tratamento_94

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TRATAMENTO: ASPECTOS GERAIS
Capítulo de livro escrito em 1994 e esgotado.
Sabemos que o AI é uma condição crônica, geralmente severa, que
compromete de maneira significativa e definitiva as áreas da interação
interpessoal, comunicação e comportamento e estas características devem
ser levadas em conta ao se discutir os tratamentos que têm sido propostos.
Esta condição está presente desde idades precoces e marcará, de forma
indelével, seu portador. Já vimos que os sinais e sintomas do AI podem
variar bastante quanto à severidade porém, mesmo naqueles casos menos
comprometidos, não conseguiremos a “cura” do quadro mas, na melhor das
hipóteses a minimização do quadro clinico. Ao discutirmos o tratamento do
AI não devemos permitir que pais sejam ludibriados com a possibilidade de
cura uma vez que sabemos que os casos “curados” descritos, se referem à
melhoras substanciais assinaladas ou então a quadros mal diagnosticados.
Isto não significa que estes indivíduos não devam receber o melhor
tratamento disponível mas é preciso deixar claro que o que se pretende com
o tratamento é fazer com o autista possa ter seu desempenho levado aos
limites de suas potencialidades.
É óbvio que a indicação do tratamento mais adequado dependerá,
inicialmente, de um diagnóstico correto e precoce. Uma vez feito o
diagnóstico de AI teremos que nos ocupar em identificar eventuais prejuízos
associados, pois somente assim poderemos propor um plano de tratamento
que seja o mais completo possível. Os defeitos associados nestas crianças
impõem limitações adicionais entre os mais freqüentes poderíamos citar a
Deficiência Mental, Epilepsia, prejuízos da atenção-concentração com
hiperatividade e várias desordens psiquiátricas.
Conforme já mencionamos, estima-se que 60-70% das crianças com
AI têm Deficiência Mental variando entre leve e severa, 20-35% apresenta
inteligência limítrofe-normal (QI entre 70-100) e menos de 5% tem QI
superior a 100. Mesmo os assim chamados autistas de bom rendimento
apresentam
prejuízos
comportamento.
importantes
na
linguagem/comunicação
e
2
Cerca de 20% dos casos apresenta Epilepsia e em akguns desses casos, fator
que pode dificultar a identificação das manifestações epilépticas é que
poderemos nos deparar com crises parciais complexas, de difícil
reconhecimento num paciente com Deficiência Mental e
distúrbios
comportamentais. As crises de tipo tônico-clônicas, em qualquer idade,
serão de muito mais fácil identificação. Em crianças autistas mais novas,
uma associação relativamente freqüente se faz com à Síndrome dos
Espasmos Infantis com Hipsarritmia (Síndrome de West) qualquer que seja
sua etiologia.
O tratamento da Epilepsia deverá ser feito da mesma forma que em
indivíduos epilépticos não autistas. Deveremos tomar cuidado para não
utilizar medicamentos que possam agravar o comportamento destes
pacientes.
Desordens da comunicação estarão sempre presentes e parece haver uma
certa correlação entre o desenvolvimento de linguagem e as habilidades
cognitivas e sociais da criança. Pacientes com os graus mais severos de
Deficiência Mental e isolamento social tendem a apresentar maior
comprometimento da linguagem. Muito embora várias crianças sejam
levadas, inicialmente ao médico ou psicólogo por um” ätraso da linguagem”
é preciso chamar a atenção para o fato de que crianças autistas não apenas
tem um atraso no desenvolvimento da linguagem como também apresentam
distúrbios evidentes da mesma. A presença de ecolalia, inversão pronominal,
síndrome semântico-pragmática da linguagem e retardos na aquisição da fala
são alguns destes problemas. Nossa experiência demonstra que uma parte
substancial de crianças pequenas com AI pode ser encontrada em clinicas de
fonoaudiologia ou de distúrbios da comunicação, tal a relevância que os
sintomas desta natureza tem em idades mais precoces antes mesmo que
outros aspectos anormais tenham sido observados. Não podemos nos
esquecer da associação frequente e de dificil reconhecimento do AI com
deficiência auditiva.
