Na Contramão da Saudade

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Na oãmartnoC da Saudade
Se você tem 30 anos ou mais, com certeza viveu alguma época em que um movimento musical surgiu e marcou a cultura brasileira. Como
a bossa nova mudou a vida no final dos anos 50? Será que a jovem guarda te fez suspirar nos anos 60? Como a tropicália contribuiu para a
revolução comportamental nos anos 70? E finalmente, como o rock marcou uma década considerada perdida, como foram os anos 80?
A música popular brasileira (MPB) foi sempre muito produtiva. Mas, especialmente nos últimos cinqüenta anos, as gerações musicais foram
surgindo e reinventando, deixando sempre alguma – ou muita – coisa para a seguinte. Assim, a nossa música se construiu sobre uma base rica
e sólida, capaz de segurar muita coisa que ainda haveria por vir.
Em 1958, João Gilberto revolucionou e veio trazendo uma batida nova de violão. No ano seguinte, quando Gilberto lançou o seu LP, com
a imortal gravação de “Chega de Saudade” deu-se o início da bossa nova. O movimento modernizou a música brasileira e até quem menos se
esperava, como Roberto Carlos, bebeu da fonte de João Gilberto para, depois, dar início à Jovem Guarda.
A introdução do rock na música brasileira foi marcada por um estilo que tentava imitar os roqueiros norte-americanos e as versões de músicas estrangeiras, o que deixou os intelectuais da bossa nova e da classe musical politizada que se formava revoltados. Mas, no final da década
de 60, a tropicália mostrou que o descompromisso político também tem o seu valor. A vontade de quebrar os padrões de comportamento fez
com que os tropicalistas resgatassem o passado e o que era mal visto pela sociedade e pelo grupo de intelectuais da época.
Como conseqüência da introdução do rock americano na MPB, apareceu, na década de 80, uma geração de bandas que já não tinham
a preocupação de protestar através da arte, uma vez que o Brasil estava voltando à democracia. Esses grupos, em sua maioria, fazem sucesso
até hoje, comprovando sua qualidade e a importância da reciclagem musical.
Esse caderno especial de O Globo mostra tudo que mudou os rumos da música brasileira. Divirta-se e mate as saudades.
Na Contramão da Saudade
O Globo
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Uma releitura da bossa nova
Musicos como Bebeto Castilho e Roberto Menescal
apresentam novas visões do ritmo que marcou o Brasil
Mas, o maior show da história da bossa nova só foi acontecer
em meados de 1962, na boate Au
Bom Gourmet, em Copacabana. O
espetáculo O Encontro reuniu os
tradicionais nomes da bossa nova:
João Gilberto, Tom Jobim, Vinícius
de Moraes e grupo Os Cariocas. As
canções que até hoje são marcas da
bossa nova estrearam no concerto
que durou um mês e meio. Só Danço Samba, Samba da Bênção, Samba do Avião e Garota de Ipanema
entraram para a história da música
popular brasileira naquele agosto de
1962. O show foi gravado, mas nenhuma gravação oficial foi divulgada. Os fãs se contentam com áudios
piratas.
A cantora Elizete Cardoso poderia ter entrado para a história da música nacional com o disco “Canção
do Amor Demais”, de maio de 1958.
Foi nesse LP que a batida do violão
de João Gilberto, que daria início
a bossa nova, estreou. Mas não foi
para valer. Só dois meses depois, em
julho, que Gilberto lançaria um 78
rotações com essa mesma batida. No
lado A do disco estava a canção-título “Chega de Saudade”, de autoria
de Tom Jobim e Vinícius de Moraes.
O lado B tinha uma composição do
próprio cantor: “Bim-Bom”. Pronto, a
bossa nova começava a mostrar que
o mundo não seria mais o mesmo.
Divulgação
A bossa nova conquista o
mundo
Capa do disco “Chega de Saudade”
Nem todo mundo, porém, acha
que a bossa foi lançada nesse ponto
de 58. Em entrevista a um portal de
notícias, Bebeto Castilho, integrante
do lendário Tamba Trio, afirmou que
a bossa nova foi uma progressão
natural dos músicos. “A bossa nova
não foi inventada por ninguém, todos trouxeram sua contribuição. Se é
que ela tem um ponto de partida, ela
não começou com o João Gilberto
em 1958, ela começou no início da
década de 50, nos bastidores das rádios, com os músicos conversando,
tendo idéias e se encontrando para
tocar”, declarou.
