MARKETING INSTITUCIONAL COMO FERRAMENTA - Uni

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MARKETING INSTITUCIONAL COMO FERRAMENTA PARA A
PROMOÇÃO DO TERRITÓRIO: A Criação do Pólo do Design e Moda
da Franca-SP
Paula D'Andrea Guaraldo (Unifran)
Este artigo materializa a intenção de desenvolver um trabalho que
vincule o Marketing Institucional aos estudos e estratégias de desenvolvimento
regional e local, por isso nossa proposta se resume ao título: Marketing Institucional
como Ferramenta para Promoção do Território: A Criação do Pólo do Design e da
Moda de Franca-SP.
Em um contexto peculiar, permeado por trajetórias sociais que levaram
sapateiros à presidência de grandes fábricas, devido a facilidade de acesso ao
mundo empresarial proporcionada pelas próprias características artesanais e
manufatureiras da indústria calçadista que, por sua vez, demanda um pequeno
capital inicial para sua abertura, que começou a se delinear em Franca os contornos
de um cluster calçadista. Antes mesmo da entrada no mercado internacional, o
sucesso alcançado por algumas das empresas pioneiras acabou estimulando não
apenas a emergência de um grande número de fábricas de calçados1, mas também
o incipiente surgimento de indústrias correlatas e de apoio, especializadas na
fabricação de componentes e insumos para a manufatura de sapatos2. Com o
advento das exportações, a necessidade de novas fontes de suprimento e o
aumento de escala e complexidade dos negócios, estimulou o estabelecimento de
inúmeras empresas vinculadas à cadeia produtiva do calçado (como fabricantes de
fôrmas, palmilhas, facas para corte, metais, borracha vulcanizada, entre outros) e
ainda outras encarregadas da concepção (escritórios de estilismo e design) e
comercialização do produto (trading companies, escritórios especializados em
comércio exterior), entre diversos exemplos.
Considerando o fato de que a dinâmica das aglomerações industriais
constitui o pano de fundo da pesquisa proposta, visto que esse é o cenário no qual
atua o nosso objeto de estudo, cabe aqui uma breve discussão sobre o assunto. A
primeira etapa da presente pesquisa consiste em discorrer sobre sua proposta,
apresentando juntamente com o citado referencial teórico o objeto de estudo que,
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por sua vez, é a própria cidade de Franca e as suas potencialidades vinculadas à
moda e ao design.
Primeiramente, é pertinente contextualizar este estudo, por isso, se faz
necessária à apresentação mais minuciosa da cidade em questão. Localizada na
região Nordeste do estado de São Paulo, cuja população total oficial é de 327 176
mil habitantes3, sua economia baseia-se no setor industrial voltado ao segmento
calçadista. Conforme considera Rotta (1999), “a indústria do calçado de Franca
representa inqüestionável pólo gerador do desenvolvimento regional” (p. 11).
Composta por 23 municípios, a região4 apresenta como sendo sua
principal vantagem o fato de possuir ampla rede de serviços voltados às
exportações. A economia da Região de Franca destaca-se por sua indústria de
calçados, a maior cidade produtora de calçados do país, possuindo mais de mil
indústrias de grande e médio porte, tais como Ferracini, Amazonas, Samello,
Sândalo, HB, Pé de Ferro, Mariner, Bull Terrier e Democrata.
A indústria calçadista emprega mais de 18 mil pessoas e responde por
27,2% do valor adicionado industrial da região. No entanto, a indústria de alimentos
e bebidas lidera em valor adicionado (39,1%), sendo vice-líder em pessoal ocupado,
com mais de 6 mil empregos. Também têm destaque a fabricação de artigos de
borracha e de fabricação de máquinas e equipamentos, cada qual com participação
de 7% do valor adicionado5.
Com produção em grande escala voltada para exportação, a cidade
leva seus produtos a várias partes do mundo como EUA, Europa, Ásia e América
Latina. Além do calçado, existem na cidade indústrias de confecções, de fundição,
de jóias e diamantes, metalúrgicas, de alimentação, de cosméticos e móveis entre
outras. Franca é também um dos maiores pólos de lapidação de diamantes, no
município encontra-se o único escritório do país especializado em diamantes.
