1 antecedentes da presença espanhola no continente. dos reis

Propaganda
1
ANTECEDENTES DA PRESENÇA ESPANHOLA NO CONTINENTE.
DOS REIS CATÓLICOS AO SÉCULO XIX.
A POLÍTICA DE EXPANSÃO E DE CONTENÇÃO DA PIRATARIA.
AS RELAÇÕES COM MARROCOS ATÉ À GUERRA DE 1859.
No dia 19 de setembro de 1580, um cativo espanhol ficou livre após o pagamento do
resgate efetuado pelos padres trinitários. Entrava na embarcação que o levaria a casa.
Este cativo havia passado cinco anos privado de liberdade e na incerteza de saber qual o
momento em que a sua vida ou a integridade do seu corpo, já antes ferido, chegariam ao
fim. Era um dos mais de dois mil europeus que povoavam a cidade de Argel
aguardando a liberdade ou a morte, com as mesmas penas e esperanças. Com o tempo,
quando pôde finalmente dedicar-se ao exercício da sua arte, viria a ser um homem
famoso e, nas suas obras, ver-se-iam as referências ao seu tempo na Argélia. Tratava-se
de Miguel de Cervantes, mercenário em Itália, ferido em Lepanto e capturado na galé
Sol, quando regressava de Nápoles, com quase trinta anos e acompanhado pelo seu
irmão. O soldado Cervantes levava consigo cartas de D. João de Áustria e do duque de
Sesa para o rei, recomendando-o para o comando de uma companhia. Isto fez com que o
seu dono em Argel pensasse que Cervantes era uma pessoa de importância, tendo
pedido por ele um preço inacessível para a família.
Argel era uma cidade cosmopolita, cheia de pessoas de diversas raças e origens,
capital da regência do império otomano e comparável a Roma em população, riqueza e
vida, sem os teatros, os livreiros ou a imprensa da cidade italiana, embora mais
hedonista e sensual, bem como com maior liberdade por não dispor de ordens religiosas
ou instituições como a Inquisição, liberdade essa que não chegava aos milhares de
cativos e escravos. Ali conviviam raças e religiões, numa sociedade hierarquizada em
que cada um sabia até onde podia desejar chegar. Os cativos circulavam livremente
pelas ruas da cidade e pelos seus arredores, praticavam os seus cultos e relacionavam-se
entre si e com os argelinos ou os turcos. No entanto, não podiam deixar o seu lugar de
residência e, caso não obedecessem, podiam morrer através das punições que lhes eram
infligidas. Cervantes aproveitou a sua liberdade para deambular para tentar fugir várias
vezes. Mas todas as fugas acabaram por falhar e, se não foi condenado à morte, foi
devido às cartas que trazia e que incentivaram a cobiça do seu dono, Dali Mami. Mais
de 25000 cativos enchiam a praça. A vida era dura e a traição, a submissão e alguns atos
cobardes e mesquinhos ajudavam a suportar os rigores e a obter alguns benefícios e
favores. Nem o próprio Cervantes escapou a estes comportamentos, mas permaneceu
fiel à sua fé e à sua pátria. Metade dos homens que povoavam Argel renunciou à fé
cristã, tornando-se, a partir desse momento, livres. Eram chamados renegados. Muitos
deles dedicavam-se a ser corsários e enriqueceram com a pirataria. Conseguiam uma
vida confortável numa cidade onde a origem não era importante, que facilitava as
oportunidades de prosperar e na qual se valorizava a riqueza acima de tudo. De facto,
toda a cidade vivia do dinheiro fácil das espoliações aos cativos, dos resgates, da
pilhagem, da venda de escravos aos turcos e do roubo.
Os berberes viam a pirataria como uma maneira de contra-arrestar a expulsão de
Castela e a perda do Reino de Granada, uma recompensa à sua maneira. Os habitantes
islâmicos consideravam a pirataria como uma jihad ou uma guerra santa marítima e
achavam que os europeus também a praticavam ao seu modo1. O mar Mediterrâneo,
tradicionalmente lugar de comércio, havia-se convertido num local inseguro, onde
piratas e corsários impediam a atividade dos comerciantes cristãos, que antes
praticavam um comércio com regras e respeitoso, e no qual as populações ribeirinhas
viviam com um medo constante dos ataques mouros. Era necessário que os monarcas
cristãos eliminassem esse foco de perigo que os magrebinos e os turcos representavam.
Uma das melhores formas de se oporem foi tomar posições estratégicas nas margens de
Tunes, da Argélia ou de Marrocos para, a partir daí, dificultarem a ação dos piratas e
castigarem oportunamente as cidades dos reinos africanos. Nessa época, cidades como
Tunes, Trípoli ou Argel eram autênticas cidades-estado cheias de esplendor, enquanto,
no interior dos reinos, abundava a pobreza e o atraso secular. Os espanhóis procuravam
controlar as cidades costeiras, o campo não lhes interessava porque quase não oferecia
nada de lucrativo. E, assim, surge a presença espanhola nas costas e nas cidades
africanas.
O inimigo berbere
Durante séculos, o inimigo dos reinos cristãos peninsulares foi o invasor
muçulmano. À medida que decorria a Reconquista e o território cristão se ia alargando,
os reis peninsulares viam como perigosa ou ameaçadora a relação política que existia
entre muçulmanos de ambas as margens do Estreito de Gibraltar. O impulso guerreiro
natural foi o de perseguir o inimigo para além do mar com o objetivo de conjurar novas
invasões, de tal forma que, como se atestava no testamento da rainha Isabel, a Católica,
se favorecia a expansão peninsular em África. Esta ideia, afastada do ideal da Hispânia
romana, cedo foi posta de parte por diversas circunstâncias, mas continuou viva a
política de combater o muçulmano, o mouro, o berbere ou o turco, no seu terreno, para
garantir a segurança interna. No entanto, havia uma outra forma de relação, a comercial,
aproveitada pela Coroa de Aragão para se ligar com outros povos separados pelo mar
Mediterrâneo.
As primeiras incursões em África foram as aragonesas e as portuguesas. O
comércio catalão e aragonês com os povos africanos era antigo e bem organizado.
Enquanto as relações foram pacíficas e satisfatórias, não foi necessário enviar milícias.
Alguns historiadores, como o francês Pierre Hubac ou o marroquino Abdallah Laroui,
pensam que a pirataria foi uma forma de os estados árabes fugirem à asfixia provocada
pela opressão dos reinos cristãos2. Até ao século XV, especificamente até à conquista de
Constantinopla pelos turcos (1453), predominaram as negociações pacíficas. Jaime I e
Jaime II haviam assinado tratados com Tunes e Bugia. Terminada a reconquista
aragonesa, na época de Jaime I, com a conquista de Maiorca (1228) e Valência (1238), e
pacificado o interior, os aragoneses e os catalães dedicaram-se à política externa.
Aragão, sob o reinado de D. Pedro III, havia ocupado a ilha de Yerba ou Los Gelves
(atualmente, Djerba) em Tunes, em 1285, numa expedição comandada por Roger de
Lauria, e manteve-a durante cinquenta anos. Tunes foi, de facto, uma consequência da
política italiana do rei, já que se considerava que Djerba era tributária de Sicília. As
conquistas perdiam-se com facilidade, já que se tratava de posições militares que, mais
ou menos bem protegidas, apenas podiam ser reforçadas a partir da distante península
ou a partir dos reinos italianos. Os custos de manutenção dos domínios e da fortaleza
que a pirataria turca ia adquirindo incentivaram o rei a abandoná-los e a continuar com
uma política de entendimento. A expansão do império otomano em auxílio dos reinos
magrebinos, forma que os argelinos arranjaram para se oporem à tutela espanhola, teve
como consequência a perda da importância das relações comerciais pacíficas com os
reinos da margem sul do Mediterrâneo, originando uma época de guerras e conflitos.
Castela começou a sua expansão africana depois da conquista das Canárias. Em
1476, Diego de Herrera fundou a fortaleza de Santa Cruz de Mar Pequeña, num lugar
indefinido e que, séculos mais tarde, foi tomado forçosamente como Sidi Ifni. Após a
conquista de Granada, os Reis Católicos empreenderam a expansão espanhola, que
inicialmente se desenvolveria em África, mas a descoberta da América mudou o
objetivo. Em 1497, o comendador Pedro de Estopiñán, um homem do duque de Medina
Sidonia, conquistou Melilha. Em 1505, completar-se-ia a ação com a conquista do porto
de Cazaza, a oeste da península de Três Forcas. Ambos os pontos eram
complementares, porque serviam de defesa às embarcações conforme os ventos
dominantes, já que um protegia contra o vento poente e o outro, contra o vento levante.
Estopiñán era tesoureiro da casa de Niebla e havia participado na conquista de Granada.
As rivalidades entre os reis de Fez e de Tremecém deixaram Melilha – chamada Rusadir
– arrasada e quase abandonada. No dia 17 de setembro de 1497, os espanhóis
desembarcaram sem oposição e dedicaram-se a fortalecer algumas das defesas
arruinadas da cidade com materiais levados de Espanha, para reconstruir, nos dias
seguintes, adarves e torres da muralha. As obras defensivas continuariam ano após ano,
sempre por necessidade vital e, em algumas ocasiões, como depois do terramoto de
1660, por imperativos extraordinários. Depois de se apoderarem de Melilha, os
espanhóis ficaram limitados aos estreitos muros da cidade e apenas podiam ser
abastecidos por mar quando os cabilenhos vizinhos os cercavam, o que aconteceu várias
vezes ao longo do século XVIII.
O codicilo do testamento da rainha Isabel, a Católica, reflete o desejo real de
combater os infieís em terras do norte africano; tomar posse dessas terras, prevenindo
novas tentativas dos muçulmanos para se apoderarem de Espanha; combater a pirataria
e controlar os avanços turcos no Mediterrâneo Ocidental. Como dissemos, a conquista
da América mudou o rumo do impulso hispânico, mas o cardeal Cisneros cumpriu
alguns dos desejos da sua rainha e ordenou a expedição do alcaide de Los Donceles,
Diego Fernández de Córdova, que, em 1505, conquistou Mers el Kebir (a que os
espanhóis chamavam Mazalquiviri). A conquista não foi fácil porque os defensores
estavam informados do ataque. Uma vez na posse da praça fortificada, os espanhóis
aperceberam-se de que a mesma estava isolada, carecia de água doce e as operações de
socorro deviam ser feitas por mar, sendo difíceis, pelo que precisavam de outra
conquista que lhes servisse de defesa e prevenção. Alcácer-Quibir oferecia uma formosa
baía que servia perfeitamente para os desembarques e fundeadouros das embarcações;
i
Em português, Alcácer-Quibir [NT].
muitos anos depois, seria base da armada francesa em Argélia, e da argelina, depois da
independência.
Em 1509, o cardeal Cisneros dirigiu a primeira expedição contra Orão. Uma
frota de dez galés e oitenta embarcações saiu de Cartagena com mais de quinze mil
homens (dos quais quatro mil iam a cavalo) e com a participação de Pedro Navarro.
Orão era uma importante cidade portuária com mais de seis mil habitantes, que
mantinha boas relações comerciais com Génova e Veneza. Protegida por muralhas,
contava com uma alcáçova que dominava o resto da praça e que se rendeu perante o
cardeal em pessoa, no dia 18 de maio do mesmo ano. No campo exterior, os espanhóis
encontraram a água que lhes faltava em Alcácer-Quibir. As duas cidades, quase
separadas por uma montanha, criaram um enclave espanhol na Argélia.
Esta não foi a primeira nem a última vez que Pedro Navarro combateu em
África. Havia nascido por volta de 1460 e esteve ao serviço do rei D.Fernando, o
Católico. Emigrou jovem para a Itália, onde se alistou como mercenário e corsário com
o valenciano Antonio Centelles. No início da primeira guerra italiana, passou a estar ao
serviço dos franceses. Quando Centelles foi preso e executado pelos turcos, Navarro
ficou ao serviço do Grán Capitán. Participou na conquista de Cefalónia, esteve em
Canosa, em Barletta, em Cerignola e em Nápoles. Seguiu Gonzalo Fernández de
Córdova em Gaeta, e Garellano, recebendo pelos seus feitos o título de conde de
Oliveto. É o exemplo do mercenário que, com sorte e talento, subiu na escala social. De
volta a Espanha, o rei Católico incumbiu-o de combater os corsários turcos que
ameaçavam a navegação pelo Mediterrâneo. Em 1508, conquistou o Penedo de Vélez de
la Gomera, levantando as primeiras fortificações do ilhote. A maneira de atuar, naquela
época, era muito diferente da colonização do século XIX. Não se queria controlar e
povoar o território para a sua exploração comercial, mas sim para se estabelecer
algumas bases militares em castelos ou praças-fortes, a fim de se vigiar o tráfico e
impedir a ação corsária contra as embarcações cristãs. Por isso, não se conquistavam
reinos ou regiões inteiras, mas pontos estratégicos na costa. Alcácer-Quibir e Orão eram
lugares de grande importância para as relações com o reino de Tremecém. Como
dissemos, Navarro acompanhou Cisneros na expedição a Orão e Alcácer-Quibir, mas
acabaram ambos a lutar pela divisão dos despojos da guerra.
No ano de 1510, decidiu-se continuar os ataques ao norte de África e confiou-se
a expedição ao inexperiente duque de Alba, que levava Navarro como segundo
comandante. Conquistou Bugia, que havia sido um porto importante mas que se havia
convertido num ninho de piratas que atacavam as costas da Itália e da Espanha, e
conseguiu que os reis de Argel (a quem exigiu a entrega do penedo de Argel, situado à
entrada do porto, onde construiu um castelo), Tremecém e Tunes se declarassem
vassalos do rei espanhol. Nesse mesmo ano, conquistou-se Trípoli à viva força,
fazendo-se prisioneiro o seu rei. Navarro havia construído um castelo à entrada do porto
de Argel, que permaneceu em poder dos espanhóis até 1529, quando Martín de Vargas e
os seus cento e cinquenta homens não conseguiram resistir ao assédio turco. Vargas foi
feito prisioneiro pelo dei e morreu espancado. Na tentativa de recuperar Djerba, Navarro
sofreu uma desastrosa derrota, motivada pela falta de previsão e pelo excesso de
confiança. Em 1511, Navarro voltou a Itália para lutar com a Liga Santa e foi preso
pelos franceses na batalha de Rabean, no dia 11 de abril de 1512. O Rei Católico não
quis pagar o resgate que pediram por Navarro e este ficou ao serviço do rei Francisco I
de França, combatendo em Navarra e em Itália. Morreu em Nápoles, em 1528.
Política africana de Carlos V e Felipe II
Estas expedições e conquistas tiveram, na verdade, pouca importância e foram
de curta permanência. Também não constituíram uma prioridade na política da época. O
desejo de travar os espanhóis levou os monarcas argelinos e tunisinos a chamar em seu
auxílio os turcos. O aparecimento dos irmãos Barbarossa e o poder crescente da
esquadra turca mudaram muito as coisas. Estes navegadores deram um novo impulso à
luta contra os espanhóis, atacando-os em todos os seus domínios africanos e tornando-se
donos de grandes territórios no norte de África, de Tunes a Argel. O inimigo africano
tornou-se mais poderoso e perigoso para os espanhóis: estava protegido pelo império
otomano e atuava com a ousadia própria da superioridade tanto em terra como no mar.
Os turcos aproveitaram para explorar o descontentamento popular em Tunes e as lutas
internas na Argélia, e acabaram por unir estes reinos ao seu império.
A partir de 1620, Solimão, o Magnífico, apossou-se da região, expulsando os
cavaleiros de São João das ilhas mais orientais. As águas do Mediterrâneo foram-se
tornando cada vez mais perigosas. Em 1516, a Espanha perde a sua possessão em Argel.
Em 1520, o desejo de vingança levou a uma nova expedição, na qual ia Diego de Vera,
às ordens do vice-rei da Sicília, Hugo de Moncada, conquistando-se de novo Djerba.
Em 1522, perde-se o Penedo de Vélez de la Gomera e, em 1530, Carlos V cede Trípoli
aos Cavaleiros de São João, por estar muito fora de mão dos seus domínios. Em 1535,
com intervenção pessoal de Carlos V, ocuparam-se novamente Tunes e La Goleta,
registando-se grandes saques e libertando-se centenas de cativos cristãos. No entanto,
fracassaram em 1541, ao quererem apoderar-se de Argel com uma frota diminuída pelo
temporal e pelas grandes perdas. Uma grande esquadra de 516 navios, que
transportavam mais de 12000 marinheiros e 24000 soldados, falhou na sua tentativa de
ocupar as elevações próximas a Argel, devido às chuvas diluvianas e aos temporais
constantes que desorganizaram a armada espanhola. Derrotados após três dias de
resistência, tiveram que se retirar, protegidos pelos cavaleiros de Malta. A tempestade
acabou por afundar 140 barcos e optou-se por não se voltar a tentar o desembarque.
Este acontecimento originou um ponto de inflexão da ação espanhola no norte
africano e a mudança de rumo na política hispânica, para além de uma importante
vitória turca. A retirada espanhola da Argélia e de Tunes levou de novo a anarquia
àqueles reinos. O sistema de alianças que Carlos V mantinha com alguns reis locais
rompia-se e favorecia as guerras internas. Acontecia com frequência as dinastias
surgirem ou acabarem quando os europeus perdiam o controlo de um território. Em
1540, Andrea Doria e a sua esquadra genovesa ao serviço do imperador espanhol
tiveram que ir em auxílio do rei tunisino Muley Hasnan, ameaçado pelo seu próprio
filho3.
