INVESTIGAÇÃO DO PROCESSO COMUNICATIVO DOS

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ISSN 1984-2279
“JÚLIO DE MESQUITA FILHO”
Faculdade de Ciências- Campus Bauru
Pós- Graduação Educação para Ciências
INVESTIGAÇÃO DO PROCESSO COMUNICATIVO DOS CONCEITOS DE
CALOR E TEMPERATURA PARA ALUNOS SURDOS MEDIADO POR
INTERLOCUTOR DE LIBRAS
Thiago José Batista de Almeida1, Eder Pires de Camargo2, Denise
Fernandes de Mello3.
1
Programa de Pós-Graduação em Educação para a Ciência, Faculdade de Ciências,
UNESP (Bauru – SP)
2
Departamento de Física e Química, Faculdade de Engenharia, UNESP (Ilha Solteira
– SP)
3
Departamento de Física, Faculdade de Ciências, UNESP (Bauru – SP)
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Resumo
A presença de intérprete de libras educacional já é uma realidade na educação
de alunos surdos na sala comum. Atualmente no País existem poucas
instituições que oferecem esse curso, consequentemente existe a falta de
profissionais para atender toda a comunidade surda. Pensando numa forma de
solucionar essa questão, o Estado de São Paulo decidiu criar a função de
Interlocutor de Libras em 2009. Assim, surge o interesse em entender como
vêm ocorrendo essas relações comunicacionais mediadas pelo Interlocutor de
Libras, estabelecidas em sala de aula, na disciplina de Física, em que haja
aluno surdo matriculado. Para isso, partiu-se das concepções de pensamento e
linguagem de Vygotsky e Bakthin. O presente trabalho busca investigar quais
as influências da presença do interlocutor para a ocorrência de relações de
comunicação entre discente surdo/docente de Física, bem como as relações
entre discente surdo/ouvinte durante aulas envolvendo conteúdos conceituais
de termodinâmica, mais especificamente calor e temperatura. Esta é uma
pesquisa qualitativa e utilizamos como fonte de dados: 1. Filmagem das aulas
envolvendo os conceitos de calor e temperatura; 2. Transcrição para a Língua
Portuguesa, a qual foi realizada por dois intérpretes, sendo um Instrutor de
Libras, que é surdo e ministra aulas no Centrinho em Bauru-SP, que já
trabalhou na UNESP no curso de Pedagogia e o outro uma professora
intérprete com formação em Pedagogia e habilitação em áudio-comunicação e
Proficiente em Libras pelo Pró-Libras, que trabalha com alunos surdos numa
sala de reforço ao aprendizado, localizada na mesma escola onde está sendo
desenvolvida a pesquisa. 3. Transcrição realizada pelo pesquisador dos
conteúdos ensinados durante a aula de Física. Foram realizadas, ainda,
entrevistas com o Interlocutor, a Professora de Física, três alunos surdos e com
alunos ouvintes. Uma análise preliminar dos dados coletados indica: 1. Há
diferença entre o que a professora de Física ensina e o que é transmitido pelo
interlocutor; 2. Na visão do professor, a presença do interlocutor tem
contribuído para a comunicação com alunos surdos e a aprendizagem de
Física por estes; 3. Segundo o interlocutor há dificuldade de comunicação pois
falta aos alunos surdos conhecimento da Língua de Sinais.
Palavras-chave: Aluno Surdo. Intérprete de Libras. Comunicação.
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Introdução
É uma realidade a presença do intérprete de libras nas escolas,
auxiliando os alunos surdos em sua aprendizagem em salas de ensino regular.
Porém os alunos surdos enfrentam muitos obstáculos, como o preconceito e os
vários tipos de comunicação (GOLDFELD, 2002).
