Relato do trabalho - BVS-Psi

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Relato do trabalho:
Fazer (se) psicólogo: diálogos sobre uma
experiência de estágio em Recife – PE
RESUMO
O presente trabalho relata de modo reflexivo a experiência de estágio em psicologia
clínica, a partir do enfoque psicossocial, realizado de novembro de 2006 a agosto de
2007, em um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) em Recife/PE. Neste texto
encontram-se narrativas de experiências com articulações teóricas, questionamentos,
sugestões. Traço a contextualização do tema da loucura e a construção histórica de um
outro modo de lidar com ela, proposto pela reforma do modelo asilar. Do mesmo modo,
procuro localizar o fazer clínico no campo da Saúde Mental, a partir da clínica
psicossocial de base analítica, suas práticas, intervenções possíveis, leitura dos
fenômenos, modo de ser terapeuta, e como é possível acontecer o trabalho
psicoterapêutico em grupo. Descrevo e analiso as atividades realizadas a partir do
suporte teórico apresentado na fundamentação. Na conclusão, teço considerações sobre
quais foram às contribuições do estágio para minha formação profissional, fazendo uma
avaliação do serviço e de minha formação acadêmica com base na vivência do estágio.
PALAVRAS-CHAVE: clínica, saúde mental
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Fazer (se) psicólogo: diálogos sobre uma
experiência de estágio em Recife – PE
Autora: Daniela Torres Barros
Banca examinadora: No departamento de Psicologia em que este relatório foi
produzido, a banca examinadora é composta pelo orientador (Prof. Dr. Benedito
Medrado), a supervisora (Anna Carvalheira) e um membro anônimo do Colegiado
do curso que emite parecer.
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1- INTRODUÇÃO
O presente relatório é uma narrativa/elaboração da experiência de estágio em
clínica, mais especificamente a partir da clínica psicossocial de base analítica. O serviço
do CAPS, instituição na qual realizei o estágio, surgiu como parte de uma Política
Nacional de Assistência a Saúde Mental no Brasil. Não por acaso, um longo percurso
foi traçado para chegarmos a este ponto. Para compreender este caminho explanarei a
respeito da história da loucura, de sua institucionalização, de como ocorreu este
processo no país.
A primeira parte deste trabalho será dedicada ao contexto histórico, nele
discorrerei a respeito da loucura, para situar a construção da loucura com um problema
de saúde pública, e como o serviço do CAPS se insere nas Políticas Públicas Nacionais.
Descreverei a construção da Psicologia como um saber científico referendado, fazendo
conexões com a história da loucura.
Em seguida posiciono a fundamentação teórica, a partir da qual apresento o fazer
psicológico no contexto da saúde mental e através de que eixos e bases foram investidas
as minhas intervenções clínicas.
Posteriormente, relatarei as atividades realizadas ao longo do estágio, fazendo
uma ponte com conceitos e argumentos referidos na fundamentação teórica e outros que
contribuíram mais pontualmente.
Na conclusão, teço considerações a respeito das práticas do CAPS, da
interdisciplinaridade, do papel do psicólogo e da psicologia e das instituições
formadoras. Assim como o papel do estágio em minha formação, tendo por base
reflexões realizadas a partir da vivência no estágio.
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1.1. Contexto Histórico
1.1.1. O cenário da loucura
Para situar a loucura historicamente, utilizo em especial as contribuições de
Tundi & Costa (1997) e Amarante (1996). A loucura é descrita por Tundis & Costa
(1997) como um fenômeno presente em toda a história da humanidade. Relatam que no
período da Antiguidade e Idade Média o louco gozava de certo grau de liberdade. Ele
circulava, fazia parte do cenário de linguagens comuns, havendo interferência do
Estado, apenas em casos jurídicos de separação e proteção à propriedade privada. Na
Grécia Antiga e em Roma, os ricos mantinham-nos em casa com a companhia de
assistente contratado e nas classes populares, praticavam tratamentos através de rituais
mágicos e religiosos. O Velho Testamento descreveu uma situação do louco nas ruas
sendo caçoado, marcando desde essa época traços da exclusão e violência
De acordo com esses autores, a relativa liberdade dos insanos nos períodos
anteriores poderia ser explicada pelo baixo número de “loucos”, pois a incidência do
enlouquecimento era maior em adultos e na velhice (idades pouco alcançadas em épocas
remotas). Essa liberdade também pode ser explicada por um certo “afrouxamento” da
nossa sociedade capitalista em relação às exigências do tempo. Pois o campesinato
obedecia temporalmente à natureza, e os artesãos eram valorizados quanto à
originalidade. Havia um espaço maior para a diferença, mas com o fim da classe
campesina como principal mão-de-obra explorada, no fim do século XV, aos artesões
coube a divisão do trabalho. A produção em série e a necessidade de mão-de-obra fez os
desocupados, mendigos e vagabundos serem punidos e exilados. Os desviantes da
norma saíram das ruas e foram para as Santas Casas e hospitais sendo
institucionalizados.
O tratamento à loucura era situado no corpo, através de encarceramento e
liberação dos “maus humores” com sangramentos e purgantes. Ao final do século
XVIII, os loucos foram separados dos demais desviantes, e receberam atenção
especializada da psiquiatria com o “tratamento moral”. O regime moral, sob influência
de Pinel, abandonou a busca de causalidades e tratamentos físicos e dirigiu-se a mente
humana, traçando a psiquiatria da higiene moral (TUNDIS & COSTA, 1997).
Do século XIX em diante, a ciência se apropriou da loucura construindo um
saber a respeito da doença mental (AMARANTE, 1995). Com o objetivo romântico de
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cura que culminou na prática médica psiquiátrica instituiu dispositivos de descrição,
categorização, medicalização e terapeutização, típicos do regime disciplinar
Para Amarante (1995), a loucura atualmente diz respeito fundamentalmente à
psiquiatria. O processo de crítica e de ruptura com o padrão de cura e de reclusão
ocorreu a partir de pensamentos fenomenológicos; da epistemologia; da construção das
Comunidades Terapêuticas nos EUA e Inglaterra; da Psicoterapia Institucional na
França; a Terapia Familiar; da antipsiquiatria. Todos estes movimentos contribuíram
para a des-contrução do modelo asilar na saúde mental. E fizeram com que a psiquiatria
fosse passando para o espaço público, da intervenção com tratamento para a prevenção
e promoção de saúde, as idéias e práticas democráticas foram diluindo o saber médico
hegemônico e autoritário.
Conforme Tundis & Costa (1997), no pós-guerra, a instituição total psiquiátrica
tornou-se inviável economicamente. Neste período a psiquiatria preventiva surgiu nos
EUA, seu principal representante foi Caplan e tinha o objetivo de assegurar um
tratamento antes e após a “cura”. Propôs a demarcação de um novo território, o de
Saúde Mental, sugeriu a intervenção em situações de crise, a prevenção primária como
promoção de saúde, a prevenção secundária com o diagnóstico e tratamento e a terciária
de reabilitação social. As crises eram olhadas como momentos acidentais ou evolutivos,
em que o sujeito enfrentava uma descontração e um possível rearranjo em sua vida
(CAPLAN, 1980). Houve então, um deslocamento da doença mental de um
acontecimento extraordinário para a normalidade do padecer, apesar da ênfase na
prevenção ainda possuir fortes indícios da Higiene Mental.
Iniciou-se o processo de des-hospitalização, e outros dispositivos (como os
ambulatórios) cresceram juntamente com o aumento das demandas de atendimento
(AMARANTE, 1995). O aumento da demanda de atendimentos ambulatoriais é
compreendido em Tundis & Costa (1997) como produto da individualização dos
problemas sociais. O fato de fazer a leitura de que a demanda de atendimento é
construída socialmente, não invalida o sofrimento do usuário. A questão é a abertura
para possibilidade de identificar essas marcações sociais. No Brasil a evolução da
loucura não foi diferente, no tópico a seguir discorrei a respeito.
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1.1.2. A loucura situada no Brasil
No Brasil colônia, a loucura pouco se diferia da dos tempos bíblicos no qual o
louco, quando manso, errava pelas ruas com a ajuda de caridade ou de trabalhos
esporádicos. Quando violento, o “louco” ficava detido em prisões por curto tempo,
podendo receber maus tratos. O número de insanos era reduzido, mesmo nas Santas
Casas de Misericórdia e outras instituições de caridade do século XVI e XVII. Em
famílias ricas eram escondidos em quartos próprios ou construções anexas, se violentos
eram amarrados e contidos. Semelhante à Europa, os passos dados em direção à
institucionalização da loucura foram à remoção dos perturbadores da ordem do âmbito
público, e em seguida a educação para o trabalho (TUNDIS & COSTA, 1997).
Esses autores afirmam que um discurso científico respaldava as ações de
trabalho forçado como imposição terapêutica. E havia a presença maciça de uma dada
classe era justificada por herança hereditária. O trabalho era ao mesmo tempo:
indicativo de doença, quando não exercido corretamente; modo de tratamento em
colônias terapêuticas; e quando era capacitado para, sinalizador de cura. À medida que
se constatou a ineficiência do aprendizado do trabalho rural, foi lentamente extinguido
como prática terapêutica. Os hospícios foram ganhando uma nova roupagem com a
sociedade modernizada, com preocupação na alimentação e as vestes.
Em 1950, a Organização Mundial de Saúde (OMS) atentava para os prejuízos
causados pelas doenças mentais na produção das indústrias, apontando para a
necessidade de repensar o tratamento ao louco. Naquela época, o estado brasileiro
tendia ao laissez-faire, sem políticas consistentes de educação e saúde. Começou a se
ocupar com a preservação e adestramento da força de trabalho, a população de
trabalhadores. Houve a privatização dos serviços com os hospitais previdenciários,
gerando uma indústria da loucura (TUNDIS & COSTA, 1997).
Amarante (1995) resgata o papel dos atores envolvidos na reforma psiquiátrica.
Em resultado às pressões do Movimento dos Trabalhadores de Saúde Mental (MTSM)
houve o surgimento do primeiro CAPS – Centro de Atenção Psicossocial Professor Luiz
Serqueira em 1987; São Paulo, um grande passo na transformação dos serviços mentais.
A instituição funcionava como filtro no atendimento do hospital, acolhendo usuários
com graves dificuldades de inserção social. Semelhante ao regime de “hospital-dia” na
França nos anos 40, dos Centros de Saúde Mental nos anos 60 dos EUA. O serviço
adquiriu sua nomenclatura inspirada no modelo da Manágua de 1986, que dispunha de
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líderes comunitários, profissionais de saúde e fazia uso de materiais reciclados na
reabilitação ou habilitação dos excluídos.
Um marco na história da saúde coletiva, destacado por Dimenstein (2001), foi a
VIII Conferência em Saúde, em 1986, que definiu os princípios do Sistema Único de
Saúde. A partir dessa discussão a saúde foi garantida enquanto direito e dever do Estado
na Constituição Brasileira de 1988. E surgiram os princípios: da universalidade, garantia
de acesso a todos e todas; da eqüidade considera as especificidades da demanda e
estabelece prioridades; a integralidade com a visão e atenção do sujeito em sua
totalidade, e ampliação do olhar por intermédio do trabalho interdisciplinar (LEI
8.080/1990) que nortearam a implantação e a lógica do Sistema Único de Saúde.
A adesão ao SUS e seus conceitos e princípios, o conceito ampliado de saúde, a
importância do controle social, da transdiciplinaridade para cuidar do indivíduo
integralmente, universalmente e eqüitativamente é evidente. O SUS bebeu do
movimento da Reforma Psiquiátrica, no tocante à descentralização do modelo médicopsiquiátrico, e comunga com a psicologia comunitária quando se focaliza na prevenção
de acordo com Pereira (2001). Ele afirma que a ideologia da libertação é a de que os
indivíduos sujeitos e, portanto, com responsabilidades sob suas escolhas, seus direitos e
deveres.
Posteriormente surgiram os NAPS (Núcleos de Apoio Psicossocial), que
funcionavam por vinte quatro (24) horas nos sete (7) dias da semana, acolhendo as
demandas de abrigo, com caráter substitutivo dos manicômios. Os CAPS e NAPS foram
incorporados nas políticas nacionais e em 1989 foi promulgada uma Lei 3.657/89 que
dizia respeito aos direitos dos doentes mentais e ao uso de recursos não-manicomiais.
Em 2001, se consolidou os direitos para pessoas acometidas de transtorno mental (LEI
10.216/2001). A passagem do tratamento psiquiátrico orgânico para o tratamento moral
e preventivo solicitou um espaço para a psicologia (AMARANTE, 1995).