Felipe II também falhou nas tentativas de reconquista de Bugia e Trípoli, embora
conquistasse de novo Djerba e, em 1564, conquistasse definitivamente o Penedo de
Vélez de la Gomera. Em 1555, o vice-rei de Nápoles não pôde socorrer a praça de
Bugia. A bancarrota que ameaçava a Espanha impedia a formação de armadas por não
haver dinheiro para os pagamentos necessários. Felipe II manteve, contudo, uma boa
relação com os marroquinos e, após Lepanto (1571), o perigo turco no Mediterrâneo
Ocidental parecia eliminado ou, pelo menos, havia-se chegado a um equilíbrio entre os
dois poderes dominantes, o dos turcos e o dos espanhóis, e abandonou-se a política de
tomar posições ribeirinhas. Houve ainda mais um episódio: a conquista de Tunes por D.
João de Áustria, em 1573, mas que se perdeu, juntamente com La Goleta, no ano
seguinte. Com isto, termina a política de expansão no sul do Mediterrâneo e os
espanhóis não tentam mais nenhuma conquista: ficavam com Orão, Alcácer-Quibir,
Melilha e Vélez de la Gomera. A Espanha devia resolver problemas internos e
americanos. Deve-se acrescentar, ainda, a ilha de Alhucemas, conquistada na época de
Carlos II, já que as efémeras ocupações de Larache e La Mamora (Mehdia) não se
consolidaram.
POSSESSÕES ESPANHOLAS NO NORTE DE ÁFRICA
(DE ESTE A OESTE)
LUGAR
ANO DA TOMA DA POSSESSÃO
ANO DE PERDA
Trípoli
1510
1551
Gelves
1497
1560
Querquenes
1574
1574
La Mamora
1550
1553
Monastir
1541
1550
Susa
1541
1550
Tunes
1535
1574
La Goleta
1535
1574
Bizerta
1535
1573
Ilha de Tabarca
1540
1540
Bona
1535
1535
Bugia
1510
1555
Tedles
1510
1510
Castelo de Argel
1510
1529
Argel
1510
Mostaganem
1510
1510
Alcácer-Quibir
1505
1708
1732
1791
1505
1708
1732
1791
Horna
1531
1535
Tremecém
1542
1543
Melilha
1497
Chafarinas
1848
Cazaza
1505
Orão
Penedo
da
ilha
de
1673
Penedo de Vélez de la
1508
Alhucemas
8
Gomera
Ceuta
1580
Tânger
1578
1640
Arzila
1578
1588
Larache
1610
1689
Mahamora
1614
1681
Mazagão
1578
1640
Santa Cruz de la Mar
1614
1681
Pequeña
Espanha na Argélia
Nesta sucessão de conquistas e perdas, houve, no entanto, uma aventura que se
prolongou durante quase três séculos: a presença espanhola nas cidades de Orão e
Alcácer-Quibir, na Argélia. De facto, as duas praças constituíam dificilmente uma
possessão defendida por um sistema de fortificações exteriores que as tornaram
inexpugnáveis, apesar dos numerosos ataques, cercos e assédios. A sua conquista, em
1505, foi consequência do impulso pessoal do cardeal Cisneros. Os espanhóis
estabeleciam alianças com algumas tribos próximas que os abasteciam, a quem
chamavam «mouros da paz». Outras vezes, o necessário e o supérfluo obtinham-se
mediante razias no campo argelino, as chamadas jornadas.
Enquanto, os hispânicos se defendiam nas muralhas, os arredores eram ocupados
por povoadores indígenas chegados do campo ao abrigo da prosperidade que a cidade
produzia. Este consolidado domínio espanhol podia ter sido, se as circunstâncias não o
tivessem impedido, o início de uma futura colonização. A presença dos turcos na
regência de Argel e a chegada dos Barbarossa tornaram mais difícil a vida nas praças
espanholas e mais perigosas as saídas.
Com o tempo, essas praças perderam-se devido à Guerra de Sucessão, que
desviou a atenção espanhola dos seus domínios argelinos, e, em 1707, o dei de Argel
aproveitou para as atacar. Este havia-se fortalecido com artilharia turca para garantir o
êxito da operação. Orão era uma cidade amuralhada, com uma alcáçova, defendida pelo
castelo de Santa Cruz e pelo forte de São Gregório, a poente, e os fortes de São Felipe,
9
Santo André e o castelo de Rosalcázar, a levante. Os sitiantes começaram por cercar a
torre do Nascimento, que protegia o manancial que abastecia de água a localidade; esta
caiu após quase dois meses de resistência. Depois, atacaram o castelo de Santa Cruz,
bombardeando e minando uma parte dos seus muros. O resto ficou mal defendido pelo
marquês Valdecañas, que optou por abandonar o território e voltar à península, embora
uma pequena quantidade de espanhóis ficasse a lutar até à morte. A expedição de
auxílio não chegou, porque o seu chefe passou para a fação do arquiduque e as
embarcações mudaram de rumo para combater em águas peninsulares. Os assaltantes
apoderaram-se de Orão e da sua alcáçova no dia 20 de janeiro de 1708. Os espanhóis
fugiram para Alcácer-Quibir e, perante a impossibilidade de defesa, o governador
Baltazar de Villalba negociou uma rendição honrosa. Os termos da capitulação não
foram respeitados pelos assaltantes e os espanhóis acabaram cativos.
Orão foi, de novo, porto de piratas e a navegação comercial ressentiu-se. O
número de cativos aprisionados durante as capturas aumentou. Emilio Sola4 relata que
Orão era a saída para o mar do reino de Tremecém, cidade próspera onde se cunhava
moeda e se conservava uma importante sabedoria histórica. Os espanhóis destruíram as
bibliotecas árabes, arrasaram os vestígios dos mouriscos expulsos e converteram a praça
conquistada numa cidade cristã e espanhola, base de correrias e ataques espanhóis à
região, que, no entanto, nunca chegaram a dominar. Os cristãos de Orão usavam as
mesmas armas que os seus inimigos turcos e árabes, e capturavam em terra bens que
aumentavam a fortuna dos soldados expatriados. No entanto, a presença reduzida à
porção de Orão não bastava para conter os ataques marítimos.
Felipe V, aconselhado por Patiño, teimou em recuperar os territórios perdidos na
guerra e enviou uma esquadra para as águas argelinas. A expedição era comandada por
José Carrillo de Albornoz, conde de Montemar, capitão geral das costas do Reino de
Granada. A esquadra era composta por mais de quinhentas embarcações de transporte e
dez navios militares, levava trinta e dois batalhões de infantaria, vinte e quatro
esquadrões de cavalaria e outras tropas. Na manhã do dia 29 de junho de 1732,
desembarcaram na praia, onde fortificaram uma posição. Foram duramente fustigados
por forças argelinas e turcas, e alguns autores situam no teatro de operações
combatentes marroquinos sob o comando do barão de Ripperdá, que havia sido primeiro
ministro de Espanha com Felipe V e tentava construir para si um reino no Magrebe.
Após um duro combate, os espanhóis dominaram a montanha de El Santo e os argelinos
abandonaram a cidade. Alcácer-Quibir contava com uma guarnição turca reduzida, que
10
se rendeu no dia 2 de julho, deixando os defensores partirem para Argel. Os argelinos
fustigaram os espanhóis em numerosas ações que não tiveram grande resultado. Orão
havia sido conquistado, registando-se apenas 58 mortos. Fortalecidas as defesas,
deixou-se na cidade uma guarnição de dez batalhões de infantaria, quinhentos cavalos,
um regimento de artilharia e tropas auxiliares, com Álvaro de Navia e Osório, terceiro
marquês de Santa Cruz de Marcenado, como governador, que morreu numa batalha
travada em setembro desse mesmo ano.
A posse destas praças era considerada pela corte cada vez mais desnecessária e
cara, tendo-se multiplicado as vozes que propunham o seu abandono. O retorno dessas
praças ao dei considerava-se uma vantagem em qualquer negociação diplomática. Ainda
assim, o recrudescimento dos ataques piratas obrigou Carlos III a enviar uma expedição
para Argel, sob o comando de O’Reilly, em 1775, que se saldou com a derrota e a morte
dos expedicionários e dos cativos que permaneciam na cidade. Em 1784, tentou-se uma
conquista por terra, mas as defesas de Argel conseguiram conter todos os ataques
espanhóis.
A forma de combater havia mudado, os espanhóis já não eram assim tão
superiores aos argelinos e os turcos contavam com o apoio de paxás do oeste, de
Constantina, de Cabília e até de Marrocos. Começou a apreciar-se outra forma de fazer
política; as guerras esgotavam o país e não deixavam os frutos desejados. Em 1786,
Mazarredo é enviado para assinar com o dei um tratado de paz e de comércio
semelhante ao assinado com Trípoli e que marcava uma época de paz. Esta paz tornava
ainda mais desnecessárias as possessões; um fenómeno natural, o terramoto que
destruiu as defesas de Orão e de Alcácer-Quibir em 1790, precipitou a marcha dos
espanhóis negociada com o dei. Além disso, o inimigo começava a ficar com uma
artilharia suficiente para derrubar as defesas amuralhadas. Os espanhóis abandonaram a
praça, tendo antes dinamitado os fortes modernos. Quarenta anos depois, os franceses
chegaram a Argélia, convertendo-a numa colónia.
Relações com Marrocos
Marrocos é o vizinho africano mais próximo de Espanha, separado desta por 14
quilómetros e meio de mar; ambos os países estão por natureza condenados a relações
de todo o tipo. De Marrocos, procediam as vagas de invasores após o ano 711; a maior
parte dos mouriscos expulsos dos reinos espanhóis e um grande número de judeus
11
foram para Marrocos. Os vizinhos rivalizavam, lutavam e faziam acordos; oscilavam
entre a paz e a guerra. As vicissitudes de um reino transmitiam-se ao outro, qualquer
debilidade era aproveitada. A proximidade e a longa história de conflitos fizeram ver
aos governantes espanhóis que o caminho da paz seria mais frutífero e menos doloroso
do que o da guerra. E foi este o caminho que se manteve enquanto o império
marroquino teve poder suficiente para impor respeito. As conquistas ocasionais de
Vélez de la Gomera, Alhucemas, Larache ou Arzila, bem como das praças de Ceuta e
Melilha destinaram-se mais à tentativa de combater a pirataria do que a um desejo de
confronto com o sultão.
O império marroquino mantinha laços políticos entre o sultão e as tribos, que
não eram consideradas de forma igual em todo o território. O soberano governava o seu
estado (Majzenii) com mão de ferro. A sua autoridade era imposta com o auxílio de
tropas e funcionários, nomeadamente, nas cidades e na parte central e plana do país. No
campo (bled es siba), distante e montanhoso, admitia-se uma autoridade superior, mas o
controlo quotidiano era muito lasso e o sultão limitava-se a cobrar impostos e a recrutar
tropas. Nem sempre ambos os acontecimentos foram possíveis e pacíficos.
O império chegou ao seu auge com o sultão Muley Ismail, que subiu ao trono
em 1672, com a violência habitual na sucessão em Marrocos. O sultanato não era
hereditário e as rivalidades entre os pretendentes conduziam com frequência a intrigas,
assassinatos e, ainda, à guerra civil. Aquele sultão não desprezou a relação com os
piratas, já que obtinha abundantes benefícios do espólio e do resgate dos cativos;
contudo, organizou o seu império de uma maneira mais moderna e eficaz, começando
pela estrutura militar, dotando-se de alguns corpos de obediência direta e eliminando,
em parte, os senhores feudais. Tal como assinala Morales Lezcano, converteu o país
«numa potência militar mais organizada, até tal ponto que, nos princípios do século
XIX, o atraso de Marrocos em comparação com a sua vizinhança não era tão acentuado
como seria um século mais tarde5». Construiu alcáçovas por todo o território, para
controlar as tribos mais rebeldes ao poder. Chegou à expansão máxima e ao maior
controlo efetivo do território. Recuperou Mahamora e Larache, que estavam em mãos
espanholas, bem comoTânger, que os ingleses ocupavam. Nem antes nem depois, até ao
protetorado, sultão algum conseguiu maior grau de adesão e de obediência das tribos
dos confins do bled. Outra caraterística do seu reinado foi o estímulo à conquista do
ii
Majzen- Antigamente governo ou autoridade suprema em Marrocos [NT].
12
interior e o abandono do mar. As expedições por ele enviadas chegaram às fronteiras do
Senegal e do Níger; fustigou os espanhóis e os portugueses, recuperando quase todas as
praças que estes possuíam nas costas marroquinas.
Depois da morte de Muley Ismail, em 1727, seguiu-se um período de desordem
e lutas internas, até que chegou ao trono o sultão Mohamed, em 1757. Foi um homem
que debilitou algumas das instituições de Muley Ismail e reduziu a sua guarda de negros
ou abids, verdadeiro corpo pretoriano do sultão e sustento da expansão e do poder de
Ismail. Procurou avançar nas relações internacionais, assinando tratados com a
Dinamarca, em 1757, e com a Inglaterra, em 1760. Marrocos conservava, ainda, um
pequeno poder naval e uma força corsária importante, embora não fosse comparável
com a da regência de Argel ou com a esquadra turca no Mediterrâneo. A importância
económica que tinham para o império o aprisionamento de embarcações europeias e o
comércio com os cativos fazia com que os sultães mantivessem este sistema de atuação.
No entanto, a Espanha estava muito próxima e era tão fácil para os marroquinos
capturar os despojos hispânicos como para a armada espanhola contra-atacar, por dispor
de melhores barcos e de bases muito próximas. As ações de personagens como Barceló
e as suas canhoneiras contra os piratas argelinos e contra as embarcações marroquinas,
como aconteceu quando afundou três galeaças da marinha do sultão em 1764,
marcavam uma diferença assinalável no que diz respeito à potência naval dos dois
países.
António Barceló foi um marinheiro maiorquino, nascido em 1717, que, durante
o cerco de Gibraltar (1779-1783), quando já tinha uma vasta experiência de guerra no
mar, inventou um modelo de embarcação a que chamou canhoneira e que foi o terror
dos corsários. As canhoneiras eram lanchas nas quais Barceló colocava uma blindagem
de ferro que as revestia até abaixo da linha de flutuação e que eram armadas com um
canhão ou morteiro montado de forma a girar; tinham um parapeito forrado para os
artilheiros e restantes marinheiros. Era uma embarcação muito manobrável e de fácil
transporte. A inovação que pressupunha esta embarcação facilitou a sua atuação e foi de
grande valor no combate à pirataria e em cercos como o de Argel, em 1783, que não
serviu para conquistar a praça mas para forçar um tratado de paz.
É verdade que os sultães aproveitaram habilmente as rivalidades e as guerras
entre os diversos países europeus; mas não é menos verdade que sempre fugiram da
guerra pelo medo natural de serem derrotados. Portanto, uma boa política convencional
era a melhor solução para todas as partes, como concluíram Muley Mohamed e o rei
13
espanhol Carlos III. As boas relações entre o governador de Ceuta, Osorio, e Samuel
Sumbel, judeu marroquino ao serviço do sultão, abriram portas a um comércio
normalizado e foram as primeiras conversações que conduziram à assinatura de um
tratado duradouro. Tratou-se de negociações que o padre Juan José Boltas continuaria
numa embaixada oficiosa, em 1765, e que continuaram por intermédio de outro
franciscano missionário no império, frei Bartolomé Girón de la Concepción.
A missão destes eclesiásticos consistia em averiguar a predisposição do sultão
para a negociação. A parte marroquina mostrava-se favorável ao pacto e, como
consequência das conversações, o sultão enviou à corte espanhola, como embaixador,
Sidi Ahmet el Gazel. Chegou a Espanha em maio de 1767 e encontrou-se com o rei
espanhol no dia 21 de agosto. Nos dias seguintes, manteve conversações com Grimaldi
e com o padre Girón. A visita desta embaixada marroquina foi retribuída com a que
Carlos III enviou a Marrocos no ano seguinte, encabeçada pelo oficial da armada
espanhola Jorge Juan. Os trabalhos realizados culminaram com a assinatura do tratado
de 28 de maio de 1767. O acordo assinado entre ambas as nações revelou-se satisfatório
e útil. Nesse tratado, assentaram-se as relações comerciais, a abertura de alguns portos e
cidades aos europeus e manteve-se a paz. Os espanhóis não conseguiram tudo aquilo a
que se propunham e não viram atendido o pedido para estabelecer uma base ou feitoria
na costa, em frente às Canárias, reivindicando a antiga Santa Cruz de Mar Pequeña, nem
para alargar o campo exterior dos presídios. Em suma, estabeleceu-se um pacto relativo
à livre navegação e ao livre comércio entre os espanhóis e os marroquinos, a abertura de
consulados espanhóis nos portos marroquinos e uma grande liberdade para as pescas.
O tratado não impediu que o sultão reivindicasse as colónias cristãs nas costas
marroquinas. Foi sempre um dos pilares da política exterior marroquina e um tema
recorrente até os nossos dias; nunca renunciaram à posse dos enclaves. Em 1769, o
sultão atacou e conquistou a praça portuguesa de Mazagão (El Jadida) e fustigou as
praças espanholas. Esta política agressiva foi vista pelo rei Carlos III como uma forma
de romper o tratado de 1767 e o governo espanhol declarou guerra ao marroquino no dia
23 de outubro de 1774. O sultão tomou a iniciativa e atacou, em primeiro lugar, o
Penedo de Vélez de la Gomera, sem conseguir conquistá-lo, e depois surgiu com um
exército de treze mil homens diante dos muros de Melilha. Em fevereiro de 1775,
depois de semanas de cerco, assaltaram a praça; o ataque redundou num grande
fracasso, deixando mais de 8000 mortos. Muley Mohamed pediu a paz e os espanhóis
14
obtiveram novas vantagens comerciais, que se adicionaram ao tratado de 1776, em
prejuízo da Inglaterra.
