturas. Vários estudos mostram que a delineação feita manualmente é normalmente maior do que a feita recorrendo a métodos automáticos, figura 2 [3]. Fig. 2 - Diagrama da distância entre pixéis dos i-ésimos contornos manual e automático para o cálculo do desvio médio do pixel (imagem de [3]). Um outro exemplo de uma especialidade médica além da Imagiologia, onde a delineação automática de estruturas anatómicas representaria uma enorme beneficio no quotidiano clínico, seria na Radioterapia Externa e Braquiterapia, onde os médicos e físicos tem de delinear o tumor e as estruturas anatómicas envolventes para realizar o plano de tratamento e assim garantir que todo o tumor é irradiado poupando ao máximo os tecidos sãos adjacentes. 10 Segmentação de Estruturas em Imagens da Cavidade Pélvica da Mulher 1.2 Objectivos O objectivo desta Monografia é estudar metodologias de segmentação automática de imagens de forma a aplicá-las na Segmentação de Estruturas em Imagens da Cavidade Pélvica da Mulher. 1.3 – Metodologia Existem vários artigos publicados sobre o tema de segmentação em imagens com as mais diversas finalidades. No contexto desta Monografia, centrou-se a pesquisa em trabalhos publicados sobre segmentação automática ou semi-automática de imagens médicas, verificando-se que os métodos adoptados dependiam muito da zona anatómica de interesse. De uma pesquisa mais abrangente, tentou-se reduzir para alguns trabalhos de referência dos quais se destacam: - Betrouni N., Vermandel M., A framework for 3D reconstruction of human organs from MR images: a model and fuzzy set principles based approach. Application to prostate segmentation and reconstruction. - Juliana Fernandes Camapum, Alzenir O.Silva, Alan N. Freitas, Hansenclever de F. Bassani, Flávia Mendes O.Freitas; Segmentation of Clinical Structures from Images of the Human Pelvic Área; Computer Society. 1.4 – Estrutura O texto desta Monografia foi desenvolvido da seguinte forma: 1. Introdução No presente capítulo, apresenta-se o tema da Monografia, indicando algumas bases teóricas sobre Visão Computacional, Processamento de Imagem e Segmentação. 11 Segmentação de Estruturas em Imagens da Cavidade Pélvica da Mulher 2. Anatomia – Zona Pélvica da Mulher Neste capítulo pretende-se descrever a anatomia da mulher em particular da cavidade pélvica. 3. Imagem Médica Neste capítulo aborda-se a natureza das imagens médicas, suas variantes e características. Referiu-se dentro do cenário clínico actual, as principais tecnologias e equipamentos para aquisição de imagens médicas. Apresentou-se também uma explanação introdutória ao formato DICOM (Digital Imaging Communications in Medicine). 4. Métodos de Segmentação e Algoritmos Neste capítulo apresentam-se alguns métodos e técnicas utilizadas na segmentação automática ou semi-automática de imagens. 5. Ferramentas de Desenvolvimento e Linguagens de Programação Este capítulo tem como objectivo a escolha da linguagem de programação e das ferramentas computacionais a utilizar na fase de desenvolvimento deste projecto. 6. Conclusões e Perspectivas Futuras Este Capítulo é reservado às conclusões finais desta Monografia e às perspectivas de futuro quanto ao desenvolvimento da futura Dissertação. 12 Segmentação de Estruturas em Imagens da Cavidade Pélvica da Mulher Capitulo II Anatomia – Zona Pélvica da Mulher 13 Segmentação de Estruturas em Imagens da Cavidade Pélvica da Mulher 2.1 Introdução A anatomia é a ciência que estuda o corpo humano. Este capítulo tem como objectivo estudar a anatomia humana, em particular a da cavidade pélvica da mulher. Com a finalidade, de reconhecer as estruturas anatómicas visualizadas nas imagens utilizadas neste projecto, este capítulo irá ilustrar as regiões anatómicas de interesse e descrever as características dos ossos e órgãos que se pretendem segmentar em imagens médicas. 2.2- Anatomia – Zona Pélvica da Mulher Os tecidos ósseos são também conhecidos como tecidos estruturantes e tem como funções principais o suporte de cargas/esforços e protecção dos órgãos. Na figura 3 pode-se observar a estrutura óssea do Homem e na figura figura 4 a estrutura óssea da cavidade pélvica Fig. 3 - Esqueleto Humano ( retirada de [5]). 14 Segmentação de Estruturas em Imagens da Cavidade Pélvica da Mulher Fig. 4 - Estrutura óssea da cavidade Pélvica (bacia) (retirada de [5]). Na figura 5, pode-se observar em detalhe a estrutura do fémur Fig. 5 - Estrutura óssea da cavidade Pélvica (Fémur) (imagem de [5]). Nas figuras 6 e 7 observa-se os órgãos que se encontram na cavidade pélvica da mulher 15 Segmentação de Estruturas em Imagens da Cavidade Pélvica da Mulher Fig. 6 - Região da cavidade pélvica feminina: Corte sagital (imagem de [5]). Fig. 7 - Região da cavidade pélvica feminina: Corte frontal da pélvis. (imagem de [5]) 2.2.1 Útero É o órgão de gestação feminino. Na mulher adulta, o útero tem 7 a 8 cm de comprimento, encontra-se situado entre o recto e a bexiga urinária, atapetado pelo peritoneu e fixo pelos ligamentos largos, redondos e uterosagrados. Consta de uma parte superior ou corpo, de forma triangular, em cujos ângulos superiores desembocam nas trompas de Falópio, e de uma parte inferior ou colo, cujo orifício externo comunica com a vagina. É constituída por três camadas: sereosa ou externa, muscular ou média – atinge um grande desenvolvimento durante a gravidez e é de musculatura lisa – e interna ou endométrio – atapetada toda a superfície interna e sofre alterações cíclicas mensais que conduzem à menstruação. Está irrigado pela artéria uterina; o 16 Segmentação de Estruturas em Imagens da Cavidade Pélvica da Mulher sangue venoso é recolhido pela veia uterina, que termina na veia hipogástrica, [5]. 