UNIVERSIDADE DO EXTREMO SUL CATARINENSE - UNESC CURSO DE FARMÁCIA CAROLINA DA ROSA DOS REIS ATIVIDADE DA CREATINA QUINASE EM CÉREBRO DE RATOS SUBMETIDOS A UM MODELO DE INSUFICIÊNCIA RENAL AGUDA INDUZIDOS COM GENTAMICINA E CONTRASTE RADIOLÓGICO. CRICÍUMA, JUNHO DE 2010. CAROLINA DA ROSA DOS REIS ATIVIDADE DA CREATINA QUINASE EM CÉREBRO DE RATOS SUBMETIDOS A UM MODELO DE INSUFICIÊNCIA RENAL AGUDA INDUZIDOS COM GENTAMICINA E CONTRASTE RADIOLÓGICO. Projeto de trabalho de conclusão de curso, apresentado ao Curso de Farmácia da Universidade do Extremo Sul Catarinense, UNESC. Orientador: Prof. Emilio Luiz Streck CRICIÚMA, JUNHO DE 2010. Atividade da creatina quinase em cérebro de ratos submetidos a um modelo de insuficiência renal aguda induzidos com gentamicina e contraste radiológico. Carolini R. Reisa, Gabriela K. Ferreiraa, Gislaine T. Rezina, Giselli Scainia, Emilio Strecka. a Laboratório de Fisiopatologia Experimental- UNESC Laboratório de Fisiopatologia Experimental, Programa de Pós-graduação em Ciências da Saúde, Unidade Acadêmica de Ciências da Saúde, Universidade do Extremo Sul Catarinense, 88806-000 Criciúma, SC, Brazil Telefone para contato: 55 48- 34312539 Autor Correspondente E-mail: [email protected] RESUMO A insuficiência renal aguda (IRA) é caracterizada pela rápida redução da taxa de filtração glomerular que se mantém por períodos variáveis de tempo, resultando na inabilidade dos rins para exercer algumas funções. Nos dias de hoje, uma das etiologias mais freqüentes de IRA é a nefrotoxicidade por farmácos (27%), onde os aminoglicosídeos são os mais nefrotóxicos. Outra causa importante de IRA induzida é a toxicidade causada por contraste radiológico, que ocorre após a administração intravascular do mesmo. Considerando os efeitos gerados pela IRA, uma das formas de analisar o dano renal após administração de gentamicina e contraste radiológico é através da avaliação da atividade da creatina quinase (CK) do cérebro de ratos, pois tratase de uma enzima crucial para a manutenção da homeostase energética de tecidos altamente metabólicos, como o cérebro. No presente estudo, foi observado que os animais pertencentes aos grupos gentamicina e contraste sofreram dano renal, pois os níveis de creatinina ficaram aumentados, quando comparados ao grupo salina, e assim confirmando a indução já que este é considerado um marcador de função renal. A atividade da enzima CK foi inibida nas estruturas cerebrais como cerebelo e córtex pré-frontal, no grupo administrado com gentamicina. No grupo administrado com contraste radiológico, ocorreu a inibição da atividade da creatina quinase no cerebelo e córtex cerebral. Contudo, a inibição da atividade da CK cerebral após a indução da IRA pode estar associada a um dano neuronal como também pode estar envolvida na patologia de algumas doencas. Palavras-chave: insuficiência renal, creatina quinase, gentamicina, contraste radiológico. 1. Introdução A insuficiência renal aguda (IRA) é caracterizada pela rápida redução da taxa de filtração glomerular que se mantém por períodos variáveis de tempo, resultando na inabilidade dos rins para exercer as funções de excreção, manter o equilíbrio ácido-básico e homeostase hidroeletrolítica do organismo, além de gerar um acúmulo de marcadores comuns da função renal, como a uréia e creatinina, e por vezes diminuir o volume urinário diário [7]. Este dano renal pode ocasionar o desenvolvimento de encefalopatia urêmica, podendo ocorrer uma alteração do estado mental como déficit de atenção e memória, alterações comportamentais, tremores de mãos e anorexia [22]. A perda de função renal desencadeia sérios problemas ao paciente, como anemia, deficiência imunológica, tendência à hemorragia, distúrbio no metabolismo de lipídios, carboidratos e proteínas e vários outros resultantes das toxinas presentes no plasma ou nos fluidos corporais [5]. As principais causas de IRA são: (I) diminuição da perfusão renal sem lesão celular, (II) um insulto isquêmico, tóxico ou obstrutivo do túbulo renal, (III) um processo túbulo-intersticial com inflamação e edema, (IV) ou redução da capacidade de filtração dos glomérulos [24]. A IRA é classificada