BC não volta mais atrás em relação à alta da Selic, diz

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FONTE: Valor Econômico
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SEÇÃO: Finanças
PUBLICADA EM: 6 de março de 2013
BC não volta mais atrás em relação à alta da Selic, diz
Mesquita
Mesquita: surpresa com inflação e disseminação de reajustes acenderam sinal de alerta da autoridade
monetária.
O Banco Central (BC) não deve voltar atrás em sua intenção de subir a taxa de juros
para fazer frente à recente alta da inflação. Esta é a opinião do ex-diretor de Política
Econômica do BC e atual sócio do banco Brasil Plural, Mario Mesquita. "Acho difícil isso
acontecer. Seria mais difícil de entender e mais difícil de explicar também", afirmou ele,
em entrevista ao Valor.
Para Mesquita, foi a surpresa com a inflação corrente no início de 2013 e o seu alto
nível de disseminação na economia que determinaram a mudança de tom do discurso
adotado pelo BC. No entanto, a simples desaceleração dos índices de preço, como é
esperado por boa parte dos analistas para os próximos meses, não pode ser entendida,
isoladamente, como argumento para o adiamento de uma ação mais efetiva por parte
da autoridade monetária. "A inflação cheia é algo que todo mundo olha, mas ela não é
uma informação suficiente para guiar os passos de política monetária."
Mesquita trabalhava com um cenário de manutenção da taxa Selic até o fim do ano.
Agora, diante da admissão pelo presidente do BC, Alexandre Tombini, de "desconforto
com a inflação", acredita que pode haver um ajuste no comunicado da reunião do
Copom, que termina hoje, abrindo espaço para uma alta no curto prazo.
"Acho que seria uma grande surpresa se ele desfizesse, se dissesse que 'não, está tudo
bem, o cenário inflacionário voltou a ser benigno'", adverte Mesquita. Mesmo diante
da possibilidade de mudança da Selic, o economista acredita que o crescimento do PIB
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em 2013 e 2014 deve ficar próximo de 3,2% ao ano. E que o IPCA oscilará entre 5,5% e
6%.
Valor: Qual é a sua expectativa para a próxima reunião do Copom?
Mario Mesquita: A gente espera que, no mínimo, o Copom altere o comunicado,
sinalizando a possibilidade de elevação da taxa de juros. A comunicação do BC tem
enfatizado que a manutenção do juro estável por um período prolongado era a
postura mais adequada, mas, recentemente, o BC sinalizou desconforto com a inflação,
com o cenário inflacionário mais adiante, e isso deve aparecer no comunicado. Existe
uma possibilidade de ele subir a taxa já nesta reunião, mas acho que o mais provável é
que ele mantenha a taxa e altere o comunicado.
Valor: Que tipo de alteração no comunicado o BC poderia fazer? Pode ser retirada a
expressão "suficientemente prolongado"?
Mesquita: Esse é um grande debate no mercado. Se o BC simplesmente retira essa
expressão, seria visto como um sinal de alta mais iminente. A alternativa seria
qualificar essa expressão. Em algumas ocasiões, os responsáveis pela política
monetária disseram que o recado que passaram estava valendo neste momento.
Condicionar no tempo é uma tática que o BC já usou várias vezes no passado, este BC e
gestões anteriores também.
Valor: Seu cenário mais provável, então, é que o BC mantenha os juros, mude o
comunicado e comece a subir a taxa em abril?
Mesquita: Vamos ver. Depende do teor do comunicado e da ata. Mas uma alta de
juros neste ano ficou muito mais provável. Antes da mudança de comunicação, a gente
esperava que eles fossem começar a subir a taxa no começo do ano que vem.
Valor: Qual deve ser o orçamento do ciclo?
Mesquita: Vamos esperar a comunicação no 'statement' e na ata para poder fazer uma
análise mais aprofundada. Não quero especular sobre orçamento. O mercado tem
falado muito em algo entre 100, 150 e 200 pontos base. O que é certo é que no
momento em que o BC começar o processo de aumento de juros, provavelmente o
mercado vai apreçar um movimento bem expressivo.
Valor: Em declaração recente, Tombini chegou a mencionar que a Selic deve oscilar
menos que no passado, o que levou o mercado a acreditar que o ciclo e o ritmo podem
ser menores.
