Considerações sobre o impacto do Benefício de Prestação Continuada na vida de seus beneficiários1 Gabriela Abrahão Masson2 Patrícia Soraya Mustafa3 Modalidade de trabajo: Eje temático: Resultado de investigaciones Políticas Sociales y desarrollo en el contexto neoliberal y los desafíos para el Trabajo Social Introdução As políticas públicas brasileiras, até a promulgação da Constituição Federal de 1988, sobretudo a assistência social estiveram no campo da caridade e da filantropia. A Carta Magna se constitui um divisor de águas, pois proclama como nunca direitos políticos, civis e sociais. Em seu bojo é instituído o sistema de Seguridade Social brasileiro composto pelo tripé: Saúde, Assistência (como direito não contributivo) e a Previdência Social (ainda com princípios de seguro social). Como afirma PEREIRA (2006, p. 152), Os conceitos de direitos sociais, seguridade social, universalização, equidade, descentralização político – administrativa, controle democrático, mínimos sociais, dentro outros passaram, de fato, a constituir categorias – chave norteadoras da constituição de um novo padrão de política social a ser adotado no país. O tripé da Seguridade Social marca a passagem do modelo político de um Estado Assistencial, para um Estado de Direito Social. No entanto, a afirmação dos direitos civis, políticos e sociais não significa que eles são estendidos e garantidos a todos, uma vez que as leis orgânicas que materializaram o tripé da seguridade foram outorgadas entre intervalos tardios, sendo a Assistência Social a última delas. A afirmação de direitos após a constituinte de 1988 a nosso ver é marcada por um intenso dualismo: a garantia constitucional de direitos civis, políticos e sociais paralelos ao avanço desenfreado do neoliberalismo rogando a desresponsabilização estatal, mediante a concretização dos interesses do mercado. Decorre daí o trinômio do 1 Ponencia presentada en el XIX Seminario Latinoamericano de Escuelas de Trabajo Social. El Trabajo Social en la coyuntura latinoamericana: desafíos para su formación, articulación y acción profesional. Universidad Católica Santiago de Guayaquil. Guayaquil, Ecuador. 4-8 de octubre 2009. 2 Assistente Social, Graduada em Serviço Social e discente do Programa de Pós-Graduação em Serviço Social pela Faculdade de História, Direito e Serviço Social UNESP campus de Franca/São Paulo/ Brasil. Especialista em Serviço Social, Famílias e Reabilitação na área da Saúde, pela Universidade estadual de Campinas,UNICAMP/ São Paulo/ Brasil. e-mail: [email protected] 3 Professora Doutora da Faculdade de História, Direito e Serviço Social - UNESP campus de Franca/São Paulo/ Brasil. email: [email protected]. 1 neoliberalismo para as políticas sociais brasileiras: “privatização, focalização/ seletividade e descentralização” (BEHRING; BOSCHETTI, 2008). [...] a tendência geral tem sido a de restrição e redução de direitos, sob o argumento da crise fiscal do estado, transformando as políticas sociais – a depender da correlação de forças entre as classes sociais e segmentos de classe e do grau de consolidação da democracia e da política social nos países – em ações pontuais e compensatórias direcionadas para os efeitos mais perversos da crise (BEHRING; BOSCHETTI, 2008, p. 156). A Política Nacional de Assistência Social (PNAS) configura-se como uma nova situação de política pública para o Brasil, legalmente ela significou (ca) garantir a todos, que dela necessitam sem contribuição prévia – não estando atrelada à categoria trabalho - a provisão de proteção social. No entanto, a materialização desta política teve seu avanço em um contexto da hegemonia neoliberal, em que os dispostos da Lei Orgânica de Assistência Social (LOAS) foram comprimidos, em consonância à lógica do mercado, em detrimento da lógica da cidadania, momento de ataque frontal aos direitos sociais, e especialmente da política de assistência social como nos relatam as autoras abaixo: A assistência social é a política que mais vem sofrendo para se materializar como política pública e para superar algumas características históricas como: morosidade na sua regulamentação como direito (a LOAS só foi sancionada em 1993 e efetivada a partir de 1995); redução e residualidade na abrangência, visto que os serviços e programas atingem entre 15% e 25% da população que deveria ter acesso aos direitos; manutenção e mesmo esforço do caráter filantrópico, com forte presença de entidades privadas na condução de diversos serviços, sobretudo os dirigidos às pessoas idosas e com deficiência; e permanência de apelos e ações clientelistas e ênfase nos programas de transferência de renda, de caráter compensatório (BEHRING; BOSCHETTI, 2008, p. 162). Após dez anos de LOAS, na tentativa de mudar/ qualificar este quadro, vivenciamos o momento de construção e de implementação do Sistema Único de Assistência Social (SUAS), materializado pela IV Conferencia Nacional de Assistência Social, realizada em dezembro de 2003 em Brasília/DF. Conforme previsto na PNAS, o SUAS cujo modelo de gestão é descentralizado e participativo, constitui-se na regulação e organização em todo o território nacional da rede de serviços sócio assistenciais. Os serviços, programas, projetos e benefícios têm como foco prioritário à atenção às famílias, seus membros e indivíduos e o território como base de organização, que passam a ser definidos pelas funções que desempenham, pelo número de pessoas que deles necessitam e pela sua complexidade. Pressupõe, ainda, gestão compartilhada, cofinanciamento da política pelas três esferas de governo e definição clara das competências técnico-políticas da União, Estados e Municípios (POLÍTICA NACIONAL DE ASSISTÊNCIA SOCIAL, 2004, p. 23). 2 A nova concepção de proteção social afiançada pelo SUAS vem atender as desigualdades sociais, pobreza e exclusão, inerentes a sociedade capitalista que engendra a desproteção social, visando o desenvolvimento humano e social abdicando do caráter tutelador e assistencialista. Desta forma, as proteções sociais engendradas pelo SUAS conferem a Assistência Social seu caráter de política pública crucial para garantiar permanente vida digna e inclusão social. Cabe à Política Pública de Assistência Social assegurar provisões assistenciais prioritariamente pensadas no âmbito das garantias de cidadania sob vigilância do Estado, cabendo a este a universalização da cobertura e a garantia de direitos e acesso para serviços, benefícios, programas e projetos (grifo nosso). Atuando desta forma na defesa da inclusão e dos direitos sociais, constituindo o pleno direito à renda, segurança alimentar e assistência social. (POLÍTICA NACIONAL DE ASSISTÊNCIA SOCIAL, 2004, p. 23). Neste artigo discorreremos especificamente sobre um tipo de benefício proposto pela LOAS, o Benefício de Prestação Continuada – BPC. Apresentaremos parte da pesquisa bibliográfica e alguns dados coletados para a pesquisa de Mestrado em andamento, que tem como objetivo analisar o impacto do Beneficio de Prestação Continuada (BPC) na vida de seus beneficiários no município de Altinópolis, estado de São Paulo/ Brasil. Desenvolvimento O (BPC), foi promulgado pelo artigo 203 inciso V da Constituição Federal de 1988 como a garantia de um salário mínimo de benefício mensal à pessoa com deficiência e ao idoso que comprovem não possuir meios de prover à própria manutenção, ou de tê-la provida por sua família. Este beneficio (grifo nosso) foi ratificado pela LOAS no capítulo IV, em seu artigo 20. Sua regulamentação foi materializada através do Decreto Federal nº. 1.744 de 05 de Dezembro de 1995, por meio da instituição da coordenação geral do benefício a cargo do Ministério da Previdência e Assistência Social (MPAS) por intermédio da Secretaria de Estado da Assistência Social (SEAS). Sua operacionalização foi delegada ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), conforme o que estabelece o parágrafo único do artigo 32º do mesmo decreto. 3 O Decreto nº 6.214, de 26 de Setembro de 2007 do ponto de vista legal, traz muitos avanços ao beneficio, dentre eles sua gestão pactuada de maneira signatária com o SUAS: Art. 37: “Constituem garantia do SUAS o acompanhamento do beneficio e de sua família, e a inserção destes a rede de serviços socioassistenciais e de outras políticas setoriais”. De acordo com avaliação realizada pelo Ministério de Desenvolvimento Social e Combate à Fome, em setembro de 2005, a cidade de São Paulo possuía 104.877 beneficiários do BPC. Deste total, 39.220 eram pessoas com deficiência e 65.657 pessoas idosas. No período correspondente a 02/01/1996 a 31/07/2001 foram realizadas quatro etapas de revisão do beneficio, totalizando 46.769 benefícios correspondendo apenas a 45,05% do total. A Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social realizou a 4ª Etapa da revisão social, ou seja, de 11.155 beneficiários, sendo 7.004 pessoas idosas e 4.151 pessoas com deficiência, que fizeram jus ao benefício concedido no período entre 01/08/2000 a 31/07/2001. Em relação ao uso do beneficio as respostas múltiplas demonstraram que 76,76% dos idosos utilizam o dinheiro do benefício para despesas com alimentação (grifo nosso) 61,72% para aquisição de medicamentos e 33,44% com despesas com moradia e 13,88% em vestuário. Como se observou, nenhum, ou, poucos idosos utilizam o benefício para desenvolvimento