Análise dos casos de infecção perinatal por

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SECRETARIA DE ESTADO DE SAÚDE DO DISTRITO FEDERAL
HOSPITAL MATERNO INFANTIL DE BRASÍLIA – HMIB
PROGRAMA DE RESIDÊNCIA MÉDICA EM NEONATOLOGIA
ANÁLISE DOS CASOS DE INFECÇÃO PERINATAL POR CITOMEGALOVÍRUS
EM UNIDADE DE TERAPIA INTENSIVA NEONATAL DO CENTRO-OESTE
Brasília, DF
2015
Marília Carolinna Milhomem Bastos
www.paulomargotto.com.br
1
ANÁLISE DOS CASOS DE INFECÇÃO PERINATAL POR CITOMEGALOVÍRUS
EM UNIDADE DE TERAPIA INTENSIVA NEONATAL DO CENTRO-OESTE
Trabalho de conclusão de curso
em formato de artigo científico
apresentado
ao
Programa
de
Residência Médica do Hospital
Materno Infantil de Brasília como
requisito parcial para obtenção do
certificado
residência
de
conclusão
médica
da
em
neonatologia sob a orientação do
Dr. Felipe Teixeira
de Mello
Freitas
Brasília, DF
2015
2
Bastos, Marília Carolinna Milhomem
ANÁLISE DOS
CASOS DE INFECÇÃO PERINATAL POR CITOMEGALOVÍRUS EM UNIDADE DE
TERAPIA INTENSIVA NEONATAL DO CENTRO-OESTE / Marília Carolinna Milhomem Bastos. Brasília:
Secretaria de Estado de Saúde do Distrito Federal, 10 de dezembro de 2015
26fls.
Artigo científico (Especialização) – Hospital Regional da Asa Sul. Programa de Residência Médica em
Neonatologia, Asa Sul, BRASÍLIA-DF, 2015.
1.
1. Citomegalovírus perinatal. 2. Infecção adquirida. 3. Unidade de Terapia Intensiva Neonatal. I.
Bastos, Marília Carolinna Milhomem II.Freitas , Felipe Teixeira Melo .
3
RESUMO
OBJETIVO: com este estudo pretendemos analisar a freqüência e a relevância
da infecção perinatal precoce pelo CMV em recém-nascidos internados na UTI
neonatal do Hospital Materno Infantil de Brasília (HMIB).
MÉTODO: estudo descritivo dos casos confirmados por sorologia de infecção
por CMV em pacientes internados na UTI neonatal do HMIB de outubro de
2013 a dezembro de 2014 . Os resultados foram apresentados descritivamente
utilizando média, mediana, intervalo para as variáveis contínuas e proporção
por percentagem para variáveis discretas.
RESULTADOS: a incidência de CMV perinatal
foi de 8 casos por 1000
pacientes internados na UTIN; a maior parte nasceu de parto normal com
menos de 1000g de peso (71,4%) e era do sexo feminino . O diagnóstico
ocorreu quando os pacientes apresentavam entre 42 e 59 dias de vida. A
história clínica dos 7 pacientes estudados mostrou que a insuficiência
respiratória , a plaquetopenia e a anemia estavam presentes em 71,4% dos
pacientes;
42,8% deles estavam em sepse e a mesma porcentagem com
colestase. O sinal clínico motivador da testagem sorológica para CMV foi a
presença de hepatoesplenomegalia em 85,6% dos casos. No momento do
diagnóstico, 2 pacientes não estavam usando antibiótico de amplo espectro ,
os demais já estavam em uso há pelo menos 6 dias, devido a síndrome sepselike. Cem por cento de nossa amostra, já recebia leite humano como fonte
energética principal (>100ml/kg/dia) e 71% tinham sorologia do sangue do
cordão ou materna com presença de IgG positiva, indicando que pode ter
havido reativação do vírus. Todos fizeram uso de hemoderivados, recebendo
no mínimo 4 transfusões .A ventilação mecânica foi utilizada por todos os
pacientes por período prolongado, mediana de 80 dias, sendo que 5 pacientes
fizeram uso de pelo menos um ciclo de corticóide (dexametasona) para
extubação. A mediana do tempo de internação na UTIN foi de 96 dias e a
mediana de tempo para a alta hospitalar foi de 121 dias . Quanto ao tratamento
específico para o CMV, apenas uma recebeu Ganciclovir.