Com o total de 4 172 mil estabelecimentos industriais6, as principais
atividades econômicas industriais da cidade são: Indústria de calçados, pesponto e
costura manual de calçados, serralheiras, fundições, facas para balancins, indústria
de cortes, saltos, viras e outros, indústria de confecções, lingerie, bolsas e
acessórios, gráficas e cartonagens, curtumes e acabamento em couros, indústrias
químicas, lapidações e ourivesarias, além de indústrias de artefatos de borracha.
A cidade destaca-se ainda como centro de uma das mais importantes
regiões produtoras de café do Mundo, a Alta Mogiana, representando 16,4% da
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produção total do Estado. O café produzido nessa região possui alta aceitação nos
mercados nacional e internacional, e é caracterizado pelo sabor de chocolate e pela
sua doçura natural. Grande parte da produção local de café é comercializada por
meio da Cocapec - Cooperativa de Cafeicultores e Agropecuaristas, que reúne
inúmeros agricultores da região e participa das diversas etapas produtivas e de
distribuição do café.
No que diz respeito à infra-estrutura, a cidade se destaca. A região é
conectada às regiões metropolitanas de São Paulo e de Campinas pela rodovia SP330. A SP-334, que liga o município de Franca a Ribeirão Preto é outra rodovia
importante da região. O Aeroporto Estadual Tn. Lund Presetto, em Franca, é o único
disponível na região.
Franca também é conhecida na região como centro de produção e de
difusão de conhecimento tecnológico7. Sua região tem atraído investimentos na
melhoria dos processos de desenvolvimento de softwares comerciais e com a
instalação de dezenas de pequenas empresas vindas de outras regiões e empresas
francanas formadas por ex-estudantes de cursos de tecnologias da cidade.
Grande produtora de capital cultural, a cidade possui quatro unidades
de ensino e pesquisa – Unesp, Uni-Facef, Unifran e a Faculdade de Direito de
Franca -, além do Centro Paula Souza – Etec/Fatec, da Universidade Aberta do
Brasil – UAB, das instituições de educação profissional – Senai e Senac – e da
Agência de Apoio ao Empreendedor e Pequeno Empresário, o Sebrae.
Por estar se tornando um grande centro de difusão de conhecimento
tecnológico, principalmente voltado para conhecimentos relacionados ao design de
roupas, calçados e acessórios, Franca tem se mostrado uma forte produtora de
mão-de-obra qualificada para indústrias voltadas a design e moda, situação que não
tem sido devidamente explorada, até então, pela cidade em questão.
O Senai, por exemplo, oferece cursos desde a idealização até a
concepção de calçados (Cursos de Modelista de Calçado, Modelagem de Calçado
Feminino, Estilismo em Calçados, Modelagem e Confecção de Bolsas, Modelagem
de Solados). Cursos vinculados ao vestuário também foram implantados na
instituição de educação profissional, tais como Modelagem e Confecção Industrial
Adulto e Infantil em Couro e Tecido, Modelagem e Confecção Industrial de Lingerie,
Desenho de Moda, entre outros.
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Com esta gama de opções voltadas ao mercado da moda e do design,
o Senai inaugurou no dia 8 de maio de 2009 o Núcleo de Design. O espaço foi
planejado para reunir todos esses cursos, suprindo todas as necessidades
estruturais de cada um8. Novos cursos vinculados à essas áreas também serão
implantados, mas ainda não foram divulgados.
Outro exemplo que pode ser citado é a Fatec que, por sua vez,
disponibiliza à população o curso de Gestão e Produção de Calçados, no qual os
alunos absorvem também conhecimentos de desenho e modelagem de calçados9. O
Senac, de tempos em tempos, abre matrículas para os cursos de Marketing de
Moda e Técnicas de Exposição de Produtos de Merchandising Visual10.
As Universidades também oferecem formações vinculadas a esta
questão. O Centro Universitário de Franca – Uni-Facef, abriu há algum tempo o
Mestrado de Desenvolvimento Regional, além de possuir o Instituto de Pesquisas
Econômicas e Sociais – Ipes que detém dados e informações, adquiridos por meio
de pesquisas científicas. A Universidade de Franca – Unifran, também dispõe de
cursos de nível superior e técnico associados ao tema discutido no projeto. Seu
curso de Design e Moda coloca anualmente no mercado, dezenas de profissionais
vinculados ao design e estilismo.
Como se pode observar, Franca forma pessoas com know how em
design e moda, dentre outras áreas afins que poderiam ser perfeitamente articuladas
para o fortalecimento desta tradição na cidade. Porém, o que se vê em Franca é que
todo este conhecimento fica disseminado no território, por isso acaba não ganhando
força.
