Modelo de Implantação da Prescrição Informatizada de Terapia

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Modelo de Implantação da Prescrição Informatizada de Terapia Nutricional
em um Serviço de Nutrição Hospitalar
Cecilia Vilela dos Reis1, Fernando Fávero2, Maria das Graças Ribeiro Ferreira1,
Nancy Yukie Yamamoto Tanaka1, Rogério Cardoso 3, Wilson Moraes Góes2
1
Divisão de Nutrição e Dietética do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da
Universidade de São Paulo (HCFMRP/USP), Brasil
2
Centro de Informações e Análises (CIA) do HCFMRP/USP, Brasil
3
Centro Integrado da Qualidade (CIQ) do HCFMRP/USP, Brasil
Resumo - Este artigo descreve a importância da prescrição de terapia nutricional em um serviço hospitalar e
relata sobre a padronização ocorrida em um sistema de prescrição eletrônica de um hospital universitário
terciário. Através desta padronização a Divisão de Nutrição e Dietética obtêm diversos benefícios.
Palavras-chave: Terapia Nutricional, Prescrição Eletrônica, Padronização de dietas.
Abstract - This paper describes the importance of the prescription of nutritional therapy in a hospital service and
tells about the standardization happened in a system of electronic prescribing of a tertiary academical hospital.
Through this standardization, the Division of Nutrition and Dietary obtain several benefits.
Key-words: Medical Informatics, Electronic Prescribing, Nutricional Therapy
Introdução
A alimentação exerce um papel fundamental
na vida do ser humano cuja subsistência e
propagação da espécie, dependem da oferta
adequada de alimentos na qual sua deficiência, em
qualquer etapa do processo vital, interfere no
crescimento, no desenvolvimento e na manutenção
da saúde.
Assim sendo, a alimentação ideal deve ser
adequada ao estado em que o indivíduo se
encontra, quer esteja ele sadio ou doente, de forma
a ofertar ao organismo todos os nutrientes
necessários para manter ou recuperar seu estado
nutricional. Podendo também, ser utilizado como
medida terapêutica, única ou auxiliar, no tratamento
de doenças.
Um estudo realizado em 1996,
pelo
IBRANUTRI – Inquérito Brasileiro de Avaliação
Nutricional Hospitalar - envolvendo 4000 pacientes
internados em hospitais da rede pública do País,
revelou que 48,1% dos pacientes apresentam algum
grau de desnutrição, sendo que destes, 12,6% eram
pacientes desnutridos graves e 35,5 % eram
desnutridos moderados [1] .
Outros estudos realizados nas últimas três
décadas também indicaram alto índice de pacientes
com
o
estado
nutricional
comprometido,
demonstrando ser a desnutrição hospitalar um
problema grave [1], [2], [3], [4], [5], [6] e [7] e que
piora durante a internação do paciente devido a um
conjunto de condições encontradas no ambiente
hospitalar, podendo ter causas relacionadas ao
próprio paciente, como o tipo e extensão da doença
de base [1], [3], [6] e [7] .
Por todas essas razões, verifica-se que a
alimentação adequada é um fator que merece
destaque no tratamento dos pacientes, seja atuando
diretamente na cura da doença ou como medida
coadjuvante na evolução clínica dos pacientes
internados, através da manutenção ou na
recuperação do seu estado nutricional, o que acaba
refletindo diretamente no tempo de permanência
hospitalar e na diminuição da mortalidade e
morbidade.
Segundo Maculevicius, o Serviço de Nutrição
Hospitalar tem como função dentro do contexto
hospitalar a produção de bens de consumo e a
prestação de serviços, fornecendo assistência
nutricional
adequada
à
clientela
atendida,
responsabilizando-se pelo controle qualitativo e
quantitativo em todas as etapas do processo de
produção e de atendimento, com atuação e
competências bem definidas, e desenvolvendo
ainda atividades de ensino, pesquisa e controle de
qualidade [8].
A alta competitividade de empresas nacionais
e internacionais torna obrigatória a queda
generalizada
dos
custos,
evidenciando
a
maximização da eficiência. A necessidade de estar
agregando valor aos produtos e serviços, faz com
que qualquer tipo de imperfeição, erro ou re-trabalho
acabe por desbancar os preceitos de um bom
gerenciamento de custos [9].
