INTERVENÇÃO DO ACOMPANHANTE TERAPÊUTICO EM

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Encontro
Revista de Psicologia
Vol. 15, Nº. 23, Ano 2012
INTERVENÇÃO DO ACOMPANHANTE
TERAPÊUTICO EM PACIENTES COM
TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA
RESUMO
Juliana Tofaneli Mello
Universidade de São Paulo - USP
[email protected]
Ana Rita Bruni
Universidade Federal de São Paulo
EPM / Unifesp
[email protected]
Este trabalho se propõe a apresentar as funções do Acompanhamento
Terapêutico, que historicamente era conhecido como Atendente
Psiquiátrico, e visa a ajudar pacientes cujas terapias clássicas nem
sempre são eficientes. Neste relato serão apresentados dois casos,
descritos ao longo do artigo, cujos diagnósticos fazem parte dos
Transtornos do Espectro Autista (TEA), sendo um caso de Síndrome de
Asperger, caracterizado por um prejuízo severo e persistente na
interação social, padrões restritos e repetitivos de comportamento,
interesses e atividades. O outro caso, diagnosticado como Transtorno
do Espectro Autista Sem Outra Especificação (TEA-SOE), caracterizado
por um prejuízo severo e invasivo no desenvolvimento da interação
social recíproca ou de habilidades de comunicação verbal ou nãoverbal, com interesses e atividades estereotipados, mas que não
preenchem critérios para um transtorno específico. O objetivo é
compará-los mostrando o quanto a função do acompanhante
terapêutico pode ser a mesma em sua essência, mesmo em situações
distintas.
Palavras-Chave: acompanhamento terapêutico; funções do acompanhamento
terapêutico; transtorno do espectro autista.
ABSTRACT
Anhanguera Educacional Ltda.
Correspondência/Contato
Alameda Maria Tereza, 4266
Valinhos, São Paulo
CEP 13.278-181
[email protected]
This paper aims to present the functions of the Therapeutic Monitoring,
which historically was known as Psychiatric Attendant, and aims to
help patients whose classic therapies are not always effective. This
report presents two cases described throughout the article, whose
diagnoses are part of the Autism Spectrum Disorder (ASD), one case of
Asperger Syndrome, characterized by severe and persistent impairment
in social interaction, restricted and repetitive patterns of behavior,
interests and activities. The other case was diagnosed as Pervasive
Developmental Disorder-Not Otherwise Specified (PDD-NOS),
characterized by severe and pervasive impairment in the development
of reciprocal social interaction or communication skills verbal or
nonverbal, with stereotyped interests and activities, but who do not
meet criteria for a specific disorder. The goal is to compare them
showing how the function Therapist may be the same in essence, even
in different situations.
Keywords: therapeutic monitoring, therapeutic monitoring functions; autistic
spectrum disorder.
Coordenação
Instituto de Pesquisas Aplicadas e
Desenvolvimento Educacional - IPADE
Artigo Original
Recebido em: 29/09/2012
Avaliado em: 25/10/2012
Publicação: 5 de novembro de 2012
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Intervenção do acompanhante terapêutico em pacientes com transtorno do espectro autista
1.
INTRODUÇÃO
O Acompanhamento Terapêutico (AT) é uma prática existente desde o final da década de
60 e surgiu inicialmente na Argentina, com o objetivo de ajudar os pacientes cujas
terapêuticas clássicas fracassavam (LONDERO; PACHECO, 2006). Inicialmente, o
acompanhante terapêutico (AT) era chamado de Atendente Psiquiátrico, pois o seu papel
era de auxiliar os pacientes psicóticos que estavam internados, a participar da
comunidade. Entretanto, esse profissional era vinculado à instituição e, além disso,
desempenhava as mais variadas funções como, por exemplo, medicar e conter o paciente
(SANTOS; MOTTA; DUTRA, 2005).
Com o passar do tempo, passou a chamar-se Amigo Qualificado, pois tinha um
caráter amistoso e assistencialista, e ao mesmo tempo dava mais autonomia àquele que
exercia (SANTOS; MOTTA; DUTRA, 2005) Entretanto, este termo foi mal visto devido ao
seu caráter pouco profissional. O Acompanhante Terapêutico não é um amigo, ainda que
possa estabelecer vínculos afetivos intensos com o paciente, mas sim, um agente
terapêutico que realiza tarefas e é remunerado para isto (MAUER; RESNIZKY, 1987).
