ATITUDE

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ATITUDE
Maria de Fátima Viegas Josgrilbert72
A concretização da construção da cidadania ativa por todos os alunos sempre foi
minha preocupação como profissional da educação, hoje compreendo que esta busca
encontra respostas na pedagogia de Paulo Freire e na Teoria Interdisciplinar, da forma
como é proposta pela Prof. Ivani Fazenda.
Não concebia uma escola calada, com conteúdos pré-determinados, com professores
autoritários que não se preocupavam com os anseios e as necessidades dos alunos, onde a
cidadania era algo pré-estabelecido pelas políticas educacionais, sem a preocupação de se
verificar se estes aspectos estavam em consonância com os anseios da população. Sentiame uma profissional de educação sedenta por mudanças, mas percebia, e ainda percebo, as
dificuldades de concretizá-las.
Ao refletir sobre a possibilidade da efetivação de uma escola mais formadora do que
informadora, três palavras surgiram como as ordenadoras deste processo: CIDADANIA,
sua conquista de forma ativa e plena; ATITUDE, uma vez que a atitude pedagógica é a
forma de conduzir o processo de ensino; e ÉTICA, que foi considerada a chave para abrir
as portas desta nova escola. Foi então que percebi que professores éticos e competentes
assegurariam a construção da cidadania e que, a ATITUDE, referindo-se à ação didática, os
incluía. A partir deste estágio, priorizei um estudo sobre a origem etimológica do termo
ATITUDE e da sua historicidade, buscando pistas para a interpretação e compreensão do
papel de professor dentro da escola atual.
Partiu-se de uma reflexão sobre as diferentes atitudes pedagógicas construídas ao
longo da História (é importante que o professor pare para pensar sobre si mesmo: quem é, e
qual a origem do seu pensamento), esperando-se que, ao tomar conhecimento desta
evolução histórica, o educador analise e reflita sobre o seu papel e a sua ação didática.
A reflexão histórica teve como ponto de partida os filósofos gregos, passando por
Descartes, Comênius, Rousseau, Freinet, Piaget, Vygotsky, até chegar a Paulo Freire,
demonstrando-se a importância da contribuição de cada um deles, na construção do
pensamento pedagógico atual, destacando Paulo Freire “pois ele descobriu que é
impossível a educação sem que o educando se eduque a si mesmo no próprio processo da
sua libertação” (Dussel, 2000:435)73.
Etimologia
Verificando o significado da palavra, encontramos que ATITUDE74, que origina-se
do latim aptitudo, e é o mesmo que porte, jeito, postura, comportamento, procedimento.
Significa ainda, propósito; significação de um propósito; norma de um procedimento.
72
Professora das Faculdades Magsul/MS.
73
DUSSEL, Enrique. Ética da Libertação: na idade da globalização e da exclusão. Petrópolis, Ed Vozes, 2000.
74
Cf CUNHA, Antônio Geraldo da. Dicionário Etimológico de Língua Portuguesa. 2 ed. Editora Nova
Fronteira. 1999.
164
Segundo Blackburn75, ATITUDE pode ser considerado como uma:
Reação avaliativa, normalmente contrastada com a mera crença, devido à
sua conexão mais direta com a motivação e o comportamento. Uma atitude
é um estado cuja essência é a satisfação ou a insatisfação ativa com algo
que
se passa no mundo. As principais controvérsias sobre esse assunto
surgem quando se pergunta se uma reação, como, por exemplo, a avaliação
de algo como bom ou como mau, pode ser classificada mais corretamente
como expressão de uma atitude ou uma crença.
Logo, a ATITUDE tem relação com o comportamento, com a motivação, com o
propósito de algo, com as normas de procedimento.
Portanto, o professor precisa querer mudar sua ATITUDE, partindo de uma reflexão
sobre sua prática, verificando se está contribuindo de forma efetiva para a formação de
cidadãos capazes de enfrentar as necessidades da sociedade do século XXI, o professor
precisa querer transformar seu cotidiano escolar em algo prazeroso e construtivo, precisa
estar motivado para a mudança, precisa avaliar seu trabalho, para verificar se está adequado
à realidade da sociedade atual, se sua forma de educar traz felicidade na relação diária
professor-aluno e, principalmente, se leva à aprendizagem real e construtiva.
