149 COMUNIDADE DE FALA DO IFSUL RELAÇÕES

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Didática e Prática de Ensino na relação com a Sociedade
COMUNIDADE DE FALA DO IFSUL: RELAÇÕES LINGUÍSTICAS
NO PROCESSO ENSINO-APRENDIZAGEM.
Márcia Helena Sauaia Guimarães Rostas - IFSul
Beatriz Helena Zanotta Nunes - IFSul
RESUMO
O presente painel pretende discorrer acerca de parte do percurso, em andamento,
da pesquisa que visa analisar o processo ensino-aprendizagem a partir da comunicação
entre professor e aluno. O conhecimento dos códigos linguísticos é ferramenta
imprescindível para que o estabelecimento da comunicação e consequentemente da
compreensão. Com base nesta premissa iniciamos esta investigação, impulsionadas
pelas seguintes inquietações: Há interação discursiva entre aluno e professor? O
discurso existente em sala de aula influi no processo ensino-aprendizagem? O professor
compreende os questionamentos e as dificuldades dos alunos, ao interagir com ele? O
aluno compreende o que o professor fala? O aluno consegue externar as suas
dificuldades a ponto do professor compreendê-las e assim, possa sanar suas
dificuldades? A falta de compreensão entre esses sujeitos pode influenciar na relação
ensino-aprendizagem? Apesar de, aparentemente, parecer ser suficiente para que seja
estabelecido um processo de comunicação, entre duas pessoas, a língua comum entre os
falantes a partir da língua oficial, e ainda, presumir que conhecendo o código
linguístico, as pessoas se entendem do ponto de vista linguístico. Destacamos, porém,
que o Brasil é um país rico no aspecto da linguagem. Nesta pesquisa percebemos que há
inúmeras variações linguísticas a partir do contexto da procedência do falante: rural ou
urbana bem como sua ascendência – origem familiar. Para caracterização do objeto de
pesquisa delimitamos o universo nos alunos ingressantes nos cursos técnicos na
modalidade integrada. Desta forma pudemos, com mais propriedade, descrever o perfil
destes estudantes. Da mesma forma procedemos com os professores que trabalham com
o primeiro e segundo semestre destes cursos. Detectamos um universo formado por
pessoas de ascendências distintas com residências em espaços rurais e urbanos.
Detectando as variações linguísticas existentes neste universo, questionamos se tais
traços podem dificultar a comunicação dentro da escola e desta forma influenciar o
desempenho do aluno.
Palavras chave: comunicação – discurso pedagógico– ensino-aprendizagem
1 Considerações Iniciais
Inúmeros são os questionamentos dos motivos que podem comprometer
parcial ou integralmente o processo ensino-aprendizagem dentro do ambiente
educacional, quer seja dentro ou fora da sala de aula.
Observamos ao longo da trajetória docente que muitos professores não
compreendem os posicionamentos de parte de seus alunos, em contrapartida,
verificamos, ainda, que muitos alunos reclamam que não entendem a aula de seus
professores. Partindo deste viés observamos a necessidade de investigar a relação entre
a comunicação e a aprendizagem, tomando por base alunos e professores nos diversos
ambientes de sala de aula.
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Delimitamos nosso universo, focando a investigação nos múltiplos aspectos
que envolvem a linguagem falada e escrita dos alunos ingressantes no Ensino Técnico
Profissionalizante, na forma Integrada, do Instituto Federal de Educação, Ciência e
Tecnologia Sul-Rio-Grandense – campus Pelotas e os impactos no rendimento escolar.
Partindo da premissa de que a fala pode caracterizar várias instâncias da
comunicação direta e indireta destacamos, para este estudo, a importância dos códigos
linguísticos no estabelecimento da compreensão entre o sujeito que fala e o que escuta.
Na ausência desta compreensão, no espaço educacional, questionamos: quais fatores,
dentro do universo da comunicação, podem influenciar a aprendizagem dos alunos?
Na sala de aula, observamos a importância dos códigos linguísticos inseridos no
cotidiano da relação entre professores e alunos durante o processo de ensinoaprendizagem. O domínio ou desconhecimento desses códigos se revelam como
responsáveis por muitas deficiências existentes na relação de aprendizagem. Tal fator
determinará, de certa forma, o rendimento escolar, que, por conseguinte, definirá a
aprendizagem ou não do aluno.
2 A pesquisa: um processo em construção
A análise da linguagem com vistas à observação do processo ensinoaprendizagem dentro de um ambiente escolar por meio do cotidiano da sala de aula é
nosso foco de pesquisa.
Para Bernstein (1996, p. 143):
[...] um código é um princípio regulativo, tacitamente
adquirido, que seleciona e integram significados relevantes,
formas de realização e contextos evocadores [...] o código é um
regulador das relações entre contextos e, através dessa relação,
um regulador das relações dentro dos contextos [...]
Partindo do pressuposto levantado pelo autor observamos não ser a unidade
para análise dos códigos o enunciado abstrato ou o contexto isolado, mas as relações
entre contextos. Em outras palavras, a análise da relação dialógica deve levar em
consideração fatores linguísticos, sociais e ambientais.
A linguagem - código restrito e código elaborado - se refere a um princípio
regulador que está na base dos sistemas de mensagens: currículo, pedagogia e avaliação.
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Segundo Bernstein (1996) no uso dos códigos há diferenças nos códigos de
comunicação dos filhos da classe trabalhadora e dos filhos da classe média. Estas
diferenças refletem nas relações de classe e de poder na divisão social do trabalho, no
ambiente laboral, familiar e educacional.
O processo ensino-aprendizagem, intermediado pela língua(gem) não pode
ser um elemento de exclusão. O professor precisa conhecer a linguagem de seus alunos
e, ainda, utilizar mecanismos de comunicação que permitam a interação deles em suas
aulas. Caso contrário, como destaca Berstein (1996) estaremos segregando os códigos
elaborados, não criando condições para que sejam apropriados e divulgando pelos
alunos oriundos da classe trabalhadora, destacando os códigos restritos como única
alternativa de comunicação para esta classe.
Soares (2000), por meio de uma pesquisa sociológica, tematiza as relações
entre linguagem e escola, demonstrando que, no interior desta instituição, a
heterogeneidade social, cultural e, portanto, linguística não recebe um tratamento
adequado. A autora explicita os conflitos que podem existir neste ambiente,
desenvolvendo sua análise baseada em teorias que apontam diferenças culturais e
linguísticas como responsáveis por boa parte da dificuldade de comunicação dentro da
sala de aula. Outro dado importante, apontado, é a democratização do acesso e da
permanência à escola como responsável pelas dificuldades encontradas neste ambiente.
3 objeto de pesquisa
Baseadas no pressuposto da necessidade de comunicação de qualidade entre
professor e aluno começamos a traçar objetivos e metas que dariam suporte a um
trabalho de cunho investigativo que trará frutos para a comunidade como um todo.
Nossos principais objetivos, nesta pesquisa, são:

