Humanização e barbárie no leitor do séc. XXI: entre a

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Humanização e barbárie no leitor do séc. XXI: entre a história e a anti-história das multimídias Dezembro/2013
Humanização e barbárie no leitor do séc. XXI:
entre a história e a anti-história das multimídias.
Will Goya
Filósofo clínico - www.willgoya.com
Professor IPOG
Resumo: O tema conjugado entre a riquíssima diversidade atual de plataformas midiáticas –
aparelhos tecnológicos ou canais de comunicação de massa – e a relação leitor-livro reclama
diferentes abordagens, em especial, com interface entre as áreas da comunicação e da
educação. Porém, devido à escolha em fundamentar uma análise a partir da teoria crítica da
Escola de Frankfurt, faz-se inevitável uma investigação filosófica, tratando da ética e da
teoria do conhecimento, revendo e atualizando conceitos clássicos como “indústria cultural”.
A abordagem, de um lado, gravita em busca de conceitos históricos e culturais que venham
elucidar o impacto negativo e assustador da racionalidade anti-histórica, imediatista a, da
chamada “pós-modernidade” sobre o leitor e a leitura nos dias atuais. Por outro lado,
intenta-se observar as novas possibilidades éticas de emancipação e autonomia dos
indivíduos na cultura da globalização dos textos e linguagens, das autorias e dos leitores.
Palavras-chave: Leitura. Multimídias. Alienação. Alteridade
I. Introdução
Nossos dias observam o perigo do fim da leitura e da literatura entre os jovens, hoje
ocupados e possuídos pelo desejo de comunicação rápida, de relacionamentos plurais e de
diversões instantâneas vindos do mundo tecnológico e virtual das multimídias. O ato de ler e
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o de escrever, como forma de obtenção do conhecimento e da sensibilidade, é um dos
movimentos e processos mais fundantes da civilização moderna e da cultura contemporânea.
O primeiro grande medo histórico desse fim se deu quando da expansão popular da
televisão na segunda metade do século XX. De fato, a TV não suprimiu a importância da
leitura em nossa época, mas também é verdade incontestável o quanto abalou o interesse
comum da humanidade pelo livro. Atualizado e potencializado, o temor ressurge pela segunda
vez diante da fascinação das novas plataformas midiáticas advindas com a globalização online
dos aparelhos digitais de comunicação.
O perigo da alienação da juventude e da descontinuidade fragmentada das gerações
futuras, a anti-história, faz justificar, com urgência, uma revisão epistemológica da estrutura
de pensamento típica de nossa época. Talvez o fim do livro no seu formato tradicional revele
o oposto do medo, a esperança, o ponto de mutação e de renascença da estrutura de
pensamento do leitor do séc. XXI, quem sabe menos concatenada pela lógica formal e mais
intuitiva pelos gostos. Talvez uma nova forma de literatura estética, científica, filosófica ou de
puro entretenimento venha atender ao tempo e às possibilidades de um novo jogo de
linguagem, de valores e de compreensão da malha intelectiva do ser humano.
Se politicamente a razão é o exercício coletivo do diálogo, o livro é um dos principais
meios de conversação e troca de ideias de um indivíduo com toda a cultura, no seu processo
de formação libertadora. É de tal forma e importância que cada único leitor herda o acúmulo
da história e da humanidade, em constante revisão. Mais que um gozo pessoal, desde a sua
origem, a leitura foi constituinte da sobrevivência da própria espécie. Não sem dor e
consequências, o desaparecimento social do interesse pelo livro marca o enfraquecimento,
quiçá a morte das gerações futuras. A indiferença da população para com as ações públicas, o
aumento das desigualdades sociais e das práticas pessoais de intolerância são correlatos à
destruição da cultura, à ausência de uma pedagogia crítica e ao triunfo do modelo econômico
capitalista.
Em nome da racionalidade administrada pelo utilitarismo, materializada pelo desejo
amoral de sucesso financeiro, o espírito capitalista não fez desaparecer o livro ou mesmo o
leitor. Ao contrário, fê-los aumentar extraordinariamente sob uma característica ideológica e
pseudoliterária – porque nem crítica nem criativa –, qual seja: o conhecido estilo textual de
“autoajuda”, que pode ser definido como um manual operativo de instruções psicológicas e
morais para tornar uma pessoa comum um sucesso de consumo pelos vieses da fama, do
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erotismo e do dinheiro. A estratégia mercadológica consiste em oferecer livros-mercadorias
enquanto meios para que o próprio sujeito se torne “vendável”. Como se a simples leitura
provocasse fantasiosamente todas as transformações desejáveis, por efeito da exclusiva força
ou crença de vontade própria. Nesse sentido, o capitalismo faz do desejo do sujeito uma
necessidade, do leitor um mero consumidor de livros, que se envaidece da sua
pseudointelectualidade. Subvertendo valores, o produto torna em si um substituto do objeto de
desejo, um fetiche. A inteligência sem sabedoria, a leitura sem interpretação e a crítica sem
autocrítica revelam o segredo (que não merece este nome) do sucesso de venda dos clichês de
autoajuda: uma ansiedade preguiçosa de leitores pela ilusão da liberdade. Livros drogas.
