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Dois desafios cruciais do Brasil no ano novo
Diário de Marília - SP - NACIONAL - 11/01/2011
Dois grandes desafios apresentam-se ao Governo Dilma Roussef: a inflação em alta e a taxa
de câmbio sobrevalorizada. Para entender esses problemas devemos voltar um pouco tempo
atrás em nossa história econômica. O marco inicial da presente trajetória virtuosa foi a
implementação do Plano Real, em julho de 1994, que acabou com a inflação inercial e deu
credibilidade à nova moeda – o Real. Em seguida, a instituição da Lei da Responsabilidade
Fiscal e a adoção por parte do Governo Federal do superávit primário. Outra medida
importante, tomada em 1999, foi o câmbio livre. Todo esse conjunto de medidas, ao longo
dos últimos quinze anos, permitiu o crescimento do País de maneira constante.
Com a confiança dos agentes econômicos dentro e fora do Brasil, nossa economia tem
crescido a taxas médias de 5% e recebido investimentos externos diretos em torno de 30 a
40 bilhões de dólares por ano; e nossas reservas internacionais já somam mais de 250 bilhões
de dólares. Internamente, políticas sociais foram implementadas desde o período do Governo
FHC e, mais tarde, reformuladas e incrementadas durante os oito anos do Governo Lula, que
permitiram a inclusão social e econômica de 27 milhões de brasileiros que se encontravam
nas classes D e E e emergiram para a classe C, primeiro estamento da classe média brasileira,
no qual a renda familiar está em torno de 1.500 e 4.500 reais por mês.
Ora, esse cenário virtuoso de inflação debelada, retomada das atividades econômicas,
confiança na estabilidade da moeda e aumento do mercado consumidor atraiu inúmeros
investidores estrangeiros a aplicarem suas poupanças no mercado financeiro brasileiro.
Externamente, contribuiu muito para nosso crescimento econômico, via exportações, a
posição da China no comércio internacional, como um grande comprador de commodities
agrícolas e minerais.
Demanda aquecida internamente e excesso de dólares no País são o resultado que temos
hoje. Se não calibradas, ambos serão potenciais problemas para o próximo governo. A taxa
de juros referencial, a SELIC, está em torno de 10,75% ao ano. Comparada a outras taxas de
juros do resto do mundo, é altíssima, atraindo investimentos especulativos estrangeiros. De
outra parte, também entram dólares, através de nossas exportações em grande volume para
a China. Esses fatores explicam a valorização de nosso dinheiro frente às moedas
importantes nas trocas comerciais, como o dólar e o euro.
Pelo lado da demanda doméstica, estamos num nível de gastos excessivos. O mercado
consumidor expandiu-se muito rapidamente, enquanto a oferta não consegue alcançar o
mesmo ritmo. O Governo Federal também aumentou seus gastos de modo impressionante com
programas sociais e a máquina administrativa. O gasto com a Previdência Social também tem
contribuído para isso, com os aumentos reais do salário mínimo e a maior longevidade do
povo brasileiro, que resultam em mais encargos para o governo brasileiro.
Do lado da demanda do setor privado, o Banco Central tem, de alguma forma, controlado a
ameaça de alta inflacionária, via contração de créditos e gestão da taxa de juros. Porém,
não estão sendo controlados os gastos do governo, que busca no mercado financeiro novos
recursos para financiar suas despesas. Para isso, deve ofertar mercado taxas de juros
atraentes ao capital privado doméstico e internacional.
O forte crescimento econômico, numa economia estável, com regime democrático
consolidado, enormes fontes de recursos produtivos e grande mercado consumidor, torna o
Brasil uma grande opção de investimento para o resto do mundo. Isso provoca a valorização
de nossa moeda frente ao dólar.
Como atacar então esses dois desafios? A solução para essas duas ameaças no horizonte da
economia brasileira é o governo adotar uma política fiscal contracionista, de eliminação dos
gastos públicos desnecessários, e cortar alguns projetos de investimentos de retorno
duvidosos existentes no Programa de Aceleração do Crescimento – PAC; reduzir os reajustes
reais de salários e benefícios sociais, e rever as regras de acesso à aposentadoria.
Aumentando a poupança interna de 19,5% do PIB, atualmente, para algo em torno de 22% a
23%, o governo terá mais condições de promover mais investimentos em infraestrutura, que
geram benefícios para todos os setores econômicos produtivos, e não necessitará financiarse no mercado financeiro pagando taxas de juros altas. Como resultado, poderá baixar a taxa
de juros, tornando menos atraente o nosso mercado financeiro para os investidores
especulativos do exterior e reduzindo o ingresso de dólares. Assim, resolveria
concomitantemente o problema da valorização do real frente ao dólar. Juros baixos
aumentam os investimentos produtivos no Brasil, ampliando a oferta e a renda e, desse
modo, acompanhando o crescimento da demanda interna sem a pressão dos preços. A
solução está identificada. A decisão é política e depende, portanto, das ações do novo
governo a partir de janeiro de 2011.
Guilherme Antonio de Moura Costa é economista e professor do curso de administração das
Faculdades Integradas Rio Branco
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