Ainda de acordo com Castilho a
importância de João Gilberto para o
movimento da bossa nova foi como
a de um guia. “Os músicos acompa-
nhavam o que acontecia, estavam
ligados ao João. Mas o público levou um susto, ninguém nunca tinha
ouvido nada semelhante. Era uma
musicalidade que vinha amadurecendo no piano do Tom Jobim, do
João Donato, em vários músicos.
Mas o João definiu o caminho dele
Divulgação
O músico Bebeto Castilho
e acertou em cheio, a sensação para
todos foi de ‘é esse o caminho’. Essa
mudança estética foi dada pelo João
e foi maravilhosa”.
O primeiro show da bossa nova
como um movimento foi no Grupo
Universitário Hebraico, no bairro carioca do Flamengo. O nome surgiu
das mãos de uma secretária anônima. Um cartaz pendurado na porta dizia: “Hoje, Sylvinha Telles e um
grupo bossa nova”. A cantora mais
famosa da noite carioca de então,
Sylvia Telles, recebia no palco nomes
como Roberto Menescal, Naral Leão,
Carlos Lyra entre outros. Mas foi em
1959 que Tom Jobim, em Desafinado, oficializou o nome, dizendo que
aquilo era bossa nova e muito natural.
Foi também em 1962 que a bossa brasileira ganhou o mundo. Em
abril, os jazzistas norte-americanos
Stan Getz (sax) e Charlie Byrd (violão)
lançaram “Jazz Samba”, disco que
atraiu a atenção do mundo para
o ritmo da bossa nova. Mas foi em
novembro desse mesmo ano que a
bossa nova se consagrou no exterior.
Uma das casas de show mais famosas do mundo, a Carnegie Hall de
Nova York, apresentou o Concerto
de bossa nova. No palco os nomes
já conhecidos no Brasil: Carlos Lyra,
Roberto Menescal, Tom Jobim, João
Gilberto etc. Na platéia três mil pessoas, algumas com nomes ilustres,
como Miles Davis, Peggy Lee e Tony
Bennett.
Em 1964, enquanto os artistas
brasileiros procuravam as artes como
uma forma de expressão política, a
gravadora americana Verve lançava
o disco de maior impacto internacional da bossa nova. O álbum “Getz/
Gilberto”, de João Gilberto e o saxofonista americano Stan Getz, contou
com as participações de Tom Jobim
e Astrud Gilberto, então mulher de
Na Contramão da Saudade
O Globo
João. Além de ser consagrado com
96 semanas na lista dos mais vendidos, cinco prêmios Grammy – inclusive o de melhor cantor para João
Gilberto – e dois milhões de cópias
vendidas do single de Girl From Ipanema, o LP definiu a bossa nova e
criou todos os padrões de som para
o estilo no exterior.
A música Garota de Ipanema,
de Tom Jobim, ganhou o título de
segunda canção mais tocada do século 20, perdendo apenas para Yesterday, dos Beatles. Mas para Tom, a
musa de Ipanema poderia ser considerada vencedora, porque “os Bea-
Anos depois, nas décadas de 80
e 90, a bossa nova brasileira flertou com a música pop estrangeira,
mas sem grande sucesso. Foi só em
2000 que o estilo voltou com força
total, graças a Bebel Gilberto, filha
de João Gilberto. Assim como o pai,
Bebel inovou e modernizou o ritmo,
misturando-o com sons acústicos e
eletrônicos e regravações de João
Donato, Chico Buarque e Vinícius
de Moraes.
Bebel fez sucesso tanto com o
público quanto com a crítica e abriu
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“É essa m. que o Rio de Janeiro manda para gente”
– dono de uma loja de discos de São Paulo ao receber
o 78 rotações de João Gilberto.
“No ano de 1962 fui à Nova York e levei um susto
quando vi um cara na rua assobiando ‘Desafinado’.