CONCLUSÃO: verificamos que o CMV pode estar associado com quadros
clínicos graves sendo um importante diagnóstico diferencial de sepse tardia em
UTIN, principalmente em prematuros de muitíssimo baixo peso. O modo de
transmissão mais provável é o aleitamento materno e não a transfusão
1
sanguínea, que na atualidade já atingiu rigores suficientes para minimizar a
transmissão através do processo de filtração de leucócitos. No entanto se faz
necessário a garantia de maiores insumos , incluindo sorologia e PCR , para
que o diagnóstico de CMV perinatal possa acontecer.
2
INTRODUÇÃO
O citomegalovírus (CMV) é a causa de infecção perinatal por vírus mais
comum nos países desenvolvidos, ocorrendo em quase 1% de todos os recémnascidos, cerca de 40.000 crianças por ano, nascem com CMV nos EUA(1);
sendo a causa mais comum
de perda auditiva neurosensorial não-
hereditária(1). Embora na maioria das vezes seja assintomática em hospedeiro
imunocompetente, a infecção pelo CMV pode causar grave morbidade e
mortalidade em um organismo imunologicamente imaturo, especialmente em
recém-nascidos prematuros de muitíssimo baixo peso ao nascer (<1500g) (2).
Na doença perinatal está presente a síndrome sepse-like, pneumonite,
incluindo insuficiência respiratória com necessidade de oxigenoterapia por
tempo prolongado, hepatoesplenomegalia, colite, trombocitopenia, neutropenia
e linfocitose.(3) A mortalidade por CMV adquirido perinatal está relacionada com
evolução para pneumonia e enterocolite necrotizante.(2)
As fontes primárias de transmissão de CMV perinatal para esta
população de risco de neonatos é a exposição da criança à secreção cervical,
a alimentação com leite materno, principalmente se cru, e as transfusões
sanguíneas. Sendo possível reduzir o risco dessa transmissão quando os
produtos derivados do sangue passam pelo processo de redução de leucócitos
(filtração) e o leite é pasteurizado, além disso obtendo-se ambos (leite ou
sangue) de doadores soronegativos para CMV .
O tratamento de escolha se faz com ganciclovir, entretanto devido aos
efeitos adversos graves, só está indicado em casos selecionados.
Com este estudo visamos avaliar a frequência e a relevância da infecção
perinatal pelo CMV em recém-nascidos que receberam leite não pasteurizado
de suas mães na Unidade de Terapia Intensiva Neonatal
(UTIN) do Hospital
Materno Infantil de Brasília (HMIB), tendo em vista que nos casos de infecção
aguda materna, o risco de transmissão no parto e pós-parto pode estar
aumentado, já que o leite materno pode conter elevada concentração de
partículas virais e baixos níveis de anticorpos protetores capazes de neutralizar
o agente infeccioso(4). Além disso, desejamos fomentar a discussão sobre
esta patologia que pode ser muito grave no período neonatal e parece estar
3
sendo negligenciada
como diagnóstico diferencial em caso de síndrome
séptica, principalmente em prematuros menores de 1500g.
MÉTODO
Estudo descritivo de uma série de casos de infecção perinatal por CMV
em pacientes internados na UTIN do HMIB de outubro de 2013 a dezembro de
2014.
Os casos foram detectados a partir da lista geral de resultados de
sorologias realizadas no laboratório do HMIB no período citado. Foram
incluídos no estudo todos os pacientes internados na UTIN com resultado de
IgM positiva em sorologia para CMV após a 3ª semana de vida e, (1) sem
história materna de viragem sorológica durante a gestação (IgM positivo ou IgG
em títulos ascendentes), (2) sem sinais de citomegalia congênita ao
nascimento
(microcefalia,
calcificações
periventriculares,
petéquias
e
hepatoesplenomegalia) e (3) que apresentaram manifestações clínicas após 3
semanas de vida.
