Vygotsky Desenvolvimento Mental

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Vygotsky: desenvolvimento mental
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Teoria do desenvolvimento mental e problemas da
educação
Fonte: El texto que sigue se publicó originalmente en Perspectivas: revista trimestral de educación
comparada (París, UNESCO: Oficina Internacional de Educación), vol. XXIV, nos 3-4, 1994,
págs. 773-799.
©UNESO: Oficina Internacional de Educación, 1999
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Tradução e resumo: Vera Lúcia Camara Zacharias
Se fosse necessário definir o caráter específico da teoria de Vygotsky mediante uma série de
palavras chaves, seria preciso que fossem mencionadas ao menos as seguintes: sociabilidade do
homem, interação social, signo e instrumento, cultura, história e funções mentais superiores. E,
se fosse necessário organizar essas palavras em uma única expressão, poderíamos dizer que a
teoria de Vygotsky é uma "teoria sócio-histórico-cultural do desenvolvimento das funções
mentais superiores", ainda que ela seja mais conhecida com o nome de "teoria históricocultural".
Para
Vygotsky
o
ser
humano
se
caracteriza
por
uma
sociabilidade primária. Henri Wallon expressa a mesma idéia de
modo mais categórico: "Ele (o indivíduo) é geneticamente
social". (Wallon, 1959)
Na época de Vygotsky este princípio não passava de um
postulado,
uma
hipótese
puramente
teórica.
Porém,
atualmente, pode-se afirmar que a tese de uma sociabilidade
primária, e, em parte, geneticamente determinada, possui
quase
um
estatuto
de
fato
científico
estabelecido
como
resultado da convergência de duas correntes de investigação:
por um lado, as investigações biológicas, como as relativas ao
papel que desempenha a sociabilidade na antroprogênese; por outro lado, as recentes
investigações empíricas sobre o desenvolvimento social da primeira infância que demonstram
amplamente a tese de uma sociabilidade primária e precoce.
A sociabilidade da criança é o ponto de partida das interações sociais com o meio que o
rodeia. Os problemas de interesse da psicologia da interação social são atualmente bastante
conhecidos e, por esse motivo, nos limitaremos aqui a mencionar brevemente algumas
particularidades da concepção de Vygotsky. Por origem e por natureza o ser humano não pode
existir nem experimentar o desenvolvimento próprio de sua espécie como uma ilha isolada, tem
necessariamente seu prolongamento nos demais; de modo isolado não é um ser completo.
Para o desenvolvimento da criança principalmente na primeira infância, o que se
reveste de importância primordial são as interações assimétricas, isto é, as interações com os
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adultos portadores de todas as mensagens da cultura. Nesse tipo de interação o papel
essencial corresponde aos signos, aos diferentes sistemas semióticos, que, do ponto de vista
genético, tem primeiro uma função de comunicação e logo uma função individual: começam a
ser utilizados como instrumentos de organização e de controle do comportamento individual.
Este é precisamente o elemento fundamental da concepção que Vygotsky tem da
interação social: no processo de desenvolvimento desempenha um papel formador e
construtor.
Isso significa simplesmente que algumas das categorias de funções mentais superiores
(atenção voluntária, memória lógica, pensamento verbal e conceitual, emoções complexas, etc.)
não poderiam surgir e constituir-se no processo do desenvolvimento sem a contribuição
construtora das interações sociais.
Conclusões importantes para a educação
Em primeiro lugar, nos encontramos ante uma solução original do problema da relação entre
desenvolvimento e aprendizagem: inclusive quanto se trata de uma função em grande parte
determinada pela herança (como ocorre com a linguagem), a contribuição do meio social (isto é
da aprendizagem) prossegue tendo um caráter construtor e, portanto, não se reduz unicamente
ao papel de ativador, como no caso do instinto, nem tão pouco a de estímulo ao
desenvolvimento que se limita a acelerar ou retardar as formas de comportamento que
aparecem sem ele.
A contribuição da aprendizagem consiste no fato de colocar à disposição do indivíduo um
poderoso instrumento: a língua. No processo de aquisição este instrumento se converte em uma
parte integrante das estruturas psíquicas do indivíduo (a evolução da linguagem). Porém, existe
algo mais: as novas aquisições (a linguagem), de origem social, operam em interação com
outras funções mentais, por exemplo, o pensamento. Deste encontro nascem funções novas,
como o pensamento verbal.
Neste ponto nos encontramos com uma tese de Vygotsky que ainda não tem sido
suficientemente assimilada e utilizada nas pesquisas, nem sequer na psicologia atual. O
fundamental
no
desenvolvimento
não
constitui
no
progresso
de
cada
função
considerada em separado, mas sim, na mudança das relações entre as diferentes
funções, tais como a memória lógica, o pensamento verbal, etc..., isto quer dizer, o
desenvolvimento consiste na formação de funções compostas, de sistemas de funções,
de funções sistemáticas e de sistemas funcionais.
A análise de Vygotsky sob as relações entre desenvolvimento e aprendizagem no que respeita
à aquisição da linguagem nos leva a definir o primeiro modelo de desenvolvimento nestes
termos: em um processo natural de desenvolvimento, a aprendizagem se apresenta como um
meio que fortalece esse processo natural, coloca à sua disposição os instrumentos criados pela
cultura que ampliam as possibilidades naturais do indivíduo e reestruturam suas funções
mentais.