Distúrbios do comportamento fazem parte integrante do quadro do
AI. Comportamentos repetitivos e estereotipados são comuns e interferem
com as atividades de vida diária destes indivíduos. Auto-agressão pode estar
presente assim como hetero-agressão. Alterações do sono e da alimentação
são frequentes. Algumas crianças apresentam uma seletividade anormal no
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que se refere aos alimentos, podendo alimentar-se, exclusivamente, de um
determinado alimento por meses. Outras demonstram grande dificuldade em
aceitar alimentos sólidos, alimentando-se, então, apenas com refeições
pastosas ou liquidas
Após ter sido realizada cuidadosa avaliação da criança, teremos a
possibilidade de planejar o tratamento que a ela será oferecido.O tratamento
do AI deverá visar, como já deixamos claro, tornar o individuo o mais
independente possivel em todas as areas de atuação. Todas as crianças
afetadas requerem alguma forma especifica de educação e algumas
intervenções comportamentais. Temos visto algumas exceções quanto a
crianças autistas, excepecionalmente bem dotadas e que tem sido capazes de
acompanhar o curriculo normal em escolas normais porem, seguramente,
estes casos representam exceções à regra geral formulada anteriormente’.
Algumas crianças poderão beneficiar-se de um tratamento
medicamentoso porem em nenhuma hipótese esta forma de tratamento será a
única e nem mesmo a mais importante. Não infrequentemente utilizaremos
algum psicofármaco em situações emergenciais e por um periodo limitado
de tempo.
A participação do psicólogo é imprescindível no que se refere ã
avaliação do paciente, à um trabalho de orientação sistemática à família e,
excepcionalmente, num trabalho mais psicoterápico em poucos autistas de
bom rendimento e que demonstrem uma vida interior capáz de se beneficiar
de um trabalho deste tipo., entretanto, não podemos concordar com o
tratamento psicoterapeutico de base analitica na maioria dos portadores de
AI. uma vez que se conhece o prejuizo da linguagem envolvendo a
compreensão literal do discurso, a dificuldade que eles apresentam, em
geral, para a compreensão de metáforas a dificuldade na simbolização,etc.
Pretender que uma criança com este nivel de dificuldade possa entender e
introjetar uma interpretação verbal é, ao menos, ingênuo.
Nas crianças com AI, os objetivos das intervenções educacionais
dependerão, em grande medida, do grau de comprometimento nas várias
áreas de atuação. Nos pacientes com prejuizos cognitivos importantes os
esforços deverão se dirigir, de forma mais específica no sentido de se tentar
aumentar a comunicação e interações sociais, na redução das alterações
comportamentais (estereotipias, hiperatividade,etc) na maximização do
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aprendizado e independencia nas atividades de vida diária. Sabe-se que
crianças autistas repondem melhor, em geral, em classes pequenas e bem
estruturadas. Como já afirmamos acima, o tipo de escola dependerá, de certa
forma, do grau de comprometimento da criança em vários aspectos do
comportamento e cognição. Um tipo de programa educacional que tem sido
utilizado com bons resultados foi elaborado pela Division TEACCH
(Treatment and Education of Autistic and Related CommunicationHandicapped Children) um programa aplicado no Estado da Carolina do
Norte nos Estados Unidos (ver capítulo n° ).