A partir desse ano, a paz entre os dois países foi duradoura e proveitosa,
sucederam-se embaixadas e comissões que revelavam uma relação amigável e
agradável. A Muley Mohamed ben Abdalah sucedeu, em 1790, o seu filho Muley
Yazid, homem orgulhoso, caprichoso e déspota, que chegou ao poder graças ao apoio da
guarda negra, que o seu pai havia debilitado mas não aniquilado. Sendo um sultão
belicoso e apoiante da doutrina do irredentismo territorial, também quis conquistar as
praças espanholas, e, em setembro de 1790, ordenou o ataque à cidade de Ceuta, que se
repetiria em agosto desse mesmo ano. Os espanhóis contra-atacaram, bombardeando
Tânger. O destino da campanha ficou decidido quando o sultão levantou o cerco por se
ter produzido uma revolta no interior do país. O sultão morreu nessas lutas internas, no
ano de 1792.
Sucedeu-lhe Muley Soleimán, um dos seus filhos, de carácter mais benévolo e
amigo da paz, que procurou tratados de comércio com os Estados Unidos, a Sardenha e
alguns estados hanseáticos, e iniciou conversações com a Espanha. Provavelmente, a
prudência deste monarca vinha marcada pelos fracassos bélicos de seu pai o que o levou
a aceitar como possível a via amistosa. Como gesto de boa vontade, permitiu o regresso
ao império de missionários franciscanos, que haviam sido expulsos pelo sultão anterior.
Nomeou um alto funcionário imperial para negociar com a Espanha, Sidi Mohamed ben
Otmán, que facilmente colaborou com o governo de Cánovas, assinando-se um tratado
de paz, amizade, navegação, comércio e pesca, no dia 1 de março de 1799.
O tratado de 1799 era uma renovação do de 1767. Incluía a jurisdição consular,
de conteúdo fortemente religioso, que permitia que os litígios em que intervinham
espanhóis se resolvessem perante os cônsules de Espanha, arrebatando-os da jurisdição
marroquina. Esta era considerada uma vantagem para os europeus, que posteriormente
degeneraria num sistema capitular que diminuiu a autoridade do Majzen, como
veremos. Admitia-se a compra de imóveis para os espanhóis em Marrocos e vice-versa,
o livre comércio e a livre navegação (os direitos que os espanhóis deviam pagar por
introduzir mercadorias em Marrocos eram de 10 por cento, ficando excluídas algumas
quantidades de determinados produtos sobre os quais se aplicava uma tarifa de pesos ou
onças por quintal); reconheciam-se privilégios antigos ativos no comércio dos dois
países, como o da Companhia dos Cinco Grémios de Madrid, que permitia a saída de
15
cereais pelo porto de Casablanca, pagando-se 16 reais de bilhãoiii por cada alqueire de
trigo e 8 reais pelo de cevada; admitia-se, ainda, a compra de cânhamo e madeira
marroquina para arsenais espanhóis. O convénio não foi cumprido em numerosas
ocasiões, mas o balanço foi positivo quer para os espanhóis, porque se garantiu a paz e a
harmonia e se reduziu consideravelmente a pirataria, quer para os marroquinos, porque
a balança comercial lhes foi favorável durante muitos anos. Cánovas havia-o
classificado de «monumento insigne da humanidade por parte do novo Sultão e de
previsão política por parte do nosso governo».
No entanto, chegado o século XIX, os espanhóis começaram a planear políticas
expansionistas em Marrocos. A chegada dos franceses à Argélia, em 1830, as
conquistas portuguesas no sul do continente e o êxito inglês na colónia do Cabo
estavam a abrir as portas do continente a um novo modo de entender as relações
internacionais: o colonialismo. A Espanha considerava que Marrocos, por estar mais
próximo do que qualquer outro país europeu, era um assunto espanhol, embora fosse
chocar com a oposição inglesa, francesa e até alemã. Marrocos era a chave a sul para o
Estreito, tinha uma posição estratégica especial e um grau de desenvolvimento maior do
que o dos vizinhos africanos do sul. Não obstante, a desintegração política do império
que levou à crise social e económica favoreceu muito as políticas de intervenção
europeias.
No início do século XIX, aparece em cena uma personagem extraordinária,
aventureiro valioso, intrigante político, espião e escritor que respondia pelo nome
espanhol Domingo Badía y Leblich e que, convenientemente disfarçado de árabe,
visitou vários países muçulmanos sob o nome de Ali Bey el Abasí. Havia nascido em
Barcelona, em 1767, mas foi jovem para Cuevas de Almanzora. Ali residia ainda uma
comunidade mourisca e é possível que, nesse ambiente, Ali Bey el Abasí tenha
aprendido árabe, embora mais tarde tivesse aperfeiçoado os seus estudos
academicamente. Atraído pelo mundo muçulmano, embarcou para Marrocos. Soube
captar o apoio e a proteção do sultão Muley Soleimán e, por meio de intrigas e enganos,
encarregou-se de conduzir ao levantamento do reino de Fez para o ceder a Espanha.
Para isso, pediu auxílio militar a Godoy, com quem havia previamente estabelecido um
pacto - embora este incluísse apenas a possessão de cidades como Tânger - para apoiar
o rebelde Sidi Hassan, enquanto as tropas espanholas atacariam os marroquinos desde
iii
Antiga moeda espanhola [NT].
16
Ceuta. No entanto, Carlos IV não quis contribuir para tal intriga e os planos nunca se
concretizaram. Ali Bey teve que fugir de Marrocos e empreendeu viagem rumo ao Egito
e a Meca, sendo o primeiro europeu a visitar esta última, através da Argélia e da Líbia.
Também visitou a Turquia, a Síria e a Grécia, foi um afrancesado convencido e José I
nomeou-o alcaide de Córdova. Após a queda de Bonaparte, partiu de Espanha e voltou à
vida de fingimento e intriga. Disfarçado de agente francês, dirigiu-se a Damasco sob o
nome Ali Otmán, mas foi descoberto pelos serviços secretos ingleses e morreu
envenenado.
A França também tomava posições em Marrocos. Sob diversos pretextos, a
esquadra francesa comandada pelo príncipe de Joinville bombardeou, em agosto de
1844, os portos de Tânger e Mogador (Essaouira). Pouco depois, o exército imperial
marroquino, que foi em auxílio do líder argelino Abdelkader, foi derrotado na batalha
de Isly pelo marechal Bugeaud, o que ocasionou também uma perda de território que
está na origem das lutas políticas ainda existentes entre Marrocos – que reclama a sua
devolução – e a Argélia. O poder militar francês, muito superior ao marroquino, e o
medo que inspirava uma ocupação foram determinantes para a assinatura do Tratado de
Lalla-Marnia, em 1845, que fixava as fronteiras entre a Argélia e Marrocos.
No dia 6 de janeiro de 1848, os espanhóis planearam um golpe de autoridade,
quando ocuparam as Ilhas Chafarinas. A ocupação estava prevista, mas o capitão geral
de Granada, Francisco Serrano, duque de La Torre, que comandava a expedição a bordo
do Piles, acelerou os preparativos ao aperceber-se de que os franceses estavam a tentar
algo semelhante para proteger a entrada na Argélia. Tratava-se de três ilhas de pouca
extensão, em que, embora hoje apenas exista uma guarnição militar, na altura havia uma
população civil dedicada ao comércio e à pesca, uma igreja, um clube, um teatro e até
uma pequena fábrica de conservas. Quando as guerras do Rife acabarram, a população
começou a emigrar para Melilha e outros lugares mais convenientes. Além do seu
propósito militar, as ilhas serviram, em certas ocasiões, para desterro de cabecilhas
cubanos e marroquinos bem como dos rebeldes de Jaca.
Os incidentes com o reino marroquino foram uma constante. As reivindicações
marroquinas sobre as praças espanholas e os ataques a embarcações marcaram o destino
das relações entre os dois países. As embarcações marroquinas atacavam as espanholas,
roubavam a mercadoria, especialmente quando estas últimas ficavam varadas por causa
das tempestades. Houve alguns assassinatos e agressões a residentes no império. A ideia
que defendia a intervenção florescia entre certos intelectuais e alguns políticos. A
17
Espanha não queria abrir mão de Marrocos num processo que se avizinhava, mais ainda
quando havia perdido quase a totalidade das colónias americanas. Em 1844, Serafín
Estébanez Calderón publicou o seu Manual del oficial en Marruecos, obra que
respondia à corrente de opinião partidária da intervenção direta e de ocupação do
território no norte magrebino. O título é enganador, já que se trata sobretudo de um
ensaio descritivo sobre o país vizinho, que abrange geografia, estado político e história.
O autor tentava dar uma visão do império do sul, promover o conhecimento dessa nação
e iniciar o trabalho propagandístico a favor do eternamente escasso partido africanista
espanhol.
Estava-se a abrir portas a uma corrente de opinião política partidária de uma
intervenção direta no império do sul. Os seus promotores consideravam que a Espanha
tinha mais direito a intervir do que outras potências europeias, devido à sua história e à
sua proximidade. A ocupação francesa da Argélia havia aberto uma porta e apontado
um caminho. Estébanez, já afastado da milícia e da política, escreveu um livro após o
assassinato de um agente do consulado espanhol em Marrocos. Os ânimos
antimarroquinos aqueciam na Espanha da época, clamava-se por uma guerra que não
aconteceu e o livro vendeu-se rapidamente, conduzindo o autor à Academia de História.
A mentalidade do escritor, comum à da Espanha da época, tratava de resumir os tópicos
sobre o atraso de Marrocos e a despótica autoridade dos seus chefes, começando pelo
sultão: «Um estado perfeitamente despótico, o sultão é o dono absoluto do que os seus
súbitos possuem, até a vida que vivem não a têm senão em depósito»6. Esta obra é, de
facto, propagandística da guerra que chegaria, por fim, em 1859, mas que, no espírito de
muitos espanhóis, era considerada a política necessária para enfrentar a questão
marroquina. Por isso, Estébanez conclui: «Todos os esforços da diplomacia chocarão
com a natureza das coisas e a Espanha deve acompanhar cuidadosamente, com os olhos
bem abertos, acontecimentos importantes, para não ser apanhada desprevenida. No
momento em que a França passar as margens de Muluya ameaçando os distritos de
Guert, Errif e Tetuan, a Espanha deve agir ativamente para que ninguém, a não ser ela,
domine aquela parte da costa setentrional de África e, para isto, é necessário ter em
maior consideração e deixar menos de lado os nossos domínios daquele país»7. Para
isto, propunha o afastamento da França, a coligação diplomática com a Grã-Bretanha e
o uso da força na conquista.
18
2
A GUERRA DE 1859-1860: AS CAUSAS, O DESENVOLVIMENTO E AS
CONSEQUÊNCIAS.
A GUERRA DE 1893.
As difíceis relações com Marrocos
A partir da segunda metade do século XIX, ocorre uma mudança na política
africana espanhola. Pouco a pouco, aparece um partido de africanistas defensores da
intervenção nos assuntos marroquinos, de reivindicações territoriais no continente e da
presença espanhola nos fóruns onde se iria debater as distribuições. Não eram muitos,
mas, entre eles, contavam-se intelectuais de prestígio e alguns políticos de primeira fila.
Os impulsionadores desta corrente foram Joaquín Costa, Francisco Coello, Emilio
Bonelli e outros geógrafos e militares que foram abrindo um dos caminhos por onde
transcorreria a política exterior espanhola, de tal forma que a questão africana se tornou
mais presente na imprensa, nas publicações e nas Cortes. Como consequência de tudo
isto, qualquer incidente no império marroquino ou no golfo da Guiné era engrandecido
ao ser exposto com intenção propagandística. Os governos procuraram não se descuidar
nos assuntos africanos, não só para evitar protestos e escândalos, mas também porque
essa era a forma de não empurrarem a Espanha para o isolamento internacional.
No entanto, a política africana nunca foi uma prioridade dos governos espanhóis
dos séculos XIX e XX, a não ser em raros momentos. Coincide com uma etapa em que
recrudesceram os ataques aos espanhóis e aos franceses em Marrocos, possivelmente
como desconfiança face à agressividade europeia. Os franceses já haviam optado pela
rutura com Marrocos, pela intervenção no país e pela ocupação definitiva. Em 1844,
ocorre a batalha de Isly, na qual o sultão foi derrotado quando foi ajudar o líder argelino
Abd el Kader, tendo os franceses alargado o seu departamento de Orão às custas do
território marroquino. Os espanhóis viam com preocupação a atividade gaulesa num
cenário que consideravam da sua incumbência e não queriam ficar marginalizados em
nada que afetasse o império magrebino. Os europeus rivalizavam pelas riquezas de
Marrocos, principalmente minas e cereais, e por conseguirem ser os fornecedores do
império, pelo que as ações de uma potência provocavam a reação das outras.
19
Neste contexto, os marroquinos continuaram com as suas eternas reclamações
sobre as praças espanholas. Pelo tratado de 1799, com Muley Soleimán, os espanhóis
haviam adquirido o direito a ocupar as franjas do território que envolviam Ceuta e
Melilha, mas as tribos fronteiriças não reconheceram esta cessão e ocupavam o
território em discussão. Em 1844, o cônsul espanhol em Tânger havia entregado ao
representante do sultão um ultimato em que se exigia o restabelecimento da linha
exterior de Ceuta e a devolução do território que ocupavam as cabilas.
Surpreendentemente, o governo marroquino ignorou a extensão territorial espanhola e o
facto de esta haver sido contemplada no tratado de 1799. Contudo, a intervenção do
cônsul britânico Drummond Hay∗ fez com que o imperador aceitasse as pretenções
espanholas e assinasse um acordo, no dia 25 de agosto desse ano, reconhecendo o
direito espanhol e oferecendo algumas indemnizações pelos ataques. Para cumprir o
acordo, procedeu-se à demarcação dos limites exteriores de Ceuta, mediante uma ata
assinada no dia 7 de outubro e confirmada no acordo de Larache, de 16 de maio de
1845. Contudo, isto não deixou os cabilenhos satisfeitos e as agressões contra os
espanhóis e os ataques às embarcações continuaram.
Em 1847, criou-se a Capitania Geral de África em Ceuta, que desapareceu pouco
depois, mas que deu à praça maior importância militar, coincidindo com os ataques que
os marroquinos fronteiriços faziam contra Melilha pelo mesmo motivo de discórdia: o
desacordo nos limites exteriores. Em 1849, o general Chacón dá início a uma ação de
punição contra os cabilenhos próximos de Melilha. Em 1854, foi capturada a
embarcação espanhola Nuestra Señora del Carmen, e, em 1856, a San Joaquín,
iniciando-se uma série de capturas e ataques corsários às embarcações espanholas que
se aventuravam nas costas marroquinas ou que tinham a desgraça de encalhar devido a
tempestades. Para conter estas ações, enviou-se uma esquadra para Tânger, em 1856,
conseguindo-se um acordo com o representante do sultão, que se completaria com
∗
Sir John Drummond Hay havia nascido em 1816 e, aos vinte e quatro anos, já era funcionário na
embaixada britânica, em Constantinopla. Quatro anos depois, foi enviado para Tânger como agente
consular para manter um contacto pacífico com o sultão numa fase de crise franco-britânica. Ali
permaneceu mais de quarenta anos, sendo imprescindível em toda a atuação diplomática no império.
Interveio como mediador em conflitos de Marrocos com a Dinamarca, com a Suécia ou com a Espanha,
como já se viu. Em 1856, como ministro residente, negociou e assinou o tratado de comércio entre a
Grã-Bretanha e Marrocos. Continuou sempre com a carreira diplomática em Marrocos, chegando a
plenipotenciário e a enviado extraordinário. Reformou-se em 1886, mas continuou a residir parte do ano
em Tânger. Morreu na Escócia, em 1893. Teve uma grande influência em todos os assuntos marroquinos
e os seus livros eram de leitura obrigatória e a informação era copiada pelos que queriam saber algo sobre
a realidade marroquina. Destacam-se Morroco and the Moors. Western Barbary: Its Wild Tribes and
Savage Animals (1869) ou as memórias publicadas em 1896.
20
outro, assinado em Tânger no dia 29 de agosto de 1859, que garantia o alargamento do
campo exterior de Melilha até onde chegasse a bala de um canhão de 24 polegadas de
calibre, disparado com a espoleta a zero desde o centro da cidade amuralhada, bem
como o posicionamento de tropas do sultão nas fronteiras das praças espanholas e em
frente de Alhucemas e Vélez de la Gomera, para se garantir a sua segurança. Mas, os
cabilenhos de Anyera∗ manifestaram a sua oposição a este acordo, atacando algumas
obras de fortificação de Ceuta.
As causas e a preparação da guerra
Afirmar que o ataque dos anyera a Ceuta e a ausência de punição por parte do
sultão foram a única causa da guerra é exagerar, embora seja aquela que a historiografia
tradicional da época prefere. Mesmo supondo que foi a gota de água, o último de uma
série de ataques e agressões, não pode explicar por si só o sucedido, porque, tal como
em ocasiões anteriores, se poderia saldar com uma ação de punição ou com uma
reclamação diplomática. Os espanhóis aumentaram os incidentes e os marroquinos
prometeram castigar os culpados com o objetivo de manter alguma paz com a Espanha,
que já durava há mais de cem anos. As relações entre ambos os países desenvolviam-se
de forma satisfatória, após a assinatura do tratado de paz de 1799. No entanto, o sultão
alargava demasiado as relações diplomáticas sem qualquer demonstração de autoridade,
provavelmente porque não tinha força suficiente para fazer frente às cabilas de Anyera,
que, perante a falta de ação, voltaram à carga contra as fortificações espanholas. Por
outro lado, os espanhóis pareciam prontos para a guerra e impediram qualquer acordo
com o enviado do sultão.