Logo pensei que deveria ser um brasileiro, mas, engano meu, era um americano” – Roberto Menescal.
Apesar dos principais cantores da bossa serem cariocas, o precursor do ritmo, João Gilberto, é baiano.
Bebel Gilberto, filha de João Gilberto
tles eram quatro e cantavam em inglês!” Por falar em Tom Jobim, foi ele
quem corou definitivamente a bossa
nova, em 1967. O maior cantor do
mundo de então, Frank Sinitra, gravou o disco Francis Albert Sinatra &
Antonio Carlos Jobim com sete músicas do compositor brasileiro e sua
participação em todo o LP.
Com tanto sucesso no exterior,
não seria difícil pensar que, talvez,
a bossa nova não passasse de um
ritmo que foi apenas feito por brasileiros. O próprio músico Roberto
Menescal diz ter dúvidas se a bossa
é brasileira.
- Essa questão é muito interessante, porque a bossa tem um sabor
internacional e, por isso, fez sucesso
lá fora. O sucesso no exterior é uma
devolução da mistura feita pela bossa. O ritmo chegou lá fora primeiro
que nós cantores.
Declarações e curiosidades da bossa
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Folha Imagem
Tom Jobim e Frank Sinatra
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caminho para novos cantores e bandas que queriam seguir essa linha
lounge da bossa nova. A banda BossaCucaNova é um exemplo dessa
modernização. O integrante do grupo, Alexandre Moreira, fala que esse
formato, de certa maneira, é um jeito
de perpetuar o ritmo. “Eu diria que
é uma forma da geração mais nova
ser apresentada e se interessar por
essa música que já é eterna”.
A mistura de sons com a bossa
nova é uma coisa que vem desde os
anos 60, com o surgimento do ritmo. Moreira declara que essa combinação de compassos é essencial a
MPB.
- A bossa nova é fruto da fusão do
samba com o jazz, atraindo os jazzistas, que logo incorporaram o balanço ao repertório deles. Essa mistura é
essencial à música popular de uma
maneira geral, e a mola mestra da
música mundial, eu diria. Mas, viva a
música brasileira!”
Priscilla Caetano
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“Hoje as fronteiras estão menores, o que facilita a entrada de músicas no exterior, mas a música não fica,
porque não tem o sabor internacional que a bossa tinha” – Roberto Menescal.
Os primeiros acordes da bossa nova foram compostos
por João Gilberto em Minas Gerais, na casa da irmã.
“Tudo precisa ser atualizado, se não vira passado total.
E como nós fizemos uma mistura de samba e jazz, a
moçada agora está misturando a bossa nova com os
elementos da geração. Acho que essa é uma das saídas, não a saída. Essa procura é válida e alguns resultados são muito bons” – Roberto Menescal.
A cantora Bebel Gilberto é fruto do casamento de João
Gilberto com Miúcha, por isso, é sobrinha de Chico
Buarque.
“Chega de Saudade”, livro de Ruy Castro, conta como
se formou o movimento.
“Coisa mais linda - histórias e casos sobre a bossa nova”
é um documentário de Paulo Thiago, que traz Roberto
Menescal e Carlos Lyra como contadores da história.
“Vinicius”, documentário de Miguel Faria Jr., é sobre o
poeta e grande parceiro de Tom Jobim.
O musico Roberto Menescal
O legado da bossa nova
O trio BossaCucaNova
“Noites tropicais”, livro de Nelson Motta, conta os bastidores da música popular brasileira.
Na Contramão da Saudade
O Globo
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Festa de arromba
Botinhas coloridas, calças justas e guitarras: a moda que agradou o Brasil
A jovem guarda é uma geração
musical desmerecidamente rejeitada
pelo público intelectual. O movimento
nasceu depois de um passeio de
Roberto Carlos pela música, sem fixar
raízes em nenhum grupo. Mas em
1963, Roberto apareceu com o rock
“Splish, Splash”, música que dava
nome ao seu disco. No ano seguinte,
lançou “Parei na Contramão”, que
abriu as portas para o estouro que
foi “O Calhambeque”. A partir daí,
surgiu o programa “Jovem Guarda”,
exibido pela TV Record. A atração foi
catalizadora de um movimento que
pôs a música brasileira em sintonia
com o fenômeno internacional
do rock e deu origem a toda uma
nova linguagem musical e a novos
padrões de comportamento.
