Rev Bras Cardiol Invas 2004; 12(4): 172-177. Chaves ÁJ, et al. Estudo Piloto com Administração de Altas Doses de Sirolimus por Via Oral para Prevenção da Reestenose IntraStent em Lesões de Novo: Avaliação Seriada por Meio do Ultra-Som Intracoronário. Rev Bras Cardiol Invas 2004; 12(4): 172-177. Artigo Original Estudo Piloto com Administração de Altas Doses de Sirolimus por Via Oral para Prevenção da Reestenose Intra-Stent em Lesões de Novo: Avaliação Seriada por Meio do Ultra-Som Intracoronário Áurea J. Chaves1, Amanda G. M. R. Sousa1, Fausto Feres1, Alexandre Abizaid1, Luiz A. Mattos1, Rodolfo Staico1, Marinella Centemero1, Luiz F. Tanajura1, Andrea C. Abizaid1, Arilson Rodrigues1, Ângela Paes1, Gary S. Mintz2, J. Eduardo Sousa1 RESUMO SUMMARY Este estudo piloto avaliou a segurança e a eficácia do tratamento com altas doses de sirolimus por via oral (dose de 15 mg, 24 horas antes da intervenção coronária percutânea, seguido por dose diária de 5 mg, durante quatro semanas), em 15 pacientes submetidos a implante eletivo de stents metálicos convencionais em lesões de novo. A média de idade dos pacientes do estudo era 59±9 anos, sendo 73% do sexo masculino e 13% diabéticos. O diâmetro de referência foi 3,04±0,38 mm e a extensão da lesão 14±2 mm. A análise angiográfica e volumétrica por meio do ultra-som intravascular foi obtida em todos os pacientes aos 6,0±0,2 meses. Dois (13%) pacientes apresentaram reestenose binária, com perda tardia intra-stent e intra-segmento de 0,61±0,31 mm e 0,67±0,45 mm, respectivamente; o volume de obstrução de neoíntima foi de 28,5±15,8%. Nos segmentos de referência adjacentes não se observou aumento significativo de placa, nem remodelamento vascular constritivo. Não foram registrados óbitos, infartos do miocárdio ou revascularizações de lesõesalvo, no acompanhamento de 24 meses. O nível sangüíneo médio de sirolimus foi de 13±7 ng/ml. Não foram encontradas correlações entre os níveis da medicação do estudo e a perda tardia (r=0,15, p=0,59) ou o volume de obstrução da neoíntima (r=0,23, p=0,47). Os efeitos colaterais foram freqüentes (80%), resultando na redução da dose em quatro pacientes e a interrupção da administração do fármaco em um. Os resultados deste estudo piloto sugerem que a administração de altas doses de sirolimus por via oral não mostra melhora relevante dos parâmetros angiográficos ou ultra-sonográficos da reestenose, após o implante de stents convencionais em lesões de novo, quando comparados a controles históricos. Considerando-se a relação eficácia/segurança, nossos resultados não encorajam novos estudos para avaliação do protocolo atual para a prevenção de reestenose intra-stent. Pilot Study With an Intensified Oral Sirolimus Regimen for the Prevention of In-Stent Restenosis in de Novo Lesions: A Serial Intravascular Ultrasound Study This pilot study evaluated the safety and efficacy of an intensified oral sirolimus regimen (15 mg loading dose 24 hours before PCI, followed by a daily dose of 5 mg for 4 weeks) in 15 patients submitted to elective bare metal coronary stent implantation for de novo lesions. Mean patient age was 59±9 years; 73% were male, and 13% were diabetics. The reference diameter was 3.04±0.38 mm, and lesion length was 14±2 mm. Angiographic and volumetric intravascular ultrasound (IVUS) analysis was obtained in all patients at 6.0±0.2 months. Two patients met the definition of in-segment binary restenosis (13%); in-stent and in-segment angiographic late loss was 0.61±0.31 mm and 0.67± 0.45 