EM BUSCA DA CONSCIÊNCIA HUMANA. UMA VISÃO EVOLUCIONISTA
SOBRE A REFLEXIVIDADE E A PRODUÇÃO DOS SENTIDOS.
Eduardo Pimentel da Rocha
[email protected]
Orientador: Prof. Dr. Wagner Ferreira Lima
[email protected]
RESUMO
Entender o ser humano e suas ações tem sido objeto de estudo em diversas
áreas do conhecimento como a Psicologia Evolucionista, a Filosofia da Mente e
a Neurociência, entre outras. Entender o ser humano como um ser único e
participante de um mundo no qual todas as coisas diferem e se tornam reais
parece ser um mistério para todas essas ciências. Afinal, como foi possível a
esse ser valorizar diferentemente cada coisa, passando essas a ter um
significado único em seu meio e assim gerar um entendimento de mundo? Em
que medida nossa “capacidade” cognitiva de consciência, a reflexividade, é
determinada pela experiência sensorial e/ou pela linguagem? Neste trabalho,
pretende-se, através de uma revisão crítica dos estudos publicados sobre o
tema, desde uma perspectiva evolucionista e semiótica, propor uma explicação
de como a consciência reflexiva teria surgido e se desenvolvido na história
natural da espécie.
Palavras chave: Evolução; Reflexividade; Linguagem humana.
414
INTRODUÇÃO
Como postulado por Charles Darwin1 em seu livro Sobre a
Origem das Espécies por Meio da Seleção Natural ou a Preservação de Raças
Favorecidas na Luta pela Vida (1859), primeira edição de sua obra prima que
mais tarde, em sua sexta edição, teve o nome alterado para A Origem das
Espécies (1872), é certo dizer que seres primitivos, que possuíam alguns
componentes biológicos básicos para a sua sobrevivência, com o passar dos
milhões de anos interagiram e foram moldados pelo meio, em que viviam, o
qual os diferenciou biologicamente, adota-se aqui como exemplo uma mudança
na sequência de DNA, e ou fisicamente resultando assim nas milhões de
espécies que habitam e ou habitaram o planeta Terra até então.
Esse processo de diferenciação foi nominado por Darwin de
seleção natural2, a qual consiste basicamente em selecionar os indivíduos que
melhor se adaptam ao meio proporcionando a estes a possibilidade de passar
seus genes adiante, perpetuando assim suas características e a preservação
da espécie.
A atuação da seleção natural nesses indivíduos fez com que o
material genético inicial (DNA) fosse alterado ao longo do tempo. Pode-se
adotar aqui, como exemplo, o surgimento de um novo alelo em um ou em um
grupo de indivíduos que expressa o surgimento de pelagem marrom ao invés
de branca, a qual os favorece contra supostos predadores, devido a uma
mutação genética no DNA causada por raios solares ultravioleta, diferenciando
e transformando esses seres primeiros em criaturas mais complexas,
proporcionando, assim, o surgimento de milhares de novas espécies tendo
como produto final o ser humano moderno, o Homo Sapiens Sapiens.
1
Charles Robert Darwin nasceu em 1809 e faleceu em 1882. Foi um naturalista inglês criador da teoria da evolução natural.
Participou de uma expedição ao redor do globo terrestre no navio Beagle que saiu de Davenport em 1831 com chegada à América
do sul. Pesquisou durante 4 anos fósseis, amostras geológicas e observou espécies diversas de animais e vegetais nas ilhas
Galápagos, localizada na América do Sul. Percebeu que havia diferenças em um mesmo animal que vivia em diferentes lugares.
Disponível em: http://www.e-biografias.net/charles_darwin/. Acessado em: 27/05/2012
2
Seleção Natural é a variação genética herdável com valor adaptativo, ou seja, os genes que estão em um gameta influenciam a
probabilidade
deste
gameta
ser
passado
para
a
próxima
geração.
