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I Encontro Internacional Tecnologia, Comunicação e Ciência Cognitiva
Universidade Metodista de São Paulo – 22 e 23 de maio de 2014
Apoio:
Estudos de Comunicação Social à luz da Interdisciplinaridade:
um desafio a ser rompido1
Anelisa Maradei2
Resumo
O artigo faz articulações acerca da necessidade de que as pesquisas em Comunicação
Social agreguem a seus ferramentais metodológicos informações e instrumentos de
verificação de outras áreas do saber. Do ponto de vista metodológico, o texto sustentase em revisão bibliográfica, utilizando-se de autores como: Morin (Teoria da
Complexidade),
Pombo,
Japiassu
(Intedisciplinaridade),
Baccega
(Transdisciplinaridade), entre outros. Perseguimos a ideia de que conseguiremos, por
meio de estudos interdisciplinares, entender cientificamente os processos que estruturam
sistemas complexos na captação, transmissão e processamento de informações pelo ser
humano. Buscamos demonstrar que o campo da Comunicação Social, apesar de suas
especificidades, não é um corpo isolado no mundo da investigação científica. Trata-se
de um campo interdisciplinar e que emerge como uma ciência que ultrapassa fronteiras
para responder questões complexas.
Palavras-Chave: Comunicação; Tecnologia; Ciência Cognitiva; Interdisciplinaridade,
Complexidade.
Introdução:
O objetivo do presente artigo é realizar uma análise reflexiva sobre a
necessidade de intersecções entre estudos e pesquisas sobre Comunicação Social,
Tecnologia e Ciência Cognitiva. Por atuarmos no campo da Comunicação, partimos da
perspectiva das limitações de nossa área de atuação para dar conta de alguns fenômenos
complexos que se apresentam na contemporaneidade. Um dos pontos centrais de nossas
1
Trabalho apresentado no GT5: Comunicação, Sistemas Complexos e Interdisciplinaridade, do I
Encontro Internacional de Tecnologia, Comunicação e Ciências Cognitivas, realizado na Universidade
Metodista de São Paulo, de 22 a 23 de maio.
2
Doutoranda em Comunicação pela Universidade Metodista de São Paulo, UMESP; e-mail:
[email protected]
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ponderações é a percepção de que, para acompanhar todo processo de evolução
tecnológica que vem ocorrendo nas últimas décadas, é fundamental que os
pesquisadores
da
área
de
Comunicação
Social
ampliem
seus
ferramentais
metodológicos, adaptando-os aos instrumentos de verificação desenvolvidos em outros
campos do conhecimento.
Cabe observar, inicialmente, que, durante a II metade do século XX, a sociedade
entrou num novo ciclo de desenvolvimento tecnológico, baseado na expansão dos
maquinismos informáticos de processamento de dados e geração de comunicação. Esses
equipamentos, ancorados nas novas tecnologias, converteram-se em eletrodomésticos,
aparelhos portáteis que, cada vez mais, vem norteando nossas atividades no campo
pessoal e profissional. Como sugere Rudiger (2011, p. 14),
Os negócios, comunicações, pesquisas, lazeres e atividades profissionais,
para não falar das relações de poder e dos laços de afetividade, passam
agora todos por ele [computador] e, assim formam uma rede de trocas e
ações cujo sentido dominante, todavia, não é técnico, mas de ordem
social, espiritual e histórica”.
Assim, reconhecendo o aumento da capacidade de processamento de dados por
microprocessadores, o desenvolvimento de novas linguagens de programação que
propiciaram condições estruturais para o aparecimento da internet, da telefonia móvel,
de câmeras digitais entre outros aparatos tecnológicos, além de novos contextos de
interação entre os sujeitos e entre eles e as instituições, acreditamos que, para
acompanhar todo esse processo de modificações estruturais em nossa sociedade, faz-se
necessário que as pesquisas em Comunicação Social agreguem a seus ferramentais
metodológicos informações e instrumentos de verificação de outras áreas do saber.
Perseguimos a ideia de que conseguiremos, dessa forma, entender cientificamente os
processos que estruturam sistemas complexos na captação, transmissão e processamento
de informações pelo ser humano.
Em nosso entendimento, por meio do entrecruzamento de campos de estudo,
pode-se ampliar o caráter científico da Comunicação Social. Como sustenta Rafael
Virgilli (2011), o ambiente tecnológico pode, por exemplo, ser responsável pelas
condições que ameaçam a saúde biológica e mental, bem como a qualidade das
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interações humanas. Nesse sentido, há de se observar, por exemplo, esse outro campo
ao se pensar em Ciência da Comunicação.