Nesta etapa da história, a Espanha estava em paz interior, após o fim da guerra
carlista, e conhecia um importante desenvolvimento económico. Havia-se iniciado uma
política exterior audaz, com intervenções na Cochinchina (1858), em Santo Domingo
(1861), no México (1862) e na Guerra do Pacífico (1866). O poder que o exército
espanhol havia alcançado, após anos de guerra civil, e o auge que o colonialismo militar
estava a atingir contribuíram possivelmente para a aventura africana que tinha como
objetivo manter os militares ocupados: em 1857, os ingleses enfrentaram uma sangrenta
revolta de sipaios na Índia e, em 1859, os franceses atacaram os marroquinos a partir da
∗
Anyera, Anjera ou Anghera (Anjra é a denominação oficial em Marrocos) é a cabila cujo território
circunda a cidade de Ceuta.
21
Argélia. Como dizíamos, a política francesa cada vez mais agressiva em Marrocos fez
com que os políticos espanhóis temessem que a Espanha fosse posta fora de jogo. Era
também uma oportunidade de mudar o curso da história de derrotas que a Espanha havia
sofrido na América e na humilhante invasão napoleónica. A guerra de África era, pois,
uma ocasião para se encontrar uma causa nacional, um objetivo que unisse todos os
espanhóis contra um inimigo comum e estrangeiro. E não foi desperdiçada. A empresa
configurou-se como algo de todos e tanto os políticos, com algumas exceções
destacadas, como Alonso Martínez, como a imprensa que representava a opinião das
distintas fações (por exemplo, os artigos de Emilio Castelar em La Discusión) apoiaram
a aventura. Por outro lado, foi uma empresa muito popular. As pessoas iam despedir-se
das tropas, esgotavam-se as edições dos jornais e dos folhetos que contavam
semanalmente as vicissitudes da campanha, organizavam-se banquetes que faziam
sucesso e iniciativas para angariar fundos, surgiram voluntários de todo o lado, até dos
distritos catalães e do País Basco, que sofreram a guerra carlista com maior força.
Essa corrente favorável entre a opinião pública foi habilmente aproveitada pelo
governo da União Liberal para declarar a guerra. Houve que ultrapassar algumas
reticências diplomáticas, já que a Inglaterra via com maus olhos qualquer ação que
incluísse Tânger, dada a sua posição estratégica como chave para o Estreito, e a França
não toleraria um ato de ocupação de território africano.
Oferecidas as garantias pertinentes, O’Donnell propôs ao Parlamento uma
declaração de guerra, no dia 22 de outubro de 1859, que foi aprovada por unanimidade
pelos 187 deputados presentes. Nada se criticou, nada se discutiu. Ninguém colocou
objeções às datas escolhidas, nem se questionou o estado do exército em geral, nem se
propôs uma informação exaustiva sobre o inimigo, nem se falou do desconhecimento do
teatro de operações. Havia tanto ardor guerreiro próprio como desdém pelo inimigo.
Contudo, o sultão era o encarregado de manter a ordem no território que rodeava Ceuta,
tal como se assinou no tratado de 1845, e o incumprimento desta cláusula foi visto
como causa suficiente para declarar a guerra. De facto, o sultão não tinha força que
chegasse para manter a ordem e a autoridade em todo o império, e as ações dos berberes
rifenhos fugiam ao seu controlo. O’Donnell referiu no Parlamento a necessidade de
lavar a honra e terminou a sua intervenção dizendo: «Firmes na nossa razão e no nosso
direito, o Deus dos exércitos fará o resto». E, num ambiente de júbilo, de exultante
impulso patriótico, os espanhóis viram esta guerra como uma magnífica ocasião para
demonstrar o seu poder. Os espanhóis haviam tido sempre uma forte desconfiança,
22
quando não inimizade, pelos mouros. E, naqueles tempos, começava a antever-se a
possível expansão em território marroquino, tal como havia previsto a rainha Isabel, a
Católica, no seu testamento.
A guerra de 1859-1860
Após a declaração de guerra, forma-se o corpo expedicionário do exército sob o
comando do capitão geral Leopoldo O’Donnell Joris, conde de Lucena. É insólito que o
comando do exército expedicionário recaísse no presidente do Governo. A autoridade
superior do estado-maior era o marechal de campo Luis García e o seu tenente era o
brigadeiro José Ramón Mackenna. Este Exército de Operações ou Exército de África
organizou-se da seguinte forma:
a) Primeiro Corpo do Exército, sob o comando do marechal de campo
Rafael Echagüe Birmingham, que se organizou no campo de Gibraltar e
Ceuta. Composto por uma brigada de vanguarda e uma divisão. No total,
doze batalhões de infantaria, um esquadrão de cavalaria, três companhias
de artilharia montada com dezoito peças, quatro companhias de
engenheiros, quinze guardas-civis a pé e outros quinze a cavalo.
b) Segundo Corpo do Exército, sob o comando do tenente-general Juan
Zabala de la Puente, conde de Paredes de Nava, organizado no distrito de
Cádis. Composto por duas divisões com um total de dezasseis batalhões
de infantaria, um esquadrão de cavalaria, três companhias de artilharia
montada com doze peças, uma companhia de artilharia de montanha com
seis peças e uma companhia de engenheiros, quinze guardas-civis a pé e
outros quinze a cavalo.
c) Terceiro Corpo do Exército, sob o comando do tenente-general Antonio
Ros de Olano, conde de La Almina, organizado em Málaga. Composto
por duas divisões com dezasseis batalhões de infantaria, um esquadrão de
cavalaria, duas companhias de artilharia com doze peças e uma de
montanha com seis peças, uma companhia de engenheiros, quinze
guardas-civis a pé e outros quinze a cavalo.
d) Uma divisão de reserva, formada em Antequera sob o comando do
tenente-general Juan Prim Prats, conde de Reus. Composta por quatro
23
batalhões de infantaria, dois batalhões de artilharia e outros dois de
engenheiros.
e) Uma divisão de cavalaria sob o comando do marechal de campo Félix
Alcalá Galiano, formada no Porto de Santa María. Composta por nove
esquadrões de cavalaria e três de artilharia com doze peças.
Um total de 163 oficiais-generais e superiores, 1599 oficiais e 33228 classes de
tropa e soldados.
Embora os números não sejam exatos, já que, ao longo da campanha, se foram
somando efetivos, calcula-se que tenham participado entre 45000 a 50000 espanhóis. Os
tratadistas, como o general Martín Arrúe, falam de escassez de tropa de infantaria para
empreender uma campanha em terra inimiga. Também participou uma pequena frota
sob o comando do almirante Segundo Díaz Herrero. À sua frente estava um exército
marroquino de composição imprecisa, mas que talvez integrasse mais de 100000
soldados de infantaria e mais de 30000 de cavalaria. Serrallonga resume a preparação da
campanha em duas palavras: improviso e desconcerto. Fala do erro de escolher Tetuan
como objetivo, da falta de recursos da armada, da pesada administração e de carências
sanitárias, sobretudo perante a cólera, que era epidémica nessa altura. A isto há que
acrescentar o problema das comunicações escassas e a falta de recursos, que se resolveu
em parte com a ajuda de instituições de caridade.
As tropas espanholas em Ceuta
A primeira parte das operações consistia em situar as tropas espanholas fora da
cidade de Ceuta, fortificar as posições onde aquelas acamparam e organizar a marcha
em direção ao inimigo. Uma vez transportadas as tropas para África, muitas em
embarcações estrangeiras contratadas para o efeito, montaram-se os acampamentos em
Ceuta. A cidade era pequena e estava contida numas muralhas que deixavam pouco
espaço para os recém-chegados. Tal quantidade de tropa em tão pequeno espaço
originou um amontoado que favorecia as doenças. As ruas encheram-se de soldados e
tendas, de transeuntes, de feridos e de todos os civis que acompanhavam um exército na
guerra, desempenhando diversos ofícios e comissões. À medida que chegavam mais
tropas e perante a impossibilidade de as alojar na cidade, estas afastavam-se do centro
para montar os acampamentos no campo exterior. Ceuta encontrava-se amuralhada após
24
um canal que a convertia numa ilha. Desde este canal até à zona em disputa com
Marrocos, existia um pequeno território com algumas hortas e construções escassas, que
carecia de defesa permanente e favorecia os ataques marroquinos. Neste espaço, foram
acampando as remessas de tropas seguintes, estabelecendo alguns redutos fortificados
que foram a origem de uma linha de fortes que viriam a construir-se.
Os espanhóis estabeleceram no campo exterior o quartel general de O’Donnell e
os mais avançados dos acampamentos de Prim e Zabala. Ainda mais em direção ao
campo inimigo, encontravam-se a mesquita e o outeiro onde ocorreram os primeiros
combates. Um pouco mais adiante, já passada a fronteira, formaram um grande
acampamento num antigo casarão chamado El Serrallo, que era um excelente lugar de
observação de Ceuta, por um lado, e da serra de Bullones, por outro. «Foi sem dúvida,
um soberbo alcácer, quase tão vistoso por fora (o que é próprio das construções árabes)
como os que habitam os nossos soberanos europeus, muito bem situado para se ter uma
vida paradisíaca», dizia Alarcón1. O edifício encontrava-se abandonado, embora fosse
refúgio ocasional de algumas autoridades da zona. Havia sido conquistado com
facilidade, possivelmente porque se tratou de uma ação que o inimigo não esperava, e
ali acamparam as forças de Echagüe, que desembarcaram no dia 19 de novembro. A
armada bombardeou o campo inimigo enquanto os engenheiros limpavam e
fortificavam as posições espanholas. Echagüe tinha a missão de entreter o inimigo
enquanto a maior parte das forças espanholas desembarcava no cabo Negro para atacar,
a partir daí, a foz do rio Martín, o forte que os mouros possuíam no lugar e o caminho
para Tetuan. El Serrallo era o centro de um arco defensivo sobre o qual se iniciaram os
trabalhos de três redutos, Isabel II, Príncipe Alfonso e Francisco de Asís, a que, mais
tarde, se juntariam outros três que garantiam a defesa dos acampamentos espanhóis e da
cidade de Ceuta.
Os redutos eram fortificações provisórias, mais do que pequenas fortificações;
no entanto, nestas posições, construir-se-iam, posteriormente, os fortins que ainda se
encontram na cidade africana. O plano espanhol consistia em assegurar este território
fronteiriço para marchar pela costa até à foz do rio Martín (Jelú), onde existiam uns
pequenos fortins marroquinos, continuar, de seguida, pela margem do rio até à cidade de
Tetuan, conquistá-la e prosseguir até se fazer o mesmo com Tânger.
A dureza do terreno dificultava a construção de redutos avançados e os
marroquinos fustigavam continuamente os espanhóis através de confrontos, emboscadas
ou escaramuças. Em frente às tropas espanholas, espalhadas nos arredores de Ceuta,
25
para oeste, apresentava-se a serra de Bullones, de difícil acesso, cumes escarpados,
embora não muito elevados, e barrancos profundos que dificultavam o avanço e
facilitavam as emboscadas. Era a fronteira natural do território plano de Ceuta. Uma
abertura no maciço montanhoso, conhecida como o buraco de Anyera, fazia ligação
com o caminho para Tânger pelo Estreito, que os espanhóis não tinham previsto seguir,
e com um vale onde se concentrava a maior parte da população da cabila. No entanto,
tratava-se de um desfiladeiro perigoso para os espanhóis e uma saída natural dos
atacantes. À frente deste acidente natural, construía-se a todo o vapor o reduto de Isabel
II. Na parte mais próxima da margem, levantar-se-ia o reduto de Alfonso XII, para
proteger a estrada que se projetava em direção a Tetuan, num corredor coberto entre a
costa e a serra, onde só existia uma vereda. A proximidade das elevações à praia
dificultava o trabalho, já que os espanhóis estavam na mira das espingardas dos
rifenhos.
No dia 25 de novembro, deu-se a primeira batalha importante na serra de
Bullones. O inimigo marroquino havia-se concentrado em grande número nos sopés e
barrancos da serra, à frente das posições avançadas espanholas. Chovia a cântaros e os
espanhóis apenas podiam divisar o inimigo quando já o tinham em cima. Os
marroquinos tentavam isolar o reduto de Isabel II do acampamento de El Serrallo e
atacavam simultaneamente as obras dos outros redutos. Era uma tentativa desesperada
de expulsar o intruso do seu território e impedir que a guerra continuasse. O ataque do
inimigo teve de ser combatido com várias cargas de baioneta e com lutas corpo a corpo.
Os batalhões espanhóis ficaram isolados uns dos outros pelas forças marroquinas. No
entanto, o valor e a disciplina serviram para vencer a dificuldade. O general Echagüe
colocou-se à frente das suas tropas, ficando ferido na mão e com o seu cavalo morto. A
carga do brigadeiro Lassansaye com os batalhões de Talavera e Mérida serviu
finalmente para socorrer os de Madrid e os de Alcântara, e conseguiu-se salvar o destino
da batalha, que se apresentava muito difícil, conquistando-se a primeira grande vitória.
A batalha causou 411 baixas do lado dos espanhóis (94 mortos).
Por fim, no dia 27, desembarcou, em Ceuta, o general O’Donnell, produzindo
um enorme júbilo entre a tropa, como assinalava Alarcón no seu Diario de un testigo de
la guerra de África. Nesse mesmo dia, chegaram parte do Segundo Corpo e a divisão de
reserva.
Apesar dos combates, a serra de Bullones não havia sido conquistada; apenas se
repeliram os ataques e reforçaram as posições espanholas à espera do resto das tropas,
26
que ainda não haviam podido desembarcar devido ao estado do mar. As investidas
inimigas continuaram durante todo o mês de novembro. No dia 27, O’Donnell
conseguiu finalmente desembarcar com a divisão de Orozco e parte da reserva de Prim.
Nos ataques do dia 30, O’Donnell encontrava-se à frente das tropas e observava como
os mouros se introduziam no campo espanhol através do buraco de Anyera e cercavam
a posição do Renegado, que dominava o reduto espanhol de Isabel II. O avanço foi
cortado com uma carga de baioneta do regimento de Madrid, com o coronel Caballero e
os soldados de Borbón, que cercaram o inimigo, abortando o seu plano de ataque e
encurralando-o de costas para o mar. Mas os cabilenhos recusaram render-se, morreram
a combater ou lançaram-se ao mar, onde a maioria acabou afogada; poucos conseguiram
chegar às praias da baía de Benzu para se porem a salvo.
Apesar da ousadia do inimigo, os espanhóis eram superiores, contavam com
melhor cavalaria e armamento, e estavam protegidos pelas baterias de artilharia que
flagelavam as concentrações marroquinas. O exército espanhol ficou na defensiva até
que se completasse o plano inicial de ataque e avanço. Era necessário que a marinha
transportasse o resto da tropa e bombardeasse as posições assinaladas no rio Martín, o
que foi impedido pelo forte vento levante que devastava as costas africanas.
A situação continuou sem grandes sobressaltos. Os espanhóis prosseguiam as
obras de defesa e o início da estrada para Tetuan, seguindo pela costa até ao rio Martín e
organizando as tropas para o avanço definitivo. Os cabilenhos flagelavam-se fustigando
as posições e acampamentos com pequenas ações que mantinham em contínuo alerta as
tropas espanholas. Mas chegou o momento em que os marroquinos das cabilas
fronteiriças lançaram um ataque desesperado com a intenção de vencer definitivamente
o exército espanhol. No dia 9 de dezembro, as tropas avançadas dos redutos de Isabel II
e do Rei Francisco notaram que o inimigo se aproximava das trincheiras, atacava e
conseguia passar pelas linhas espanholas. Cada reduto estava defendido por três
companhias, que não foram suficientes para deter os magrebinos, tendo sido necessário
pedir reforços para os expulsar para os bosques próximos. Uma vez reorganizados, os
espanhóis lançaram um segundo ataque.
A jornada foi uma sucessão de ataques rifenhos repelidos pelas tropas de reforço
espanholas, seguidos de uma reorganização e de novos ataques. Foi uma luta
extenuante, em que não houve tréguas. Os sobreiros dos bosques serviam de proteção
aos atiradores cabilenhos, que não pouparam esforços. Uma vez repelidos os ataques,
O’Donnell decidiu não seguir os marroquinos até aos bosques mas, antes, esperá-los nas
27
posições fortificadas. Perante isto, os cabilenhos, conscientes da sua inferioridade em
ataques em campo aberto, abandonaram a luta e voltaram para as suas casas. O
combatente marroquino era duro; não se deixava prender, preferia a morte.
Sustentava-se com muito pouco e resistia aos espanhóis com um caráter invejável.
Yriarte escrevia: «Queimaram-lhes as searas, cortaram-lhes pelo tronco as árvores de
fruto que mantinham essas tribos; até os mananciais foram tapados para se conseguir a
dispersão das hordas»2. Mas escondiam-se em grutas e resistiam aos espanhóis até ao
limite das suas forças.
