filosofia da linguagem

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AUROUX, Sylvain. Filosofia da linguagem. Trad.
Marcos Marcionilo. São Paulo: Parábola
Editorial, 2009. (120 p.)
FILOSOFIA DA LINGUAGEM
JOÃO BAPTISTA DE ALMEIDA JUNIOR
Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras Eugênio Pacelli
Universidade do Vale do Sapucaí
Av. Pref. Tuany Toledo, 470- 37550-000-Pouso Alegre – MG - Brasil
Filosofia e lingüística historicamente alternam-se enquanto campos de estudo
sobre a linguagem; algumas vezes tangenciando-se com temas comuns, outras
superpondo questões teóricas; é difícil precisar um ponto de partida em que a primeira
assumiu a linguagem como objeto particular de estudo.
Isto porque a linguagem, tomada na perspectiva da História da Filosofia, tem
recebido uma atenção constantemente inclinada, desenvolvendo-se lateralmente em
função de questões de natureza: lógica, estética, epistemológica, sociológica, mas não
discursiva.
Talvez inexistam sistemas filosóficos que tenham prescindido de abordar
questões de linguagem em suas reflexões e debates. Poucos, entretanto, ocuparam-se de
forma exclusiva da linguagem, privilegiando-a como o fator discursivo, determinante do
conhecimento e de suas disciplinas.
É isto que se depreende da leitura da obra de Sylvain Auroux que trata
especificamente da questão homônima do título. Numa perspectiva de visada
abrangente, o A. inicia reivindicando à Filosofia da Linguagem um conjunto de
reflexões distintas sobre a linguagem como sendo o mais importante e mais complexo
campo da filosofia. A importância, não há como declinar, deriva do tratamento de temas
que afetam a especificidade humana e a natureza da racionalidade, afinal, a linguagem
presentifica-se nos processos identitários do humano e nos formalismos lógicos com os
quais a razão opera o mundo. A complexidade, também não se pode desconsiderar, é
uma dimensão usual dos estudos lingüísticos; a linguagem - objeto de investigação –
habita um terreno movediço, incompleto e multidimensional; há uma dificuldade
particular de se tomar a linguagem sob diferentes aspectos sem unidade metodológica,
sem consistência teórica.
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No intuito de superar essas limitações e de realizar a função introdutória da obra,
o A. define duas questões como leit motiv para o desenvolvimento dos capítulos: a
relação linguagem e racionalidade e a possibilidade de uma língua universal.
O capítulo I, Linguagem e Humanidade, o A. retorna às origens da filosofia
grega para mostrar a necessidade do logos na constituição da linguagem. Platão fala do
caráter proposicional da linguagem humana que se compõe de sujeito (onoma)
articulado a um predicado (rhema) para ter significado social. Por sua vez, Aristóteles,
na obra Da interpretação, mostra que nem todo discurso, entendido preliminarmente
como combinação de sujeito e predicado, equivale a uma proposição, apenas os que
comportam valor de verdade ou falsidade e, para orientar o ajuizamento, no Primeiros
Analíticos, apresenta as regras lógicas a partir do quadro de oposição entre as
proposições: universal, afirmativa e negativa, e particular, afirmativa e negativa.
Ainda no contexto grego, revê a tese conhecida como Cratilismo, sobre a relação
mimética entre a representação e o representado, que tanto vai interessar na seqüência às
teorias do conhecimento. Trata-se da questão etimológica de saber se o nome, que se
atribui originalmente a um objeto (coisa), tem o poder de significar: por convenção (por
uso ou costume entre aqueles que desenvolveram o hábito de dar nomes); ou por
natureza (por conter alguma propriedade inerente à coisa ou ser capaz de imitá-la). Essa
oposição entre “convencionalistas” e “naturalistas” vai se repetir na idade moderna com
os “descritivistas” - que supõem, como os platônicos, uma fixidez das essências aos
nomes - e os “causalistas” - que reafirmam a força do contingente na elaboração dos
nomes. De qualquer modo, essa discussão ressurge ainda hoje na forma de saber se as
representações lingüísticas apresentam-se adequadas à leitura do real.
A exclusividade da linguagem no homem é outro tema revisto. O A. cita
Descartes (século XVII) - que privilegia o animal humano, entre todos os animais, como
portador de cogito e linguagem - e assinala, a partir da teoria de Darwin (1859), a
questão de um provável salto biológico entre a esfera animal e a humana, que explicaria
o aparecimento da faculdade de linguagem no homem; salto que também justificaria
outras propriedades suas: a sociabilidade solidária e não o simples gregarismo, a
comunicação planejada e inteligente, a invenção e desenvolvimento de tecnologias e,
principalmente, a capacidade de transmitir, via educação, os traços culturais de geração
em geração, ampliando a escala da evolução. Conclui a apresentação deste tema com
um alerta: “quando se faz etologia comparada, é sempre preciso desconfiar da projeção
antropomórfica”.