Desconsiderando, portanto, esse aumento velocíssimo e insignificante dos “livros sem
ideias”, o que se observa com preocupação é de fato uma trágica diminuição cultural histórica
da prática da leitura entre os jovens. Além disso, hoje as diversas mídias contribuem
massivamente para o enriquecimento intelectual do indivíduo com excessos de informações
inúteis, sem contexto ou práxis, ao mesmo tempo em que lhe oferece o entretenimento vicioso
para ocupar o vazio existencial da chamada “pós-modernidade”. Seja como for, um palco de
vários atores sociais – escritores, leitores, editores, professores, e tantos outros – o livro, ou a
concepção de livro em geral, vem permeando quase todos os espaços sociais e culturais do
mundo contemporâneo1.
Que o mundo sempre teve crises é perfeitamente compreensível. Mas poderíamos
alegar que a nossa atual crise de ameaças ao espírito da liberdade humana é mais importante e
sofrida do que a de outros tempos, posto que a dor e a angústia aparentam sempre mais reais
por aqueles que a vivem. Compreensível. No entanto, com a segunda guerra mundial, algo de
muito profundo se mudou na história. Diante da ameaça e das técnicas cada vez mais
eficientes, de extinguirmos a humanidade, seja no plano físico ou moral, é absolutamente
defensável a verdade de que nossa época vive um perigo inédito na história. Após o fenômeno
do nazifacismo o mundo ocidental parece não mais aceitar qualquer totalitarismo político do
Estado. A ameaça tem outra origem: o poder autoritário dos indivíduos uns para com os
outros, pela força da indiferença e da desigualdade, sejam próximos ou não. Essa crise de
dúvidas se abre às possibilidades, sempre maiores do que as respostas que agora conseguimos
ver. Já que nossa realidade hoje é de uma “aldeia global” nas redes da internet, vinculando
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Pesquisar a historiografia e gênese dos leitores, enquanto membros da sociedade ou enquanto consumidores de
obras escritas é matéria de uma sociologia da leitura e da literatura, que o presente trabalho não se propõe a
trilhar.
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todos os laços de comunicação da humanidade, bons ou maus, fica-nos o paradoxo da
situação: essa mesma tecnologia pode tanto aproximar os que estão distantes quanto distanciar
os que estão pertos. Tudo depende.
Fato incontestável é que em nosso século as revoluções e constantes inovações
tecnológicas reconfiguram e reconfigurarão profundamente a nossa visão epistemológica da
realidade, da inteligência, dos valores e, sobre tantos aspectos, da cultura. A dimensão
pedagógica e cultural desse fenômeno é quantitativa e qualitativamente exponencial, além de
muito pouco investigada, até porque recente. Também porque a tecnologia acelera nossa
compreensão usual do tempo, faz-se imprescindível todo esforço no intento de esclarecer o
fenômeno no campo da educação, buscar entender em que sentido termos como “leitor”, “ato
de ler e de escrever”, “livro” e “literatura” sofreram mudanças significativas na cultura de
convergência tecnológica, de forma a tornar nosso espírito mais humano ou mais máquina. Ao
estabelecer critérios, poderemos descobrir se estamos avançando ou regredindo na história.
II. A fábrica industrial dos leitores alienados
Fundada em 1924, por pensadores como Max Horkheimer, Theodor W. Adorno,
Herbert Marcuse, Walter Benjamim, Jürgen Habermas e Erich Fromm, a Escola de Frankfurt
nasce com o objetivo de explicar historicamente a organização cultural e a consciência
subjetiva dos trabalhadores industriais, analisando as condições sociopolíticas e econômicas,
com vistas à transformação da realidade. Unindo a teoria com a prática, seus estudos foram
conhecidos como Teoria Crítica, em contraposição à Teoria Tradicional das ciências humanas
de então, marcadas pelo cartesianismo e pelo positivismo2, notoriamente tecnicistas e
empiristas, além de considerarem a gênese social dos problemas dentro da própria época e
circunstâncias dadas na sociedade vivida. Valendo-se de pressupostos do marxismo para
explicar o funcionamento da sociedade, e da psicanálise para entender o funcionamento dos
indivíduos, a Teoria Crítica, dentre muitas análises, dedicou-se aos estudos do consumismo
nos Estados Unidos e ainda mais profundamente ao fenômeno do nazifacismo da Europa,
buscando uma resposta sobre como as pessoas se tornavam insensíveis umas às outras, à dor
do autoritarismo, negando suas próprias condições de indivíduos ativos no corpo social.
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Para um contraponto aos julgamentos apressados contra a relevância epistemológica de Comte e Descartes,
diante da Escola de Frankfurt, veja ZANOLLA (2007).
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Um bom exemplo da Teoria Crítica, em resumo, está na análise do funcionamento dos
meios de comunicação, caracterizados como “indústria cultural”. Em 1947, num trabalho
conjunto, Adorno e Horkheimer publicam a Dialética do Esclarecimento (ou do Iluminismo)
(1993), uma das obras mais importantes da Escola e um dos livros mais influentes do século,
definindo indústria cultural como um sistema político e econômico que tem por finalidade
produzir bens de cultura – filmes, livros, música popular, programas de audiência e outros –
como mercadorias de consumo e estratégias de controle social. Denunciaram que os meios de
comunicação de massa, tais como a televisão, o rádio, o jornal, são propriedades de grandes
empresas e, mais do que possuírem interesse em obter lucros, trabalham para manter o
sistema econômico vigente que as permitem continuar lucrando. Significa que produzem e
vendem filmes, músicas ou programas de TV não como bens artísticos ou culturais, isto é,
com valor estético próprio, mas como objetos de consumo em nada se diferenciando de coisas
como carros, sapatos ou geladeiras. Dessa forma, ao invés de contribuírem para formar
cidadãos críticos, manteriam as pessoas alienadas da realidade. Nesse sentido, os receptores
das mensagens dos meios de comunicação seriam vítimas dessa indústria, com um gosto
padronizado a consumir produtos de baixa qualidade. Por isso, o termo hoje tão utilizado
“cultura de massa”, não quer dizer na verdade “cultura popular”, mas sim uma ideologia da
classe econômica dominante imposta à maioria das pessoas.