Todo o mês de dezembro decorreu com contínuos ataques mouros aos
espanhóis, que defendiam os seus redutos e trabalhavam na estrada para Tetuan. Para
organizar a marcha, tinham de traçar uma estrada capaz de suportar a passagem dos
canhões e das carroças. As forças espanholas tinham que avançar pela costa sul de
Ceuta para chegarem ao cabo Negro e ao rio Martín, onde esperariam o resto das forças
de combate que iam desembarcar nesses pontos. Os ataques marroquinos na serra de
Bullones não haviam alcançado o objetivo de parar e fazer recuar o exército espanhol,
que, superadas as elevações iniciais, avançava para o vale de Los Castillejos. Os ataques
agravaram-se ao chegar o Natal. Os mouros disparavam não só as suas velhas
espingardas como também as suas modernas armas, compradas à Grã-Bretanha. Já não
eram apenas os cabilenhos de Anyera, como nos primeiros combates; agora, tinham o
apoio das tropas do exército do sultão, que, enviadas pelo seu irmão Muley el Abbas,
acampavam na parte final do rio Martín (Uad el Jelú). Era um exército numeroso, mas
carecia do armamento e da disciplina do exército espanhol. Os hospitais de Ceuta
encheram-se de feridos nos combates e de doentes de cólera; e alguns tiveram que ser
transportados para a península para dar lugar aos que chegassem depois.
A batalha de Castillejos
A segunda parte da ofensiva compreendia o avanço por uma linha paralela à
costa. A partir do dia 12 de dezembro de 1851, o exército espanhol dedicou-se quase
por completo a trabalhar no caminho de Ceuta a Tetuan para que este estivesse
transitável. A divisão de reserva de Prim estava encarregada de proteger as obras, por
isso foi escalonada ao longo do caminho de Ceuta a Tetuan, nos contrafortes
montanhosos, protegendo de possíveis ataques marroquinos o corredor costeiro onde se
trabalhava.
28
Os espanhóis tinham pressa de sair do contorno montanhoso e de poder enfrentar
o inimigo em campo aberto. Procuravam proteger-se na planície para evitar as contínuas
agressões e emboscadas que os marroquinos organizavam, aproveitando o terreno. No
dia 1 de janeiro de 1860, deu-se a batalha decisiva de Los Castillejos, vale situado a
cerca de 10 quilómetros de Ceuta e passagem obrigatória para o cabo Negro e para o rio
Martín. Ali, havia um pequeno aduar de beduínos que, durante o protetorado, os
espanhóis transformaram numa vila, que hoje tem o nome de Fnidiq e conta com quase
60000 habitantes. Nas colinas próximas, acampava um numeroso contingente de tropas
marroquinas. O ano novo começou com um importante dispositivo espanhol que
avançava para ali. Prim ia na vanguarda e parou quando divisou o lugar. Havia chegado
pela costa sem oposição. Nas primeiras colinas, em frente, aguardavam cerca de mil
mouros, que constituíam a vanguarda inimiga. A artilharia limpou o bosque, ao passo
que o brigadeiro Serrano protegia o flanco para que Prim tomasse posições no vale
enquanto algumas forças de fuzileiros desembarcavam.
Defronte dos espanhóis, encontravam-se cerca de vinte mil combatentes
inimigos, entre cabilenhos e tropas do sultão. Os espanhóis haviam ocupado Castillejos,
onde existiam algumas ruínas, protegendo-se no vale. Mas a verdadeira batalha
aconteceria nas elevações onde os marroquinos se escondiam, avançando pelos sopés da
serra num movimento paralelo, tendo o exército espanhol na mira. Para evitar o fogo
inimigo, Prim atacou com quatro batalhões em linha, quatro em reserva e o Regimento
de Córdova como segunda reserva, apoderando-se de uma colina dominante. Entretanto,
na planície, os Hussardos da Princesa atacavam, pondo o inimigo em fuga até chegar a
um terreno onde se tinham cavado algumas aberturas, nas quais caíram cavalos e
cavaleiros e onde ocorreu a única perda séria do exército espanhol. As dificuldades de
um terreno irregular, cheio de ravinas e barrancos, com florestas nos sopés das serras,
impediram os espanhóis de chegar ao acampamento mouro. Mas Prim aproveitou para
estabelecer o acampamento da sua divisão na colina conquistada e, numa das suas
elevações, pôde ver o contingente inimigo, o que despertou o seu desejo de o atacar.
Contudo, percebeu que o seu objetivo era Tetuan e não o acampamento, pelo que
manteve as suas posições.
Apesar de tudo, a realidade não era tão simples; Alarcón escrevia: «A posição do
referido campo era mais forte do que parecia à primeira vista, situado como estava no
fundo de quatro montes apinhados, cuja conquista nos havia custado uma luta longa e
sangrenta, bem como havia distraído as nossas forças da sua verdadeira direção»3.
29
Entretanto, os marroquinos receberam reforços e, dada a passividade ofensiva
espanhola, decidiram atacar Prim na sua base, através de vagas contínuas de
combatentes que colocavam em grande perigo as posições espanholas. Os espanhóis
tinham lutado todo o dia, sem descanso nem comida, quando o Regimento do Príncipe
foi cercado numa colina: era uma situação comprometedora, na qual a derrota estava
quase garantida. Prim tomou uma decisão arriscada: mandou avançar a artilharia para
combater o inimigo enquanto os soldados eram repostos. Os soldados espanhóis
abandonaram as suas mochilas no terreno para poderem combater mais à vontade,
deixando na campanha tudo aquilo de que necessitavam, exceto a espingarda. Prim,
num ímpeto de coragem, tirou a bandeira espanhola do porta-bandeira e falou às suas
tropas com palavras que Pedro Antonio de Alarcón reproduziu: «Soldados! Vós podeis
abandonar as vossas mochilas, que são vossas; mas não podeis abandonar esta bandeira,
que é da pátria. Eu vou meter-me com ela nas linhas inimigas… Permitireis que ela caia
em poder dos mouros? Deixareis morrer o vosso general sozinho?». As palavras
surtiram efeito, os soldados carregaram à baioneta e fizeram dispersar aqueles que já os
tinham quase vencidos. Nesse momento, os soldados do Segundo Corpo do Exército de
Zabala chegaram ao acampamento, evitando que as tropas de Prim fossem cercadas, e
golpearam o flanco marroquino. Os mouros ainda atacaram, uma terceira vez, as tropas
espanholas, que, conforme o dia passava, estavam mais reforçadas nas suas posições e
com as defesas mais bem fortificadas para poderem derrotar com mais segurança os
inimigos. A vitória foi total. Os marroquinos atravessaram o rio Castillejos,
desmontaram o acampamento e dispersaram em direção ao sul ou para o este, pela serra.
Os espanhóis dominavam já o vale e os primeiros contrafortes da serra, e podiam
continuar o caminho para o sul. No entanto, a batalha havia provocado muitas baixas de
ambos os lados.
A partir de Castillejos, os espanhóis deviam seguir pela costa até à foz do rio
Martín. O caminho era pantanoso e estava cheio de irregularidades que favoreciam as
emboscadas e os ataques mouros. Deviam chegar a Altos de la Condesa e atravessar o
rio Manuel, passar por um desfiladeiro estreito, atravessar o rio Smir até chegarem ao
cabo Negro e ao monte que o circunda até à foz do Martín, onde os marroquinos tinham
o acampamento principal, alguns fortes e paióis. Em mais de um mês, apenas se havia
avançado cerca de 10 quilómetros.
30
Cabo Negro e o rio Martín
Como dissemos, o passo seguinte do exército espanhol era avançar pelo caminho
de Tetuan, que seguia paralelo à costa até ao rio Martín. Os marroquinos ocupavam as
elevações laterais, atacando continuamente os espanhóis, que avançavam pela beiramar. Os combates ocorreram a céu aberto. No dia 4 de janeiro, os espanhóis estavam em
Altos de la Condesa, muito próximo de Castillejos, e tinham diante de si a dificuldade
de atravessar o rio Manuel, que se apresentava como um obstáculo. Para salvar a
situação, gizou-se uma ação que apanhou de surpresa os marroquinos; «um dos
movimentos mais formosos feitos nesta guerra pelos espanhóis», segundo o francês
Yriarte4. O exército espanhol estava acampado à beira do rio Manuel, enquanto os
marroquinos esperavam, colocados nos contrafortes da serra, para atacarem quando os
espanhóis cruzassem um baixio estreito. No entanto, descobriu-se que o rio Manuel não
desaguava abertamente no mar; em vez disso, passava através de uma língua de areia
suficiente para transitarem homens, animais, carroças e canhões. Enquanto Ros de
Olano realizava manobras de entretenimento, a maior parte do exército espanhol
atravessou o rio para continuar para o sul sem grandes contratempos. Quando os mouros
deram conta da manobra, os espanhóis já se encontravam no Montenegro, uma elevação
à beira-mar que fecha o caminho para o rio Martín. Sucederam-se os ataques mouros
frente às forças de Ros de Olano, que teve de os conter.
Os espanhóis ainda tiveram contrariedades com o tempo. Uma forte tempestade
junto do rio Smir obrigou-os a acampar, em condições muito difíceis, no aduar de
M’diq ou Medik, em campos encharcados e sem os alimentos que lhes deviam chegar
por mar. A água inundava tudo, os espanhóis ficavam encharcados enquanto combatiam
o inimigo. O terreno pantanoso dificultava o avanço e facilitava as doenças.
Os espanhóis já estariam a avistar o vale de Tetuan quando passaram o cabo
Negro e divisaram o rio Martín, por cuja várzea chegariam à cidade. No cabo Negro,
aguardavam, outra vez, as forças marroquinas, reforçadas pela guarda negra do sultão e
pela numerosa cavalaria chegada de Tetuan, contra a qual lutou a artilharia espanhola. O
terreno era propício para as cargas de cavalaria, mas os marroquinos não se atreveram a
lançar o ataque. Foram os espanhóis que, apoiados pelo fogo de granadas, tomaram a
iniciativa. No dia 16 de janeiro, haviam madrugado e, sem perder tempo com o
pequeno-almoço, aliviados apenas por bolachas secas, lançaram-se às colinas para
desalojar o inimigo. A chegada da esquadra e o seu fogo contra as posições inimigas
31
fizeram o resto. Às três horas da tarde, chegaram novas embarcações com a divisão do
general Ríos.
Os espanhóis acamparam nas ladeiras das colinas e chegaram nesse mesmo dia
ao rio Martín, onde existia um pequeno forte marroquino, que foi conquistado,
conseguindo-se recuperar 7 canhões de calibre 24. Em dezasseis dias, haviam avançado
quarenta quilómetros e estavam quase a dez de Tetuan. O inimigo havia perdido uma
posição de grande importância estratégica e, seguramente, psicológica. A esquadra
espanhola fundeou na foz do rio Martín. No entanto, como assinala Joly, no geral, não
havia ilusões acerca das dificuldades que ainda tinham de vencer. Os marroquinos
instalaram-se à frente da cidade de Tetuan, numa última tentativa de a manter em seu
poder. Os espanhóis montaram o acampamento principal no forte Martín. Haviam
completado todo o trajeto costeiro e deviam começar o caminho interior, para oeste,
seguindo o curso do Martín, para chegar a Tetuan.
O’Donnell esperou um tempo, antes de dar início à ação decisiva de atacar
Tetuan. As tropas recém-chegadas eram jovens e inexperientes e requeriam algum
trabalho de instrução. A retaguarda espanhola estava protegida no caminho de Ceuta e
no mar, onde se encontrava a armada, no mar próximo. Tentou manter a paz o mais
possível, mas o inimigo atacou as fortificações que se erguiam no reduto da Estrella,
uma posição avançada que, com essa forma geométrica, os espanhóis construíam à beira
do rio Alcântara. As forças marroquinas prepararam-se para defender a cidade de
Tetuan. Enviadas pelo príncipe Muley el Abbas, reforçaram-se com novas tropas
chegadas sob o comando de Muley Ahmed. Montaram dois acampamentos unidos por
uma primeira linha de trincheiras. El Abbas tinha o seu acampamento na torre de Cefú
ou Jeleli, protegido por duas linhas de trincheiras e apoiado nos primeiros contrafortes
da serra.
No dia 23 de janeiro, os marroquinos atacaram o reduto de Estrella, onde
trabalhavam como operários 300 caçadores da Rainha e cem de Llerena, e onde se
mantinham algumas tropas de proteção sob o comando do brigadeiro Villate. A ação era
observada pelo general Ríos a partir de Aduana, posição avançada espanhola onde o
sultão tinha a alfândega do rio Martín, navegável até esse ponto, na confluência com o
Alcântara. «Conjunto de edifícios pouco importantes que serviam de armazém ao
comércio dos mouros», dizia Yriarte5. Para evitar a derrota, O’Donnell mandou os
reforços com artilharia e cavalaria, enquanto Ríos cobria o flanco esquerdo. Os
marroquinos tentavam manter os espanhóis no reduto, enquanto a sua cavalaria os
32
cercava pelas duas alas e fustigava Ríos no lado poente do Alcântara. As tropas de Ríos
eram novatas, bem como os seus oficiais-generais e superiores, e caíram na armadilha
de seguir o inimigo, que consideravam derrotado. Viram-se cercadas por este e tiveram
que ser socorridas pelas outras tropas enviadas por O’Donnell. A ação de contra-atacar
os marroquinos através de outro movimento para os cercar deu resultado e a situação
ficou resolvida. Foi a última vez que o exército marroquino tomou a iniciativa,
surpreendendo os espanhóis. No dia 29 de janeiro de 1860, os espanhóis celebraram
missa no acampamento, dedicando-se, mais tarde, ao reconhecimento do campo de
Tetuan.
O’Donnell havia assinalado o dia 4 de fevereiro como o dia do assalto a Tetuan.
O exército pôs-se em marcha muito cedo, avançando contra os tiros das espingardas do
inimigo e parando a 1700 metros do acampamento de Muley Ahmed. A artilharia
hispânica preparou o avanço, enquanto dois batalhões do Terceiro Corpo defendiam os
espanhóis dos ataques pela esquerda dos soldados e cavaleiros marroquinos. O Terceiro
Corpo cedo ultrapassou as trincheiras mouras, enquanto o Segundo Corpo esperava o
cessar-fogo das peças de artilharia para cercar o inimigo pelo outro flanco. Os
marroquinos das trincheiras eram bons lutadores, ajudados pela artilharia do
acampamento e da cidade de Tetuan. Mas os espanhóis penetraram no acampamento
com o major Primo a dirigir o Batalhão de Alba de Tormes e dos voluntários catalães
que haviam chegado de véspera. A reserva espanhola havia impedido que as forças de
Muley el Abbas, colocadas na torre Jeleli, fossem em auxílio dos seus compatriotas. Os
marroquinos abandonaram no acampamento tudo o que haviam levado e fugiram para
Tetuan sem que os seus oficiais-generais e superiores pudessem fazê-los voltar ao
combate. O acerto tático de O’Donnell havia infligido uma derrota total às forças
magrebinas e a cidade de Tetuan ficava aberta para os espanhóis.
No dia 5, o general O’Donnell dirigiu-se ao governador de Tetuan para que a
praça se rendesse, sob a ameaça de a bombardear. Com a promessa de respeitar vidas e
fazendas, a cidade rendeu-se aos espanhóis. O Batalhão de Zaragoza foi o primeiro a
entrar na cidade amuralhada, onde os espanhóis permaneceram. O’Donnell tinha a
esperança de continuar até Tânger. No campo marroquino, reinava o caos e a
desmoralização. A cidade de Tetuan, com cerca de cinquenta mil habitantes, estava
amuralhada e artilhada, mas os defensores não se sentiram capazes de lutar com o
exército espanhol. Muley el Abbas havia-se retirado, fugindo a sete pés, desistindo da
defesa da cidade. Seguiram-no muitos habitantes, que tentavam pôr-se a salvo
33
caminhando para Tânger, acreditando que os espanhóis incendiariam a cidade e que os
habitantes das montanhas saqueariam os restos: «Do alto da alcáçova observamos ao
longe, em direção ao fondakiv a longa caravana de fugitivos que ia como que em
peregrinação procurar refúgio nos escabrosos montes ou nas cidades vizinhas», escrevia
Núñez de Arce, que acompanhava Zabala, como cronista6.
Restavam os judeus sefarditas, que aclamavam os espanhóis como salvadores.
Estes entraram em Tetuan no dia 6 de fevereiro de 1860. Nesse momento, a conquista
de Tetuan era apenas um passo importante no caminho para Tânger, o verdadeiro
objetivo do exército espanhol. No entanto, embora a retirada marroquina de Tetuan
facilitasse a conquista da cidade sem resistência, a guerra não estava ainda terminada.
No dia 1 de março, publicou-se El Eco de Tetuán, dirigido, escrito e impresso por Pedro
Antonio de Alarcón e que se tornou o primeiro jornal editado em Marrocos. Alárcon
aproveitou a imprensa do exército expedicionário e publicou vários números que
defendiam a intervenção espanhola e a política de O’Donnell.
Durante a campanha, para ajudar os seus compatriotas, os cabilenhos fronteiriços de
Melilha atacavam continuamente a praça e as tropas espanholas de guarnição. No dia 7
de fevereiro, o brigadeiro Buceta, major da praça, decidiu iniciar uma operação de
punição, que se saldou com uma derrota, no dia 10 do mesmo mês, obrigando os
espanhóis a resguardarem-se nos fortes e na cidade.
A batalha de Uad Ras e o final da campanha
No dia 11 de março, ocorreu a primeira proposta de paz, que as autoridades
superiores marroquinas recusaram. O inimigo, refugiado na serra Bermeja, não se rendia
e continuaria a lutar ainda durante algumas semanas. O período de tréguas acabou nesse
mesmo dia, quando os marroquinos, escondidos na margem do Martín, iniciaram as
hostilidades contra as tropas de Echagüe. No dia 12, a tranquilidade volta a ser
ameaçada quando os marroquinos tentam atacar Tetuan. O inimigo protegia o caminho
para Tânger, pelo qual os espanhóis ainda tinham a esperança de passar, embora os
acordos diplomáticos com a França e a Inglaterra impedissem o exército espanhol de
chegar à cidade do Estreito. Além disso, dominavam as elevações dos arredores da
iv
Fondak, em espanhol fondac: em Marrocos, hospedaria onde se negoceiam as mercadorias levadas pelos
traficantes. [NT]
34
cidade recém-conquistada. Para garantir a tranquilidade, era necessário voltar a
combater o exército do sultão até o derrotar definitivamente.