2.2.2 Vagina É o órgão copulador da mulher. É um órgão ímpar e mediano, cílindrico, musculomenbranoso, dilatável e extensível. Tem um comprimento de 6 a 7 cm. A sua extremidade superior está unida ao colo uterino, à volta do qual se forma um fundo de saco, [5]. 2.2.3 Bexiga É um órgão muscular que armazena a urina que os ureteros drenam para ela de forma regular e contínua. Está situada na região pélvica, atrás da púbis. Tem uma forma ovóide e uma capacidade de 300 a 350 cm3 numa mulher adulta, [5]. 2.2.4 Uretra Feminina Tem um comprimento de 3 a 4 cm e dirige-se da bexiga ao orifício inferior ou meato, situado na parte posterior do clítoris, [5]. 2.2.5 Ovários Os ovários ou glândulas genitais da mulher são duas estruturas glandulares situadas na região pélvica, atrás do útero, numa prega do peritoneu chamada ligamento largo. A sua forma é a de uma amêndoa, variando as suas dimensões e cor com a idade e com a fase do ciclo ovárico. Estão ligadas ao útero pelas trompas de Falópio, cujas extremidades em forma de fímbrias os cobrem parcialmente. Na sua constituição interna distinguem-se duas zonas: zona cortical ou germinativa, disposta perifericamente e integrada por um tecido conjuntivo chamado estroma e pelos folículos ováricos em graus diferentes de maturação – primordial, primário, secundário, terciário e folículo 17 Segmentação de Estruturas em Imagens da Cavidade Pélvica da Mulher maduro ou de Graaf, e zona medular ou vascular situada no centro do órgão. O ovário possui uma importante função endócrina, a secreção das hormonas chamadas estrógenios e prosgesterona, que actuam sobre o aparelho genital e especialmente sobre o útero preparando-o para a fecundação, nidação e nutrição do embrião, [5]. 2.2.6 Trompas de Falópio São dois canais, um direito e outro esquerdo, que se estendem desde o ovário até ao ângulo superior do útero. A sua função é recolher o óvulo quando se rompe o folículo de Graaf e transportá-lo para a cavidade uterina, onde se fixará se tiver sido fecundado e donde será expulso em caso contrário. Medem cerca de 10 cm de comprimento e estão situadas entre as folhas do ligamento largo, unidas ao útero pelo ligamento tubo-ovárico. Constam de uma porção tubolar e de uma extremidade externa chamada pavilhão ou infundíbulo, em forma de funil, dotado de uns prolongamentos que recebem o nome de fímbrias, [5]. 2.2.7 Recto É a parte final do tubo digestivo e termina no canal anal. Possui geralmente 3 pregas em seu interior e é uma região muito vascularizada, [5]. 2.2.8 Fémur (cabeça femural) O Fémur é um osso longo, o mais comprido do corpo humano. Articulase a nível da bacia com o osso ilíaco, e a nível do joelho com a rótula, a tíbia e o perónio. A sua epífase superior apresenta a cabeça femural, de forma esférica, o colo, que é um estrangulamento que une a cabeça com o resto do osso e duas eminências, os trocanteres, para inserções musculares. A diáfise femural, longa e resistente é ligeiramente curva e retorcida sobre o seu eixo. Este elemento é constituído por osso compacto, [5]. 18 Segmentação de Estruturas em Imagens da Cavidade Pélvica da Mulher 2.3 Conclusões Da análise deste capítulo conclui-se que a cavidade pélvica da mulher é constituída por estruturas anatómicas geometricamente indefinidas, e por tecidos muito finos, com densidades muito próximas o que dificulta o contraste entre as estruturas presentes nas imagens. 19 Segmentação de Estruturas em Imagens da Cavidade Pélvica da Mulher Capitulo III Imagem Médica 20 Segmentação de Estruturas em Imagens da Cavidade Pélvica da Mulher 3.1 Introdução Em 1895, o físico alemão Wilhelm Conrad Röntgen descobriu os raios X e aproximadamente cinco anos mais tarde a radiologia surgia como especialidade médica. Na década de 40, apareceram “novas tecnologias” como intensificadores de imagem, que permitiram a realização de fluoroscopias em tempo real. Em 1970, Godfrey N. Hounsfield desenvolveu o primeiro tomógrafo computorizado de raios X Godfrey N. Hounsfield em conjunto com Allan Cormack, dedicaram-se a investigar os métodos matemáticos envolvidos no processo de aquisição de imagem da tomografia computorizada e receberam o prémio Nobel da Medicina em 1979, [6]. Este capitulo tem como objectivo principal abordar os diferentes tipos de imagens utilizadas no quotidiano clínico, as suas características e a sua forma de aquisição. 