Evolução Histórica
Dentro da perspectiva da construção do conhecimento ao longo da história, foram
analisadas diferentes posturas educacionais, a fim de se tentar compreender sua adequação
a cada momento social, partindo de uma visão de totalidade do conhecimento, proposta na
antiguidade, culminando na sua fragmentação, que evidencia, na atualidade, a necessidade
de uma postura interdisciplinar, como um caminho para reencontrar a visão global da
realidade.
Mesmo não querendo priorizar a visão helenocêntrica, por se ter consciência de que
o ato de ensinar nasceu com o homem pela própria necessidade de sobrevivência, sabendo
que os povos do oriente, como os primeiros grupos civilizados da Mesopotâmia, já
possuíam uma cultura científica e que os gregos herdaram parte da sua sabedoria dos
egípcios; é mister que se considere o nascimento da filosofia na Grécia como um marco
decisivo para explicar a evolução do pensamento humano, já que “a cultura oriental não
podia dar aos gregos aquilo que ela própria não tinha, isto é, o espírito científico e o
processo lógico da pesquisa76”, uma vez que, o conhecimento não era sistematizado antes
do apogeu da cultura grega.
Uma viagem ao passado grego nos demonstra a preocupação que existia com a
compreensão do cosmos, na sua totalidade. Os primeiros filósofos gregos tentavam explicar
a origem do universo e o seu componente básico, o elemento comum formador de todas as
coisas, partindo da observação e da reflexão sobre o todo para chegar à sua essência.
Filosofia, religião, ciência formavam um só conhecimento. “A não separatividade já era
conhecida não só pelos pré-socráticos, mas faz parte da experiência transpessoal dos
místicos de todas as tradições culturais ou fora delas77”.
75
Cf, BLACKBURN, Simon. Dicionário Oxford de Filosofia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar editor, 1997, p.27.
Mondolfo, Rodolfo. Pensamento Antigo. São Paulo: Editora Mestre Jou. p.10.
77
Weil,. Pierre. Rumo à nova Transdisciplinaridade: sistemas abertos de conhecimento. São Paulo:Summus,
1993.
76
165
A fragmentação do conhecimento e a forma disciplinar de ensinar, presentes nas
escolas até o momento atual, originou-se da própria visão de compreensão do mundo, que
dividia os componentes do universo; e esta divisão, se tornou uma característica do
pensamento ocidental a partir da “escola eleática” grega, quando se colocou o princípio
divino acima de todas as coisas. Anteriormente, os sábios da “escola de Mileto”, no século
VI a.C, não faziam distinção entre o espírito e a matéria, nem mesmo do animado e do
inanimado. “Seu objetivo girava em torno da descoberta da natureza essencial ou da
constituição real das coisas78”.
Este princípio divino, ao ser colocado como “um Deus pessoal e inteligente, situado
acima do mundo e dirigindo-o”, vai provocar uma ruptura entre espírito e matéria. “Nos
séculos que se seguiram, esta imagem acabou por se tornar um elemento essencial do
pensamento ocidental, do dualismo entre mente e matéria, entre corpo e alma79”, uma
tendência que se fortaleceu no Renascimento, fase de surgimento do pensamento científico
moderno.“O nascimento da ciência moderna foi precedido e acompanhado por um
desenvolvimento do pensamento filosófico que deu origem a uma formulação extrema do
dualismo espírito/matéria” (IBID., 25).