.....estudos relacionados à comunicação que tentam traçar um
paralelo com a tecnologia, fundamentalmente precisam abordar o
histórico dos objetos de estudo, tendo em vista identificar as
intencionalidades colocadas em sua elaboração e, por
consequência, as técnicas de apropriação que nela podem ser
aplicadas para cumprir sua função. É nesse contexto em que a
tecnologia – com seu acelerado processo de incursão na sociedade
– será essencial para a mudança da ideia de ciência e contribuição
para a melhoria na qualidade de vida das pessoas (VIRGILLI,
2011, p.4)
Além disso, vivemos na era da convergência e, como propõe Jenkins (2008,
p.43), “a convergência das mídias é mais do que apenas uma mudança tecnológica”. A
convergência altera a relação entre tecnologias existentes, indústrias, mercados e
públicos. Altera a lógica, segundo o mesmo autor, pela qual a indústria midiática opera
e pela qual os consumidores processam a notícia e o entretenimento, o que nos remete a
buscar respostas também na Ciência Cognitiva.
Do ponto de vista metodológico, o artigo parte de revisão bibliográfica
utilizando-se de autores como: Morin (Teoria da Complexidade), Pombo, Japiassu,
Walter Teixeira Lima Júnior (Intedisciplinaridade), Baccega (Transdisciplinaridade),
entre outros. Exploramos autores de projeção nacional e internacional, obras integrais e
artigos acadêmicos publicados em revistas e anais de congressos, para dar sustentação a
nossas articulações. No decorrer do texto a seguir, por meio de nossas ponderações
teóricas, tentaremos traçar um panorama sobre a necessidade da prática interdisciplinar
quando se pensa em estudos em Comunicação Social na contemporaneidade.
Partimos da observação de que há uma tradição acadêmica da
fragmentação e da compartimentalização dos campos do saber, que vem nos levando há
séculos a nos orientar na forma de como interpretamos o mundo. Por essa tradição, na
busca pelos detalhes, perdemos a visão do todo. Fechados em determinadas disciplinas
não partimos para a busca de respostas em outras áreas do conhecimento, deixando de
ampliar nosso olhar e de nos lançar por campos que poderiam trazer respostas e
interpretações para questionamentos relevantes, especialmente no campo da
Comunicação Social, que é nosso foco neste artigo, e uma ciência ainda em
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amadurecimento. Abrimos mão, muitas vezes, da visão do conhecimento em sua
complexidade.
Como propõe Paviani (2008, p. 14), “O advento do arranjo disciplinar trouxe
consigo a fragmentação de conhecimento e a especialização que perde de vista a visão
do todo“. Essa tradição, segundo Paviani, remonta do período de consolidação das
primeiras universidades, momento em que as disciplinas passam a ser relacionadas com
as estruturas organizacionais que envolviam não apenas critérios epistemológicos, mas
também políticos (PAVIANI 2008, p.37). Assim, as disciplinas engessam-se em seus
limites, bem como os pesquisadores passam a falar de um espaço institucionalizado.
Indo além e fazendo um paralelo com o sistema capitalista, o autor uruguaio
Galeano (1990) observa os riscos da compartimentalização, ressaltando que há perdas
relevantes ao adotarmos essa forma de conhecimento fragmentado. Ele atribui a
perspectiva da fragmentação a interesses de grupos dominantes. No modo de produção
capitalista, segundo ele, a compartimentalização estaria diretamente atrelada à alienação
do trabalhador, que executa mecanicamente repetidas tarefas, num ofício mecânico, que
o limita em sua capacidade de criação e contestação por não ter a compreensão do
processo, do todo.
De forma análoga, no campo do conhecimento, a fragmentação disciplinar, para
o mesmo autor, também seria restritiva ao avanço científico, pois perderíamos na
evolução do conhecimento pelo foco exacerbado aos detalhes, às partes, ao que é
particular. Galeano atribui essa perspectiva de fragmentação, tanto no campo do saber,
quanto no processo produtivo, a interesses dominantes. Seria uma forma de
impossibilitar o acesso ao conhecimento em sua complexidade. Acreditamos porém que
a raiz da questão vá mais além do que a subjugação do pesquisador ao sistema.