3.2 Imagem Médica A aquisição de imagens médicas pode ser feita através de variados métodos invasivos e não-invasivos. Os métodos invasivos caracterizam-se pela introdução de um líquido ou instrumento no interior do corpo; nesta categoria encontram-se, por exemplo, as angiografias e as imagens de Medicina Nuclear, como as imagens de PET - Positron Emission Tomography e SPECT - Single Photon Emission Computed Tomography. Os métodos não invasivos encontram-se por exemplo os raios X, a MRI - Magnetic Resonance Imaging e a CT – ComputerTomography e a ultra-sonografia, [7, 8] 3.3 Imagem Médica Digital Os computadores apenas trabalham com números discretos, não têm por isso a capacidade de representar directamente as tonalidades de cinzento 21 Segmentação de Estruturas em Imagens da Cavidade Pélvica da Mulher ou de cores. Desta forma, para que o computador possa apresentar imagens e trabalhar com elas necessita que estas sejam convertidas em dados numéricos discretos. Para tal conversão, a imagem é subdividida numa matriz. Essa matriz é normalmente designada por “imagem matriz” e a cada elemento dessa matriz é chamado por pixel - picture element. Cada pixel contém a informação sobre a posição espacial e o nível de cinzento ou de cor associado. Assim a imagem é representada espacialmente e a amplitude de cada elemento é quantificada num número finito de níveis de cinzento ou de cor. Cada pixel é representado pela função f(x,y), onde f é a intensidade do pixel e (x,y) a posição espacial do pixel ao longo do eixo cartesiano, cuja a origem é usualmente definida no primeiro pixel do canto superior esquerdo da imagem. Os números de linhas e de colunas da matriz são muitas vezes indicados por MxN. A figura 8 ilustra uma imagem digital. A imagem da esquerda é uma matriz de 4x4 e a da direita representa os valores numéricos correspondentes aos vários níveis de cinzento. O valor 255 representa o branco e o 0 (zero) o preto, [9]. Fig. 8 - Ilustração esquemática de uma imagem digital (retirado de [4]). No caso das imagens médicas, o nível de cinzento traduz alguma propriedade do tecido ou órgão; ou seja uma determinada propriedade física. Nas imagens adquiridas com raios X por exemplo, o valor numérico discreto representa a atenuação dos tecidos a este tipo de radiação. Assim quanto maior for a profundidade menor o nível de cinzento. 22 Segmentação de Estruturas em Imagens da Cavidade Pélvica da Mulher O DICOM - Digital Imaging Communications in Medicine é o formato standart das imagens médicas, criado com a finalidade de se padronizar as imagens adquiridas com finalidades clínicas. O padrão DICOM é formado por uma série de normas que permitem que imagens médicas e as informações associadas sejam trocadas entre equipamentos de Imagiologia e computadores dentro de um hospital ou entre hospitais. Tornando assim compatíveis equipamentos de diferentes marcas, viabilizando o acesso rápido aos exames pela comunidade médica e aumentando a fiabilidade, pois os arquivos usados incluem todos os dados dos exames e dos pacientes. O sistema DICOM foi desenvolvido pela indústria de imagem, representada por membros do NEMA - National Electric Manufacturers Association dos EUA, e pela comunidade de utilizadores de imagens médicas, como o American College of Radiology, o American College of Cardiology e o Europea Society of Cardiolgy. Actualmente existe o DICOM Standars Committee formado por fabricantes de equipamentos que geram imagens neste formato e representantes de grandes sociedades médicas. O DICOM é a terceira versão padrão de imagens médicas, vindo após o ACR/NEMA 1.0 e 2.0 que foram desenvolvidos em meados da década de 80. A tendência é que, no futuro próximo, o DICOM se torne padrão mundial, [9]. O padrão DICOM permite, por exemplo, que informações sobre o paciente e o exame sejam transmitidos através de uma rede de comunicação sem perda de definição, possibilitando o diagnóstico médico remoto, [9]. 3.4 Conclusões Da análise deste capítulo, conclui-se que embora as imagens médicas possam ser adquiridas recorrendo a diversas técnicas, todas utilizam radiação electromagnética na sua aquisição, seja esta ionizante ou não-ionizante. Com a nova era da imagem digital, a imagem médica tende agora a padronizar-se de forma a poder ser usada em qualquer instituição de saúde ou equipamento independentemente onde ela tenha sido adquirida. 23 Segmentação de Estruturas em Imagens da Cavidade Pélvica da Mulher Capítulo IV Métodos e Algoritmos de Segmentação 24 Segmentação de Estruturas em Imagens da Cavidade Pélvica da Mulher 4.1 Introdução O termo segmentação significa a identificação de uma ou mais estruturas existentes em imagens, separando-as das demais. A sua aplicação pode ser realizada não só numa imagem bidimensional, mas também em cortes (planos bidimensionais) definidos por planos arbitrários em volumes de imagem, em volumes de dados, podendo inclusive considerar texturas. A segmentação e reconstrução de estruturas, é um processo de elevada complexidade porque deve ter em contas as diferentes formas e possíveis deformações das mesmas, características da região anatómica em causa. Neste segmentação capitulo abordam-se automática e alguns semiautomática, métodos e bem como algoritmos a de morfologia matemática envolvida. 4.2 Métodos e Algoritmos de Segmentação Usualmente, após a aquisição de imagens médicas, segue-se o seu préprocessamento, de forma a realçar as estruturas e melhorar o contraste entre estas, seguindo-se a fase de segmentação e o reconhecimento das respectivas estruturas anatómicas. A finalidade das técnicas de realce é processar uma imagem de modo que o resultado seja mais apropriado para uma dada aplicação especifica do que a imagem original, [4]. A segmentação tem como principal objectivo, dividir uma imagem em regiões ou subconjuntos homogéneos em função de uma ou mais características. Algumas das suas aplicações em medicina são na: simulação de cirurgias, medida de volume de tumores, classificação automática de células sanguíneas e detecção de micro-calcificação em mamogramas, [11]. Existem vários métodos de segmentação, não existindo um método universal; ou seja, um método de segmentação único para todos os tipos de imagem e aplicação. Assim, a selecção de uma técnica apropriada depende do tipo de imagens e aplicações. Bankman [11] classifica as técnicas de segmentação da seguinte forma: 25 Segmentação de Estruturas em Imagens da Cavidade Pélvica da Mulher 1. Manual, semiautomática e automática. 