Segundo a literatura, a visão predominante até o século XV, era a de
que pessoas surdas eram incapazes de aprender (SKLIAR, 1997). Observouse por meio de uma atividade desenvolvida por Girolamo Cardano (1501-1576),
que os mesmos eram capazes de aprender. (SILVA, 2006,p.17 ). Segundo
Silva (apud Soares,1999):
Cartano para avaliar o grau de aprendizagem dos surdos, fez sua
investigação a partir dos que haviam nascidos surdos, dos que
adquiriram a surdez antes de aprender a falar, dos que adquiriram
depois de aprender a falar e, finalmente, dos que a adquiriram depois
de aprender a falar e escrever. Sua conclusão, após esses estudos,
era de que a surdez não trazia prejuízos para o desenvolvimento da
inteligência e que a educação dessas pessoas poderia ser feita pelo
ensino da leitura, que era a forma dos surdos ouvirem, e da escrita,
que era a forma deles falarem. (SILVA, 2006,p.17).
Atualmente, a questão do ensino de alunos surdos já vem sendo
discutida, e pauta-se nas possíveis abordagens educacionais para o seu
aprendizado (GOLDFELD, 2002; SÁ, 1999).
De acordo com esses autores, são três as principais abordagens: a
oralização, a comunicação total e por fim o bilinguismo (GOLDFELD, 2002; SÁ,
1999).
Segundo Goldfeld e Sá (op.cit.) na abordagem educacional da
oralização, é exigido do aluno a aquisição da língua oral. A língua de sinal é
excluída desse processo, pois interfere no processo de ensino e aprendizagem
da língua oral.
De acordo com Goldfeld e Sá(op.cit.) na abordagem da comunicação
total acredita-se ser importante que o aluno consiga se comunicar com os
alunos surdos e ouvintes independentemente da forma que realize essa
comunicação. Utiliza-se a língua de sinais e outras formas gestuais que
possibilitem a comunicação dos mesmos (GOLDFELD, 2002).
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E no bilingüismo, há a aquisição da língua de sinais bem como da língua
oral (GOLDFELD, 2002).
Outra questão relevante está relacionada à integração desses alunos
nas salas regulares, legalizada pelo Decreto nº 5.626/2005, que valoriza a
cultura surda e dispõe como deve ser a educação desses alunos , prevendo a
inclusão destes em sala de aula comum, com a presença de um profissional
intérprete para auxiliar na aquisição dos conteúdos ensinados (BRASIL,2005).
Outra exigência do decreto é que o profissional seja graduado em
Letras/Libras ou Letras: Libras/Língua Portuguesa e seja proficiente em Libras
segundo as legislações brasileiras. Salienta-se aqui que, no entanto são
poucas as instituições brasileiras que oferecem este curso (BRASIL, 2005).
Como há falta de intérprete, o Estado de São Paulo criou a função de
Interlocutor de Libras por meio da resolução da Secretaria da Educação, nº38
de 2009, com a finalidade suprir essa ausência O interlocutor precisa ter um
curso de licenciatura e ter realizado um curso de 120 horas na área de Libras
(SÃO PAULO, 2009).
Na escola da cidade de Bauru, onde desenvolve-se este trabalho, há
um Interlocutor em toda sala com presença de aluno surdo matriculado. Essa é
uma realidade fruto da luta de famílias que exigiram a presença desse
profissional a fim de que seus filhos tivessem acesso a educação (SÃO
PAULO, 2009).
Percebe-se que esta é uma solução paliativa, e que discussões devem
ser realizadas se um profissional com apenas 120 horas de formação em um
curso de LIBRAS tem condições suficientes para atuar na educação de alunos
surdos.
Em linhas gerais, busca-se investigar o entendimento das relações
comunicacionais mediadas pelo interlocutor de Libras estabelecidas em sala de
aula de Física, em que haja aluno surdo matriculado. Mais especificamente,
busca-se investigar quais as influências da presença do interlocutor para a
ocorrência de relações de comunicação entre discente surdo/docente de
Física, discente surdo/ouvinte acerca dos conteúdos de calor e temperatura.
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Por meio das definições de linguagem e pensamento Vygotsky (1982b)
e Bakhtin (1990) apresentados por Goldfeld(2002), busca-se verificar como
vem ocorrendo tal processo de comunicação mediado pelo interlocutor. Tais
autores discutem as diferença entre as formas de comunicação e sua
importância para o processo de aprendizagem.
Referencial Teórico
Em relação à educação de alunos surdos, podem-se observar três
principais metodologias de ensino que são as seguintes: a oralização, a
comunicação total e o bilingüismo (GOLDFELD, 2002; SÁ,1999).