Disponível
em:
http://www.ufscar.br/~evolucao/SBG/SBGnatsel.pdf. Acessado em: 27/05/2012
415
O ser humano moderno, até aonde sabemos, é o único ser
habitante do planeta Terra capaz de refletir através de uma semiótica3
complexa sobre seus atos. Este tem a capacidade de deixar marcas de sua
história e existência, porém, como é possível para a nossa espécie refletir
sobre os atos que fazemos no meio proporcionando a inovação? Ou seja, a
partir de quando nós, seres humanos, deixamos de meramente nos comportar
no ambiente e passamos a entender nossos atos neste? Em que medida nossa
“capacidade” cognitiva de consciência, a reflexividade, é determinada pela
experiência sensorial e/ou pela linguagem?
Para tentar esclarecer essas questões utilizaremos os conceitos
de consciência para G. H. Mead e M. Nicolelis corroborando-os com achados
neurocientíficos de outros autores.
1. A Consciência Reflexiva para G. Mead4. Uma visão semiótica.
A consciência como adotada por Mead (1934) é um ato reflexivo
de sentir/interpretar a atitude do outro em si mesmo. Para tanto o self, “eu”,
“adota os papéis do outro” como se fossem seus e emprega-os para dar
sentido às coisas, inclusive a seus próprios gestos. Este processo de
desempenho de papeis é uma simulação interna dos atos que produzimos no
meio, no qual o indivíduo que os simula, de alguma maneira, os compreende e
dá significado, tornando estes fatos sociais e gerando assim um entendimento
de mundo para estes.
Mead não utiliza como base para sua teoria conceitos
mentalistas, como o proposto por R. Descartes5, mas sim interações sociais ou
A semiótica é a ciência que investiga todas as linguagens possíveis, ou seja, tem como objetivo o exame dos modos de constituição
de todo e qualquer fenômeno como fenômeno de produção de significação e de sentido (SANTAELLA, 1985, p. 15). Disponível
em: http://ead1.unicamp.br/e-lang/multimodal/Semiotica%20Conceito.htm. Acessado em 27/05/2012
3
4
George Hebert Mead nasceu em 1863 e faleceu em 1931. Foi psicólogo, filósofo e pragmático americano pioneiro na teoria social.
Com influências da teoria evolutiva e da natureza social da experiência propôs que o eu e a mente emergem dentro de uma ordem
social.
(tradução
nossa)
Para
maiores
detalhes
consultar:
http://www.psi.uba.ar/academica/carrerasdegrado/psicologia/informacion_adicional/obligatorias/036_psicologia_social2/biomead.p
df. Acessado em: 27/05/2012
416
conversação de gestos, que é o processo pelo qual dois ou mais animais se
comunicam estimulando um ao outro (LIMA; ROCHA, 2011, p.4). Essas
interações com o passar do tempo se tornam mais complexas e cheias de
significações para ambos os participantes. Porém, é possível, contudo, que a
intuição, como proposta por Peirce-Mead, entre nesse processo, o de
desempenho de papéis, nas fases mais precoces do desenvolvimento humano,
quando para sustentar o início das interações sociais seria necessária alguma
capacidade de compreender os sinais naturais emitidos pelo outro (gestos
faciais, prosódia, movimentos corporais etc.). E isso supostamente seria inato e
intuitivo.
A intuição para R. Descartes consiste em um único ato do
espírito, ou seja, por meio desta obtém-se um conhecimento imediato e direto
do objeto. Já a intuição proposta por Peirce-Mead (WILEY, 1996) é um ato
indireto do indivíduo o qual só consegue compreender o objeto, que é ele
mesmo um tipo de signo, através de outros signos, caracterizando assim a
reflexividade da ação.
A
fim
de
corroborar
a
teoria
de
G.
Mead
sobre
o
desenvolvimento da consciência através do desempenho de papéis retomo as
discussões propostas em nosso artigo “A TEORIA DE G. MEAD SOBRE A
“COMPREENSÃO” E A SUA VALIDADE EMPÍRICA”(2011)6 quando
propusemos sua validação empírica através dos achados neurocientíficos de
Rizzolatti7 e sua equipe, feitos na década de 90, na Universidade de Parma.