A indústria cultural seria também um mecanismo de dominação política, entendendo
as tecnologias de comunicação como um dos mais importantes elementos estruturantes da
sociedade contemporânea. A tese iluminista do séc. XVIII, de que o progresso da razão e da
tecnologia iriam libertar o homem das crenças mitológicas e superstições para uma sociedade
mais livre e democrática, na verdade produziu o oposto do que afirmava. O que se observou
foi que esse mesmo progresso, ocorrido na sociedade capitalista, serviu justamente para
produzir novas sujeições ao sistema econômico dominante. A mercantilização da cultura no
capitalismo, limitando os processos de formação da consciência crítica tem um efeito
ideológico sobre as pessoas, ajustando-as à situação social, manipulando e domesticando a
consciência, reificando os indivíduos. Para a Escola de Frankfurt, não se trata de uma crítica à
tecnologia em si mesma, o que seria regressão, mas ao uso dos meios de comunicação de
massa no capitalismo monopolista para o qual a indústria cultural colabora. Em resumo, a
indústria cultural transforma a cultura em mercadoria.
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Para Adorno e Horkheimer, a tecnologia, presente em todos os espaços da convivência
social, assumindo formas ideológicas, seria responsável pela crescente submissão dos
indivíduos à lógica do mercado. Mas essa não é a exata opinião de muitos importantes
estudiosos dos meios de comunicação, para citar dois: Pierre Bordieu e Edgar Morin, de certa
forma também tributários da Escola de Frankfurt. Com semelhança, entendem o fenômeno da
indústria da cultura a partir de uma análise relacional. Ou seja, os elementos definidores do
fenômeno não podem ser vistos de forma estanque ou isolados. Para eles, só é possível falar
de um elemento definidor da cultura quando remetido uns aos outros no complexo da
sociedade. Todavia, tanto Bourdieu quanto Morin não partilham da ideia de uniformização e
homogeneização do consumo dos bens culturais. Relativizam o fenômeno e enfatizam a
natureza diferenciada e hierarquizada entre os agentes sociais produtores e consumidores
desses bens, compreendendo o fenômeno da mídia como algo ambíguo e contraditório. A
cultura de massa é vista como essencialmente policultural, e a cultura na verdade se alimenta
dos sistemas simbólicos já existentes, possuindo um caráter profundamente integrador. Os
valores são reutilizados por ela, que apenas ordena e propõe uma forma de apropriação,
jamais impondo.
Ainda que entre os anos 70 e 80 do século passado os frankfurtianos tenham sido
muito criticados pela sua visão reducionista dos receptores e por não perceberem que nem
toda produção cultural se resume à indústria, particularmente Adorno e Horkheimer têm o
mérito de serem os precursores da denúncia de um totalitarismo eletrônico que mistura
ideologias a entretenimentos num só produto, fazendo ser possível que representantes
políticos sejam escolhidos como se fossem marcas de refrigerante. Nesse sentido, a questão da
dominação – e seu oposto, da emancipação –, mais especificamente o tema da alienação, é
profundamente atual, o que faz da Escola de Frankfurt matéria imprescindível na investigação
dos desafios da leitura e da escrita, reestudando seus conceitos à luz dos problemas atuais.
III. As Relações de poder e liberdade nas multimídias
As tecnologias de áudio e visão parecem saturar os espaços e tempos da atual
sociedade de consumo. O livro, que até o século passado alimentava a imaginação com
exercícios de crítica e autonomia de pensamento, agora tem a concorrência sofisticada e
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progressiva de netbooks e celulares, cinemas e tantos mais a transmitirem filmes,
informações, videogames e outros com poderes de sedução quase total, ocupando e esgotando
o lazer, o tão sonhado tempo ocioso do trabalho – com vantagens e desvantagens. Na forma
de símbolo, a TV é vista como uma das principais cúmplices na tentativa de assassinato da
leitura, quiçá da literatura, especialmente entre os jovens.
O avanço e a velocidade das mídias que compõem esse fluxo em geral são apontados
como fatores alienantes de regressão, ao fabricarem cópias ou simulacros da realidade,
provocando uma desmaterialização do mundo. Mas, ainda que nisso residam o perigo e a
verdade, está longe de ser a única perspectiva. O advento de novos estilos de comunicação a
partir da internet talvez sejam vetores de uma arte tecnológica cujos áudios e imagens,
somando-se ou sobrepondo-se ao texto, estimulam a percepção de aspectos híbridos da
inteligência e da cultura, antes despercebidos ou recém-inaugurados, na medida em que sua
forma e seu contéúdo geram a participação multissensorial do público, unindo e evidenciando
laços instantâneos entre o regional e o universal, além de criar novas concepções e
epistemologias sobre a cultura.
