Setor privado lidera ação antiviolência na América Central

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Setor privado lidera ação antiviolência na América Central
El Salvador conseguiu diminuir a taxa de homicídios pela metade este ano. Contudo, mais precisa ser feito
para garantir que a redução seja permanente, ressalta o ministro da Justiça e Segurança Pública do país.
Michael Coleman
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24 dezembro 2012
El Salvador conseguiu diminuir a taxa de homicídios pela metade este ano. Contudo, mais precisa ser feito
para garantir que a redução seja permanente, ressalta o ministro da Justiça e Segurança Pública do país.
Douglas Moreno fez essas declarações em 12 de dezembro em um simpósio do Banco Mundial sobre
“Segurança no Triângulo do Norte: o Papel do Setor Privado na Redução da Violência”. O Triângulo do
Norte refere-se a El Salvador, Guatemala e Honduras, mas o evento – copatrocinado pela Sociedade das
Américas/Conselho das Américas (AS-COA) – concentrou-se principalmente em El Salvador, onde a
violência das gangues é mais severa.
O evento coincide com a publicação de um estudo da AS-COA sobre redução de violência em El Salvador.
O relatório encontrou melhorias na produtividade corporativa e segurança local quando as empresas
oferecem trabalho e treinamento para ex-membros de gangues.
Por exemplo, o Grupo Calvo emprega 90 ex-membros de gangues reabilitados – cerca de 5% de seu
quadro de funcionários – em uma fábrica de atum enlatado e facilita a contratação por seus fornecedores
de mais 100 deles. Na League Collegiate Wear, uma fábrica de roupas, 15% de sua força de trabalho foi
contratada através de um programa similar.
“O setor privado pode claramente desempenhar um papel importante na melhoria da segurança na região
e isso pode ser melhor alcançado através da parceria público/privada”, disse a presidente e diretoraexecutiva da organização, Susan Segal. “Esse documento sobre a política a ser adotada cria caminhos
concretos e positivos para uma das questões mais prementes da região.”
Banco Mundial: 10% de queda dos homicídios = 1% de aumento do PIB
O conceito de parceria público/privada é relativamente novo na América Central. Enquanto o documento
sobre a política analisa sua eficácia em El Salvador, também serve como ponto de referência para
Honduras e Guatemala.
O Banco Mundial estima que o crime e a violência custem a El Salvador US$ 2,5 bilhões (R$ 5,25 bilhões)
anualmente, o que representa 10,8% de seu Produto Interno Bruto, calculando que uma queda de 10% na
taxa de homicídios se traduziria em um aumento do PIB.
“Nós vamos terminar o ano com 2.000 homicídios a menos que em 2011”, comemora Moreno, ressaltando
que, após a trégua assinada em março de 2012 entre as duas maiores gangues de El Salvador, os
homicídios caíram de uma média de 14 por dia para cinco. Em 2011, o país registrou mais de 4.300
assassinatos, o que representa uma taxa de homicídios de 66 por 100.000 habitantes, a segunda maior
depois de Honduras, que registrou 82 homicídios por 100.000 habitantes – a mais alta do mundo.
Em El Salvador, a administração do presidente Mauricio Funes elaborou um plano de segurança pública
integrado que visa igualmente o controle e a prevenção do crime. O plano conclama as câmaras municipais
a melhorar a coordenação entre o Estado e a sociedade na luta contra a violência e insegurança. O
governo também reforçou seu apoio às unidades militares para fortalecer as ações policiais.
Ajuda a jovens carentes em risco
Moreno explica que o governo está comprometido em dar oportunidades de educação e emprego para os
jovens, acrescentando que a violência será o ponto focal das eleições presidenciais em El Salvador daqui a
dois anos. “Não importa quem ganhará em 2014, mas esse processo estará em seus ombros”, afirma.