2. Método local (baseado no valor do pixel) e método global (baseado na região). 3. Delineação manual → segmentação de baixo nível e segmentação de alto nível; - Segmentação de baixo nível → análise de pixéis, limitação e crescimento de regiões; - Segmentação de alto nível → análise de modelos – multiespectral (combinação de imagens de várias fontes) e técnicas de mapeamento de características. 4. Clássicas (limitação, orlas e regiões); estatísticas; lógica fuzzy e rede neuronais. Dentro de um conjunto de técnicas possíveis, apresentam-se os algoritmos de realce e segmentação mais utilizados no processamento de imagens médicas e que são relevantes à realização futura deste projecto. O realce é aplicado na fase de pré-processamento com o objectivo de fazer sobressair regiões que serão detectadas pelos algoritmos de segmentação. 4.2.1 Histograma Algumas técnicas de realce e de definição de limites da região de interesse são baseadas no histograma da imagem original, outras são baseadas em propriedades tais como a média, desvio padrão ou gradiente. Tanto o realce quanto a definição dos limites considerados, podem ser locais ou globais. A técnica é global quando depende da imagem como um todo e local quando depende das propriedades de alguma região específica da mesma. O histograma normalizado p(rk) de uma imagem pode ser definido como uma estimativa da probabilidade de ocorrência de um nível de cinzento da imagem original: 26 Segmentação de Estruturas em Imagens da Cavidade Pélvica da Mulher ⎧ p (rk ) = nnk k = 0,1,..., L − 1 ⎪ p( z ) = ⎨ k 0 ≤ rk ≤ 1 ⎪rk = L −1 ⎩ Eq. 1 onde L é a quantidade de níveis de cinzento da imagem, n é o número total de pixéis da imagem, nk é o número de pixéis com nível de cinzento k e rk é o nível de cinzento normalizado. A função pz(z) é conhecida como função densidade de probabilidade dos níveis de cinzento. 4.2.2 Realce O realce tem como objectivo melhorar a qualidade de uma imagem, permitindo obter um melhor contraste entre as estruturas presentes. A técnica de realce de contraste tem como o objectivo melhorar a qualidade da imagem sob critérios subjectivos do olho humano. É utilizada, normalmente, na etapa de pré-processamento das imagens, [4]. 4.2.3 Equalização do Histograma A equalização é uma técnica de realce que transforma o histograma da imagem original numa distribuição de probabilidade uniforme; ou seja, utiliza toda a faixa de níveis de cinzento de 0 (zero) a 255. A equalização é independente do tipo da imagem de entrada e pode proporcionar um excelente efeito de realce em várias aplicações. A equalização do histograma de uma imagem pode ser obtida por: S= freq × 255 Pt Eq. 2 , sendo s o nível de cinzento da imagem equalizada, freqt a frequência acumulada para o nível de cinzento i da imagem original e Pt o número total de pixéis da imagem, [4]. 27 Segmentação de Estruturas em Imagens da Cavidade Pélvica da Mulher Pode-se observar a aplicação desta técnica na figura 9. Fig. 9 - Exemplo do efeito da equalização do histograma no contraste de uma imagem (retirado de [12]). Juliana Fernandes Camapum [12], apresenta os seguintes resultados, na figura 10, da aplicação deste método: Fig. 10 - Resultados obtidos (retirado de [12]). 4.2.4 Especificação do Histograma A equalização do histograma não é adequada para aplicações interactivas de realce de uma imagem. A justificação para tal é que este 28 Segmentação de Estruturas em Imagens da Cavidade Pélvica da Mulher método é capaz de gerar apenas um resultado: uma aproximação de um histograma uniforme. Quando conhecemos o tipo de imagem, é melhor utilizar uma técnica chamada Especificação do Histograma. Neste caso, o histograma desejado é um dos parâmetros de entrada do algoritmo que irá gerar uma nova imagem com a distribuição de probabilidade especificada, [4]. Assim, sejam pk(k) e pz(z) as funções de densidade de probabilidade original e desejada, respectivamente, o procedimento para especificação do histograma pode ser resumido da seguinte forma: 1. Equalização dos níveis da imagem original através da Eq. (2), obtendose s. 2. Especificação da função densidade desejada, obtendo a função de transformação G(z) usando: z ν = G( z ) = ∑ p z Eq. 3 i =0 onde ν é a função de transformação, também simbolizada por G(z), pz é a função de densidade de probabilidade desejada e i são os pixéis da imagem original. 3. Aplicação da função de transformação inversa, z= G −1 ( s ) , aos níveis de cinzento obtidos no primeiro passo. 