de atividades que possam aferir renda, o que inviabiliza as possibilidades de autonomia. O recurso financeiro é utilizado, na expressiva maioria, para garantir os mínimos sociais para sobrevivência individual e de familiares (grifo nosso). A 4ª Etapa da revisão do BPC realizou avaliação social de 2.868 beneficiários dentre as 4.151 pessoas com deficiência. A pesquisa levantou algumas situações de vida dos beneficiários que dificultam o acesso aos mais diversos direitos da pessoa com deficiência, os quais devem compor as diversas políticas públicas como saúde, habitação, educação, transporte, trabalho, dentre outras. Foram destacadas as situações que apresentam alta incidência e podem indicar a condição de privação a que estão submetidas às pessoas com deficiência e suas famílias. As respostas múltiplas indicaram que para 2.033 dos entrevistados 70,8%, o BPC é a única renda de caráter continuado recebido pela família (grifo nosso). Outros 1.636 beneficiários 57% indicaram que pelo menos um dos pais ou responsáveis pela manutenção da pessoa com deficiência encontra-se em situação de desemprego. 4 Constatou-se, portanto, que o BPC garante uma renda básica a pessoas que não possuem condições de obtê-la por meio de suas atividades, transformando-se de um benefício individual em benefício familiar, uma vez que, a compra de alimentos é a principal despesa para 77,09% dos entrevistados (grifo nosso) que estende esta provisão a todos os membros da família. Outro item priorizado por 50,69% é a compra de medicamentos, despesa expressiva e necessária tanto para o segmento pessoa com deficiência quanto para os idosos. Os gastos com moradia também absorvem 27,85% do benefício dos entrevistados, precedendo as despesas com tratamento 23,04%, e vestuário 22,03%. As respostas múltiplas reforçam o afirmado anteriormente, com relação ao segmento do idoso. O benefício é quase na sua totalidade direcionado para o sustento da família de 75,97% dos beneficiários. A melhoria da qualidade de vida e da auto-estima alcança 45,36% dos entrevistados. Estes percentuais apenas revelam que o acesso ao benefício, garante à pessoa com deficiência a tranqüilidade de ter assegurado os mínimos sociais necessários à sobrevivência da família. Portanto, o BPC, sendo um direito social, deveria garantir aos seus beneficiários, a dignidade e a redução das desigualdades sociais, a fim de contribuir com a erradicação da pobreza e marginalização, alcançando o bem estar e a justiça social. Ainda há o não direito ao beneficio, ou seja, aquelas pessoas com deficiência, cuja renda per capita ultrapassou o limite estabelecido por lei, mas possuem gastos onerosos por conta da deficiência, que não são levados em consideração para a concessão do beneficio. Ou ainda nos casos, em que a incapacidade para o trabalho não é comprovada, e ainda não possuem 65 anos, mas são pessoas que dificilmente conseguirão uma colocação no atual mercado de trabalho. Sendo assim, na medida em que o cidadão não encontra mecanismos de efetivação deste direito no campo sócioassistencial, tendo o pedido do beneficio indeferido (via INSS), devido aos rigorosos critérios estabelecidos, o direito a requisição judicial do BPC é amparado pela Constituição Federal de 1988 e pelo artigo 31º da LOAS que especifica: “Cabe ao Ministério público zelar pelo efetivo respeito aos direitos estabelecidos nesta Lei” Na ação judicial do BPC é possível levantar argumentos quanto à situação social do requerente, na tentativa de questionar estes rígidos critérios inconstitucionais de seletividade exigidos para a concessão do BPC. Segundo pesquisa realizada por MASSON; SILVA, financiada pela FAPESP em 2006, no Centro Jurídico Social – CJS, da 5 UNESP, Unidade Auxiliar que atende as requisições judiciais do BPC na região de Franca/SP, constatou-se que a demanda por estas requisições cresce cada vez mais. Em 1997 foram registradas três requisições judiciais e em 1998 oito casos. A situação permaneceu relativamente estável em 1999 (dois casos), iniciando um crescimento gradativo a partir dos anos 2000 (nove requisições) e 2001 (quinze requisições). O baixo número de requisições nos primeiros anos após a implantação do BPC e seu constate e acentuado crescimento a partir de 2000, se devem, certamente, ao maior nível de divulgação e de informação, sobretudo a partir de 2001. No levantamento dos arquivos do CJS, no ano de 2002 as requisições tiveram um salto para 20 requisições. Em 2003 o número de incidências de requisições dobrou, (39), pois com a promulgação do Estatuto do Idoso de 2003, a idade de 70 anos para a requisição do BPC por idosos, caiu para 65 anos. Sem contar na grande divulgação