Por tudo o que foi apresentado até este ponto do projeto, é pertinente
discutirmos a questão do desenvolvimento local que tem assumido papel cada vez
mais relevante na pauta econômica dos governos de todo o mundo, por mais que
isso pareça paradoxal se pensarmos na globalização econômica e seus efeitos.
“Discutem-se modelos nacionais, porém a ênfase hoje é nos arranjos produtivos
locais” (SCHWARTZ, 2006, p. 22).
O processo de relocalização industrial que tomou impulso com a
reestruturação produtiva do capitalismo nos últimos 20 anos levou gestores públicos
de cidades e regiões de diversas partes do planeta a se comprometer com maior
determinação na promoção do desenvolvimento regional, conforme demonstra o
pesquisador Barbosa (2008, p.1):
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Deste modo, aqueles que assistiram a debandada de empresas de seu
território emprenharam-se em revigorara a economia local em face do
choque causado pela saída de capitais; de outra parte, tantos outros se
engajaram no esforço para tornar seu território atrativo aos investimentos
em constante migração em busca de menor custo de produção e mão-deobra qualificada – ou seja, maior competitividade.
O autor explica a transformação por meio das considerações da
diretora de governaça pública e desenvolvimento social da OCDE, Lamia KamalChaoui que, em entrevista a um respeitado veículo da área econômica, declarou:
“Há uma mudança importante na competição mundial por investimentos. São as
cidades, e não os países que vêm liderando esse processo”11.
Nesse contexto, questões que envolvem a temática da eficiência
econômica das aglomerações industriais, dos arranjos produtivos locais ganharam
notoriedade, tornando-se alvo de ações dos governos. No mesmo veículo de
comunicação citado acima, encontrou-se outra consideração acerca do assunto em
discussão, feita pelo analista do Instituto de Estratégia e Competitividade da
Universidade Harvard, Christian Ketels:
Os melhores exemplos de cidades que se destacaram na nova ordem
globalizada são daquelas que souberam aproveitar sua vocação econômica.
Sendo assim, a melhor estratégia para a governança do desenvolvimento
local é saber o que é que uma cidade ou região tem que nenhum outro lugar
12
poderia reproduzir, e reforçar isso .
Como demonstra o autor, por ser o fator primordial para o
desenvolvimento, a vocação das cidades devem ser identificadas e fortalecidas para
que estas cidades tenham competitividade em sua estrutura produtiva. De acordo
com Barbosa (2008), a recente projeção econômica de inúmeras cidades, em âmbito
internacional, tais como Ulsan (Coréia do Sul), Austin (EUA), Bangalore (Índia) e
São José dos Campos (Brasil), dentre muitas outras, reflete claramente a questão
discutida.
Mas não precisamos ir tão longe para observarmos a eficácia da
promoção de cidades a partir de suas potencialidades e vocação. O que foi exposto
pode ser identificado na cidade de Barretos (SP), há tempos considerada “o Texas
brasileiro”. Conhecida nacionalmente por sua tradicional festa do peão, a cidade
conquistou o imaginário do povo, que “compra” o símbolo Barretos, a imagem, o
conceito que foi estabelecido por meio de sólido planejamento estratégico que
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abrange até mesmo os seus projetos de urbanismo, movimentando o turismo e o
comércio da cidade, fazendo dela uma cidade de forte tradição.
Por isso lança-se a hipótese de que a articulação da governança dos
poderes públicos e privados com a sociedade civil pode criar uma forte identidade
para a cidade de Franca, atraindo os olhares tanto dos investidores quanto da
população em geral, podendo atingir resultados que abrangem o território nacional,
ou até mesmo o internacional. Mas, para que se atinja tal sinergia, é necessário que
se utilize uma ferramenta que tem tido expressão nas estratégias governamentais e
empresariais: O Marketing Institucional.
Aliado ao Marketing Governamental e aos estudos de desenvolvimento
local e regional, o Marketing Institucional tem sido aplicado em cidades que são
pólos produtivos de variados ramos de atividade e tem surtido efeitos satisfatórios,
visto que ele auxilia na promoção da sinergia entre a esfera pública, privada e a
população, resultando no desenvolvimento local.
Aprofundando o conceito aqui proposto, citamos Vaz (1995):
Marketing não se restringe apenas a questões de imagens de empresas.