É fundamental, portanto, que ocorram
aperfeiçoamentos de eficiência com o objetivo de
diminuir, eliminar ou prevenir as perdas. O
desenvolvimento de técnicas para diagnosticar,
avaliar e definir a relevância de processos e perdas
(diretas e indiretas), todas apoiadas num bom e
adequado planejamento, é vital para a sobrevivência
e manutenção de qualquer empresa, inclusive no
segmento de alimentação de coletividades. A
variedade de tarefas, a concomitância de atividades,
o imediatismo de processos e de produtos, a larga
lista de insumos utilizados em cada atividade, a
heterogeneidade de hábitos e a falta de
comprometimento, conhecimento, treinamento e
adequação de colaboradores, acaba tornando a
rotina dos Serviços de Alimentação um complexo
contexto de estudo e gerenciamento [9].
Neste cenário, o emprego da informática
como recurso para racionalização do trabalho, a
partir da prescrição da Terapia Nutricional
padronizada, viabiliza com eficiência tanto do ponto
de vista técnico quanto administrativo, o
encaminhamento das dietas aos pacientes
internados. Ela tem sido uma grande aliada na
busca da minimização de falhas provenientes da
falta de comunicação, erros oriundos da intervenção
humana na coleta da prescrição manual,
identificação
e
solicitação
de
dietas.
A
informatização contribui para garantir a oferta
precisa da dieta prescrita, assim como possibilita um
controle estatístico efetivo considerando a rapidez
com que se processam as informações, contribuindo
para a otimização de todas as etapas envolvidas na
sistemática da Terapia Nutricional.
Metodologia
O Hospital das Clínicas da Faculdade de
Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São
Paulo (HCFMRP/USP) é um hospital geral de
grande porte e que tem por finalidade a Assistência,
o Ensino e a Pesquisa. Possui, em sua unidade
Campus, 604 leitos ativados para o atendimento de
nível terciário de pacientes provenientes das redes
primária e secundária do Sistema Único de Saúde
(SUS).
O processo de informatização no HCFMRP
iniciou-se em 1975, pela Prodesp, conforme
determinava, à época, a política governamental [10].
Em 1995 foi criada uma Comissão de
Informática, por entender a informática como
alternativa viável para o melhor gerenciamento,
aumento da produtividade e transparência das
atividades. A partir de então, o Centro de
Informações e Análises (CIA) assume as atribuições
de gerenciar a informática no Hospital, criar e
manter uma base tecnológica atualizada e
desenvolver, “sob medida”, os sistemas para a
Instituição, tendo sempre como diretriz, um Sistema
de Informação Hospitalar integrado [10] .
No início de 1997, foi criado o Sistema de
Prescrição Médica e Dispensação de Medicamentos
(Prescrição
Eletrônica)
[11].
Este
sistema
representou um avanço considerável para as áreas
médicas, enfermagem, farmácia e administrativa que
ganharam
em
agilidade,
modernização
e
principalmente, segurança das atividades, pela
possibilidade de haver uma interação entre os
medicamentos prescritos e os encaminhados aos
pacientes, através de um controle mais efetivo de
dispensação. Nesta versão, a equipe médica fazia a
prescrição de Terapia Nutricional utilizando um
campo aberto descritivo. Desta forma, não havia
qualquer tipo de consistência ou padronização,
dificultando o trabalho da Divisão de Nutrição e
Dietética (DND), tanto a nível operacional quanto
gerencial, pois todas as atividades eram efetuadas
manualmente, desde a coleta da prescrição até os
controles estatísticos.
A versão II do Sistema de Prescrição
Eletrônica,
lançada
em
2003,
encontra-se
atualmente em fase de implantação gradativa e é
responsável pela integração da área Médica com a
Divisão de Assistência Farmacêutica, Centro
Regional de Hemoterapia, Divisão de Nutrição e
Dietética, Banco de Leite, Unidade de Nutrição
Parenteral, Central de Quimioterapia e Comissão de
Controle de Infecção Hospitalar.
Para esta versão, foi utilizada a padronização
das dietas de rotina e especializadas, fórmulas
pediátricas lácteas e não lácteas e nutrição enteral,
existentes na Divisão de Nutrição e Dietética. Isso
permite a utilização de uma linguagem unificada
entre a DND e todas as equipes envolvidas na
assistência ao paciente.