Diante disso, numa época marcada pela circulação da informação, nomeadamente da
informação escrita, o que significa ser um leitor no século XXI? Até que ponto o exercício da
alteridade, da emancipação de indivíduos cônscios de suas diferenças e responsabilidades
sociais, através da compreensão da leitura, está hoje ameaçado ou, ao contrário, avantajado
pela potência comunicativa e transversal das multimídias?
Defronte a mundialização da economia, as revoluções da informática e da semiótica, a
desterritorialização veloz do pensamento e da cultura, estariam os indivíduos condenados ao
fim da leitura e da conversação críticas; à desumanização da técnica (BAUDRILLARD, 1996)
e mera globalização da violência e das futilidades? Ou, com esperança e otimismo, estaríamos
nós na aurora de um novo iluminimo (LÉVY, 1999), todavia mais capazes da discussão
democrática e com mais interação material e simbólica entre a mídia e a sociedade,
enriquecendo o leitor e a literatura com imagens, sons e diálogos?
De certa forma, ambas as perspectivas são hoje defensáveis, com extensas
demonstrações, e convergem para o conflito entre autonomia/alteridade versus a alienação na
cultura. Lembrando que, segundo o pensamento da alteridade, o contrário de “diferente” não é
o “igual”, mas o “indiferente”; e que o contrário de “igualdade” não é o “diferente”, mas a
“desigualdade”. Diferentes sim, desiguais nunca.
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IV. A cibercultura
O mundo é uma “aldeia global”. Foi assim que McLuhan (1969) construiu a analogia
de que o progresso tecnológico permitiria a intercomunicação direta com qualquer pessoa do
planeta. Visionário, isso aconteceu diante do nascimento da televisão como um meio de
comunicação de massa em nível internacional, integrada via satélite, mas somente agora, com
o celular e a internet, é que o conceito começa a se concretizar. O princípio hoje reside na
ideia de que o mundo está interligado com estreitas relações econômicas, políticas e sociais –
fruto da evolução das tecnologias da informação e da comunicação –, e que essa profunda
interligação entre todas as regiões do globo originaria uma poderosa teia de dependências
mútuas, causando a solidariedade e a luta pelos mesmos ideais, ao menos em teoria. Em
certos aspectos, isso já é um fato, quando, por exemplo, organizações não governamentais de
todo o mundo se unem em prol do desenvolvimento sustentável da Terra, ou através da
divulgação de fotos de pessoas desaparecidas, por meio de agentes voluntários atuando
coletivamente como atores sociais.
O termo “cibercultura”, de Pierre Levy (1999), é outro exemplo que traduz
modificações marcantes nas teorias e práticas da comunicação e da cultura, com efeitos
importantes para análise da educação no recorte texto-leitor. Segundo ele, há um movimento
internacional de jovens, que estão ávidos por experimentar novas formas de comunicação, e
quanto mais pessoas acessam a internet, o “ciberespaço”, mais crescem e se desenvolvem
formas de socialbilidade; portanto, maior também o grau de apropriação das informações por
diferentes atores, que poderão modificá-las segundo seus próprios valores culturais, e divulgálas por sua vez de uma nova maneira. É nesse movimento, nos sites criados por provedores de
acesso e conteúdo, e nos mecanismos de regulação da internet, que reside a essência da
cibercultura. Naturalmente, o autor reconhece a existência daqueles muitos que se encontram
excluídos (ou por ainda serem incluídos) na rede de sistemas virtuais, mas também assume
que a internet nunca foi uma promessa mágica para solucionar os problemas culturais e
sociais do mundo.
Evitando análises sobre o comércio virtual, o filósofo entende que essa mundialização
do consumo, de produtos e de informação não significa necessariamente dominação. Pelo
contrário, a característica principal desse novo meio de comunicação é que quanto mais
universal, menos totalitário, porque nele o saber se constrói pela interação entre os
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participantes. Daí a tese de que a cibercultura é herdeira da filosofia iluminista do século
XVIII, por incentivar o debate e a argumentação, retomando e aprofundando os antigos ideais
de emancipação e exaltação do humano.
Para ele, "virtual" não é o que se opõe ao "real", mas ao "atual". O virtual é o que
existe potencialmente, como uma informação que se encontra em alguma parte da rede –
fisicamente estocada num servidor –, podendo ser recuperada de qualquer ponto e a qualquer
momento, ainda que num dado instante não faça parte do repertório do leitor. "Virtual" e
"atual" são dois modos diferentes do "real".
O hipertexto – organização das informações escritas de tal maneira que o leitor tem
liberdade de escolher vários caminhos a partir de sequências associativas possíveis com
outros textos – revela uma lógica não linear dos textos digitais, permitindo e desenvolvendo
uma inteligência capaz da leitura das complexidades de relações do mundo. Com percursos
menos previsíveis que os esquemas tradicionais de leitura, o texto digital, diferentemente do
que existe no papel, permite passar de um documento a outro, de uma linguagem a outra, de
um autor a outro, de maneira muito rápida, e às vezes de forma automática. Para Lévy, a
hipertextualização de documentos conduz à mistura e à indissociação das funções de leitor e
autor.