Após obter os resultados do laboratório os prontuários dos pacientes
foram analisados . Para a coleta de dados , utilizamos questionário para o
estudo que coletou os seguintes dados: (1) peso de nascimento; (2) idade
gestacional; (3) via de parto; (5) nº de transfusões sanguíneas realizadas até o
dia da coleta da sorologia positiva para CMV; (6) volume da dieta que o
paciente recebia ao diagnóstico; (7) idade ao diagnóstico; (8) quadro clínico ao
diagnóstico; (9) uso de antibióticos de largo espectro ao diagnóstico; (10)
realização de punção lombar e presença de alteração no líquor (LCR); (11)
existência de sorologia materna ; (12) sorologia do RN ao nascer; (12) títulos
de IgM ao diagnóstico ; (13) período de ocorrência da infecção perinatal; (14)
existência de hemocultura positiva para outros micro-organismos ; (15) tempo
de uso de ventilação mecânica ; (16) uso de corticóide para extubação ; (17)
tempo de internação na UTIN; (14) idade na alta hospitalar ; (18) uso de
ganciclovir; (19) laudo do 1º ecocerebral; (20) perímetro cefálico ao nascer;
(21) desfecho de alta ou óbito.
Neste trabalho, foram considerados alterados para os recém-nascidos:
(1) os hemogramas que apresentavam leucocitose maior ou igual à
25.000/mm³ ou leucopenia menor ou igual à 5.000mm³ e/ou plaquetopenia
4
menor que 150.000/mm³ e/ou hemoglobina menor que 12g/dl; (2) o LCR que
apresentasse contagem de leucócitos maior que 25/mm³, elevação da
concentração de proteínas maior que 120 mg/dl .
Os resultados foram apresentados descritivamente utilizando média,
mediana e intervalo para as variáveis contínuas e proporção por percentagem
para variáveis discretas.
RESULTADOS
Incidência
Durante o período estudado houve 859 admissões na UTIN e 7 casos
de infecção perinatal por CMV, o que nos dá uma incidência de 8 novos casos
por 1000 pacientes internados na UTIN.
Dados demográficos
Nossa pesquisa constatou que dos 7 casos investigados, a mediana de
peso encontrada foi de 910g (o menor pesando 630 e o maior 2055g). Cinco
pacientes eram recém-nascidos prematuros de muitíssimo baixo peso
(RNMMBP <1000g) e 2 eram
recém-nascidos de termo com baixo peso
(RNTBP< 2500g). Destes últimos, um era portador da síndrome de Edwards
com peso de nascimento de 1500g e o outro, com cariótipo normal, nasceu
com 2055g.
A via de parto mais comum foi a vaginal, totalizando cinco; e o sexo
feminino foi o mais acometido (5 meninas).
Sorologias
Em relação às sorologias maternas, encontramos 2 mães que foram
testadas para CMV ainda no pré-natal, ambas apresentaram IgM negativo e
IgG positivo; uma delas fez nova sorologia para CMV após o diagnóstico do
filho de CMV adquirido e mantinha IgM negativo e IgG positivo. Quatro recémnascidos foram testados para CMV ao nascimento através da sorologia do
sangue do cordão e todos apresentaram IgG positivo e IgM negativo. Os títulos
de IgM e IgG ao diagnóstico de CMV perinatal constam na tabela 2.