Mesquita: Ele tem um plano de voo que deve ser adaptado conforme a evolução do
cenário. A observação das autoridades sobre o movimento dos juros é porque a taxa
está em um patamar mais baixo. Ainda que o orçamento esperado por algumas
pessoas seja concretizado, isso vai levar a taxa para um patamar historicamente baixo,
dado o padrão brasileiro.
Valor: O que está pesando mais na decisão do BC?
Mesquita: O BC manifestou em diversas ocasiões, recentemente, que está priorizando
o controle da inflação. Então, a inflação projetada pelo próprio BC deve ser o guia para
as decisões.
Valor: Existe a percepção de que o BC pode estar admitindo inflação mais alta. Qual
seria o limite a ser atingido para se acreditar que o BC vai começar a subir juros?
Mesquita: Tem a ver mais com a inflação que o BC está projetando do que com a
inflação corrente. As ações que o BC for tomar agora vão ter efeito mais sobre a
inflação no fim do ano e em 2014. Então, a política monetária convencional tem, neste
momento, pouco a fazer em relação à inflação de 2013. Se o BC estiver projetando
uma inflação para 2014 muito distante do centro da meta, essa é uma condição
necessária para ele começar a ajustar a política. Na reunião de janeiro, a ata do Copom
indicava que a projeção de inflação para 2014 do próprio BC estava ligeiramente acima
da meta. Então, é preciso olhar como evoluiu a própria projeção do BC. Esse é o guia.
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"Seria uma surpresa se o BC dissesse que 'não, está tudo bem, o cenário inflacionário
voltou a ser benigno'"
Valor: Houve uma mudança importante das expectativas. O que aconteceu para que
esse discurso do BC mudasse? Ele soube explicar com clareza a nova visão?
Mesquita: Comunicar uma mudança de postura é sempre difícil. É complicado para
qualquer banco central e aqui não é diferente. O que aconteceu foi uma surpresa
grande com a inflação de curto prazo, não só com o comportamento do índice cheio
mas também com um caráter mais disseminado do processo inflacionário. O próprio
BC registrou isso como caracterização de uma piora do processo inflacionário, isso é
consensual, e o grau de preocupação de todo mundo com relação à inflação aumentou.
O fato é que, se não tivéssemos tido fatos extraordinários, como os cortes das tarifas
de energia e o adiamento do aumento da tarifa de ônibus em São Paulo e Rio, a
inflação acumulada de janeiro e fevereiro poderia ter caminhado para algo como 2,3%,
2,4% e até 2,5%. É evidente que, se você está com esse tipo de risco no cenário, o grau
de preocupação das autoridades com a inflação tem que subir. Mesmo porque as
tarifas de ônibus urbanos em algum momento vão aumentar. Tem também a questão
do uso das termelétricas durante todo o ano, que pode devolver um pouco do ganho
que se obteve com corte da tarifa de energia, desde que o Tesouro não assuma.
Valor: Mas houve momentos em que o BC tinha um recado muito mais firme, e depois
trouxe de volta a lembrança do "suficientemente prolongado". Está havendo ruído de
comunicação?
Mesquita: O 'suficientemente prolongado' não saiu do comunicado e da ata. A gente
tem que ver como esse tema vai ser tratado agora e na semana que vem.
Comunicação por discurso tem sempre uma calibragem. O BC vai se comunicando, o
mercado vai reagindo e o BC tem como corrigir o seu tom para levar o mercado para
aonde ele quer. Acho que estamos nesse processo. Mas continuo achando que os
documentos oficiais - comunicado, ata e relatório de inflação - acabam sendo mais
importantes, uma sinalização mais poderosa das intenções da autoridade.
Valor: Em sua opinião, a comunicação foi bem feita?
Mesquita: O BC deu sinais de desconforto com a inflação progressivos, o mercado
reagiu a isso. Aparentemente, no fim desse processo, ele não adicionou esses sinais.
Acho que chegou a um nível de preocupação, em um apreçamento da curva de juros
em que o BC se sentiu satisfeito. Vamos esperar os documentos. Seria uma grande
surpresa se ele desfizesse, se dissesse que 'não, está tudo bem, o cenário inflacionário
voltou a ser benigno'. Acho difícil isso acontecer. Seria mais difícil de entender e mais
difícil de explicar também.