Envolve o desenvolvimento de um produto especial, a “idéia”, da qual
a imagem é resultado. Ele abrange não apenas as empresas mas um
universo bastante variado de organizações [...]. A palavra “Institucional” é
usada ainda para indicar as iniciativas através das quais uma empresa
procura fixar junto ao público uma imagem positiva da organização.
Para tanto, busca associar seu nome a determinados valores e
conceitos consagrados pela Opinião Pública. (VAZ, 1995, p. 7 – grifo
nosso)
Alguns exemplos bem sucedidos dessa articulação comprovam a
eficiência da associação de poderes e idéias em prol de uma cidade, de um pólo
produtor. Birigui (SP), Nova Serrana (MG), Três Coroas (RS) e Santa Rita do
Sapucaí (MG), são alguns exemplos de cidades que fortaleceram sua economia por
meio do fortalecimento de sua imagem, por meio da fixação de sua “marca”, de seu
perfil perante toda uma nação.
O Pólo Calçadista de Birigüi13 é conhecido nacionalmente como o
maior produtor de calçado infantil do país, cerca de 85% de sua produção é
direcionado ao público infantil. Seu slogan é: Birigüi, Capital Brasileira do Calçado
Infantil.
Composto por 159 empresas, sua produção em 2005 foi de 235 mil
pares de calçado por dia, o equivalente a 55 milhões de pares no ano. Do total
480
produzido no Pólo, 14,1% foi exportado em 2005; uma das empresas líderes de
Birigüi chega a atingir mais de 50 países. As indústrias de Birigüi empregam em
torno de 17,5 mil trabalhadores, mais de 60% dos empregos oferecidos na cidade.
Com o intuito de compartilhar informações comuns entre empresas,
universidades e instituições, promovendo a inclusão digital do empresariado e o
aumento da competitividade, o Pólo Calçadista de Birigüi criou a primeira rede digital
do setor calçadista no Brasil, seu portal da Internet. Com soluções simples e baratas
como esta, a cidade tem fixado sua marca nacional e internacionalmente.
Nova Serrana14, com 854 fábricas de calçados em atividade, está
localizada na região Centro-Oeste de Minas Gerais, às margens da BR-262, a 112
km de Belo Horizonte. Com sua emancipação política datada de 1º de janeiro de
1954, a cidade viu-se envolvida rapidamente com a manufatura de calçados,
peculiaridade que hoje lhe permite ostentar o título de Capital Nacional do Calçado
Esportivo. Esse é o primeiro pólo de calçados esportivos do País, empregando nada
menos que 18 mil trabalhadores diretos.
Além disso, empresta sua participação a Febrac (relevante feira de
máquinas e componentes para calçados onde se comercializa tecnologia de ponta)
e a Nova Serrana Feira e Moda (maior feira de calçados de Minas Gerais), ações
capazes de permitir o crescimento contínuo das empresas. “Essa é razão
suficientemente boa para o grande capital aportar em suas terras, participando do
esforço de construção de uma sociedade sólida e próspera”15.
Três Coroas16, ao pé da Serra Gaúcha, localizada a 92 km de Porto
Alegre e a 20 km de Gramado escolheu o título de Cidade Verde para identificar os
esforços ambientais da comunidade, a beleza natural do município e seu forte
potencial turístico.
O calçado é a base da economia da cidade. As indústrias do setor
respondem por 90 % de sua produção e geram postos de trabalho para 4.2 mil
pessoas. Outra significativa característica de Três Coroas é a predominância de
empresas de pequeno e médio porte. Tal fator multiplica os empregos de melhor
qualificação, elevando o nível médio econômico, social e cultural do município.
O Pólo Tecnológico de Santa Rita do Sapucaí17, com uma localização
geográfica privilegiada - em uma das regiões que mais se desenvolve no país,
localizada entre os três maiores centros econômicos e comerciais do Brasil (São
481
Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte), hoje é a cidade sede do Projeto de
Consolidação do Pólo Tecnológico de Santa Rita do Sapucaí, que consiste na
cooperação técnica internacional realizado em parceria com as Agências de
Cooperação Técnica dos Governos da Alemanha e do Brasil, respectivamente a
GTZ e a ABC, esta vinculada ao Ministério das Relações Exteriores. Além do Inatel,
o projeto beneficia outras escolas da cidade como a Faculdade de Administração e
Informática - FAI, a Escola Técnica de Eletrônica - ETE, o Colégio Tecnológico Dr.