Investigar as variações que podem dificultar a comunicação entre professor e aluno,
a partir do perfil dos discentes matriculados no IFSul – Campus Pelotas segundo
sua procedência (rural ou urbana);

Identificar, dentro de um espaço amostral significativo, o perfil dos alunos do IFSul
– Campus Pelotas;

Descrever o dialeto falado na cidade de Pelotas (Português Pelotense) a partir da
análise da fala dos informantes;
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
Verificar, a partir da origem dos sujeitos da pesquisa, especificidades linguísticas
(campo lexical).
Com base nestes dados, temos, ainda, por eixo principal:

Analisar o impacto do discurso falado e escrito, em sala de aula, nos múltiplos
aspectos da linguagem.
Partindo de uma pesquisa qualitativa trabalhamos com um universo de
significados, motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes. Nesta ótica investigativa
foi possível que os autores se envolvessem diretamente nesta situação, possibilitando
observar os agentes no seu cotidiano, convivendo e interagindo socialmente.
Confrontamos os dados e as informações coletadas sobre o assunto, o objeto da
investigação, aliando estes procedimentos ao conhecimento teórico acumulado no
decorrer do processo.
Esta pesquisa se utiliza, ainda, do método descritivo, que tem como
características observar, registrar, analisar, descrever e correlacionar fatos ou fenômenos
sem manipulá-los, procurando descobrir e/ou analisar os dados coletados para provocar,
sugerir alternativas ou soluções dos problemas diagnosticados. Envolve a preocupação
em estudar o discurso existente entre professor e aluno no cotidiano educacional,
investigando e observando aspectos variados da fala no universo dos alunos.
Pesquisar no ambiente escolar requer, além do rigor do método, uma
minuciosa análise dos agentes que compõe este universo. Este estudo tem a pretensão
de continuar analisando uma amostragem significativa de professores que atuam nas
séries iniciais, sejam nas disciplinas formativas ou profissionalizantes, para verificar,
através de suas falas, como esse docente constrói o diálogo existente em sua sala de
aula. Em contrapartida, necessitamos, ainda, continuar analisando, também, a fala dos
alunos, suas interações linguísticas e, ainda, sua participação no diálogo dentro da sala
de aula. Por fim, precisamos cruzar estas informações a fim de perceber como tem se
dado a interação linguística entre professor e aluno. Desta forma, com base nestes dados
levantados, pretendemos verificar quais as necessidades, neste ambiente comunicativo,
para que haja diálogo – aprendizagem - neste universo.
Em todo processo investigativo é importante o contato prévio com a
comunidade de fala para se obter informações não só linguísticas, mas também sociais e
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culturais de cada indivíduo. Para isso, construímos e aplicamos uma ficha de
identificação do perfil social desta comunidade de fala com vistas a sua caracterização.
Realizada a coleta de dados e análise dos mesmos, seguimos a próxima
etapa da pesquisa que é transcrição dos dados audiográficos, obtidos através de
entrevistas semi-estruturadas operacionalizadas através da aplicação de questionários,
que estão em fase de coleta. Após esta etapa procederemos à análise mais consistente, à
luz de teóricos que abordam esta temática, por fim, os dados após serem organizados em
categorias serão discutidos na forma de propostas que serão apresentados a comunidade.
Os dados coletados, que serão apresentados a comunidade, configuram o
‘corpus’ desta pesquisa. A análise destes dados tem o intuito de observar quais os
fatores linguísticos e extralinguísticos que influenciam a fala da comunidade linguística
do IFSul, no interior do Curso de Eletrotécnica, em estudo. Essa análise consiste em
usar os dados como argumento e não como ilustração.
Referências
BERNSTEIN, B. A estruturação do discurso pedagógico: classe, códigos e controle.
Vozes: Petrópolis, 1996.
SOARES, Magda. Linguagem e escola: uma perspectiva social. 17. ed. São Paulo:
Ática, 2000.
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