Investimentos no futebol

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Investimentos no futebol
Por Eduardo Carlezzo
22/03/2005
O ano de 2004 demarcou, de certa forma, a retomada dos investimentos estrangeiros
(relevantes) em clubes de futebol do Brasil após três anos de estagnação. Isto porque, após
a chegada de algumas grandes companhias internacionais, como a Parmalat (Palmeiras),
Hicks, Muse, Tate and Furst (Corinthians e Cruzeiro) e a ISL (Flamengo e Grêmio), sem
contar os investimentos dos bancos Opportunity (Bahia) e Excel (Vitória), a partir do ano
de 2001, o mercado sofreu as mazelas das constantes mudanças legislativas, da
desorganização nos calendários e de irresponsabilidades administrativas. Conseqüência:
desapareceram
os
investimentos.
O futebol, visto sob uma perspectiva econômica, é um negócio que, desde que bem
explorado, possui uma tendência à alta rentabilidade. Esquecendo por ora o mercado
brasileiro e focando no europeu, fortes investimentos foram feitos no ano passado e neste
que inicia, especialmente na Inglaterra. A título ilustrativo, a Fly Emirates, companhia
aérea dos Emirados Árabes, fechou com o Arsenal um acordo de patrocínio de US$ 150
milhões, o que lhe possibilitará a exploração do "naming rights" do novo estádio do clube
por 15 anos, além de estampar sua marca na camiseta por oito anos. O famoso milionário
americano Malcolm Glazer ratificou em fevereiro deste ano uma proposta de 800 milhões
de libras para a compra do Manchester United. O Barcelona recebeu proposta para que,
pela primeira vez na sua história, estampe a marca de uma empresa em sua camiseta por 15
milhões de euros/ano. Ou seja, para muitos, altos investimentos no futebol parecem ser
bons
negócios.
Logicamente não apenas de números positivos vive o futebol. No mês de fevereiro dois
tradicionais clubes europeus expuseram sua fragilidade: o Servette, da Suíça, foi à falência
e o Borussia Dourtmund, primeiro clube alemão a abrir o capital no mercado de valores
mobiliários, quase tomou o mesmo rumo, tendo conseguido, porém, uma moratória com os
credores. Ademais, como outro número significativo, o Chelsea, do bilionário russo Roman
Abramovich, estabeleceu na temporada 2003-04 o recorde de prejuízo no futebol inglês:
US$
166
milhões.
No mercado internacional, assim como no brasileiro, está se consolidando um novo agente
de investimentos no futebol: os fundos. Tal comunhão de recursos assume duas formas:
uma regulamentada pelos órgãos do mercado de capitais e, a outra, com formatação jurídica
livre, representada pela comunhão de recursos para investimentos no futebol. O objetivo
destes fundos tem sido a aquisição de direitos econômicos sobre as transferências de
jogadores. O exemplo mais bem sucedido de fundo de investimento é o FP Football Players
Fund, do Futebol Clube do Porto, atual campeão da Copa Intercontinental.
Quanto ao mercado brasileiro, o mesmo foi fortemente sacudido com a entrada do Media
Sports Investments (MSI) no Corinthians. Ressalvadas as discussões travadas sobre a
origem dos recursos, a verdade é que os investimentos que estão sendo feitos –
principalmente na aquisição de jogadores de expressão mundial, como é o caso de Carlito
Tevez, em uma operação de aproximadamente US$ 20 milhões (a maior da história no
Brasil) –, são extremamente positivos. Assim, os clubes do Brasil voltam a ser objetos das
atenções internacionais. O único problema que deve ser equacionado, e com o qual os
clubes já se depararam em meados da década de 90, é com a volta da inflação salarial,
quando os clubes brasileiros, irresponsavelmente, tentaram pagar salários iguais aos
padrões
europeus.
As
conseqüências
disto
são
sabidas.
O produto futebol possui peculiaridades que poucos segmentos do mercado possuem. Eis
que, sobretudo, existe um forte vínculo emocional entre o torcedor-consumidor e o clubejogador. O problema é que para que este produto seja atrativo para os investidores, a
rentabilidade não pode apenas ficar adstrita à formação e transferência de jogadores ao
exterior. Deve se procurar alternativas de arrecadação que propiciem aos clubes condições
de manter seus melhores jogadores em solo nacional. O problema é que os clubes, de uma
forma geral, não têm logrado êxito nesta empreitada, estando as fontes de receitas adstritas
às
tradicionais
rubricas:
televisão,
transferências
e
patrocínio.
Por exemplo, na temporada 2003-04 o Mancheter United gerou receitas contabilizadas,
apenas ligadas à "matchday, commercial and broadcasting", na ordem de 259 milhões de
euros, cuja composição é a seguinte: receitas de dia do jogo, 36%; receitas de transmissão
de jogos, 36%; e receitas comerciais, 28%. No Brasil, em uma boa parte dos clubes que
disputam a Série A do Campeonato Brasileiro, as receitas de televisão superam facilmente a
faixa dos 50%. Isto sem contar que as receitas de bilheteria são pouco significativas (a não
ser nos dias de estádio lotado, o que nem sempre ocorre) e o licenciamento de marcas ainda
é um sonho a cada dia destruído pela pirataria e pela incapacidade dos administradores na
sua exploração. Destarte, em face da imensa dependência dos recursos de televisionamento,
para equacionar as receitas e despesas, só resta uma saída: vender o craque do time.
Portanto, os clubes brasileiros não prescindem de um investidor para manutenção de suas
atividades. Está mais do que provado que os clubes não possuem condições próprias para
gerar receitas suficientes para manter um elenco competitivo. Receber um investidor, seja
ele nacional ou estrangeiro, não significa "vender" o clube, como muitos apregoam.
Significa sim estar atento ao ambiente micro e macro-desportivo, no qual os resultados no
futebol deixaram de ser apenas os desportivos para inserirem-se com força no panorama
financeiro e mercadológico. Agora, o êxito de uma parceria vai depender muito da
negociação entre as partes, de caso a caso. O que não se pode é generalizar que todas as
parcerias são boas ou que todas são ruins. Isto dependerá do ponto de equilíbrio a ser
encontrado
entre
clube
e
investidor.
Como vários outros negócios, o futebol é um investimento de risco. Tanto se pode perder
todo o investimento, como se pode obter uma lucratividade que dificilmente se teria em
outros segmentos. Atualmente, esta lucratividade está centrada nas receitas de
transferências de jogadores ao exterior. Porém, há muitas possibilidades de se explorar
outros negócios dentro deste contexto, como o "naming rights", a construção de arenas, a
formação de fundos de investimentos regulados pela CVM etc. Já temos os melhores
jogadores do mundo. É necessário, agora, conseguirmos formar os melhores clubes do
mundo. Para isso, que sejam bem-vindos os investidores internacionais.
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