Finalmente, o termo Acompanhamento Terapêutico surgiu para destacar o lado
terapêutico deste tipo de função assistencial (MAUER; RESNIZKY, 2003). O
Acompanhante Terapêutico proporciona ao paciente um lugar ao mundo, a partir do qual
ele poderá ser inserido na comunidade humana (SAFRA, 2006).
Uma modalidade clínica, praticada por Donald Winnicott (1948), pode ser
utilizada pelo AT como forma de intervenção. O placement, explicado por Safra (2006), tem
o objetivo de colocar o indivíduo em uma situação que responda às suas necessidades
para que possa, assim, ser acompanhado. Winnicott (1948) afirma que o valor dessa
clínica pode proporcionar ao paciente um lugar no qual ele será cuidado, sem estar
degenerando em um hospital ou em suas casas. A partir disso, o presente artigo ilustrará
através de dois casos a função que o profissional exerce no trabalho de Acompanhamento
Terapêutico. Em relação às funções do Acompanhamento Terapêutico, este tem uma visão
privilegiada do paciente, por isso pode trazer informações precisas e valiosas para a
equipe (SANTOS; MOTTA; DUTRA, 2005). É uma modalidade de atendimento clínico
necessária para contemplar o sofrimento na atualidade. O AT oferece fundamentalmente
a seu paciente um lugar (SAFRA, 2006).
De acordo com Mauer e Resnizky (2003) existem oito principais funções do AT:
Contenção, o AT oferece suporte, acompanha e ampara o paciente em sua angústia, seus
medos, sua desesperança. De acordo com o conceito Winnicottiano de holding (que pode
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ser traduzido livremente como “contenção”), Barretto (2005) o define como tudo aquilo
que, no ambiente, fornece continuidade, constância tanto física como psíquica.
Referência, o AT é um modelo de identificação para o paciente. Ele opera como um
organizador psíquico, pois o ajuda a desenvolver diferentes modos de agir e reagir frente
à vida cotidiana. Reinvestimento, onde assume por alguns momentos o “Ego do
paciente” que, devido à sua fragilidade, ainda não é capaz de tomar certas decisões por si
mesmo. Ou seja, o AT atua como um organizador psíquico, já que o paciente se encontra
mais vulnerável. Criatividade, ao longo do processo, o AT irá promover o aparecimento
de áreas mais organizadas da personalidade do paciente. Vai ajudá-lo a se reencontrar
com a realidade, a liberar a capacidade criativa que está inibida. Novo olhar de mundo
objetivo, devido ao contato cotidiano com o paciente, o AT irá dispor de muitas
informações sobre seu modo de pensar em diferentes campos. Ser o porta-voz desse mapa
ampliado permitirá alcançar um olhar integral do paciente. Espaço para pensar, o AT se
inclui entre as atividades terapêuticas do paciente e o faz com disposição dialógica, ou
seja, funciona como seu “intérprete”. O espaço discursivo, que se forma a partir do
vínculo, abre as fronteiras do intercâmbio comunicativo do paciente. Orientação de
espaço, um paciente perturbado psiquicamente se encontra perdido em um espaço social,
sofre uma significativa desconexão com o mundo. O AT tem como função diminuir essa
barreira, facilitando o reencontro com a realidade externa. Intervenção familiar, além das
funções com o próprio paciente, o AT também ajuda a atenuar as interferências que
acabam ocorrendo na relação familiar. O AT surge como uma ponte, a qual ajuda a filtrar
as informações de forma que a família consiga se comunicar novamente.
O objetivo deste estudo é demonstrar, a partir dos casos descritos, a essência da
função do acompanhante terapêutico, sendo o trabalho feito em casa ou em uma
instituição, ou seja, observar que independente do setting, a função do Acompanhante
Terapêutico é sempre a mesma. Foi utilizado o mesmo quadro diagnóstico, porém com
características distintas a fim de fazer uma comparação das funções.
2.
MÉTODO
Serão utilizados exemplos de atendimentos em AT realizados com dois pacientes sendo:
L., uma menina de 5 anos diagnosticada com Síndrome de Asperger e M., uma menina de
14 anos, diagnosticada com Transtorno do Espectro Autista Sem Outra Especificação
(TID-SOE) com o objetivo de discorrer a respeito da função do Acompanhante
Terapêutico.