De acordo com Sá (1999):
A abordagem educacional oralista é aquela que visa capacitar a
pessoa surda a utilizar a língua da comunidade ouvinte na
modalidade oral como única possibilidade lingüística, de modo a que
seja possível o uso da voz e da leitura labial tanto nas relações
sociais como em todo o processo educacional. A língua na
modalidade oral é, portanto, meio e fim dos processos educativos e
de integração social.
Em relação à abordagem educacional da comunicação total qualquer
recurso lingüístico pode ser utilizado na comunicação. Por exemplo, a língua de
sinais, a linguagem oral ou códigos manuais (GOLDFELD, 2002).
Acredita-se que por meio, “da comunicação efetiva, possa garantir pleno
desenvolvimento à criança surda quanto aos aspectos cognitivos, emocionais e
sociais” (GOLDFELD, 2002, p.39).
Já na abordagem do bilingüismo, “o surdo deve ser bilíngüe, ou seja,
deve adquirir como língua materna a língua de sinais, que é considerada a
língua natural dos surdos e, como segunda língua, a língua oficial de seu país”
(GOLDFELD, 2002, p.42).
Conclui-se que o convívio do surdo na sociedade é importante para que
ocorra o seu desenvolvimento educacional e sua aprendizagem, assim
contribuindo para a aquisição dos novos conhecimentos e capacidade melhor
para realizar as atividades escolares (QUADROS, SCHIEDT, 2006).
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Percebe-se a importância de cada uma das metodologias apresentadas
acima, mas é necessário conhecer como ocorre a aquisição da linguagem
entres as pessoas, objetivando-se assim compreender as dificuldades dos
alunos surdos.
Sabe-se que o processo de comunicação e a interação entre pessoas
são essenciais para o aprendizado dos alunos (QUADROS, SCHIEDT, 2006).
No
trabalho
desenvolvido
por
Goldfeld(2002)
apresenta-se
as
características da linguagem e pensamento utilizadas pelo indivíduo seguindo
as definições de Vygotsky( 1989b ) e Baktin(1990 ) (GOLDFELD, 2002).
De acordo com Goldfeld (2002, p.17) o primeiro autor a sistematizar os
conceitos de linguagem, língua, fala e signo foi Saussure em 1916, sendo
considerado o pai da lingüística.
Assim segundo Saussure (1991), a linguagem é formada pela língua e a
fala. A primeira é tida como um sistema de regras abstratas composta por
elementos significativos inter-relacionados, sendo auto-suficiente, ou seja, é um
todo em si, e seus elementos devem ser estudados por suas oposições
(GOLDFELD, 2002, p.17).
Neste contexto a língua é o aspecto social da linguagem, pois é
compartilhada por todos os falantes de uma comunidade lingüística. Já a fala é
o aspecto individual da linguagem, envolvendo as características pessoais que
os falantes imprimem na sua linguagem (GOLDFELD, 2002, p.17).
Segundo Saussure (1991), a linguagem é formada pela língua e
elementos significativos inter-relacionados. Já para Bakhtin é um sistema
semiótico criado e produzido no contexto social e dialógico, servindo como elo
entre o psiquismo e a ideologia (GOLDFELD, 2002, p. 17).
Outro autor utilizado por Goldfeld (2002) é Vygotsky (1989b). De acordo
com Vygotsky(1982b),
a linguagem não é
comunicação, mas também
apenas uma forma de
uma função reguladora do pensamento.
(GOLDFELD, 2002, p.21). O conceito de fala se refere à linguagem em ação, à
produção lingüística do falante no discurso.
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Para o autor, existem três tipos de fala que são:
A social, a egocêntrica e a interior. É possível perceber que o autor
utiliza o termo fala e não linguagem, pois se refere à produção do
individuo. Em outras palavras, a fala tem uma conotação de ação e
envolve o contexto (GOLDFELD, 2002, p.18)
Segundo Goldfeld (2002):
O autor Vygotsky (1982a, 1982b) diz que o termo fala não se refere
ao ato motor de articulação dos fonemas e sim a produção do falante
que deve ser sempre analisada na relação de interação, no diálogo. E
o termo linguagem é tido com sentido mais amplo, relacionado com
tudo que envolve significação, que tem um valor semiótico e não se
restringe apenas a uma forma de comunicação. E mais é através da
linguagem que se constitui o pensamento do indivíduo. Dessa forma,
a linguagem sempre está presente no indivíduo e esta o constitui e a
forma como este recorta e percebe o mundo e a si próprio.