Este descobriu que um determinado tipo de neurônio,
denominado mais tarde por ele de neurônios-espelho, podia espelhar o
comportamento de outro indivíduo. Isso ocorreu quando monitorava a atividade
neural de um macaco reso, em seu laboratório, enquanto ele pegava algumas
guloseimas. Na verdade, foi um achado científico: num dado momento, no
5
René Descartes, matemático e filósofo francês, nasceu em 1596 e faleceu em 1650. Este é chamado de o fundador da filosofia
moderna e o pai da matemática moderna sendo considerado um dos pensadores mais influentes da história humana. Disponível em:
http://educacao.uol.com.br/biografias/rene-descartes.jhtm. Acessado em 06/06/2012
6
Para conferir toda a discussão leio o artigo completo.
7
Giacomono Rizzolatti é diretor do departamento de Neurociência da Faculdade de Medicina e Cirurgia da Universidade de Parma.
É considerado um dos maiores neurocientistas vivos tendo como maior descoberta de sua carreira os neurônios-espelho. Disponível
em: http://www.cmc.milano.it/OspiteBiografia.asp?Ospite=1439 (tradução nossa). Acessado em: 06/06/2012
417
intervalo do experimento, a região cerebral do símio ligada ao movimento de
prensão disparou, estimulada pela ação do pesquisador de pegar uma uvapassa. O cérebro, então, espelhava o movimento do outro (GASCHLER, 2009,
p. 46-47 apud LIMA; ROCHA, 2011, p.6).
Esses neurônios-espelho representam uma classe específica de
células nervosas cuja função é permitir a intercompreensão e a imitação entre
dois organismos (LIMA; ROCHA, 2011, p.7). Entretanto, eles não são ativados
em todos os contextos. Ocasiões que indicam a competição por alimento entre
indivíduos, como o pegar um doce em uma mesa cheia de doces, faz com que
os neurônios-espelho disparem em alta frequência. Isso ocorre, pois, no meio
natural a busca por alimento é essencial para a sobrevivência. Já em situações
onde não há competição por alimento, como o simples tirar de um copo vazio
de uma mesa após uma refeição qualquer, não altera o nível de disparo desses
neurônios.
Visto
isso,
podemos
dizer
que
o
espelhamento
do
comportamento pelos neurônios-espelho seria uma justificativa para o
desempenhar de papéis proposto por G. Mead e um início para a negociação
de sentidos. Porém, mesmo aqui permanece a possibilidade de dois
organismos, separados no espaço e em corpos diferentes, não terem
exatamente o mesmo sentimento um do outro. Isso porque a relação deles é
mediada por um processo sígnico, (vide figura 1.),- o gesto de um (signo)
convoca uma reação no outro (interpretante), sendo o significado dessa
interação (objeto do signo) o que se segue disso.
418
Figura 1. Representação da tríade sígnica de C.Peirce sobre a interação
humana. Imagem retirada de http://tdd.elisava.net/coleccion/5/herrera-en.
O significado dessa relação não é exatamente o mesmo para
ambos os agentes, pois devido às suas diferenças existenciais há sempre a
possibilidade de ruídos e/ou a não compreensão por um dos participantes do
sinal emitido pelo outro, por isso, há a necessidade da negociação de sentidos.
Portanto, como adotado por Mead, para que entendamos o
mundo é necessário que haja interação social e a negociação de sentido entre
os indivíduos. O espelhamento de comportamentos como descoberto por
Rizzolatti corrobora essa ideia no sentido de que através deste é possível que
o indivíduo inicie um processo sígnico e consequentemente chegue a um
entendimento sobre o que se fala. Porém sendo a comunicação humana
passível de mal-entendidos, o que nos faz insistir tão compulsivamente na
compreensão do outro, para que assim possamos compreender a nós
mesmos, nessa sociabilidade irracional? Na verdade, o que parece ser intuitiva
no homem é a sua capacidade sui generis de usar e compreender signos,
sejam esses naturais ou convencionais. Se é isso que nos faz humanos, então
faz sentido dizer que o homem moderno é dotado biologicamente de uma
estrutura para a criação e/ou entendimento de signos linguísticos!?