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1.2. A construção da psicologia como saber científico
Em meio à transformação do espaço da loucura no mundo, há a psicologia como
ciência que se transforma e influencia no modo de ver e tratar o louco. Diante dessa
temática, é importante compreender as origens do saber da psicologia. Entendendo sua
ciência como uma construção social, um empreendimento humano que se encontra
condicionado socialmente, resultante de experiências variadas e da interação de variadas
teorias (JAPIASSU, 1977). Deste modo, farei um passeio pela invenção da ciência e da
psicologia como um saber referendado, considerando contribuições teóricas de
Figueiredo, de Santi e Japiassu.
Inicialmente, a ciência surgiu, de acordo com Figueiredo & Santi (2004), a partir
de necessidades criadas após o declínio do Renascimento em que caíram por terra as
referências cristãs, as quais constituíam o código de moralidade que norteava as ações
do ser humano. Esse último passou a ser reconhecido em seu livre-arbítrio, um passo
adiante para o surgimento da subjetividade privatizada.
Ainda de acordo com os autores citados acima, Descartes foi representante do
momento da verdade a partir de si mesmo, individualmente. A dúvida, método adotado
por ele, soou como uma saída conciliadora para o ceticismo vigente, se por um lado
permanecia a dúvida, esta era justificada pela procura da verdade. Foram elaborados
métodos de investigação calcados na razão, pois o sentimento era considerado volátil e
os sentidos passíveis de engano.
O processo de individuação foi favorecido pelo sistema mercantil. Na relação de
troca o interesse era sempre de vantagem individual, contrapondo-se aos interesses
coletivos e modos de produção feudal que favoreciam o bem comum. Após a queda do
sistema feudal, o trabalhador perdeu o referencial das terras e da família como
instituição produtora, lançando-se sozinho ao mercado de trabalho (FIGUEIREDO &
SANTI, 2004).
Como crítica ao Iluminismo e à racionalidade, estruturou-se o Romantismo,
defendendo o ser humano como ser passional e sensível. O Romantismo provocou uma
fratura na crença do ser humano como dono de si. Sustentava a igualdade calcada na
diferença e acreditava que os intensos sentimentos poderiam unir os homens, apesar das
diferenças. Enquanto o pensamento liberal e iluminista apostavam na fraternidade, essa
contradição gerou uma crise. O desamparo e a solidão decorrentes desta crise
acarretaram numa atitude de submissão de acordo com Figueiredo & Santi (2004). Em
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decorrência disso, um sistema de “docilização” foi instalado, o regime disciplinar,
composto de técnicas científicas de controle e registro dos indivíduos construindo um
saber-poder (FOUCAULT, 1979).
As ciências naturais basearam-se na premissa de que o ser humano como ser
individualizado é capaz de dominar e controlar a natureza de acordo com sua vontade.
Porém, a busca pela objetividade acentuou a existência de fatores subjetivos. Para a
ciência ter legitimidade precisou dar conta desta área não racional e objetiva, a
subjetividade. Desta forma, o ser humano saiu da posição de mero pesquisador para a de
objeto de seu próprio estudo.
Com a divisão de todos os fenômenos em duas categorias, a dos fenômenos
físicos e a dos fenômenos psíquicos, divisão mente/corpo, o método científico deveria
operar uma cisão, expurgar a subjetividade que comprometesse o sujeito epistêmico.
Esse território expurgado, do excluído deu lugar às psicologias (FIGUEIREDO, 1995).
Para Figueiredo & Santi (2004) a psicologia veio da contradição, da valorização
das diferenças do mundo moderno com a eliminação das diferenças pelo método
científico objetivo, abarcando uma enormidade de propósitos, modelos, métodos e
teorias. Emergiu do pensamento Liberal de autonomia, auto-controle, do pensamento
Romântico de espontaneidade, autenticidade, singularidade e do regime disciplinar com
a necessidade de controle através de técnicas.
A Psicologia no século XIX era dualista. Havia uma psicologia fisiologista e
uma psicologia descritiva ou subjetiva. A psicologia naturalista científica deu origem a
uma psicologia fisiologista ao comportamentalismo, a psicologia comparativa, a
neuropsicologia (LURIA, 1979).
O comportamentalismo, no início do século XX, deslocou o objeto da mente
para o comportamento humano em suas interações com o ambiente. Deixando de lado
os pensamentos, sentimentos, desejos do romantismo. O sujeito foi reduzido a um
organismo e comparado no discurso científico aos demais organismos (FIGUEIREDO
& SANTI, 2004).
Para os autores, a psicologia da Gestalt comprovou o que Wundt, criador do
primeiro laboratório de psicologia, já desconfiava por meio de experimentos voltados
para a descrição ingênua dos fenômenos: da conexão entre a experiência e os aspectos
culturais do sujeito, e observou uma busca do sujeito pela integração da percepção.
Paralelo a isso, Piaget pesquisou por meio do método clínico o desenvolvimento da
moral e das funções cognitivas. E Freud definiu como objeto de estudo o inconsciente,
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contrapondo-se à visão positivista com um objeto não observável e do sujeito racional
(FIGUEIREDO & SANTI, 2004).
Em síntese, a Psicologia como ciência ocupou o lugar expurgado da
subjetividade. Interessou-se inicialmente pela experiência imediata, observando sua
íntima conexão com o contexto cultural. Colocou em questão o sujeito da razão
proposto pelo Iluminismo e pensamento liberal. Aventurou-se em estudar aspectos não
mensuráveis ou observáveis do sujeito, como o desenvolvimento moral proposto por
Piaget e o estudo do inconsciente realizado por Freud.
Esses movimentos não fazem um continuum, não remetem a uma evolução
teórica ou mesmo cronológica na psicologia, eles estão presentes ainda hoje, e juntos
formam o escopo da ciência psicológica. Por ser bastante ramificada, seria impossível
estabelecer seu elenco completo, difícil inclusive, segundo Japiassu (1977), falar de uma
Psicologia.
1.3.1. O fazer psicológico
Uma função social que a psicologia tem assumido é a de explicação a respeito
do homem, seus comportamentos e atitudes, lembrando o papel da Igreja na Idade
Média. O refluxo da religião, das filosofias deixou um espaço ocupado atualmente pela
psicologia, um lugar de explicação, de guardiã da subjetividade, do humano no ser
humano, como ciência do subjetivo (JAPIASSU, 1977).
O profissional tem servido muitas vezes aos interesses das instituições e do
regime disciplinar, enquadrando, adaptando, selecionando, detectando erros. Ela viria a
preencher o vazio que liga o ser humano ao meio, substituindo a moral clássica
(FIGUEIREDO & SANTI, 2004). Os autores elencam o clínico com um ator que parece
fugir um pouco a essa regra ou tem possibilidade para tanto, por ter como clientes
indivíduos ou agrupamentos de indivíduos. Mostram-nos funções de integrar e adaptar o
homem a sociedade assumidas pela psicologia: adaptação ao trabalho; adaptação e
integração psíquica, espiritual e física. Ao invés de ser uma ciência que possibilita ao
homem encontrar o sentido de sua palavra, põe-se no objetivo de reajustar os desviados
da norma, vem formulando receitas de adaptação deste a sociedade, exercendo a
regulação a serviço da norma social.
A psicologia deve tentar dar conta do ser humano como subjetividade, como um
existente cujo sentido precisa ser manifestado segundo Japiassu (1977). Diante das
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variadas psicologias, convoca para a questão do sentido para o qual o homem se evoca e
o mundo em seu projeto. Os diversos pontos de vista poderão assim se comunicar para
compreender melhor a presença do homem no mundo e desvelar o seu existir.
Para Figueiredo (1995), ao psicólogo clínico cabe ouvir o não dito, o excluído,
as possibilidades de sentidos da experiência imediata. O autor denuncia que a psicologia
clínica: estaria interessada no tratamento curativo, no pólo disciplinar, e atua como
redução de sintomas; no romantismo quanto à expressividade; e no pólo liberal, com
meios de propiciar autodomínio.
De uma forma ou de outra a psicologia aceita o ser humano como um ser
descritível, talvez os psicólogos jamais devessem renunciar a uma dose de filosofia na
busca de desvelar os sentidos da existência, colaborando na concepção de uma ciência
inserida num projeto libertário. Um projeto de encontro do homem para consigo em
suas possíveis significações (JAPIASSU, 1977).
Nietzsche (apud Figueiredo & Santi, 2004) des-construiu a necessidade de
crença em algo fixo, afirmando esta tentativa como uma necessidade apenas de
controlar o devir. Ele deslocou a “verdade” para o âmbito da ética, da utilidade de cada
crença para todo o fazer humano. Um imperativo ético urge à Psicologia, afinal o
psicólogo tem o dever de refletir a respeito das possíveis conseqüências da tomada de
uma ação, de uma verdade, ou como diria Nietzche, de cada uma ilusão. A respeito da
ética profissional, Goldin comenta:
“A prática profissional tem estreitas relações com a ética. Muitas vezes os
profissionais ficam com a impressão de que basta as regras estabelecidas no Código
de Ética Profissional. Assim fazendo, estariam contempladas todas as exigências
éticas. Vale lembrar que os Códigos de Ética são, na verdade, Códigos de Conduta,
pois estabelecem as regras para o exercício profissional considerado adequado. (...)
A Ética Profissional vai muito além do simples estabelecimento e cumprimento de
regras, busca, isto sim, as justificativas para estes deveres e comportamentos.”
(GOLDIN: 123; 1988).
Para tornar-se possível pensar no fazer psicológico em meu estágio situando-o
no âmbito da ética é necessário, primeiramente, conhecer um pouco a respeito da
história da loucura. Mais especificamente, conhecer o surgimento de políticas públicas
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em saúde mental, decorrentes dos movimentos da Reforma Psiquiátrica e Sanitária e as
conseqüências deste modo de lidar com a loucura para a clínica psicológica.
1.3. Abordagem Teórico-metodológica
Primeiramente, apresentarei a clínica psicossocial como um modo de
intervenção possível e utilizada no serviço do CAPS. Para a leitura dos fenômenos
lancei mão da contribuição psicanalítica na valorização da palavra, história de vida e
compreensão do sujeito, lugar estarei olhando para fazer minhas intervenções.
Posteriormente, farei a junção destes aspectos, a terapia de base analítica com enfoque
na clínica psicossocial, e o trabalho psicoterapêutico em grupos.
1.3.1. A Clínica Psicossocial
A clínica psicológica no serviço do CAPS prescinde de outro modo de
intervenção. Os movimentos da Reforma do Modelo Asilar e da criação do Sistema
Único de Saúde (SUS) demarcaram uma transformação no fazer clínico demarcando a
construção da clínica psicossocial (VIEIRA, 1997), na contemporeneidade.
Na Contemporaneidade, a angústia do ser humano tem sido ampliada pela
fragmentação do eu, perda de referências, pela indefinição de papéis, pela sensação de
“liberdade” e responsabilidade que esta traz (MORATTO, 1999).
Nossa cultura
narcísica tende a pulverizar os vínculos afetivos e a valorizar a imagem, a “liberdade”
acarreta nas sensações de angústia e des-territoriarização. Ocorre uma ruptura de
sentido que dá origem ao sofrimento.
A mesma autora admite o clinicar como inclinar-se sobre, que deve levar em
conta este momento no qual o ser humano, se insere e trazer uma nova ética, a do
cuidado, contrapondo-se a ética da eficácia, e da excelência. Boff nos diz que “cuidar é
mais que um ato; é uma atitude. Portanto, abrange mais que um momento de atenção,
de zelo e de desvelo. Representa uma atitude de ocupação, preocupação, de
responsabilização e de envolvimento afetivo pelo outro” (BOFF; 33, 1999). Assim, o
cuidar faz parte do fazer-saber psicológico, como sendo um debruçar-se, inclinar-se em
direção ao outro numa atitude clínica. Lembrando o conceito de “estar-aí” em
Heidegger (apud VATTIMO, 1996), um modo de ser-no-mundo que pode ser como
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cuidado, que é equivalente à responsabilidade, é um cuidado de si e do outro, é estar no
mundo enquanto ser-junto.
O clínico enfrenta em sua prática, demandas diversas, situações de violência, de
transtornos mentais, abuso de drogas, situações de crise que requerem procedimentos
distintos da demanda de atendimento individual mais voltada para conflitos psíquicos e
existenciais. O termo “crise” é entendido normalmente como algo ruim, difícil,
negativo. Associado ao termo psicose que é vista como uma doença crônicodegenerativa leva a uma visão excludente e hospitalocêntrica, caminhando para o
internamento. De acordo Vieira (1997), o termo crise de Krisis, do grego, significa
decisão. Esse olhar implica numa mudança radical da idéia de crise e doença e em
alternativas para a contenção e a procedimentos de violência por parte dos familiares ou
mesmo dos profissionais.