(GOLDFELD, 2002,p.18).
Além das características de Vygotsky(1982a,1982), a autora trabalha
com as definições de Bakhtin (1990) que considera:
A significação um aspecto bastante importante da língua,
ressaltando a enunciação só ganha sentido no contexto social no qual
está inserido. O autor percebe a língua numa situação de diálogo
constante. Ainda diz que a corrente comunicativa é ininterrupta, isto
é, toda enunciação está relacionada com as enunciações anteriores e
posteriores a ela(GOLDFELD,2002,p.19).
Bakhtin (1990) é ainda contrário à visão de Saussure que somente
preocupa-se com o aspecto lingüístico normativo, que é sempre igual e comum
a todos os falantes, mas não é suficiente para o diálogo.
Tal autor acrescenta outro aspecto:
O aspecto contextual e social para o estudo do enunciado. O
aspecto social se refere à realidade, político- econômica e cultural na
qual os membros da sociedade estão inseridos, ou seja, todas as
relações existentes entre os participantes da sociedade (GOLDFELD,
2002, p19).
Assim para a língua de sinais há os seguintes termos:
Oralização: utilização do sistema fonador para expressar
palavras e frases da língua.
Sinalização: Fala produzida pelo canal-viso-manual.
Sinal: elemento léxico da língua de sinais.
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Signo: elemento da língua, marcado pela história e cultura de
seus falantes, possui inúmeras possibilidades de sentido, sendo estes criados
no momento da interação, dependendo do contexto e dos falantes que o
utilizam (GOLDFELD, 2002,p.25 ).
Segundo Salles et.al. (2004):
Um aspecto fundamental a respeito da linguagem humana é que todo
ser humano, no convívio de uma comunidade linguística, fala (pelo
menos) uma língua, a sua língua materna, aprendida com rapidez
surpreendente, até os cinco anos de idade, em estágios com
características idênticas entre as comunidades lingüísticas,
independentemente da ampla diversidade da experiência linguística e
das condições sociais em que se desenvolver o processo de
aquisição.
Segundo a mesma autora, três propriedades se manifestam na
aquisição da língua materna que são as seguintes:
A universalidade, que corresponde ao fato de que, em
condições normais, todas as crianças adquirem uma língua natural;
Uniformidade, que se refere às semelhanças no processo de
aquisição a despeito das consideráveis diferenças nos estímulos do ambiente;
Rapidez, que se define em comparação com a manifestação
de outras habilidades como o raciocínio com números, entre outras;
Percebe-se através dessas propriedades que a aquisição da linguagem
não é um processo de tentativa e erro, mas sim a manifestação de um
conhecimento linguístico inato à faculdade de linguagem em face da exposição
a dados linguísticos (SALLES, 2004).
Por outro lado, a relação entre linguagem e pensamento, segundo
Goldfeltd (1997), baseando-se em estudos de Vygostky e Bakhtin, destaca a
interdependência entre ambos, pois a linguagem influi diretamente no
pensamento.
Portanto a linguagem não tem somente função comunicativa, mas
também é parte constituinte do pensamento. Goldfeltd (1997) destaca também
a relação entre a linguagem e a cultura, o que interfere nas relações em seu
convívio. Isto porque os indivíduos não criam conceitos sozinhos, mas sim
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através do convívio social é que desenvolvem a maneira de pensar, agir e de
ver o mundo. (POLATO, PAULA; apud. GOLDFELD, 1997).
A
linguagem,
o
diálogo
e
a
cultura
são
essenciais
ao
desenvolvimento cognitivo, e assim concluímos que a surdez tem grande
influência para que o aluno não adquira o conhecimento plenamente. Segundo
(GOLDEFELD, 1997, p.77) a surdez atinge exatamente a linguagem e sua
infinita possibilidade de utilizações.