Delfim Moreira, as indústrias locais e a Prefeitura Municipal de Santa Rita do
Sapucaí.
Como se pode observar, os pólos produtores citados trabalham sua
imagem buscando investimentos nacionais e internacionais, sempre valorizando sua
tradição e know how, aspectos que vigoram no momento da implantação de um
conceito no mercado. Quando bem explorados, esss elementos são chaves para o
desenvolvimento local, visto que eles atraem investimentos para a cidade e/ou
região.
Imagem é a percepção de uma marca refletida pelas associações que o
consumidor mantém na memória. A imagem corporativa seria, então, a
percepção do consumidor sobre a corporação por trás de uma marca
(TOFFLER, 1994, p. 2)
Sendo assim, torna-se claro o fato de que a própria cidade é a principal
responsável pelo seu desenvolvimento, visto que ela é o território da produção, onde
empregam-se as pessoas e captam-se os investimentos. A captação de recursos é
vital para um pólo produtor que carece de intermitentes investimentos, sejam
materiais (estrutura física, matéria-prima) ou imateriais (know how, informação,
tecnologia), dentre outros.
Na
cidade
de
Franca
se
observa
um
grande
conhecimento
disseminado em seu território, um crescimento desordenado, sem planejamento,
sem a intenção de se tornar, verdadeiramente, um pólo de referência. O que falta na
cidade é a passagem da “pura produção” para a implantação de uma concepção.
É necessário que haja a luta pela causa, o “vestir a camisa” e a “venda
de seu território” por meio de uma marca institucional forte, pois a cidade possui as
instituições necessárias para a formação de um pólo fortalecido que não se
482
desenvolveu até agora por falta de sinergia, interação e canalização da força de
trabalho, da tecnologia e do conhecimento que dispõe.
A estrutura, a instrução e a parte técnica, das quais a cidade dispõe
estão muito a frente de sua filosofia e cultura, pois ela gera recursos humanos de
qualidade sem massificar esta informação, ou seja, Franca possui o principal
elemento – a informação, o que falta é a comunicação.
Por isso, nossa proposta se firma na aplicação dos preceitos do
Marketing Institucional para a promoção da cidade de Franca, que é um pólo
calçadista e tecnológico, que tem crescido diariamente, mas que não tem o seu
potencial devidamente explorado. Por meio dos preceitos do Marketing Institucional,
integrado às ações políticas de Franca, conquistar o imaginário das pessoas se
tornará possível, resultando na conquista de um território que muito tem a oferecer.
O mercado material, ou seja, o mercado de bens que Franca possui
esconde em seus bastidores um mercado simbólico, pautado em idéias,
conhecimento e tecnologias. Para uma melhor exploração do referido mercado,
optamos por lançar mão dos instrumentos oferecidos pelo Marketing Institucional
que “incorpora sempre, em nível subjacente, um Marketing Ideológico” (VAZ, 1995,
p. 8).
O Marketing Institucional aplica-se ao conjunto de trocas características
do mercado simbólico, sendo sua essência a manutenção, sobrevivência e
crescimento das instituições que o praticam.
Para entender e suprir às necessidades das pessoas e instituições
ligadas à moda e design, a cidade de Franca bem como as suas empresas devem
expandir sua ação mercadológica para o mercado simbólico, passando a
desenvolver ações institucionais voltadas para a fixação de uma boa imagem da
cidade e de suas organizações junto aos diversos públicos do mercado consumidor,
criando por conseguinte um Marketing de imagem fortalecido.
Assim como o mercado de bens, o mercado de idéias é o ponto de encontro
entre as necessidades e desejos das pessoas (consumidores), quanto as
suas expectativas e anseios psíquicos e intelectuais, e os benefícios
implícitos nas idéias propostas pelos pensadores (produtores de idéias),
que procuram satisfazer os sentimentos da coletividade. (VAZ, 1995, p. 35)
483
O citado mercado de idéias funciona de modo semelhante ao mercado
de bens, com a diferença fundamental de que o ciclo de trocas não transaciona bens
por moeda, mas sim idéias por interesses. Por isso, a principal diferença entre o
produto Institucional e o produto econômico pode ser encontrada ao longo desse
referencial de domínio, que vai do domínio material pleno (apropriação) à simples
sensação de usufruir de alguma coisa (apreciação). Isso justifica nossa proposta de
fixação de uma imagem forte de Franca, vinculada ao seu maior potencial – a moda
-, que além da indústria calçadista, abrange também os setores de vestuário e
acessórios que tem demonstrado grande desenvolvimento nos últimos tempos.