mm, respectively, and the percent neointimal volume was 28.5±15.8%. Neither significant plaque increase nor constrictive vascular remodeling were found in adjacent reference segments. At 24-month follow-up no deaths, myocardial infarctions, or target lesion revascularizations were detected. Mean sirolimus blood level was 13±7 ng/ml; no correlations were found between drug levels and late loss (r=0.15, p=0.59) or IVUS percent neointimal volume (r=0.23, p=0.47). Side effects were frequent (80%) leading to dose reductions in four patients, and drug discontinuation in one. The results of this pilot study suggest that an intensified 5-mg oral sirolimus regimen resulted in no relevant improvements in the angiographic and IVUS parameters of restenosis after stent implantation in de novo lesions when compared to historic controls. Considering the efficacy/safety balance, our results do not encourage further trials evaluating the current protocol for the prevention of in-stent restenosis. DESCRITORES: Reestenose coronária. Contenedores. Ultrasom. Sirolimo. DESCRIPTORS: Coronary restenosis. Stents. Ultrasonics. Sirolimus. 1 Serviço de Cardiologia Invasiva, Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, São Paulo, Brasil. 2 Cardiovascular Research Foundation, New York, New York. Correspondência: Áurea J. Chaves. Serviço de Cardiologia Invasiva. Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia. Av. Dr. Dante Pazzanese, 500 - São Paulo - SP - Brasil - CEP 04012-180 Tel.: (11) 5085-4215 - Fax: (11) 5549-7807 • e-mail: [email protected] Recebido em: 11/10/2005 • Aceito em: 31/10/2005 172 Aurea-Chaves.p65 172 19/12/2005, 10:56 Chaves ÁJ, et al. Estudo Piloto com Administração de Altas Doses de Sirolimus por Via Oral para Prevenção da Reestenose IntraStent em Lesões de Novo: Avaliação Seriada por Meio do Ultra-Som Intracoronário. Rev Bras Cardiol Invas 2004; 12(4): 172-177. C omparada aos stents revestidos com sirolimus, a administração oral de sirolimus foi proposta como uma estratégia de baixo custo para a prevenção da reestenose coronária intra-stent. No entanto, estudos recentes têm demonstrado resultados controversos, que podem ser explicados por diferenças nos subgrupos de lesões tratadas (de novo, reestenóticas) ou nos regimes de administração do fármaco (doses pré e pós-intervenção percutânea, tempo de administração do sirolimus)1-7. À luz destes dados, conduzimos um estudo piloto para avaliar a segurança e a eficácia de um protocolo com altas doses de sirolimus por via oral, para pacientes submetidos ao implante de stents metálicos convencionais em lesões de novo. MÉTODO Seleção de pacientes e protocolo do estudo Os pacientes considerados qualificados para este estudo piloto foram aqueles que apresentassem uma lesão de novo , acompanhada por sintomas ou por prova funcional detectora de isquemia positiva em uma artéria coronária nativa. Os critérios de exclusão foram infecção sistêmica, contagem de leucócitos <4.000/mm3, hemoglobina <10 g/dl, contagem de plaquetas <100.000/mm3, triglicérides >400 mg/dl ou creatinina >2,0 mg/dL. As exclusões angiográficas incluíram diâmetro do vaso alvo <2,5 mm e >3,5 mm, extensão da lesão >18 mm, estenose não-protegida de tronco de artéria coronária esquerda >50%, lesões ostiais, evidência angiográfica de trombo, lesões reestenóticas, oclusões totais, ou fração de ejeção ventricular esquerda <30%. Foi requerido um teste negativo para gravidez para pacientes em idade fértil, antes da administração da medicação do estudo, assim como