importância da listeria monocytogenes em alimentos de origem

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IMPORTÂNCIA DA LISTERIA MONOCYTOGENES EM ALIMENTOS
DE ORIGEM ANIMAL.
IMPORTANCE OF LISTERIA MONOCYTOGENES ON FOODS FROM
ANIMAL ORIGIN.
Samira Pirola Santos Mantilla1; Robson Maia Franco²; Luiz Antônio Trindade
Oliveira2; Érica Barbosa Santos3, Raquel Gouvêa4
RESUMO
A Listeria monocytogenes é encontrada na natureza e no trato intestinal dos animais,
logo, é comum a contaminação da carcaça e cortes de carne durante o abate e o
processamento. Este microrganismo é considerado um patógeno emergente, podendo
ocasionar listeriose em humanos através da ingestão de alimentos contaminados com o
mesmo. A listeriose é uma zoonose de grande importância em Saúde Pública, visto que pode
ocasionar aborto, septicemias e meningites. Existe um grupo de risco composto por mulheres
grávidas, crianças, idosos e pacientes imunodeprimidos, nos quais a doença é altamente
perigosa. Sua importância em alimentos está relacionada com a sua capacidade de resistir a
temperaturas de refrigeração, alta ocorrência em alimentos e diversos surtos de listeriose
envolvendo ingestão de alimentos manipulados inadequadamente ou mal cozidos.
Palavras-chave: Listeria monocytogenes, sobrevivência, alimentos
ABSTRACT
Listeria monocytogenes is commonly found on nature and on intestinal tract of
animals, therefore contamination of carcass and cut piece of meat is common during slaughter
and industrial processing. This microrganism is considered as an emergent pathogen, which is
capable to provoke listeriosis in humans through ingestion of contaminated food by Listeria
spp. The listeriosis is a zoonosis of great importance on public health, considering that it may
cause abortion, sepsis and meningitis. Pregnant women, children, the old and
immunodeficient patients form the risk group of people to listeriosis. The importance of
1
Mestre. Higiene Veterinária e PTPOA, UFF, Niterói-RJ. [email protected]
Docentes. Dpto Tecnologia de Alimentos, UFF, [email protected], [email protected]
3
Pós-Graduanda, Irradiação de alimentos, UFF, [email protected], Niterói, RJ.
4
Médica Veterinária, UFF, quelgouvê[email protected], Niterói, RJ.
2
Revista da FZVA.
Uruguaiana, v.14, n.1, p. 180-192. 2007
181 Importância da Listeria...
Listeria spp. on food is related to its resistance to refrigeration temperatures, to the high
occurrence related to food and to listeriosis outbreaks involving the ingestion of badly cooked
food or unsuitable processed food.
Key words: Listeria monocytogenes, survive, food
origem
INTRODUÇÃO
alimentar
(FABER
&
PETERKIN,1991; OLIVEIRA, 1993).
Segundo CORRÊA & CORRÊA
A listeriose humana é uma doença
(1992), em 1929, Munay, Webb e Swann,
esporádica observada durante todo o ano,
durante uma epizootia entre coelhos e
com pico de ocorrência nos meses mais
cobaias de um biotério em Cambridge,
quentes.
isolaram microrganismos que causavam
associadas ao consumo de leite, queijo,
intensa monocitose, nomeando o agente
carne inadequadamente cozida, vegetais
como Bacterium monocytogenes. Um ano
crus não lavados e repolho contaminados
mais tarde, na África do Sul, observou-se
(MURRAY et. al., 2000).
uma doença similar em roedor selvagem e,
Epidemias
focais
têm
sido
A morbidade é variável com a
em honra a Lister, denominou-se o agente
espécie,
como
doença individual esporádica ou como surto
Listerella
hepatolytica,
porém,
podendo
apresentar-se
como
considerando ser parecido com o agente
epidêmico,
isolado pelos outros autores ingleses,
letalidade também é variável, ficando
propôs
geralmente entre 20-50% (CORRÊA &
a
denominação
monocytogenes.
havia
um
de
Listerella
Posteriormente,
gênero
vegetal
com
casos
endêmicos.
A
como
CORRÊA, 1992). A ocorrência da doença é
assim
baixa,
porém,
é
uma
enfermidade
denominado, o agente passou a chamar-se
importante por sua alta letalidade (ACHA
Listeria monocytogenes.
& SZYERES, 2001).