"Tudo se passa como se o autor de um hipertexto constituísse uma matriz de textos
potenciais, sendo o papel dos navegadores o de realizar alguns desses textos, fazendo
funcionar, cada um à sua maneira, a combinação entre os nós". (LÉVY, 1999, p.69)
Outro aspecto relevante é a noção de que as mudanças culturais provocadas pela
internet não advém da simples mistura de textos, imagens e sons (multimídia), mas por
“dispositivos informacionais e comunicacionais” (mundos virtuais, informação em fluxo,
comunicação todos-a-todos). Em outras palavras, não é tanto a representação da informação,
mas o modo de relação entre as pessoas que impulsiona as transformações. De resto, sua
tendência otimista é clara e definitiva: com a desterritorialização do corpo, dos sistemas e do
pensamento, com uma participação ampla e coletiva na construção de um novo mundo
híbrido de relações dialógicas e imbricadas entre si, nascerá a “comunidade mundial”. Pierre
Lévy acredita que o hábito da convivência coletiva no ciberespaço irá naturalizar a
pluralidade dos tempos e espaços vividos nesse cotidiano virtual. Em futuro breve, quem
sabe, tudo isso haverá de ser natural.
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V. O Problema da leitura e a leitura do problema
O ato de escrever e de ler é fundamental para a emancipação do pensamento e da
cultura, na medida em que leitura seja mais do que a decodificação de um texto. Saber ler,
com criticidade e independência, é ver o não escrito; ver no texto o seu contexto; e em cada
momento saber ver a história das ideias. A legitimação da escrita na sociedade industrial
ocorreu nas escolas e universidades, sendo igualmente espaços por excelência da
aprendizagem, valorização e consolidação da leitura. Mesmo com os esforços da pedagogia
para a formação autônoma do ser humano, ainda hoje vigora poderosamente a cultura
instrumental e funcionalista do mercado sobre as práticas e ideologias do ato de ler e de
escrever. Estudar para que? Para a inserção no mercado de trabalho, para “ser alguém”,
ontologicamente reconhecido pelo estigma e título de “doutor”. Bem entendido, não o doutor
das ciências, das artes ou da filosofia, mas o doutor-senhor do capital.
Paulo Freire (1987), em seus estudos sobre o letramento, a despeito de eventuais boas
intenções, demonstrou que na história do ensino no Brasil a questão da alfabetização nunca
foi estritamente pedagógica, mas também ética e política, diante da necessidade de libertação
das ideologias que alienam a humanidade do ser humano, tentando reduzi-lo à obediência e à
mão de obra. Com uma visão dialética, para a práxis das transformações sociais, ele deixou
claro qual é a real função da educação: a prática da liberdade.
Erich Fromm, outro gigante da matéria, no conjunto de suas obras, observou que nossa
sociedade tende a valorizar apenas a quantidade de conhecimento que alguém possui, como se
isso fosse comensurável à maneira de bens físicos ou mesmo um indicativo de status quo.
Assim, a ignorância e a humildade de não conhecer, distinta daquela de não pensar, é vista
como um aspecto negativo, como fraqueza ou motivo de vergonha. Ao contrário, valoriza-se a
simples “posse” do conhecimento, ainda que não haja a mínima correlação dele com a
realidade consequente, ou com o próprio entendimento pessoal a respeito.
O autor ainda distingue, pela linguagem, duas diferentes posturas, a de “ter
conhecimento” e a de “conhecer”. A primeira se refere a tomar e a conservar posse de
informações disponíveis, tendo como objetivo a incessante busca por ter mais conhecimento;
enquanto que a segunda é um termo que traduz atividade, apenas um meio no processo de
pensamento, em que o ideal é sempre conhecer mais profundamente. O conhecer é uma busca
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íntima e crítica pela verdade, nunca significando estar de posse dessa verdade. Fosse isso,
haveria apenas uma mera coleção de dados. Portanto, ele deixa claro que para as faculdades
produtivas do ser humano valem mais os exercícios da imaginação e da autotransformação
pessoal do que a posse instrumental de conhecimentos, fazendo dos homens alienados mais
dependentes dos livros do que da própria memória e capacidade de resolução dos problemas
da vida. A sociedade que privilegia ter conhecimento em detrimento de conhecer condena-se
a si própria, pois apesar de tantas informações acumuladas, tecnologias da força e do conforto
materiais, pode até ser divertida, mas não é feliz.