práticas de controle de natalidade aprovadas cientificamente durante o estudo. O sirolimus, disponível em solução oral (1 mg/mL, Wyeth-Ayerst Laboratories, Rouses Point, NY), foi administrado na dose de 15 mg, 24 horas antes da intervenção percutânea, seguido por doses diárias de 5 mg durante quatro semanas. Os níveis de sirolimus no sangue, hemograma completo e níveis de colesterol e de triglicérides em jejum foram obtidos semanalmente durante a administração da medicação do estudo. As concentrações sangüíneas de sirolimus foram medidas por cromatografia líquida de alta performance, pelo método de detecção ultravioleta8. O estudo foi conduzido em observância aos princípios da Declaração de Helsinque e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Instituição. Todos os pacientes assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido antes de serem incluídos no estudo. Procedimento intervencionista e análise angiográfica e ultra-sonográfica Os pacientes receberam 200 mg de aspirina e 250 mg de ticlopidina duas vezes ao dia, iniciando >24 h antes do procedimento. A ticlopidina foi mantida durante quatro semanas, e a aspirina, indefinidamente. Os pacientes receberam uma dose inicial de 100 UI/ kg de heparina em bolus (máximo de 10.000 UI), com doses suplementares para se atingir o tempo de coagulação ativado >250 segundos. Os stents metálicos convencionais foram implantados de acordo com o protocolo padrão. Foram realizados angiogramas após a administração de 200 mcg de nitroglicerina antes e depois do procedimento, e também no acompanhamento. As imagens angiográficas e ultra-sonográficas foram obtidas durante o procedimento e no 6º mês de evolução. A angiografia pós-procedimento foi realizada em pelo menos duas projeções ortogonais, sendo que as mesmas projeções foram repetidas nos estudos de acompanhamento. A angiografia coronariana quantitativa foi realizada com equipamento de detecção automática de bordas (CMS, MEDIS - Cardiovascular Measuring System). O diâmetro de referência, o diâmetro luminal mínimo, o porcentual do diâmetro de estenose e o diâmetro do balão durante inflação máxima foram analisados e medidos. A reestenose angiográfica binária foi definida como o estreitamento do diâmetro ≥50% dentro do stent (análise intra-stent) e do segmento, incluindo os 5 mm proximais e distais ao stent (análise do segmento). Os segmentos dos vasos com stent foram examinados com transdutor de ultra-som de 40 MHz (ClearView, CVIS, Boston Scientific Corp.) com uma velocidade de recuo do cateter de 0,5 mm/s. As imagens do ultrasom foram analisadas por meio de um software de reconstrução 3D (EchoPlaque 2, Indec Systems Inc.). O stent e os segmentos de referência foram medidos a cada 1 mm por planimetria computadorizada. As áreas da membrana elástica externa (MEE), da luz, da placa e média (P&M=MEE-luz) foram medidas nos 5 mm adjacentes às bordas do stent e, então, calculados seus valores médios. Os volumes do stent, do lúmen e de hiperplasia intimal (stent-lúmen) foram medidos dentro do stent. Para o ajuste das diferentes extensões dos stents, índices de volume foram calculados, dividindo-se os volumes pela extensão do stent (IVS=índice do volume do stent; IVL=índice do volume da luz; e IVN=índice do volume neointimal). O volume de obstrução neointimal (VON) foi definido como IVN dividido pelo IVS. Resultados finais e definições Após o procedimento, todos os pacientes foram acompanhados por pelo menos um ano, avaliando-se os eventos cardíacos adversos