Como os espanhóis conheciam a tática marroquina, que consistia em cercar
pelos flancos, o general Ríos optou pelas elevações. O’Donnell ordenou que as tropas
espanholas avançassem. No entanto, o caminho de Tetuan para Tânger era difícil e
estreito, para além de não ser adequado para as carroças de artilharia e intendência.
Apenas se podia ir a pé ou a cavalo. Echagüe ia na vanguarda, a comandar o Primeiro
Corpo, seguido pelo Segundo Corpo, com Prim, e o Terceiro, com Ros de Olano, e com
toda a bagagem carregada por burros e oitocentos camelos comprados em Orão,
protegida pela divisão da cavalaria; a divisão de reserva de Mackenna encerrava o
cortejo. Às nove horas da manhã, a 2 quilómetros de Tetuan, o fogo da artilharia do
sultão começou a atingir a vanguarda. O objetivo dos marroquinos era conquistar o
aduar de Samsa e as elevações que o dominavam, para cercar as tropas espanholas,
espalhando-se pela serra. Echagüe, com três batalhões, antecipou-se à manobra e
impediu a retirada marroquina para Uad Ras∗, colocando um dos batalhões no ponto
mais alto. Prim veio em seu auxílio com uma brigada, atacando os marroquinos nas
colinas e a cavalaria com disparos artilheiros, enquanto Ríos tomava as elevações da
serra Bermeja. Depois, os marroquinos, derrotados, voltaram a pedir a paz, embora
continuassem a mostrar-se intransigentes quanto à perda de Tetuan. O governo espanhol
havia concordado com a diminuição da indemnização mas não com a retirada da cidade.
No dia 23 de março, o exército de O’Donnell estava preparado para avançar para
Tânger. O’Donnell já se havia reunido com Muley el Abbas para tratar da extensão do
acordo de paz. O marroquino sabia que as potências europeias não deixariam os
espanhóis chegar a Tânger e aproveitou-se do facto de a situação estar estagnada,
embora tivessem perdido a guerra. Era a sua última tentativa de conservar a cidade de
Tetuan, a que O’Donnell se opunha ameaçando continuar a guerra até Fez e Mequinez.
O general espanhol tinha conhecimento do estado de decadência em que o império
magrebino vivia, embora fosse pouco provável que pudesse continuar a guerra dadas as
pressões da França e da Inglaterra. As conversações foram interrompidas. Abbas tentava
ganhar tempo e O’Donnell insistia com ele, ao verificar que novas forças marroquinas
chegavam ao campo inimigo. No final de fevereiro, haviam chegado a Tetuan os
Tercios Vascongados, que reforçavam o exército espanhol, mas eram tropas voluntárias
∗
Os nomes árabes foram sempre muito mal traduzidos em espanhol. Pode-se ver escrito o rio Ras como
Wad Ras, Uad Ras, Gualdrás ou Guad Ras.
35
de escassa instrução. Dado que os marroquinos não chegavam a acordo, O’Donnell
mandou que a esquadra bombardeasse os portos de Arzila e Larache.
No entanto, a interrupção das conversações apenas produziu um efeito negativo
em algumas das cabilas submetidas, que voltaram a fustigar os soldados espanhóis,
causando vários mortos. O acampamento marroquino estava a cerca de 10 quilómetros
de Tetuan, no caminho por onde deviam passar os espanhóis. Um novo encontro era
inevitável. Possivelmente, o erro de Muley el Abbas foi colocar as suas tropas nas
margens dos rios Martín e Ras, em campo aberto, estratégia de que o exército espanhol
sempre havia saído vitorioso, em vez de aproveitar os desfiladeiros do fondak (cenário
de ações difíceis em campanhas posteriores). Talvez este seja o sinal de quão pouco
acertado esteve o comando marroquino na guerra.
A batalha de Uad Ras, a mais complexa da guerra, havia começado. O flanco
direito espanhol não estava tão protegido, porque dava para campo aberto, e foi por aí
que os marroquinos atacaram após atravessar o Martín. Os espanhóis tiveram que os
expulsar a golpes de baioneta, obrigando-os a retirarem-se para os vales de Ras e Buceja
(Bu Sfiha). Entretanto, outras forças marroquinas, numa manobra de distração sem
sucesso, atacavam as posições da retaguarda espanhola nos fortes Estrella e Martín, este
último edifício muito degradado devido aos ataques que as esquadras francesas e
espanholas haviam perpetrado antes de ser conquistado pelo exército espanhol. Ao
chegar à ponte de Buceja, o vale ficava mais estreito, pelo que era mais fácil reter os
espanhóis nesse local. Os combates aumentaram, porque os espanhóis lutaram
tenazmente para conquistar uma posição elevada que protegesse o avanço, mas a
resistência marroquina era dura.
Os marroquinos entrincheiravam-se nos barrancos. Os voluntários catalães de
Prim tiveram que se empenhar a fundo. Passado o meio-dia, a vitória não pendia para
nenhum dos lados. O’Donnell decide, então, atacar o centro marroquino, carregando à
baioneta, fazendo recuar o inimigo pela primeira vez e conquistando com relativa
facilidade a ponte de Buceja. Mas o inimigo aguardava nas ladeiras de ambos os
flancos, para onde havia sido empurrado pelas cargas espanholas. Prim compreendeu
que não podia deixar que eles se entrincheirassem, pelo que lhes cortou a passagem, e
atacou as posições marroquinas, cuja maior parte estava no aduar de Anaral e no de
Benider, que dava nome aos montes. Uma vez conquistados esses pontos, a cavalaria
marroquina tentou isolar estes espanhóis da maior parte do exército. Para o impedir,
estavam os caçadores de Cidade Rodrigo, que chegaram à luta corpo a corpo, detiveram
36
o avanço inimigo e deixaram o campo cheio de cadáveres espanhóis e marroquinos. Na
segunda carga, viram-se apoiados pelo batalhão de Baza e a cavalaria moura voltou a
pôr-se em fuga.
O exército espanhol já estava completamente colocado e as ações marroquinas
estavam a ser menos efetivas. Haviam passado o dia inteiro a lutar quando O’Donnell
lançou o ataque final; a frente marroquina foi quebrada e as suas unidades foram
abandonando o combate. Às cinco horas da tarde, acabou a batalha. Yriarte descreveu-a
assim: «A vitória era total, mas havia saído muito cara… O valor demonstrado pelos
mouros estava acima de qualquer elogio; não foi coragem, foi ira, fanatismo, uma fúria
louca que se apoderou deles»7. Estava-se no Ramadão, o ardor guerreiro intensificou-se,
sendo também a última e desesperada tentativa de conter ou vencer os espanhóis.
A paz e as suas consequências
No dia 24 de março de 1860, iniciaram-se as conversações de paz em Tetuan.
Após a batalha de Uad Ras, Muley el Abbas não tinha mais forças para se opor aos
espanhóis e tentou conseguir uma paz honrosa, mas as condições de O’Donnell já
estavam impostas. O marroquino tentava já conseguir obter a paz o mais possível e
definitivamente. Derrotado em Uad Ras, já não tinha forças nem capacidade para se
opor aos espanhóis vitoriosos.
No dia 25 de março, os dois majores reuniram-se numa tenda de campanha para
concluírem os detalhes do acordo. A reunião foi longa e trabalhosa, embora as posturas
negociadoras estivessem em plano desigual. O’Donnell aceitou uma diminuição de cem
milhões de reais na indemnização, que se ficou pelos quatrocentos milhões. O general
atuava sem consultar ninguém, com presunção e sabendo em pormenor o que queria
aceitar, pois não nos devemos esquecer de que ele era também a autoridade do Governo
espanhol que havia redigido as cláusulas. Mas o convénio foi realista, contra os
sonhadores que pretendiam continuar com a conquista de todo o país quando nem
sequer era lógico prolongar as linhas para se avançar para Tânger. Não era uma guerra
colonial propriamente dita porque a sua finalidade não foi a conquista e a ocupação
permanente de um território africano. Para isso, precisava-se de mais meios materiais,
económicos e humanos, bem como de um acordo diplomático com outros países
europeus.
37
A paz foi assinada em Tetuan, no dia 26 de abril de 1860, renunciando os
espanhóis à continuação da conquista e fazendo regressar o exército à península a partir
do dia 29. O entusiasmo produzido pela guerra arrefeceu ao conhecer-se as condições da
paz. Em Espanha, esperava-se muito mais, principalmente a ocupação do norte
marroquino. Resumimos as cláusulas da seguinte forma:
1. Reconheceram-se os limites exteriores de Ceuta.
2. Estabeleceu-se uma indemnização de 400 milhões de reais. Enquanto
não fosse paga, os espanhóis retinham a cidade de Tetuan.
Relativamente à quantia, há discussões. Alguns autores, sobretudo da
época, consideram que a quantia se ajustava às despesas e baixas
causadas na parte espanhola. Outros pensam que era mais do que
Marrocos podia pagar e que foi uma medida que precipitou o império
nas mãos dos europeus.
3. Marrocos reconheceu o direito de Espanha a ter uma possessão em Santa
Cruz de Mar Pequeña.
4.
Ambas as partes se comprometiam a assinar um novo tratado de
comércio.
Algo que se fez em Madrid, no dia 20 de novembro de 1861. Tratado que era
muito similar ao de 1779. Respeitava-se a liberdade de residência e de aquisição de
imóveis conforme o estatuto de nação mais favorecida. Concordou-se com a isenção de
impostos aos espanhóis em Marrocos e admitia-se a jurisdição consular.
Estabeleciam-se os direitos de ancoragem e pilotagem dos capitães do porto. Também
foi imposta ao sultão a obrigação de erguer um farol no cabo Espartel. Outorgou-se aos
espanhóis a possibilidade de comerciar em qualquer cidade marroquina onde um
súbdito de outra nação tivesse o mesmo direito. Estabeleceram-se tarifas alfandegárias e
o direito de pesca para os espanhóis nas costas marroquinas.
No papel, era um bom convénio para os espanhóis e muito severo para os
marroquinos. Como assinalámos, a situação espanhola era de expansão económica e
pensou-se que o mercado marroquino seria idóneo para as exportações e as importações,
mas o estado da economia espanhola era mais débil do que o desejável e não podia
encarregar-se de tudo o que Marrocos produzia e de que necessitava. Para piorar as
coisas, passado pouco tempo, o sultão assinava convénios semelhantes com a Inglaterra
38
e com outras potências europeias. Curiosamente, a Espanha era a única nação europeia
cujo comércio com Marrocos era deficitário.
Outra das consequências negativas da guerra para Marrocos foi o controlo das
suas alfândegas. Devido às pressões internacionais, os espanhóis consentiram em
abandonar Tetuan, cidade que garantia a indemnização da guerra, em troca de controlar
as alfândegas dos oito portos marroquinos abertos ao comércio exterior: Tânger, Tetuan,
Larache, Rabat, Casablanca, Mazagão, Safi e Mogador. Metade dos direitos iria para as
arcas espanholas e a outra metade para Marrocos. Esta situação durou de 1862 a 1885 e
nunca se chegou a cobrar a totalidade da quantia. A penúria que o controlo das
alfândegas trouxe à fazenda marroquina aumentou ainda mais, porque a Inglaterra havia
concedido ao sultão um empréstimo para o pagamento da indemnização que não estava
a ser restituído nos prazos devidos, pelo que também controlou as alfândegas na parte
que ainda correspondia a Marrocos. A perda de rendimentos, numa etapa de declínio,
foi de tal monta que conduziu Marrocos rumo à ruína e à decadência que, anos mais
tarde, iriam proporcionar a instauração do protetorado.
A tudo isto deve-se acrescentar que a jurisdição consular derivou para um
regime de capitulações, que consistia na possibilidade de os cônsules estrangeiros
admitirem protegidos marroquinos (judeus e muçulmanos) que eram julgados pelas
legislações europeias correspondentes e não pela justiça marroquina. O abuso deste
sistema fazia com que os súbditos do sultão que tinham possibilidades de fugir à justiça
do país se colocassem sob esta proteção, constituindo, assim uma casta privilegiada.
A guerra teve algumas consequências positivas para a Espanha, porque
realmente foi uma ocasião de unidade nacional da qual participaram todos os setores e,
apesar das baixas, não se ouviram vozes contrárias, salvo para criticar, como fez
Cánovas, «a grande guerra da paz pequena». Pela primeira vez em muitos anos,
possivelmente desde a invasão napoleónica, os interesses nacionais não estavam
divididos. A intervenção nas alfândegas permitiu que a Espanha formasse funcionários
marroquinos – amines – menos corruptos com os comerciantes do que os anteriores.
Também serviu para fixar de forma estável o câmbio de moeda, colocando a Espanha
outra vez numa posição dominante no cenário marroquino. Ainda assim, como
assinalam Lécuyer e Serrano, a grande beneficiada foi, possivelmente, a Inglaterra, cuja
economia lhe permitia aproveitar-se do que a Espanha era incapaz de explorar.
A última consequência da guerra foi a assinatura de outro tratado, o de Tânger,
no dia 26 de junho de 1862, em que se demarcavam os limites de Melilha, adquirindo a
39
Espanha uma franja considerável do alargamento da cidade, estabelecendo-se uma zona
neutral, por sinal hoje desconhecida por Marrocos, que a invadiu pouco a pouco. Tal
tratado provocou uma reação violenta das cabilas fronteiriças contra os espanhóis. As
negociações, a que presidiu, com grande habilidade, o diplomático Merry y Colom∗,
terminaram de forma muito favorável para a Espanha.
Relativamente à campanha e às suas ações, temos uma quantidade considerável
de fontes que nos permitem seguir os feitos diários do exército expedicionário. A guerra
suscitou também uma enorme expetativa nos países europeus, que mandaram
correspondentes e enviados especiais para se informarem a seu respeito∗. Devido à falta
de fotógrafos, apareciam igualmente inúmeros desenhadores, que deixaram belos
testemunhos dos acontecimentos; o mais célebre foi o do francês Charles Yriarte, que,
além dos seus desenhos, deixou uma excelente crónica: Sous la tente; récits de guerre et
de voyages. Os estados-maiores europeus também aproveitaram os acontecimentos para
enviar adidos militares ao exército de O’Donnell. Alguns deles deixaram as suas
impressões em livros, como o bávaro Schlagintweit em Der Spanisch-Marrokkanische
Krieg in den Jarhen 1859 und 1860 ou o prussiano Von Goeben. O governador
britânico de Gibraltar, lord Codrington, também foi à batalha de Tetuan. Entre os
cronistas espanhóis, destaca-se Pedro Antonio de Alarcón, que foi publicando
semanalmente o que ia vendo desde a sua posição privilegiada e cujos textos foram
reunidos num dos seus livros mais conhecidos: Diario de un testigo de la guerra de
África, abundante em detalhes e nomes, muito bem ilustrado e fonte básica para seguir o
decorrer das ações bélicas. Outro cronista célebre, também testemunha presencial dos
acontecimentos, foi Gaspar Núñez de Arce, que publicou Recuerdos de la campaña de
África (1860). Benito Pérez Galdós dedicaria a esta guerra um dos seus episódios
nacionais, Aita Tettauen (1905), e parte de outro, Carlos VI en La Rápita (1905).
∗
Francisco Merry y Colom foi o primeiro conde de Benomar. Diplomata espanhol, nascido em Sevilha,
em 1829. O seu primeiro posto foi em Washington. De seguida, foi ministro em Tânger e embaixador em
Berlim e em Roma, quando ocorreu a Conferência de 1884. Interveio ativamente na política para o
império. Em 1866, viajou para Fez para entrevistar o sultão, com o objetivo de estabelecer alfândegas em
Ceuta e em Melilha. Interveio também em Melilha, em 1893. Morreu em Roma, em 1900.
∗
Joly deixa o nome de muitos deles: Hardman, do Times, de Londres; os franceses De Chavarrier, do
Constitutionnel, e Yriarte; e o belga Boyer, do L’Independance Belge e do La Patrie.
40
De guerra em guerra
A guerra que acabou em 1860 representava um acontecimento de enorme
popularidade que se viu coroado com o êxito militar, embora fosse necessário reduzir as
pretensões políticas e diplomáticas. Os espanhóis voltaram à sua pátria com um enorme
crédito sobre Marrocos, com o aumento do campo exterior das praças africanas e uma
vaga promessa de reconhecimento de uma zona pesqueira na parte ocidental do país.
Nunca se chegou a cobrar o dinheiro na sua totalidade e a possessão não duraria mais do
que setenta anos. Os anos seguintes trouxeram a perda da importância de Espanha em
Marrocos principalmente por duas razões: por um lado, como consequência da perda de
relevância de Espanha na esfera europeia e, por outro lado, pela internacionalização da
questão de Marrocos. Para não perderem o domínio no assunto, os espanhóis tentaram
conciliar os seus interesses simultaneamente com os da França e os da Inglaterra, o que
se tornava difícil.
A questão marroquina aparece e desaparece das primeiras páginas nacionais ao
longo dos anos. Como consequência do Tratado de Uad Ras, os espanhóis começaram
gradualmente a melhorar e a fortificar o território reconhecido em Melilha e, em menor
medida, em Ceuta. Em 1871, conteve-se, na primeira dessas cidades, o leito do rio de
Oro, na sua foz, o que produziu uma reação violenta da intervenção espanhola dos
marroquinos, que estavam cada vez mais zelosos da sua independência. Um ano depois,
discutiu-se nas Cortes a possibilidade de abandonar o Penedo de Vélez de la Gomera.