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De acordo com o DSM-IV (1995), o Transtorno do Espectro Autista Sem Outra
Especificação (TEA-SOE) é caracterizado quando existe um prejuízo severo e invasivo no
desenvolvimento da interação social recíproca ou de habilidades de comunicação verbal
ou não-verbal, ou quando comportamento, interesses e atividades estereotipados estão
presentes, mas não são satisfeitos os critérios para um Transtorno do Espectro Autista
específico, Esquizofrenia, Transtorno da Personalidade Esquizotípica ou Transtorno da
Personalidade Esquiva.
A Síndrome de Asperger está dentro dos critérios do Transtorno do Espectro
Autista, sendo caracterizada por um prejuízo severo e persistente na interação social e o
desenvolvimento de padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses e
atividades. Não são constatados atrasos clinicamente significativos no desenvolvimento
cognitivo ou na linguagem. Geralmente têm um curso mais tardio, podendo aparecer
depois dos dois anos de idade (DSM-IV, 1995).
2.1. A prática destas funções
As funções do Acompanhante Terapêutico dadas por Susana Mauer e Silvia Resnizky
(2003), serão ilustradas com dois casos que estão sendo atendidos concomitantemente,
Caso 1: M., sexo feminino, 14 anos, diagnosticada com Transtorno do Espectro AutistaSem Outra Especificação; e Caso 2: L., sexo feminino, 5 anos, diagnosticada com Síndrome
de Asperger.
Apesar de estarem classificados dentro do mesmo espectro e serem casos
diferentes, a diferenciação está na forma do atendimento, pois no primeiro, o atendimento
é feito na casa da paciente por duas horas semanais e o segundo é feito na escola, por mais
ou menos 30 horas semanais. Salienta-se que as histórias de vida não têm pontos em
comum, além do diagnóstico de espectro autista. A seguir serão descritos estudo de casos.
Caso 1
A paciente M. foi adotada aos cinco dias de vida. A mãe adotiva (G.) havia acabado de
perder sua filha biológica devido a um aborto espontâneo. No próprio hospital onde ela
estava internada, se recuperando do aborto sofrido, soube de uma mulher que havia
abandonado um bebê então resolveu levar M. para casa e iniciar o processo formal de
adoção. Segundo G., a filha sempre soube que era adotada. Ela e seu marido contaram
quando a menina tinha aproximadamente cinco anos, pois acharam que esta seria uma
idade na qual ela já pudesse entender o que isso significava. Nessa mesma época, M.
começou a frequentar a escola e apresentar algumas características diferentes das outras
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crianças como, por exemplo, dificuldade na coordenação motora, agitação e dificuldade
de se relacionar. Além disso, havia relatos de desenhos muito agressivos.
A mãe adotiva G. conta que M., aos sete anos, pedia uma irmã, então ela e seu
marido resolveram adotar mais uma menina. J. foi adotada com aproximadamente um
ano de idade e teve um desenvolvimento normal, tornou-se uma menina inteligente,
responsável e dedicada na escola, o que provoca alguns conflitos na família como, por
exemplo, falar na frente de M. que a irmã é uma filha exemplar. Atualmente J. tem nove
anos. Aos sete anos, M. foi diagnosticada com Transtorno de Déficit de Aprendizagem e
Hiperatividade (TDAH) e foi medicada. Seu comportamento melhorou, porém ainda
apresentava dificuldades na aprendizagem. Aos doze anos de idade M. teve uma crise
alucinatória na qual ouvia uma voz dizendo que ia matá-la. Foi então que a família
procurou ajuda psiquiátrica e M. foi medicada.
O trabalho de AT foi requerido, pois M. apresentava uma inadequação social
significativa, como por exemplo, levantar a blusa em lugares públicos, fazer movimentos
de sexo com colegas na escola e ser agressiva verbalmente. Além disso, nessa mesma
época, a escola em que estudava faliu e ela estava há um mês sem aulas, apresentando
características depressivas. Os atendimentos eram feitos em sua casa, inicialmente uma
vez por semana, durante uma hora. No início, M. não falava muito e parecia bastante
infantilizada. Quando perguntada sobre o que tinha para contar, ela dizia que não tinha
nada, pois não fazia nada o dia todo.
A contenção que a AT deu para ela no momento, foi simplesmente ouvir seu
desabafo e participar de suas atitudes infantilizadas. Todas as sessões M. queria fazer
“baile” (sic), ou seja, dançar como fada as músicas da Xuxa (com direito a varinha de
condão e coroa na cabeça). Isso para ela era como se libertar de todo o estresse e pressão
que sofria ao seu redor.