maiores, definidos como óbito por qualquer causa, infarto não-fatal do miocárdio ou revascularização da lesão-alvo. Infarto do miocárdio foi definido como novas ondas Q patológicas em duas ou mais derivações contíguas ou a elevação da creatinoquinase (CK) ou sua isoenzima MB ≥3 vezes o 173 Aurea-Chaves.p65 173 19/12/2005, 10:56 Chaves ÁJ, et al. Estudo Piloto com Administração de Altas Doses de Sirolimus por Via Oral para Prevenção da Reestenose IntraStent em Lesões de Novo: Avaliação Seriada por Meio do Ultra-Som Intracoronário. Rev Bras Cardiol Invas 2004; 12(4): 172-177. limite superior ao normal quando da hospitalização ou ≥2 vezes o limite superior ao normal a partir de então. Foram determinados os valores para CK e CKMB antes, 8-12 e 18-24 horas após o tratamento e, a partir de então, diariamente até a data da alta hospitalar. As reações adversas associadas à medicação do estudo foram classificadas como leves (perceptíveis, porém com sintomas bem tolerados), moderadas (desconforto com interferência nas atividades diárias) e graves (impossibilidade de realizar atividades diárias ou risco de vida). Análise estatística Os dados foram analisados pelo programa SAS (versão 8.01, SAS Institute). As variáveis categóricas foram expressas em porcentagens e as variáveis contínuas em média ± DP. ANOVA foi utilizada para medidas repetidas e a correlação de Pearson avaliou as correlações entre os níveis de sirolimus e a perda tardia intra-stent e o volume de obstrução da neoíntima. A significância estatística foi aceita para valores de p<0,05. RESULTADOS Foram incluídos 15 pacientes (15 lesões /15 stents), no período entre setembro de 2002 e janeiro de 2003. A média de idade dos pacientes foi 59±9 anos; sendo 73% do sexo masculino e 13% diabéticos. O diâmetro de referência foi 3,04±0,38 mm e a extensão da lesão 14±2 mm. Não foram registrados eventos durante a hospitalização. A análise angiográfica e volumétrica pelo ultra-som foi realizada aos 6,0±0,2 meses, em todos os pacientes. A perda angiográfica tardia intra-stent e no segmento foi 0,61±0,31 mm e 0,67±0,45 mm, respectivamente (Tabela 1). Dois (13%) pacientes apresentaram reestenose binária, porém ambos mostraram à angiografia coronária quantitativa (QCA) lesão<70%. Nenhum paciente apresentou sintomas ou teste funcional isquêmico positivo. O volume de obstrução da neoíntima foi de 28,5±15,8% (Tabela 2). Nos segmentos de referência, não se registrou aumento significativo de placa, nem remodelamento vascular constritivo (Tabela 3). Tampouco foram observadas evidências de mau posicionamento das hastes do stent ou formação de aneurisma. O acompanhamento clínico subseqüente foi realizado em 100% dos pacientes, com uma duração média de 24±4 meses. Não foram registrados óbitos, infartos do miocárdio ou revascularizações da lesãoalvo durante o período de acompanhamento. Também não foram detectadas neoplasias neste período. Os níveis de sirolimus no 7º, 14º, 21º e 28º dias de tratamento estão demonstrados na Tabela 4; o valor médio foi de 13±7 ng/ml. Não foram encontradas correlações entre o nível de sirolimus e a perda tardia (r=0,15, p=0,59) ou o volume de obstrução da neoíntima (r=0,23, p=0,47). Foi realizada uma análise retrospectiva das correlações entre os níveis semanais de sirolimus e as duas medidas de reestenose; nenhuma delas significante (dados não estão demonstrados). Os níveis de hemoglobina, assim como de leucócitos e a contagem de plaquetas, mostraram-se mais baixos durante a administração de sirolimus, porém, nenhuma