A crise acontece quando um evento encontra ressonância no sujeito, em um
momento específico de sua história, situações de violência têm sido freqüentemente
desencadeadoras de traumas, a experiência negativa tende a ser revivida em sonhos,
pensamentos insistentes, provocar a repetição do evento (STERIAN, 2001). Um trauma,
segundo a autora, é um acontecimento da vida do sujeito em que este reagiu sem uma
resposta adequada.
A crise é para Moffatt (1984) uma vivência de paralizia e descontinuidade da
vida seja por um acontecimento traumático, seja por uma fase esperada. Erickson (1976)
e Caplan (1980), no entanto, desenvolveram suas teorias situando a crise como parte do
existir humano. Segundo a teoria das crises, ao longo da vida ocorrem períodos críticos
em que aumenta o estado de tensão, nos quais ocorre com maior facilidade mudanças.
Essas mudanças para VIEIRA (1997) podem ser em direção ao retorno de a um
equilíbrio, ou em direção a formação de lacunas, que dificultarão ou facilitarão o
enfrentamento de outras crises.
Sterian (2001) afirma que as intervenções em crise para situações emergenciais
acontecem em geral onde há risco a vida do paciente ou de outras pessoas, ou de uma
grande desorganização do sujeito. Nestes casos o terapeuta assume pela postura ativa e
utiliza as técnicas da psicoterapia de apoio, porém a intervenção acaba assim que o
sujeito saia da crise. Esse procedimento é utilizado em consultórios, hospitais, CAPS e
NAPS. (CORDIOLI, 1998).
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A clínica psicossocial é uma clínica adaptada para intervenção em situação de
crise, amplia o cuidado com o sofrimento subjetivo para potencialidades de direitos e
des-construção da tradicional clínica psicoterápica. O clínico atua:
“Preocupando-se com o cliente e a sua condição social e emocional estamos atentos a sua
historicidade, as situações de opressão que lhe provocam sofrimento, as pressões sociais
de normalização, a carga semântica de determinados significantes lingüísticos, as
condições sócio-biológicas nas quais se encontra, seus desejos, aspirações, a sua
potencialidade em melhorar a inserção social, a sua vitalidade para enfrentar novas
situações, etc.” (VIEIRA; 47: 1997)
As estratégias de trabalho são de brevidade, ou seja, de curta duração, por isso
sua natureza exploratória. A intervenção ocorre numa perspectiva interdisciplinar e em
rede, ocorre com a troca entre os profissionais de diferentes instituições e pessoas
significativas à problematização do cliente. Para cada caso deve-se organizar um
sistema terapêutico singular, em construção realizada mediante o trabalho
interdisciplinar e dialógico, no qual o clínico co-participa com outros profissionais da
saúde. Para Vieira (1997), o seu papel se desdobra em atividades, que implicam em
uma decodificação da demando do cliente, nas quais as ações em grupo, visitas
domiciliares, atendimento da família, individual devem estar coordenadas e em
sintonia.
O autor enfatiza a importância de o profissional perceber o quadro de referência
sócio-cultural do paciente e suas necessidades. A diferença de classe social e de cultura
pode interferir no diálogo gerando distorções que podem transformar a comunicação em
comunicandos de acordo com Freire (1988, apud em VIEIRA, 1997). Essas distorções
interferem na relação, o terapeuta pode estar sobrepondo sua visão de mundo a do
cliente e provocar desconfiança e até abandono do tratamento.
Todas as questões e observações levantadas nesse tópico concernem a um
sistema articulado de intervenções terapeutizantes, que podem ser embasadas por
variadas formas de olhar o mundo e os sujeitos.
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1.3.2. A leitura dos fenômenos
A teoria psicanalítica deslocou o sujeito da loucura e da adequação, para o da
produção de sentido (BIRMAN, 2003). Ela contribuiu para a valorização do sujeito, e
de seu discurso. Retirando o profissional de saúde do lugar de detentor de saber para
aquele que pode vir a estar-com, que tem a obrigação de buscar compreender, no
mínimo, o sentido que tem a doença para o sujeito. O discurso da psicanálise é o
discurso da singularidade. Esse discurso favoreceu uma escuta mais aguçada em direção
a pontos que serão trabalhos ao longo deste subtexto tendo como referência principal o
autor Ricardo Rodulfo (1990).
A psicanálise contribuiu para a leitura dos fenômenos em meu estágio na medida
em que valorizava o discurso, a singularidade dos sujeitos, atentava para o sujeito
construído pela linguagem, material e meio de trabalho da clínica psicológica.
Émile Benveniste (apud GARCIA-ROZA, 1997) diz que a linguagem reproduz a
realidade, e a palavra “reproduzir” ganha o sentido de produzir novamente. Para o
lingüista não há pensamento sem linguagem, sem a linguagem o indivíduo se perde, não
há diferenciação, não há mundo). O ser humano é ao mesmo tempo seu criador e sua
criatura, pois ele é ao simbolizar, cria ao mesmo tempo a linguagem e a si mesmo.
Garcia-Roza (2001) faz um diálogo entre a filosofia e a psicanálise no qual
remete à Heiddegger, que faz da palavra logos, falar, estender adiante, recolher. O autor
define a atitude de escuta como parte deste recolher e pousar do Logos, a verdadeira
escuta para ele é seletiva, se deixa de ouvir algo para ouvir melhor outra coisa, ou
mesmo o silêncio: “Se a palavra é logos, o Logos não é apenas palavra, lê o excede,
desdobra-se como palavra e as coisas, nomeia o devir e o ser do devir.” (GARCIAROZA: 45; 2001).
A linguagem é considerada o modo como o significado das coisas pode ser
trazido à tona. A linguagem é a casa do ser, uma espécie de custódia da presença, é ao
mesmo tempo ao de que dispomos e de que dispõe de nós. E proporciona o ser à coisa,
está circunscrita previamente e o circunscreve: “Se é na linguagem que se abre a
abertura do mundo, se é o ser às coisas, o verdadeiro modo de ir <<às próprias coisas>>
será ir à palavra” (VATTIMO: 137; 1996).
A verdade funda-se na liberdade, que é a abertura para a coisa. A verdade diz
respeito ao desvelamento do ente graças a sua abertura, e é a abertura que funda o
homem. O velamento é pensado a partir do desvelar entendido como verdade. Ele é
16
mais antigo do que a revelação, a verdade é, portanto, mistério. O homem cai em
errância da não-verdade e é dentro dela que se move. O campo psicanalítico há de supor
em Freud que o discurso do sujeito se desenvolve na ordem do erro, do
desconhecimento e da denegação, no erro ocorre à erupção da verdade, não a
contradição. Para Lacan (apud GARCIA-ROZA, 2001) os atos falhos são na verdade
atos bem sucedidos.
O revelado, no entanto, tem de ser visto e ouvido por outro homem ganhando
assim o testemunho de sua existência. O que é revelado modifica imediatamente o
testemunho, o que é compreendido prescinde de alguém que o compreenda, é pelo
testemunho que se dá através do desvelamento. Através desse que que se constitui o eu
(o olhar o do eu é sempre construído pelo olhar do outro), que se abrem os modos de ser
e conserva-se a pluraridade do ser (CRITELLI, 1996). Daí, a importância da escuta para
propiciar o testemunho do des-velamento, a arte do escutar dizer, contribuindo para a
construção de um outro modo de ser, na construção e des-contrução do que se chama
“eu”.
Freud constatou que o trauma era uma experiência que conectava aspectos
conscientes de não conscientes, comparou a organização do inconsciente a uma
“memória/arquivo”, em 1980 concebeu o psiquismo com um aparelho de linguagem
(GARCIA-ROZA, 1997). Em Heidegger (apud VATTIMO, 1996) o ser-no-mundo
requer a descoberta e uma familiaridade com os signos. Enquanto Lacan (apud
BIRMAN, 2003) encontrou os fundamentos para a criação de uma psicanálise ancorada
no campo da fala e linguagem, com o psiquismo organizado por significantes. Ao
simbolizar o ser humano estabelece uma relação entre o real e o signo (representante do
real) e nesta relação se dá à significação.
A palavra símbolo tem origem grega, era utilizada para representar duas metades
de um mesmo objeto partido que se aproximavam, expressando a palavra símbolo como
“em relação” (GARCIA-ROZA, 1997). O simbólico adquire, para Lacan (apud
GARCIA-ROZA, 1997), seu sentido pleno quando aplicado ao ser humano, pois a
função simbólica o engloba em sua totalidade. O universo simbólico não é constituído
aos poucos, a partir da existência de uma palavra todo o universo torna-se significativo.
Ou seja, ao simbolizar uma “coisa” todo o restante se torna relativo a esta palavra. Criase um mundo simbólico, cria-se com ele o próprio ser humano.
A psicanálise busca conhecer o imaginário do paciente e possibilitar a
reconstrução do significante. O significante seria aquilo que se repete sob
17
transformações ao longo de gerações é visto “como fenômeno que não se reduz ao
terreno das palavras” (RODULFO; 20: 1990). O autor estabelece baseado em Lacan
critérios para designar o significante. O primeiro é o da repetição, considerando que o
significante não é próprio de alguém ou do privado. Um segundo critério, é o de
modificação, cujo significante ao se repetir sempre introduz algo de novo e distintivo.
Não apenas frases ou palavras podem adquirir o status de significante, um gesto, uma
roupa, pode assumir este lugar mantendo como princípio a repetição insistente. O
significante está no cotidiano e sempre conduz para alguma parte, a partir deste, a
história do sujeito se encaminha para um lado. O terceiro critério é o de nortear, dar
direção.
Tomar a pré-história como fator causal e único é um erro, pois limita o sujeito
aos seus mitos familiares. O mito familiar não é de modo algum organizado, ele pode
ser compreendido como um feixe de vários mitos com incoerências, buracos, pode ser
considerado um punhado de significantes. A distinção entre significante e signo decorre
que o signo remete a uma idéia fixa, enquanto uma cadeia de significantes, esta cadeia
nos interessa enquanto dimensão inconsciente. (RODULFO, 1990).
O mito contém uma dimensão histórica, a da fala, e uma dimensão a-histórica, a
da língua, sem reduzir-se a nenhuma. Diz respeito sempre a acontecimentos passados,
porém é uma estrutura que é a-temporal, pois remete ao presente-passado-futuro.
(GARCIA-ROZA, 1997). Para Rodulfo (1990) as fantasias são relevantes elementos,
mas não podem ser vistas sem a atenção a pré-história, pois não foram produzidas a
partir do nada. As fantasias, o mundo do sujeito e as funções em que se fundamenta:
função paterna, materna, fraterna, de membros de outra geração, funções que o
nomeiam são levadas em consideração.
Segundo o mesmo autor, a tarefa do ser humano ao nascer é primordialmente
encontrar significantes que o represente, um lugar para existir. É uma atividade na qual
precisa da ajuda do outro, da qual todo ser humano prescinde. Um lugar só é possível
quando há um desejo com relação ao sujeito. O amor neste momento é um lugar, lugar
em que se habita no desejo do Outro. O desejo é o que circula em toda a cadeia de
significantes. É essencial encontrar significantes através das funções exercidas em
relação a ele, não doar significantes ou impô-los, se não lhe for permitido achá-los
ocorrerá uma falha essencial no processo ativo (RODULFO, 1990).
Ainda segundo o autor a diferença da neurose para a psicose é que na psicose o
sujeito não encontrou condições para produzir significantes que o representem e o
18
Superego apareceu com significantes de maneira esmagadora. O Superego tem nesse
contexto função destrutiva. No regime do significante do Superego o sujeito do gozo, se
dilui e o gozo, se dá como gozo do Outro. Ou seja, na psicose o sujeito está “colado” ao
Outro, o seu desejo é o desejo de um outro. Enquanto na neurose, o ser humano
encontra significantes que o representem, nas psicoses o sujeito os procura e tem de
lutar contra os que tendem a destruí-lo. Essa tarefa originária é extrativa, arrancar os
significantes e conseguir um lugar para viver, lugar em que possa apresentar seus
desejos.
A busca de significantes, no entanto, não se dá solitariamente. A psicanálise
pode ser concebida por excelência como doadora de lugar, lugar de poder ser, não como
doadora de significantes que determinam o sujeito. O mito atravessa gerações e pode
minar a possibilidade de vida simbólica (vida no sentido de potencialidade para o
sujeito se achar, se diferir). Então, o papel do analista é o de permitir que o indivíduo
perdido em seus fantasmas familiares se encontre com suas ilusões (MANNONI, 1995).
Tomando como perspectiva a leitura psicanalítica dos fenômenos, adentraremos nas
práticas psicoterapêuticas da clínica psicossocial.
1.3.3. Psicoterapias
Apesar da psicoterapia não fazer parte do modelo preconizado no CAPS percebo
que é possível e positivo realizar atendimentos psicoterápicos dentro da instituição.