em pré-renal, renal e pós-renal, podendo também ser classificada quanto à etiologia, como insuficiência renal aguda isquêmica, nefrotóxica e multifatorial [1]. Nos dias de hoje, uma das etiologias mais freqüentes de IRA é a nefrotoxicidade por farmácos (27%), onde os aminoglicosídeos como gentamicina, tobramicina e amicacina são os mais nefrotóxicos [6,8]. A gentamicina é um antibiótico de largo espectro, extremamente eficaz na infecção por gram-negativos, com atividades também contra microorganismos gram-positivos [21,18,15]. A toxicidade deste fármaco é dose-dependente e tem efeito cumulativo, logo, as doses devem ser cuidadosamente administradas. Sabe-se que na constituição da molécula dos aminoglicosídeos, há um número maior de grupamentos amina, atribuindo para maior toxicidade sobre os rins. Assim, verifica-se maior toxicidade renal da gentamicina quando comparada a outros fármacos, por exemplo, a tobramicina [18]. Pode ocorrer agravamento e precipitação da lesão renal, quando há fatores de risco envolvidos, como insuficiência renal pré-existente, idade avançada, associação com anfotericina B, furosemida, contrastes radiológicos, desidratação, isquemia renal e acidose metabólica [29]. Outra causa importante de IRA induzida é a toxicidade causada por contraste radiológico, que ocorre após a administração intravenosa do mesmo, mais conhecida como nefropatia induzida por contraste (NIC). A evidência laboratorial caracteriza-se pelo aumento nos níveis séricos de creatinina 48 a 72 horas após a administracão do contraste, com retorno aos valores basais entre o 7º e 10º dia pós-exposição [14]. A incidência de pacientes de alto risco para NIC está aumentando mundialmente [27]. Cerca de 40% dos pacientes com insuficiência renal crônica, diabetes mellitus, síndrome metabólica, hipertensão e com idade acima de 70 anos, desenvolvem NIC [19,2] quando expostos ao meio de contraste. A creatina quinase (CK) é uma enzima que possui um papel fundamental no metabolismo energético, principalmente para tecidos com alta demanda energética, como cérebro, músculo cardíaco e esquelético, onde funciona como um efetivo sistema de tampão para os níveis celulares de ATP, sendo assim é uma enzima de extrema importância na homeostase energética, ou seja, atuando como um sistema auxiliar de manutenção energética [4]. Alguns acontecimentos como perda de polaridade celular, perda de interação célula-célula, alterações de pH e produção de espécies reativas de oxigênio, levam ao organismo a retenção excessiva de produtos do metabolismo das proteínas que podem danificar o néfron e reduzir a excreção de creatinina e de outros produtos do metabolismo das proteínas [22]. A insuficiência renal induzindo a uremia afeta quase todas as funções corporais, mas a fisiologia do cérebro parece ser particularmente vulnerável à toxicidade urêmica [30]. A falha renal resulta no acúmulo de numerosas substâncias orgânicas que podem agir como neurotoxinas urêmicas, mas nenhum metabólito sozinho foi identificado como a única causa da encefalopatia urêmica [30]. Desta forma, a encefalopatia urêmica é caracterizada por alterações intelectuais, de memória e posteriormente a alterações motoras, convulsões e coma, que representam os eventos terminais graves e de risco clínico . Considerando os efeitos gerados pela IRA, uma das formas de analisar o dano renal é através da avaliação da atividade da creatina quinase do cérebro de ratos, após indução de IRA por gentamicina e contraste [13]. Este trabalho tem como objetivo avaliar atividade da CK em cérebro de ratos submetidos a um modelo de IRA induzidos com gentamicina e contraste radiológico. 2. Metodologia 2.1. Animais: Foram utilizados ratos Wistar machos pesando entre 250 e 300 g, provenientes do Biotério da Universidade do Extremo Sul Catarinense, e aprovado pelo Comite de Ética em Pesquisa da Unesc. Os animais foram mantidos em ambiente climatizado (22oC) com ciclos claro-escuro de 12 horas, com água e alimentação padrão livres. 