destas alterações laboratoriais foi considerada clinicamente relevante. Não foram observadas diferenças significativas para os níveis de colesterol e de triglicérides durante as quatro semanas de tratamento. Os efeitos adversos ocorreram em 12/15 pacientes (80%), resultando reduções da dose em quatro pacientes e a interrupção da administração da medicação em um. Efeitos colaterais múltiplos foram relatados por quase metade da população do estudo (7/15). A taxa de sintomas considerados leves, moderados e graves foi de 59%, 32% e 9%, respectivamente (Tabela 5). A queixa mais comum foi a toxicidade gastrointestinal, manifestada como dor abdominal, náuseas e vômitos, úlceras orais ou diarréia. Todos os efeitos colaterais desapareceram com a interrupção da medicação. DISCUSSÃO Este estudo piloto foi realizado para avaliar a segurança e a eficácia da administração de uma alta dose de sirolimus por via oral na prevenção da reestenose coronária intra-stent. Nossos resultados não confirmam a hipótese de que a dose administrada de 15 mg de sirolimus, 24 horas antes da intervenção percutânea, TABELA 1 Análise angiográfica quantitativa Diâmetro de referência (mm) Extensão da lesão (mm) Relação balão/artéria Diâmetro luminal mínimo (mm) Pré-procedimento Pós-procedimento (intra-stent) Pós-procedimento (no segmento) Tardio intra-stent Tardio (no segmento) Estenose do diâmetro (%) Pré-procedimento Pós-procedimento (intra-stent) Pós-procedimento (no segmento) Tardio intra-stent Tardio (no segmento) Ganho agudo (mm) Perda tardia intra-stent (mm) Perda tardia no segmento (mm) Reestenose intra-stent (%) Reestenose de borda (%) Reestenose no segmento (%) 174 Aurea-Chaves.p65 174 19/12/2005, 10:56 3,04±0,38 14±2 1,11±0,08 0,81±0,21 2,90±0,32 2,36±0,39 2,29±0,49 2,00±0,50 73±6 7±2 14±5 25±10 34±15 2,09±0,27 0,31±0,31 0,37±0,45 1 (6,3) 1 (6,3) 2 (13,3) Chaves ÁJ, et al. Estudo Piloto com Administração de Altas Doses de Sirolimus por Via Oral para Prevenção da Reestenose IntraStent em Lesões de Novo: Avaliação Seriada por Meio do Ultra-Som Intracoronário. Rev Bras Cardiol Invas 2004; 12(4): 172-177. TABELA 2 Medidas ultra-sonográficas intra-stent Lesão alvo Stent mm IVS mm3/mm IVL mm3/mm IVN mm3/mm VON (%) 01 02 03 04 05 06 07 08 09 10 11 12 13 14 15 Média ± DP 3,5 x 15 3,0 x 18 3,0 x 13 4,0 x 12 3,0 x 18 3,5 x 16 3,5 x 15 3,0 x 18 3,0 x 18 3,0 x 18 3,0 x 18 3,5 x 18 3,0 x 15 3,5 x 18 3,0 x 18 09,1 05,5 09,1 11,7 08,3 08,9 08,7 06,7 07,3 09,7 10,9 09,9 08,9 14,2 06,3 9,0 ± 2,2 06,9 04,3 05,3 10,3 02,3 06,3 05,0 03,4 05,9 07,1 07,3 07,8 07,7 13,3 04,3 6,3 ± 2,7 2,2 1,2 3,5 1,4 5,7 2,3 3,7 3,3 1,4 2,5 3,3 2,1 1,2 1,0 1,3 2,4 ± 1,3 24,4 21,7 38,4 12,1 68,5 26,1 42,8 49,1 19,8 26,3 30,5 21,3 13,3 06,8 25,8 28,5 ± 15,8 IVS= índice de volume do stent; IVL= índice de volume da luz; IVN= índice do volume neointimal; VON= volume de obstrução da neoíntima. TABELA 3 Análise das bordas pelo ultra-som intracoronário Borda proximal Lumen (mm2) Placa (mm2) Vaso (mm2) Carga de placa (%) Borda distal Lumen (mm2) Placa (mm2) Vaso (mm2) Carga de placa (%) Pós-procedimento 6 meses Valor de p 8,3 ± 3,4 7,1 ± 2,1 15,7 ± 4,2 46 ± 11 8,8 ± 4,5 7,4 ± 1,7 16,2 ± 5,0 48 ± 13 0,771 0,441 0,461 0,491 6,1 ± 2,2 6,2 ± 2,7 12,3 ± 3,8 50 ± 13 6,1 ± 2,9 5,9 ± 2,9 12,0 ± 4,3 49 ± 17 0,948 0,352 0,584 0,784 Valores expressos em médias ± DP seguida por uma dose de manutenção de 5 mg durante quatro semanas, reduza de maneira consistente a perda tardia e o volume de obstrução da neoíntima observados aos seis meses. Os