Tendo em vista, entretanto, uma psicoterapia mais ampla, que ultrapassa as paredes do
consultório. E se torna mais flexível quanto ao tempo, espaço, procurando adequar-se
aos limites e necessidades do momento e atenta aos aspectos culturais, históricos
políticos, econômicos que perpassam a situação psicoterapêutica.
Para Vieira (1997), o papel do terapeuta na clínica psicossocial é
necessariamente mais ativo, é exigida uma gama de intervenções incluindo não apenas
entrevistas clínicas, mas também tarefas terapêuticas. A ênfase é nos conflitos mais
emergentes, com o intuito de ajudar a lidar com suas dificuldades possibilitando
alcançar um certo equilíbrio. Essas demandas levam o clínico a flexibilizar o enquadre
terapêutico, no que se refere ao horário, local e tempo devido às necessidades, por
exemplo, de visita domiciliar, ou em situações de crise aguda.
19
A relação terapêutica na crise requer do terapeuta algumas posturas e
características. O principal na emergência1 é propiciar condições para que o paciente
exponha sua problemática, perguntar a respeito de sua vida pode fazê-lo sentir bem no
ato de falar evitar a atuação. A atuação é um ato cometido de maneira impulsiva,
geralmente auto ou heterogressivo (STERIAN, 2003).
A autora destaca que nas terapias de emergência é muito importante que o
indivíduo tenha o paciente em vista para evitar sentimentos de perseguição e facilitar o
estabelecimento de uma boa relação. A aceitação incondicional, o continente para Bion
(apud STERIAN, 2003) é ingrediente do tratamento para portadores de transtornos
psíquicos graves ou com o ego enfraquecido, que tem como única maneira de suportar
estar uma relação terapêutica, o apoio. Trata-se de uma postura receptiva e acolhedora
do terapeuta com intervenções que reforçam o ego e estimulam uma transferência
positiva. O paciente precisa de apoio para adquirir a capacidade criativa, para o
pensamento novo sobre si, e sobre o mundo (CORDIOLI, 1998).
A escuta psicanalítica não é uma tarefa fácil, pois ela exige uma suspensão de
valores. É uma escuta atenta ao sentido pleno da palavra. A simples escuta abre espaço
para a fala e surge como um apelo ao sentido, à verdade do sujeito. É comum encontras
pessoas adoecidas, presas nas malhas do discurso familiar, social, incapazes de
criatividade. Deve-se evitar colocar-se no lugar de detentor do saber, sem infantilizar ou
diminuir o outro e impedi-lo de fazer escolhas (STERIAN, 2003).
A autora desconstrói a sessão com um tempo pré-definido, podendo se estender
por minutos ou mesmo horas. O setting terapêutico ou enquadre, não se limita às
demarcações tempo-espaciais. É um lugar, em que se exerce o papel de terapeuta e
paciente ou pacientes, em relação. É através da demanda, introdutora do sujeito a ordem
simbólica, que o terapeuta se vinculará ao paciente.
Na terapia rápida, não há tempo para esperar que o insight2 aconteça, o terapeuta
deve estimular a elaboração, oferecendo possibilidades, palavras que ajudem a
simbolizar a vivência do sujeito (STERIAN, 2003). O terapeuta com a atitude
terapêutica será um “ego corporal” conforme proposto por Winnicott. Nesta relação “o
cliente é o enigma e a chave para sua decifração” (WINNICOTT; 141: 1975). O
planejamento do tratamento é dado com o estreitamento do vínculo e é o cliente quem
1
Vinda do latim emergere, traduzido como emergir, mostrar-se, sair debaixo, situação crítica (STERIAN,
2003).
2
É um instante de conhecimento sobre, do inglês “in” interno, “sight” é visão (CORDIOLI, 1998).
20
dará a medida das coisas, cabe ao terapeuta aceitação e respeito por este outro que
demanda cuidado (MASSIH, 2000).
A psicoterapia de apoio, de base analítica, contribui com o atendimento do
paciente em crise (CORDIOLI, 1998). Ele indica tal procedimento para pacientes sem
grandes condições de insight, para psicoses, pessoas em situação de transtornos severos
de personalidade, com retardo mental, ou problemas físicos debilitantes. O seu objetivo
é de prevenir uma situação agravante, e desenvolver capacidade de enfrentar outras
crises. Tenta manter ou restabelecer o reforço do ego, reforço dos mecanismos
adaptativos, a capacidade de lidar com déficits provocados por uma doença, visando à
diminuição das tensões. A transferência3 não é interpretada, apenas quando cria
barreiras no processo terapêutico.
Conforme o autor, o suporte familiar é importante em casos de paciente com
transtornos mentais graves e pessoas com idéias suicidas. Nas intervenções em crise
busca-se por meio de técnicas proporcionar o alívio e retorno ao equilíbrio. Podendo
ocorrer à remoção do ambiente, o afastamento do fator estressante ou situação
conflitiva, associar a psicofármacos, e a técnicas de respiração e relaxamento.
O terapeuta é ativo, apoiador, elogia, utiliza técnicas de catarse, informação,
orientação, confrontação, busca de alternativas, role-playing4. Tem função de suporte,
fazendo o holding nos termos de Winnicott (1975), como um modelo de identificação.
Ocorre o estabelecimento de uma relação de dependência para posteriormente acontece
o processo de individuação e a aprendizagem pode ocorrer por imitação ou por
identificação com a assimilação de um atributo do outro.
Ainda com relação a psicoterapia de apoio, podem ser utilizadas as técnicas de
ventilação, catarse, sugestão, esclarecimento, aconselhamento, confrontação. Neste
método, a catarse se dá na narrativa detalhada do passado, com descarga de afetos e
emoções, proporcionando experiência de alívio e possível re-elaboração. O foco é no
“aqui agora”, na vida atual. E as sessões podem ser quinzenais, mensais, semanais ou
diárias, dependendo do caso. Tarefas para casa podem ser passadas, envolvendo,
quando necessário, membros da família. (CORDIOLI, 1998).
3
A transferência esta presente em toda relação, seria uma atualização de vínculos anteriores e de desejos
inconscientes, uma resistência ao novo (GAYOTTO, 2003).
4
É uma técnica criada por Moreno (1975) em que os papéis sociais são “vivenciados” e elaborados.
21
O trabalho em grupo também é bastante utilizado na clínica psicossocial, não
apenas por proporcionar atendimento a um maior número de indivíduos em menor
tempo, mas por ter especificidades que o grupo oferece enquanto efeitos terapêuticos.
Afinal, as diferenças culturais e de classe podem interferir bastante na
intimidade, o compartilhar de códigos, vestes favorece ou dificulta a identificação e
proximidade. (TUNDIS & COSTA, 1997). No grupo a relação de igual para igual
permite que essa identificação ocorra além de permitir ao cliente que este desempenhe
também um papel de cuidador. É importante que o terapeuta trabalhe o que foi
manifestado confrontando com os demais membros do grupo favorecendo uma
implicação deste com a temática (MORENO,1997).
A percepção de outras pessoas com os mesmos ou diferentes problemas, faz com
tenham esperança de superar as dificuldades e permite uma visão mais realista delas. O
grupo possibilita ser útil ao outro, a catarse, a ventilação das emoções. Permite lembrar
e elaborar as vivências do grupo primário, e os sentimentos de pertença melhoram a
auto-estima. É possível perceber com maior facilidade no grupo os fenômenos de
disputa, de controle de impulsos, sendo indicado para pacientes agudos (CORDIOLI,
1998).
Pichon-Rivière (2005) considera as neurose e psicoses como uma perturbação na
apreensão da realidade, através de papéis, funções sociais. A aprendizagem ocorre
mediante identificação com o objeto do conhecimento e a penetração nele. Ele aponta
para lacunas no saber psicanalítico, a questão da aprendizagem e a psicoterapia grupal,
levando em consideração tais aspectos desenvolve os grupos operativos, como um
modo de intervenção.
O grupo operativo oferece a oportunidade de co-participação do objeto mental e
conseqüentemente de alterações no esquema referencial. O esquema referencial é o
conjunto de conhecimentos e atitudes, a sua relação consigo e com o mundo,
semelhante ao campo conceitual definido por Kurt Lewin (1970). A finalidade do grupo
é de criar situações de “espelho” em que os participantes se reconheçam como parte do
grupo e ao mesmo tempo separados deste (PICHON-RIVIÈRE, 2005).
O grupo operativo pressupõe a existência dos esquemas referenciais individuais
que adquirem uma unidade grupal sustentada pelos esquemas referenciais individuais. A
didática, a função de educar, de despertar interesse, e de estimular se faz presente para o
coordenador e membros do grupo. Assim ocorre no grupo uma unidade entre ensino e
aprendizagem, instaurado um processo dialético. No processo de ensino-aprendizagem
22
surge também resistência a mudança, e cabe ao coordenador manejá-la. A finalidade do
grupo operativo é de troca e de reflexão. Para Pichon (2005) o esclarecimento das
ansiedades implícitas e a resolução de tarefas coincidem com a “cura”, com o
aprendizado e a construção de um novo esquema referencial.
A investigação social vem adquirindo importância, contribuindo para a
resolução de problemáticas sociais agudas. A análise das ideologias é uma tarefa
implícita do coordenador. O termo ideologia neste caso é entendido como um sistema
de pensamentos que orientam a ação, que ao funcionar de maneira mais ou menos
consciente pode atuar como uma barreira e impedir novas soluções. O coordenador atua
como um orientador, favorecendo a comunicação intragrupal e tentando evitar
discussões frontais e diminuir ansiedades. A sua função é obter uma comunicação que
se mantenha ativa e criadora (PICHON-RIVIÈRE, 2005).
Para ele as transferências acontecem na formação de vínculos e no “aqui agora”
podendo se desfazer e ressurgir de outro modo e em outro lugar. O grupo sempre se
propõe a uma tarefa seja ela implícita ou explícita. Neste meandro aparecem fantasias e
ansiedades inconscientes que o coordenador deve ser capaz de ser continente. O papel
do coordenador é o de facilitar a comunicação e dar continente ao grupo, revelando as
tarefas implícitas e explícitas do grupo (ZIMMERMAN & OSÓRIO, 1997).
Com esse arcabouço teórico construí minhas intervenções individuais e em
grupo. Atividades as quais descreverei mais detalhadamente no decorrer deste trabalho.
A seguir farei uma tentativa de situar o meu estágio em termos institucionais e
temporais.
23
2- APRESENTAÇÃO DO LOCAL E
CONDIÇÕES DO ESTÁGIO
O estágio foi realizado de novembro de 2006 a agosto de 2007, em um Centro de
Atenção Psicossocial, em convênio com a Universidade Federal de Pernambuco
(UFPE). Ele aconteceu em dois momentos. No primeiro momento, as atividades
realizadas corresponderam a quatorze (14) horas semanais totalizando duzento e treze
(213) horas. No segundo momento, atingi um total de trezentas (300) horas com carga
horária semanal de aproximadamente dezenove (19) horas.
O CAPS em questão era uma instituição pública, sob a responsabilidade da
Prefeitura do Recife - PE. Um serviço de saúde mental de caráter substitutivo ao
internamento psiquiátrico, cujo público-alvo é o de pessoas com idade maior ou igual a
quinze (15) anos, portadoras de transtorno mental grave, e em situação de
desorganização psíquica. De acordo com seu projeto terapêutico institucional em 2002,
o seu objetivo é acolher essas pessoas e contribuir para a sua reabilitação. Os pilares do
projeto institucional são os princípios do SUS e da reforma psiquiátrica tendo a
psicanálise como uma referência para uma escuta clínica atenta à palavra do sujeito.
Acredito ter alcançado meus objetivos iniciais de conhecer o funcionamento do
serviço inserido no contexto do Sistema Único de Saúde e da reforma psiquiátrica e
pensar em possibilidades interventivas coerentes com a proposta da instituição;
identificar e refletir sobre o lugar que ocupa o psicólogo nela; e exercitar a
atitude/escuta clínica do psicólogo.
Escolhi estagiar nessa instituição pelas possibilidades em lidar com variadas
formas de atendimentos: em grupo, individuais, familiares, domiciliares e pelo interesse
em trabalhar com uma equipe multiprofissional realizando um trabalho interdisciplinar.
Também por ter participado em minha vida acadêmica de atividades extra-curriculares
no diretório acadêmico, movimento estudantil, e me aproximou de estudantes de outras
áreas e da discussão da saúde pública e da reforma psiquiátrica.
A equipe técnica do CAPS é composta por profissionais de terapia ocupacional
(3), assistentes sociais (2), médicos psiquiatras (2), enfermagem (2), psicólogos (4),
residentes e estagiários de psicologia, medicina, enfermagem e terapia ocupacional.
Conta ainda com uma equipe de apoio com administradoras (2), auxiliar de enfermagem
24
(2), vigilantes (2), recepcionista (1), auxiliar de serviços gerais (1), e (1) auxiliar de
limpeza.
