Representações Sociais: o conceito e o estado atual da teoria (Sá

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REPRESENTAÇÕES SOCIAIS
Oliveira, F. O. de e Werba, G. C. Representações sociais. In Strey,M. N. Psicologia Social Contemporânea, pg. 10417.
Sá, C. P. Representações Sociais: O Conceito e o Estado Atual da Teoria. In Spink, M.J. O Conhecimento no
Cotidiano. cap. 1, pp.19-45.
- Como estudar aspectos como ideologia, consciência e alienação no âmbito do indivíduo e dos grupos?
‘Representações Sociais’ (RS) designa tanto um conjunto de fenômenos quanto o conceito que os engloba e a teria
construído para explicá-los.
1. Como nasceu essa teoria ?
O psicólogo francês Serge Moscovici e o livro ‘A representação social da psicanálise’`(La Psychanalyse, son image
et son public); a população parisiense apropriou-se da psicanálise para que esta servisse a outros usos e funções
sociais. O autor partiu da tradição sociológica do conhecimento para desenvolver uma psicossociologia do
conhecimento. Seu objetivo era redefinir os problemas e os conceitos da psicologia social.
Os fenômenos, o conceito e a teoria das Representações Sociais só podem ser bem apreendidos no contexto de um
tal processo de renovação temática, teórica e metodológica da psicologia social.
A RS como uma importante crítica da natureza individual da psicologia social americana, cognitivista e
individualista, portanto, Psicológica.
Em uma Psicologia Social mais socialmente orientada, portanto, Sociológica, é mais importante tanto os
comportamentos individuais quanto os fatos sociais (instituições e práticas, por exemplo) em sua concretude e
singularidade histórica.
Moscovici apóia-se no conceito de Representações Coletivas de Durkheim, para quem qualquer tentativa de
explicação psicológica dos fatos sociais constituiria um erro grosseiro.Procurar entender os fenômenos (religião,
mitos, ciência, espaço-tempo)
As Representações Coletivas são produto de uma imensa cooperação que se estende não apenas no espaço, mas
no tempo; para fazê-las, uma multidão de espíritos diversos associaram, misturaram, combinaram suas idéias e
sentimentos; longas séries de gerações acumularam aqui sua experiência e saber, (Durkheim)
Características básicas das Representações Coletivas: autonomia, exterioridade, coercitividade.
Diferença entre as Representações Coletivas e Representações Sociais:
“As representações em que estou interessado não são as de sociedades primitivas, nem as reminiscências, no
subsolo de nossa cultura, de épocas remotas. São aquelas da nossa sociedade presente, do nosso solo político,
científico e humano, que nem sempre tiveram tempo suficiente para permitir a sedimentação que as tornasse
tradições imutáveis.” (Moscovici)
As RS são típicas de culturas modernas, espalham-se rapidamente por toda a população, possuem curto período de
vida, são parecidos com os ‘modismos’ e se comparam a epidemia (saúde/doença, terapêuticas alternativas,
ecologia, política/economia, cidades/bairros, as classes das pessoas [cr/ad, jov/vel, masc/fem, paul/bai,
cas/desc/solt]).
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RS: processo cognitivo de apreensão e organização da realidade, com origem, função e manifestação social.
“Teorias” de senso comum que visam construir a realidade social, tornando-a familiar, comum, previsível.
RS como uma ‘modalidade específica de conhecimento que tem por função a elaboração de comportamentos e a
comunicação entre indivíduos’, no quadro da vida cotidiana.
Os ‘conjuntos de conceitos, afirmações e explicações’, que são as Representações Sociais, devem ser
considerados como verdadeiras ‘teorias’ do senso comum, ‘ciências coletivas’, sui generis, pelas quais se procede
à interpretação e mesmo a construção das realidades sociais. “Uma modalidade de conhecimento particular
que tem por função a elaboração de comportamentos e a comunicação entre os indivíduos”.
2. Mas o que são as Representações Sociais?
As RS são teorias sobre saberes populares e do senso comum, elaboradas e partilhadas coletivamente, com a
finalidade de construir e interpretar o real.
As RS são dinâmicas e levam as pessoas a produzirem comportamentos e interações com o meio, as quais
modificam a ambos.
-
Discussão e análise das RS em 3 níveis( De Rosa ):

Fenomenológico: as RS são elementos da realidade social, modos de conhecimento, saberes do senso
comum que surgem e se legitimam na conversa interpessoal diária e têm como objetivo compreender e
controlar a realidade social.