5
DADOS DEMOGRÁFICOS (Tabela 1)
PACIENTE
SEXO
PESO
Idade
Via
(g)
gestacional
parto
de
(semanas)
Volume de
Quantidade
leite
transfusões
de
(ml/dia)
1
F
675
24
vaginal
160
6 CH
2
M
630
26
cesárea
200
6CH+1CP+3P
3
F
1500
38
cesárea
280
3CH+1 CP
4
F
780
25
vaginal
160
6CH+4P
5
M
910
26
vaginal
240
5CH
6
F
2055
38
vaginal
440
4CH+1P
7
F
975
31
vaginal
280
4CH
*CH = concentrado de hemácias ,CP: concentrado de plaquetas, P: plasma
Tabela 2
PACIENTES
SOROLOGIA
MATERNA
1
IgG + e IgM –
SOROLOGIA
DO
UMBILICAL
Não realizada
no 1ºtrimestre
2
Não realizada
CORDÃO
SOROLOGIA PÓSNATAL
IgG + e IgM +
com 49 dias de vida
IgG + e IgM –
IgG + e IgM +
com 59 dias de vida
3
IgG + e IgM -
IgG + e IgM –
no 3º trimestre
4
Não realizada
IgG + e IgM +
com 47 dias de vida
IgG + e IgM –
IgG + e IgM +
com 42 dias de vida
5
Não realizada
IgG + e IgM –
IgG + e IgM +
com 49 dias de vida
IgG + e IgM + com 49
dias de vida
6
Não realizada
Não realizada
IgG + e IgM +
com 44 dias de vida
7
Não realizada
Não realizada
IgG + e IgM +
com 54 dias de vida
6
Diagnóstico e quadro clínico
No que se refere ao diagnóstico, este foi feito quando os pacientes
apresentavam entre 42 e 59 dias de vida (mediana de 49 dias).
A história clínica dos 7 pacientes estudados mostrou que a insuficiência
respiratória , a plaquetopenia e a anemia estavam presentes em 71,4% dos
pacientes;
42,8% deles estavam em sepse e a mesma porcentagem com
colestase. O sinal clínico motivador da testagem sorológica para CMV foi a
presença de hepatoesplenomegalia em 85,6% dos casos.
No momento do diagnóstico, 2 pacientes não estavam usando antibiótico
de amplo espectro , os demais já estavam em uso há pelo menos 6 dias . Dois
utilizavam monoterapia com Cefepime; 1 monoterapia com Vancomicina; 3
utilizavam associações (Vancomicina com Meropenem; Vancomicina com
Meropenem e Anfotericina; Meropenem e Bactrim). Além disso, 3 lactentes
apresentaram hemoculturas positivas para bactérias concomitantemente a
sorologia positiva para CMV, 1 tinha hemocultura negativa e
2 não tinham
hemocultura do mesmo período .
Para a investigação do acometimento do sistema nervoso central, foram
feitas punções lombares em 3 pacientes , observando-se um líquor normal ,
dois com proteinorraquia e diminuição da glicose
e apenas um mostrou
aumento da celularidade .
A fim de minimizar o risco de infecção congênita para CMV,
investigamos quais alterações foram vistas na primeira ecografia cerebral dos
pacientes (descritas na tabela 4). Em sua maioria, revelam alterações
características da prematuridade (hiperecogenicidade) e uma delas mostra
malformação cerebral (agensesia total de corpo caloso), a qual foi encontrada
no paciente com Síndrome de Edwards.
Fatores de risco
Todos estavam sendo alimentados por leite humano, ora cru advindo da
sua própria mãe, ora pasteurizado advindo de pool de leite humano ordenhado
de várias doadoras (processado pelo Banco de Leite do HMIB). Não há
discriminação nos prontuários dos pacientes sobre diferença entre leite
humano ordenhado da mãe ou leite humano pasteurizado, sendo feito um ou
outro de acordo com presença ou ausência da mãe. Todos fizeram uso de
hemoderivados, recebendo no mínimo 4 transfusões (tabela 1).
7
TABELA 3
RESULTADOS DE EXAMES LABORATORIAISError! Not a valid link.
Tratamento e alta
A ventilação mecânica foi utilizada por todos os pacientes por período
prolongado, mediana de 80 dias ( mínimo de 14 e máximo de 120 dias), sendo
que 5 pacientes fizeram uso de pelo menos um ciclo de corticóide
(dexametasona) para extubação. A mediana do tempo de internação na UTIN
foi de 96 dias (mínimo de 60 e máximo de 160 dias) e a mediana de tempo
para a alta hospitalar foi de 121 dias (mínimo de 68 e máximo de 350 dias).
Para cálculo das medianas de tempo de internação e tempo de ventilação
mecânica foi excluído o paciente que permaneceu internado por 6 meses até
evoluir para óbito, o qual era portador de Síndrome de Edwards.