Este CAPS se organiza em três gerências: clínica, administrativa e operativa,
sendo a minha atuação como estagiária não limitada, mas situada na clínica. A
assembléia e a reunião da equipe técnica são espaços no qual são discutidas e tomadas
decisões a respeito do funcionamento da instituição, além do conselho gestor. O serviço
no qual estagiei é ainda responsável por duas residências uma feminina e a outra
masculina e é sede da equipe avançada do distrito5.
Durante o estágio participei de todas as atividades do serviço, desde organização
de eventos ajudando os auxiliares de serviços gerais, aos grupos organizados por
profissionais diversos que aconteciam sistematicamente conforme descreverei adiante.
Tais vivências proporcionaram uma visão mais global da instituição, sem perder de
vista o meu lugar enquanto estagiária de psicologia.
5
A equipe avançada era composta por uma terapeuta ocupacional, três psicólogas e uma médica
psiquiatra e tem como meta das suporte e acompanhamento ao atendimento aos usuários do distrito.
25
3. DESCRIÇÃO DO TRABALHO
As atividades sistemáticas que existiam neste CAPS eram de triagem, grupo
Bom dia/Boa tarde, grupo Movimento, grupo Cidadania, grupo Operativo, de
Familiares,
de
Educação
em
saúde,
de
Terapia
ocupacional,
atendimento
individual/família; assembléia, oficinas, reunião técnica e de supervisão institucional e
comemorações festivas. Cada uma dessas atividades possuía uma especificidade:
A triagem era uma atividade exercida por um técnico que poderia ser acompanhada
de outro profissional ou estagiário. Tinha o objetivo de acolher o usuário e sua família e
avaliar se a demanda é pertinente ao serviço do CAPS ou se poderia ser dado um outro
tipo de encaminhamento a partir da demanda apresentada;
O grupo Bom dia / Boa tarde acontecia no início de cada turno com o objetivo de
acolher os usuários favorecendo sua integração e de informar a respeito das atividades a
serem realizadas;
O grupo Movimento objetivava diminuir os efeitos da medicação e proporcionar
momentos de cooperação e aumento da consciência corporal;
O grupo Cidadania visava estimular a formação de uma consciência crítica e de
direitos.
As assembléias seguiam a mesma linha de objetivo do grupo cidadania, com a
diferença de ter um caráter mais prático e deliberativo, funcionavam como espaços de
escuta para sugestões e queixas dos usuários;
O grupo de Educação em Saúde tinha como a meta ampliar a noção de saúde e
doença, favorecer a compreensão da doença, a importância e possíveis efeitos colaterais
dos medicamentos no tratamento desta, bem como discutir assuntos relacionados à
prevenção e promoção da saúde;
26
O grupo Terapia ocupacional era um espaço de interação e criatividade no qual os
usuários eram estimulados a construir objetos e a realizar atividades que poderiam
intermediar e facilitar a realização de laços sociais6;
O grupo Operativo acontecia para contribuir com o entendimento da saúde/doença
bem como das relações interpessoais familiares, institucionais e sociais;
Atendimento individual/família era um espaço de escuta terapeuta que favorecia a
compreensão e acompanhamento do usuário, valorizava a subjetividade do atendido e
podia trabalhar as relações intrafamiliares possibilitava mudanças de papéis podendo
flexibilizar o lugar enrijecido de doente;
O grupo de família oferecia um espaço de troca de experiências com relação ao
acompanhamento do usuário e possibilitava a equipe conhecer a respeito da intensidade
dos vínculos estabelecidos.
As comemorações festivas serviam para integrar e inserir o usuário nos contextos
familiares e da comunidade interna e externa ao CAPS possibilitava romper barreiras de
preconceito e de invisibilidade;
Reunião de supervisão institucional funcionava para proporcionar apoio e
discussões dos casos e das atividades do CAPS, das relações interpessoais,
Reunião técnica era semelhante à supervisão institucional, porém sem o
acompanhamento da supervisão com profissional externo e um caráter mais prático e
deliberativo;
Durante o meu estágio percorri todas essas atividades, com maior ênfase na triagem,
ao grupo operativo, no atendimento individual/familiar, na reunião com a equipe técnica
e a supervisão institucional.
6
Utilizo esta palavra no sentido empregado por Ana Maria Vasconcelos em 23/11/2006 durante a
supervisão da equipe técnica, se refere a capacidade de perceber e responder ao outro.
27
Cronograma de atividades realizadas:
Atividade
nov.
dez.
jan.
fev.
mar.
abril
maio
jun.
jul.
ag.
Hora
Participação ativ. interna *
12h
12h
6h
2h
5h
2h
3h
2h
2h
1h
40
Participação ativ. externa *
6h
6h
_
3h
13h
4h
4h
6h
4h
_
46
Reunião técnica
6h
8h
8h
4h
6h
6h
5h
6h
6h
4h
59
Supervisão Institucional
8h
8h
8h
8h
6h
6h
6h
4h
4h
_
58
Supervisão clínica
5h
5h
6h
3h
6h
8h
8h
6h
8h
_
55
Grupo Ressocializar
_
_
4h
4h
_
_
_
_
_
_
8
Triagem
1h
2h
2h
3h
6h
5h
7h
5h
9h
_
40
Grupo Operativo *
_
_
2h
1h
8h
8h
2h
2h
_
_
23
Atendimento individual
_
_
4h
4h
8h
6h
8h
6h
6h
1h
32
Escuta de apoio
2h
2h
1h
3h
4h
2h
4h
7h
7h
2h
34
Atendimento familiar
2h
2h
2h
5h
3h
2h
4h
4h
3h
1h
27
Supervisão UFPE
12h
9h
9h
6h
12h
15h
12h
12h
12h
9h
86
Total
54h
54h
43h
35h
64h
64h
63h
60h
61h
18h
513
*As atividades internas correspondem a atividades (descritas como o grupo
Movimento e a assembléia, por exemplo) que não são responsabilidade do profissional
de psicologia, mas que eu poderia estar me inserindo dependendo da demanda e da
disposição da instituição em um dado momento.
* As atividades externas eram atividades como as comemorações, eventos,
palestras, passeios, reuniões, visitas domiciliares ou a residência terapêutica promovidas
pelo CAPS ou em que estava representando a entidade.
Essas atividades supracitadas estarão mais descritas e comentadas no capítulo a
baixo, no qual farei compartilharei situações, indagações, pensamentos que me deparei
ao longo do estágio, do fazer-me psicóloga.
4. DESCRIÇÃO RFLEXIVA DAS TAREFAS
28
E DESAFIOS ENCONTRADOS
É difícil caracterizar um Serviço de Psicologia dentro do CAPS, pelo fazer do
psicólogo encontrar-se diluído em atividades que são comuns aos demais técnicos.
Dentro das atividades realizadas estão: a reunião técnica, a supervisão institucional, a
realização de triagens, de atendimentos individuais e familiares, visitas domiciliares,
participação em eventos culturais e educacionais, grupo Ressocializar e os grupos
Operativos.
Inicialmente, caminhei por outros grupos com o objetivo de conhecer melhor o
serviço e o trabalho dos demais profissionais como observadora participante7. Mais
adiante passei focalizar minhas energias em atividades como triagens, nos grupos
Operativos, Ressocializar, atendimentos individuais e familiares e escutas de apoio.
Para desempenhar tais responsabilidades me foi dado um suporte técnico, com
orientações tanto do ponto de vista do fazer como do elaborar esse fazer que serão
descritas a seguir.
4.1. Atividades de orientação e estudo:
4.1.1. Reunião técnica
A reunião técnica era quando se compartilhavam os novos casos e se decidia o
técnico de referencia responsável, discutia-se casos em que havia dificuldades e
possíveis ações, eram dados informes de alta, entre outros. Funcionava como
interdisciplinarmente, com troca de informações, discussão e tomada de decisões tanto
no âmbito técnico como administrativo.
4.1.2. Supervisão institucional
Um espaço de discussão e reflexão sobre nossas práticas, que acontecia
quinzenalmente acompanhado por uma supervisora externa de orientação psicanalista.
Nele discutimos qual o lugar de cada profissional no trabalho interdisciplinar e ficou
7
A observação participante, de acordo com a visão sócio-histórica em Freitas (2003), se
aproxima da corrente interpretativa, com o diferencial de atribuir significados com os sujeitos e não sobre
os indivíduos. A pesquisa, neste sentido, é tida como um encontro entre sujeitos e nesse jogo dialógico o
pesquisador constrói uma compreensão da realidade transformando-a.
29
clara a peculiaridade das profissões na prática se dá na formação do olhar de cada um,
além das distintas responsabilidades nos grupos e particularidades como a
administração de medicamentos e prescrição privativa do farmacêutico e médico.
A supervisão favoreceu a construção de um saber a respeito de como se
organizam as atividades, a função de cada um/uma neste processo. O papel do CAPS
como uma instituição que dá continente ao indivíduo em intenso sofrimento psíquico,
este indivíduo que não esta sendo capaz de simbolizar seu sofrimento de modo a tornálo menos intenso e bizarro. Observei como a psicanálise pode contribuir para uma
escuta mais cuidadosa do profissional de saúde mental, uma escuta voltada para a
história do sujeito compreendendo os possíveis sentidos e significantes marcados por
esta.
Ao discutirmos os casos, a equipe se dava conta da importância de dar lugar à
fala do usuário, de olhar qual o lugar que ocupa em sua família e em suas relações, o
lugar que é dado pela sua família, da importância de conhecer a pré-história do sujeito, a
origem do nome. Era recomendado ficarmos atentos ao significante (palavras ou atos)
que se repetem impulsionando mudanças de comportamento.
Questões relativas ao papel do CAPS na rede de cuidado eram levantadas: diante
da falta de absorção dos usuários do CAPS pelos ambulatórios, o que fazer? Esbarrando
em seus limites institucionais, no papel de cada um dentro do serviço, e no que vem
sendo feito para a reformulação do projeto terapêutico institucional. Participei do início
da reformulação do Projeto Político Pedagógico da instituição, uma excelente
oportunidade de questionar práticas já naturalizadas.
Em conversas informais, pude perceber a dificuldade dos profissionais que não
tiveram uma leitura mais aprofundada em psicanálise de acompanhar a supervisão pela
linguagem própria que é do saber da psicanálise. Vieira (1997) comenta a respeito da
relação com os colegas profissionais de outras áreas de saúde, ou mesmo os que
utilizam outros suportes teóricos. Há de se comunicar numa linguagem comum e
simplificada de modo a promover o diálogo, imprescindível para o trabalho em conjunto
em prol do cliente. Havia uma predisposição da supervisora em relação a um
conhecimento minimamente compartilhado, com a leitura de textos sobre a psicose
lacaniana, contribuições da psicanálise a atenção à saúde mental, porém os textos não
eram de fácil entendimento nem para a equipe nem para mim.
A imposição da supervisão institucional pela gerência do distrito era motivo de
resistência para a equipe, apesar de reconhecerem as contribuições dela. Parece que o
30
fato de ter sido uma imposição remete a supervisora a uma autoridade autoritária e
silencia os incômodos. Questiona-se a necessidade do profissional que não é psicólogo
ou psicanalista ter uma escuta analítica, afinal esses profissionais não escolheram por
um lado trabalhar a subjetividade8 na escolha de suas profissões, entretanto, escolheram
de algum modo quando vieram para o campo da saúde mental.
Posto isso, acredito que é preciso avançar assumindo essa escolha em direção à
noção de saúde postulada pelo SUS, saúde como bem estar psicossocial, enxergando o
sujeito como um ser de múltiplos aspectos a serem levados em consideração.
4.1.3. Supervisão Clínica
A supervisão clínica acontecia via de regra semanalmente, havendo momentos
em que por demandas institucionais não ocorriam. Foi lugar de questionamentos, de
discussões de casos acompanhados sob um olhar psicanalítico, fizemos também
planejamento de atividades como o desenvolvimento e implementação do grupo
Ressocializar. Nele lemos os textos “O brincar e o significante” de Rodolfo Rodulfo,
“Emergência psiquiátrica” de Sterian, “A instituição estourada” de Maud Mannoni.
Houve alguns intempéries durante o estágio, pois minha primeira supervisora
entrou de licença temporária, de férias e ao final do estágio em Julho tirou licença por
tempo indeterminado. Apesar desta minha falta de sorte, percebi por parte desta
supervisora grande disponibilidade, mesmo durante as férias pude incomodá-la com
questionamentos a respeito deste relatório. Ademais a atual supervisora sempre esteve
comigo nos momentos de ausência da supervisora anterior, o que facilitou a mudança,
pois já havíamos criado um vínculo de confiança e troca.