A forma como a educação é concebida gera um certo comodismo por parte dos
pesquisadores que, muitas vezes se alienam em seus campos de atuação. Além disso,
não podemos negar a existência de interesses particulares de pesquisadores que não
querem romper com suas linhas de pesquisa ancoradas em teorias já estruturadas. Outro
ponto a se ressaltar é que muitas vezes não há esforço consistente para suplantar
barreiras rumo a novos e desafiadores horizontes, em busca de práticas
interdisciplinares que agreguem competência à Comunicação Social.
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Interdisciplinaridade, Multidisciplinaridade e Complexidade
Antes de avançarmos, ressaltamos nossa posição de que não deixamos de
acreditar que uma ciência deve possuir definições próprias e sólidas, baseadas em suas
atividades e perspectivas futuras. Isto não é diferente no caso da Comunicação Social.
Há de existir um núcleo orientador das ações investigativas bem definido para cada
ciência em particular, a partir do qual se torna possível o diálogo com outras disciplinas,
como a Ciência Cognitiva, Ciência da Informação, Engenharia, Filosofia, Antropologia,
Ciências Sociais, Biologia, Matemática, Ciências Sociais etc.
Mas, entretanto, reforçamos nossa perspectiva de que, ao adotarmos um olhar
que renega a interdisciplinaridade, estamos causando sérios prejuízos aos estudos de
Comunicação Social. Isso por entendermos que o campo da Comunicação, apesar de
suas especificidades, não é um corpo isolado no mundo da investigação científica.
Trata-se de um campo interdisciplinar e que emerge como uma ciência que ultrapassa
fronteiras para responder questões complexas. Por isso, tem que se articular com outras
áreas do conhecimento.
Como propõe Gomes, “O debate científico aberto entre as disciplinas é fundante
da verdadeira interdisciplinaridade” (GOMES, 2001, p.4). Mas é preciso atentar que não
se trata de uma mera transposição ou incorporação de métodos e conceitos de outras
áreas, mas um diálogo concreto entre as disciplinas que se materialize em avanços
efetivos para a ciência e para a sociedade. Esse é outro ponto que consideramos
fundamental. A busca por conhecimentos em outras disciplinas deve abrir
possibilidades para que possamos apurar o olhar e interferir nas intencionalidades das
criações tecnológicas. Acreditamos na busca pelo desenvolvimento social por
intermédio da tecnologia e da comunicação, como forma de construir uma sociedade
mais justa e igualitária
Dentro dessa perspectiva, na conformação da ciência contemporânea, surgem os
conceitos de interdisciplinaridade e de transdisciplinaridade, que muito nos interessam
para avançarmos neste artigo. Com relação à terminologia, os conceitos são empregados
na literatura de forma pouco definida. Gómez (2003) observa que não é um ponto
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pacífico para os diferentes autores a distinção entre eles. Embora apresentemos aqui
algumas
distinções
propostas
para
as
duas
terminologias,
adotaremos
interdisciplinaridade no corpo desse trabalho como termo “guarda-chuva” para nos
referirmos à interação crescente entre as disciplinas que vem ocorrendo na atualidade.
Ainda assim, faremos uma breve reflexão sobre as diferenciações pontuadas por alguns
autores.
Japiassu e Marcondes (1991), por exemplo, definem interdisciplinaridade como
um método de pesquisa capaz de promover a interação entre duas ou mais disciplinas.
Esta interação, segundo os autores, pode ir “da simples comunicação das ideias até a
integração mútua dos conceitos, da epistemologia, da terminologia, da metodologia, dos
procedimentos, dos dados e da organização da pesquisa” (JAPIASSU; MARCONDES,
1991). Para Paviani (2008, p.8), a interdisciplinaridade é construída ao buscar a
articulação dos saberes.
Já na visão de Gusdorf, “A interdisciplinaridade supõe abertura de pensamento,
curiosidade que se busca além de si mesmo” (GUSDORF, 1990 apud POMBO, 1994,
p.2). Jean Piaget, por sua vez, aponta que na interdisciplinaridade ocorrem cooperação
e intercâmbios reais e, consequentemente, enriquecimentos mútuos (PIAGET, 1972,
apud POMBO, 1994). Gonzalez de Goméz opta por definir interdisciplinaridade como:
Geração de conhecimentos através de diferentes modalidades de
interação visando à integração de conceitos, métodos, dados, ou as
abordagens epistemológicas de múltiplas disciplinas em torno de uma
ideia, problema, tema, ou questão em particular. A interdisciplinaridade
se desenvolveria, assim, dentro do campo científico, buscando a
superação e reformulação das fronteiras paradigmáticas (GONZÁLES
DE GÓMEZ, 2003, p. 6).