A dimensão biológica da linguagem também é comentada a partir dos
experimentos de mapeamento do cérebro, de Broca e Wernicke, na segunda metade do
século XIX, e da tentativa do lingüista americano Pinker, no século XX, de tentar
vincular determinada propriedade sintática, manifestada pela disfasia, a um gene
humano específico. Infere-se que a descrição dos fundamentos genéticos da linguagem
humana são necessários mas insuficientes para compreendê-la, visto suas características
históricas e contingentes serem irredutíveis.
Outro item de interesse aborda a origem e a evolução da noção de arbitrário
lingüístico. O A. novamente reporta-se a Aristóteles para extrair da obra Da
interpretação uma primeira classificação dos dois elementos essenciais do “símbolo”: o
primeiro refere-se à significação do signo, que na tradição aristotélica era denominado
“forma” das coisas, o “estado da alma” percebido por todos, portanto, universal; o
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segundo corresponde ao arbitrário do signo, à idéia de que um mesmo conceito pode
ser representado por sons diferentes entre povos (culturas) diferentes, versão que
contraria a tese cratiliana de Platão. Uma breve retrospectiva histórica destaca as
interpretações filosóficas mais marcantes sobre o sentido de arbitrário: Locke, no
Ensaio sobre o entendimento humano (1690), recorre a uma liberdade adâmica para
nomear as coisas do mundo; Hume, também em seus Ensaios sobre o entendimento
humano (1748), para evitar a circularidade do convencionalismo, propõe uma
“convenção tácita” no uso dos arbitrários, a exemplo de remadores que avançam em
cadência sem ter nada combinado antes; o iluminista Condillac, no Ensaio sobre a
origem do conhecimento humano (1746), opondo natureza e cultura, defende que o
arbitrário do signo não é um fenômeno natural, mas insere-se na origem da história e da
cultura, permitindo ao sujeito manipular livremente os signos e entrar, assim, no
universo discursivo. Coroando essas interpretações cumulativas, aparece Saussure com
seu Curso de Lingüística Geral (1916) e a proposição de que a língua é “um sistema no
qual tudo se mantém”; proposição da qual se deduz que um signo lingüístico não pode
ser definido independente de outros signos, ou seja, uma “palavra” só é uma palavra em
uma língua; e são as outras palavras que delimitam sua significação.
A questão da origem da linguagem humana é tratada na obra com parcimônia.
Depois de situar a versão bíblica do Gênesis ao nível do mítico, pula para o século
XVIII, demonstrando a laicização da questão; retoma uma polêmica entre Condillac e
Rousseau: o primeiro, com sua Gramática (1758), fixa o princípio utilitarista da
linguagem fundada na necessidade dos indivíduos, o segundo, no Discurso sobre a
origem da desigualdade (1755), afirma o princípio altruísta da linguagem. Conclui
acertadamente com Diderot em sua Carta sobre os surdos e mudos (1751) que, para
tirar a questão da origem do campo da ficção, é preciso compreender não a história
lingüística da humanidade, mas as condições de produção da linguagem ou ainda sua
própria natureza.
No século XVIII, com a descoberta de novas línguas a partir da colonização
ocidental do planeta, o problema da origem desloca-se para a classificação das línguas
em famílias e parentescos, na hipótese de reconstruir retroativamente a linguagem
primitiva da humanidade. O A. diz que não há consenso entre os lingüistas do
comparativismo ou do estruturalismo quanto aos métodos de análise das línguas na
direção da “língua mãe”; os dissensos levam-no a concluir que este não é o melhor
caminho para abordar a questão da origem e que, muito provavelmente, ela nem deve
ter sido real.
No capítulo II, Linguagem e Universalidade, o A. inicia uma incursão pela
ontologia revelando as dificuldades que os lógicos encontram em adaptar a estrutura
proposicional sujeito-predicado de Aristóteles como nomenclatura de representação da
estrutura do mundo na busca da língua universal. Essa busca, em 1903, com Couturat e
Léau em seu Histoire de la langue universelle, é subdividida em dois projetos: construir
uma língua auxiliar internacional, a exemplo do esperanto; e elaborar uma língua
filosófica, ou seja, constituir um sistema lógico-sintático, com base em algoritmos
matemáticos, que possa exprimir o correto conhecimento do real. O A. analisa as
propostas de Frege, Russell, Quine, Lesniewski, Carnap, para concluir pelo caráter
utópico e cientificamente improvável da universalidade da língua. Não obstante, registra
que tais pesquisas têm utilidade aos cientistas que hoje trabalham com processamento
de informação.