Hasan Tuluy, o vice-presidente do Banco Mundial para a América Latina e o Caribe, lembra que a violência
na América Central inflige perdas econômicas equivalentes a quase 8% do PIB total do Triângulo do Norte.
“Quando as pessoas perguntam por que instituições como o Banco Mundial estão engajadas em tais
atividades, é porque trata-se de um desafio de crescimento para esses países”, explica Tuluy. “É por isso
que estamos cada vez mais incorporando a prevenção à violência e ao crime em uma vasta cadeia de
produtos, como soluções financeiras ou compartilhamento e agregação de conhecimento para
aprendermos com isso.”
Tuluy adianta que não existem soluções prontas, destacando que o que funciona em El Salvador pode não
ser eficaz em Honduras.
“Não existem soluções pré-elaboradas”, lembra Tuluy. “Temos que aprender reunindo o máximo de
experiência possível para fornecer a solução certa para o país certo. É por isso que essas parcerias são
importantes. Todos precisam se unir nessa causa porque será uma ação duradoura e multifacetada.”
Tuluy dá um exemplo sobre como os setores públicos e privados podem ajudar.
“O setor privado pode gerar emprego para os jovens em risco… Um dos fatores-chave para o crime e a
violência. A qualidade dos serviços públicos é importante também. O setor público pode desempenhar um
papel transformador”, afirma Tuluy, anunciando que o Banco Mundial começará a conceder dotações para
projetos relativos a segurança pública, com um primeiro empréstimo a Honduras.
AES: Iluminação pública reduz violência
Jason Maczak, editor sênior do Americas Quarterly e moderador do evento em Washington, diz que as
empresas na América Central começam a perceber que investir em jovens em situação de risco e outros
programas para ajudar pessoas marginalizadas ou carentes pode aumentar seus lucros. Isso se aplica
tanto à gigante do software Microsoft quanto à AES, um conglomerado do setor energético.
“Isso tem a ver com o efeito que as taxas de homicídio têm sobre o ambiente de negócios e investimentos
na região”, conta Maczak. “O que distingue esses exemplos é que os programas tem um componente de
responsabilidade social corporativa, mas também atendem aos interesses empresariais, o que é possível
se fizer parte de seu modelo do cerne corporativo.”
A porta-voz da AES Adriana Roccaro Giamporcaro, cuja empresa provê eletricidade a 27 países em cinco
continentes, diz que algo simples como o compromisso de iluminar locais públicos pode ajudar a reduzir a
violência.
“A vida e a segurança têm melhorado com a iluminação pública e acesso a eletricidade”, declara Adriana.
“É importante ver como se pode ter um impacto direto. O processo de eletrificação é realizado mediante
fundos definidos pelo governo, cuja vontade de fornecer eletricidade é tão grande que estabelece verbas
para esse propósito.”
Uma história pessoal de um empresário: Josue Alvarado Flores, presidente da Rio Grande Food Products
Inc., no estado americano de Maryland, migrou para os Estados Unidos em 1985. Ele conta que muitos
membros de gangues de seu país de origem, El Salvador, agarrariam a oportunidade de levar uma vida
honesta e que o setor privado está apto a ajudar.
“Muitos criminosos que planejam atos de violência e extorsão querem parar com isso”, garante. “Algumas
pessoas dizem ‘nós queremos sair da gangue, mas como vamos sobreviver?’”
Flores explica como sua empresa tenta ajudar.
“Nós fornecemos uma cesta básica por duas semanas para ajudá-los e lhes dizemos que devem ir à igreja
por um período de seis meses, e também oferecemos exames médicos e assistência psicológica até que
estejam prontos para entrar em uma empresa que lhes abra as portas”, afirma.
Flores diz que a missão corporativa é orientada a negócios e traz responsabilidade social. Mas, para ele, a
ação é algo pessoal. “Meu pai era um traficante de drogas e membro de gangue”, conta. “Eu tenho um filho
de um ano de idade e não quero esse futuro para ele”.
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