Entravam em cena as guitarras
elétricas, a idéia de uma música
exclusivamente jovem, com signos
jovens e toda uma constelação de
artistas: Wanderley Cardoso, Jerry
Adriani, Eduardo Araújo, Martinha,
Waldirene, Leno & Lílian, Deny
e Dino e grupos como Golden
Boys, Renato & Seus Blue Caps, Os
Incríveis, Os Vips e outros. Em plena
ditadura militar, esse pessoal chegou
sem a menor pretensão de enfrentar
o regime, de cantar a realidade do
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Os Vips: Márcio e Rodolfo
país e, muito menos, fazer músicas
para serem lidas nas entrelinhas.
- À princípio, as músicas da
jovem guarda nunca tiveram um
compromisso com a realidade
brasileira ou qualquer questão mais
profunda. E foi um “tratamento
de choque” para a MPB e para
a
intelectualidade
esquerdista
brasileira da época. As guitarras eram
símbolo de alienação e imperialismo
.– comenta o pesquisador musical
Rodolfo Vicentin.
Além de Roberto e Erasmo,
amigos que se consagraram como
parceiros, e Wanderléa, que se
uniu aos dois na apresentação do
programa de TV, outros cantores
da jovem guarda também fizeram
sucesso. A maioria dos artistas, ao
contrário do pessoal da bossa nova,
era do subúrbio do Rio de Janeiro.
Mas isso não impediu que o pessoal
estivesse atento à música que
estava sendo feita lá fora. Segundo
Marcelo Fróes, autor do livro “Jovem
Guarda em Ritmo de Aventura”, a
consolidação musical dos “ Beatles” é
o motor para a formação de grupos
musicais, como “ Os Vips” e “ Golden
Boys”:
- Antes já tínhamos bandas, como
“The Jordans”, “The Jet Blacks”, ‘The
Divulgação
Renato e seus Blue Caps
Clevers” e “Renato e seus Blue Caps”,
mas naturalmente a explosão da
Beatlemania estimulou que jovens
montassem bandas e sonhassem ser
reis do iê iê iê – afirma, referindo-se
ao modo como o quarteto inglês
ficou conhecido no Brasil.
Na verdade, a origem do
movimento se dá na segunda
metade dos anos 50, quando
começaram a chegar no Brasil os
discos de Elvis Presley e Bill Halley
e de programas como “ Hoje é dia
de rock”, da Rádio Mayrink Veiga,
“Clube do Rock”, na TV Rio e “Crush
em Hi-Fi”, na TV Record. No fim da
década, surgiram os primeiros ídolos
do rock brasileiro. A cantora paulista
Celly Campello embalava hits como
“Estúpido Cupido”, Sérgio Murilo
cantava “Broto Legal”, além de outros
hoje pouco conhecidos, como Tony
Campello (irmão de Celly) e Meire
Pavão.
- A cena roqueira vinha rolando
desde 1956 no Brasil, o rock já estava
aqui desde que nomes como Nora
Ney, Cauby Peixoto e Agostinho dos
Santos fizeram as primeiras gravações
de rock no Brasil – conta Fróes.
Esse pessoal representava o
rock mais voltado para baladas
românticas. Enquanto isso, Roberto
Carlos, Erasmo Carlos, Tim Maia e
seus amigos ouviam o rock que era
o contraponto disso. Os álbuns de
Elvis Presley e Chucky Berry faziam a
cabeça daqueles meninos, que até
formaram um grupo: “Sputinks”. Essa
formação, porém, acabou no mesmo
ano. A Bossa Nova estava surgindo
e ofuscou o brilho dos roqueiros,
conquistando até Roberto Carlos,
que chegou a gravar um disco
“à la” João Gilberto.