Para se implantar esta padronização, e ainda
permitir uma fácil utilização pela área médica,
operando o sistema através de menus de escolha,
utilizou-se um mecanismo similar a uma árvore
hierárquica, denominado auto-relacionamento [12].
Este sistema é flexível quanto à expansão das
dietas
padronizadas,
e
permite
ainda
a
multiplicidade de tipos de terapia nutricional para um
mesmo paciente, pois sua estrutura possibilita os
seguintes níveis de escolha: Via de Administração,
Forma de Apresentação da Dieta, Composição da
Dieta, Quantificação de Nutrientes e Fracionamento.
Considerando que nesta padronização, cada
dieta possui um código único, a partir da prescrição
médica de Terapia Nutricional o sistema contempla
diversos recursos, como a totalização das dietas a
serem produzidas e encaminhadas, a identificação
das fórmulas, dietas e preparações, e o controle da
dispensação das mesmas às Unidades de
Internação. Assim, a gestão de todo o processo,
desde a prescrição até a dispensação, pela equipe
da DND fica totalmente coberta pelo sistema.
Apesar de ocorridas as padronizações o
sistema permite, ainda, que o nutricionista efetue a
prescrição dietética a partir da prescrição médica,
possibilitando a individualização das dietas, levando
a uma melhor aceitação das mesmas pelos
pacientes, gerando redução do resto alimentar [13],
[14].
Figura 2 –Via da Administração
Resultados
A figura 1 ilustra a tela principal do sistema,
demonstrando as opções de acesso, separados pela
área de atuação (médica, farmácia, banco de
sangue, nutrição, central de quimioterapia e
enfermagem). O acesso a cada opção é controlado
através de direitos da senha de cada usuário,
garantindo integridade e privacidade aos dados do
sistema.
Figura 3 –Forma de Apresentação da Dieta
Figura 4 –Composição da Dieta
Figura 1 – Menu principal do sistema
As figuras de 2 a 7 ilustram a seqüência de
telas usadas no processo de prescrição de Terapia
Nutricional: Vai de Administração – Forma de
Apresentação da Dieta – Composição da Dieta –
Quantificação dos Nutrientes – Visualização da
Prescrição.
Figura 5 – Quantificação dos Nutrientes
Agradecimentos
À Equipe técnica da Divisão de Nutrição e
Dietética do HCFMRP, que colaborou na
padronização e implantação da terapia nutricional
informatizada.
Referências
Figura 6 – Quantificação dos Nutrientes
[1] Waitzberg, D. L., Caiaffa, W. T., Correia, M. I. T.
D. (2001), “Hospital malnutrition : The brazilian
national survey ( IBRANUTRI ) : A study of 4000
patients “, Nutrition, v. 17, n. 7/8, p. 573-580.
[2] Bistrian, B. R., Blackburn, G.L., Vitale, J.,
Cochran, D., Nayilor, J. (1976), “Prevalence of
malnutrition in general medical patients”, JAMA, v.
235, n. 15, p. 1567-1570.
[3] McWhriter, J.P., Pennington, C.R. (1994),
”Incidence and recognition of malnutrition in
hospital”, BMJ, v. 308, p. 945-948.
[4] Watson, J.L. (1999), “The prevalence of
malnutrition in patients admitted to care of the eldery
wards”, Proceedings of the Nutrition Society, v. 58
Figura 7 – Visualização da Prescrição
[5] Weekes, E. (1999), “The incidence of malnutrition
in medical patients admitted to a hospital in south
London”, Proceedings of the Nutrition Society, v. 58
Conclusão
Como qualquer outro sistema informatizado, é
fato que este necessita de aprimoramentos
constantes, buscando a cada dia, a criação de
novos recursos e controles, melhorando sempre a
gestão e produtividade do serviço em que está
inserido.
Além deste aspecto, acredita-se que com a
informatização da prescrição médica de Terapia
Nutricional, o recebimento dessas prescrições em
sistema on-line, a sua interligação com um sistema
de totalização de dietas, através dos mapas de
totalização de dietas, os rótulos de identificação das
preparações e observações necessárias, assim
como a dispensação das dietas e fórmulas,
produzidas pela Divisão de Nutrição e Dietética,
trarão benefícios que refletirão em melhorias
técnicas, administrativas e econômicas para a
Divisão de Nutrição e Dietética e para a Instituição.