4.2.5 Segmentação por Thresholding Esta técnica de limitação global é baseada na ideia de que o histograma da imagem é bimodal. Sendo a imagem original f(x,y), desta forma, o objecto pode ser extraído do fundo considerando um limiar T. O limiar T óptimo é o nível de cinzento do vale que fica entre os dois picos do histograma da imagem original. O resultado é uma imagem binária g(x,y) com valores 1 (um) correspondente ao objecto e 0 (zero) correspondendo ao fundo da imagem. A imagem binária g(x,y) será obtida por: 29 Segmentação de Estruturas em Imagens da Cavidade Pélvica da Mulher ⎧1............se.. f ( x, y ) > T g ( x, y ) = ⎨ ⎩0...........se.. f ( x, y ) ≤ T Eq. 4 . Se a imagem contém mais do que um objecto, é possível segmentá-la aplicando vários limites individuais, como exemplificado na figura 11, esse processo é conhecido como limitação local. A referida figura mostra a limitação global de um histograma por um único valor T. Fig. 11 - Segmentação por limitação: (a) – Histograma fraccionado por um limite; (b) – Histograma fraccionado por dois limites T1 e T2 (retirado de [12]). A limitação global é computacionalmente simples e rápida, com resultados satisfatórios quando aplicada a estruturas com valores de cinzento uniformes e de contraste acentuado relativamente ao fundo da imagem em causa. Bankman [11] e Gonzalez [4] concluem que esta técnica não gera bons resultados em imagens com baixo contraste entre o objecto e o fundo, em imagens ruidosas e em imagens com intensidade de fundo variante. 4.2.6 Crescimento de região “region growing” Ao contrário do método de limitação que se baseia na diferença de intensidade dos pixéis, o método de crescimento de regiões procura por grupos (regiões) de pixéis semelhantes. O processo de procura de pixéis semelhantes inicia-se com a escolha de um pixel ou um grupo de pixéis, usualmente designados por sementes. A escolha destes pixéis pode ser manual ou automática e deve fazer-se numa parte da estrutura que pretende-se segmentar. O passo a seguir do algoritmo é testar os pixéis vizinhos, um de cada vez e adicioná-los ao grupo para o crescimento da região. Os novos pixéis são 30 Segmentação de Estruturas em Imagens da Cavidade Pélvica da Mulher adicionados de acordo com a semelhança sobre um critério da uniformidade, também chamado teste de homogeneidade. O procedimento repete-se até não ser possível adicionar nenhum novo pixel. O objecto é então representado por todos os pixéis “aceites” durante o procedimento de crescimento da região, [11]. Um dos testes de uniformidade é comparar a intensidade do pixel a ser testado e o valor da intensidade média da região. Se a diferença é menor do que um certo valor estipulado, o pixel é incluído na região caso contrário ele será integrado na região de fronteira. O crescimento da região depende fortemente do critério de homogeneidade. Se for escolhido erradamente, pode gerar fragmentação da região ou mistura de regiões distintas que não caracterizam adequadamente a estrutura de interesse, [3]. Um outro problema do método de crescimento de região é que caso o processo seja erradamente guiado para pontos distintos pode levar a distintos crescimentos de regiões. A vantagem deste método está no facto de ser capaz de segmentar correctamente regiões que têm a mesma propriedade mesmo estando algo espacialmente afastadas. 4.2.7 Divisão e agrupamento de regiões (splitting and merging) A técnica de crescimento de região discutida anteriormente, tem como objectivo fazer “crescer” regiões a partir de um conjunto de grupo de pixéis préseleccionados. Uma alternativa é subdividir a imagem num conjunto de regiões arbitrárias e disjuntas. Esta técnica é chamada de divisão de região – splitting Para uma imagem quadrada, uma abordagem para a segmentação é subdividi-la em quadrantes cada vez menores de modo que para qualquer região todos os pixéis tenham em comum um determinado critério. Quando o critério for falso para qualquer quadrante ele é subdivido em sub-quadrantes. Se apenas a divisão (subdivisão) for usada, a partição final poderá conter regiões adjacentes com propriedades idênticas. Este problema poderá ser contornado se permitirmos a fusão das regiões da mesma maneira que a divisão [12]. 31 Segmentação de Estruturas em Imagens da Cavidade Pélvica da Mulher A combinação da divisão com agrupamento de regiões, também conhecida como splitting-and-merging, utiliza simultaneamente as vantagens dos dois métodos. A técnica baseia-se em considerar, inicialmente, a imagem como um único segmento, dividindo-a em seguida, em quatro sub-regiões, se a região a ser dividida não responder ao critério de homogeneidade dos níveis de cinzento. Após atingir o limite, as regiões vizinhas e similares são agrupadas. A figura 12 exemplifica o método de divisão e agrupamento; neste caso, a imagem é inicialmente dividida em quatro partes. Fig. 12 - União e divisão de imagens (retirado de [4]). Um outro método que também utiliza a técnica de crescimento de regiões – region growing é a transformada de watershed. 4.2.8 Transformada de watershed Um algoritmo de segmentação muito utilizado é o watershed. Este algoritmo assume que a imagem é uma superfície topográfica, considera a altitude do relevo directamente proporcional ao nível de cinzento do pixel. Imaginando que uma gota de água cai nessa superfície, de acordo com a lei da gravidade, esta irá cair pelo declive até atingir o ponto mínimo. O conjunto de pontos da superfície cujos caminhos de declives mais íngremes atingem um determinado mínimo constitui uma bacia de retenção associada a esse mínimo. As watersheds, ou linhas divisórias da água, são as zonas que dividem as bacias de retenção adjacentes, [4].Isto é ilustrado na figura 13. 