"O principal motivo pelo qual raramente vemos sinais do modo ser de existência, resulta
do fato de vivermos numa sociedade voltada para a aquisição de bens e obtenção de
lucros. Os estudantes que se incluem no modo ter de existência, ouvem uma lição,
escutando as palavras e entendendo a sua estrutura lógica e o seu significado. Mas o
conteúdo não passou a fazer parte do seu sistema individual de pensamento,
enriquecendo-o e ampliando-o. A memória confiada ao papel é outra forma de alienar a
lembrança. O escrever tudo aquilo de que queremos lembrar-nos dá-nos a certeza de ter
essa informação e não tentamos gravá-la no cérebro. Estamos seguros da nossa posse; só
que, quando acontece perdermos as nossas notas, perdemos igualmente a nossa memória
de informações. A capacidade de lembrar abandonou-nos, quando o nosso banco de
memórias se tornou uma parte exterior a nós, sob a forma de apontamentos. Se
considerarmos a multidão de informações que na sociedade contemporânea é necessário
reter, teremos de considerar que uma certa dose de apontamentos e referências
depositadas em livros é inevitável. Curiosamente alguns indivíduos analfabetos, ou que
escrevem pouco, têm memórias, de longe, superiores, aos habitantes instruídos dos países
industrializados. Entre outros fatos, isto sugere-nos que a instrução não constitui de forma
alguma a tão alardeada benção, principalmente quando é utilizada na leitura de matérias
que empobrecem a capacidade de experimentar e de imaginar." (FROMM, 1987, p. 50)
Fromm, filósofo e psicanalista, um dos grandes pensadores da primeira geração da
Escola de Frankfurt, trabalha com muita originalidade a questão do poder e da liberdade. Ao
invés de procurar as determinações econômicas da vida psíquica, através do marxismo – o que
muitos fizeram –, ele dá um sentido pedagógico, afetivo e espiritual a essa questão. Mostra
que para liberar o trabalhador do seu fardo econômico-político é preciso antes liberar o
trabalhador do próprio trabalhador, das suas prisões morais. Sua abordagem sobre a alienação
é trabalhado de uma maneira profundamente original, permitindo-lhe um acréscimo singular
às contribuições dadas pela Teoria Crítica, pois ele soube, como poucos, identificar e tratar de
uma das maiores crises da modernidade e dos dias atuais: o papel existencial da cultura. Ele
próprio conheceu com profundidade os horrores das duas guerras mundiais, dedicando-se
teoricamente a uma grande pergunta: se haverá alguma esperança para se evitar a loucura
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narcisista da destruição do homem. Isso posto que Alemanha, um dos países mais eruditos da
história mundial foi também autora da maior vergonha moderna da falência humana. Implícita
fica a questão sobre o valor humanitário que supostamente a leitura deveria ter dado a esse
povo de tão elevada cultura. Estabelecendo um critério de julgamento sobre o valor de uma
ideia, ele elabora uma preciosa interrogativa que traduz a orientação de todo o seu método e
pode conduzir o leitor à compreensão última do valor ético de cada conceito do seu
pensamento:
“...o radicalismo humanista questiona toda ideia e toda instituição do seguinte ponto de
vista: esta ideia ou instituição contribui para aumentar ou para reduzir a capacidade que
tem o homem de se abrir ainda mais para a vida e para a alegria?” (ILLICH, 1975, p. 5-6)
Assumindo inegavelmente o papel da educação no desenvolvimento humano para a
liberdade, somente assim, é possível uma resposta. A questão se resume bem com a resposta
de Adorno (ADORNO, 1995) à pergunta sobre a importância e o porquê da educação: para
que (o princípio de) Auschwitz nunca se repita. Esse é, não menos hoje, o sentido da
educação, para o desenvolvimento da autonomia como força de reflexão, para a
autodeterminação do indivíduo em um mundo mais ético e menos totalitário. O que justifica
todo esforço de se estudar os processos atuais da alienação nos fenômenos associados à leitura
e à escrita diante do novo mundo da cibercultura.
No tocante ao tema da alienação, o avanço da digitalização dos meios de comunicação
de massa, até este momento da história, em que prevalece a quantidade de informações
disponíveis, supera toda a nossa capacidade humana de armazenar todas essas informações.
Para Todd Gitlin (2003) um dos efeitos dessa comunicação saturada é a alienação. Uma
disponibilidade incalculável de informações, promovidas e difundidas pela internet, que se
transforma em alternativa de leitura dos jovens, em substituição progressiva dos livros em
papel, típicos do século passado.
Às críticas do excesso de informações, Henry Jenkis (2008) afirma que isso não é
devido à quantidade de dados, mas ao desejo equivocado de uma cultura ao estilo do homem
renascentista, que buscava ler e dominar todos os campos do conhecimento. Para Jenkis nossa
época exige outra concepção de leitura e de cultura, buscando ser mais seletivos diante das
informações, filtrando o necessário. Ao invés de nós tentarmos absorver todo o conhecimento
para nós, deveríamos aprender a confiar na comunidade em nossa volta, a confiar uns nos
outros para processar essas informações. Entendendo que a cultura advém da cultura, o
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processo criativo do artista, no mundo virtual, é construído sobre uma releitura do passado
tanto quanto sobre as informações paralelas já existentes. Para usar os termos da cibercultura,
assim também foi quando Homero “remixou” a mitologia grega e a Capela Sistina se fez de
uma “colagem” de temas bíblicos. Nessa redefinição de autoria sobre uma dinâmica de
releitura e reescrita, à luz moral da alienação, a diferença entre a “remixagem” e o plágio é
que este oculta suas fontes enquanto aquela as celebra e as expõe.
Para Marshall McLuhan, em coautoria com Quentin Fiore (2005), o problema da
leitura recai sob uma questão epistemológica da cognição humana. De acordo com a sua tese
principal, “o meio é a mensagem”; isto é, o meio pelo qual uma mensagem é repassada – por
exemplo, um livro impresso, uma pintura na parede ou um computador – não é um simples
canal de passagem das informações comunicadas, mero veículo inócuo de transmissão da
mensagem, mas algo que determina e altera cognitivamente os conteúdos comunicativos.