419
2.
A Consciência para Nicolelis8. Uma visão biológica.
Para Nicolelis em seu livro Muito Além do Nosso Eu: a nova
neurociência que une cérebro e máquinas- e como ela pode mudar nossas
vidas (2011), a consciência, ou seja, o entendimento e a percepção do mundo
pelo ser humano, só é possível porque nós, seres humanos modernos, somos
dotados biologicamente de uma estrutura complexa que decodifica informações
externas, que são captadas pelos mecanismos sensoriais que possuímos, e as
transforma em imagens internas proporcionando assim nossa visualização e
entendimento do mundo.
Essa estrutura biológica é o cérebro. Este ao receber estímulos
externos, que chegam através dos mecanismos sensoriais que possuímos tais
como língua, mãos, dedos etc., os transforma em impulsos elétricos que
seguem através de sinapses dos neurônios receptores até os córtices
sensoriais primário e secundário (associação) que os decodificam fazendo com
que assim experienciemos o mundo e tenhamos uma imagem mental do
mesmo.
A utilização de mãos, língua, dedos, face e da região perioral
como meio para experenciar o mundo pelo homem, segundo Nicolelis, se deve
ao fato de essas regiões serem revestidas por um epitélio rico em
mecanorreceptores (vide figura 2), que são uma classe de sensores neurais
inervados profusamente por terminais axoniais altamente especializados de
nervos
periféricos.
São
essas
terminações
especializadas
de
mecanorreceptores que a todo tempo traduzem as mensagens contidas em
estímulos táteis geradas tanto pelo mundo exterior que nos circunda como pelo
universo corpóreo interior que foge do nosso olhar. Nas palavras de Nicolelis:
É o que ocorre, por exemplo, quando a
informação contida nas diminutas ondas de
8
Miguel Angelo Laporta Nicolelis, médico e PhD brasileiro, é professor da cadeira “Anne W. Deane” de Neurociência da
Universidade Duke nos EUA e dos departamentos de Neurobiologia, Engenharia Biomédica e Psicologia. É fundador do Centro de
Neuroengenharia da Universidade Duke. Ele também é o fundador e Diretor Científico do Instituto Internacional de Neurociência
Edmond
e
Lily
Safra
em
Natal,
no
Rio
Grande
do
Norte.
Disponível
em:
http://www.beyondboundariesnicolelis.net/Portuguese/about/. Acessado em: 27/05/2012
420
pressão aplicadas em nossos lábios, durante
um beijo apaixonado, é imediatamente
traduzida para a linguagem elétrica que o
cérebro utiliza para gerar nossa imagem tátil do
amor. (NICOLELIS, 2011, p.97).
Figura 2. Representação de tipos básicos de neurônios. O neurônio
mecanorreceptor é representado, nesta figura, pela nomenclatura. Unipolar. O
sinal é recebido por este neurônio e levado até o cérebro por meio de sinapses,
o qual irá traduzir esses estímulos elétricos criando assim nossa imagem do
mundo
exterior.
Imagem
retirada
de
http://www.ebah.com.br/content/ABAAABvP4AI/neurofisiologia-inicio.
Para corroborar ainda mais esta ideia de consciência em um
nível biológico ilustramos essa proposição com a descoberta de Wilder
Penfield9, neurocientista americano que durante suas pesquisas com pacientes
que sofriam de epilepsia descobriu que havia uma conexão entre as regiões
sensoriais humanas, as quais possuem grande concentração de neurônios
mecanorreceptores, e uma determinada região no cérebro, para ser mais
específico, o córtex somestésico primário, de humanos, cuja representação foi
denominada de homúnculo (vide figura 3).
9
Wilder Penfield nasceu em Spokane, no Estado de Washington, E.U.A, em 26 de janeiro de 1891.
