A percepção que o pior momento da crise europeia

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mar 12
n 036
CARTA DO GESTOR
A percepção que o pior momento da crise europeia tenha passado vem
ganhando força, apesar de reconhecermos que os problemas estruturais no
continente estão longe de serem resolvidos. E, a despeito de eventos pontuais mais negativos
que possamos ter em algumas partes do mundo (a exemplo do crescente questionamento da “saúde fiscal” espanhola),
esta é a visão geral que segue atuando sobre o sentimento de participantes dos mercados financeiro. Foi assim que a
bolsa americana fechou o mês com alta de 3.1%, e o trimestre com valorização de 12% - a melhor performance da
última década e meia. Já a Bovespa acabou sendo mais regida pelo fluxo negativo de notícias locais em setores de peso
relevante no índice (mineração e bancos, em particular) e encerrou em queda de 2.1%, acumulando no ano alta de 13%,
em moeda local. O Real sofreu desvalorização de 6.4%, refletindo as medidas de apoio à indústria brasileira e a
persistente estratégia de defesa de “piso” cambial adotadas pelo governo, e com isso reverteu a forte valorização
observada no inicio do ano, fechando o trimestre com valorização de 2%.
Na Europa, o mês de março viu concluída uma importante etapa da questão europeia, a renegociação e reestruturação
da dívida grega em posse de estrangeiros. O plano, que havia sido idealizado em julho do ano passado, teve
participação voluntária de mais de 80% dos investidores e chegou assim a nível que permitiu a ativação das “cláusulas
coletivas”, mecanismo aprovado pelo Congresso grego para estender as condições de renegociação para aqueles
investidores que não aceitassem espontaneamente os novos termos. Com isto, o governo grego foi capaz de
reestruturar quase integralmente sua dívida, “economizar” mais de € 200 bilhões dos cofres públicos e colocar as
condições para que sua dívida atinja 120% do PIB em 2020 (projeções da troika, composta por FMI, Comissão Europeia e
Banco Central Europeu), que hoje se aproxima de 160% do PIB. Parte significativa do problema foi assim solucionada, e
os rumores de saída da Zona do Euro foram fortemente silenciados. Mas persiste um longo caminho de reformas,
austeridade, insatisfação social e crescimento diminuto a ser trilhado no país, em direção ao reordenamento da
situação fiscal e recuperação da economia. As chances de que a Grécia saia definitivamente do “radar” dos mercados é,
assim, bem pequena, especialmente porque o país tem eleições nacionais previstas para o início de maio.
Em paralelo, após onda de números melhores na Zona do Euro, dados recentes de confiança dos empresários
mostraram leve deterioração, levantando questionamentos sobre a sustentabilidade da recuperação econômica em
curso, ainda que os níveis atuais sejam compatíveis com a expectativa do mercado de recessão apenas moderada neste
ano. E, passado o risco de curto da Grécia, o nervosismo voltou-se para a Espanha, que viu suas taxas de juros da dívida
pública de dez anos alcançarem as marcas mais altas desde janeiro. A sustentabilidade das condições fiscais do país
voltou mais uma vez a ser questionada – como ocorria nos meses pré-realização dos leilões de liquidez do Banco Central
Europeu – e as autoridades espanholas responderam com a aprovação, no Parlamento, de um orçamento mais “duro”,
segundo avaliação do próprio primeiro-ministro Mariano Rajoy, e com demonstrações públicas de forte
comprometimento com o ajuste fiscal, buscando conquistar credibilidade pelos mercados e evitar o cenário de
necessidade de pacote de resgate, como já foram acometidos Grécia, Irlanda e Portugal.
Nos EUA, continuaram sendo observados dados melhores no mês de março, o que confirma um cenário de manutenção
do crescimento moderado. Mesmo com as boas perspectivas para o crescimento americano (melhor situação no
mercado de trabalho e índices de confiança em recuperação contínua há meses), é importante atentar aos potenciais
riscos à economia ao longo do ano: aumento excessivo do preço da gasolina (que pode vir a restringir a renda disponível
das famílias para outros gastos) e o fim de volumosos estímulos fiscais em 31 de dezembro de 2012, eventualmente
resultando em um novo período de impasses no Congresso americano e disseminação de incerteza entre empresas e
consumidores. No campo da política monetária do Federal Reserve (Banco Central dos EUA), o presidente Ben Bernanke
foi mais enfático em seus discursos recentes ao tratar do mercado de trabalho, chamando atenção para o caráter
transitório que atribui ao movimento de queda da taxa de desemprego dos últimos meses (de 9,1% em agosto de 2011
para 8,2% em março desde ano). Bernanke acredita que apenas um crescimento mais rápido da economia daqui em
diante pode garantir que o desemprego siga caindo na mesma velocidade, crescimento que não deve se materializar,
por enquanto, de acordo com os seus próprios cenários. Ao manter o tom cauteloso diante dos dados mais fortes, o Fed
deixa aberta a porta para que novas medidas de estímulo sejam adotadas, na interpretação dos mercados, que ainda
não descartam anúncio de novo programa de expansão quantitativo (o terceiro desde a eclosão da crise de 2008) ou
renovação da “Operação Twist”, que se encerra em junho.