Num jogo de ressignificações, de diferentes tipos de lógicas de semioses e sintaxes de
linguagem, uma mensagem dita oralmente ou por escrito, transmitida via imagem
cinematográfica ou por rádio, em cada caso alteram-se, conjugam-se diferentes formas de
compreensão e de pensamento. Segundo McLuhan, a tecnologia em que a comunicação é
estabelecida não apenas constitui a forma comunicativa, mas determina também o próprio
conteúdo da comunicação. No conjunto de suas obras, o notável filósofo canadense investigou
a evolução dos meios comunicativos usados pelos homens ao longo da história, identificando
as características específicas de cada um desses diferentes meios de comunicação. Dedicouse, com especial destaque (1977), à análise da evolução mediática ocorrida com a invenção da
imprensa, marco determinante das transformações epistemológicas da cultura humana. Na
medida em que o próprio meio é a mensagem, esta só pode ser decodificada levando consigo
as características profundamente intrínsecas do entorno, passando despercebidas. Em suas
palavras,
“a ‘mensagem’ de qualquer meio ou tecnologia é a mudança de escala, cedência ou
padrão que esse meio ou tecnologia introduziu nas coisas humanas.” (MCLUHAN, 2005,
p.22).
“Com o alfabeto fonético, o conhecimento classificado tomou o lugar do conhecimento
operacional de Homero e Hesíodo e da enciclopédia tribal. Desde então, a educação por
dados classificados tem sido a linha programática no Ocidente”. (MCLUHAN, 2005,
p.11)
“Para entender estes efeitos, é necessário ver a alfabetização como tecnologia tipográfica,
aplicada não só à racionalização dos processos de produção e de exploração do mercado,
como também às leis, à educação e ao urbanismo. Na Inglaterra e na América, os
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princípios de uniformidade, continuidade e repetibilidade derivados da tecnologia da
impressão tipográfica há muito que já penetraram em todas as camadas da vida comunal”.
(MCLUHAN, 2005, p.337)
No início dos anos 60 do século passado, McLuhan (2005) declarou que a linearidade
da tipografia condicionou a visão de mundo do homem. Esse condicionamento aconteceu
através da sucessão linear imposta pela impressão, que transpôs ao homem uma leitura linear
e reducionista do mundo. Com a difusão da prensa de Gutenberg, e suas constantes
modernizações, a sociedade ocidental experimentou muitos movimentos científicos
decorrentes da mudança do padrão de pensamento tribal, que era coletivo e passível de mitos.
Há dois marcos históricos relevantes que agendam diferentes estruturas de pensamento
da civilização: a despertar da filosofia e a invenção da máquina de imprensa, utilizando a tinta
a base de óleo, permitindo a produção em série de livros impressos. O método de Gutemberg
teve um papel fundamental no desenvolvimento da Renascença, da Reforma e na Revolução
Científica, criando as bases materiais para a moderna economia baseada no conhecimento e
na disseminação da aprendizagem em massa.
O primeiro deu-se com o nascimento da racionalidade e da filosofia, na Grécia, a partir
do séc. V a.C., erguida pela força retórica do diálogo. A palavra falada no caráter público das
manifestações da vida social adquire preeminência sobre os demais instrumentos de poder. Os
saberes e os valores próprios da autonomia do pensamento vão se tornando cada vez mais
acessíveis a um abrangente alcance do público. Um dos maiores especialistas da Grécia
Clássica, Jean-Pierre Vernant demostra como a razão grega era política, isto é, como a
reflexão ligava-se ao exercício da cidadania. Os primeiros sábios foram decisivos para o
desenvolvimento da cidade, pela discussão dos valores morais. Com a elaboração das leis, a
fundamentação do direito e das definições de julgamento sobre o público e o privado, os
primeiros saberes escritos foram tomados como verdade, sistematizando o conhecimento
abordado.
“A razão grega não se formou tanto no comércio humano com as coisas quanto nas
relações dos homens entre si. Desenvolveu-se menos através das técnicas que operam no
mundo que por aquelas que dão meios para domínio de outrem e cujo instrumento
comum é a linguagem: a arte do político, do retor, do professor. A razão grega é a que de
maneira positiva, refletida, metódica, permite agir sobre os homens, não transformar a
natureza. Dentro de seus limites como em suas inovações, é filha da cidade.” (VERNAT,
1989, p. 95)
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Nesse sentido, o período posterior à imprensa e anterior ao meio digital é uma
interseção lógica baseada no pensamento linear, fundada no concatenamento das coisas, no
mecanicismo de Descartes – um dos maiores defensores dessa racionalidade. Ainda que o
ponto de partida tenha sido a criação do alfabeto, teria sido a imprensa a potencializadora de
todo esse processo de sistematização racional.
Sendo verdade que o meio escrito criou todo um ambiente de possibilidades de existir,
e que o tipo de conhecimento fragmentário segue a lógica da escrita, é porque o meio impôs à
mensagem sua forma de se propagar para além ou independente da mensagem. Com isso,
McLuhan faz crítica àqueles que não consideram os meios de comunicação de massa como
atores sociais, mas apenas como instrumentos desses atores:
Ligados que estão à tecnologia industrial (Partido Comunista Russo) do século XIX como
base da libertação de classes, nada pode ser mais subversivo para a dialética marxista do
que a ideia de que os meios lingüísticos moldam o desenvolvimento social tanto quanto
os meios de produção. (MCLUHAN, 2005, p. 68)
Dito isso, no conjunto de todas as consideraçoes feitas, é passível afirmar que é através
da linguagem e do meio em que vivemos e nos comunicamos que se dá a cultura. Em nossa
época, diante de uma juventude que em geral não aparenta mais interesse na leitura de livros,
mas encontra tempo de consumo para a leitura dos canais midiáticos, especialmente via
internet, resta saber se a tecnologia – meio e linguagem da nossa sociedade atual – que nos
permite ler, escrever e reconfigurar o mundo, vai nos definir como senhores de nossa
humanidade ou como autômatos, máquinas. Perigo diante das telas do computador, que deixa
à juventude, não raramente, a dúvida maleável entre o real e o imaginário, onde o princípio de
realidade não é muito idendificável.