Valor: Tem gente achando que o BC está fazendo apenas uma calibragem verbal, mas
que não estaria realmente disposto a subir os juros. Se depois disso não houver
aumento, haverá prejuízo à credibilidade?
Mesquita: Se a inflação continuar se comportando como vem se comportando,
provavelmente vai exigir uma resposta de política monetária. Se houver uma mudança
muito favorável de um dia para a noite, o que não é muito provável dado que você
tem componentes da inflação que são persistentes, como o crescimento dos salários
devido ao mercado de trabalho apertado, pode ser que o BC não precise fazer nada e
mantenha a credibilidade. Mas, caso a inflação continue a se comportar de forma
divergente à meta, provavelmente vai ter que seguir a indicação mais recente, que é
de alta dos juros.
Valor: Mas, para isso, qual é o indicador mais importante?
Mesquita: O mercado, assim como o BC, tem que olhar para uma quantidade grande
de fatores. Não basta olhar apenas para a inflação cheia. Os núcleos têm seu conteúdo
de informação, o grau de difusão do processo inflacionário também, indicadores de
ociosidade também são importantes, expectativas de inflação... Tudo isso tem que ser
levado em conta na hora de o BC tomar uma decisão e de o mercado se posicionar.
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Valor: Então, teria de haver uma virada do quadro como um todo...
Mesquita: Sim, não basta ver um alívio de preço de alimento pontual e o índice de
inflação cheia cair. A gente já viu isso antes. Em meados de 2010, houve um momento
em que a inflação cheia ficou muito bem comportada e, naquele momento, o BC
interrompeu um ciclo de aperto monetário. Depois, em 2011, teve de voltar [a subir a
taxa Selic]. A inflação cheia é algo que todo mundo olha, mas ela não é uma
informação suficiente para guiar os passos da política monetária.
Valor: O que tem um custo maior para o BC: dar doses mais fortes de juros ou acelerar
o ciclo?
Mesquita: É custoso para o BC operar mudanças de ritmo. Em geral, você cria uma
expectativa, está seguindo uma estratégia, tem que explicar. É uma nova tarefa, um
novo exercício. Historicamente, não só no caso brasileiro, quando você tem uma
inflação que fica mais persistente, mais inercial, você tem que fazer apertos
monetários mais prolongados, que causem um desaquecimento da economia mais
persistente para exatamente quebrar essa inércia. O caso mais emblemático foi nos
Estados Unidos, na virada dos anos 70 para os 80. Durante muito tempo os EUA
tinham essa ideia: "Vamos conviver com inflação", "inflação de 7%, 8%, 9% não é
problema", e aí precisou vir o [Paul] Volcker [ex-presidente do Federal Reserve] para
gerar um desaquecimento suficiente à desinflação. A inflação não é algo com o que
você queira conviver. A gente já tem uma meta alta, o que é um problema. Quando se
fala em desinflacionar a economia brasileira é desinflacionar para 4,5%, quando o
padrão mundial é de 2,5% nas economias maduras e de 3% nos emergentes. Conviver
com uma inflação já saindo de uma meta que é alta para o padrão internacional é
complicado.
"Se não tivéssemos corte de tarifa de energia e adiamento de ônibus, IPCA do bimestre
seria de até 2,5%"
Valor: O Brasil está em processo de estagflação?
Mesquita: Haverá alguma recuperação neste ano, com tendência de um crescimento
razoável neste ano, perto de 3%, talvez um pouco acima disso, ainda com um
comportamento liderado pela expansão do consumo, mas acho que deve acontecer
uma virada no investimento. Ele caiu no ano passado cerca de 4% e, neste ano, deve
crescer acima de 3%. O programa de concessões em infraestrutura deve ter seu efeito
positivo. Há uma recuperação em curso em segmentos importantes - bens de capital,
no segmento de caminhões, que foi um fator negativo para o investimento no ano
passado. Não acho que a gente vá voltar a crescer como antes da crise, mesmo porque
o mundo não cresce como crescia antes da crise. Mas vai crescer mais em 2013 do que
cresceu em 2011 e 2012.
Valor: Uma resposta de política monetária virá com uma inflação alta e expectativas
acima de 5,5% para 2013 e 2014. Esse quadro pode ser uma das explicações para a
demora da resposta da atividade?
