UMA VIVÊNCIA NO CONTEXTO ESCOLAR

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Relato de Experiência
UMA VIVÊNCIA NO CONTEXTO ESCOLAR – CONTRIBUIÇÕES NA
FORMAÇÃO INICIAL DO PROFESSOR DE MATEMÁTICA
GT 06 – Formação de professores de matemática: práticas, saberes e desenvolvimento
profissional
Tarciane Fátima Muller, UNIJUÍ, [email protected]
Isabel Koltermann Battisti, UNIJUÍ, [email protected]
Resumo: O presente texto se constitui a partir do relato de uma experiência vivenciada em uma
turma da 8ª série do Ensino Fundamental de uma Escola Pública. Os resultados evidenciaram que a
utilização de uma situação problematizadora para se iniciar algum assunto instiga os alunos a
quererem aprender, dessa forma os educandos passam a participar da aula e interagir uns com os
outros e com o professor. Esse método nos mostra que quando o docente busca melhorar sua aula
trazendo novos métodos de ensino/aprendizagem, ele viabiliza aos seus alunos uma nova visão do
que é o ensino da matemática.
Palavras-chave: Resolução de problemas; Ensino da Matemática; Professor.
Introdução
No Curso de Matemática Licenciatura trabalha-se com as disciplinas de práticas de
ensino, as teóricas que tratam de conceitos específicos de matemática entre outras de
formação geral, que são um amplo espaço para os acadêmicos conversarem, trocarem
idéias, experiências, planejarem suas aulas, analisarem os Documentos Oficiais, e assim
discutirem quais são as melhores formas de se apresentar algum assunto, enfim, é o local
onde todos os acadêmicos iniciam sua jornada para serem professores.
A ação na escola, relatada neste artigo foi desenvolvida no componente curricular
de Prática de Ensino IV: Matemática no Ensino Médio, durante o 4º semestre do curso de
Matemática Licenciatura, com uma turma do Ensino Fundamental. Teve por objetivo
contribuir na formação profissional do acadêmico, e prepará-lo para as disciplinas de
estágio, auxiliando dessa forma o planejamento das aulas, a vivência entre o professor, o
aluno e a escola, para que ele conheça os desafios, as dificuldades, e as oportunidades
Relato de Experiência
dessa vivência que se estabelece na escola. A ação foi realizada numa turma da 8ª série, na
Escola Estadual de Educação Básica Leopoldo Ost, de Santo Cristo/RS.
Para apresentar o conteúdo aos educandos, utilizei alguns problemas desafiadores.
Com isso as aulas se tornam mais interessantes e produtivas. Pois a partir dos problemas os
alunos desenvolvem o raciocínio, a criatividade, a autonomia, eles se tornam mais ativos
nas aulas, começam a pensar, refletir e dialogar sobre o que estão fazendo, procurando
assim, encontrar a solução do problema. Dessa maneira, o docente consegue fazer com que
os educandos prestem mais atenção nas aulas, sendo assim, uma aula mais produtiva e
significativa para eles. Segundo o livro PCN, a exploração dos problemas é indicada como
ponto de partida da atividade matemática:
[...] Os parâmetros destacam que a Matemática está presente na
vida de todas as pessoas, em situações em que é preciso, por
exemplo, quantificar, calcular, localizar um objeto no espaço, ler
gráficos e mapas, fazer previsões. Mostram que é fundamental
superar a aprendizagem centrada em procedimentos mecânicos,
indicando a resolução de problemas como ponto de partida da
atividade matemática a ser desenvolvida em sala de aula.
(BRASIL, 1998, pág. 59)
Uma vivência no contexto escolar
No primeiro encontro, após uma breve apresentação, percebi que a classe era muito
diversificada, na turma havia alunos de 14 a 16 anos, uns eram da cidade outros do interior.
Alguns eram mais tímidos, outros mais soltos e outros mais animados. Alguns tinham um
padrão de vida médio, e outros, com padrão de vida baixo. Percebi também que eles me
respeitavam, como se eu fosse uma nova professora para eles.
Depois dessa apresentação, iniciei os estudos envolvendo a Trigonometria no
Triângulo Retângulo, apresentando aos educandos uma situação-problema, onde instigava
os alunos a pensarem, refletirem, dialogarem e raciocinarem, e com a minha ajuda
conseguirem resolver o referido problema.
O Quadro um apresenta um dos problemas trabalhado com os alunos durante os
encontros.