feita por profissionais, sociedade civil em relação ao benefício. Em 2004 verificou-se (42) requisições e em 2005 (39). Em relação à pesquisa de campo realizada com cinco usuários do CJS, por meio de entrevistas abertas, foi perguntado sobre o direcionamento do beneficio, caso ele fosse deferido. Todos os entrevistados responderam que usariam o beneficio para o pagamento de despesas domésticas como comprar alimentos e pagar contas de água e Luz. Mais uma vez o a renda auferida através deste beneficio assume caráter familiar, sendo que se constitui muitas vezes conforme já elencado anteriormente, um rendimento para a família, que muitas vezes se encontra vulnerabilizada pelo estreitamento acirrado ao qual é submetida sua sobrevivência. Viver do trabalho assalariado nesta sociedade – capitalista cada vez mais se torna um desafio, para muitas pessoas que apenas sobrevivem com o valor ínfimo que ele representa. Embora o BPC expresse uma importante conquista da sociedade civil na luta pela inclusão social, caracteriza-se como um direito restrito, de pouco alcance no combate a exclusão social no país. Seu valor muitas vezes, é incapaz de garantir um padrão de inclusão que se traduza em qualidade de vida, autonomia/emancipação, desenvolvimento das capacidades humanas, sociais, políticas, e produtivas dos cidadãos a que se destina. Conclusões Este benefício se constitui muitas vezes, única fonte de renda de famílias vulnerabilizadas, pela condição da deficiência, idade e outras situações provocadas por 6 diversas manifestações da questão social como exclusão, pobreza e desemprego que assolam o cenário brasileiro em tempos de capital e fetiche, conforme ficou comprovado nas pesquisas demonstradas neste artigo. Embora expresse uma importante conquista e se constitua em um dos benefícios cujo financiamento possua maior significância na área da Assistência Social, ele ainda caracteriza-se como um direito restrito, de pouco alcance no combate a exclusão social no país. Seu valor muitas vezes, é incapaz de garantir o atendimento às necessidades humanas básicas. Esperamos, na nossa pesquisa de mestrado, continuarmos analisando o impacto do BPC na vida de seus beneficiários a fim de ampliar conhecimentos acerca das estratégias de sobrevivência construídas pelas famílias atendidas pela política, bem como, uma aproximação das condições de vida destes sujeitos trazendo apontamentos significativos sobre os múltiplos olhares e alternativas construídas dentro de suas relações sociais. E ainda, discutir os limites e possibilidades da política do BPC na satisfação das necessidades humanas de seus beneficiários, no intuito de contribuir na reelaboração da proposta. Ressaltamos que os assistentes sociais, enquanto profissionais gestores das políticas sociais devem além de serem executores dos programas e serviços, também serem avaliadores dos mesmos, pois só assim, poderemos de fato entender e comprovar os reais alcances das políticas sociais. 7 Bibliografia BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 5 de outubro de 1988. Brasília: Senado Federal, 2004. _______. Ministério da Previdência Social e Assistência Social. Secretária de Assistência Social. Sistema Descentralizado e Participativo da Assistência Social. 2 ed. Brasília/DF, 2004. ______. Decreto 6..214 de 26 de Setembro de 2007. Regulamenta o benefício de prestação continuada da assistência social devido à pessoa com deficiência e ao idoso de que trata a Lei no 8.742, de 7 de dezembro de 1993. Brasília, 2007 BEHRING, Elaine Rossetti; BOSCHETTI, Ivanete. Política Social fundamentos e historia. In: Biblioteca Básica de Serviço Social. 4 ed. São Paulo: Cortez, 2008, v.2. CRESS (São Paulo). Legislação Brasileira para o Serviço Social: coletânea de leis, decretos e regulamentos para a instrumentalização da (o) assistente social. 3 ed. São Paulo: CRESS, 2008. MASSON, Gabriela Abrahão; SILVA, José Fernando Siqueira da. Desvendando significados da prática profissional do Assistente Social na requisição judicial do beneficio de prestação continuada para pessoas com deficiência: A experiência do Centro Jurídico Social da Unesp - Franca. 2006. 242f. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Serviço Social) - Faculdade de História, Direito e Serviço Social, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”. Franca, 2006. PEREIRA, A. P. Pereira. Necessidades humanas. Subsídios a critica dos mínimos sociais. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2006. SÃO PAULO. Secretaria da Assistência e do Desenvolvimento Social. 4º Revisão do Beneficio de Prestação Continuada. 4º Revisão do Beneficio de Prestação Continuada, São Paulo/SP, 2005. 8