Por outro lado, pode-se dizer que a transdiciplinaridade remete não só a um
agrupamento de informações entre disciplinas, mas a um pensamento organizador e
integrador com o objetivo de gerar informação estruturada. Nas pesquisas de
Comunicação Social muito se tem falado sobre transdisciplinaridade na tentativa de
compreender fenômenos complexos. Mônica Martinez (2008, p.157) ressalta que “na
tentativa de compreender as múltiplas dimensões dos fenômenos, busca transcender as
fronteiras disciplinares sem perder de vista o respeito às diferenças de cada uma”.
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Baccega,
na
mesma
direção,
discorrendo
sobre
o
conceito
de
transdiciplinaridade, ressalta a questão da manutenção das especificidades das
disciplinas no processo trasdisciplinar. Para ela, há entre as disciplinas intercâmbios,
formando novos campos, em outro patamar:
As fronteiras entre os campos de conhecimento tornaram-se fluídas.
Embora cada um dos campos guarde suas especificidades (Linguagem,
História, Sociologia, Antropologia etc), há entre eles um intercâmbio
permanente, formando novos campos, em outro patamar. Essa dialética
entre intercâmbio e especificidade, entre totalidade e particular, num
movimento que impede que as disciplinas se fechem em si mesmas e
cada uma se considere a melhor, fragmentando a apreensão científica da
realidade (que não é compartimentada), constitui a transdiciplinaridade, e
é o grande desafio daqueles que se dispõem a refletir, criticar e construir
uma nova variável histórica. (BACCEGA, 1999, p.7)
O que nos interessa, entretanto ressaltar é que há uma relação direta entre
interdisciplinaridade/transdisciplinaridade e complexidade. A complexidade seria “o
tecido de acontecimentos, ações, interações, retroações, determinações, acasos, que
constituem o nosso mundo fenomenal” (MORIN, 2003, p.20). Para Morin (2005), um
crítico da fragmentação do conhecimento, a interdisciplinaridade seria um dos caminhos
para a reforma do pensamento fraturado pela disciplinarização. O autor acredita que a
migração de conceitos é um exercício que sempre aconteceu no interior das ciências e
sobre a questão pondera:
... os conceitos viajam e é melhor que viajem sabendo que viajam. É
melhor que não viajem clandestinamente. É bom também que eles viajem
sem serem percebidos pelos aduaneiros! De fato, a circulação clandestina
dos conceitos ao menos permitiu às disciplinas respirar, se desobstruir
(MORIN, 2005, p.117).
Para o autor, o problema da complexidade não é o da completude, mas o da
incompletude do conhecimento (Morin, 2013, p.176). A complexidade surge, assim,
como dificuldade, como incerteza e não como clareza e resposta. Nesse sentido, como
propõe o autor, o pensamento complexo tenta dar conta daquilo que os tipos de
pensamento mutilantes se desfazem, excluindo o que ele chama de simplificadores e por
isso ele luta, não contra a incompletude, mas contra a mutilação. Ele exemplifica:
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...se tentamos pensar no fato de que somos seres ao mesmo tempo físicos,
biológicos, sociais, culturais, psíquicos e espirituais, é evidente que a
complexidade é aquilo que tenta conceber a articulação, identidade e a
diferença de todos esses aspectos, enquanto o pensamento simplificante
separa esses diferentes aspectos, ou unifica-os por uma redução
mutilante. MORIN, 2013, p.176)
A complexidade seria, dessa forma, “o tecido de acontecimentos, ações,
interações, retroações, determinações, acasos que constituem o nosso mundo
fenomenal” (MORIN, 2003, p.20). A complexidade não recusa a ordem, a clareza e o
determinismo, mas os considera insuficientes para lidar com a descoberta. Tem por
fundamento incitar o pensamento sobre conceitos, sem dá-los por concluídos, a fim de
restabelecer articulações entre o que foi separado e não se esquecer das totalidades
integradoras.