Teórico: conjunto de definições conceituais e metodológicas, constructos, generalizações e proposições
referentes às RS.

Metateórico: debates e refutações críticas com respeito a teoria, comparando-a com outros modelos
teóricos.
O que se vê em funcionamento é uma sociedade pensante ,que pensa pela “arte da conversação”
Na perspectiva psicossociológica de uma sociedade pensante, os indivíduos não são apenas processadores de
informações, nem meros ‘portadores’ de ideologias ou crenças coletivas, mas pensadores ativos que, mediante
inumeráveis episódios cotidianos de interação social, ‘produzem e comunicam incessantemente suas próprias
representações e soluções específicas para as questões que se colocam a si mesmos’. (Sistema de pensamento)
Representar uma coisa (...) não é, com efeito, duplicá-la, repetí-la ou reproduzí-la; é reconstituí-la, retocá-la,
modificar-lhe o texto. A comunicação que se estabelece entre o conceito e a percepção, um penetrando no outro,
transformando a substância concreta comum, cria a impressão de ‘realismo’. (...)
Essas constelações intelectuais uma vez fixadas nos fazem esquecer que são obra nossa, que tiveram um começo
e que terão um fim, que sua existência no exterior leva a marca de uma passagem pelo psiquismo individual e
social.
Estamos lidando com um conhecimento cujo objetivo é criar realidade.
3. Para que estudamos as RS ?
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Para entender o conjunto de códigos culturais que definem, em cada momento histórico, as regras de uma
comunidade e para que se possa compreender e identificar como as RS atuam na motivação das pessoas ao
fazerem determinadas escolhas (comprar, votar, agir), não por razões lógicas, racionais ou cognitivas, mas por
razões simbólicas, afetivas, míticas, religiosas, etc.
4. Porque criamos as RS?
Moscovici: sociedades contemporâneas possuem duas classes de universos de pensamento:
1) Universos consensuais: senso comum; pessoas de igual valor, livres para manifestar opiniões, teorias e
respostas
2) Universos reificados: ciências e teorias “especializadas” (abstração, lógica, verificação, metodologia) 
saber “oficial”; sociedade percebida como um sistema de diferentes papéis e classes, com membros
desiguais.
-
Hoje, os universos reificados são “matéria-prima” dos universos consensuais
RS = figura / significação (em toda figura um sentido, em todo sentido uma figura)
O desconhecido (não familiar, novo)  “necessidade” de transformá-lo em algo familiar o “novo” é submetido ao
peso da memória, tradição e do passado que tenta englobá-lo o “novo”, por sua vez, transforma memória,
tradição e o sentido do passado (“teorias” antigas).
Assim podemos dizer que o propósito de todas as representações é o de transformar algo não familiar em familiar,
ou a própria não familiaridade, em familiar; ou seja, transferir o UR das ciências ao UC do dia a dia, por meio da
mídia
Dois aspectos formadores de uma RS:
 Ancorar: é o processo pelo qual se procura classificar, encontrar um lugar para encaixar o não familiar, o novo,
que muitas vezes é percebido como a meaçador; implica em aplicar juízos de valor, pois o situamos dentro de
uma categoria com dimensão valorativa.
 Como processo que antecede a objetivação  referências prévias às quais o novo é assimilado;
 Como processo posterior à objetivação  função e eficácia social da RS construída (seu uso no dia-a-dia como
forma de categorizar, explicar, orientar, justificar, etc., os atos e pensamentos de um grupo).
Resumindo: ancorar é atribuir sentido a uma figura, fato, evento ou comportamento estranhos para torná-los
inteligíveis e familiares (processo de categorização, classificação).
Ex.: o processo de análise dá sentido às questões e sofrimentos, dá sentido ao sintoma enquanto figura; explicar o
comportamento econômico ativo através de uma natural ambição de lucro; explicar a concorrência econômica
através do darwinismo social; ancoragens da AIDS nas idéias de “peste ou câncer gay”
Ancorar: integração cognitiva do objeto ao pré-existente (implica classificação). Redução do novo ao velho e
reelaboração do velho tornando-o novo.
 Objetivar: processo pelo qual as RS "adquirem materialidade e se tornam expressões de uma realidade pensada
como natural” (Vala, 465). Procura-se tornar concreto, visível, uma realidade.