Os prejuizos da comunicação que encontramos nos indivíduos com
AI incluem retardo na aquisição da linguagem, distúrbios na comunicação
não verbal,.defeitos semânticos-pragmáticos, dificuldade para generalização,
etc. Um aspecto particularmente interessante que se pode notar mesmo
naqueles autistas com bom nivel de comunicação verbal refere-se às
alterações na forma e conteúdo do discurso.No que se refere à forma, a fala
pode estar alterada na sua melodia, entonação, altura e timbre. No tocante ao
conteúdo, há uma tendência à verborragia, ao uso de palavras e expressões
pedantes e de uso pouco habitual para a idade da criança. A compreensão
também está comprometida pois a linguagem do interlocutor será apreendida
de forma linear e literal. A criança não conseguirá entender metaforas,
sentidos figurados ou expressões com duplo sentido.Sua fala estará repleta
de frases e palavras repetidas de forma estereotipadas. A terapia da
comunicação deverá trabalhar estes aspectos pragmáticos da linguagem e os
autores tem se utilizado de várias formas de terapias: linguagem falada,
linguagem de sinais , cartões com figuras e equipamentos computadorizados
. Uma técnica que tem sido popularizada, mais recentemente, é a assim
chamada Comunicação Facilitada em que a criança autista se utiliza de um
teclado ou de cartões em que estão reproduzidas as letras do alfabeto para se
expressar com o auxilio de um “facilitador”que segura ou ampara a mão
e/ou o braço do paciente. O valor deste método é, ainda, controverso em
razão da ausência de documentação definitiva a seu favor, da possivel
participação (ainda que inconsciente) do facilitador sobre o resultado final
do que é expresso, da grande variabilidade das habilidades da linguagem de
acordo com diferentes facilitadores e do supreendente nivel de sofisticação
da linguagem de algumas crianças que parece estar em franco desacordo
5
com as habilidades cognitivas préviamente avaliadas. Nos parece que se
deveria evitar a confusão no sentido de que embora
tecnicas de
comunicação
de
alternativas
(datilografia,
linguagem
sinais,
computadores,etc) possam e devam ser utilizadas em autistas com bom
rendimento e que demonstram boas habilidades de leitura e escrita e a
possibilidade, apregoada pelos defensores da “Comunicação Facilitada” de
fazer com que indivíduos sem habilidades de comunicação demonstraveis
até então, pelo uso desta técnica se converteriam em literatos e habeis
comunicaores chegando a produzir textos extremamente elaborados e
complexos. O interessante é que temos visto a técnica ser defendida
utilizando-se, como argumento maior, a leitura de materal obtido com o uso
da
técnica
que
está
sendo
discutida.(
Bettison,1992;
Prior
&
Cummins,1992;Eberlin et al,1993; Hudson,1993; Smith et al,1993 ).
Terapias com base nas técnicas de modificação do comportamento
tem sido amplamente utilizadas e com resultados bastante satisfatórios.
Podem ser empregadas para reforçar habilidades sociais, acadêmicas e
relacionadas à atividades de vida diária. Técnicas comportamentais podem
representar um valioso auxiliar na classe de aulas onde uma tarefa complexa
pode ser quebrada em etapas lógicas facilitando o aprendizado do aluno;
uma série de “dicas”verbais ou físicas poderão ser relacionadas aos estagios
e o aprendizado poderá ser reforçado por recompensas. Métodos
comportamentais também poderão ser utilizados para tentar reduzir
comportamentos indesejáveis que interferem com o funcionamento da
criança. Ignorar comportamentos anormais e recompensar comportamentos
desejáveis pode ser uma forma inespecífica e simples de ajudar a criança.
De acordo com McEachin et al (1993), crianças autistas tratadas de
forma precoce e intensa com técnicas comportamentais podem apresentar
melhoras significativas e persistentes No capítulo n° encontraremos uma
descrição pormenorizada destas técnicas.
Os leitores poderão consultar o capitulo n° onde são apresentadas as
normas gerais e os resultados que podem ser obtidos com o emprego
judicioso de medicamentos psicoativos no tratamento do AI. Desde já seria
importante deixar claro que não dispomos, até o presente momento, de
nenhum medicamento que possa ser considerado específico para o
tratamento desta condição e nenhum dos correntemente utilizados tráz
6
resultados significativos em todos os pacientes. Por outro lado, deveremos
sempre lembrar em conta que o tratamento farmacológico nunca deverá ser
considerado como o tratamento de base, prioritário do AI. Ele poderá ser
utilizado em certos pacientes, em certos periodos, frente a certos
comportamentos que podem responder aos varios medicamentos já
utilizados.
De todos os medicamentos já utilizados no AI, os neurolépticos são,
sem dúvida alguma os mais usuais e destes, o haloperidol, droga antagonista
da dopamina tem sido bastante estudado. Poderia, em alguns casos, facilitar
a interação social, melhorar a atenção e diminuir as estereotipias sem
promover sedação importante. Efeito indesejável é a ocorrência de
discinesia
tardia
em
número
significativo
de
pacientes.