A filosofia de Descartes, no século XVII, priorizando a razão sobre o corpo,
dividindo o “eu e o mundo”, permitiu uma descrição objetiva do universo, que excluía o
próprio homem desse todo, fortalecendo uma linha de pensamento que influenciou até hoje
os ocidentais, hierarquizando o ser humano a partir de sua capacidade intelectual,
colocando-o como observador e não como membro participante. Uma visão de um mundo
mecânico que ganhou força com as descobertas de Isaac Newton, cuja teoria se tornou a
base da física clássica e norteou o pensamento científico até o início do século XX. A
sociedade ocidental e conseqüentemente suas escolas, baseando-se nesta lógica, passaram a
classificar os indivíduos por escalas de medidas a partir de suas capacidades cognitivas, em
detrimento de outras habilidades não consideradas tão importantes.
Dentro deste panorama mecanicista, adequado para a época, que se livrava do
feudalismo em direção ao capitalismo, onde o homem migrava do campo para a cidade,
com o propósito de trabalhar no comércio ou nas manufaturas que surgiam, num momento
conflitante de transição entre a educação religiosa rígida de Idade Média, e as novas idéias
influenciadas pela Reforma, Contra-Reforma e as ciências modernas, nasceu uma proposta
educacional capaz de atender às necessidades sociais desse momento histórico: a escola de
Comênius, com o propósito de ensinar tudo a todos e popularizar a educação que estivera
presa aos mosteiros. A visão comeniana de escola se assemelhava a uma oficina, onde
todos poderiam ensinar e todos poderiam aprender e a mente do aluno seria como uma
“cera nova”, onde o professor deveria imprimir as marcas da ciência.
A partir daí, as escolas foram evoluindo, procurando atender às necessidades do
mundo do trabalho, e frente à crescente industrialização foram sendo priorizadas: a ordem,
a compostura, a pontualidade, a impessoalidade e a aprendizagem como um processo
vertical e passivo que apresenta os conteúdos programáticos separados em disciplinas, sem
relação entre elas ou com a vida de quem aprende. Um conceito reforçado pelo positivismo
de Comte, que valorizou determinadas ciências em relação a outras. No mundo ocidental,
quantificado e classificado hierarquicamente, a lógica e o raciocínio têm sido as
78
Capra Fritjof. O Tao da Física: um paralelo entre a Física Moderna e o Misticismo Oriental. São Paulo:
Cultix. 2000. p.23.
79
Capra.op.cit., p.24.
166
ferramentas principais para a aquisição do conhecimento, em detrimento da sensibilidade,
da percepção, do coração. E o ensino disciplinar tem conduzido o aluno a um acúmulo de
informações não condizentes com as necessidades de sua vida.
Seria possível citar muitos pensadores, como: Rousseau, Freinet, Piaget, Vygotsky,
e mais recentemente Gardner, com a “Teoria das Inteligências Múltiplas”, que vêm
tentando romper com os padrões institucionais de suas épocas, demonstrando a urgência de
uma atitude que atenda às necessidades dos novos tempos, renovando as formas
convencionais de se educar. Porém, mesmo com uma vasta teoria na área da educação,
continuamos convivendo com uma atitude pedagógica, distante da realidade, que insiste em
transmitir conteúdos pré-determinados e fragmentados, de forma mecânica, priorizando o
intelecto.
Mesmo com toda a evolução da ciência social do século XX, com o aparecimento
da psicologia, sociologia, antropologia; mesmo com os estudos comportamentalistas,
cognitivistas, sócio-interacionistas, humanistas, entre outros, que levam os educadores a
profundas reflexões sobre o ato de ensinar, a escola continuou com a sua postura mecânica,
fragmentada e impessoal. Entretanto, “As descobertas da Física moderna demandaram
profundas transformações nos conceitos como espaço, tempo, matéria, objeto, causa e
efeito, etc. (...) A partir dessas transformações veio à tona uma visão de mundo
inteiramente nova e radicalmente diferente80”. A escola e a nova visão de mundo ainda se
encontram em dissonância.
A relação inseparável dos componentes do universo, apregoada pelo pensamento
oriental e pelos primeiros filósofos gregos, ressurge, com o embasamento científico da
teoria da relatividade e da física quântica, que comprovam a necessidade de mudança nos
objetivos da escola e na atitude pedagógica do educador.