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- Passos:
- a) construção seletiva  descontextualização do objeto;
- b) esquematização  padronização estruturante e construção de um "nó figurativo";
- c) naturalização  conceito (percepção) e realidade tornam-se equivalentes (RS torna-se inquestionável)
Objetivar: integração icônica, formal, figurativa, do objeto ao pré-existente (implica criação)  por vezes, a imagem
concebida passa a confundir-se com o que é percebido. A RS ganha realidade (imagens tornam-se elementos da
realidade, mais do que do pensamento – substituição da realidade pela imagem).
Resumindo: objetivar é dar figura a um sentido, naturalizá-lo (torná-lo uma realidade visível e concreta). Ex.: o
conceito de complexo da psicanálise, para o senso comum ou a idéia de “pai” p/ objetivar uma compreensão de
Deus; (atribuição de “realidade” a um sentido, conceito, idéia, ao não icônico e abstrato).
5. Diferença entre RS e outras teorias:
Behaviorismo: social é dado como pronto e o indivíduo é condicionado;
Psicanálise: ser humano é determinado pelo inconsciente e o social tem menor Importância;
RS: o social é coletivamente edificado e o indivíduo é construído pelo social.
Critérios para que uma representação seja social:
1) Quantitativo: a representação é partilhada por um conjunto de indivíduos.
2) Genético (de gênese): produto das interações e fenômenos de comunicação no interior de um grupo social
3) Funcionalidade: permite a um grupo resolver problemas, dar forma às suas relações, orientar-se.
6. Como investigar as RS? Não existe uma metodologia exclusiva para investigar as RS.
Grupos Focais: entrevistas que se fundamentam na interação desenvolvida dentro de um grupo, visando produzir
dados e insights; pode-se discutir um tema com 3 ou 4 grupos, constituídos de 4 a 12 membros (ideal é de 6 a 8
membros), durante 1 h ou 1 ½ h.
- Análise das RS (referencial metodológico de John B. Thompson)
 Hermenêutica* da vida cotidiana: estudo da importância funcional das RS na organização e orientação do
dia a dia;
 Hermenêutica de profundidade: estudo das origens e transformações dos símbolos das RS dentro de um
grupo focal (estudo da RS em si).
* hermenêutica = compreensão vital
 Tratamento dos dados:
-
Transcrição das entrevistas
-
Leitura do material
-
Categorizar dados, retorno aos objetivos da pesquisa e interpretá-los de acordo com os referenciais teóricos
escolhidos
Estudo empírico: reunião de material simbólico sobre o objeto, pessoa ou tema, no grupo em estudo (grupo focal).
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Meios: entrevista, observação participante, técnicas projetivas, análise de produção cultural, etc.
Ex.: metodologia qualitativa de análise categorial de entrevistas com grupos focais.
Ex.: recentemente, pesquisas da RS da AIDS ligada à morte, em portadores do vírus, e a posterior intervenção em
centros de tratamento e internação, provocaram um crescimento do tempo de vida devido somente à modificação
da RS da AIDS como auxiliar ao tratamento.
- A RS não é reprodução do exterior, mas construção da realidade, uma vez que Moscovici não concebe corte entre
universo exterior e interior ou entre sujeito e objeto (crítica ao paradigma cartesiano, presença do paradigma
hegeliano).
- A teoria das RS alterou o paradigma cognitivista S - O - R, onde a RS aparece como mediadora. Com o primado
das representações, elas passaram a ser constituintes do estímulo e modeladoras da resposta: O - S - O - R.
- Uma vez constituída uma RS, os indivíduos procurarão criar uma realidade que valide as previsões e explicações
decorrentes dessa representação.
- A RS não é um reflexo do objeto, mas um produto do confronto da atividade mental de um sujeito e das relações
complexas que mantém com o objeto (Cf. exemplo da montanha no O que é ideologia, da Chauí).
- O estudo das RS reenvia o indivíduo para suas pertenças sociais, atividades de comunicação, funcionalidade e
eficácia sociais.
- o conceito de RS engloba boa parte dos conceitos da PSO (atitudes, atribuições, opiniões, papéis, etc.) e sua
articulação com conceitos sociológicos e antropológi- cos (ideologia, cultura, valores, hábitos, etc.).
Observações retiradas do texto do Doise:
 “O estudo das representações sociais preconizado por Moscovici necessita que se coloque em relação os
sistemas cognitivos complexos do indivíduo com os meta-sistemas de relações simbólicas que caracterizam
uma sociedade”
 Questão de Moscovici: quais sistemas cotidianos de comunicações característicos de uma sociedade atualizam
ou favorecem quais funcionamentos cognitivos, em quais contextos específicos?
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