2.2. Administração de Gentamicina: Os animais foram divididos em 2 grupos com 7 animais para cada grupo. O primeiro grupo recebeu apenas solução salina (NaCl 0,9%), enquanto que o segundo grupo recebeu administrações de gentamicina (70 mg/kg i.p.) num intervalo de 12 horas durante 7 dias. Após os 7 dias, os animais foram mortos por decapitação, o cérebro foi rapidamente removido e suas estruturas (cerebelo, córtex cerebral, córtex pré-frontal, estriado, hipocampo) foram isoladas e armazenadas no freezer -80°C até que estas fossem homogeneizadas e utilizadas para dosagem de CK. Além disso, o sangue foi coletado para avaliar os níveis séricos de creatinina. 2.3. Administração de Contraste Radiológico: Os animais receberam o contraste metaglumina/diatrizoato sódico na dose de 6mL/kg através da veia caudal. A partir de 24h antes da administração do contraste foi restringido aos animais o acesso a água retornando o acesso após esse período, logo antes da administração do mesmo. Os animais em estudo foram divididos em 2 grupos com 7 animais para cada grupo (n=7). O primeiro recebeu apenas salina e o segundo grupo recebeu a injeção de contraste na dose já mencionada. Passados os 6 dias, os animais foram sacrificados por decapitação, e o cérebro rapidamente removido. As estruturas cerebrais armazenadas a -80ºC e as dosagens bioquímicas foram realizadas conforme métodos descritos na literatura. As estruturas cerebrais foram homogeneizadas no tampão correspondente de cada método. Os níveis séricos de creatinina foram dosados a fim de comprovar a existência da insuficiência renal. 2.4. Preparacão do tecido: Os animais foram mortos por decapitação, o cérebro foi rapidamente removido e suas estruturas (cerebelo, córtex cerebral, córtex pré-frontal, estriado, hipocampo) foram isolados e armazenadas no freezer -80°C até que estas fossem homogeneizadas e utilizadas para dosagem de CK. Além disso, o sangue foi coletado para avaliar os níveis séricos de creatinina. 2.5. Preparação das amostras: As amostras foram pesadas e homogeneizadas em tampão SETH em uma proporção de 1:10, pH 7.4 (250 mM de sacarose, 2 mM de EDTA, 10mM Trizma base, 50IU/ml de heparina). Os homogenados foram centrifugados a 800 x g durante 10 minutos, sendo posteriormente separado o sobrenadante em duplicata quando possível para dosagem de CK. 2.6. Creatina quinase: A estrutura cerebral foi homogeneizada em solução salina (1:10, p/v), o homogeneizado centrifugado a 800 x g por 10 minutos e o sobrenadante utilizado para determinação da atividade da CK. O meio de incubação é composto por fosfocreatina, ADP e glutationa reduzida. A formação de creatina foi utilizada para medir a atividade enzimática [11]. 2.7. Dosagem de Creatinina: A creatinina sérica foi dosada por kit da Labtest. 2.8. Análise Estatística: Os dados foram analisados pela análise da variância (ANOVA) de uma via, seguido pelo teste de Tukey quando F foi significativo e foi expresso por média +/- desvio padrão. Todas as análises foram realizadas utilizando o programa SPSS (Statistical Package for the Social Science). 3. Resultados No presente estudo, ratos adultos foram submetidos à IRA por gentamicina e contraste radiológico. Através deste modelo de indução de IRA, pode-se observar que os animais pertencentes aos grupos gentamicina e contraste sofreram dano renal, pois os níveis séricos de creatinina ficaram aumentados, quando comparados ao grupo salina, e assim confirmando a indução já que este é considerado um marcador de função renal (Figura 1 e 2). Posteriormente, foi observado se houve alterações na atividade da CK nas regiões do cérebro. Os resultados mostraram que a atividade desta enzima foi inibida nas estruturas cerebrais como cerebelo e córtex pré-frontal, no grupo administrado com gentamicina (Figura 3). Neste mesmo grupo as estruturas como hipocampo, estriado e córtex cerebral, não obtiveram alterações significativas (Figura 3). No grupo administrado contraste radiológico, ocorreu a inibição da atividade da CK no cerebelo e córtex cerebral (Figura 4). Nas outras estruturas como estriado, córtex pré-frontal, hipocampo não houve alteração significativa na atividade da enzima CK (Figura 4). 