Posto isto, retomo às ponderações sobre a importância da interdisciplinaridade
no estudo de Comunicação. Devido à complexidade de seu objeto de estudo, a
Comunicação encontra-se em um terreno fronteiriço, em que se situam e se tangenciam
diferentes campos do saber: Filosofia, Sociologia, Antropologia, Neurociência, Ciência
Cognitiva, Ciência da Informação, Engenharia etc. Assim, pesquisar, por exemplo, as
tecnologias de informação e comunicação, tendo como foco seus usos e os impactos na
comunicação social por intermédio dos estudos oriundos da filosofia da tecnologia,
acarretará, como propõe Lima Júnior (2013, p.104) “melhor entendimento sobre as
apropriações e motivações humanas na adoção de uma ou outra tecnologia e ampliará a
oportunidade de analisar, com outras perspectivas, os processos de inovação tecnológica
sem considerar somente os aspectos mercadológicos”.
Se, por muito tempo, as referências relacionadas ao comportamento humano
citadas nas pesquisas tiveram como parâmetro as metodologias behavioristas, agora há
oportunidade de usar equipamentos tecnológicos, como Functional Magnetic Resonance
Imaging (fMRI), entre outros, que permitem conhecer as regiões corticais afetadas por
processamento de informações advindas do sistema sensorial. Pode-se, por meio de
experiências, demonstrar as áreas afetadas pelo encéfalo quando o ser humano olha
certos tipos de imagens ou conteúdos na TV, o que permite o aprofundamento de
estudos no campo da Comunicação Social. Trata-se de uma tentativa de construir
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conexões entre tecnologia (ciências da natureza), comunicação (ciências sociais
aplicadas) e ciência cognitiva.
A integração da Ciência Cognitiva aos estudos de Comunicação, dentro desse
contexto, tem se mostrado bastante relevante na contemporaneidade, agregando
inúmeras contribuições ao campo da Comunicação Social. Como esclarece Lima Júnior
(2013, p, 99), “A Ciência Cognitiva é um domínio do conhecimento humano e nasceu
com estrutura transdisciplinar, abarcando as ciências biológicas, por meio da
neurociência, além de outras áreas, como a inteligência artificial”. Nos estudos de
Comunicação Social, a Ciência Cognitiva vem há cerca de 20 anos contribuindo para
desvendar alguns fenômenos. O principais fatores que contribuíram para sua formação
foram o reconhecimento da esterilidade do behaviourismo.
A Ciência Cognitiva, um dos mais novos campos interdisciplinares do
conhecimento, que objetiva analisar a natureza, os componentes, as origens e os
processos envolvidos nos mecanismos de funcionamento, representação e manipulação
do conhecimento. O cognitivismo é relevante para todas as áreas do conhecimento que
se relacionam com o estudo da mente e não só para a Comunicação. Durante as últimas
décadas, o desenvolvimento da Ciência Cognitiva evoluiu. A disciplina cruza, de forma
estruturada, seis áreas de pesquisa, sem desconsiderar outras, tais como: Filosofia,
Psicologia, Linguística, Inteligência Artificial, Antropologia e Neurociência.
Para o campo da Comunicação Social, além do entendimento sobre questões
concernentes à tecnologia da informação e comunicação, traz contribuições no tocante
aos impactos impostos pelas tecnologias nos indivíduos. Pode-se, assim, utilizar os
conhecimentos apreendidos na Ciência Cognitiva de forma aplicada na Comunicação,
propiciando o desenvolvimento humano, tendo sempre como foco uma sociedade mais
justa e igualitária.
Atentos a questões de outras disciplinas, como ciência da informação, ciência
cognitiva, engenharia, entre outras, acreditamos que poderemos nos aproximar do
entendimento científico dos processos que estruturam os sistemas complexos na
captação, transmissão e processamento de informações pelo ser humano. Retomando
Morin, partindo do exposto, percebe-se que o autor aponta a complexidade como uma
teoria que tem por objetivo prestar contas das articulações despedaçadas pelos cortes
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entre disciplinas, entre categorias cognitivas e entre tipos de conhecimento. Assim, a
complexidade tende ao conhecimento interdisciplinar, “multidimensional”, como diria o
próprio autor (MORIN, 2008, p.177).
De qualquer forma, o que fica claro é que a complexidade surge como
dificuldade, como incerteza e não como clareza e resposta. O desenvolvimento do
conhecimento científico, sempre é relevante recordar, precisa da comunicação entre
cultura científica e cultura humanista (filosofia) e da comunicação com a cultura dos
cidadãos, que passa pela mídia, o que exige esforços dos pesquisadores.