O meio científico foi despertado
O objetivo deste estudo é realizar
para o perigo da listeriose durante a década
uma revisão de literatura sobre a ocorrência
de 80, quando uma série de surtos
de
ocorreram na América do Norte e Europa; e
alimentos e a sua importância para a saúde
a Listeria monocytogenes foi responsável
pública.
L.
monocytogenes
em
diferentes
por várias formas de listeriose humana. A
As listerias são bastonetes Gram
partir de 1988, principalmente nos países da
positivos, não produtoras de esporo e não
Europa Central, pesquisadores passaram a
ácido resistente que antigamente foram
investigar a listeriose como doença de
denominadas
como
Listerella.
A
Revista da FZVA.
Uruguaiana, v.14, n.1, p. 180-192. 2007
182
Mantilla, S.P.S. et al.
denominação do gênero foi mudada em
listeriose associada a queijo feito com leite
1940 para Listeria. Em certo momento,
inadequadamente pasteurizado. (JAWETZ
acreditou-se que as listerias estivessem
et. al., 1998)
Segundo
relacionadas a bactérias corineformes e, de
fato,
foram
colocadas
na
família
JAY
(2005),
a
L.
monocytogenes está representada por 13
Corinebacteriaceae. Contudo, atualmente,
sorovares,
está claro que estão mais relacionadas a
compartilhados por L. innocua e por L.
Bacillus
seeligeri.
spp.,
Lactobacillus
spp.,
e
Streptococcus spp.(JAY, 2005).
O gênero Listeria é classificado
alguns
dos
Embora
L.
quais
innocua
são
esteja
representada somente por três sorovares,
muitas vezes esta é considerada uma
juntamente com os gêneros Lactobacillus,
variante
não
patogênica
Erysipelotrix, Brochothrix, Caryophanon e
monocytogenes. A grande heterogeneidade
Renibacterium. As espécies reconhecidas
antigênica desta última espécie pode estar
são: L. monocytogenes, L. ivanovii, L.
relacionada com o grande número de
innocua, L. welshimeri, L. seeligeri, L.
hospedeiros animais nos quais é capaz de
grayi, L. murrayi. A espécie L. denitrificans
multiplicar-se. Em geral, linhagens 4b são
foi transferida para o gênero Jonesia. No
mais freqüentemente associadas com surtos,
que diz respeito à sorologia, foram descritos
enquanto
16 sorovares, sendo 15 antígenos somáticos
relacionadas com produtos alimentícios.
linhagens
1/2
de
são
L.
mais
“O” e cinco antígenos flagelares “H”. A
A L. monocytogenes é um patógeno
Listeria monocytogenes, considerada a
intracelular facultativo, que pode crescer
espécie patogênica para homens e animais,
em
contém os sorovares 1/2 a, 1/2 b, 1/2c, 3a,
fibroblastos cultivados. Todas as cepas
3b, 3c, 4a, 4b, 4c, 4e, 7 (SEELIGER &
virulentas produzem uma hemolisina, a
JONES, 1996).
listeriolisina O, que está geneticamente
A classificação sorológica exige
tipagem dos antígenos O e H, efetuada em
macrófagos,
células
epiteliais
e
relacionada com a estreptomicina O e a
pneumolisina (MURRAY et. al., 2000).
laboratórios de referência. É utilizada
As listerias crescem em temperatura
basicamente para estudos epidemiológicos.
de 1 a 45°C, sendo a faixa ótima de 30 a
Os sorotipos 1/2a, 1/2b e 4b constituem
37°C, embora existam relatos sobre o
mais de 90% dos microrganismos isolados
crescimento a 0°C. Suportam repetidos
em seres humanos. Constatou-se que o
congelamentos
sorotipo 4b provocou uma epidemia de
(FRANCO
&
e
descongelamentos.
LANDGRAF,
1996;
Revista da FZVA.
Uruguaiana, v.14, n.1, p. 180-192. 2007
183 Importância da Listeria...
A Listeria spp. após entrar no
LOVETT & TWEDT, 1988; SEELIGER &
organismo hospedeiro por via oral, atinge o
JONES, 1996)
psicrotrófica
trato intestinal aderindo e invadindo a
depende da integridade celular e do sistema
mucosa. A partir do momento que atinge a
de transporte energético resistente ao frio,
corrente sangüínea, a célula bacteriana é
que estimula o metabolismo sob baixas
fagocitada por macrófagos e após a lise do
temperaturas,
altas
fagossoma, é liberada no citoplasma da
concentrações de substratos intracelulares e
célula do hospedeiro onde se multiplica
uma fase lag prolongada em temperaturas
rapidamente (FRANCO & LANDGRAF,
de refrigeração (OLIVEIRA, 1993).