Relato de Experiência
1.Uma escada medindo 3 m precisa fazer um ângulo de 40° com a parede para que não
escorregue. A que distância o pé da escada precisa ficar da parede, para que a escada
permaneça parada?
Quadro 1: Problema um apresentado aos alunos
Fonte: Andrini (2002, p. 209).
Para resolver esse problema, primeiro os alunos construíram a figura ilustrando os
dados do problema, facilitando a compreensão do mesmo. E em seguida, os educandos
calcularam o valor do seno de 40° que não estava especificado no enunciado da questão.
Para isso, eles utilizaram o método da semelhança entre os triângulos. E após calcularem o
valor do seno, os alunos calcularam a distância que o pé da escapa precisaria ficar da
parede.
Percebi nesse momento, que eles não eram acostumados a terem que buscar achar a
solução do problema, pois eles muitas vezes durante essa atividade me pediam para
resolvê-la para eles, pois eles não sabiam como fazê-la. Mas mesmo assim, busquei sempre
entusiasmá-los para buscarem a solução, dizendo que a dificuldade deles não estava no
problema, pois ele era muito fácil, mas na falta de atenção durante a sua leitura e na pouca
motivação em buscar resolvê-lo. Assim aos poucos, eles foram se interessando, me
chamando para tirar suas dúvidas, me questionando sobre por que fazer dessa forma, e
assim eles iniciavam a compreensão do mesmo.
2. Uma madeireira doará pranchas para construir uma rampa com plataforma que será
usada numa apresentação de manobras com mountain bike no clube do bairro. Assim:
Quadro 2: Problema dois apresentado aos alunos
Fonte: Andrini (2002, p. 206)
Relato de Experiência
Nesse problema, os alunos também tiveram que calcular o valor do seno de 37°,
através da semelhança entre triângulos.
Esses exemplos foram retirados do banco de questões do livro Novo Praticando a
Matemática (2002), nos quais podemos observar que o aluno precisa ter a habilidade de
interpretar, raciocinar, bem como os conhecimentos matemáticos necessários para a sua
resolução.
Percebi durante as aulas que os educandos estavam acostumados a receber tudo
pronto sem precisar pensar, raciocinar ou tentar buscar resolver alguma questão. Eles
tinham muita dificuldade em interpretar o problema, não sabiam como poderiam fazer a
figura com o que o problema estava propondo. Alguns conseguiam desenhar a figura e
buscar a solução do problema, outros tentavam e quando não conseguiam chamavam-me, e
outros não estavam muito interessados em fazer o que eu estava propondo.
Também notei que o aprendizado era muito relativo, alguns tinham mais facilidade
em compreender o conteúdo e outros possuíam mais dificuldade nesse aspecto. Mas com
paciência consegui contornar essas dificuldades, e mostrar a eles que não era tão difícil
compreender o que eu estava apresentando a eles.
E no final vi que vale a pena sim investir em uma aula mais produtiva, interessante
e reveladora, e que quando o professor busca novas maneiras de ensinar a matemática, ele
consegue atrair a atenção, o interesse dos educandos pelas suas aulas. E um importante
elemento no processo de ensinar e aprender é a participação dos alunos durante a aula.
Análise reflexiva
Os conceitos foram introduzidos com a resolução de problemas desafiadores, isto é,
primeiro apresentei uma situação-problema, que instigava os alunos a buscar achar essa
solução. Essa situação serviu-me como ponto de partida para iniciar os estudos, conforme
está descrito no PCN de Matemática:
[...] a situação-problema é o ponto de partida da atividade matemática e
não a definição. No processo de ensino e aprendizagem, conceitos, idéias
e métodos matemáticos devem ser abordados mediante a exploração de
Relato de Experiência
problemas, ou seja, de situações em que os alunos precisem desenvolver
algum tipo de estratégia para resolvê-las. (BRASIL, 1998, pág. 40)
A resolução de problemas desenvolve nos alunos a criatividade, a autonomia, o
interesse, a participação, a atenção, o raciocínio, o diálogo, a reflexão e a capacidade de
resolver tais problemas. Essa interação dos alunos uns com os outros favorece a busca de
soluções para os problemas, o respeito que eles possuem com o modo de pensar de seus
colegas e isso faz com que uns aprendam com os outros.