Neste sentido, não há, portanto, um valor econômico que se possa
estipular para o comportamento do consumidor que responde ao apelo, à idéia
proposta. “O Marketing de idéias é o Marketing Institucional puro, também chamado
Marketing de Causas, Marketing Ideológico, concentra esforços na pregação
propriamente dita”. (CROCCO, 2006, p. 101)
O Marketing Institucional presta-se as atividades de “polimento de
imagem das organizações”, na busca de sólida reputação e reconhecimento público
para a empresa. Utilizado para formar, manter, consolidar ou mudar o conceito
público de uma organização - no caso desta pesquisa, a cidade de Franca -, esse é
o sentido mais usual em que se emprega a expressão Marketing Institucional voltado
para a obtenção, preservação, e melhoria da imagem da referida aglomeração
industrial no mercado e principalmente no imaginário das pessoas.
Sendo assim, o ideal seria a criação de uma identidade para a cidade
de Franca, evidenciando sua força enquanto pólo do design e da moda. Segundo o
Crocco, “a identidade é o conceito de como a marca deveria ser vista pelo
consumidor” (CROCCO, 2006, p. 104).
Além disso, a maior articulação entre agentes públicos e privados, a
produção de conhecimento intelectual em dimensões econômicas, históricas,
antropológicas e da psicologia social são importantes para a apreensão de
elementos culturais locais imprescindíveis à promoção do desenvolvimento local sob
bases sustentáveis e a ordenação dos elementos que Franca pode fornecer para a
concretização de um pólo produtor de conceitos e produtos, devido a considerável
concentração de conhecimento tecnológico em seu território, dando um novo
impulso ao potencial competitivo deste conjunto de empresas que compõem este
arranjo produtivos localmente estruturado.
484
Barbosa (2008), ao citar Principles of Economics de Alfred Marshal,
escrito em fins do século XX (1982; primeira edição: 1890), demonstra a constatação
dos efeitos positivos resultantes da aglomeração territorial de empresas do mesmo
ramo, representando ramos de escala que são externos às firmas em analises de
distritos industriais ingleses. Para o economista, as vantagens de se ter um espaço
comum empresas do mesmo ramo ou similares se materializariam, entre os fatores
mais importantes, na presença próxima de mão-de-obra especializada, de
fornecedores de bens, serviços e insumos característicos da cadeia produtiva em
foco, além do transbordamento de conhecimento e tecnologia.
A emergência de análises que enfatizam o papel fundamental do
associativismo, da constituição de redes sociais, da formação de capital social em
âmbito local, para o sucesso econômico das empresas em aglomerações industriais.
Por isso, a gestão pública como forma de otimizar a eficiência das aglomerações
seria um dos elementos decisivos para reforçar a capacidade de competição em
determinado território com a provisão de recursos educacionais e de infra-estrutura
física, além da atuação legisladora.
De acordo com Porter (1990), a capacidade do arranjo produtivo é
atrair industrias correlatas e de apoio ao seu território, fomentando as relações de
aprendizagem
e
de
aperfeiçoamento
interativo,
elemento
chave
para
o
fortalecimento mútuo dos agentes econômicos e a conformação de vantagens
competitivas duradouras. O autor destaca o importante papel cumprido pela
interação dos agentes privados (empresariado, sindicatos, associações, instituições
de ensino e pesquisa, e outros).
Barbosa (2008) ressalta que a formulação e aplicação de políticas
públicas voltadas para a eficiência econômica do território, promovendo sobretudo
estratégias que estimulem a cooperação mútua, pode ser observada ao redor do
mundo. A “eficiência coletiva” do arranjo produtivo traduz a conjunção de forças
vinda da cooperação consciente e planejada entre os agentes privados e os agentes
do setor público.
De acordo com esse enfoque,
[...] a competitividade das empresas de uma aglomeração está associada à
ampliação do fluxo de informações e ações integradas inter-empresas
(indústria central e seus fornecedores, por exemplo), que pode resultar tanto
na possibilidade de aprimoramento e diferenciação do produto, quanto na
redução dos custos de transação. Tal dinâmica não raro é secundada por
485
políticas de apoio por parte de esfera governamental (BARBOSA, 2008, p.