Vários
medicamentks tem sido testados mais recentemente, tais como a
fenfluramina (droga dopaminérgica), naltrexone (antagonista opióide
artificial) (Leboyer et al,1992; Zingarelli et al,1992)), clomipramina
(antidepressivo tricíclico) , a fluoxetina (antidepressivo) (Rickards &
Prendergast, 1992), a clonidina (agente hipotensor, agonista pacial dos
receptores adrenérgicos alfa-2) (Jaselskis et al,19912) e o ORG 2766 (
hormônio adrenocorticotropico sintético) (Buitelar et al,1992) Possíveis
efeitos benéficos tem sido descritos com o emprego de altas doses de
piridoxina (vitamina B6) em associação com magnésio (Kleijnen e
Knipschild,1991; Tolbert et al, 1993) e com altas doses de acido ascórbico
(vitamina C) (Dolske et al,1993).
Levando-se em conta a severidade do quadro do AI, seu aspecto
crônico, a impossibilidade de uma “cura”, o custo dos tratamentos
muldisciplinares e os resultados limitados que podem proporcionar tornam
compreensivel a busca, por parte de vàrias familias das assim chamadas
“Terapias Alternativas” Trata-se de formas não ortodoxas de tratamento,
frequentemente baseadas em pressupostos teóricos duvidosos e que são
apresentadas como tendo obtido resultados satisfatórios ou mesmo
surpreendentes em alguns pacientes. Estas formas de terapias tem sido
utilizadas não somente no AI mas em uma série bastante grande de
condições que podem afetar as crianças tais como Deficiência Mental,
Paralisia
Cerebral,
Distúrbios
do
Aprendizado Escolar, Hiperatividade,etc.
Comportamento,
Distúrbios
do
7
Cabe ao profissional questionado sobre a eficacia destas terapias
mostrar, de modo bastante claro e objetivo o que se conhece a respeito delas
e sua posição frente à sua utilização. É claro que a decisão de seguir um
destes tratamentos caberá aos responsáveis pela criança porém é nossa
obrigação fornecer-lhes todas as informações para que sua decisão se faça
levando em conta todos os dados disponíveis.Apesar de existirem vários
métodos alternativos em uso no presente momento, podemos citar algumas
características que são comuns a todas eles ou à quase todos (Golden, 1984):
1- suas bases teóricas não são totalmente consistentes com os
princípios científicos estabelecidos;
2- são tratamentos liberalmente indicados para uma gama muito
abrangente de distúrbios;
3- são métodos anunciados como “não prejudiciais”;
4- a sua eficácia é divulgada pela midia leiga e não por publicações
especializadas;
5- estudos controlados não confirmam os bons resultados descritos;
6- grupos leigos promovem as terapias de forma entusiástica;
7- os pais que não aceitam os tratamentos são criticados de forma
ostensiva e acusados de negligentes com relação a seus filhos.
Os resultados positivos alardeados baseiam-se, na grande maioria
dos casos em relatos anedóticos ou em estudos abertos, não controlados.
Não são utilizados grupos controle e quase nunca encontramos referência à
insucessos ou maus resultados e quando estes são citados são atribuidos à
família que não estaria “fazendo o bastante”. Não há nenhuma preocupação
em oferecer estatisticas e os bons resultados são apresentados na forma de
relatos de indivíduos que teriam obtido melhoras e que se dispõem a fazer
depoimentos a favor da referida técnica. Os médicos que não aceitam e não
indicam estas terapias, por sua vez, são acusados de radicais, conservadores
e retrógrados. Desta forma confunde-se uma atitude cautelos e crítica com
uma postura intransigente, irracional e arraigada aos tratamentos
tradicionais , impenetrável à metodos inovadores e modernos.