Quanto ao tratamento específico para o CMV, duas crianças tiveram
indicação de tratar segundo o infectologista que avaliou o caso e apenas uma
recebeu Ganciclovir; no outro caso, o neonatologista assistente preferiu não
usar a medicação ponderando que os riscos do uso seriam maiores do que os
benefícios, segundo relato no prontuário.
TABELA 4
PRIMEIRA
RESULTADOS
ECOGRAFIA CEREBRAL
PACIENTE 1
Dilatação biventricular , hiperecogenicidade periventricular
PACIENTE 2
Hiperecogenicidade periventricular
PACIENTE 3
Agenesia completa de corpo caloso
PACIENTE 4
Hemorragia intraventricular grau III bilateral
PACIENTE 5
Hiperecogenicidade periventricular
PACIENTE 6
Pequeno cisto subependimário
PACIENTE 7
Hiperecogenicidade periventricular , dilatação ventricular à
esquerda
DISCUSSÃO
8
O presente estudo destaca a infecção perinatal por CMV como um
importante diagnóstico diferencial a ser aventado na suspeita clínica de sepse
pouco responsiva ao tratamento antibiótico em pacientes internados em UTI
neonatal, especialmente quando se trata de prematuros menores de 1500g. O
CMV pode ser causa ou fator complicador de quadros clínicos graves de
insuficiência respiratória e síndrome sepse-like. O esquecimento dessa
etiologia pode levar a um retardamento no tratamento específico para este
vírus que é fortemente associado a maior risco de desenvolvimento de
displasia broncopulmonar(4), levando também a um maior uso
de
antimicrobianos desnecessariamente e a um prolongamento do tempo de
ventilação mecânica e internação em UTIN. Foi considerável a diferença entre
a média geral de tempo de permanência na UTIN que variou entre 16 e 18 dias
no período e a média de permanência dos pacientes estudados que foi de 102
dias (com mínimo de 60 e máximo de 160 dias). Verificamos que todos os
pacientes com CMV pós-natal permaneceram por período prolongado em VM e
a maioria 71,4% necessitaram de corticóide para extubação. Alertamos para o
fato de termos observado que o principal sinal considerado para a investigação
do CMV foi a hepatoesplenomegalia, o qual não deixa de ser importante mas
não pode ser considerado o único sinal de alerta para investigarmos essa
doença que pode levar a deterioração clínica importante.
Estudos indicam que das mães com sorologia positiva para CMV, cerca
de 74-96% eliminam o vírus pelo leite e 13-38% dos bebês acabam, em
algum momento da lactação, adquirindo a infecção (2,5). Não parece ser um
fator de risco o consumo de leite materno cru em relação ao pasteurizado mas
sim o número de dias em que o RN foi alimento com leite materno e a maior
carga viral contida no leite(2,6). Estudos in vitro, mostram que o congelamento
do leite materno a -200C durante uma noite, por 72h e por 7 dias, reduziu
o
título de CMV em 90%, 99% e 100%, respectivamente. Além disso, o
congelamento parece manter as propriedades nutricionais e imunológicas do
leite materno. No entanto, o estudo in vivo mostrou que a taxa de infecção pelo
leite materno congelado–descongelado reduziu para 6% a infectividade mas
não conseguiu anular a possibilidade de infecção(6). Em nosso estudo, todos os
bebês ao diagnóstico de CMV eram alimentados por leite materno ora cru, ora
pasteurizado e possivelmente alguns receberam mais leite pasteurizado, tendo
9
em vista que algumas mães estavam acompanhando seus filhos em período
integral (internadas em leitos dentro do
amamentam) e
próprio hospital para mães que
outras não. E mesmo os pacientes com mães mais
participativas, ainda recebiam leite pasteurizado por pelo menos 2 vezes ao
dia (durante a madrugada). Cem por cento de nossa amostra, já recebia leite
materno como fonte energética principal (>100ml/kg/dia)
e 71% tinham
sorologia do sangue do cordão ou materna com presença de IgG positiva,
indicando que pode ter havido reativação do vírus. Não foi feita nenhuma
investigação da mãe como possível transmissora, tanto pela ausência de
exames disponíveis que identifiquem o DNA viral no leite para compará-lo ao
presente nos fluidos corporais do paciente, por exemplo, na urina como pela
falta de suspeição de que a amamentação com leite materno poderia ser fonte
de infecção. Nota-se em todos os prontuários que a infecção por CMV
adquirida foi sempre remetida ao uso frequente de hemoderivados.