Depois um
tempo amargando o esquecimento,
Roberto encontrou seu caminho. O
rock da Jovem Guarda foi marcado
pelo preconceito da esquerda
intelectual. Para Rodolfo Vicentin,
esse preconceito existe até hoje:
- O preconceito que existe hoje
acontece devido ao caráter simplório
das composições e devido ao rumo
que a maioria desses artistas deram
às suas carreiras. Mas acredito que a
maioria das pessoas não tem noção
do impacto da jovem guarda, pois
ela influenciou decisivamente a
música popular brasileira e está em
todos os lugares. A principal herança
Na Contramão da Saudade
O Globo
da jovem guarda pra gente é a
singeleza das composições. Não é à
toa que as composições dessa época
foram e são regravadas por gente de
muito prestígio- garante ele.
Marcelo Fróes discorda. Segundo
ele, o que ocorre é uma veiculação
negativa do movimento nos jornais
mais lidos do país:
- Existe sim certo patrulhamento
por parte de uma minoria de críticos
musicais que escrevem para os
jornais mais lidos, tão somente. O
público sempre gostou, e as novas
gerações conseguem escapar à esse
boicote que a crítica sempre praticou
e buscam informações na Internet,
livros etc.
O programa “Jovem Guarda”
terminou em 1968, devido à falta
de patrocinadores e a Roberto
ter decido enveredar pela música
romântica depois de ganhar o
Festival de San Remo, na Itália. A partir
daí, cada um seguiu o seu caminho.
Alguns acompanharam o “Rei” no
romantismo, outros continuaram no
rock, outros ainda entraram para a
música brega e para a sertaneja.
Este ano, um show em
comemoração aos 50 anos da Bossa
Nova pretende unir três gerações
musicais diferentes, mas que sempre
estiveram ligadas.. Programado para
o dia 5 de agosto, o encontro entre
Caetano Veloso e Roberto Carlos, no
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Curiosidades
5
A moda da
jovem guarda
Conheça as gírias que viraram moda entre os jovens
O movimento dos anos 60 também ditou moda entre
fãs da “jovem guarda”:
os fãs. Conheça um pouco desse figurino descolado.
Acender: Excitar
Calças: Jeans (Lee), saint-tropez, boca-de-sino. PreferênBicho: o mesmo que cara, cia: em duas cores e colada.
pessoa
Camisas: de malha e mangas compridas, tudo muito
Broto: garota, rapaz, na- colorido.
morado, namorada.
Saias: mini-saias, vestidos tubinhos, também muito colado.
Carango: carro
Coruja: pessoa convenci- Cintos: fivelas
da, orgulhosa
Sapatos: Botas estilo “beatles”, cano alto e botinhas coEmbalo: diversão, euforia loridas.
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Papo-firme: bacana, moderno
Pinta: aparência, jeito
Pra frente: moderno, avançado
Cuca: cabeça
Morar: entender, morou?
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Roberto Carlos canta no
programa Jovem Guarda
Teatro Municipal do Rio de Janeiro,
para cantar músicas de Tom Jobim
promete marcar época.
- Faz sentido, afinal no começo
de sua carreira, antes mesmo de
gravar seu primeiro disco, Roberto
dividia seu amor pela música com
o rock’n’roll, com os boleros e com
a bossa nova. O maior expoente
da Jovem Guarda com o grande
mentor intelectual da Tropicália –
afirma Fróes.
Elis Batonelli
Wanderléia, Roberto e Erasmo mostram a moda da jovem guarda
A turma da jovem guarda
Na Contramão da Saudade
O Globo
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Tropicalismo: a mistura brasileira
“Tropicália, a obra”
O ano é 1967, no início uma palavra, Tropicália, e um encontro: Hélio Oiticica, um agente provocador
das artes brasileira, e Caetano Veloso, um cantor jovem disposto a pôr
suas idéias em circulação. Em abril, o
Museu de Arte Moderna do Rio de
Janeiro recebia a exposição Nova
Objetividade Brasileira, e nela Oiticica
apresentava a instalação Tropicália,
um ambiente em forma de labirinto
com plantas, areia, araras, um aparelho de TV e capas de Parangolé.
Hélio Oiticica em 1964, ano do
golpe militar no Brasil, se torna passista da Mangueira e passa a conviver
intensamente com a comunidade
do morro. Nos anos seguintes, reivindica uma arte que promova uma
relação com aquele que a observa.