1996; LOVETT & TWEDT, 1988).
A
característica
propiciando
A hemolisina durante a infecção
De acordo com JAY (2005), das
espécies de Listeria, a L. monocytogenes é
provoca
o
os
especialmente aquelas formadas entre os
humanos. Embora a L. ivanovii possa
vacúolos fagocitários e os lisossomas, não
multiplicar-se
de
permitindo, portanto, a formação dos
crescimento de 10 6 células não causa
fagolisossomas, que poderiam destruir a
infecção. L. innocua, L. welshimeri e L.
bactéria por meio das hidrolases ácidas aí
seeligeri não são patogênicas, embora a
existentes. Isto permite que a Listeria
última produza hemólise.
sobreviva e se multiplique dentro das
patógeno
Os
de
em
importância
ratos,
mecanismos
o
pelos
para
grau
quais
a
células
rompimento
das
fagocitárias.
membranas,
As
enzimas
Listeria monocytogenes causa listeriose
hidrolíticas, após a ruptura das membranas
ainda não estão bem definidos. Sabe-se,
dos lisossomas, são liberadas e provocam a
entretanto, que a bactéria produz algumas
destruição dos macrófagos e monócitos.
toxinas,
(CORRÊA & CORRÊA, 1992)
destacando-se
as
toxinas
hemolíticas (hemolisinas) e as toxinas
A listeriose possui uma ampla
lipolíticas; responsáveis pelo aumento na
variedade de hospedeiros animais tanto
produção de monócitos e pela depressão na
domésticos como silvestres. A infecção foi
atividade de linfócitos. Entre as toxinas
comprovada
isoladas incluem uma toxina hemorrágica,
mamíferos dométiscos e silvestres, em aves,
uma fração pirogênica e uma toxina capaz
e inclusive em animais poiquilotermos. As
de causar alterações eletrocardiográficas
espécies domésticas mais susceptíveis em
(MARTH, 1988).
ordem decrescente de importância são:
em
grande
número
de
Revista da FZVA.
Uruguaiana, v.14, n.1, p. 180-192. 2007
Mantilla, S.P.S. et al.
ovina,
caprina
e
bovina
(ACHA
&
PETERKIN,
1991;
FRANCO
184
&
LANDGRAF, 1996; LOVETT & TWEDT,
SZYERES, 2001).
Com exceção da listeriose neonatal,
1988; MARTH, 1988).
A infecção ocorre em qualquer faixa
que é transmitida da mãe para o feto, as
são
etária, sendo sua ocorrência maior no recém
provavelmente adquiridas pelo contato
nascido, crianças e pessoas idosas. Nestes
direto com animais doentes ou seus
dois últimos a mortalidade é bastante alta,
excrementos, possivelmente pela inalação
em média 70% (CASTRO, 1989).
outras
de
formas
poeira
de
ou
listeriose
ingestão
de
A listeriose invasiva é uma infecção
alimentos
de origem alimentar com alta morbidade e
contaminados (CASTRO, 1989).
A transmissão da Listeria spp. pode
mortalidade em adultos que adquirem
ocorrer tanto por contato direto quanto
meningoencefalite e, em recém nascidos
indireto com fontes contaminadas; por via
que
oral,
septicemia severa (SCHLECH, 1996).
ocular,
cutânea,
respiratória
e
desenvolvem
Em
urogenital. O organismo pode estar presente
uma
mulheres
síndrome
grávidas
de
produz
em secreções oculares, nasal e purulenta da
geralmente sintomas de gripe, mas pode
epiderme e na urina, placenta de bovino
haver invasão do feto e, dependendo do
infectado; outros tecidos contaminados,
estágio em que a gravidez se encontra, pode
fezes e sangue. Porém, a transmissão por
ocorrer aborto, parto prematuro, nascimento
alimentos
mais
de natimorto, septicemia neonatal ou
importante (MARTH, 1988; SILVA, 1996).
meningite no recém nascido (FRANCO &
parece
ser
a
forma
A listeriose no organismo humano e
LANDGRAF, 1996; SILVA, 1996).