Uma alternativa para esses indivíduos surdos é o canal espaçovisual, destacado por Goldfeld (1977, p.78): “em relação a qualidade
comunicativa e constituição do pensamento, as mãos e todo o esquema
corporal, podem executar com perfeição o mesmo papel que o sistema
fonador, através das línguas de sinais”.
O que se percebe na prática e também na literatura (GOLDFELD, 1997;
LACERDA, 2000;),
é que o aluno surdo apresenta comprometimentos em relação à
linguagem oral, numa das funções mais primordiais: a de se
comunicar. Assim a surdez impede a percepção de fonemas,
palavras, intensidade de voz e descriminação de sons essenciais
para a aquisição da linguagem oral. Esta deficiência pode ser vista
nos aspectos cognitivos, dificultando a contextualização e abstração
necessárias à aprendizagem.
Objetivo
O objetivo deste trabalho é entender as relações comunicacionais
mediadas pelo Interlocutor de Libras estabelecidas em sala de aula na
disciplina de Física, com alunos surdos matriculados.
Busca-se
investigar
quais as influências da presença do interlocutor para a ocorrência de relações
de comunicação entre discente surdo/docente de Física, discente surdo/ouvinte
acerca dos conteúdos de calor e temperatura.
Metodologia
Este trabalho é de cunho qualitativo (BODGAN, BIKLEN, 1994). Os
instrumentos de coleta de dados foram:
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a)
Filmagem da aula de Física numa sala regular, contendo aluno
surdo matriculado e a presença de interlocutor de Libras.
Realizou-se a filmagem das aulas de Física envolvendo os conteúdos de
calor e temperatura. As informações veiculadas pelo interlocutor de Libras e
possíveis perguntas ou argumentações dos discentes surdos foram filmadas e
apresentadas a um instrutor de Libras, que é surdo e trabalha no Centrinho e
ministrou aula na UNESP no curso de Pedagogia, e a uma professora
Intérprete de Libras, formada em Pedagogia e proficiente em Libras, que
trabalha na mesma escola da pesquisa que assistiram as cenas e
transcreveram as informações para o português.
Paralelamente transcreveu-se as informações orais do professor de
Física, onde buscou-se comparar a aula do professor de Física com as
informações veiculadas pelo interlocutor e verificar se são semelhantes.
b)
Aplicação das entrevistas com o professor de Física, o Interlocutor
de Libras, os alunos surdos, e os alunos ouvintes.
As questões foram elaboradas com objetivo de complementar as
observações das aulas.
Resultados
Apresenta-se uma análise preliminar dos resultados.
Transcrição das informações veiculadas pelo interlocutor
Realizou-se apenas a transcrição feita pela professora intérprete
(ouvinte) com a ajuda do áudio da filmagem, pois o professor intérprete (surdo)
não conseguiu entender os sinais usados pelo interlocutor. Observa-se assim a
falha do conhecimento em Libras pelo interlocutor.
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Utilizando-se as transcrições do pesquisador e da intérprete, observa-se
que em diversos momentos da tradução do interlocutor as informações foram
divergentes do que o professor estava trabalhando. Percebe-se também que os
conceitos de calor e temperatura não foram apresentados corretamente pelo
interlocutor.
Entrevista do Professor de Física
Aplicou-se uma entrevista contendo onze perguntas ao professor de
Física a fim de conhecer a formação do docente e identificar as dificuldades no
processo de ensino/aprendizagem de conteúdos de calor e temperatura para
alunos surdos e na sua visão de que forma a presença do interlocutor contribui
para o processo de comunicação.
O professor tem 38 anos, é formado em Matemática e Pedagogia e com
mestrado em Engenharia Agronômica. Atua como docente há treze anos e no
momento, ministra aulas de Física e Matemática.
No processo de ensino-aprendizagem dos conceitos de calor e
temperatura para alunos surdos, o professor citou os tópicos de escalas
termométricas e o cálculo de quantidade de calor como os de maiores
dificuldades.
Quanto à interação entre aluno surdo e ouvinte, o professor considera
positivo o contacto para o processo de aprendizagem dos alunos surdos.