4.1.4. Orientação da UFPE
Eram realizados esclarecimentos de como construir e monitorar o plano de
estágio e, além disso, problematizava como me projetar neste lugar de aprendiz em
direção ao de uma profissional. Ao estagiário, segundo Vieira (1997), cabe certa
independência do supervisor para tomar decisões, planejar ações em conjunto com este,
e fazer articulações teórico metodológicas saindo do lugar passivo de aluno para o lugar
8
Ao trabalhar a subjetividade o foco seria a percepção, os valores, os sentidos que o sujeito dá
ao mundo. O trabalho com a subjetividade é um trabalho que leva em consideração os aspectos
subjetivos.
31
construtor de aprendiz. Essas atitudes exigem a quebra das relações de poder
normalmente estabelecidas e da tendência ao “aplicativismo” de uma teoria a diversas
situações em variados contextos sem uma adequação a realidade (VIERA, 1997).
A respeito da psicologia, discutimos esta inserida na proposta do SUS de
interdisciplinariedade, integralidade, do cuidado em rede. Foi observada a necessidade
do profissional de psicologia de dialogar com os demais cuidadores do seu cliente para
proporcional um trabalho mais eficaz. Olhar para aspectos que não são privativos do
psicólogo, mas que fazem parte do cotidiano e das demandas do sujeito, como trabalhos
de prevenção, como a situação física, sócio-econômica. Conversamos a respeito de uma
nova clínica, a clínica psicossocial e do trabalho interdisciplinar.
Os seminários apresentados por colegas e por mim narrando nossas experiências
e inquietações contribuíram para a reflexão a respeito da psicologia, qual o lugar que
vem ocupando. Como nós estudantes estamos nos apropriando deste saber e para o quê.
A construção e apresentação do meu seminário em conjunto com uma colega, estagiária
do local, também foi um processo de amadurecimento no qual repensei o meu estágio e
me mostrei enquanto uma praticamente-profissional.
4.2. Atividades de campo
4.2.1. Participação atividades internas não-específicas
Incluiu festividades de comemoração do Natal, da Páscoa, do São João, a
observação participante no grupo de Família, de Cidadania, Educação em Saúde e de
Terapia Ocupacional, na Assembléia, e no grupo Boa tarde. Inicialmente, com maior
intensidade dos grupos citados para que pudesse compreender a respeito do
funcionamento da instituição. Os estudos, discussão com a equipe e evolução de
prontuários, elaboração de laudos foram importantes para pensar na evolução dos casos
e possíveis intervenções. Todos esses processos facilitaram o entrosamento com os
técnicos, funcionários de apoio para um trabalho interdisciplinar e a aproximação dos
usuários e familiares.
4.2.2. Participação atividades externas
Houve passeios no shopping com moradores e moradoras das residências
terapêutica masculina e feminina, caminhadas na jaqueira e ao redor do quarteirão com
32
os usuários, além de visitas domiciliares. Tive necessidade de ir ao hospital psiquiátrico
Ulysses Pernambucano (HUP) em busca de mais informações a respeito de uma usuária
com sucessivos internamentos na instituição, de acompanhar uma usuária ao hospital
maternidade Barros Lima para marcação de parto cesária e conversa com o médico
responsável.
Participei ainda de uma capacitação em “Intervenções em crise” pela prefeitura
do Recife, de reuniões com outros CAPS e coordenação de Saúde Mental da prefeitura a
respeito da ressocialização, reuniões do Núcleo da Luta Antimanicomial e da
participação de um seminário organizado pelo núcleo.
4.2.3. Triagem
Foi um momento de acolhimento, de escuta, também um momento de enquadre
“este caso é para o CAPS Esperança?” (sic) era sempre a pergunta final, levando em
consideração as repercussões que pode ter um tratamento neste tipo de instituição na
história do sujeito, que o CAPS atende a pessoas com transtorno mental grave e em
situação de crise.
O trabalho num contexto de crise, segundo Vieira (1997), visa à ativação do
núcleo familiar, geralmente os pacientes chegam aos serviços acompanhados por
familiares, pessoas significativas ou pessoas da rede social extensa (população em
geral, polícia).
O autor aponta como é importante observar se é uma demanda espontânea do
cliente, da família, ou um encaminhamento médico, se é uma solicitação terapêutica ou
uma “encomenda” de cura e custódia. A demanda que chega geralmente é médicocustodial, são queixas da família relativas a desvio de comportamento e necessidade de
medicalização, com uma noção de psicose ligada à doença e degeneração, demanda que
vai de encontro aos objetivos terapêuticos. Essa urgência e pressão dos familiares para
com os profissionais de saúde quando esses são “colocados na parede” deve ser
acolhida e sendo programada ao menos com uma hipótese de trabalho.
O contrato terapêutico é realizado após a triagem e negociado com o cliente
levando em conta a relação de poder e contra-poder. A diferenciação de adesão e
aderência é feita pelo modo como o contrato é realizado, na adesão ocorre o diálogo, na
aderência a relação é anti-dialógica. E as intervenções devem ser realizadas com o
33
cliente e sua família, mostrando horários de atendimento e profissionais em caso de
urgência e esclarecer as etapas do tratamento previstas. (VIEIRA, 1997)
Chamou minha atenção um rapaz, ele veio ao serviço acompanhado de sua
esposa grávida. Já havia sido usuário do CAPS, portanto, demoramos um pouco (eu e
minha supervisora) para ler seu prontuário, nele havia uma hipótese de esquizofrenia
paranóide, porém poucos dados que o comprovasse.
Durante a triagem, pudemos perceber que apesar do discurso desorganizado
apresentado, sua demanda não era de tratamento: “a minha mulher está com um pedaço
de mim...” (sic), a mulher dele esta grávida. Ele afirma: “Eu tenho que vir aqui... pra
quê? Eu tenho que me esforçar... eu tenho cuidar dos dois” (sic) a entrevista foi
interrompida, pois ele pediu para arrumarmos comida para os dois.
Depois de alimentado, contou das condições precárias em que vivia e que tinha
uma perícia marcada. Eles precisavam de dinheiro e a sua ansiedade girava em torno
disso, era uma necessidade econômica e nesse ponto a psicologia esbarrava em seu
limite.
Foi
acolhido
na
instituição
para
um
acompanhamento
semanal
e
encaminhamento para o uma instituição de assistência social com o objetivo de
conseguir algum auxílio como cesta básica, por conta da sua situação de extrema
pobreza.
Impressionante ver pessoas que se colocam (ou são colocadas?) no lugar de
loucas para obter aposentadoria por invalidez. Pessoas exagerando sua situação, ou
sintomas, para convencer aos outros (e talvez a si própria) de estar em crise. Ter um
lugar mesmo que esse lugar seja de pouco valor, de louco. A miséria não só é fonte de
sofrimento e adoecedora, como influencia na tentativa de “enlouquecer” para obter
alguma fonte de renda.
4.2.4. Escuta de apoio / acompanhamento:
Era uma atividade realizada no cotidiano do CAPS, em que me dispunha a
ouvir as queixas, medos, dúvidas dos usuários que procuravam espontaneamente por
apoio. Nesta função, lembrei-me da descrição dada por Moratto (1999) do plantão
psicológico, de ser um “plantão”, uma planta grande, que acolhe e dá sombra aos
viajantes, passageiros.
34
Uma ilustração foi o caso de Maura9. Ela era diagnosticada como portadora de
transtorno bipolar, ao engravidar, deixou por conta própria de tomar os medicamentos,
atribuiu a perda do “lítio” a sua crise e conseqüentemente: “tudo por causa desse
menino” (sic).
Maura ficava irritada facilmente, principalmente quando lhe diziam: “tenha
calma!” (sic) ameaçava agressão física com palavras, queixava-se de muitas faltas, do
marido, dos pais, dos irmãos, de dinheiro, de força, de vontade, de saúde. Ela em sua
família tinha a obrigação de estar calma, de cuidar de todos sem ser cuidada. Sua
madrasta, entes de morrer deixou a obrigação de cuidar da família nas mãos de Maura
que tentou obedecer sem sucesso, sua família a rejeitava inclusive, com maus tratos
físicos de suas meia-irmãs. “Tenha calma!” (sic) parece ter sido um significante para
Maura, representando sua submissão em relação aos outros, ela se afetava ao ouvir isso
e ao mesmo tempo, provocava esse tipo de intervenção.
Solicitava muita atenção da equipe, falava muito e acelerado. Disponibilizei-me
a ouvi-la algumas vezes, fazendo esclarecimentos, por exemplo: “parece esta se
sentindo só nesse momento” (sic), questionando: “Como é isso para você?” (sic) . Ela
dizia aos demais usuários: “essa moça é muito boa, ela é muito tranqüila, a pessoa fala
com ela chega fica mais calma” (sic), sinalizando o estabelecimento de uma
transferência positiva, a função de continente proposta por Bion estava sendo realizada.
Aos poucos, esse menino deixou de ser causa de desprazer e passou a ser “meu
lítio” (sic), fonte de prazer e segurança. Posteriormente, passou a chamá-lo de “meu
bebê” (sic) doando um nome para cada possibilidade de sexo da criança. Este trabalho
da equipe foi inclusive, um trabalho prevenção, pois a criança que inicialmente era
excluída foi se transformando para Maura até ter se tornado objeto de desejo.
A escuta de apoio oferecida por mim parece ter sido importante para Maura,
pois na sua readmissão ainda durante a gestação escolheu-me como sua T.R., logo em
seguida explico o significado e sentido desta sigla.
4.2.5. T.R.
A tradução da sigla T.R. no projeto terapêutico e no meu plano de estágio é de
técnico referência. Porém não sou considerada uma técnica, sou estagiária, portanto para
9
Os nomes próprios citados para exemplificar casos e situações neste trabalho são fictícios. Escolhi usar
nomes próprios para tornar menos impessoal a narrativa do que a utilização meras de siglas, e são
fictícios para preservar o sigilo e integridade dos clientes.
35
evitar crises existenciais do tipo: “quem sou eu?” sendo técnica referência sem ser
técnica. Decidi tomar “T.R.” pela tradução de terapeuta referência. Essa escolha pode
ser polêmica para alguns: “todos são terapeutas?”. É inclusive estranho para mim, que
ouvi durante toda minha formação de psicologia “a escuta clínica” e a psicoterapia
como sendo uma prática quase privativa do psicólogo.
A palavra “terapeuta” veio do grego therappeutes que significa assistente,
criado. Foi primeiramente utilizada para designar aquele que auxiliava a expulsão de
demônios dos corpos possuídos (MORENO, 1975). A semelhança que preserva esta
palavra não esta no fato de extrair o mal no outro, mas no sentido de contar com o outro
para realizar essa expurgação. Penso que no CAPS, todos os funcionários, incluindo a
copeira, a atendente, o vigilante, o de serviços gerais, os do setor administrativo são
cuidadores, são terapeutas. Terapeuta no sentido descrito por Moreno (1975), Massih
(2000) e Winnicott (1975) de cuidadores e facilitadores da “cura” do outro por ele
mesmo. O trabalho do terapeuta ao que me consta seria basicamente o de escutaracolher a fala do outro situando-o em um lugar no mundo, testemunhando sua
existência. A linguagem é considerada o modo como o significado das coisas pode ser
trazidas à tona (CRITELLI, 1996). Possibilitar neste escuta a expressão do vivido era a
possibilidade de modificações desse.
A relação terapêutica é abrigada numa instituição e em seu circuito de poder,
poder do terapeuta e contra-poder do cliente, a instituição permite a existência de uma
lei que regulamenta e possibilita a relação (VIEIRA, 1997).
O CAPS possui algumas regras que nortearam a minha atuação enquanto
terapeuta referência, um controle de freqüência e de intervenções como visita
domiciliar, atendimento familiar. Ocorrendo a falta do usuário, o qual sou responsável
por acompanhar, é minha obrigação fazer contato telefônico. Tenho obrigação de
manter o prontuário atualizado, decido sobre a continuidade ou não do tratamento,
elaboro o laudo justificando a mudança de modalidade terapêutica e a alta, realizo
atendimentos individuais e familiares.
Ser T.R. proporcionou uma maior aproximação do usuário, com a qual escutava
e intervia. Os atendimentos individuais quebraram as barreiras do modelo consultorial
de um setting entre quatro paredes. Primeiro, que o atendimento individual não é
psicoterapia processual, são momentos de escuta, acolhimento e intervenção que surte
efeitos terapêuticos. Segundo, porque acaba com a noção de privado, a conversa
acontece e por vezes é complementada por algum outro usuário ou funcionário que se
36
aproxima, naturalmente, tornando o atendimento individual não pelo número de
participantes, mas pelo foco e conteúdo discutido que gira em torno de um sujeito assim
como na psicoterapia de apoio proposta por Cordioli (1998).