Foi um projeto de lei apresentado ao Senado pelo ministro da Guerra, Fernández de
Córdova, marquês de Mendigorría, que alegava que já não havia razão para a sua
possessão e que dava lugar a frequentes ataques, sendo difícil o envio de socorro. A
fortaleza estava em ruínas e a sua manutenção era cara. O projeto foi retirado perante o
protesto irado dos senadores, que tomaram a possessão do penedo como uma questão de
dignidade nacional.
A obsessão pelas questões africanas despertou nos países europeus. A
colonização já era um desejo geral e uma realidade em vastos territórios africanos
ocupados pelas distintas potências. Os exemplos da França, em Argélia, e de Portugal,
no sul do continente, apontavam um caminho que outros países estavam dispostos a
seguir. A política colonial pretendia obter grandes extensões para povoar e explorar. Já
não se queria possuir apenas algumas bases para o comércio em vários pontos da costa.
Foram iniciados, com êxito surpreendente, os estudos sobre o continente e as
41
explorações. Algumas sociedades geográficas, monarcas ou governos financiavam os
gastos de personalidades aventureiras e visionárias. Em 1855, os alemães Overweg e
Barth chegaram ao Sudão, ao Chade e Tombuctu, e Nachtigal percorreu, a partir de
1869, a parte ocidental; em 1858, o britânico Burton chegava aos grandes lagos, Speke e
Grant, às fontes do Nilo; em 1874, o francês Brazza percorria o Congo; em 1877, Serpa
Pinto explorava Angola e Moçambique.
Nessa altura, alguns espanhóis viajaram para Marrocos em situações particulares
de aventura e curiosidade. Em comparação com os exploradores estrangeiros, os
espanhóis careciam dos meios económicos dos mais famosos aventureiros britânicos ou
franceses e nem sequer contavam com apoio oficial para a cobertura diplomática e
financeira nas situações difíceis. No entanto, com mais vontade do que recursos,
entusiasmados por um extraordinário sentido do inovador, uma mão cheia de espanhóis
atreveu-se a entrar no continente perigoso e desconhecido. Alguns escolheram
Marrocos.
Um deles, Joaquín Gatell y Folch, havia nascido em Tarragona, em 1826,
estudou Filosofia no seminário da sua cidade e Direito na Universidade de Barcelona.
Estudou árabe e foi para Londres, onde se tornou um visitante assíduo do Museu
Britânico. Nesse local, tomou conhecimento de um prémio que os franceses dariam ao
primeiro que fosse da Argélia ao Senegal, passando por Tombuctu. Quis ser ele, mas
esteve tanto tempo retido em Orão que os outros o ultrapassaram. Cumpria o seu sonho
de viajante, que havia deixado registado nuns versos:
Arrastava-me o anelo
de misteriosas aventuras,
e empreendi atrevido voo
em busca de um estranho solo
e de estranhas criaturas.
E deixei os pátrios lares
e mil objetos queridos
para atravessar os mares
e lançar-me aos acasos
de mundos desconhecidos.
42
Após as derrotas marroquinas às mãos dos espanhóis, em 1860, e dos franceses,
em 1861, Gatell y Folch optou por ir para Tânger, traduziu para o árabe uma pequena
obra francesa de artilharia e fez circular o boato de que era um instrutor militar que
gostaria de trabalhar para o sultão. Foi chamado pelo governador da cidade, que havia
facultado o seu livro ao irmão do sultão. Finalmente, informado Muley el Abbas, Gatell
fez com que o contratassem e lhe dessem um uniforme marroquino, tomando o nome e
o título de Caid Ismail. Pôs-se a caminho com muitas dificuldades. Uma delas quase lhe
custou a vida, ao lançar-se contra um fura-vidas que se fazia passar por beato. Chegou a
Fez como major da artilharia imperial, composta por 200 homens, 3 oficiais e 6 velhos
canhões. Gatell ironizava no seu Diario: «O corpo de artilharia de Marrocos é um
modelo no seu género. E não é a vaidade que me leva a dizer que é um modelo, já que
eu faço parte dele, mas sim porque é a verdade. Por acaso, não existem modelos para
fazer rir»8.
O exército imperial acompanhava a banda de música dirigida pelo desertor
espanhol Ferrer e que tocava as mesmas marchas que as bandas militares espanholas,
entre elas Guerra, guerra, al infiel marroquí! A falta de disciplina e de armamento, bem
como a aversão que lhe tinham alguns notáveis da corte magrebina, obrigaram-no
rapidamente a desistir de prosseguir a carreira militar; contudo, interveio em combates
contra cabilas independentes, como as do Garb, e contra os Beni Hassan e os
Rahamena, em 1862, acontecimentos que registaria no seu Diario. Além deste escrito
sobre a campanha, Gatell deixou um texto com o título Manual del viajero explorador
del Africa e uma Descripción del Sus. No primeiro desses textos, expôs os impulsos que
o levaram, a ele e a muitos outros, a África:
Quem está, pela primeira vez na sua vida, a iniciar uma viagem a um país
incivilizado constrói mil esperanças relativas às peregrinas aventuras que, no seu
parecer, o esperam. Seduzido pelos relatos que lhe fizeram ou entusiasmado
pelas suas leituras, espera ansioso o momento de partir para satisfazer a sua sede
de novidades, para ser testemunha de estupendas maravilhas. A curiosidade
arrasta-o e, no seu íntimo, preocupado com as suas ideias, imagina, com as cores
mais encantadoras, os cenários e objetos que vai presenciar. Espera ser de
imediato um herói, como o herói das suas lendas, sem ter em conta o que este
sofreu. Sabe, com certeza, que o esperam contratempos e aborrecimentos, mas
não é por isso que desanima, porque a sua impaciência sufoca todo o medo; sabe
43
também que se vai expor a grandes perigos, o que não deixa de lhe agradar,
porque apenas os vê na sua imaginação e espera evitá-los com a maior das
facilidades; grandes obstáculos aparecerão no seu caminho, mas promete
ultrapassá-los a todos. Antes da viagem, tudo é fácil e sedutor; uma expedição
arriscada é o cúmulo do prazer para homens inexperientes. No entanto, a viagem
começa e, passado pouco tempo, a cena muda repentinamente de figura.
Satisfeita a primeira curiosidade, começa-se a notar que o corpo se cansa, que o
espírito fica aborrecido e o coração, desgostoso. Ali, onde se esperava encontrar
palácios encantados, não se veem mais do que miseráveis barracas; em vez de
tipos sedutores, vê-se confrontado por caras repugnantes; os cenários são quase
todos bárbaros e de terror; a civilização consiste em grosseiras gerigonças e, se a
tudo isto se juntar um perigo real e verdadeiro, então já se sente mais a falta da
calma e da tranquilidade de que se disfrutava no solo da pátria. No entanto, isto
não deve desanimar os viajantes inexperientes: o homem de coração não
desanima diante dos contratempos. Leve sempre avante o objetivo proposto: o
cumprimento do seu dever compensa largamente as suas dificuldades e até
mesmo nos seus próprios sofrimentos encontra prazer, persuadido de que os seus
trabalhos perderiam mérito se não fossem levados a cabo por entre sacrifícios.
Quanto maior estes forem, maior será a sua satisfação e, no fim da sua viagem,
um nobre orgulho despertará na sua alma, ao ver que levou a cabo uma empresa
digna, ultrapassando todos os obstáculos.9
A experiência de instrutor não durou muito porque, entre outras coisas, impedia
Gatell de viajar pelo país, que era aquilo de que mais gostava. Assim, quando foi
obrigado a demitir-se, passou a ser médico e percorreu Rabat, Mazagão, Mogador, Atlas
até chegar às planícies do Sus, antecipando-se a outras expedições espanholas cujo
objetivo era a colonização do Saara. Esta parte do sul de Marrocos era um território
desconhecido através do qual os estrangeiros não se podiam aventurar, já que as suas
vidas corriam perigo. Era uma zona fronteiriça entre o deserto e o império, o último
lugar de soberania marroquina onde a autoridade do sultão não era excessivamente
visível; era também o limite com os territórios nómadas das tribos saarauis. Gatell
descreveu as cidades de Tarudant e Agadir. De volta a Mogador, foi a bordo de um
navio inglês para Casablanca, a partir de onde continuou viagem para Tânger e para
Espanha. Regressou em 1865, após quatro anos em terras africanas. As suas descrições
44
do país e dos combates em que participou, publicadas originalmente em inglês e em
francês, contribuíram com muitos dados para o conhecimento de Marrocos. Foi um
partidário decidido da colonização espanhola do Saara. Morreu em Cádis, no dia 13 de
maio de 1879, quando preparava outra expedição.
José María de Murga y Mugártegui foi contemporâneo de Gatell e um aventureiro
semelhante. Nasceu em Bilbau, em 1827; foi oficial de cavalaria; esteve, como
observador, na Guerra da Crimeia, onde conheceu alguns notáveis marroquinos. Depois
de visitar Constantinopla, decidiu viajar para África. Estudou previamente árabe, em
Paris, e doutorou-se em Cirurgia Menor, em Madrid. Por fim, estabeleceu-se em
Marrocos, em 1863, onde se fez passar por renegado enquanto viajava pelo país e
tomava notas das suas observações, com o nome de Hach Mohamed el Bagdadi. Em
Fez, foi bem acolhido por uma numerosa colónia de renegados, ou seja, cristãos que
abandonavam a sua religião para abraçar o islamismo; deles deixou um divertido relato.
Havia colónias similares em Marraquexe, Mequinez e outras cidades, e todos
obedeciam a um líder chamado Torres, um delinquente fugido da justiça de Valência.
Os renegados eram acolhidos pelo sultão, numa situação de tranquilidade e respeito.
«Os renegados, que nada têm a perder nem a ganhar, prestaram grandes e bons serviços
aos imperadores marroquinos… Isolados, ignorantes da língua e sem relação nem apego
algum por aquele país, são uma guarda pretoriana da qual o sultão pode esperar tudo se
souber conduzi-la; não tem de temer revoluções internas no seio dela e, por sua vez,
dela não pode ter medo algum, pois, reduzida hoje a um pequeno número, seria desfeita
e destruída apenas com uma insinuação»10. Isto era o que Murga escrevia sem
desconhecer a precariedade da situação deste tipo de pessoas, que podiam perder o favor
do sultão quando este deixava de precisar delas. O sultão pagava-lhes uma pequena
quantia, que eles completavam com outras ocupações, lícitas ou não. Murga
enquadrou-se neste grémio durante um tempo.
Murga exerceu os mais variados ofícios, pondo em risco a sua vida em várias
ocasiões. Foi vendedor ambulante e médico, ocupações que lhe permitiram viajar pelo
país, como era seu desejo. Como membro da guarda renegada do sultão, teve fácil
acesso a alguns lugares e entrada em cidades onde acompanhava o sultão. Os seus
estudos de Medicina valeram-lhe para exercer a profissão de médico num país de
curandeiros e charlatões que tratavam os males com produtos inócuos e variadas
superstições. Alguns conhecedores dedicavam-se à indústria farmacêutica, inventando
remédios do mais pitoresco, que apenas a credulidade dos ingénuos habitantes do país
45
podia aceitar. Em 1865, morre a sua mãe e Murga regressa a Espanha, publicando, em
Bilbau, em 1868, Recuerdos africanos del moro vizcaíno. O livro trata de vários aspetos
da vida no país, mas de forma desordenada. Nele não narra a sua vida e as suas viagens,
que parece que deixou para uma obra posterior que não chegou a concluir. Mas foi uma
fonte importante de informação sobre a vida e os costumes, quando não existiam outros
textos sobre Marrocos. Posteriormente, foi deputado-geral de Vizcaya e participou no
cerco de Bilbau, na guerra carlista. Em abril de 1873, voltou para Marrocos, de onde
regressou, em agosto, pelas Canárias. Quando preparava a sua terceira viagem, em
1876, morreu subitamente, em Cádis. Tal como Gatell, Murga contribuiu para um
melhor conhecimento do império magrebino, que, naqueles anos, era quase
impenetrável. Ambos facilitaram o labor propagandista dos africanistas espanhóis.
A aventura de Cristóbal Benítez, que atravessou Marrocos e chegou a Tombuctu,
cidade proibida aos estrangeiros, foi ainda mais romanesca. De Benitéz, sabe-se pouco,
quase nada; havia vivido em Tânger ou Tetuan, pelo que tinha conhecimentos de árabe.
Mais tarde, seria intérprete na alfândega de Larache e no consulado espanhol, e,
possivelmente, também chanceler em Mogador. Havia conhecido o viajante alemão
Oskar Lenz e ambos decidiram atravessar o império, parte do Saara e chegar à cidade de
Mali. Lenz necessitava de alguém que lhe servisse de tradutor e Benítez, que havia
viajado em algumas ocasiões pelo interior do país desde a sua residência em Tetuan,
aproveitou a iniciativa do alemão para dar início à sua aventura. Cada um escreveria a
sua história com um estilo diferente, mas com abundância de detalhes sobre a vida
marroquina, de que se sabia tão pouco até então. A investigadora Lily Litvak escreve:
«Das duas crónicas, a mais detalhada e erudita é a de Lenz. No entanto, a mais
apaixonante é a de Benítez, provavelmente pela forma de escrever, mais solta, mais
livre, mas, sobretudo, porque nesta se dá mais importância às aventuras e peripécias
ocorridas durante a viagem»11. Efetivamente, o relato é uma incessante sucessão de
aventuras em situações extraordinárias, que Benítez vai narrando com graça, com o
exagero próprio dos europeus que, naqueles anos, visitavam o país magrebino.
Demoraram sete meses para chegar a Tombuctu, percorrendo cidades e campos que
Benítez deixou descritos à sua maneira. O fascínio pelo que era novo estava sempre
ligado a um forte sentimento de alteridade e à inevitável comparação entre a civilizada
Europa e a bárbara África.
Em março de 1880, abandonaram Marraquexe, disfarçados de mouros, na
companhia de um árabe argelino chamado Hach Ali Butabeb e de outros servidores do
46
país. A viagem desde Ceuta, de onde partiram três meses antes, não tivera, até então,
grandes contratempos. Depois, continuaram pelo interior do país, visitando os paxás das
cidades, protegidos por uma carta que o sultão deu a Lenz e que o certificava como
médico otomano. Atravessaram os desfiladeiros do Atlas, passaram por Tarudant e pela
região do Sus, onde tiveram problemas com a população, que os considerava cristãos
disfarçados. Benítez acalmou os ânimos, fazendo-os acreditar que eram xerifes ou
descendentes do profeta que voltavam de uma viagem a Meca.
Prosseguiram viagem pelas montanhas. O trajeto, que Gatell já havia feito,
obrigava-os a passar por Agadir. Atravessaram o Saara, com grandes dificuldades e
perigos, a começar pelo rio Dráa, cujo caudal se encontra seco na maior parte do ano
mas que recolhe torrencialmente as águas do Atlas em determinadas épocas. O Dráa era
a fronteira do Saara, o limite entre berberes e nómadas do deserto. Segundo Benítez, «o
seu principal exercício é a pilhagem, podendo-se garantir, sem recear qualquer engano,
que não há um único indivíduo que não seja ladrão; quando não há caravanas para
roubar, ou vão tão bem armadas e vigiadas que é impossível atacá-las, vão ao extremo
de se saquearem mutuamente ou de se reunirem em grande número para saquear as
tribos inimigas»12.Com isso, queria salientar o risco da sua travessia pelas areias. Do
Dráa passaram para Tinduf, a cidade que era a verdadeira porta para o deserto e para o
mercado principal das caravanas que aí entravam ou daí saíam. A cidade amuralhada
estava rodeada por um extenso palmeiral, a única vegetação em muitos quilómetros em
redor. Mudaram de guia e abasteceram-se de camelos acostumados às jornadas do
deserto, para continuarem o seu caminho até à curva do rio Níger, atravessando os
territórios que hoje correspondem ao Saara Ocidental, à Mauritânia e ao Mali. A
hostilidade crescente de alguns dos criados fez com que os dois desconfiassem que
corriam perigo, porque, naquela região, era fácil fazer desaparecer uma pessoa e ficar
com os bens que ela levasse. A fome, a sede e o cansaço foram outros inconvenientes na
expedição improvisada dos dois europeus.
No dia 1 de julho, chegaram a Tombuctu, cidade cosmopolita cheia de
mercadores de todas as nações árabes e negras. Estrategicamente situada, era o centro
comercial de muitas regiões. «Em Timbouctou encontra-se à venda tudo o que a África
e os africanos produzem; embora a população nada produza, porque os povos do interior
do Sudão e do norte e sul do continente levam para lá os seus produtos para venda ou
troca, pela sua posição geográfica serve de depósito geral»13, escrevia Benítez. Saíram
da cidade a caminho de São Luís do Senegal, para evitar de novo o deserto, e de lá
47
embarcaram para Tenerife. O relato de Benítez foi publicado no Boletín de la Real
Sociedad Geográfica a partir de junho de 1886 e apareceu em forma de livro, em
Tânger, em 1899. Em 1883, Benítez fez parte da expedição que tentou fixar a
localização exata de Santa Cruz de Mar Pequeña. Faleceu em Mogador (Essaouira) no
dia 7 de setembro de 1924, tendo sido enterrado no cemitério português da cidade.