Uma vez que os resultados positivos baseiam-se em
relatos
anedóticos temos que considerar os vários problemas metodológicos
envolvidos quando os resultados são generalizados uma vez que vários
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outros fatores, estranhos à técnica em questão poderão iinfluenciar os
resultados. Um destes aspectos, da maior importância é a história natural da
condição sendo tratada. Sabe-se, por exemplo, que a hiperatividade infantil
tende à melhorar, independentemente de tratamentos, com o passar dos anos
,portanto, ao analisarmos possíveis efeitos de um determinado medicamento
ou de uma técnica de tratamento, teremos que demonstrar que a melhora
obtida foi mais pronunciada ou mais rápida do que teria ocorrido
naturalmente pelo passar do tempo. Sabemos, também que, na enurese
noturna primária, cerca de 10% dos casos se curam a cada ano,
independentemente de tratamento. Desta forma, qualquer método que se
proponha a tratar de forma positiva esta condição terá que mostrar
resultados superiores aos que ocorreriam de qualquer forma. Outro fator que
raramente é considerado quando frente aos resultados positivos de um
determinado método de tratamento é o efeito placebo presente em número
significativo de condições neuropsiquiátricas da infância. Segundo Lynoe
(1990), este efeito estaria presente, em média, em 33% dos casos podendo
chegar, eventualmente, a 95%. Deverá ficar claro ao leitor que quando se
fala na possibilidade de efeito placebo não estamos nos referindo apenas ao
uso de remédios mas a qualquer método de tratamento que poderá induzir
este efeito.
Dos vários tipos de tratamento alternativos disponíveis em nosso
pais, vamos nos limitar aos mais conhecidos e difundidos e os discutiremos
agrupando-os em categorias mais ou menos bem individualizadas.
Vários tratamentos fundamentam-se em modificaçãos dietéticas
sendo bastante conhecida, entre nós, a dieta proposta por Feingold (1975).
Este autor aventou a hipótese de que certos aditivos, sabores artificiais e
corantes usados pela indústria alimentícia levaria à dificuldades do
aprendizado, hiperatividade e outros distúrbios comportamentais em
crianças susceptíveis (Feingold,1975a;Feingold,1975b). Os sintomas seriam
decorrentes de uma sensibilidade geneticamente determinada às substâncias
implicadas e a retirada das mesmas levaria à uma evidente melhora
clinica.Esta dieta foi recebida de forma entusiástica por alguns grupos
porém a maioria dos estudos publicados não demonstrou sua eficiência
(Harley et al,1978;Harley et al,1978;Wender,1977;Williams et al,1978). No
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presente momento, a falta de evidências a seu favor e a possibilidade de
prejuizos nutritivos e psicológicos fazem com ela deva ser contraindicada.
Tratamento com altas doses de vitaminas tem sido preconizados
para uma ampla gama de condições e se originaram de um modelo
ortomolecular proposto por Hoffer et al (1954) e popularizado por Pauling
em 1968. Segundo este modelo, as necessidades diárias de vitaminas não
podem ser avaliadas pela média ,devendo suprir as quantidades exigidas por
cada individuo e que seriam muito variadas. Ã esta conduta inicial da
utilização de doses megavitaminicas acrescentaram-se outros componentes e
dietas hipoglicemicas. Condições como a esquizofrenia, dificuldades de
aprendizado, AI e lesões cerebrais tem sido tratadas por esta técnica. Além
de inúmeros outros trabalhos publicados o Comitê de Nutrição da Academia
Americana de Pediatria reviu a terapia megavitamínica e concluiu que
faltam evidencias que justifiquem sua utilização. A terapia megavitaminica
deve ser contraindicada por sua questionável eficácia e pela possibilidade de
ocorrência de efeitos colaterais tais como desconforto intestinal e
hepatoxicidade (Haslam et al,1984). No Brasil temos asistido à crescente
utilização de fórmulas nas quais são associadas doses megavitaminicas à
sais minerais, oligoelementos e vários medicamentos psicoativos tais como
anticonvulsivantes, ansioíticos e andipressivos . A inadequação deste tipo de
formulações nos parece bastante obvia.
Deficiências em cálcio, cobre, cromo, ferro, magnésio, sódio e zinco
tem sido delacionadas à varias condições neuropsiquiátricas da infância
(Cott,1971) muito embora saibamos que estes elementos são ingeridos em
quantidades adequadas em uma dieta equilibrada. A concentração destes
elementos é medida, em geral, pela análise dos cabelos do paciente (Phil &
Parkes,1977)
e crianças com problemas de aprendizado, por exemplo,
poderiam ser diferenciadas de crianças normais, com um grau de
probabilidade de acerto de 98% pela avaliação quantitativa de 5 minerais
havendo aumento na concentração de cádmio, manganês e cromo e
diminuição em cobalto e litium. Outros trabalhos não conseguiram
reproduzir estes resultados e segundo Golden (1984) as evidências
existentes são extremaente débeis e não se jusfica o emprego destes
elementos nas condições descritas.