Nestas escutas, era preciso estar atenta ao mito familiar. Ele se caracteriza pelo
ambiente em que a pessoa está colocada, o que absorve neste ambiente, os atos, ditos,
normas, as práticas cotidianas. O mito não é facilmente visualizado, em regra geral é
conhecido em partes, o conceito de mito familiar altera a entrevista inicial, pois altera o
seu objetivo, que não é mais saber apenas dados (RODULFO, 1990). O autor considera
imprencidível para decidir se há ou não a necessidade de um tratamento, observar como
está posicionado o sujeito em relação à família. As informações obtidas em uma
entrevista se tornam importantes apenas se alojadas no mito familiar, do contrário serão
amontoados de idéias, histórias, sem um critério organizador.
4.2.5.1. Atendimento individual
O atendimento individual é uma atividade realizada pelo T.R. com o usuário que
acompanha, caracteriza-se por certa periodicidade de escutas, com um objetivo
relacionado ao projeto terapêutico particular. Comigo aconteceu de maneira situacional
e espontânea, através da busca do usuário, como também com meu movimento de
aproximação e às vezes até com hora marcada.
Ocorria tanto em locais onde havia a circulação de pessoas, como de maneira
mais reservada em uma sala de atendimento, a depender da demanda e necessidade de
acompanhamento de cada caso. O tempo de atendimento também foi flexível, não havia
um limite mínimo ou máximo variando normalmente de quinze (15) minutos a uma (1)
hora.
Meu primeiro atendimento enquanto T.R. foi com Margarida, uma mulher de 48
anos, com um histórico de internamentos psiquiátricos sucessivos. Em meu contato
inicial, colocou-me numa posição investigativa, o que lembrava as anamneses das aulas
de introdução a psiquiatria, dizia: “quer saber o nome de meu marido? Anote aí...” (sic).
Referiu sobre sua sexualidade na infância, seu nascimento, casamento, filhos. Eu assumi
a postura investigativa porque achei que seria interessante saber todos aqueles dados e
era o que ela me pedia naquele momento.
Este acontecimento é comentado por Tundis & Costa (1997), quando referem
que muitas vezes o paciente é treinado a agir de certa forma para satisfazer o desejo do
37
terapeuta e se enquadrar na teoria. Nesses casos, o paciente exibe um repertório
minucioso de sua história sem significado ou eficácia. Numa relação entre terapeuta e
usuário, este último pode falar de seus sintomas físicos por acreditar que é o esperado,
para não frustrar adota comportamentos que são de alguma forma mais aceitos do que
outros.
Vieira (1997) acrescenta que com relação ao cliente é preciso haver cuidado por
parte do terapeuta de não sufocá-lo, reduzi-lo e enquadrá-lo em sua teoria, ao contrário
deve levar em consideração o saber deste, sua noção de saúde, de doença, de mundo, de
si. Uma intervenção precipitada pode atrapalhar a relação com o mecanismo da
transferência No entanto, existem certas intervenções que podem ser significantes, pois
geram mudanças. A restituição da busca do significante impulsiona o sujeito a rever a
sua história, essa busca não ocorre como proposta é essencial que o sujeito dê o
primeiro passo (RODULFO, 1990).
Resta saber: o que leva uma pessoa a escolher o hospital psiquiátrico à sua casa?
Tive dificuldades em conhecer a respeito de sua história, pois não estava clara para ela:
“tenho amnésia do passado” (sic), nem para o seu sobrinho ou irmã dela. Estive no
hospital psiquiátrico o qual Margarida “freqüentava” (sic) para conhecer um pouco de
sua história, o que se tornou, no primeiro momento, o projeto terapêutico. Projeto que
falhou, pois Margarida recusava-se a falar de sua história ou ouvi-la por parte de
familiares.
Ela ensinou-me ao se dar alta que a mim cabia oferecer um lugar de escuta e de
atenção, mas no fim cabe ao usuário/cliente escolher se entra ou não em um processo
psicoterapêutico. Mesmo essa pessoa sendo considerada “louca”, ou uma pessoa que
por hora precise de cuidados mais intensificados (como prefiro ver).
4.2.5.2. Atendimento familiar
Espaço de ouvir mais a respeito do usuário e de suas relações familiares. Eram
dadas orientações medicamentosas, do que é ser portador de um transtorno mental,
pensadas estratégias de como conviver com este outro que é diferente e igual ao mesmo
tempo (diferente por não estar fora do padrão de normalidade, igual por ser um ser
humano), fazia-se o acolhimento do sofrimento do familiar em lidar com o usuário.
O atendimento familiar podia ou não ocorrer com a presença do usuário,
dependendo da situação específica sendo preferível a sua presença de acordo com a
38
instituição. Este procedimento pode evitar a perpetuação do segredo familiar através do
vínculo terapeuta-família, além disso, no atendimento em que o usuário esta presente é
possível trabalhar a relação com o familiar.
No tratamento de pessoas com transtornos mentais, o terapeuta é levado a fazer
alguma intervenção sobre a família, no discurso familiar, a menos que acredite que os
familiares irão atrapalhar no tratamento. Senão levarmos em conta o discurso dos
familiares, seus sentimentos e transferências o tratamento é prejudicado, é importante,
entretanto, investir numa distinção de si e do paciente (RODULFO, 1990). Muitas são
às vezes em casos que atravessam as fronteiras da neurose de a história e pré-história ser
de destrutividade, de desejos de loucura, morte e fracasso. O trabalho com família
aposta na mudança do discurso familiar investido no sujeito.
Em muitos casos Vieira (1997) relaciona a “crise psicótica” com relações
familiares de interações patógenas. Essas interações geralmente possuem uma
tendência simbiótica entre o paciente e um membro da família, frequentemente a mãe.
Ele descreve como fatores produtores da loucura: a homeostase familiar patógena,
caracterizada por comunicações paradoxais e duplo vínculo; relações de poder
arbitrárias e ambíguas, como a tendência de eleger um membro familiar como bode
expiatório; a presença de não-ditos segredos, valores, atitudes que se repetem ao longo
de gerações; a contaminação dos significantes com esteriótipos de loucura, e de
periculosidade.
A dinâmica interna familiar tende a se repetir num ciclo vicioso em que o
cliente geralmente se localiza num lugar fragilizado e hostilizado, os familiares
projetam as tensões grupais e o estigma da loucura, de maneira sutil e com o desejo de
contê-lo e retirar seus direitos enquanto cidadãos.
A família muitas vezes se coloca de modo ao terapeuta entrar em conflito com
ela, nessas situações a família tende a se des-responsabilizar, deixando o terapeuta com
um poder arbitrário sobre seu cliente (VIEIRA, 1997). Um exemplo, disso foi quando
liguei para a irmã de Margarida à procura desta e a resposta da sua irmã: “não sei não...
eu não tenho nada a ver com ela mais não!” (sic). O responsável oficialmente por
Marlene era seu sobrinho, apesar dela possuir irmãs e filhos, sua relação com o
sobrinho era uma relação desigual, na qual o sobrinho se impunha por meio de ameaças
e agressões físicas e verbais para obter dela inclusive a adesão medicamentosa e ida ao
serviço.
39
O reforço do circuito patogênico de relações pode acarretar em um aumento das
relações de dependência e simbiose do cliente com um familiar, o reforço do estigma da
loucura e construção de uma “carreira” enquanto doente mental (VIEIRA, 1997).
O grupo familiar pode sanar as ansiedades através do adoecimento de um de
seus membros que assume o papel de bode expiatório, aquele que manifesta as fantasias
e angústias do grupo. (PICHON-RIVIÉRE, 2005). A tentativa de ruptura do circuito
patogênico é uma atitude centralizadora e autoritária do terapeuta que pode levar ao
aumento de tensão grupal, ansiedade, resistência, e deslocamento do bode expiatório10.
A desconstrução desse lugar ocorre por meio da problematização da situação,
propondo ações para a modificação da estrutura relacional estabelecida. O terapeuta
aceita a “crise” em que se encontra o paciente, resultante de estresse vivenciado por
todos familiares. Inicialmente compartilha com a família seu sofrimento, mas
permanecer nesta postura pode culpabilizar ainda mais o cliente, o importante é que a
família se sinta acolhida e co-participe do tratamento. E para isto é necessário explicitar
um acordo de colaborações durante o tratamento (VIERA, 1997).
O cuidado e atenção ao usuário junto a sua família é inerente ao tratamento de
usuários de transtorno mental, segundo Pichon-Rivière (2005) o usuário pode estar no
papel de bode expiatório, resultante das tensões nas relações familiares, expurgado
como louco e doente, sem solução. Trago como exemplo o discurso de um familiar
sobre Margarida: “ela sempre foi meia doidinha... foi de fazer sempre o queria!” (sic) e
o
comportamento da usuária de busca por internamentos, deixando de tomar a
medicação ou misturando com bebidas alcoólicas: “não quero ficar aqui não... quero ir
pra Tamarineira... não quero de comida xingada não!” (sic), fala de Margarida
referindo-se ao desejo de ser internada no hospital psiquiátrico Ulysses Pernambucano
e a dificuldade de relacionamento familiar, pois relata que a sua comida era dada com
injúrias, denunciando um lugar de exclusão, um não-lugar adoecedor.
Em visita domiciliar, vi a exclusão estampada na edificação e distribuição dos
cômodos da casa. Margarida ocupava certamente o espaço físico mais desagradável,
praticamente a despensa da casa, morando no vão debaixo da escada sem janelas, as
paredes nuas sem acabamento, com o colchão da cama quebrada mofado (por vezes ela
tinha diurese noturna). Destoava do resto da casa pintada, com eletrodomésticos,
televisão, geladeira, fogão não muito gastos. A justificativa dada pelo sobrinho diante
10
É o eleito de um grupo para representar os desejos, fantasias, sentimentos negativos inconscientes
(PICHON, 2005)
40
da diferença berrante foi de que Marlene ameaçou certa vez uma de suas filhas, por isso
improvisaram seu quarto que será melhor organizado, pontuei na ocasião a importância
de uma janela para que o quarto não ficasse tão quente e mofado.
Observei casos em que a família sofria junto com o paciente, outros em que o
benefício do usuário era única fonte de renda familiar, ou a família exagerava nos
sintomas e adoecia o usuário com o objetivo de obter o benefício financeiro oferecido
pelo Estado. Se por um lado o recurso financeiro oferece certa segurança em meio a um
mundo do trabalho opressor e competitivo, por outro reforça o próprio estigma que
combate criando famílias dependentes da doença mental.
Paradoxo difícil de ser resolvido, pois muito do peso atribuído a loucura passa
pelo fato dela não ser produtiva para o sistema capitalista, o louco é um estorvo para a
família, mais uma boca e menos dois braços para trabalhar. Penso que associada à
concessão de benefícios, medidas relativas a atividades que ocorrem já no CAPS como
a inserção em cursos profissionalizantes, as oficinas de arte e artesanato possam
colaborar com a dissociação da loucura/exclusão em direção à autonomia dos sujeitos.
4.2.6. Grupo Ressocializar
Na instituição é possibilitada a influência e contra-influência com objetivos de
reintegração psicossocial e de encontro a processos de marginalização. A teoria da ação
dialógica de Paulo Freire (apud in VIEIRA, 1997) aponta para a superação da tendência
ao autoritarismo e manipulação, e em cooperação o clínico e o cliente buscam entender
e modificar a situação de sofrimento psíquico, no qual é necessário um encontro
terapêutico de conscientização de sua problemática através do pensar/agir de seu estado
de saúde e sua condição sócio-histórica incluindo por parte do terapeuta via instituição o
auxílio transporte, alimentação, acesso a cursos especializantes.
O grupo Ressocializar teve como função facilitar a construção de projetos de
vida viáveis dos usuários para sua posterior alta, o contato com os desejos, as
possibilidades de ação e limites foram constantes. Por ter sido um projeto piloto,
houveram algumas falhas e alterações, o grupo não funcionou como tal, o que aconteceu
na prática foram trabalhos individuais com o compartilhamento ocasional em grupo.
Houve a dissolução do “grupo” Ressocializar tendo sido iniciada pela ação formalmente
mais individualizada, com reuniões mensais em grupo.
41
Semelhante a psicoterapia breve dinâmica, em que há um problema principal a
ser resolvido de acordo com o paciente, ocorreu à delimitação de um foco em acordo
com o paciente (delimitação do tempo em geral 12 a 40 sessões individuais). Neste
processo o terapeuta adota uma postura ativa emprega os conceitos de reforço do ego,
crise, aprendizagem, algumas técnicas cognitivo comportamental como a colocação de
tarefas de casa. São utilizadas técnicas de apoio como sugestão, clarificação, e
aconselhamento e atitudes que visam à obtenção de insight (CORDIOLI, 1998).