4).
Não se pode ignorar a sinergia produzida pelas variáveis locais ao
pensarmos a questão do desenvolvimento; fatores gerados localmente por vezes
superam medidas macroeconômicas e até mesmo as denominadas forças do
mercado globalizado. A interlocução permanente entre atores públicos e privados é
imprescindível à governança do desenvolvimento local, por exigir a observação de
critérios técnicos e econômicos, ambientais, sociais e culturais, que necessitam ser
equilibrados.
BIBLIOGRAFIA BÁSICA
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(coord).
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TOFFLER, B.; IMBER, J. Dictionary of Marketing terms. New York: Barron’s, 1994,
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Sites consultados:
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http://pt.wikipedia.org/wiki/Franca#Economia
http://www.ibmep.org.br/
http://www.sindicato.org.br
http://www.sindinova.com.br
http://www.sindicatotrescoroas.com.br
http://www.inatel.br/santarita/index.asp
http://www.sp.senai.br
http://www.fatecfranca.edu.br
http://www.sp.senac.br/franca
1
“Em Franca, o número de empreendedores a se aventurar na indústria do calçado cresceu
surpreendentemente a partir da consolidação de empresas como a Samello, Mello, Palermo, Peixe e
Spessoto no mercado nacional. Se nos anos 30 foram dez as fábricas abertas, na década de 1940 o
otimismo gerado pelo sucesso industrial dos Palermo, Spessoto ou dos irmãos Mello pode ser
percebido pelo número de empresas abertas: 71 – sete vezes mais que na década anterior; nos anos
50, o número de 59 empresas iniciadas expressa o arrefecimento natural do entusiasmo vivenciado
na década anterior, entretanto, seguido por um novo boom nos anos 60, quando o governo militar
passou a acenar com incentivos ao setor e as possibilidades do mercado internacional começaram a
aparecer no horizonte, sendo criadas 399 empresas” (BARBOSA, 2004, p. 65-66).
2
“Alguns exemplos de empresas correlatas e de apoio surgidas nesse período são mais
significativos, como os casos da Amazonas, Poppi e Ivomaq. A Amazonas Produtos para Calçados,
atualmente a maior empresa fabricante de componentes de borracha da América Latina e com
atuação em todo o mundo, foi fundada em Franca pela família Pucci em 1947. As empresas Poppi e
Ivomaq, fabricantes de máquinas e igualmente presentes no mercado mundial, foram criadas
respectivamente em 1960 e 1962, inicialmente produzindo apenas máquinas bastante rudimentares.
Entretanto, outros muitos casos de menor expressão poderiam ser mencionados, como os dos
fabricantes de borracha Manaus (1947) e Égide (1953), as indústrias de cordões Santa Cecília (1955)
e a fábrica de fôrmas I.F. S/A (1954). Obviamente, deixamos de mencionar os inúmeros curtumes,
cuja tradição em Franca remonta a fins do século XIX e já contava cerca de duas dezenas de
estabelecimentos até a metade do século” (BARBOSA, 2004, p. 70).
3
População estimada no ano de 2008. Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IBGE, Diretoria de Pesquisas, Coordenação de Contas Nacionais. Estimativas da população para 1º
de julho de 2008.
4
Fonte: http://www.francasite.com/cidade_economia.asp
5
6
7
8
Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Franca#Economia
Fonte: http://www.francasite.com/cidade_economia.asp
Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Franca#Economia
Fonte: www.sp.senai.br
487
9
Fonte: www.fatecfranca.edu.br
Fonte: www.sp.senac.br/franca
11
“As capitais da excelência”. In: Portal EXAME. Disponível em:
http://portalexame.com.br/revista/exame/edicoes/0893/negocios/m0129084.html (acesso em
15.10.2007)
12
“As capitais da excelência”. In: Portal EXAME. Disponível em:
http://portalexame.com.br/revista/exame/edicoes/0893/negocios/m0129084.html (acesso em
15.10.2007)
13
Fonte: http://www.sindicato.org.br/cpub/pt/site/index.php
14
Fonte: http://www.sindinova.com.br/
15
Idem.
16
Fonte: http://www.sindicatotrescoroas.com.br/
10
17
Fonte: http://www.inatel.br/santarita/index.asp
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