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Ainda no eixo da universalidade, transfere-se a questão para a possibilidade de
uma gramática universal, constituída pelo conjunto de regras lingüísticas verificadas nas
línguas do mundo, projeto que remonta aos cartesianos. São citados os gramáticos:
Ratke e Hellwig (1619), o português Roboredo (1619), Comênio (1631), Ravius (1648),
Macé (1651), Lancelot e Arnauld (1660). Destaca-se a contribuição dos representantes
de Port-Royal que propõem uma “gramática geral”, baseada no essencial do
funcionamento da linguagem e que reflita as categorias cognitivas subjacentes. Essa
corrente vai se extinguir no início do século XIX para ser retomada sob duas inflexões:
uma virada idealista, com Bernhardi (1801) e Husserl (1896), de filiações kantianas, e
uma virada nativista, com Noam Chomsky, na segunda metade do século XX. Enfim,
se uma gramática pode ser concebida como a descrição organizativa e completa da
linguagem, a existência de uma gramática universal pressupõe a existência de uma
língua universal, ao que, segundo o A., os estudos anteriores tinham demonstrado tratarse de uma grande utopia.
O capítulo III, o mais longo e labiríntico no trato do conteúdo do título
Significação, inicia-se com a questão: o que é significar para um elemento lingüístico
que parece, justamente, só existir porque significa? Desde a antiguidade, as ciências da
linguagem vêm construindo lógicas e tecnicalidades lingüísticas na tentativa de
responder de modo consistente a essa questão; chegaram mesmo a criar uma disciplina:
a Semântica, que só foi batizada no final do século XIX. A dificuldade de relacionar
palavras com objetos reais parece ter sido parcialmente superada com a definição de
coisa; o problema semântico permanece quando implica na definição de nome, ou seja,
ao relacionar palavras entre si, ao operar significações de palavras que são idéias
próprias do entendimento humano. Às palavras, os gramáticos atribuíram propriedades
de compreensão e extensão (alcance) e firmaram a lei de Port-Royal: “quanto mais uma
palavra (idéia) possui extensão, menos ela tem de compreensão e vice-versa”. Da
percepção desses embaraços lógicos para explicar a significação, e da constatação de
que essa lei pode ser uma ilusão metafisica, o A. conclui que: não basta a um sujeito ter
acesso às relações intralingüísticas para entender os significados de uma língua, ele
deve ser capaz de relacionar esses signos lingüísticos a uma experiência compartilhada
de mundo, pois, “o mundo participa da significação da linguagem, que muda se a
significação for transplantada de ambiente”.
No último capítulo, Razão e Linguagem, o A. abarca as relações estreitas entre
essas duas propriedades exclusivas da esfera humana. Parte da tradição racionalista, que
domina a história da filosofia, para apontar, em alguns autores, os diversos modos como
essas duas dimensões estão imbricadas: Kant, que não admite exterioridade da razão a
priori e transparente, supõe uma linguagem universal que equivalha ao “pensamento”; e
Humboldt, que inicialmente tentou conciliar a imaginação do indivíduo à diversidade
das línguas, reconhece essa diversidade e propõe a construção de uma enciclopédia de
todas as línguas do mundo na direção, novamente, do projeto iluminista de uma
gramática geral.
A título de conclusão, o A. assinala três problemáticas atuais que interessam à
Filosofia da Linguagem. A primeira refere-se à abordagem formal das línguas naturais
por meio da matematização da gramática e do uso de quantificadores generalizados, a
exemplo da classificação de Chomsky; estudo que tem gerado aplicações no campo das
tecnologias informáticas. A segunda reporta à discussão naturalista da linguagem,
certamente por influência dos avanços da engenharia genética e da neurociência; mesmo
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com argumentos gastos e altamente criticados, os lingüistas retomam as teses de uma
gramática universal, da origem genética das línguas e da não arbitrariedade dos signos
lingüísticos, assinalando um novo reducionismo, exatamente quando as teorias
emergentes, incluindo a AD, buscam abranger o acontecimento linguístico em sua
complexidade e dialeticidade. Por fim, uma terceira problemática diz respeito à
relatividade lingüística, “inovação radical na filosofia da linguagem”, que o A.
contrapõe ao relativismo, determinista e cada vez mais indefensável, dos problemas
anteriores.
Dentro dos limites de uma obra com endereçamento didático, o texto termina por
deixar em suspenso o tratamento e aprofundamento de várias propostas. A brevidade do
estudo não tira a validade da obra; ao contrário, aguça a curiosidade do pesquisador ao
situá-lo no quadro diagramático dos principais desafios da área. Partindo de questões
desencadeadoras de mais questões e de referências aos autores que as abordam, o A.
desenvolve um texto panorâmico mas não superficial, que convida o leitor a novas
reflexões sobre a linguagem.
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