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Dietas hipoglicemicas tem sido propostas para crianças com desvios
neuropsicológicos sendo a ingestão de açucar, per si, apontada como uma
possivel causa destas dificuldades porem as afirmações neste sentido
carecem de qualquer evidência mais definida. Da mesma forma, alergias
alimentares tem sido implicadas como etiologia possível destes distúrbios e
estes poderiam melhorar com a retirada dos alimentos implicados
(Crook,1975). Mais uma vez, os estudos publicados neste sentido não são
convincentes de tal modo que este tratamento não deverá ser utilizado.
Outra vertente das terapias alternativas refere-se à varias
modalidades de intervenção neurofisiológica e destas, merece especial
atenção a técnica da Padronização que ttem sido exaustivamente utilizada
em nosso pais. A teoria subjacente à técnica da Padronização se fundamenta
na afirmação de que uma adequada Organização Neurológica sómente
poderá ser alcançada quando no seu processo de desenvolvimento, o
individuo passou por todas as etapas “normais”do desenvolvimento
ontogenético o qual segue de perto o desenvolvimento filogenético. Foi
proposta e divulgada por Doman,Sptiz e Zucman (1966). Na verdade, a
teoria baseiou-se nos estudos anteriores de Temple Fay e colaboradores e
teve importante participação de Delacto de tal forma que muitos referm-se à
este tratamento como técnica de Doman-Delacato. De acordo com estes
autores, para que o individuo possa atingir um bom nivel de
desenvolvimento ele necessita atingir o desenvolvimento pleno em cada
etapa sem que haja algum desvio na seqüência normal pois assim sendo,
haveria uma interferência com o estabelecimento normal da dominância
hemisférica o que acarretaria varios tipos de distúrbios neuropsiquiátricos.
à partir destas idéias teóricas foi elaborado um programa de de movimentos
e posturas que devem ser impostas aos pacientes, repetidos de forma
estereotipada e exaustiva, em geral de forma passiva e com o concurso de
vários técnicos As “fases”de arrastar, engatinhar são realizadas inúmeras
vezes por sessão sendo facilitados outros movimenmtos como girar,
cambalhotas,
de
balanço,etc.
Este
programa,
assim
realizado
e
independentemente da patologia de base que a criança apresenta (autismo,
paralisia cerebral, distúrbios do aprendizado escolar, hiperatividade,etc.)
levaria à umja Padronização que, em última análise promoveria uma
Reorganização Neurológica com resultante melhora nas queixas clinicas.Fáz
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parte do tratamento a respiração de ar saturado (reinspirado) em bióxido de
carbono fazendo-se o indivíduo respirar, por um certo período de tempo,
dentro de um saco de papel ou plástico. Este procedimento teria a finalidade
de fazer aumentar a concentração em CO2 no sangue o que levaria à uma
vaso-dilatação cerebral com consequente aumento do fluxo sanguineo
cerebral. Esta técnica tem tido grande aceitação no Brasil sendo realizada
por alguns grupos que se distinguem quanto à rigidêz com que a forma
original, tal como descrita, é aplicada. Variam quanto ao tempo de
tratamento a ser utilizado, quanto à forma com que alguns dos exercícios são
realizados mas tem um embasamento muito próximo. Fato que nos parece
importante de chamar a atenção ,mais uma vez, é de que a técnica é utilizada
de modo muito similar em qualquer criança com qualquer tipo de patologia.
Com frequência o profissional que segue este método trabalha sem o
concurso de profissionais de outras áreas impossibilitando que a criança
possa se beneficiar de um programa de fisioterapia, terapia ocupacional, etc.