Após essa discussão, foi então que formalizei os conceitos empregados, de forma
que o aluno compreendesse esses assuntos. Isso facilitou a aprendizagem dos alunos e
tornou a aula interessante, pois dessa forma, eles mesmos construíram seu conhecimento a
partir da compreensão do problema proposto. Segundo o livro Lições do Rio Grande, é a
partir da exploração de problemas que o educando de forma autônoma constrói seu
conhecimento:
Diante das situações-problema propostas, abrem-se espaços para que, de
forma autônoma, sejam encontradas estratégias de resolução que
mobilizem a capacidade cognitiva e favoreçam a construção dos conhecimentos. Associados à exploração de situações-problema, o cálculo
mental e as estimativas, visam ao desenvolvimento da capacidade de
decidir sobre a razoabilidade dos resultados e aumentar a compreensão de
procedimentos matemáticos adotados. (RIO GRANDE DO SUL, 2009,
pág. 53)
Também ao término de cada problema, os alunos faziam apontamentos em seu
caderno para que no futuro, se precisassem eles teriam onde procurar. Essas anotações
podiam ser feitas com as suas próprias palavras, do jeito que eles melhor iriam entender se
precisassem retomar esse conteúdo mais tarde. Essa utilização do caderno é muito
importante, pois é nele que os alunos irão rever conceitos trabalhados, e irão estudar no
caso de dúvidas.
Os alunos buscavam resolver as situações propostas, eles dialogavam uns com os
outros, refletiam sobre o que estava se pedindo, pensavam como iriam continuar e
tomavam decisões. Essa capacidade foi potencializada nas nossas aulas e assim, há maiores
possibilidades de o aprendizado acontecer efetivamente. Eles estabeleceram conexões da
matemática com o dia-a-dia deles, tendo dessa forma um maior rendimento escolar.
Relato de Experiência
Essa relação professor/aluno/saber, está focalizada no PCN:
...o aluno é agente da construção do seu conhecimento, pelas conexões
que estabelece com seu conhecimento prévio num contexto de resolução
de problemas. Além de organizador o professor também é facilitador
nesse processo. Não mais aquele que expõe todo o conteúdo aos alunos,
mas aquele que fornece as informações necessárias, que o aluno não tem
condições de obter sozinho... Outra de suas funções é como mediador, ao
promover a análise das propostas dos alunos e sua comparação, ao
disciplinar as condições em que cada aluno pode intervir para expor sua
solução, questionar, contestar. Nesse papel, o professor é responsável por
arrolar os procedimentos empregados e as diferenças encontradas,
promover o debate sobre resultados e métodos, orientar as reformulações
e valorizar as soluções mais adequadas. Ele também decide se é
necessário prosseguir o trabalho de pesquisa de um dado tema ou se é o
momento de elaborar uma síntese, em função das expectativas de
aprendizagem previamente estabelecidas em seu planejamento.
(BRASIL, 1998, pág. 37 e 38)
Algumas Considerações...
A vivência das aulas pode contribuir na formação do ser professor. Trabalhando
com eles, aprendendo com eles e conhecendo e reconhecendo o valor de cada aluno,
percebendo-o na sua singularidade.
E para ser um bom professor, é preciso muita paciência e vontade. Vontade de
buscar melhorar o ambiente escolar, de aperfeiçoar as maneiras de ensino, de buscar se
atualizar continuadamente, de querer fazer o melhor para que os educandos tenham um
ótimo aprendizado.
Muitos elementos constituintes da formação do professor aprendem-se na
universidade com o professore, o que ele fala os estudos e discussões que viabilizam, e até
no relato dos colegas de classe. Outras orientações podemos buscar nos documentos
oficiais, e algumas só será possíveis se aprender na hora em que exercer de fato o ser
professor.
Por isso considero muito importante essa convivência que tive com os alunos, no
trabalho que desenvolvi com eles, nas reflexões realizadas nas e a partir das vivências e na
experiência que adquiri durante esses encontros.
Relato de Experiência
Enfim, gostei muito de desenvolver essa atividade, vi que realmente gosto e quero
ser professora de matemática. Sei também que para isso eu preciso aprender muito, vencer
muitos obstáculos e enfrentar várias barreiras, mas eu sei que vou conseguir.
Referências
ANDRINI, Álvaro; VASCONCELLOS, Maria José. Novo Praticando a Matemática. 1ª.
ed. São Paulo: Editora do Brasil, 2002.
BRASIL. Ministério de Educação e do Desporto. Parâmetros curriculares nacionais:
terceiro e quarto ciclos do ensino fundamental: introdução aos parâmetros curriculares
nacionais. Brasília: MEC/SEF, 1998.
RIO GRANDE DO SUL. Secretaria do Estado do Rio Grande do Sul. Referencial
Curricular, Lições do Rio Grande: Matemática e suas tecnologias. RS, 2009.
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