efeitos colaterais foram freqüentes, especialmente os sintomas gastrointestinais. O sirolimus (rapamycin, RAPAMUNE) – uma lactona macrocíclica natural - é um agente antiproliferativo e imunossupressor potente, que se liga à proteína FK (FKBP12); seu complexo faz uma ligação subseqüente com uma proteína específica reguladora do ciclo celu- lar chamada mTOR (mammalian Target of Rapamycin), inibindo sua ativação e prevenindo a redução do p27, um inibidor da quinase ciclino-dependente, levando, em última instância, à inibição do ciclo celular no estágio final da fase G19. O sirolimus apresenta uma ampla distribuição tecidual, uma grande variabilidade intra e interindividual do seu clearance e uma correlação abaixo de ótima, entre as concentrações do sangue total e a dose da medicação ou as características do paciente. A meia-vida longa para a eliminação do 175 Aurea-Chaves.p65 175 19/12/2005, 10:56 Chaves ÁJ, et al. Estudo Piloto com Administração de Altas Doses de Sirolimus por Via Oral para Prevenção da Reestenose IntraStent em Lesões de Novo: Avaliação Seriada por Meio do Ultra-Som Intracoronário. Rev Bras Cardiol Invas 2004; 12(4): 172-177. TABELA 4 Valores laboratoriais Sirolimus (ng/ml) Colesterol (mg/dl) Triglicérides (mg/ml) Hemoglobina (g/dl) Leucócitos (x103/ml) Plaquetas (x103/ml) Pré 7 dias 14 dias 21 dias 28 dias 6 meses 210±38 201±116 14,2±1,2 7,0±1,4 295±77 13,3 ± 4,9 206±33 244±122 14,0±1,3 7,0±1,3 265±75 13,2 ± 8,1 224±25 232±87 13,9±1,5 5,9±1,3† 244±104† 15,2 ± 7,9 228±30 261±114 13,0±2,0† 5,7±1,3† 275±93 10,3 ± 8,3 224±29 221±95 13,1±1,8† 5,7±1,2† 279±74 178±45* 144±73* 13,7±1,4 7,0±2,0 234±61 * p<0,05 e † p=0,001 vs. valores de referência correspondentes. TABELA 5 Efeitos colaterais e gravidade Sintomas* Leve Dor abdominal Náusea & vômito Úlceras orais Diarréia Pneumonia Infecção do trato respiratório superior Infecção do trato urinário Perda de peso corporal Erupções cutâneas Leucopenia Total, n (%)† 13 Moderado Grave 2 2 0 2 0 1 0 0 0 0 2 0 2 2 3 1 0 0 1 2 1 1 (59%) 7 0 0 0 0 (32%) 0 0 0 0 2 (9%) * Os efeitos colaterais foram contados separadamente; † Porcentagens expressas em relação ao número total de sintomas. sirolimus exige uma dose de ataque que atinja concentrações terapêuticas rapidamente e níveis sangüíneos entre 5 e 20 µg/L mostram uma imunossupressão potente na prática clínica10. Uma dose de ataque três vezes maior que a dose de manutenção resultará concentrações estáveis no prazo de 24 horas para a maioria dos pacientes11. Os dados clínicos sugerem que a eficácia imunossupressiva e a ocorrência de efeitos adversos se correlacionam às concentrações sangüíneas, com níveis aumentados de triglicérides, redução dos níveis de hemoglobina, dos leucócitos ou da contagem das plaquetas como as principais reações adversas observadas. Uma maior susceptibilidade à infecção e ao desenvolvimento de malignidades pode advir da imunossupressão10,12. Recentemente, o estudo ORBIT5 foi a única publicação que avaliou a administração de 5 mg de sirolimus para prevenção da reestenose exclusivamente em pacientes com lesões de novo. As duas estratégias de administração – de 2 e de 5 mg/dia de sirolimus durante 30 dias (com dose de 5 mg administrada imediata- mente antes ou após a intervenção) – resultaram em taxas equivalentes de perda tardia e de obstrução do volume da neoíntima pelo ultra-som. A perda tardia intra-stent foi de 0,60±0,54 mm e 0,71±0,49 mm e a obstrução do volume da neoíntima foi de 29% e 24%, respectivamente. Em nosso estudo, as duas medidas