Moffat (1984) a respeito da terapia em crise, fala de um esquema de trabalho
com a contenção que não seria uma contenção física, seria um suporte emocional;
exploração do imaginário do sujeito; elaboração de um projeto contendo a história do
sujeito, o discurso familiar, sua situação atual e possível; e a última etapa a da atividade
quando é pensada a re-inserção a atividades sociais e cotidianas.
Porém as idéias e sentimentos do terapeuta e do paciente podem divergir no que
tange as noções de doença e saúde. Determinado comportamento em um olhar desatento
pode estar disforme e ser carimbado como patológico, quando este pode fazer parte de
um contexto cultural desconhecido ou não reconhecido pelo terapeuta. A noção de cura
do profissional pode estar fixada na capacidade de trabalho, realização sexual,
expressão de afetos e efetuação de escolhas (TUNDIS & COSTA, 1997).
Portanto, é preciso estar atenta para não imprimirmos desejos neste sujeito, por
mais esvaziado de sentido que ele esteja. Nem correr o risco de nos abstermos com
relação à atenção a cuidados mínimos, como o caso de Laura. Ela não conseguia dar
continuidade a nada em sua vida, incluindo o tratamento dentário, ela estava prestes a
perder os dentes e nós pensamos em estratégias para realizá-lo, mesmo este não sendo
prioridade para Laura.
O grupo Ressocializar não funcionou conforme o previsto, ele não aconteceu
como grupo, mas sim como projetos individuais sendo pensados e realizados
separadamente. Talvez a dificuldade esteja em trabalhar individualidades coletivamente,
dificuldade esta que se transpassa desta experiência para a própria sociedade moderna
em que o individualismo sobressai ao coletivo. O grupo operativo me parece uma
tentativa de lidar com esse paradoxo, abaixo descrevo como enxergo tal proposta de
trabalho.
4.2.7. Grupos operativos
42
Os grupos geralmente começam com a apresentação das pessoas e da proposta
do grupo operativo pelos usuários para os novatos. Eles costumam definir o espaço
como um lugar para falar dos sentimentos e problemas pessoais. Após essa etapa, o
grupo é convidado a escolher um tema sobre o qual deseja falar, tarefa explícita de
acordo com Pichon (2005). O coordenador geralmente estimula a fala de todos e
procura “costurá-las” buscando encontrar pontos de encontro e desencontro e a tarefa
implícita.
Um exemplo foi um grupo em que o tema escolhido era o tema relacionado “dia
da mulher”, iniciando com relações de gênero, porém ao desenvolverem-se as falas
surgiram questões ligadas à posição que ocupavam na família, no trabalho e observei
que o tema transversal aquelas falas era o de opressão, preconceito de gênero e com a
loucura. Como investigadora social, perguntei: “como é ser mulher para você?” (sic), ia
pontuando as falas, buscando encontrar sentidos, “a respeito do que Antônio disse o que
você tem a dizer?” (sic), “como é ver em Rosângela, a sua esposa?” (sic) essas
colocações iam dando ritmo ao grupo e a noção de grupalidade.
Tive a oportunidade de coordenar de alguns grupos operativos, foi interessante
perceber a diferença nos papéis de observadora participante para coordenadora. Minhas
atenções se deslocavam da simples leitura dos fenômenos grupais sendo compartilhadas
para como eu era afetada pelo grupo e qual intervenção seria importante no momento.
Era interessante perceber que frases aparentemente desconexas do contexto
grupal se inseriam de algum modo a temática e davam forma a ela. Ao devolver como
as falas individuais se ligavam umas às outras, o grupo se sentia menos ansioso e mais
participava. Acontecia nesses momentos processos de inclusão e identificação bastante
terapêuticos.
5. CONSIDERAÇÕES
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Estas considerações não são (nem tem pretensão de ser) considerações finais.
São apenas um começo, de um exercício de reflexão crítica e articulação teórica que
tenho estado comprometida a fazer ao longo de minha vida como psicóloga. É
fundamental para o aprendizado: as dúvidas, os erros, dificuldades, as críticas e autocríticas para construção de um novo saber. Sei, porém que não é fácil falar dessas
coisas.
Pois bem, inicialmente estive um tanto perdida e muito interessada no estágio.
Minha supervisora entrou de férias bem após minha chegada. Esse movimento não me
deixou assustada. Pude observar o funcionamento do CAPS com os olhos de uma
estudante curiosa e chata e, sem me importar muito inicialmente com a teoria vivenciar
o contato com os usuários e com os trabalhadores do serviço. Foi importante para que
eu tivesse um olhar ampliado, conhecendo o trabalho do terapeuta ocupacional, do
assistente social de perto. Aos poucos fui sentindo falta de algo que me ajudasse a
organizar os pensamentos, e a teoria foi muito bem vinda para auxiliar minha
caminhada.
A psicanálise que eu conheci na academia, freudiana ortodoxa, não gostava, pois
tendia do meu ponto de vista a interpretar o sujeito tornando-o mero objeto de estudo,
sem levar em conta o sentido que tinha aquela palavra para ele. Essa impressão foi
desfeita pelo contato com outras psicanálises, com base lacaniana, mais especificamente
o autor Ricardo Rodulfo, o qual possui uma visão mais voltada para compreender o
sujeito a partir dele mesmo e em suas relações e menos em realizar interpretações
sufocando-o em uma teoria. Assim como o autor não se ocupa por demais das estruturas
psicanalíticas, tenho minhas restrições com relação à necessidade de categorizar o
sujeito em categorias fixas e imutáveis e o tempo gasto nesta tentativa por vezes difícil
de se enquadrar.
O serviço de psicologia dentro do CAPS estava diluído nas atividades de
terapeuta referência, de coordenador dos grupos operativos, nas triagens, nos
atendimentos individuais e de família. Uma perguntava ecoava: o que difere o psicólogo
dos demais profissionais de saúde na instituição? Vira e mexe retornava, afinal de
contas durante as supervisões institucionais todos os profissionais eram estimulados a
resgatar a história do sujeito, olhar para o sentido que ele dá as suas palavras, buscar o
significante, estarem atentos à subjetividade. Fui observando que o lugar da
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subjetividade permanece o lugar que a psicologia ocupa de acordo com Figueiredo
(1995), apesar de não ser única a olhar para este fenômeno.
Conforme Wundt protagonizou, a psicologia é uma ciência intermediária, uma
ciência interdisciplinar, com bases biológicas e sociais (FIGUEIREDO, 1995). Seria
certamente melhor se não que houvesse a necessidade de uma ciência “do entre”,
conforme Figueiredo (1995) classificou a psicologia. Talvez se essa não ocupasse o
lugar de ponte o abismo entre as ciências naturais e sociais seria ainda maior.
No CAPS, pensei algumas vezes que talvez não fosse necessária a nossa
existência, pois não observei nenhum outro profissional que não o médico medicando,
ou fazendo tarefas manuais sem ser o T.O. (terapeuta ocupacional), aplicando uma
injeção que não o enfermeiro e todos os profissionais técnicos tem obrigação de fazer
escutas individuais e em família.
A psicologia representava neste espaço a valorização da subjetividade,
disputando com o modelo centrado nos sintomas e na medicação presente na instituição.
A segunda tendência, visualizei em prontuários mais centrados na aderência
medicamentosa, aparência física bem ou mal cuidada, humor, hipótese diagnóstica, sem
um projeto terapêutico particular. Apresentava-se também na resistência de alguns
profissionais em ter uma escuta mais atenta aos aspectos emocionais e levar em conta a
visão de mundo do sujeito para um entendimento particular. A psicologia relacionada ao
discurso psicanalítico questionava os lugares que o sujeito ocupa e ocupou em sua
história.
Desse modo, o lugar da psicologia conforme Japiassu (1975) que é o lugar do
subjetivo não foi diferente no CAPS. Lugar de escuta, de acolhimento, de valoração do
sujeito em sua especificidade, valoração de sua história, seus desejos, suas escolhas.
Abarca o lugar da fala sobre si e sobre os sentimentos.
Senti falta, ao longo de minha formação acadêmica, de não ter tido acesso
aprofundado a conhecimentos farmacológicos, para compreender melhor os tratamentos
medicamentosos e poder dialogar a respeito com os demais profissionais da saúde.
O trabalho e o funcionamento do serviço infelizmente foram prejudicados por
falhas no sistema de saúde. Havia dificuldade em ter disponível veículo com motorista
para visitas domiciliares, passeios e demais atividades externas, faltava auxílio para
transporte do usuário, foi cortada a conta telefônica da rede de saúde. Esses fatores
praticamente inviabilizavam a continuidade dos tratamentos, visto que a maioria dos
usuários era de nível econômico muito baixo e não tinham condições de se locomover
45
para a instituição com exceção dos usuários com carteira de deficiência, pois nem
mesmo o acompanhamento via telefone era possível e os projetos terapêuticos ficavam
afetados pela indisponibilidade de veículo.
Inicialmente, percebi certa passividade dos profissionais diante das discussões
em supervisão, nas quais esbarrávamos com tais falhas no sistema de saúde e outras: “a
tendência é mesmo de retirada dos passes para enxugamento de despesas” ou “todos
nós sabemos que os CAPS vêm sofrendo um processo de sucateamento” (sic), em
seguida, davam continuidade aos outros pontos da reunião, afinal não havia mais o que
discutir, todos entraram em acordo. Campos (1994) sobre a introdução de profissionais
de psicologia, assistência social e outros profissionais comenta que estes trouxeram um
novo sopro ao Sistema de Saúde com trabalhos em grupo, de prevenção entre outros
procedimentos. No entanto, a entrada destes atores tem sido pouco combativa na
militância pela implementação do SUS, assumindo muitas vezes uma postura um tanto
inerte diante do sistema e seus entraves.
Por outro lado, notei uma mudança no discurso de membros da instituição
fazendo uma reflexão a respeito de um acontecimento em que o CAPS submeteu-se a
uma instância superior sem questionar: “acho que não deveríamos engolir tudo o que
vier de cima para baixo... sem se posicionar...” (sic) frase que ecoou no grupo
sinalizando um amadurecimento da instituição inclusive para fazer essa auto-crítica.
Quanto ao funcionamento integrado no Sistema de Saúde, outro buraco da rede
encontrado foi da capacitação e orientação adequada dos profissionais de psicologia nos
ambulatórios. Este despreparo pode ser considerado em parte responsabilidade das
instituições formadoras que não preparam o psicólogo para os serviços públicos. De
acordo com Dimenstein (2001), a psicologia e as instituições formadoras estiveram, por
muito tempo, comprometidas com o modelo assistencialista curativo, voltado para o
setor privado. O que dificulta a adaptação às exigências de responsabilidade social,
cidadania e ética do setor de saúde.
Os psicólogos nesses espaços têm realizado trabalhos de atendimento individual,
psicoterapias de longa duração. Não que este trabalho não seja útil ou eficaz, no entanto,
as filas para o atendimento psicoterapêutico engordam, os usuários encaminhados pelo
serviço do CAPS sem o devido apoio e assistência em sua comunidade, entram em crise
e novamente retornam ao serviço.
Muitas vezes o usuário já não deveria estar no serviço, porém por uma falta de
continuidade no tratamento encaminhado aos ambulatórios, permanecem mais do que o
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tempo adequado, inchando o número de usuários atendidos e diminuindo a qualidade do
serviço prestado. Pois os usuários em crise solicitam um cuidado intensivo, sem este
cuidado tendem a piorar e serem internados em hospitais psiquiátricos.
A prática do psicólogo desconectada do contexto social e institucional, têm
andado na contramão da reforma psiquiátrica, ferindo o princípio do SUS de eqüidade e
universalidade quando não é dada a prioridade de atendimento ao mais necessitado de
cuidado e não é garantida a atenção à saúde de todos e todas.
Esse procedimento identificado no estágio curricular I foi modificado e
atualmente os usuários que saem do CAPS têm prioridade nos atendimentos
ambulatoriais de psiquiatria e psicologia melhorando um tanto a qualidade do serviço da
rede em Saúde Mental. A assembléia foi uma atividade rediscutida e retomada, assim
como a modalidade não-intensiva, afinal uma das maiores dificuldades encontradas
pelos técnicos na realização dos tratamentos é a tal da “reinserção”, que para alguns
chega a ser inserção de tão excluídos que se encontram.
Tive a oportunidade de trabalhar numa equipe acolhedora, de trocar com
profissionais de outras áreas de conhecimento, com os estudantes de psicologia da
universidade, com estagiários, residentes. Estive ainda amparada por dois orientadores e
dois supervisores o que foi enriquecedor, pois pude conhecer em minha formação vários
modos de pensar o fazer psicológico na clínica psicossocial. A todos esses atores e ao
leitor, ou leitora agradeço pela paciência de acompanhar minhas inquietações, dúvidas,
idéias e incômodos.
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