4. Discussão A IRA é caracterizada por um dano na função renal, impossibilitando que o rim exerça funções básicas de excreção e manutenção do equilíbrio ácidobásico e hidroeletrolitico [14,7,10]. Apesar de todos os avanços terapêuticos e de diagnósticos, sua mortalidade ainda permanece elevada nas últimas décadas, atingindo diversas camadas da população [1,31]. No presente trabalho, o modelo utilizado para se obter IRA nos animais, induzida por gentamicina e contraste radiológico, mostrou resultados satisfatórios, visto que após a indução, os níveis séricos de creatinina apresentaram-se elevado quando comparado aos animais do grupo controle. Sabe-se que este metabólito é considerado marcador de função renal, pois o mesmo é excretado pelos rins, e sua elevação é sinal de que o sistema como um todo está perturbado, por algum agente tóxico ou não, que justifica a má filtração destes e causando acúmulo no organismo, e assim podendo gerar complicações secundárias à doença renal [29]. A CK é uma enzima que está presente no cérebro e em outros tecidos com alta e variável taxa de metabolismo de ATP [32]. Esta enzima tem o papel importante no metabolismo energético, pois catalisa a transferência metabolicamente reversível de um grupamento N-fosforil da fosfocreatina para o ADP, regenerando o ATP, e assim facilitando a transducão de energia intracelular [17,4,11,26]. Sabe-se que alterações no circuito creatina/fosfocreatina pode ser um passo para problemas neurodegenerativos que levam a perda neuronal no cérebro [4]. Os resultados mostraram que a atividade da CK foi inibida nas regiões do cerebelo e córtex pré-frontal, após a indução de IRA por gentamicina. Nas regiões do hipocampo, estriado, córtex-cerebral, não houve alterações significativas. Baseado em diversos estudos, pode-se hipotetizar que a IRA leva a um aumento de toxinas, estas por mecanismos ainda não conhecidos que se dirigem ao cérebro. Estas toxinas em excesso podem levar a uma diminuição das defesas antioxidantes, provocando uma disfunção mitocondrial pelo acúmulo de espécies reativas de oxigênio e contribuindo com o estresse oxidativo [20]. Sabe-se também que a CK pode estar envolvida em algumas condições patológicas relacionadas com déficit de energia cerebral e devido à energia cerebral ser necessária para o desenvolvimento e a regulação das funções cerebrais, foi postulado que o prejuízo na função da CK pode ter um papel critico no processo neurodegenerativo que leva à perda neuronal. Alem disso, a baixa atividade desta enzima também pode estar associada a fatores neurodegenerativos, como por exemplo, doença de Alzheimer, isquemia cerebral, transtorno bipolar e outros estados patológicos [24]. A NIC representa uma importante causa de IRA. Recentemente, preconiza-se como padrão para definir seu diagnóstico, uma redução abrupta da função renal a qual caracteriza–se pelo aumento nos níveis séricos de creatinina [14]. A gentamicina é um dos aminoglicosídeos que é mais nefrotóxico ao rim, induzindo a IRA [18]. A CK é reconhecida como um regulador de metabolito importante entre a saúde e a doença [20]. Neste estudo, esta enzima foi inibida nas frações cerebrais do cerebelo e córtex cerebral. Sabe- se alguns compostos que causam hipóxia e dano celular renal, também podem causar lesão celular em outros órgãos afetados por IRA, por exemplo lesão celular no tecido cerebral [25]. 5. Agradecimentos Esta pesquisa foi realizada por concessões do Laboratório de Fisiopatologia Experimental- Universidade do Extremo Sul Catarinense (UNESC) e Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). 6. Referências [1] Al Balbi; Dp Gabriel; RcBarsante; JtCaramori; Lc Martin; P. 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Dados analisados pelo teste de variância ANOVA de uma via seguido pelo teste de Tukey, *p>0,01 (em relação ao grupo SHAM). Figura 3: Atividade da CK nas estruturas cerebrais de ratos submetidos à IRA com gentamicina. Dados analisados pelo teste de variância ANOVA de uma via seguido pelo teste de Tukey, *p>0,01 (em relação ao grupo SHAM). Figura 4: Atividade da CK nas estruturas cerebrais de ratos submetidos à IRA com contraste radiológico. Dados analisados pelo teste de variância ANOVA de uma via seguido pelo teste de Tukey, *p>0,01 (em relação ao grupo SHAM).