32 Segmentação de Estruturas em Imagens da Cavidade Pélvica da Mulher Fig. 13 – Representação de um relevo em tonalidades de cinzento (retirado de [12]). A transformada watershed é então uma poderosa ferramenta para segmentação se a imagem de entrada f(x,y) for modificada de modo a ter mínimos internos aos objectos segmentados. 4.2.9 Segmentação baseada em orlas (edge-based) Uma orla, borda ou fronteira, é o limite entre duas regiões com propriedades relativamente distintas de nível de cinzento. Os algoritmos de detecção de orlas partem do pressuposto que as regiões de uma imagem são suficientemente homogéneas para a transição entre duas regiões possa ser determinada com base na variação dos níveis de cinzento. A ideia base da maioria das técnicas para a detecção de orlas de intensidade é a que a fronteira dos objectos de uma imagem é definida pelo gradiente da imagem. O gradiente é definido como uma aproximação da primeira derivada da imagem. Para uma dada imagem f(x,y), a magnitude do gradiente pode ser calculada como: G = [G 2 x +G 2 y ]= ⎡⎛ ∂f ⎞ 2 ⎛ ∂f ⎞ 2 ⎤ ⎢⎜ ⎟ + ⎜⎜ ⎟⎟ ⎥ ⎢⎣⎝ ∂x ⎠ ⎝ ∂y ⎠ ⎥⎦ 33 Eq. 5 Segmentação de Estruturas em Imagens da Cavidade Pélvica da Mulher e a direcção do gradiente Φ como: ⎛ Gy D = tan −1 ⎜⎜ ⎝ Gx ⎞ ⎟⎟ ⎠ Eq. 6 onde, Gx e Gy são gradientes na direcção x e y, respectivamente. Esta técnica de detecção de fronteira ou orlas é muito sensível ao ruído presente na imagem original e com imagens suavizadas poderá levar à detecção incorrecta das orlas. Uma outra limitação da segmentação por detecção de orlas é o facto usualmente de não gerar contornos fechados. Descontinuidades obtidas devem ser frequentemente analisadas e preenchidas de forma a obter-se curvas fechadas, [4,11]. 4.2.10 - Contornos Activos Os contornos activos, usualmente designados por snakes, são os modelos deformáveis 2D mais comuns. A seguir descrever-se-ão alguns métodos de segmentação baseada em contornos activos, [13]. 4.2.10.1 Modelos Deformáveis O elevado número de aplicações dos modelos deformáveis na área da imagem médica é, sem dúvida, responsável por uma elevada percentagem do trabalho desenvolvido no âmbito dos corpos deformáveis, [13] Modelos deformáveis bidimensionais e tridimensionais têm vindo a ser utilizados para segmentar, visualizar, seguir e quantificar, uma variedade de estruturas anatómicas que vão desde a escala macroscópica até à microscópica. Os fundamentos matemáticos dos modelos deformáveis representam a confluência da geometria, da física e da teoria da aproximação. A geometria serve para apresentar a forma do objecto, a física impõe restrições ao modo como esta pode variar no espaço e no tempo, e a teoria da aproximação óptima justifica formalmente o mecanismo para ajustar os modelos aos dados. 34 Segmentação de Estruturas em Imagens da Cavidade Pélvica da Mulher Estes modelos geométricos, contínuos e interligados, consideram a fronteira de um objecto como um todo e podem utilizar conhecimento existente a priori sobre a forma do mesmo para restringir o problema da segmentação. Entre as várias utilizações dos modelos deformáveis em análise de imagem médica destacam-se os modelos de contorno deformáveis através de snakes, para segmentar estruturas em imagens 2D, [13] 4.2.10.2 Modelos Deformáveis – Snakes A aplicação de snakes é uma metodologia que utiliza modelos de contornos deformáveis para extrair as regiões de interesse. Não é, contudo, isenta de limitações. As snakes foram desenvolvidas como modelos interactivos e, em aplicações não interactivas, devem ser inicializadas próximas à estrutura desejada de forma a garantir-se um bom desempenho, [13]. Desde que estabilizadas de forma adequada, as snakes podem ser utilizadas para estabelecer a correspondência entre contornos em imagens diferentes e também podem ser utilizadas no seguimento de objectos deformáveis em sequências de imagens, [13]. 4.2.10.3 Modelos Deformáveis – Snakes: Por minimização de energia Geometricamente, uma snake é um contorno paramétrico definido no plano da imagem ( x, y ) ∈ R 2 que pode ser representado como υ ( s ) = ( x( s ), y ( s ))T , onde x e y são as funções de coordenadas e s ∈ [0,1] é o domínio paramétrico. A forma do contorno sujeito a uma imagem f(x,y) é ditada pelo funcional: ε (υ ) = S (υ ) + P(υ ) Eq. 7 O funcional pode ser interpretado como a representação da energia do contorno - ε (υ ) - e a forma final do contorno corresponde ao mínimo dessa energia. O primeiro termo no funcional é a energia de deformação interna: 2 ∂υ ∂ 2υ S (υ ) = ∫ ω1 ( s) + ω2 ( s) 2 ds ∂s ∂s 0 1 35 Eq. 8 Segmentação de Estruturas em Imagens da Cavidade Pélvica da Mulher Esta energia caracteriza a deformação de um contorno flexível e elástico. Duas funções definem as características físicas simuladas do contorno: ω1 ( s ) controla a tensão do contorno, enquanto ω 2 ( s ) controla a sua rigidez. O segundo termo da equação 7 atrai a snake para o objecto desejado da imagem. Tradicionalmente este termo é representado da seguinte forma 1 P (υ ) = ∫ ∏(υ ( s ))ds Eq. 9 0 onde ∏(υ ( s)) significa uma função potencial escalar a definir no plano da imagem. Para aplicar snakes em imagens, potenciais externos são definidos de maneira a que os seus mínimos locais coincidam com extremos de intensidade, orlas ou outras características com interesse na imagem. Por exemplo, o contorno será atraído para orlas de intensidade numa imagem f(x,y) por escolha de um potencial ∏ ( x, y ) = −c ∇[Gσ * f ( x, y ) ] onde c controla a magnitude do potencial, ∇ é o operador de gradiente e Gσ * f significa a convolução da imagem original com um filtro de suavização (gaussiano), cujo desvio padrão σ controla a extensão espacial do mínimo espacial do mínimo local de ∏ . De acordo com o cálculo de variações, o contorno υ (s) que minimiza ε (υ ) deve satisfazer a equação de Euler-Lagrange: − ∂ ⎛ ∂υ ⎞ ∂ 2 ⎜ ω1 ⎟+ ∂s ⎝ ∂s ⎠ ∂s 2 ⎛ ∂ 2υ ⎞ ⎜⎜ ω 2 2 ⎟⎟ + ∇ ∏ (υ ( s )) = 0 ⎝ ∂s ⎠ Eq. 10 esta equação diferencial parcial expressa o balanço das forças internas e externas quando o contorno atinge o equilíbrio, [13]. 