China foi outro assunto importante no mês. A publicação de dados mais fracos de produção industrial nos dois
primeiros meses do ano trouxe de volta o debate sobre a possibilidade de “pouso forçado” da economia. Mas a visão de
mercado que predomina é a de que o pior já tenha sido superado, isto é, devemos observar reaceleração no
crescimento chinês a partir do segundo trimestre de 2012. As projeções de crescimento do PIB chinês concentram-se
entre 8,0% e 8,5% para o ano.
No Brasil, a produção industrial em fevereiro apresentou performance mais positiva e compensou parte da queda de
1,5% observada em janeiro. Em paralelo, sondagens privadas indicaram melhora do acúmulo de estoques excessivos e
pequeno aumento no nível de utilização da capacidade instalada da indústria, aliviando as perspectivas para o setor.
Soma-se a isto o “pacote” de estímulos anunciado pelo governo federal nos primeiros dias de abril, que incluiu
desoneração da folha de pagamentos de 15 setores mais intensivos em mão-de-obra, com contrapartida (parcial) de
taxação sobre o faturamento total a partir de julho, melhores condições de financiamento às exportações e de
financiamento aos investimentos em infraestrutura via BNDES, com juros mais baixos e prazos mais longos. Para
aumentar a capacidade de empréstimos da instituição, o Tesouro realizará aporte de R$ 45 bilhões. As medidas
cambiais não ficaram de fora do pacote, tendo em vista que o diagnóstico do Planalto é de que a principal fonte de
fraqueza da indústria é justamente a valorização do Real brasileiro diante do dólar. Sobre este tema, o ministro Guido
Mantega prometeu que “o importante não são as medidas já tomadas, mas as que ainda vamos tomar”, mostrando
determinação na luta contra o “tsunami monetário”. Decidiu-se também pelo aumento de tributação sobre as
importações que competem com itens produzidos pelos setores beneficiados pela isenção em folha. Acreditamos que
estas medidas devam reforçar apenas moderadamente a recuperação cíclica da indústria, cujos os efeitos serão de
curto prazo e não irão alterar substancialmente o panorama de crescimento para o ano, que também é prejudicado pela
fraqueza da demanda global. Nossa grande crítica à abordagem conduzida pelo governo continua sendo a de que as
causas estruturais e fundamentais da perda de competitividade da indústria não são combatidas, tais como o tamanho
da carga tributária e sua complexidade, a deficiência e os elevados custos de infraestrutura, e o custo e baixa
qualificação da mão-de-obra local.
Outros aspectos da economia doméstica vão ganhando vigor gradualmente. O mercado de trabalho, que experimentou
desaceleração da ocupação nos últimos trimestres de 2011, persistentemente apresenta indicadores melhores, a
exemplo do crescimento da renda e da queda da taxa de desemprego para as mínimas históricas (5,5%, com ajuste
sazonal, em fevereiro). O setor de serviços, segundo Sondagem da FGV, também teve queda interanual mais modesta
em março, em relação a fevereiro. No comércio varejista, os sinais são igualmente de início da retomada, seguindo um
período de menor dinamismo. Nosso cenário é de que os dados de atividade, entretanto, só irão apresentar retomada
mais rápida e clara no fim do segundo trimestre, levando em consideração as defasagens da política monetária do
Banco Central, que começou a reduzir a taxa Selic em agosto do ano passado. A nosso ver, as condições para que
tenhamos aceleração do PIB e crescimento em torno de 3,4% em 2012 estão colocadas, e são reforçadas pelo viés prócrescimento das políticas públicas. A inflação, entretanto, deverá continuar exibindo resultados “bem-comportados” até
meados do segundo semestre do ano, beneficiada pelos reajustes bastante baixos dos preços administrados.
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