O
no animal tem um quadro diferente da
aborto
listérico
na
mulher
maioria das outras doenças enquadradas
somente ocorre na segunda metade da
como
agentes
gravidez, com mais freqüência no terceiro
etiológicos são transmitidos por alimentos.
trimestre. Os sintomas que precedem em
Isto
alguns dias ou semanas ao aborto ou ao
enfermidades
se
deve
à
cujos
natureza
intracelular
facultativa do seu agente causal que
parto
rompendo as células produz septicemia, o
aumento da temperatura corporal, ligeira
que
irritação
propicia
a
infecção
de
tecidos
podem
e
consistir
às
em
vezes
calafrios,
sintomas
normalmente não afetados, como o sistema
gastrointestinais (ACHA & SZYERES,
nervoso central, a placenta e o útero
2001).
gravídico (CASTRO, 1989; FABER &
Revista da FZVA.
Uruguaiana, v.14, n.1, p. 180-192. 2007
185 Importância da Listeria...
O
Nos casos de comprometimento do
primeiro
caso
de
listeriose
sistema nervoso central, a manifestação dá-
humana foi denunciado em 1929, e desde
se através do aparecimento de meningite,
então
encefalite e de abcessos. Entre outras
enfermidade se apresenta esporadicamente
formas localizadas de listeriose podem ser
em todo o mundo. L. monocytogenes é o
citadas a endocardite e osteomielite, porém
agente etiológico de aproximadamente 98%
são mais raras. (FRANCO & LANDGRAF,
dos casos que ocorrem em pessoas e 85%
1996)
dos casos que ocorrem nos animais. Pelo
A
ingestão
contaminados
com
de
alimentos
Listeria
spp.
é
particularmente perigosa para gestantes,
se
tem
comprovado
que
esta
menos três casos de enfermidade em
pessoas foram causados por L. ivanovii e
somente um por L. seeligeri (JAY, 2005).
recém nascidos, indivíduos com síndrome
A ampla distribuição de Listeria
de imunodeficiência adquirida, carcinomas
spp. na natureza e nas fezes dos animais
e outras doenças e medicamentos que
explica que sua presença em carnes cruas é
provoquem comprometimento do sistema
quase inevitável. A presença em carnes
imunológico. (FRANCO & LANDGRAF,
cruas pode variar de zero a 68%. A carne
1996; HOBBS & ROBERTS, 1992)
suína é a mais contaminada, porém,
Devido à ocorrência de muitos
também é freqüente a contaminação de
surtos de listeriose de origem alimentar na
carne
América do Norte e Europa, inclusive com
informação sobre a virulência das cepas de
casos fatais, vem ocorrendo um aumento de
L.
interesse na presença ou ausência de
(JOHNSON et al. (1992) apud ACHA &
Listeria
SZYERES, 2001)
monocytogenes
em
alimentos.
crua
de
monocytogenes
aves.
Existe
isoladas
de
pouca
carnes
Contagens acima de 106 por grama têm
Os estudos e procedimentos para
sido encontradas em queijos moles e patês
isolamento e enumeração de Listeria spp. e
de carne. Em uma grande proporção de
Listeria monocytogenes em alimentos têm
alimentos
comumente encontrados
aumentado muito nos últimos anos. As
pequenos números de L. monocytogenes,
mudanças nas características e nos hábitos
porém
especificações
alimentares, a forma em que os alimentos
microbiológicas estipulam a ausência de L.
são produzidos, a habilidade da Listeria de
monocytogenes em 25 g de alimento
sobreviver em condições adversas, sua
(HARRIGAN, 1998).
capacidade de crescer em temperatura de
são
muitas
refrigeração, aliado à sua resistência ao
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186
Mantilla, S.P.S. et al.
congelamento, ao calor e aos diversos
seguida por L. monocytogenes (29,3%) e L.
antibióticos, tornaram esse microrganismo
welshimeri (24,4%).
De 63 amostras de carcaças de
emergente e de grande importância entre os
patógenos transmitidos por alimentos e
frango
analisadas
em
Portugal,
todas
atualmente representa um grande problema
apresentavam-se
para as indústrias de alimentos e órgãos
Listeria spp., sendo que 26 amostras (41%)
oficiais de regulamentação (DONELLY et
foram positivas para L. monocytogenes
al., 1992; FABER & PETERKIN,1991).