O papel dos adultos, enquanto representantes da cultura no processo de aquisição da
linguagem pela criança e de apropriação de uma parte a cultura ( a língua), nos leva a
descrever um novo tipo de interação que desempenha um papel determinante na teoria de
Vygotsky. Com efeito, além da interação social, há nesta teoria uma interação com os produtos
da cultura. Esses tipos de interação manifestam-se em forma de interação sóciocultural.
No conjunto das aquisições da cultura, ele centra sua análise naquelas que têm por objeto
controlar os processos mentais e comportamentos do homem. Se trata dos diferentes
instrumentos e técnicas (inclusive tecnologias) que o homem assimila e orienta face a si mesmo
para influir em suas próprias funções mentais. Deste modo é criado um sistema gigantesco de "
estímulos artificiais e exteriores" mediante os quais o homem domina seus próprios estados
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interiores. A cultura cria um número cada vez maior de poderosos auxiliares externos
(instrumentos, aparatos, tecnologias) que apóiam os processos psicológicos.
Além dos auxiliares externos, existem os instrumentos psicológicos contidos nas obras
culturais que podemos interiorizar. Tratam-se dos sistemas semióticos, procedimentos e
técnicas conceituais dos meios de comunicação, operações e estruturas de caráter intelectual
que se dão em todas as aquisições da cultura.
Esse enfoque pode ser explicado mediante o exemplo de um instrumento tal como a língua
escrita. A língua escrita e a cultura livresca mudam profundamente os modos de funcionamento
da percepção, da memória e do pensamento. Ao apropriar-se da língua escrita o indivíduo se
apropria das técnicas oferecidas por sua cultura, e que, a partir deste momento, se tornam
"técnicas interiores" ( Vygotsky utiliza aqui a expressão de Claparède).
Desta maneira, um instrumento cultural se instalada no indivíduo e se converte em um
instrumento individual privado.
No miolo destas investigações se encontra a aquisição dos sistemas de conceitos científicos, a
mais importante durante o período escolar. Segundo a concepção de Vygotsky o sistema de
conceitos científicos constitui um instrumento cultural portador, por sua vez, de mensagens
profundas e, ao assimilá-lo, a criança modifica profundamente seu modo de pensar.
O processo de aquisição dos sistemas de conceitos científicos é possível através da educação
sistemática de tipo escolar. A contribuição da educação organizada e sistemática é, neste ponto,
fundamental em comparação com a aquisição da linguagem oral, em que a aprendizagem
desempenha um papel construtor mas que somente requer a presença de adultos que possuam
a língua na qualidade de participantes das atividades comuns.
Fala-se neste caso de um segundo modelo de desenvolvimento. Vygotsky o denomina
"desenvolvimento artificial": "Se pode definir a educação como o desenvolvimento artificial da
criança [...] A educação não se limita somente ao fato de exercer uma influência nos processos
de
desenvolvimento,
já
que
reestrutura
de
modo
fundamental
todas
as
funções
do
comportamento". (Vygotsky, 1982-1984, vol.I, p. 107).
O essencial é que a educação se converte em desenvolvimento, enquanto no primeiro modelo
não era mais que o meio de fortalecer o processo natural; aqui, a educação constitui uma fonte
relativamente independente do desenvolvimento.
A análise deste segundo modelo de desenvolvimento, denominado "desenvolvimento
artificial", cujo exemplo característico é o processo de aquisição de sistemas de conceitos, levou
Vygotsky a descobrir a dimensão metacognitiva do desenvolvimento. Com efeito, a aquisição de
conhecimentos baseados em tal grau de generalização, a interdependência dos conceitos dentro
de uma rede de conceitos que permite passar facilmente de um a outro, as operações
intelectuais que podem ser executadas com facilidade e a existência de modelos exteriores da
aplicação destas operações facilitam a tomada de consciência e o controle do indivíduo no que
alude a seus próprios processos cognocitivos.
Assim, ainda na atualidade, a teoria de Vygotsky é a única a oferecer, ao menos em princípio,
a possibilidade de conceituar cientificamente os processos metacognitivos, que permite vincular
esta dimensão do desenvolvimento cognoscitivo em geral e explicar a origem desta capacidade
do indivíduo para controlar seus próprios processos interiores.
Possíveis aplicações da teoria de Vygotsky sobre o desenvolvimento
mental para a pesquisa e a prática pedagógica
Em primeiro lugar esta teoria poderia, pois, ser utilizada com eficácia para melhor
compreender os fenômenos educativos, e sobretudo o papel desempenhado pelo pelo
desenvolvimento para elaborar pesquisas pedagógicas e procurar encontrar aplicações práticas.
Em segundo lugar, graças à teoria de Vygotsky introduziu-se na psicologia contemporânea, de
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modo direto ou indireto, todo um conjunto de novos problemas de investigação empírica que se
revestem da maior importância para a educação: investigações sobre a sociabilidade precoce da
criança que tem contribuído para uma melhor compreensão da primeira infância; as relações
entre as interações sociais e o desenvolvimento cognoscitivo; as atuais investigações sobre a
mediação semiótica, o papel que desempenham os sistemas semióticos no desenvolvimento
mental e desenvolvimento da linguagem; são todas fortemente influenciadas pelas teses de
Vygotsky, entre tantas outras.
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