[6] Braunschweig, C., Gomez, S., Sheean, P. M.
(2000), “Impact of declines in nutritional status on
outcomes in adult patients hospitalized for more than
7 days" JADA, v. 100, n. 11, p. 1316-1322.
[7] Coppini, L. Z., Waitzberg, D. L., Correia, M. I.T.
D., Aanholt, D. V., Oliveira, G. P. C., Sugimoto, M.
H., Reganim, E. C., Moreira, R. S. C., Ciosak, S.,
Nishida, C. S. I., Oliveira, M. F. R. (2001), “Perfil
nutricional de pacientes internados no Hospital
Beneficência Portuguesa”, An.Paul.Med.Cir., v. 128,
n. 1, p. 28-35.
[8] Balchiunas, D. (2002), “A unidade de nutrição e
dietética, o seu papel como atividade – fim na
organização hospitalar e sua terceirização” O Mundo
da Saúde, v. 26, n. 2, p. 321-331.
[9] Ribeiro, C. S. G. (2003), “ Controle de custos :
Questão de sobrevivência para as Unidades de
Alimentação e Nutrição”, Nutrição Brasil, v. 2, n. 1, p.
39-44.
[10] Sá, M. F. S.(2002), A inserção de um Hospital
Universitário Público no Sistema Único de Saúde, A
experiência do Hospital das Clínicas da Faculdade
de Medicina de Ribeirão Preto, Ribeirão Preto,
191p., Dz.
[11] Cardoso, R., Fávero, F., Finco, L., Góes, W.M.,
Marcomino, W.E. (2002), “Prescrição Eletrônica
Hospitalar”, Anais do CBIS 2002 [VIII Congresso
Brasileiro de Informática em Saúde], Natal,
disponível em http://www.avesta.com.br/anais
[12] Chen, P. (2002), Modelagem de Dados, São
Paulo: Makron, 86p.
[13] Folio, D., Sullivan-Maillet, J., Touger-Decker, R.
(2002), “ The spoken menu concept of patient
foodservice delivery systems increases overall
patient satisfaction, therapeutic and tray accuracy,
and is cost neutral for food and labor ", JADA , v.
102, n. 4, p. 546-548.
[14] Oyarzun, V. E., Lafferty, L. J., Gregoire, M. B.,
Sowa, D. C., Dowiling, R. A. , Shott, S. (2000), “
Evaluation
of
efficiency
and
effectiveness
measurements of a foodservice system that included
a spoken menu “, JADA , v. 100, n. 4, p. 460-463.
Contato
Cecilia Vilela dos Reis, Diretora Técnica do Serviço
de Nutrição do Hospital das Clínicas de Ribeirão
Preto (HCFMRP/USP). Tel: (16) 602-2137 – email:
[email protected]
Fernando Fávero, Analista de Sistemas do Centro
de Informações e Análises do Hospital das Clínicas
de Ribeirão Preto (HCFMRP/USP). Tel: (16) 6022118 – email: [email protected]
Maria das Graças Ribeiro Ferreira, Diretora Técnica
da Divisão de Nutrição e Dietética do Hospital das
Clínicas de Ribeirão Preto (HCFMRP/USP). Tel: (16)
602-2137 – email: [email protected]
Nancy Yukie Yamamoto Tanaka, Diretora Técnica
do Serviço de Dietética do Hospital das Clínicas de
Ribeirão Preto (HCFMRP/USP). Tel: (16) 602-2137
– email: [email protected]
Rogério Cardoso, Diretor do Gerenciamento da
Qualidade do Hospital das Clínicas de Ribeirão
Preto (HCFMRP/USP) e professor universitário do
Centro Universitário Claretiano de Batatais
(CEUCLAR) e das Faculdades da Fundação de
Ensino de Mococa (FaFEM). Tel: (16) 602-2182 –
email: [email protected]
Wilson Moraes Góes, Diretor do Centro de
Informações e Análises (CIA) do Hospital das
Clínicas de Ribeirão Preto (HCFMRP/USP) e
professor universitário do Centro Universitário Moura
Lacerda e do Centro Universitário Claretiano de
Batatais (CEUCLAR). Tel: (16) 602-2274 – email:
[email protected]
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