Mais adiante, M. começou a se soltar, contando sobre o namorado de dez anos
que tinha na antiga escola. Falava todos os dias com ele ao telefone e citava a palavra
“sexo” no meio de suas conversas sem ter ideia do que realmente aquilo significava. Tinha
uma característica bastante importante que era o fato de falar sempre na terceira pessoa.
Ela se referia à AT pelo nome mesmo quando ela estava à sua frente, por exemplo, “ela
vai embora” (sic) – comentando para a AT ao final da sessão. M. também narra cenas
como, por exemplo, “ela dança” (sic) – no momento do “baile”. Outra característica
marcante é a estereotipia de repetir várias vezes uma única frase ou história. Geralmente
repetia as frases citadas acima, quando falava na terceira pessoa. M. parecia gostar muito
dos atendimentos, recebia a AT com flor, cartão, ou agrados como um suco feito por ela.
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Com o vínculo já estabelecido, M. começou a usar a AT como referência. Imitava seu jeito
de vestir com bota de cano longo e queria pintar as unhas da mesma cor de esmalte.
Todas as sessões M. queria tomar lanche: comiam algum bolo ou torrada com
patê. M. derrubava tudo e falava de boca cheia. Além disso, quando ia ao banheiro, não
fechava a porta e parecia não se importar com a situação. A AT ajudava M. a “reinvestir”
esse comportamento e dar um novo olhar de mundo objetivo a paciente, indicando o que
ela deveria fazer, como por exemplo, pegar o guardanapo ou fechar a porta do banheiro
enquanto estivesse lá. Os atendimentos passaram a acontecer duas vezes por semana e
logo M. voltou à escola. Foi matriculada em um colégio que aceita inclusão de alunos de
vários diagnósticos, no qual foi alocada em uma sala dita como “alternativa” (a escola
explica que é uma sala com poucos alunos e currículo adaptado).
Após um mês de atendimento M. já se mostrava mais animada e ativa. Desde o
início das aulas, M. mudou radicalmente seu comportamento, apresentando um
comportamento mais adolescente tanto nas atitudes quanto no modo de falar. O trabalho
da AT com M. era, além de acompanhá-la, deixar que ela pensasse sobre as situações
marcantes de sua vida que pudessem estar incomodando, e que um dia viessem à tona
durante as sessões. Habilitar um espaço para pensar era um dos objetivos. Com o
decorrer dos atendimentos foram feitas atividades para que ela tivesse esse momento de
reflexão, como por exemplo, uma “linha do tempo” feita por ela através de fotos, para que
resgatasse sua infância e o fato da adoção, que para ela parecia haver grande dificuldade
em falar no assunto. M. chegou a falar da adoção da irmã, porém nada falou sobre sua
própria adoção. Entretanto, nos três atendimentos seguintes, M. parecia “ensaiar” uma
fala sobre sua própria adoção. Até que um dia vendo um seriado na TV, no qual o assunto
era sobre teste de DNA, M. faz o comentário de que é adotada e que não precisaria fazer
um teste desses, pois já sabia que seus pais eram, na verdade, adotivos.
Nesta fase do atendimento, já aconteciam saídas de M. com a AT. Os lugares
escolhidos eram sempre perto de sua casa, de modo que pudessem ir a pé. Tomavam
lanche na padaria, andavam pelo mini-shopping que ficava na rua de cima de sua casa e
até iam ao cabeleireiro. Além de ser um dos objetivos do AT, esses encontros ajudaram M.
a desenvolver sua capacidade criativa incentivando a paciente a realizar tarefas que dão
prazer e que possam reinseri-la na sociedade. Entretanto, às vezes a AT precisava orientar
M. no seu espaço. Parece não ter noção de quanto tempo duram as atividades, como por
exemplo, quando estava no cabeleireiro fazendo um procedimento que demoraria no
mínimo duas horas, M. achava que daria tempo de sair de lá e ir tomar um lanche, tudo
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dentro de uma hora de sessão. Além disso, parecia ter dificuldade em esperar, perdendo a
paciência quando sabia que algo ia demorar.