de reestenose, a perda tardia intra-stent (0,61±0,31 mm) e o volume neointimal pelo ultra-som (28,5±15,8%), apresentaram valores próximos aos relatados recentemente para stents metálicos convencionais (0,7-1,0 mm e 29-33%, respectivamente)13-17. Além do mais, nossos resultados complementam os achados do estudo ORBIT, demonstrando que o pré-tratamento 24 horas antes do procedimento e uma dose de ataque mais alta de 15 mg acrescentada à estratégia da dose diária de 5 mg não melhoram a evolução das lesões de novo tratadas com stents convencionais. O presente estudo não achou correlações entre os níveis de sirolimus e a perda tardia ou o volume de obstrução da neoíntima pelo ultra-som. Ao contrário do estudo piloto ORAR2, os níveis sangüíneos de sirolimus não discriminaram pacientes com e sem reestenose. Na verdade, os casos de reestenose intra-stent e de borda desta série apresentaram níveis sangüíneos médios de sirolimus de 15,3 e 16,6 ng/ml, respectivamente. Os altos níveis de sirolimus tecidual requeridos para a efetiva inibição da hiperplasia intimal, dados pelo stent com liberação de sirolimus (140 µg de sirolimus por cm2 de área de superfície)18 e os freqüentes efeitos adversos com concentrações sistêmicas bem menores (10-20 ng/ml), enfatizam as vantagens de um sistema de administração de fármacos com uma dose local alta e baixa concentração sistêmica, encontrados nos stents farmacológicos. Neste estudo, os efeitos adversos à medicação foram freqüentes e sabidamente estão relacionados às concentrações de sirolimus no sangue10. Muito embora os efeitos colaterais tenham apresentado uma resposta pobre a tratamentos paliativos, todos, com exceção de um paciente, completaram o protocolo de quatro semanas. Os efeitos adversos desapareceram com a interrupção da medicação e nenhuma conseqüência danosa foi observada no acompanhamento de até 24±4 meses. 176 Aurea-Chaves.p65 176 19/12/2005, 10:56 Chaves ÁJ, et al. Estudo Piloto com Administração de Altas Doses de Sirolimus por Via Oral para Prevenção da Reestenose IntraStent em Lesões de Novo: Avaliação Seriada por Meio do Ultra-Som Intracoronário. Rev Bras Cardiol Invas 2004; 12(4): 172-177. Deve-se ressaltar que as preocupações relativas à toxicidade do vaso com o stent de liberação de sirolimus têm desaparecido gradualmente, com a observada evolução de longo prazo da primeira série de pacientes tratados há mais de quatro anos, livre de eventos clínicos, angiográficos e ultra-sonográficos19. CONCLUSÕES Os resultados deste estudo piloto sugerem que o tratamento intensificado com 5 mg de sirolimus via oral não mostrou melhora relevante nos parâmetros angio e ultra-sonográficos de reestenose, após o implante de stents metálicos convencionais em lesões de novo, quando comparados a controles históricos. Considerando-se o balanço eficácia/segurança, nossos resultados não encorajam estudos futuros para se avaliar o protocolo atual na prevenção de reestenose intra-stent. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 1. Brara PS, Moussavian M, Grise MA, Reilly JP, Fernandez M, Schatz RA et al. Pilot trial of oral rapamycin for recalcitrant restenosis. Circulation 2003;107:1722-4. 2. Rodriguez AE, Alemparte MR, Vigo CF, Pereira CF, Llaurado C, Russo M et al. Pilot study of oral rapamycin to prevent restenosis in patients undergoing coronary stent therapy: Argentina Single-Center Study (ORAR Trial). J Invasive Cardiol 2003;15:581-4. 