Isto é, a grande arte é feita quando
se constrói relações com quem a vê,
e todas as diferenças, sobretudo de
classe social, são abolidas.
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Maria Bethânia disse isso ao irmão
Caetano, em 1967, não sabia que
estava influenciando um dos movimentos que transformariam o cenário cultural brasileiro.
Em entrevista à revista Bravo, Caetano contou como teve o primeiro
contato com o termo Tropicalismo:
“Ouvi primeiro o nome Tropicália, sugerido como título para minha canção, do cineasta Luís Carlos Barreto,
que me ouviu cantá-la em São Paulo
e se lembrou do trabalho de um tal
Hélio Oiticica. Resisti a pôr em minha
música o nome da obra de um cara
que eu nem conhecia”.
Caetano Veloso e Gilberto Gil
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Caetano vestindo “Parangolé”
(capa) de Oiticica
“Tropicália, a música”
“Você está por fora, Caetano. Veja
o programa do Roberto Carlos. Ele é
que é bom. O resto está ficando um
negócio chato, tão chato que prefiro
músicas antigas. Largue esse violão e
cante com uma guitarra. O violão é
muito pouco para você! Escolha um
instrumento que tenha o mesmo grito, que tenha o seu gosto.” Quando
Caetano Veloso e Gilberto Gil
causaram grande impacto em apresentações no III Festival de Música
Popular da TV Record, no ano de
1967. Ali, foram lançadas as bases
para o Tropicalismo. Em maio de
1968, começaram as gravações do
álbum que seria o manifesto musical
do movimento, do qual participaram
artistas como Gal Costa, Nara Leão,
Os Mutantes, Tom Zé - além dos poetas Capinan e Torquato Neto e do
maestro Rogério Duprat. A resistência de Caetano com o termo tropicalismo não durou muito tempo,
depois da canção, um LP: “Tropicália
ou Panis et Circensis”, foi lançado em
1968.
Enquanto o grupo da “Canção
de Protesto” negava a entrada de
qualquer elemento da cultura pop
e a “Jovem Guarda” de Wanderléia,
Erasmo e Roberto fazia canções inspiradas no sucesso do rock inglês
e norte americano, os tropicalistas
se dedicavam a inovar radicalmente a estética da música brasileira.
Eles chegaram para encaminhar a
música popular para outra direção,
derrubando tudo que estivesse pela
frente.
Assim como nos anos 60 a Bossa
Nova se associou ao Jazz norte americano, Caetano propunha que o tropicalismo se adaptasse ao rock. No
esforço de modernização, Caetano
e Gil traziam as guitarras elétricas do
iê-iê-iê importado e misturavam com
ritmos mais tradicionais. Sincrético e
inovador, aberto e incorporador, o
Tropicalismo misturou rock, bossa
nova, samba, rumba, bolero e baião.
Sua atuação quebrou as rígidas barreiras que permaneciam no País:
Pop x folclore, Alta cultura x cultura
de massas e Tradição x vanguarda.
Essa ruptura estratégica aprofundou
o contato com formas populares ao
mesmo tempo em que assumiu atitudes experimentais para a época.
“A gente se opunha ao nacionalismo, porque a esquerda era nacionalista e a gente se opunha a essa
atitude da esquerda que se opunha
a nós. Eles achavam que nós devíamos procurar as raízes brasileira.
Nós queríamos fazer o contrário do
que a Bossa Nova fazia, virar ela pelo
avesso e pegar tudo que ela tinha
precisado botar de parte para poder
se afirmar como estilo”, diz Caetano
Veloso.
O nacionalismo de esquerda
vaiou os tropicalistas, Ao passo que
eles responderam com retóricas e
iradas frases de efeito. Segundo o
ministro da Cultura Gilberto Gil, “O
Tropicalismo surgiu mais de uma
preocupação entusiasmada do que
propriamente um movimento organizado.” Eles Aderiram ruidosamente a ruptura dos padrões comportamentais patriarcais e rejeitaram a
esquerda brasileira, que colocava
como prioridade a tomada do poder, e estabelecia como secundária
a reflexão sobre a mudança de valores, a chamada “Revolução sexual”.