A relação da AT com a família de M. é boa na medida em que sempre que
precisa, consegue manter contato com a mãe, que é a pessoa que leva M. nos
atendimentos médicos, e quando há algum imprevisto, a AT é informada diretamente
pela mãe. O pai, apesar de ter pouco contato com a AT, mostra-se presente na relação com
a filha e seu tratamento. É muito importante que haja intervenção na trama familiar para
que o trabalho do AT seja eficaz. Além de manter a família sempre a par de todo o
processo, o profissional precisa identificar como funciona a dinâmica familiar para que
haja uma visão mais ampla do caso.
Os atendimentos com M. ainda são realizados duas
vezes por semana, em sua casa.
Caso 2
A paciente L. tem cinco anos e é filha única de uma relação estável. Seus pais nunca
perceberam um comportamento diferente, porém foram procurar ajuda médica quando a
escola em que estuda percebeu movimentos autísticos na menina e isolamento social.
Segundo informações colhidas pelas profissionais envolvidas no caso (uma psicóloga
comportamental e uma psicopedagoga), R., a mãe de L., soube do diagnóstico da filha
através de uma avaliação psiquiátrica e se surpreendeu que, as semelhanças de
comportamento de pai e filha se dão devido ao mesmo diagnóstico.
Foi relatado às profissionais que o pai de L., quando criança, tinha movimentos
repetitivos com as mãos e alguns comportamentos estereotipados, porém nunca
identificados pela família como algo atípico. Como a menina também apresentava esses
comportamentos, a família não se preocupou, já que esse padrão ocorrera anteriormente
sem alarde. Entretanto, sabe-se que há níveis de comprometimento de um transtorno, e
que o pai de L. deve ter sido bem estimulado a ponto de conseguir conviver socialmente,
ter um emprego e construir uma família sem que ninguém percebesse nada diferente (no
caso de Síndrome de Asperger). Tanto que, quando L. foi diagnosticada, mais ou menos
aos quatro anos de idade, houve um grande susto, pois descobriam que o pai também se
enquadra no espectro autista.
Após a confirmação do diagnóstico, houve a necessidade de contratar
profissionais
como
uma
psicóloga
comportamental,
uma
psicopedagoga,
uma
fonoaudióloga, além do acompanhamento psiquiátrico, para que o potencial de L. fosse
desenvolvido o mais rápido possível. A ajuda da escola também foi bastante importante
nesse momento (escola normal que se propôs a ajudar e adaptar L. dentro de suas
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Intervenção do acompanhante terapêutico em pacientes com transtorno do espectro autista
limitações). O trabalho de AT neste caso foi requerido na escola para que essas
intervenções surtissem maior efeito, já que L. estuda período integral e está em processo
de alfabetização. L. teve uma AT por mais ou menos seis meses indo três vezes por
semana na escola, porém trabalho não deu certo devido à falta de multidisciplinaridade
da profissional. Outra AT foi indicada ao caso, já com o intuito de seguir orientações dos
profissionais envolvidos primeiramente no caso. O trabalho é realizado todos os dias da
semana, durante mais ou menos cinco horas por dia.
A primeira etapa do trabalho, além da formação do vínculo, é a fase de
contenção onde a paciente deve ser amparada em suas angústias. No caso de L., talvez
por ser criança, não havia verbalização no sentido dela falar o que estava sentindo no
momento, apenas comportamentos estereotipados e agressividade verbal. Essa era a
maneira que a paciente encontrou para liberar sua tensão. A AT presenciava birras como
choros, gritos, isolamento quando ia acontecer alguma atividade pedagógica, além das
palmas repetitivas que dava quando se mostrava nervosa ou ansiosa (palmas estas que
deixavam suas mãos calejadas). Nesta etapa, a AT tinha a função de perceber essas
manifestações como um pedido de ajuda.
Após mais ou menos um mês de acompanhamento diário na escola L. e a AT já
tinham um bom vínculo a ponto dela usá-la como referência. A AT sempre fez
brincadeira de cócegas com ela, fingindo ser o Lobo Mau dos contos de fadas, até que um
dia, inesperadamente, corre atrás dela pelo pátio dizendo ser ela o Lobo Mau e que vai
enchê-la de coceguinhas. Essa atitude não pode ser considerada como criativa, pois se
trata de uma imitação do paciente frente às inúmeras brincadeiras da AT. Porém, em
outro momento, L. no pátio brincando sozinha, como de costume, se abaixa e pega duas
folhas grandes de árvore no chão e as coloca na cabeça, fingindo ser um coelho. Nesta
situação houve um ato criativo da parte da paciente, a qual ela mesma se propôs a fazer a
brincadeira e incluir a AT naquele ato imaginativo.