Atualmente, a Academia Americana de Pediatria afirma que, "O valor da
alimentação rotineira com leite humano fresco a partir de mães com CMV
soropositivas para prematuros superam os riscos de doença clínica,
especialmente porque não há relatos de anomalias do desenvolvimento
neurológico a longo prazo”(2). No Brasil ainda se considera que a infecção por
CMV adquirida via leite materno muitas vezes é assintomática e também se
defende que mesmo recém-nascidos de baixa idade gestacional recebem
passivamente anticorpos neutralizantes em quantidades proporcionais aos
níveis maternos; e considerando-se que mulheres brasileiras recebam reforços
naturais devido à frequente exposição e reinfecção pelo CMV, seus níveis de
anticorpos disponíveis para a transferência placentária são elevados, sendo
provável que a alimentação do prematuro com leite materno cru não traga
prejuízos ao recém-nascido(3).
Entretanto já há estudos evidenciando que a infecção perinatal por CMV
pode ser severa, levando inclusive a óbito.
A literatura nos informa que a
infecção infantil por CMV é
diagnosticada, em média, aos 51 dias de vida (4); no nosso estudo, o
diagnóstico ocorreu, em média, aos 49dias (variando entre 42 e 59 dias).
Limitações
10
Nosso estudo partiu da lista de resultados de todas as sorologias do
laboratório do HMIB, de onde selecionamos aqueles pacientes que foram
investigados para CMV e destes escolhemos aqueles com sorologia positiva
que eram pacientes da UTIN . Em princípio, pretendíamos ter um grupo
controle de pacientes da UTIN que foram testados para CMV mas não
apresentaram sorologia IgM reagente , entretanto não conseguimos identificar
possíveis participantes do universo de
sorologias negativas devido ao seu
grande número e por falta de registros na UTIN que facilitassem essa busca .
Além disso, o período analisado foi menor do que tínhamos nos proposto,
devido a ausência total de registros eletrônicos ou manuais de sorologias para
CMV realizadas antes de outubro de 2013 e ao corte no fornecimento de kits
para a realização da sorologia para CMV desde janeiro de 2015.
Por fim avaliamos que não foi possível firmar
nem afastar uma
associação entre a infecção pelo CMV pós-natal e as transfusões sanguíneas,
pois apesar de existir a possibilidade de transmissão de CMV por esta via,
segundo o protocolo nacional seguido pela equipe do Banco de Sangue que se
localiza no HMIB e assiste à UTIN, todos os pacientes menores de 1200g e/ou
28 semanas, que abrangem
71,4% da nossa amostra de
pacientes,
só
recebeu hemocomponentes que foram submetidos a processo de filtragem com
leucorredução o qual praticamente anula o risco de transmissão do CMV.
Entretanto 28% da nossa amostra pode ter recebido sangue não filtrado por
apresentaram IG> 28 semanas e peso >1200g o que aumenta as chances da
infecção pelo CMV ocorrer. Entretanto nos prontuários não consta a realização
de investigação desta possível fonte.
Assim fortalecemos com o presente estudo, a necessidade de garantia
de maiores insumos para o diagnóstico de CMV na UTIN, incluindo sorologia e
PCR, para diagnóstico diferencial nos casos de sepse tardia e superado as
limitações citadas, sugerimos um futuro estudo analítico que consiga avaliar o
papel do leite e das transfusões na transmissão de CMV adquirido pós-natal
em UTI, visto que o Brasil com suas pecualiaridades epidemiológicas ainda
precisa delinear melhor a relevância desta infecção perinatal , especialmente
em prematuros,
em um país com tamanha prevalência de positividade
sorológica nas mulheres adultas.
11
12
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15
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