4.2.10.4 Modelos deformáveis dinâmicos Apesar de ser natural interpretar a minimização da energia como um problema estático, uma abordagem interessante para determinar o mínimo local de um funcional como o da equação 7 é construir um sistema dinâmico 36 Segmentação de Estruturas em Imagens da Cavidade Pélvica da Mulher governado pelo funcional que permita que o sistema evolua para o equilíbrio. O sistema pode ser construído aplicando-se os princípios da mecânica lagrangiana, obtendo-se modelos deformáveis dinâmicos que unificam as descrições da forma e do movimento, permitindo assim a possibilidade de quantificar não só formas estáticas mas também a evolução de uma forma ao longo do tempo. Os modelos dinâmicos exibem comportamento com significado intuitivamente físico, o que torna as suas evoluções apropriadas para interagirem com um utilizador, [13]. Um exemplo simples é uma snake dinâmica que pode ser representada pela introdução de um contorno variante no tempo υ ( s, t ) = ( x ( s, t ), y ( s, t ))T com densidades de massa μ (s) e de amortecimento γ (s) . As equações de movimento de Lagrange para uma snake com energia interna dada pela equação 8 e energia externa dada pela equação 9 é, [13]: μ ∂ 2υ ∂υ ∂ ⎛ ∂υ ⎞ ∂ 2 − ⎜ ω1 * γ ⎟+ ∂t ∂s ⎝ ∂s ⎠ ∂s 2 ∂t 2 ⎛ ∂ 2υ ⎞ ⎜⎜ ω 2 2 ⎟⎟ = − Δ ∏ (υ ( s, t )) ⎝ ∂s ⎠ Eq. 11 Os dois primeiros termos do lado esquerdo desta equação diferencial parcial representam as forças de inércia e de amortecimento; os termos remanescentes representam as forças internas de estiramento e de flexão, enquanto o lado direito representa as forças externas. O equilíbrio é obtido quando o somatório das forças internas e externas é nulo e o contorno atinge o repouso ∂υ ∂t = ∂ 2υ ∂t 2 = 0 a que corresponde a condição de equilíbrio da equação 10, [13]. 4.2.10.5 Discretização e simulação numérica De maneira a determinar-se numericamente uma solução de energia mínima é necessário discretizar a função de energia ε(v). A abordagem usual é representar o modelo geométrico contínuo ν em termos de combinações lineares de funções de base com suporte local ou com suporte global. O modelo contínuo v(s) é representado de forma discreta por um vector {u} para 37 Segmentação de Estruturas em Imagens da Cavidade Pélvica da Mulher os parâmetros da forma associados com as funções de base. A forma discreta da energia ε(v) da snake pode ser escrita como: E (u ) = 1 T {u} [K ]{u}+ P({u}) 2 Eq. 12 onde [K] é a matriz de rigidez e R({u}) é a versão discretizada do potencial externo, [13]. A solução para o mínimo de energia resulta fixando o gradiente da equação 12 igual a 0; tal é equivalente a resolver o sistema de equações algébricas: [ k ]{u} = −∇{P} = { f } Eq. 13 onde { f } é o vector de forças externas generalizadas, [13]. A versão discreta das equações dinâmicas Lagrangianas dadas pela equação 11 pode ser escrita por um conjunto de equações às diferenças ordinárias de segunda ordem em ⎧ .. ⎫ ⎧ .. ⎫ [ M ]⎨u ⎬ + [c]⎨u ⎬ + K {u} = { f } ⎩ ⎭ ⎩ ⎭ Eq. 14 onde [M] é a matriz de massa e [C] é a matriz de amortecimento. As derivadas em ordem ao tempo na equação 11 são aproximadas por diferenças finitas e métodos explícitos ou implícitos de integração temporal são utilizados para simular o sistema ordinário de equações diferenciais resultante, em termos dos parâmetros da forma {u}, [13]. 4.2.11 – Modelos deformáveis probabilísticos Uma abordagem alternativa para os modelos deformáveis deriva da resolução do processo de ajuste do modelo utilizando métodos probabilísticos. Tal permite a incorporação de características conhecidas a priori em termos de distribuições probabilísticas. Esta metodologia probabilística também possibilita 38 Segmentação de Estruturas em Imagens da Cavidade Pélvica da Mulher uma medida da incerteza dos parâmetros estimados para a forma depois do ajuste do modelo aos dados da imagem, [13]. Seja u a representar os parâmetros da forma do modelo deformável com uma probabilidade a priori p(u) nos seus parâmetros. Seja p(f\ u) o modelo de sensor de imagem – a probabilidade de produzir uma imagem f dado um modelo u . O teorema de Bayes: p(u \ f ) = p ( f \ u ) p (u ) p( f ) Eq. 15 expressa a probabilidade a posteriori p(u\f) de um modelo dada a imagem, em termos do modelo da imagem e das probabilidades a priori do modelo e da imagem, [13]. 4.3 Conclusão O desenvolvimento deste capítulo teve como objectivo analisar metodologias de segmentação automática ou semiautomática de imagens médicas. Foram descritos alguns métodos e algoritmos para esse efeito. 