Durante os momentos em sala de aula, L. mostrava-se bastante isolada de todos e
parecia não estar realmente ali, presente numa sala com mais quinze alunos entre cinco e
seis anos de idade. Um papel fundamental do AT nessa situação é ajudá-la no seu
“reinvestimento”, ou seja, servir de ego para que ela consiga realizar certas funções. Se,
por exemplo, estavam reunidos em roda, todos em volta da professora, ouvindo
instruções sobre as atividades, a AT estava ali, atrás dela, traduzindo tudo em seu ouvido
de forma simples e clara o que deveria ser feito. L. tem uma rotina intensa tanto dentro da
escola como fora. Faz acompanhamento psicológico e psicopedagógico toda semana,
comprometendo suas manhãs, além de estar duas vezes na semana em período integral
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na escola. Para que L. não se desorganize – já que uma mudança em sua rotina pode
causar grandes acontecimentos – a AT a orienta com relação ao seu espaço social
antecipando suas atividades. Às vezes, dependendo do seu humor no dia, essa atitude é
um desastre, porém na maioria das vezes funciona como um estímulo, pois sempre lhe é
explicado com detalhes o que está por vir.
Em continuidade ao exposto acima, a AT contribui para um olhar ampliado do
mundo objetivo da paciente, pois esta tem uma visão ampla de sua rotina com sua
família, na escola, em terapia, e isso pode ajudar aos poucos a modificar alguns
comportamentos estereotipados que estão presentes em alguns desses momentos,
utilizando uma técnica comportamental na qual a paciente generalize o que faz com a AT,
em ambientes nos quais não está com a mesma. Há a dificuldade em fazer uma criança de
cinco anos com diagnóstico de Síndrome de Asperger ter e fazer o uso de um espaço para
pensar. Porém, esse momento para L. pode ser vivido quando fica mergulhada em seu
passatempo favorito: os gibis. A intensa rotina de aula atrelada à AT, que está sempre
presente intervindo de alguma maneira, faz com que L. fique estressada e precise relaxar
em alguns momentos. Os gibis são para ela como uma fuga, na qual a menina precisa ter
para recompor suas energias.
A relação da AT com a família de L. está melhorando aos poucos. Houve apenas
um encontro com a mãe desde o início do acompanhamento, há mais ou menos três
meses. Porém, sempre que necessário, a mãe está disponível para conversar, mantendo
contato semanal com a psicopedagoga e a psicóloga do caso, aproveitando a ocasião para
colher informações sobre o trabalho da AT, o que não deixa de ser um acompanhamento
de perto da situação. Para melhorar o diálogo foi sugerido pelas profissionais um caderno
de comunicação entre a mãe e a AT. Assim, informações do dia-a-dia na escola podem ser
relatadas e comentadas com mais proximidade.
3.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O trabalho do Acompanhante Terapêutico é muito importante para pacientes
psiquiátricos na medida em que ele tem o objetivo de (re) inseri-lo na sociedade.
Geralmente, eles se encontram em situações nas quais, sozinhos, não conseguiriam se
estruturar. A principal função do Acompanhante Terapêutico é a possibilidade de
“emprestar seu ego” ao paciente. Pode-se perceber que tanto M. como L. precisam de um
ego auxiliar para que possam atuar de forma mais natural em seu ambiente, e isso o AT
pode proporcionar durante o tempo de acompanhamento, até que se sintam preparadas
para seguir sozinhas. O trabalho do Acompanhante Terapêutico é intenso mesmo que seja
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Intervenção do acompanhante terapêutico em pacientes com transtorno do espectro autista
feito por poucas horas semanais. Este empresta seu ego àquela pessoa que busca estrutura
e isso pode ser, na maioria das vezes, desgastante para o profissional.
O acompanhamento de L. na escola exige atenção integral a ela, pois são
aproximadamente cinco horas diárias ao seu lado. O trabalho é muito rico, já que há uma
imensa gama de contingências ao seu redor, como por exemplo, seus colegas de sala,
professores e o resto da escola (como orientadores e alunos em geral). As funções que o
Acompanhante Terapêutico exerce sobre L. são fundamentais para seu desenvolvimento,
principalmente pelo fato dela estar em plena fase maturacional. São utilizadas abordagens
comportamentais a fim de que ela tenha resultados mais rápidos e que possa erradicar por
completo suas estereotipias.