Com o visual hippie e o desejo de
se alinharem aos rebeldes de maio
de 68 em uma avassaladora “Revolução Cultural”, os tropicalistas se
indispuseram tanto com a ditadura
quanto com a esquerda nacionalista.
Moda nas palavras de Caetano Veloso, era o tom do momento. Criticado
por levar guitarra elétrica para os festivais, por usar cabelos compridos e
roupas de mulher e ligado à contracultura norte-americana, tornou-se
referência para a própria cultura de
Na Contramão da Saudade
O Globo
Divulgação
protesto brasileira.
Em 1968 os movimentos culturais
fervilhavam no Brasil, até esta data,
intelectuais e movimentos de esquerda podiam agir livremente, mesmo
que com pequenos problemas com
a censura. Para o jornalista Zuenir
Ventura, 68 foi um ano “que não
terminou”. Entre os inúmeros acontecimentos marcantes do ano estão
a revolta dos estudantes em Paris, a
passeata do 100 mil no Rio de Janeiro liderada por artistas e intelectuais,
a decretação do AI5 e o lançamento
do LP Tropicália ou Panis et Circenses, síntese de um movimento musical revolucionário que iria mexer
com a cabeça de muita gente. Neste
mesmo ano, com o crescimento da
oposiçã, o general Costa e Silva, presionado pela extrema direita, respondeu com o ato institucional n° 5, que
decretava o fim das liberdades civis e
de expressão.
Divulgação
Contexto histórico brasileiro
- Os militares tomam o poder em 31 de março de
1964.
- Castello Branco assume a presidência do país, se tornado o primeiro de uma série de generais-presidentes
ditatoriais.
Gal Costa e Caetano Veloso
dor recomendados pelo movimento
fazem total sentido em um mundo
cada vez mais multicultural e interativo regido pela globalização e pela
internet.
Quarenta anos depois, o tropicalismo continua cada vez mais atraente. Para Caetano, isso mostra que a
questão foi e permanece a mesma,
de 1967 a 2008. A busca e a necessidade de invenção: “’Uma criança
sorridente, feia e morta estende a
mão’, como diz a letra da canção
Tropicália. Porque a América Latina
não tem futuro, a língua portuguesa
não tem futuro, a África não tem futuro: então temos de inventar tudo”.
E o mundo parece agora ter o desejo de imaginar qual futuro poderá
ser esse.
Juliana Ceccon
Capa do LP Tropicália
Os tropicalistas foram expulsos
pela ditadura que destruiu a hegemina cultural que a esquerda mantinha desde o governo Jango. Assim,
artistas que não tinham colocado
como prioridade a contestação política tornaram-se da noite para o dia
mártires da brutalidade dos militares.
40 anos de tropicalismo
Na área cultural o ambiente internacional já sabe que existe uma produção de qualidade e originalidade
feita nos trópicos. Hoje, a Tropicália
interessa ao mundo. A colagem de
gêneros e a participação do especta-
7
- Até 1968, intelectuais e movimentos de esquerda podiam agir livremente, com pequenos problemas com a
censura.
- A produção cultural do país estava intensa: peças do
Teatro Oficina, do Opinião e do Arena, canções de protesto, músicas da Jovem Guarda, passando pelos filmes
do Cinema Novo e pelas artes plásticas. Em todas as áreas, a política fazia-se presente.
- Em 1968, o governo decreta o AI-5, que proibia de vez
a liberdade de expressão e os direitos civis.
- A partir de 1967, houve confrontos entre artistas nacionais: os nacionalistas de esquerda e os vanguardistas do
tropicalismo.
- Em 1984 a democracia volta a ser o regime político
brasileiro.’
Na Contramão da Saudade
O Globo
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“Esse tal de Rock’n’Roll”
A inspiração veio do exterior, mas os artistas interpretavam de maneira própria
O rock brasileiro da década de 80
ou, como muitos preferem dizer, o
pop rock nacional foi batizado pelo
cantor Nelson Motta de BRock. As
letras das músicas falavam dos amores, perdidos ou bem sucedidos, e de
temáticas sociais. Os artistas do rock
nacional marcaram aqueles anos
com suas roupas coloridas, cabelos
armados, caras e bocas: os elementos que caracterizaram o tempo do
brega.