VI. Possíveis conclusões
Nenhuma filosofia envelhece ao longo da história do pensamento. Compete-nos
interpretar as ideias passadas com o que o nosso tempo está reconhecendo como o mais
importante. Os fundamentos psicossociais e valores morais que estruturaram a ideologia
capitalista na modernidade não parecem ter sido modificados significativamente, no que
concerne à análise da Teoria Crítica sobre a ideologia, desde o nascimento da Escola de
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Frankfurt. Permanecem acesas muitas questões teóricas ainda vivas e não suficientemente
exploradas. Por coerência ao pensamento da práxis, é a natureza desses problemas que nos
leva a enfrentá-los. Problemas como a relação homem-natureza; a ideia da dominação do
homem sobre o homem; o fracasso do projeto humanista da educação; a sociedade do
espetáculo que substitui a coisa da qual ela é imagem; a aceleração do tempo provocado pela
tecnologização do social, comprometendo as relações humanas; o conhecimento tornado
apenas um acúmulo de informações especializadas, e de fácil aplicação... Tudo isso faz parte
do repertório à crítica da industrialização da cultura e a sua transformação em mercadoria.
Fenômenos da alienação identificadas nos processos da leitura e da escrita na cultura
multimidiática dos dias de hoje.
Posto o problema, sem conclusões antecipadas ou sequer pretensões de tal monta, é
possível destacar aqui, dentre outras, duas diferentes hipóteses de entendimento e
consequências, eixos de análise da questão:
1) De um lado, pessimista, há o perigo de que, especialmente nos jovens, a avidez de
consumo, de descartabilidade e renovação do consumo dos aparelhos midiáticos
(smarthphones, computadores de mão e de mesa, TVs e videogames com interatividade
online, e outros) até a assimilação dos processos cognitivos de aprendizagem e leitura de
informações, oferecidos pelo mundo virtual – sem compromisso com a ética ou com a
verificabilidade – estejam comprometendo profundamente a capacidade crítica da leitura e da
escrita, nessa e nas novas gerações.
2) Por outro lado, em uma visão otimista, segundo Henry Jenkis (JENKIS, 2008),
professor e diretor do Programa de Estudos de Mídia Comparada, do Massachusets Instituct
of Tecnology, estamos num processo cultural de convergência tecnológica reunindo com fácil
acesso um imenso fluxo de imagens, ideias, histórias, sons, marcas e relacionamentos através
do maior número de canais midiáticos possíveis. Apesar do grande número de excluídos da
internet, em todo o mundo, esse fluxo está acessível democraticamente à quase todas as
camadas sociais, sem distinção étnica, política, religiosa, intelectual e até financeira 3, com tal
força e desejo dos cidadãos, que essa cultura não mais aceita exclusões econômicas da
sociedade no mundo tecnológico e virtual, encontrando meios de obter a mídia que quiserem,
quando, onde e como quiserem, e por meios ilegais se não for possível de outra maneira. A
esse processo histórico, soma-se o fato de que hoje em dia é tão importante fazer mídia quanto
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No Brasil, por exemplo, qualquer cidadão, de qualquer classe econômica, pode de frequentar Lan Houses para
uso de computadores com acesso à internet, com poucos reais.
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consumir mídia, o que torna os indivíduos tanto autores quanto leitores das informações
circuladas no hiperespaço da internet, nivelando em patamares de liberdade jamais antes
alcançados a expressão e a autonomia, o acesso e a visibilidade de todas as ideias e pessoas
nas mesmas condições e igualdades de direito.
Esse tipo de produção pulverizada de mídia torna as ideias veiculadas no YouTube tão
essenciais à cultura quanto aquelas veiculadas em redes de televisão. O que garante ampla
circulação de qualquer tipo de mídia que compõe esse fluxo deve-se a dois fatores: o consumo
e absorção crescentes de mensagens criadas pelos grandes centros econômicos de poder
midiático, e o fluxo moldado por decisões originadas tanto pela indústria cultural quanto em
quartos de adolescentes. Quem sabe, razão disso, estejamos às vistas de um futuro
renascimento da promoção do social e da esfera pública, em versão atualizada do pensamento
de Hanna Arendt (1997). Quem sabe o ato de ler e de escrever, a educação do homem aos
moldes da era da cibercultura, e sob os meios pedagógicos adequados, possa o indivíduo
exercitar a emancipação da sua autonomia na sociedade, tal como um dia foi sonhado pelo
iluminismo de Kant, tornando-se um homem com poder para a reflexão e a autodeterminação.
“Esclarecimento [Aufklärung] é a saída do homem de sua menoridade, da qual ele
próprio é culpado. A menoridade é a incapacidade de fazer uso de seu entendimento sem
a direção de outro indivíduo. O homem é o próprio culpado dessa menoridade se a causa
dela não se encontra na falta de entendimento, mas na falta de decisão e coragem de
servir-se de si mesmo sem a direção de outrem. Sapere aude! Tem coragem de fazer uso
de teu próprio entendimento, tal é o lema do esclarecimento” (KANT, 1974, p.100).
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