(ANTUNES et al., 2002).
contaminadas
com
No estudo realizado por YUCEL et
De acordo com os resultados obtidos
al. (2005), 146 amostras de carnes bovina
por BERSOT et al. (2001), das 30 amostras
inteira e moída e de frango, cruas e cozidas,
de mortadela analisadas, 11 (36,7%) foram
foram analisadas em relação à presença de
positivas para Listeria spp., sendo oito
Listeria spp. Destas, 79 amostras (54,10%)
(26,7%) para L. monocytogenes.
Na
apresentaram-se contaminadas por Listeria
pesquisa
realizada
por
spp., sendo que a maior ocorrência de
GONÇALVES (1998), das 40 amostras de
isolamento (86,4%) ocorreu na carne
carne de frango congeladas, isoloram-se
bovina moída crua. L. monocytogenes foi
246 cepas de Listeria spp., sendo 52 cepas
isolada em nove das 79 amostras (6,16%),
de L. monocytogenes, três de L. ivanovii, 24
sendo L. innocua isolada em 68 amostras
de L. seeligeri, 35 de L. innocua e 132 de L.
(46,57%).
welshimeri.
De um total de 400 amostras de
Das
monocytogenes,
cepas
51,9%
de
L.
pertenciam
ao
carne moída analisadas, sendo bovina (211)
sorotipo ½ b, 30,8% ao 4 b e 17,3% ao ½ c.
e suína (189), FANTELLI & STEPHAN
ARAÚJO (2002), encontrou em 80
L.
% das amostras de blanquet de peru fatiado
monocytogenes (10,75%). Destas, 19 cepas
e em 90 % das amostras de presunto de
pertenciam ao sorotipo 1/2a, duas ao
peru fatiado contaminação por Listeria spp..
sorotipo 1/2b, 12 ao sorotipo1/2c e dez ao
Destas, 52 cepas eram L. monocytogenes,
sorotipo 4b.
sendo
(2001)
isolaram
43
cepas
de
SILVA et al. (2004), isolou Listeria
spp. em 100% das 41 amostras de lingüiças
mistas do tipo frescal analisadas. Dentre as
51,9%,
34,6%,
7,7%,
5,8%,
pertencentes as sorotipos 4b, 1/2c, 1/2b e
1/2a, respectivamente.
No
trabalho
desenvolvido
por
diferentes espécies, L. innocua foi isolada
MENA et al. (2004), vários tipos de
com maior freqüência (97,6% das amostras)
produtos alimentícios foram analisados
Revista da FZVA.
Uruguaiana, v.14, n.1, p. 180-192. 2007
187 Importância da Listeria...
quanto a presença de L. monocytogenes em
amostras analisadas incluíam produtos crus
Portugal. Das 1035 amostras (leite, carne,
(carne,
peixes crus, e alimento termicamente
processados
processados e fermentados), 72 (7,0%)
vegetais congelados e salmão defumado). A
foram positivas para L. monocytogenes. Das
maior ocorrência de Listeria spp. foi
17 amostras de carne bovina crua, 3
encontrada em amostras de carne de frango
(17,7%)
L.
crua (76,3%) seguidas por amostras de
monocytogenes. A carne de frango crua
carne moída vermelha bovina e suína
obteve maior número de amostras positivas
(62,3%). Similarmente, a maior ocorrência
(60%) comparando-se com os alimentos
de L. monocytogenes foi detectada nestes
analisados.
produtos (36,1% e 34,9% respectivamente).
foram
positivas
para
KASNOWSKI (2005) isolou um
leite
e
frango)
(carne
curada
e
produtos
e
cozida,
L. innocua (13,0%) e L. monocytogenes
total de 173 cepas de Listeria spp. de
(8,3%)
foram
as
espécies
mais
amostras de carne bovina (alcatra). Destas,
extensivamente distribuídas nos produtos
72 (41,62%) foram originadas da carne
em geral. Das 295 amostras de carne bovina
inteira e 101 (58,38%) da carne moída. A
e suína crua, 103 (34,9%) apresentaram-se
espécie mais isolada foi a Listeria innocua
contaminadas com L. monocytogenes, 103
6a, totalizando 91 cepas, seguida da
(34,9%) com L. innocua, 45 (15,1%) com
Listeria monocytogenes 4b com 45 cepas
L. welshimeri e 4 (1,6%) com L. seeligeri.
identificadas. Também foram isoladas 11
LUND et al. (1991) analisaram
cepas de Listeria innocua 6b, uma de L.
amostras de leite cru quanto à presença de
innocua rugosa, 18 de L. innocua não
bactérias do gênero Listeria. A ocorrência
tipável e sete de L. monocytogenes 1/2b.
de Listeria spp. foi 28%, sendo 3% L.