Um ponto levantado pelo professor também é que devido o aluno surdo
ter mais dificuldade de assimilar os conteúdos, há um atraso no avanço dos
conteúdos. O mesmo considera ainda que a presença do interlocutor se faz
necessário, pois é através dele que o aluno surdo pode conversar com o
professor e aluno ouvinte e também tirar suas dúvidas.
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Entrevista do Interlocutor
Aplicou-se uma entrevista contendo onze perguntas ao Interlocutor de
Libras a fim de identificar sua formação acadêmica, as dificuldades
encontradas durante a tradução dos conceitos de calor e temperatura, e o que
dificulta ou facilita a comunicação do aluno surdo com o professor e demais
alunos.
A interlocutora tem 39 anos, é formada em Letras/Língua Portuguesa e
fez um curso de 120 horas na área de Libras para atuar na função de
interlocutor e atua a cinco meses nessa profissão.
Percebe-se que existe deficiência grande de conhecimento dos sinais de
Libras tanto pelo interlocutor quanto pelos alunos surdos, o que justifica o baixo
nível de aprendizagem dos conteúdos pelos alunos surdos.
Observa-se também que os alunos surdos não são completamente
alfabetizados, dispersando-se a maior parte do tempo, o que constitui em mais
um fator negativo para a aprendizagem em geral.
Entrevista com Alunos Surdos
Aplicou-se uma entrevista com treze questões a cada um dos três
alunos surdos da 2ª Série do colegial de uma sala regular. Buscou-se
identificar e fazer uma comparação das dificuldades que esses alunos têm
sobre os conceitos de calor e temperatura comparada com as dos alunos
ouvintes. Os alunos surdos foram identificados como alunos A, B, C.
O aluno A tem 17 anos, diz que não tem dificuldades em nenhuma
matéria e que a presença do aluno ouvinte contribui para tirar suas dúvidas. O
mesmo diz que a presença do interlocutor ajuda na compreensão dos
conteúdos de calor e temperatura. Esse aluno soube explicar estes conceitos.
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O aluno B tem 17 anos, suas dificuldades são em Física, as quais o
mesmo associa a falta de ajuda do professor e que um ensino só para surdos
seria melhor. Esse aluno não soube diferenciar calor e temperatura.
O aluno C tem 17 anos, este aluno tem dificuldades em diversas
matérias como Física, Química e Inglês. O aluno diz que não entende os
conceitos de calor e temperatura, pois é muito difícil. Na visão deste aluno, os
alunos ouvintes têm mais condições de aprender o que a professora está
explicando. Em sua opinião se fosse utilizado somente Libras aprenderiam
melhor. Considera - se que a presença do interlocutor ajuda às vezes na
compreensão dos conteúdos de Física.
Entrevista com Alunos Ouvintes
Aplicou-se uma entrevista com treze questões aos alunos ouvintes da
mesma sala dos alunos surdos da 2ª Série do colegial e buscou-se identificar e
fazer uma comparação das dificuldades que esses alunos têm em relação aos
conceitos de calor e temperatura com as dos alunos surdos, assim como
ocorre a comunicação entre os mesmos.
Percebe-se que os alunos ouvintes também têm dificuldades de
aprender os conceitos de Física e especificamente, calor e temperatura. Dizem
que seriam necessárias
mais aulas práticas, mais explicações para
aprenderem melhor.
A comunicação entre alunos surdos e ouvintes ocorre principalmente
através do interlocutor.
Conclusões
Com base na análise das transcrições das filmagens das aulas de
Física, envolvendo os conteúdos de calor e temperatura, mediados pelo
interlocutor de Libras, temos indícios de que o conteúdo ensinado pelo
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professor de Física não tem sido veiculado de forma correta e que muitos
conceitos acabam sendo perdidos durante a tradução do interlocutor. Uma
possível explicação para este fato seria o pouco tempo de atuação do
profissional. Outra possível causa seria a formação em Letras e não em Física,
pois muitos conceitos exigem um bom conhecimento para serem explicados
corretamente.
Em relação às entrevistas aplicadas pode-se concluir que a presença do
interlocutor é importante tanto para o aprendizado como também no processo
comunicativo dos alunos surdos durante as aulas, mas a falta de conhecimento
em Libras e Física leva à um resultado final insatisfatório.
Uma análise mais detalhada está em andamento e será divulgada
futuramente.
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