O sucesso do conjunto carioca
Blitz abriu portas para os outros grupos que só ensaiavam nas garagens.
Foi em 1982 que o trio de Evandro
Mesquita, Fernanda Abreu e Lobão
estourou com a música “Você não
soube me amar”. E o Circo Voador,
berço de várias bandas consagradas
na época, revelou Paralamas do Sucesso, Kid Abelha e Os Abóboras Selvagens e Barão Vermelho. O baterista da Bliz William Forghieri explica
o que acredita ter sido a fórmula de
sucesso da banda.
- Acho que as músicas alegres, as
vozes femininas e o jeito carioca do
Evandro (Mesquita, vocalista da Blitz)
de ver as coisas, com humor, nos
ajudaram a tentar fazer o povo esquecer os problemas sociais daquela
época, revelou.
Divulgação
A banda carioca Blitz
Alguns cantores ficaram conhecidos pelo tom de brincadeira com
que interpretavam as canções. O
Brasil vivia a fase final da ditadura
militar e o rock virou hino da juventude bem-humorada e cansada dos
tempos difíceis. Um exemplo foi o
Mas foi de Brasília que veio uma
das bandas que perpetuou o pop
rock brasileiro até os dias de hoje.
Em 1980, Renato Russo, Fé Lemos e
Flávio Lemos se juntaram para criar o
Aborto Elétrico, mas a banda não foi
adiante. No ano em que o conjunto
se separou surgiu a grande e famosa Legião Urbana. Dapieve diz que
o que perpetuou a Legião foram as
letras escritas por Renato Russo.
- O Renato fez letras que pudessem sobreviver ao tempo, sem se
prender a fatos específicos. Em alguns momentos ele se relaciona
com Brasília, mas se a pessoa não
conhece a cidade, a canção vai continuar fazendo sentido. As músicas
da Legião Urbana ainda são atuais,
comentou.
Ainda do Distrito Federal, nasceDivulgação
grupo paulista Ultraje a Rigor, que
tratava os problemas do país com
ironia e deboche, como na letra de
“Inútil”. Outras bandas, porém, como
os Engenheiros do Hawaii, chamaram a atenção pela ácida crítica aos
padrões da sociedade de então. O
jornalista e crítico musical Arthur
Dapieve explica porque o ritmo se
transformou em forma de manifestação cultural.
- O rock é a trilha sonora adequada para o processo de democratização. As letras vão tratar de liberdade
civil, sexo, drogas e rock’n’roll, o que
não combina com o que uma ditadura prega. Então ele dá a brecha
para um Estado que está começando a rachar, diz.
As influências musicais eram as
mais diversas, desde o rock inglês
e americano até a jovem guarda,
passando pelo new age, punk e reggae. Os Paralamas do Sucesso, por
exemplo, misturaram o rock inglês
com o reggae e ritmos africanos no
disco “Selvagem?”, de 1986. Músicas
como “Alagados” e “A Novidade”
mostraram um som considerado
revolucionário por público e crítica
daqueles anos.
Os estados de São Paulo, Rio de
Janeiro, Rio Grande do Sul e Brasília
foram os que deram o tom e revelaram as maiores bandas de pop rock.
Foi de São Paulo que surgiu o maior
fenômeno de vendas das bandas
dos anos 80. O RPM, liderado pelo
carismático Paulo Ricardo, quebrou
recordes de vendagens de discos e
de shows no país. O segundo disco
da banda, “Revoluções Por Minuto”
vendeu 2,2 milhões de cópias.
O vocalista Renato Russo
ram nomes como Plebe Rude e Capital Inicial. Algumas bandas, como
o Capital Inicial, não chegaram a estourar nos anos 80, mas faria maior
sucesso tempos depois. Outras, no
entanto, morreriam junto com a década perdida.
Priscilla Caetano
Divulgação
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A banda paulista RPM
O sucesso do Capital Inicial
viria mais tarde
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