Superando as leucemias

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Superando a leucemia
Todos os anos, milhares de pessoas desenvolvem algum tipo de câncer na
medula. Diagnóstico e tratamento adequados aumentam chances de cura
O Instituto Nacional de Câncer (Inca), ligado ao Ministério da Saúde, prevê
que, em 2006, cerca de 9.500 pessoas desenvolverão algum tipo de leucemia –
câncer que atinge a medula óssea. Com um tratamento adequado e precoce, o
paciente possui grandes chances de superar a doença e voltar a ter uma vida
normal.
O Inca é um dos centros de referência para o tratamento das leucemias.
Mas existem outros serviços vinculados ao Sistema Único de Saúde (SUS)
espalhados no país que atendem as vítimas da doença. Ainda que o paciente viva
distante desses centros, o SUS garante a internação nas cidades onde eles se
localizam e o tratamento completo – do primeiro hemograma (exame de sangue)
até o transplante de medula óssea, quando houver indicação médica.
Existem dois tipos básicos de leucemia: a crônica, sem sintomas e de
desenvolvimento lento, e a aguda, associada a sangramentos, fadiga, presença de
infecções e que apresenta rápida evolução. A partir dessas duas categorias,
aparecem diversos subgrupos, classificados em função do grau de diferenciação
celular. Para cada um, existe indicação de tratamento específico e expectativa de
resultados diferenciados.
“A leucemia linfóide aguda, por exemplo, é mais comum em crianças com
menos de 10 anos”, lembra Jane Dobbin, chefe da Hematologia do Inca. Segundo
ela, a chance de recuperação para as crianças é considerada grande – 80%.
“Para os adultos, esse mesmo tipo de câncer tem chance de cura de 40%. As
crianças também apresentam melhor índice de recuperação no caso da leucemia
mielóide aguda (60%, contra 30% nos adultos)”, conta a médica.
Produção comprometida – Na medula óssea, produzem-se as chamadas séries
(elementos) do sangue: os glóbulos brancos, responsáveis pela defesa do
organismo; os glóbulos vermelhos, responsáveis por distribuir o oxigênio dos
pulmões para todo o corpo; e as plaquetas, que cuidam da coagulação do sangue.
A leucemia tem como causa a reprodução desordenada de glóbulos brancos
imperfeitos dentro da medula. Os elementos defeituosos ocupam espaço demais e
impedem a produção de outros compostos.
O baixo número de plaquetas, por exemplo, causa hemorragias nas
gengivas, no nariz e nos olhos. Elas podem também acontecer no aparelho
digestivo ou mesmo no cérebro. Na pele, aparecem manchas roxas sem que o
paciente tenha sofrido qualquer trauma que as justifique. Já o baixo número de
glóbulos vermelhos provoca anemia e, como conseqüência, fadiga, cansaço,
indisposição. Enquanto isso, o número reduzido de glóbulos brancos saudáveis no
organismo ocasiona uma série de infecções.
“Um dos maiores sofrimentos de quem tem leucemia aguda é que a doença
aparece de repente, sem dar pistas aparentes e, por ter evolução rápida, exige
que o início do tratamento seja imediato”, explica Jane Dobbin. Quando a
leucemia é do tipo crônica, o paciente só vai saber que tem a doença quando fizer
um hemograma, em geral de rotina, e as séries do sangue apresentem variações
grandes, que chamam a atenção do médico.
Não se sabe ainda o que provoca grande parte das leucemias. “Sabemos
apenas sobre aquelas que são conseqüência direta da exposição à radiação –
como aconteceu em Hiroshima, após a explosão da bomba atômica , observa
Jane. Por isso, não há como se prevenir da doença.
Tratamento – A partir da detecção de variações das séries do sangue por meio de
um hemograma, é preciso confirmar o diagnóstico da leucemia e, em caso
positivo, determinar o tipo da doença. Para isso, realiza-se o exame chamado de
mielograma. Com anestesia local, parte da medula óssea (presente nos ossos
chatos, como bacia e esterno) é aspirada por meio de punção (agulha). Repete-se
esse exame ao longo de todo o tratamento, para comprovar se o paciente está se
recuperando.
A partir da determinação do tipo de leucemia, ataca-se a doença em
diversas frentes, com um tratamento diversificado e complexo. A quimioterapia é
um dos passos mais importantes – cada caso exige medicação e quantidade de
radiação diferenciada. Indica-se a quimioterapia para destruir as células
leucêmicas.
Junto com a quimioterapia, deve-se reforçar o sistema imunológico do
paciente com antibióticos. Transfusões de sangue freqüentes fornecerão ao
doente as plaquetas necessárias para evitar as hemorragias. O tratamento
também precisa evitar que a doença se multiplique pelo sistema nervoso central
(cérebro e medula espinhal).
Na primeira fase do tratamento, o médico busca a remissão completa das
células cancerosas, “um estado de aparente normalidade que se obtém após a
quimioterapia”, explica Jane. Esse resultado já aparece nas primeiras semanas de
aplicações. Nesse período, os exames já não mais indicam a presença da
leucemia. Apesar disso, não se pode dizer que a doença tenha sido debelada.
Ainda há células doentes residuais no organismo, o que obriga a continuação do
tratamento, para que não aconteçam recaídas. O período varia entre um ano (no
caso das leucemias mielóides) e dois anos (no caso das linfóides).
A médica do Inca conta que depois da remissão, o tratamento consiste de
outras três fases: “a consolidação (tratamento intensivo com substâncias não
empregadas na primeira fase da quimioterapia); a reindução (repetição dos
medicamentos usados na fase da remissão) e a manutenção (tratamento mais
brando, mas continuado por vários meses)”.
Como o tratamento da leucemia aguda pode ser muito prolongado e requer
repetidas transfusões e internações, em geral os médicos recomendam a
implantação de um cateter de longa permanência, para facilitar a aplicação de
medicamentos e derivados sanguíneos, além das freqüentes coletas de sangue
para exames. Sem o cateter, as veias dos braços poderiam não suportar o
tratamento.
Transplante de medula – Para a terapia de alguns tipos de leucemias – como as
mielóides aguda e crônica e a leucemia linfóide aguda – o transplante de medula
pode ser indicado. Ele consiste na substituição da medula doente por células
normais de medula óssea. O objetivo é reconstituir a medula deficitária.
Há dois tipos de transplante. É chamado de autólogo aquele feito a partir da
coleta de células do sangue do próprio paciente. Já o alogênico realiza-se com
células de um doador. Nos dois casos, o objetivo é conseguir estocar células
saudáveis para serem reimplantadas, depois que o paciente for submetido a uma
carga muito pesada de quimioterápicos.
Esses medicamentos em doses elevadas são muito eficientes no combate
às células cancerosas, porém mostram um efeito devastador sobre as células
boas da medula, que fica “esvaziada” depois de procedimento. Quando a
quimioterapia termina, as células armazenadas são devolvidas ao sangue. Elas
vão ocupar novamente o espaço dentro da medula.
Quando os médicos indicam o transplante alogênico, a primeira medida é
procurar pelo doador entre membros da família do paciente. Irmãos, em geral, têm
em torno de 25% de chances de serem compatíveis para esse tipo de
procedimento.
Caso não haja ninguém compatível na família, a segunda possibilidade é
buscar por doadores no Registro Nacional de Doadores de Medula Óssea
(Redome), mantido pelo Inca. Se o resultado não for positivo, realiza-se a procura
em bancos de doadores de outros países. No ano passado, houve, no país, 1.211
procedimentos desse tipo.
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