Geralmente reconhecido como um dos maiores neurocirurgiões do século XX foi especialista em tratamento
cirúrgico da epilepsia e em fisiologia do cérebro humano. Suas descobertas sobre a localização das funções
do cérebro tiveram profunda repercussão na neurologia, psiquiatria, psicologia e educação. Dedicou-se
também à história da medicina, escritos biográficos e vários assuntos educativos. Disponível em:
http://www.cobra.pages.nom.br/ecp-penfield.html. Acessado em: 27/05/2012
421
Figura 3. Representação do homúnculo sensorial, feita por H.P. Cantlie,
descoberto por Wilder Penfield no córtex somestésico primário de humanos.
Note a exarcebação de mãos e lábios, regiões que possuem alta concentração
de mecanorreceptores responsáveis por receber os estímulos externos.
Ilustração retirada de http://blog.opovo.com.br/bigbangemprosa/2011/04/06/ohomunculo-de-penfield/.
Penfield
em
seus
processos
cirúrgicos
denominados
craniotomias, os quais consistem em abrir uma janela circular no crânio por
meio da remoção do osso e a consequente exposição do tecido cerebral,
estimulava eletricamente diversas áreas do córtex de seus pacientes (vide
figura 4), em busca da causa para as crises epilépticas. Durante estes
processos ele podia perguntar-lhes quais eram as sensações geradas pelos
estímulos elétricos bem como ver quais as reações corpóreas causadas pelos
mesmos em seus pacientes (NICOLELIS, 2011, p.94).
Após dezenove anos de pesquisa e coleta de dados dessas
intervenções cirúrgicas, Penfield concluiu que 75% dos sítios cerebrais que
geravam sensações táteis quando estimulados eletricamente estavam no giro
pós-central, aquele que continha o córtex motor primário de acordo com o
mapa citoarquitetônico de Broadmann, e 25% dos pontos que geraram a
mesma sensação estavam localizados no giro pré-central, onde reside o córtex
somestésico primário. Então, enquanto o córtex motor primário e o somestésico
individualmente exibem um claro grau de especialização funcional, ambas as
regiões, apesar de se situarem em dois lobos distintos, aparentemente
422
compartilham suas funções na gênese de comportamentos sensório-motores
(NICOLELIS, 2011, p.95), indo contra a proposição da organização funcional
do córtex proposta por Broadmann10.
K.Broadmann, neurologista alemão, propôs que o córtex
cerebral de mamíferos é dividido em 52 áreas distintas. Para ele, o cérebro
possui áreas especializadas para desenvolver determinadas funções. No
esquema proposto por Broadmann, (vide figura 4.), cada área ou campo
cortical é identificada por um número. Por exemplo, ele notou a proeminente
concentração de neurônios piramidais na camada V da região cortical do lobo
frontal que ele designou de área 4. Assim na sua visão a área 4 continha o
córtex motor primário. (NICOLELIS, 2011, p.91)
Figura 4. Representação das regiões funcionais do hemisfério esquerdo do
córtex cerebral. Note a numeração, que é a classificação cortical proposta por
Broadmann Retirado de http://dc199.4shared.com/doc/k-oUQv2o/preview.html
O homúnculo, então, é a representação distorcida do corpo
humano encontrada no córtex somestésico primário, o qual tem seu
correspondente nos mecanismos sensoriais humanos. Essa distorção corpórea
10
Korbinian Broadmann, médico neurologista alemão, nasceu em 1868 e morreu em 1918. Broadmann organizou o córtex cerebral
humano em 52 áreas segundo suas funções (tradução nossa). Disponível em: http://www.whonamedit.com/doctor.cfm/1264.html.
Acessado em: 27/05/2012
423
também pode ser encontrada no córtex somestésico primário de ratos, sendo
denominado nestes de ratúnculo, e outros animais.
É valido ressaltar que segundo Nicolelis não se pode olhar o
cérebro com um olhar localizacionista, como fazem Penfield e Brodamann.