Já o trabalho com M. é realizado por duas horas semanais em sua casa, sem que
isso seja motivo de depreciação. As primeiras sessões com M. foram tão intensas a ponto
de haver o que Melanie Klein (1946) chamou de identificação projetiva, ou seja, o paciente
projeta no Acompanhante Terapêutico sentimentos, e o Acompanhante Terapêutico fica
identificado com tais emoções. Com isso, o profissional acaba sentindo esse sentimento
como se fosse próprio. O comportamento desorganizado de M. acabou sendo sentido pela
própria Acompanhante Terapêutica ao final das sessões e isso foi fundamental para que
houvesse um primeiro objetivo do trabalho. Nenhuma abordagem específica é utilizada,
porém pode-se considerar que interpretações psicanalíticas são feitas através de sua
história de vida e situações pontuais.
O paciente que é acompanhado por um Acompanhante Terapêutico precisa de
um lugar no mundo e é através deste profissional que ele vai conseguir se organizar a
ponto de criar uma independência estrutural. O essencial é mostrar que não importa o
setting, ou seja, o lugar onde o acompanhamento terapêutico é realizado, não importa a
história de vida do paciente, seu diagnóstico, ou mesmo a abordagem usada nas
intervenções, mas sim a função do acompanhante terapêutico, que será sempre a mesma,
independente do caso.
A prática de Acompanhamento Terapêutico, nos moldes em que costuma ser
aplicada atualmente, é muito recente e não há tantos estudos que possam servir de
modelos, inclusive por se tratar de uma terapêutica de longo prazo. É importante que se
possa investigar e estudar cada vez mais tais funções relatadas neste artigo, a fim de se
consolidar como prática terapêutica eficiente em variados quadros clínicos e, a partir das
comparações, poder criar modelos de intervenção que possam ser praticados pelos
profissionais da área.
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REFERÊNCIAS
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Sancho Pança. São Paulo: Unimarco Editora, 2005.
KLEIN, Melanie. Notas sobre alguns mecanismos esquizoides. In: ______. Obras completas de
Melanie Klein.Vol. III. Rio de Janeiro: Imago, 1946.
LONDERO, I.; PACHECO, J.T.B. Por que encaminhar ao acompanhante terapêutico? uma
discussão considerando a perspectiva de psicólogos e psiquiatras. Psicologia em Estudo, Maringá,
v.11, n.2, p. 259-267, 2006.
SANTOS, L.G.; MOTTA, J.M.; DUTRA, M.C.B. Acompanhamento terapêutico e clínica das
psicoses. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, ano VIII, n. 3, 2005.
MANUAL Diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (DSM-IV). 4.ed. Porto Alegre: Editora
Artes Médicas, 1995.
MAUER, S.K.; RESNIZKY, S. Acompanhantes terapêuticos e pacientes psicóticos: manual
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______. Acompanhantes terapêuticos – atualização teórico-clínica. Editora Letra Viva, 2003.
SAFRA, G. Placement: o modelo clínico para o acompanhamento terapêutico. Psychê, São Paulo,
ano X, n. 18, p. 13-20, 2006.
WINNICOTT, D. Alojamentos para crianças em tempos de guerra e de paz. In: ______. Privação e
delinqüência. São Paulo: Martins Fontes, 1948.
Juliana Tofaneli Mello
Pós-graduanda do curso Psicopatologia e Saúde
Pública da USP (em andamento), formada em
Acompanhamento Terapêutico, e graduada em
Psicologia pela Universidade Presbiteriana
Mackenzie.
Ana Rita Bruni
Pedagoga, especialista em Psicopedagogia,
especialista em Educação por Projetos pela
Faculdad Latino-America de Ciências Sociales
(FLACSO) e Universidade Autônoma de Madrid,
consultora escolar em projetos individuais para
crianças com necessidades especiais, autora de
livros infantis, escritora de artigos e capítulos em
livros sobre autismo e temas afins, parecerista da
Encontro: Revista de Psicologia, coordenadora do
Grupo de Apoio aos Pais, do Ambulatório de
Cognição Social Dr. Marcos Tomanik Mercadante,
da Unidade de Psiquiatria da Infância e da
Adolescência,
Escola
Paulista
de
Medicina/Unifesp.
Encontro: Revista de Psicologia š Vol. 15, Nº. 23, Ano 2012 š p. 37-47
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