Atitudes Pedagógicas Atuais
Dentro deste contexto, iluminam-se propostas, em direção à competência
pedagógica, o refletir e o agir frente ao processo de ensino, a busca da construção do
conhecimento, onde tudo e todos são partes inseparáveis e interdependentes da natureza,
sendo o homem um participante/transformador.
Poderia descrever inúmeras atitudes pedagógicas, mas prefiro enaltecer uma bem
próxima de nós, a de Paulo Freire, na busca de uma escola que libertasse o oprimido e o
conscientizasse de sua força social e de seu poder de transformação, direcionando sua
prática a partir do educando, e não de estruturas didáticas pré-determinadas.
Este passeio histórico demonstra que a ATITUDE apresentada por estes educadores
tentava romper barreiras sociais do seu tempo, buscando na educação as soluções para uma
sociedade mais humana e mais justa.
Estas considerações levaram-nos a perceber que os estudiosos anteriores a Freire
não apontavam o processo de “transformação” como uma tarefa do educador. Paulo Freire
apresenta sua proposta pedagógica ativa, tendo como método a dialogicidade, baseada em
uma ética de vida, dentro do próprio contexto do indivíduo, ou seja, a partir do próprio
processo comunitário, histórico e real, de forma que o educando seja capaz de se
conscientizar, percebendo as estruturas que o oprimem e tente superá-las através da práxis
80
Capra. Op.cit.,p.47
167
libertadora. Uma pedagogia que permite a prática da liberdade aos oprimidos pelo sistema
social e lhes abre um caminho de diferentes possibilidades.
A proposta de Freire foi tomada, como exemplo, porque se constituiu numa
ATITUDE pedagógica construída com base no respeito ao outro e a vida, tendo a esperança
como maior legado, e a conscientização e a liberdade como princípios norteadores.
Com vários pontos convergentes, a teoria interdisciplinar propõe uma nova atitude
frente ao conhecimento. Surge com uma visão, que vislumbra o aluno como um ser total e
não apenas mental. Um componente do universo. Um ser que precisa compreender a sua
individualidade e se enxergar na universalidade. A escola disciplinar não atende a esta
formação, uma vez que apresenta o saber dividido, sem apresentar relações entre elas, sem
mostrar o sentido para a vida. Logo, o ensino precisa partir do todo, mostrar as teias das
relações, unir. Interdisciplinaridade é a teoria que pode dar sustentação a esta proposta de
uma escola feliz, produtiva e real para um ser inteiro, sem fragmentações. “A metáfora que
a subsidia, determina e auxilia sua efetivação é a do olhar”· 81 (p.11). O olhar interior, o
olhar para o outro, o olhar para a vida!... A busca da motivação. Este olhar nos permite ver
“o que não se mostra e intuir o que ainda não se consegue, mas exige uma disciplina
própria capaz de ler nas entrelinhas”82. Educar é ensinar a viver, é levar à experiência que
dá sentido à vida, que vislumbra o caminho a tomar, a percepção, a sensibilidade, a
espiritualidade, a transcendência, um eterno retomar... “Uma ação em movimento”. Para
adotá-la é necessário humildade, coerência, espera, respeito e desapego.
Uma reflexão sobre as duas teorias demonstra que ambas nos levam a
transformação da submissão em liberdade e objetivam a formação de uma consciência
ético-crítica, que abre caminhos para a concretização da cidadania ativa, mesmo dentro de
um sistema social, cultural, político e econômico, cruel que oprime grande parte da
população.
Ambas as práxis, procuram diante de tantos contrastes oriundos de uma política
cruel de cunho neoliberal, resgatar a pureza do olhar, a afetividade, a ousadia, a
sensibilidade, que emanam do ser humano, se é que ainda é possível sonhar e almejar o
melhor para todos através da educação.
“É possível vida sem sonho, mas não existência humana e História sem
sonho”. Paulo Freire
81
82
FAZENDA, Ivani (org). Dicionário em Construção: Interdisciplinaridade. São Paulo; Cortez, 2001.
IBID.,15.
168
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