Para ele o cérebro trabalha a partir do estímulo recebido. Este é que vai
designar quais áreas neuronais serão ativadas e quais não serão ao longo do
processo de decodificação do estímulo, corroborando a ideia de um cérebro
distribucionista. Esta visão de cérebro propõe que aparentemente o nosso
cérebro utiliza um mecanismo fisiológico similar a uma eleição; um voto
neuronal no qual grande populações de células, localizadas em diferentes
regiões do cérebro, contribuem, cada uma, de uma maneira diminuta e peculiar
para a geração de um produto cerebral final (NICOLELIS, 2011, p.19-20).
Porém o homúnculo de Penfield é adotado aqui como um meio para justificar a
relação entre a percepção sensorial do indivíduo e a sua área correspondente
direta no cérebro.
Então, para que o ser humano moderno seja capaz de criar e
entender signos linguísticos, os quais chegam a ele através dos mecanismos
sensoriais e são espelhados pelos neurônios espelhos, é preciso que o mesmo
seja dotado de uma estrutura biológica, neste caso o cérebro, que traduza,
através dos cortixes, e transforme os em uma imagem interna para que assim
possa ser compreendido e expressado linguisticamente por este. Pois, caso
não o fosse o mesmo seria incapaz de refletir e desempenhar papéis, como
proposto por Mead, e estabelecer interações sociais.
A consciência como adotada por Nicolelis é um processo
globalizado, ou seja, é um trabalho conjunto que envolve diversas partes do
cérebro, com o objetivo de decodificar informações externas. Visto que este
autor não tenta explicar os fatos de maneira minuciosa, mas sim entendê-los a
partir de uma perspectiva geral, propomos que, para podermos caracterizar a
consciência no ser humano de uma maneira mais específica, devemos olhar
mais a fundo, mais precisamente no desenvolvimento de proteínas e suas
funções ao longo do desenvolvimento da espécie humana, contrastando-as
424
com outras espécies próximas, como os símios, a fim de identificar
similaridades entre estes.
Portanto, como visto neste trabalho a consciência parece ter
suas causas relacionadas a dois fatores, a saber: os meios simbólicos, como a
linguagem verbal, e as sensações externas. É preciso haver essa relação para
que assim consigamos experienciar o mundo e inovar neste, porém, esta visão
ainda não nos é satisfatória, pois cremos que em outras espécies de animais
também é possível ter-se um entendimento de mundo, em um nível menos
complexo. Para tanto, futuros trabalhos deverão se concentrar no estudo do
desenvolvimento das proteínas, suas funções e organização em animais e
seres humanos, a fim de ilustrar qual a contribuição destas para o
desenvolvimento da consciência no ser humano moderno.
425
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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preservation of favoured races in the struggle for life. London: John Murray.
(Reprinted as a Penguin Classic, 1985.)
LIMA, W, F; ROCHA, E, P. A Teoria de G. Mead sobre a “Compreensão” e a
sua validade empírica. Trabalho apresentado no I Grupo de Estudos Semiótico
da
UEL
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p.11.
Disponível
em:
https://createpdf.acrobat.com/app.html#d=jXRrb3*LhUmrJLzmcrdh6g.
Acessado em: 10/06/2012
MEAD, G. H. Mind, self and society. Chicago: University of Chicago Press,
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Disponível
em:
http://media.pfeiffer.edu/Iridener/dss/Mead/MINDSELF.HTML.
Acesso
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10/08/2011.
NICOLELIS, M, A, L. Muito Além do Nosso Eu: a nova neurociência que une
cérebro e máquinas-e como ela pode mudar nossas vidas.Tradução do autor.
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RIZZOLATTI, G.; CRAIGHERO, L. The mirror-neuron system. In: Annu. Rev.
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Disponível
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http://www.psych.colorado.edu/~kimlab/Rizzolatti.annurev.neuro.2004.pdf.
WILEY, N. Reflexividade. In: O self semiótico. Trad. Luiz Paulo Rouanet. São
Paulo: Edições Loyola, 1996, p. 89-116.
426