3. Hausleiter J, Kastrati A, Mehilli J, Vogeser M, Zohlnhofer D, Schuhlen H et al. Randomized, double-blind, placebocontrolled trial of oral sirolimus for restenosis prevention in patients with in-stent restenosis: the Oral Sirolimus to Inhibit Recurrent In-stent Stenosis (OSIRIS) trial. Circulation 2004;110:790-5. 4. Guarda E, Marchant E, Fajuri A, Martinez A, Moran S, Mendez M et al. Oral rapamycin to prevent human coronary stent restenosis: a pilot study. Am Heart J 2004;148:e9. 5. Waksman R, Ajani AE, Pichard AD, Torguson R, Pinnow E, Canos D et al. Oral rapamycin to inhibit restenosis after stenting of de novo coronary lesions: the Oral Rapamune to Inhibit Restenosis (ORBIT) study. J Am Coll Cardiol 2004;44:1386-92. 6. Rodriguez AE, Rodriguez-Alemparte M, Vigo CF, FernandezPereira C, Llaurado C, Vetcher D et al. Role of oral rapamycin to prevent restenosis in patients with de novo lesions undergoing coronary stent therapy: results of the Argentina single center study (ORAR Trial). Heart 2005;91:1433-7. 7. Brito Jr. FS, Rosa WC, Arruda JA, Tedesco H, Pestana JO, Lima VC. Efficacy and safety of oral sirolimus to inhibit instent intimal hyperplasia. Catheter Cardiovasc Interv 2005; 64:413-8. 8. Di Marco GS, Andrade MC, Felipe CR, Alfieri F, Gooding A, Silva Jr. HT et al. Determination of sirolimus blood concentration using high-performance liquid chromatography with ultraviolet detection. Ther Drug Monit 2003;25:558-64. 9. Marx SO, Marks AR. Bench to bedside: the development of rapamycin and its application to stent restenosis. Circulation 2001;104:852-5. 10. Mahalati K, Kahan BD. Clinical pharmacokinetics of sirolimus. Clin Pharmacokinet 2001;40:573-85. 11. Kuchulakanti P, Waksman R. Therapeutic potential of oral antiproliferative agents in the prevention of coronary restenosis. Drugs 2004;64:2379-88. 12. Dantal J, Soulillou JP. Immunosuppressive drugs and the risk of cancer after organ transplantation. N Engl J Med 2005;352:1371-3. 13. Morice MC, Serruys PW, Sousa JE, Fajadet J, Ban Hayashi E, Perin M et al. A randomized comparison of a sirolimuseluting stent with a standard stent for coronary revascularization. N Engl J Med 2002;346:1773-80. 14. Grube E, Silber S, Hauptmann KE, Mueller R, Buellesfeld L, Gerckens U et al. TAXUS I: six- and twelve-month results from a randomized, double-blind trial on a slow-release paclitaxel-eluting stent for de novo coronary lesions. Circulation 2003;107:38-42. 15. Colombo A, Drzewiecki J, Banning A, Grube E, Hauptmann K, Silber S et al. Randomized study to assess the effectiveness of slow- and moderate-release polymer-based paclitaxeleluting stents for coronary artery lesions. Circulation 2003; 108:788-94. 16. Moses JW, Leon MB, Popma JJ, Fitzgerald PJ, Holmes DR, O’Shaughnessy C et al. Sirolimus-eluting stents versus standard stents in patients with stenosis in a native coronary artery. N Engl J Med 2003;349:1315-23. 17. Stone GW, Ellis SG, Cox DA, Hermiller J, O’Shaughnessy C, Mann JT et al. A polymer-based, paclitaxel-eluting stent in patients with coronary artery disease. N Engl J Med 2004;350:221-31. 18. Sousa JE, Costa MA, Abizaid AC, Rensing BJ, Abizaid AS, Tanajura LF et al. Sustained suppression of neointimal proliferation by sirolimus-eluting stents: one-year angiographic and intravascular ultrasound follow-up. Circulation 2001; 104:2007-11. 19. Sousa JE, Costa MA, Abizaid A, Feres F, Seixas AC, Tanajura LF et al. Four-year angiographic and intravascular ultrasound follow-up of patients treated with sirolimus-eluting stents. Circulation 2005;111:2326-9. 177 Aurea-Chaves.p65 177 19/12/2005, 10:56