No
trabalho
realizado
por
SAMADPOUR et al. (2006) de um total de
monocytogenes, 26,7% L. innocua e 1,7%
L. welshimeri.
512 amostras de carne moída analisadas
YUCEL et al. (2004) isolaram
através da “Polymerase Chain Reaction”
8,25% de L. monocytogenes de três tipos de
(PCR) seguido pela confirmação da cultura,
carne crua: carne moída, carne de frango e
18
carne bovina. Das nove cepas de L.
(3,5%)
foram
positivas
para
L.
monocytogenes.
monocytogenes, duas foram obtidas a partir
VITAS et al. (2004) investigaram a
das amostras de carne moída, cinco da
presença de Listeria spp. num total de 3685
carne de frango e duas da carne bovina. Em
amostras obtidas no Norte da Espanha. As
relação às outras espécies isoladas, 90%
Revista da FZVA.
Uruguaiana, v.14, n.1, p. 180-192. 2007
188
Mantilla, S.P.S. et al.
eram L. innocua e 1,2% L. welshimeri. Das
estabelecidos para amostra indicativa ou
98 cepas de L. innocua, 49, 26 e 23 foram
amostra representativa, ou aqueles cujos
isoladas das amostras de carne moída, carne
resultados
de frango e carne bovina respectivamente.
presença ou a quantificação de outros
SIRELI & EROL (1988), analisaram
100 amostras de carne moída em Ankara,
analíticos
demonstram
a
microrganismos patogênicos ou toxinas que
representem risco à saúde do consumidor.
Segundo JAY (2005), a Comissão
Turquia quanto à presença e grau de
contaminação com Listeria spp. O método
Internacional
utilizado para o isolamento e identificação
Microbiológicas
deste gênero bacteriano foi o do “United
(“International
States Department of Agriculture-Food
Microbiological Specifications for Foods” –
Safety and Inspection Service” (“USDA-
“ICMSF”) parece ter concluído que, se esse
FSIS”). Diferentes espécies de Listeria
microrganismo não exceder 100 UFC/g de
foram isoladas em 97% das 100 amostras
alimento,
analisadas. L. innocua foi a espécie
aceitável para indivíduos que não estão sob
prevalente
risco.
(92%),
seguida
pela
L.
em
Especificações
para
Alimentos
Commission
este
pode
ser
on
considerado
monocytognes (28%), L. murrayi (10%), L.
grayi
(9%),
L
seeligeri
(3%)
e
L.
CONCLUSÃO
welshimeri (2%). L. ivanovii não foi
A L. monocytogenes é um patógeno
detectada em nenhuma amostra testada.
amplamente encontrado no ambiente e no
Estes resultados confirmam estudos prévios
intestino de homens e animais, facilitando a
de que a carne moída é uma das maiores
contaminação de água e alimentos. É um
fontes de Listeria spp. e pode ser um perigo
patógeno
em
os
enfermidade transmitida por alimentos
consumidores desta carne crua ou mal
conhecida como listeriose, que possui um
cozida.
curso diferente das outras doenças de
potencial
principalmente
para
No Brasil, não há um limite
capaz
de
ocasionar
uma
origem alimentar, visto que, ao causar
L.
septicemia, o microrganismo pode atingir
monocytogenes, entretanto, de acordo com
diversos órgãos como o sistema nervoso
a Resolução RDC n° 12 (BRASIL, 2001),
central e a placenta ocasionando meningites
são considerados produtos em condições
e abortos
sanitárias
presença
específico
estipulado
insatisfatórias
para
aqueles
cujos
resultados analíticos estão acima dos limites
alimentos,
listéricos.
de
L.
Sendo
assim,
monocytogenes
representa
um
perigo
a
em
em
Revista da FZVA.
Uruguaiana, v.14, n.1, p. 180-192. 2007
189 Importância da Listeria...
potencial para a saúde coletiva, devendo-se
BERSOT,
L.S.;
intensificar a fiscalização de produtos de
FRANCO,
D.D.G.;
origem
Production of mortadella: behavior of L.
animal
quanto
à
inocuidade
monocytogenes
alimentar.
LANDGRAF,
during
M.;
DESTRO,
M.T.
processing
and
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