A ciência é
uma atividade construída com todos os ingredientes da atividade humana. Não é uma
operação de verificação de realidades triviais, mas, sim, uma descoberta de um real a ser
explorado e descoberto, de um real escondido.
Considerações Finais:
Até pouco tempo a tecnologia era vista, e ainda é por muitos, como algo
ameaçador para a Comunicação Social, pois embarcada nela estava o “não humano”.
Com o desenvolvimento vertiginoso das tecnologias da informação e comunicação
(TICs) e o barateamento dos aparatos tecnológicos, com a consequente apropriação por
parte do cidadão comum de diversos dispositivos e conteúdos informativos e de
entretenimento, a comunidade científica da área, como vimos, passa a ter que adotar
outras posturas em suas pesquisas, abarcando conceitos e experiências vindas de outros
campos do saber.
Pudemos observar no decorrer do presente texto, que a compreensão dos
processos tecnológicos e da Ciência Cognitiva é, hoje, de fundamental importância para
a composição das pesquisas no campo da Comunicação. Acreditamos que, para a
compreensão e estruturação de estudos consistentes na em Comunicação Social há de se
realizar, cada vez mais, pesquisas de cunho interdisciplinar, que atentem para a
Filosofia, Psicologia, Linguística, Inteligência Artificial, Antropologia e Neurociência
etc.
Além de a Comunicação dialogar com outras áreas, é necessário inserir no
próprio campo de estudo comunicacional características que apontem para a CS como
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uma ciência mais exata, baseada em resultados comprovados, procurando eliminar
analogias e erudição que, via de regra, ocultam fragilidades. Mas, se pontuamos a
importância da tecnologia para a Ciência da Comunicação, reforçamos também a ideia
de que os estudos não podem ser feitos de forma deslumbrada, num tecnicismo sem
controle.
Como propõe Jenkins (2008), devemos estar atentos ao fato de que ainda que
consideremos a importância da tecnologia, precisamos ir além. Estamos vivendo em
uma sociedade midiatizada, tecnológica, de convergência, dinâmica e globalizada e os
cidadãos são convidados a procurar informações em meio a conteúdos midiáticos
dispersos. Além da tecnologia devemos estar, dessa forma, atentos para as práticas
emergentes que as novas mídias promovem, práticas de interação em rede online, além
de diversas formas de uso da tecnologia em nossa vida e em nosso cotidiano. Creio que,
lembrando que a convergência ocorre dentro de nossos cérebros e em nossas interações
sociais, teremos mais assertividade em nossos processos de investigação.
No mais, é inegável a importância dos meios de comunicação e sua influência na
complexa sociedade contemporânea e, dessa forma, concluímos que estudar as mídias
passa a ser, hoje, uma prioridade no campo das interações sociais. Assim, precisamos
investigar, compreender e formular teorias de Comunicação que possam atender os
interesses da sociedade. Só o cruzamento de diversos campos da ciência poderá auxiliar
e tornar as pesquisas da área mais precisas, facilitando a compreensão de diversos
fenômenos que se impõem aos pesquisadores contemporâneos.
Além disso, a interdisciplinaridade pode auxiliar a Comunicação Social a se
afastar de erudições vazias e se tornar, cada vez mais, uma ciência com um caráter mais
científico e estruturado. Vivemos num ambiente interativo, tecnológico, dinâmico,
globalizado e um pensamento complexo, dialógico, que não se limite às fronteiras da
Comunicação Social poderá trazer importantes contribuições para as pesquisas e para a
sociedade como um todo.
Entretanto, temos a consciência de que o trabalho interdisciplinar traz para o
pesquisador inúmeros desafios, pois cria isolamento, tendo em vista que os integrantes
desse tipo de prática não compartilham de bibliografias e experiências comuns. Exige
um esforço de superação muito maior que o imposto ao trabalho especializado e, ainda,
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corre, muitas vezes, o risco de apropriações de conceitos de forma indevida ou mesmo
inadequada. Um desafio que, se bem conduzido metodologicamente, vale ser
perseguido.
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Apoio:
VERGILI, Rafael. Comunicação e tecnologia: a importância do pensamento transdisciplinar
para o cientista de mídias sociais. Revista Eletrônica do Programa de Pós-graduação da
Faculdade Cásper Líbero. São Paulo. Vol 2, Ano 3, dez. 2011.
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