Alguns destes grupos são frontalmente contrários à utilização de
medicamentos alopáticos exigindo dos pais a interrupção abrupta de
medicamentos de uso crônico. Por mais de uma vez tive que atender à
alguns destes pacientes em status de mal epiléptico, desencadeado pela
interrupção abrupta de medicamentos anticonvulsivantes que vinham sendo
utilizados pelas crianças.. Tentando esclarecer o público, a Comitê da
Criança com Prejuizos da Academia Americana de Pediatria (1968)
questionou os principios sobre os este método se apoia e concluiu que não
havia nenhum indicio de benefício, que o teste utilizado pelos Institutos para
o Desenvolvimento do Potencial Humano (criadores do método nos Estados
Unidos da America do Norte) para avaliar o paciente e tentar aferir
eventuais melhoras não havia sido validado e que a técnica proposta estava
em evidente desacordo com as práticas usuais e aceitas para se lidar com
crianças.Os defensores do método se utilizam, frequentemente de citações
de teorias e conceitos validados para tentar justificar sua técnica . Citam,
usualmente Piaget, Luria, Plasticidade Neuronal mas não conseguem
demonstrar de que forma estas citações tem alguma a ver com suas
proposições teóricas ou com a prática que apregoam. A imensa maioria das
publicações sérias a respeito desta matéria não deixam dúvida no sentido de
que não há, até o momento, evidencias de que este método tenha a
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abrangência que afirmam e nem sequer que possam promover os resultados
positivos apregoados. O fato de que alguns pacientes melhorem com a
técnica não permite , é claro, que estes resultados possam ser generalizados.
Lembrariamos que, frente à determinadas caracteristicas do técnico, frente à
expectativa dos famjiliares e mesmo do proprio paciente, poderemos ter
melhoras reais muito mais em função do técnico do que da técnica
empregada. Desta forma, os bons resultados não decorreriam do método
utilizado mas ocorreu em função do técnico e apesar da técnica.
Outro método que se utiliza de exercícios motores e estimulos
sensoriais para promover a melhora de vários quadros neuropsiquiátricos é e
assim chamada técnica da Integração Sensorial. Os defensores deste método,
que tem sido amplamente utilizado em crianças portadoras de prejuizos
motores, distúrbios do aprendizado e AI tem se preocupado em tentar
estabelecer uma base teórica válida bem como na normatização dos testes
utilizados para a avaliação dos pacientes. Seus defensores apontam para a
presença de possíveis anormalidades ou disfunções do sistema vestibular
como base para os quadros clínicos que se propõem a tratar porem esta
posição tem sido bastante questionada. Apesar de farta literatura a respeito
da Integração Sensorial nos parece que, no presente momento, sua
fundamentação teórica e seus resultados ainda não podem ser aceitos sem
ressalvas.
Outras modalidades de tratamentos que podem ser citados como
älternantivos”, ao menos até o presente momento seriam a utilização das
lentes de Irlen, da camera hiperbárica, de injeções à base de células, dos
florais e outros tantos que merecem ser apenas mencionados mas que se
afastam tanto daquilo que se considera aceito pela comunidade científica
que não serão discutidos em maiores detalhes.
à despeito de alguns relatos de “cura”,o prognóstico para os
pacientes com AI é bastante reservado. Apenas cerca de metade destes
pacientes desenvolve linguagem util. A presença de hiperlexia (habilidade
precoce para a leitura) seria sinal favorável quanto ao prognóstico enquanto
que a ausência de comunicação aos 5 anos de idade seria um indicador de
prognóstico mais limitado (Mauk,1993; Tirosh & Canby,1993).
De modo geral, os estereotipos e o isolamento melhoram com o
passar do tempo e o adulto com autismo funciona, de modo geral, como o
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portador de retardo mental severo sem autismo mas com linguagem mais
pobre, melhor possibilidade de resolver problemas e menor interação social
(Mauk,1993). Aspecto que merece ser referido é a possibilidade de
mudanças substanciais no quadro do AI na epoca da adolescência. Neste
sentido, Kobayashi et al.(1992) estudando um grupo de 201 autistas com
idade igual ou superior a 18 anos observaram marcada deterioração no
quadro ocorrendo em 31.5% e acentuada melhora em 43.2% .
Autistas com bom rendimento intelectual poderão chegar, como
adultos, a ter uma vida independente porem continuarão a ser solitários, a
apresentar padrões peculiares de fala e comunicação e raramente chegarão a
se casar. Embora alguns autistas possam chegar, portanto, a ter uma vida
independente cerca de 70% deles necessitarão, como adultos, de algum tipo
de auxilio proximo e assistência permanente..
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