39 Segmentação de Estruturas em Imagens da Cavidade Pélvica da Mulher Capitulo V Ferramentas Desenvolvimento e Linguagens de Programação 40 Segmentação de Estruturas em Imagens da Cavidade Pélvica da Mulher 5. Ferramentas Desenvolvimento e Linguagens de Programação O MATLAB® pode ser usado como uma linguagem de programação ou como uma ferramenta de cálculo interactiva. Em ambos os casos, o ambiente MATLAB permite realização de cálculos, visualização de resultados e desenvolvimento de algoritmos usando uma sintaxe muito próxima da notação matemática standard, [5]. Por isso, será a ferramenta preferencial a utilizar durante a fase de desenvolvimento e testes deste projecto. O C++ é uma linguagem de programação de alto nível que poderá ser também uma ferramenta de desenvolvimento deste projecto, pois durante a fase de pesquisa, verificou-se que muitos investigadores que têm trabalhado nesta área têm adoptado esta linguagem de programação. Esta escolha poderá dever-se a velocidade de processamento das imagens entre uma e outra ferramenta, ficando o MATLAB claramente a perder neste aspecto de comparação com o C++ mas ganhando claramente no que diz respeito à facilidade de utilização. Durante a fase de pesquisa que envolveu esta fase inicial do projecto foram encontradas algumas bibliotecas de programação utilizadas em MATLAB e C++ para processamento de imagem, tais como: • Biblioteca 1 – OpenCV [12]: biblioteca de funções em C++ que implementam alguns dos algoritmos mais usuais no domínio da Visão Computacional; • Biblioteca 2 – Peter’s Matlab Functions for Computer Vision and Image Analysis [10]: pacote de funções em Matlab de Visão 3D e processamento e análise de imagens; • Biblioteca 3 – Torr’s Matlab Toolkit [11]: com uma interface gráfica em Matlab, utiliza a técnica SFM entre duas imagens; 41 Segmentação de Estruturas em Imagens da Cavidade Pélvica da Mulher • Biblioteca 4 – Depth Discontinuities by Pixel-to-Pixel Stereo [17]: programa em C, que retorna os mapas descontinuidades entre duas imagens rectificadas. 42 de disparidade e Segmentação de Estruturas em Imagens da Cavidade Pélvica da Mulher Capítulo VI Conclusões e Perspectivas Futuras 43 Segmentação de Estruturas em Imagens da Cavidade Pélvica da Mulher 6.Conclusões A disciplina de Monografia teve como principal objectivo, adquirir conhecimentos de base teórica e conhecer o estado da arte no que diz respeito ao tema de segmentação de imagem, de forma a se poder iniciar a Dissertação em causa. Para tal, efectuou-se uma pesquisa bibliográfica inicial sobre metodologias computacionais de segmentação de estruturas representadas em imagens médicas, estudou-se as estruturas anatómicas presentes nas imagens da cavidade pélvica feminina e também se seleccionou a(s) plataforma(s) computaciona(is) a utilizar para implementar as metodologias a desenvolver. As próximas etapas deste projecto irão concentrar-se na selecção experimentação de alguns métodos descritos na literatura. Contudo, houve dois artigos que despertaram especial atenção e que poderão servir como ponto de partida para este projecto, que foram: • Betrouni N., Vermandel M., A framework for 3D reconstruction of human organs from MR images: a model and fuzzy set principles based approach. Application to prostate segmentation and reconstruction. • Juliana Fernandes Camapum, Alzenir O.Silva, Alan N. Freitas, Hansenclever de F. Bassani, Flávia Mendes O.Freitas; Segmentation of Clinical Structures from Images of the Human Pelvic Área; Computer Society. Para o futuro (ano lectivo 2008/2009) irá desenvolver-se e implementar-se metodologias computacionais de segmentação automática apresentadas nesta Monografia e aplicá-las a imagens da cavidade pélvica da mulher de modo a segmentar as estruturas anatómicas presentes. 44 Segmentação de Estruturas em Imagens da Cavidade Pélvica da Mulher Bibliografia [1] – Mudry K., Plonsey R., Bronzino J.; Biomedical Imaging; CRC PRESS,, 2003. [2] – N. Perdigão, João Manuel R.S.Tavares, J.A.C.Martins, E.B.Pires, R.M.N. Jorge; Sobre a Geração de Malhas Tridimensionais Para Fins Computacionais - Congreso de Métodos Numéricos en Ingenieria. [3] – Alexandre F., Jorge R.N, Tavares J; Segmentação e construção 3D de estruturas em imagens médicas: Comparação entre uma metodologia “automática” e outra “manual”. [4] - R. C. Gonzalez and R. E. Woods, Digital Image Processing. Prentice Hall, second edition, 2001. [5] – Crespo X.,Currel N.,Currel C.;Grande Enciclopédia das Ciências – Anatomia; EDICLUBE, 1998. [6] - http://pt.wikipedia.org/wiki/F%C3%ADsica_m%C3%A9dica (Data de acesso:11/7/2008). [7] - http://pt.wikipedia.org/wiki/Medicina_nuclear (Data de acesso:11/7/2008). [8] - http://pt.wikipedia.org/wiki/Radiologia (Data de acesso:11/7/2008). [9] - http://pt.wikipedia.org/wiki/Imagem_digital (Data de acesso:11/7/2008). [10] - http://pt.wikipedia.org/wiki/DICOM (Data de acesso:11/7/2008). [11] - I. N. Bankman, Handbook of Medical Imaging-Processing and Analysis. Academic Press, 2000. 45 Segmentação de Estruturas em Imagens da Cavidade Pélvica da Mulher [12] – Juliana Fernandes Camapum, Alzenir O.Silva, Alan N. Freitas, Hansenclever de F. Bassani, Flávia Mendes O.Freitas; Segmentation of Clinical Structures from Images of the Human Pelvic Área; Computer Society, . [13] – João Tavares, Tese Doutoramento: Análise de Movimento de Corpos Deformáveis usando Visão Computacional, Faculdade Engenharia Universidade do Porto, Julho 2000. 46