Mesquita: A inflação acaba corroendo renda real, comprime o poder de compra, em
especial dos que vivem de salário. O diretor de política econômica [Carlos Hamilton
Araújo] disse, quando apresentou o boletim regional, que essa ideia de que inflação
alta promove crescimento é uma falácia. A inflação alta corrói renda e atrapalha o
crescimento. O BC tem isso em mente.
Valor: E do ponto de vista do setor produtivo, decisões de investimento são
comprometidas quando cresce a preocupação com inflação?
Mesquita: As decisões de investimento são comprometidas quando você tem risco de
instabilidade macroeconômica, mudanças de regra, aumento da incerteza, isso tudo
atrapalha. No ano passado, a gente teve um desempenho bastante ruim do
investimento apesar de taxa de juros para investir a zero, praticamente, contando o
juro subsidiado, e isso reflete um pouco o aumento da incerteza. Este ano,
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estabelecidas as regras para investimento em concessões, com certa redução do
ambiente de incerteza, o investimento tende a se recuperar.
Valor: Na sua opinião, a ação do BC terá mais foco em expectativa do que em regular
demanda?
Mesquita: Vamos ter sempre a cautela de esperar que quem tem a caneta se
manifeste. O BC vai se manifestar sobre juros, na decisão do Copom e com certeza vai
deixar claro o que ele pretende com sua estratégia. Vamos esperar para ver o que vai
dizer, mas certamente a comunicação vai mencionar a necessidade de trazer a inflação
para a meta, ancorar as expectativas, isso parece ser em linhas gerais o que o BC tem
em mente, mas ele é quem tem que dizer. As expectativas são um dos determinantes
para a inflação. É um fato bem estabelecido que as expectativas de inflação têm
influência sobre a inflação observada. As empresas quando definem seus preços levam
em conta qual é a inflação esperada, mais ou menos. Em geral, as expectativas de
inflação refletem a meta ou a inflação acumulada nos últimos 12 meses, dependendo
se a meta tem sido atingida recentemente ou não, ou se a inflação está persistindo em
um nível diferente da meta por mais tempo. Como a inflação tem persistido em torno
de 5,5% por algum tempo, as expectativas têm ficado ao redor desse patamar.
Valor: O câmbio pode ser mais utilizado para controlar a inflação?
Mesquita: O câmbio ajuda. Assim como teve um efeito inflacionário quando o real se
depreciou no ano passado, ele daria uma ajuda agora, em especial para conter a
inflação dos bens comercializáveis, que saiu de cerca de 3% para algo perto de 5,5%.
Teve uma alta grande, que em parte pode ser atribuída ao efeito defasado da
depreciação do real. Se você tivesse um movimento inverso da taxa de câmbio, de
apreciação, a tendência seria ter uma redução da inflação dos bens comercializáveis.
Isso é importante porque a gente sabe que os não comercializáveis andam próximo a 9%
muito em função das pressões salariais e do mercado de trabalho.
Valor: O que explica o fato de o fluxo financeiro ter encolhido?
Mesquita: Tem a ver com incerteza, com a ideia de que o ciclo de investimento não se
acelerou no Brasil, as empresas não estão sentindo necessidade de se endividar.
Houve também um encarecimento do CDS do Brasil, o que significa na margem um
aumento do custo de financiamento externo. Mas acho que isso tem a ver com o fato
de que as empresas não estão sentindo grande necessidade de tomar recursos lá fora
porque não estão investindo. A incerteza macroeconômica acaba inibindo as empresas
a investir.
Valor: Não é apenas a política monetária que gera incerteza?
Mesquita: Não. Acho até que o trabalho do BC recentemente tem sido no sentido de
aumentar o grau de certeza, esclarecer com ênfase qual é sua preocupação, sua
prioridade. O BC tem atuado no sentido de dirimir essas dúvidas. É evidente que isso
tem que ter um segmento no tempo, na ação que o BC vai ter nesta semana e nas
reuniões seguintes. Mas acho que a incerteza tem a ver com questão regulatória de
diferentes setores, mudanças de regras. Pode até ser um período de transição para as
pessoas se acostumarem com esse novo ambiente. Mas enquanto isso, há um
aumento do nível de incerteza que inibe o investimento.
Por Lucinda Pinto, de São Paulo
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