Em 1884, teve lugar a primeira viagem de Julio Cervera Baviera, engenheiro
militar, pelo interior do império, embora mais tarde participasse em expedições
saarianas. Este homem inquieto, nascido em Segorbe, em 1824, e falecido em Madrid,
em 1929, trabalharia, mais tarde, com Marconi e teve as primeiras patentes da telegrafia
sem fios. Alguns atribuem-lhe a invenção da rádio. Participou, ainda, na guerra de
Cuba, defendendo Guamaní. O livro Expedición al interior de Marruecos, publicado
pela primeira vez em 1885, foi fruto da sua primeira viagem ao interior do império, que
lhe foi encomendada pelo exército para que conhecesse melhor a nação. Consigo,
levava material fotográfico, deixando algumas amostras gráficas da vida nas cidades e
nos campos marroquinos, que foram publicadas na sua obra. Tentava procurar
itinerários, desenhar mapas e descrever o estado da nação, tendo em vista futuras
expedições ou a preparação do campo para a colonização.
Percorreu o caminho da guerra de 1860, saindo de Ceuta até chegar à cidade de
Tetuan, dando notícias da mesma e das cabilas do território, detalhando com perfeição o
que era relativo ao exército marroquino, possivelmente porque essa era a sua principal
incumbência. Já existia, nesta cidade, uma pequena colónia espanhola:
Na praça de Espanha, de planta retangular, aberta, vazia, encontra-se o nosso
consulado e o espaçoso, cómodo e inútil convento de frades franciscanos,
ocupado por alguns reverendos senhores que não fazem absolutamente nada de
proveito e que têm uma vida tranquila e invejável, ou seja… invejável para os
preguiçosos de profissão. Há, também, na praça a farmácia espanhola… da
ocupação dos espanhóis, apenas resta um bairro completamente em ruínas, cujos
edifícios foram destruídos com o objetivo de aproveitar as madeiras como
combustível, devido às dificuldades e aos perigos a que os soldados estavam
expostos se fossem procurar lenha fora da cidade. 14
Dali, encaminhou-se para Tânger, dando os detalhes que pôde sobre o caminho e
a passagem de Ain Yedida, onde se levantava o célebre fondak, cenário de cem batalhas
48
espanholas. Seguiu o caminho do sul até Alcácer-Quibir, percorreu os rios Uarga e
Sebú, e chegou a Fez, cidade onde aproveitou para se informar sobre a estrutura política
e administrativa do império: «Visito os monumentos, percorro os bazares, examino as
pontes construídas antigamente sobre o rio de Fez, inspeciono os mais pequenos
detalhes e acumulo dados que contribuem para formar a minha opinião sobre o valor e a
importância do império e das suas coisas»15. O seu itinerário recorda os projetos
expansionistas dos mais notáveis africanistas espanhóis.
Em Fez, Cervera trocou a indumentária europeia pelas vestes do país e aí
permaneceu vários dias, sendo acolhido por alguns notáveis. Mais tarde, visitou Rabat
que considerava a povoação mais bonita do país, Mehedia, Larache, Arzila e Tânger,
para regressar a Espanha. As viagens dos espanhóis pelo império no último terço do
século XIX apoiaram-se em guias locais e na proteção de líderes e personagens
importantes. Cervera não se fez passar por muçulmano, salvo quando queria deambular
pelas ruas de Fez sem ser incomodado, mas não teve mais contratempos que os outros,
embora, verdade seja dita, não tenha chegado, nesta viagem, às regiões do sul. Cervera,
a quem voltaremos quando falarmos do Saara, é uma das figuras mais importantes do
africanismo espanhol e uma personagem inquieta, surpreendente e ilustre.
A conferência de 1880
Em 1877, Cánovas decide admitir a política de statu quo em Marrocos,
renunciando à conquista de Santa Cruz de Mar Pequeña para que as ações espanholas se
coordenassem com as de outros países sem levantar receios nem originar conflitos. Em
campo marroquino, jogavam várias potências com interesses na zona, principalmente a
Espanha, a França, a Alemanha e a Inglaterra. Nenhuma delas podia atuar sem o acordo
de todas, para não se correr o risco de se chegar ao conflito. Os europeus não queriam,
de maneira alguma, originar, em África, uma guerra entre eles. Portanto, os interesses
de cada um deviam ser conjugados com os dos restantes. Com o objetivo de ajustar as
políticas de todos os países, o plenipotenciário inglês em Madrid, Sackville West, havia
acordado com o ministro espanhol de Estado, Carlos Manuel O’Donnell, a realização de
uma conferência em Madrid. As potências interessadas responderam de forma positiva a
esta conferência, que foi inaugurada no dia 19 de maio, com a presença de
representantes da Alemanha, da Áustria-Hungria, da Bélgica, dos Estados Unidos, da
Inglaterra, da Dinamarca, da Itália, de Marrocos, de Portugal, da Suécia-Noruega e da
49
Espanha. A conferência tratou especialmente de dois pontos. O primeiro foi a
manutenção do statu quo, estratégia muito utilizada pela diplomacia que consistia em
deixar as coisas como se encontravam no momento até se chegar a um acordo entre os
países interessados, para lhes ser dada a solução conveniente. O segundo ponto dizia
respeito à proteção consular a súbditos marroquinos. Já vimos que a jurisdição consular
se aplicava aos estrangeiros no império, desde que a mesma lhes fosse reconhecida, e
aos nacionais marroquinos, a quem se estendia e que eram agentes comerciais de casas
estrangeiras. Os países estrangeiros queriam ver aumentado este privilégio; contudo, o
representante marroquino, Mohamed Vargas, queria reduzi-lo ao mínimo e deixá-lo
apenas para os assuntos penais e mercantis. Uma extensão abusiva da proteção consular
ia contra a soberania marroquina e a autoridade do sultão. No entanto, para os europeus,
era um mecanismo muito útil nas suas relações comerciais e servia para minar a
estabilidade do império. No final, limitou-se a doze proteções consulares por potência e
a convenção ficou assinada no dia 3 de julho.
A situação em Marrocos prosseguia numa calma tensa, na qual a ordem interior
do império ia sendo destruída, e as potências europeias aguardavam o momento
oportuno para intervir, agitando, dentro do possível, a política marroquina. Em 1887, o
ministro de Estado, Segismundo Moret, viajou para Paris e tratou do assunto de
Marrocos. No ano anterior, em Madrid, Paul Cambon havia sido nomeado embaixador
francês, organizador do protetorado em Tunes e especialista em questões africanas. A
política marroquina de Espanha estava a agitar-se e, apesar dos protestos de alguns, os
dois partidos tinham a mesma ideia de intervir no momento propício. A sessão das
Cortes do dia 31 de janeiro de 1881 foi clara para determinar as posições. Receava-se
que a situação se descontrolasse e se desencadeasse uma intervenção europeia. Segundo
Moret, ministro do Estado do governo de Sagasta, Marrocos era «uma questão de
interesse vital para a Espanha». O seu adversário Cánovas era mais prudente, mas tinha
o mesmo espírito intervencionista. Ambos defendiam o respeito pelo statu quo. De
facto, não tinham outra alternativa, mas Moret era mais impulsivo e reforçou as
guarnições de Ceuta e Melilha. Cánovas, líder da oposição, suspeitava que, por detrás
disto, se escondia alguma aventura intervencionista; contudo, Moret negava-o.
Cambon tentava conjurar as ações espanholas sobre África, em consonância com
o acordo hispano-italiano de 1887, que procurava a abstenção italiana em questões
marroquinas. Moret era muito manipulador, tentava desvincular-se de França e
aproximar-se de Inglaterra, mas as suas manobras não eram apreciadas nem no interior
50
nem no exterior, e Sagasta substituiu-o pelo marquês da Veja de Armijo. A aliança (ou
pelo menos, o acordo natural) tinha que ser feita com a França, que era a outra potência
interessada no país, em virtude das suas fronteiras argelinas, e com os consulados e as
casas comerciais que tornavam real a presença gaulesa no país. A Espanha e a França
achavam óbvio que deviam ser elas a ocupar Marrocos, nem que fosse através de um
protetorado. O objetivo final, que era a conquista de Marrocos, ficava adiado.
Em 1887, o ministro marroquino dos Negócios Estrangeiros, Mohamed Torres,
retirou-se por ter já uma idade avançada. Era um homem sábio, que soube negociar
habilmente com os europeus, apesar de estar consciente da debilidade da sua posição.
Temia-se, nesses dias, a morte de Muley Hassan e o governo espanhol mandou
concentrar tropas na Andaluzia e a esquadra, na baía de Tânger. Em 1890, o kaiser
Guilherme chegava ao poder e dava por terminado o sistema de alianças existente nos
tempos de Bismarck. A Alemanha e a Inglaterra enfrentaram-se pela sua supremacia
num novo cenário. A Alemanha reivindicava o seu papel no mundo, a sua vontade de
intervir e de ter uma porção na divisão de África face às posições quase exclusivistas de
França e de Inglaterra. A França havia ocupado Tunes em 1881, com o pretexto de que
servia de base aos rebeldes argelinos e dada a situação financeira de bancarrota que
ameaçava o empréstimo francês, argumentos que se poderiam utilizar também para uma
operação similar em Marrocos. A outra política francesa para a colonização passava por
estrangular financeiramente os países norte-africanos até que não pudessem pagar as
suas dívidas e tivessem que admitir um protetorado.
Marrocos esteve sempre presente nas ambições estrangeiras das potências
europeias. Trata-se de uma etapa histórica de grandes alianças internacionais. Em 1882,
formou-se a Tripla Aliança com a Alemanha, com o império austro-húngaro e,
finalmente, com a Itália. Para lhes fazer frente, a França e a Inglaterra tentavam chegar a
acordos a que se podia associar a Rússia. A Espanha ficava isolada, o que preocupava
os políticos hispânicos, porque sabiam que a questão de África se resolveria num
tabuleiro internacional. Os gabinetes espanhóis tentaram não ficar fora do sistema de
alianças. Moret tentou uma aproximação à Tripla Aliança através de um acordo com a
Itália, ressentida pela sua exclusão de Tunes. Procurava-se o apoio da Tríplice para
excluir a França de Marrocos, considerada uma pretensão desmedida. No entanto,
chegou-se a assinar um acordo entre a Itália e a Espanha, em 1887, que incomodou a
França. Moret havia ganhado algum apoio internacional à política espanhola
relativamente a Marrocos. Contudo, os acordos serviriam de pouco.
51
Nessa década, aparecem em Espanha as primeiras manifestações de um
africanismo ativo propagador das ideias de intervenção em África. O início do
africanismo organizado pode ser situado na Sociedade Geográfica Madrilena, fundada
em 1876. O trabalho de atuar no ânimo geral e nos responsáveis políticos teve pontos
altos, como o Congresso Espanhol de Geografia Comercial e Mercantil realizado em
1883 por aquela sociedade. A sua intenção era incitar os políticos a abordar de forma
decidida a questão africana. Abriram-se as sessões recordando o ideário da Sociedade:
Não seria prudente, nem patriótico, esperar que os governos satisfaçam esta
necessidade, pois, sendo eles expressão sintética e unitária da opinião social, só
se verão obrigados a incluir nos seus programas novos rumos para a política
colonial de Espanha quando a opinião geral se pronunciar de forma decidida e
unânime e se lançar à ação por meio de órgãos espontâneos, e demonstrar por
atos que tem consciência clara do que quer, e vontade firme para o querer, para
além do poder material para o fazer, sem que os frutos que consiga pela sua ação
sejam exóticos ou prematuros.16
Era necessário agir sobre o governo a partir da opinião pública e por meio das
elites cultas e conhecedoras das novas políticas seguidas na Europa.
No dia 30 de março de 1884, decorreu no teatro Alhambra de Madrid, o comício
da Sociedade de Africanistas e Colonistas, que serviu para dar a conhecer este grupo e
para expor as suas ideias fundacionais. Intervieram Francisco Coello, Joaquín Costa,
Gabriel Rodríguez, Gumersindo de Azcárate, Eduardo Saavedra e José de Carvajal. A
reunião, claramente propagandista a favor da intervenção em África, embora
inicialmente se garantisse o respeito e a integridade de Marrocos, acabou com a leitura
de um manifesto de vinte e dois pontos que se enviou às Cortes, nos quais se resumiam
as velhas aspirações espanholas em Marrocos, na Guiné e no Saara, e se exigiam ao
governo reformas e medidas administrativas, económicas e legislativas. A posição
resumia-se à prevenção relativamente às ações de outras potências e à preparação para
atuar no devido momento. Coello resumia esse manifesto assim:
O que seria de Espanha, senhores, se um dia outra nação poderosa ocupasse as
costas e os territórios que temos tão próximos!... É esta, sem dúvida, uma
questão de honra nacional para a Espanha; e considero-a tão importante, tão
52
interessante, que, aos meus olhos, a ocupação de um ponto das costas de
Marrocos por uma potência estranha seria para nós, espanhóis, uma mancha tão
grande como se se tratasse de qualquer pedaço do nosso próprio território17.
No entanto, ainda não se vislumbrava a colonização propriamente dita, mas um
sistema de colaboração comercial e política que Joaquín Costa resumia, com
ingenuidade e excesso de boas intenções, entre grandes aplausos do público:
Os marroquinos foram os nossos mestres e devemos-lhes respeito; foram nossos
irmãos e devemos-lhes amor; foram nossas vítimas e devemos-lhes uma
recompensa real. A nossa política com Marrocos deve ser, portanto, uma política
reparadora, uma política de intimidade e de restauração. Se tal política pudesse
ser contrária aos nossos interesses de momento, ainda assim, eu recomendá-la-ia
à minha pátria, considerando que apenas são dignos da vida os povos que sabem
sacrificar o seu proveito temporal por um impulso do coração e que põem acima
de tudo a santa religião do dever18.
Aconteceram outras iniciativas, como a criação, em 1886, da Câmara Espanhola
de Comércio em Tânger. O arabista Antonio Almagro Cárdenas havia fundado em
Granada o jornal La Estrella de Occidente, foi o impulsionador do I Congresso
Espanhol Africanista, realizado nessa cidade em 1892, com um carácter marcadamente
cultural e científico, mas que não excluiu das suas sessões algumas questões sobre a
política marroquina. A importância do assunto provoca o aparecimento de novas obras
sobre Marrocos, algumas de especial relevância, como El império de Marruecos y su
constituición (1882), de Emilio Bonelli, oficial de infantaria que teria um papel de
destaque na ocupação do Saara. Nesse mesmo ano, a embaixada de Wenceslao Ramírez
de Villa-Urrutia deslocou-se a Marraquexe, com a missão de tratar com o sultão a
entrega do território de Santa Cruz de Mar Pequeña, reconhecida no Tratado de Uad
Ras. Tinha como intérprete o aventureiro Cristóbal Benítez. Teríamos que esperar até ao
século XX para vermos nascer outras iniciativas semelhantes, como os quatro
congressos africanistas que ocorreram entre 1907 e 1910, bem como a atuação da Liga
Africanista e dos centros comerciais hispano-marroquinos, na segunda década do século
passado.
53
A guerra de 1893
O statu quo sobre a política do império criava uma situação de tensão entre as
potências interessadas na intervenção. Nenhuma renunciava às suas pretensões; no
entanto, nenhuma podia atuar sem o consentimento das outras, o que gerava uma
permanente situação de desconfiança em relação ao que algumas potências podiam estar
a preparar nas costas das outras para fortalecer as suas posições ou para consolidar as
políticas de factos consumados. A França aproveitava as suas fronteiras da Argélia para
empreender ações contra a integridade territorial marroquina. A Espanha tinha uma
arma que utilizaria de imediato. As suas posições de Ceuta e Melilha eram a melhor
cabeça-de-ponte para uma penetração e estava ainda por executar o acordo da extensão
de limites de Melilha. As relações com Marrocos oscilavam entre atos piratas contra as
embarcações espanholas e protestos apoiados pelas embarcações da armada, que iam
aos portos marroquinos como forma de ameaça. O império vivia já em decadência e
sem autoridade. Face a esta situação, os caudilhos tribais e todo o tipo de personagens
mais ou menos pitorescas impunham a força onde faltava a ordem e o respeito pela lei.
Como consequência da guerra de 1860, os espanhóis conseguiram o alargamento
do campo exterior da velha cidade amuralhada de Melilha. Em 1862, delimitou-se a
nova extensão, atirando-se, a partir da cidade velha, uma bala de canhão de calibre 24
com a espoleta a zero. A distância conseguida foi um raio com cerca de 2900 metros.
Assinalou-se, com alguns marcos de pedra, uma linha poligonal que marcava os 12,3
quilómetros quadrados de área de território espanhol e concedeu-se aos marroquinos um
enclave onde estava a mesquita em que repousavam os restos de Sidi Guariach. A partir
dessa linha, existiria uma zona neutral de 500 metros de largura. Nada mais se fez até à
década de oitenta, quando se começou a fortificar a zona espanhola com a construção de
fortes que a protegiam a ela bem como à fronteira. Eram construções pequenas, pouco
mais que torres circulares com um pátio central, com muros pouco resistentes, pensados
para os tiros das espingardas, e com uma artilharia rudimentar. Cada um dos fortes
albergaria uma guarnição reduzida. No entanto, eram o símbolo da soberania e uma
demonstração de força. Em 1881, edificou-se o forte de San Lorenzo e, em 1885,
finalizou-se os de Camellos e de Cabrerizas Bajas. O maior de todos, o de Rostrogordo,
finalizou-se em 1890 e o de Cabrerizas Altas, em 1893. Cada um destes dois últimos
podia albergar 150 homens, mas necessitava da praça para o fornecimento de
54
intendência e água. Completavam o perímetro os fortins de María Cristina e San
Francisco, cada um com capacidade para 50 homens.
Ao abrigo das fortificações, nasceram os bairros exteriores da cidade, que
cresciam a cada ano. Apenas faltava terminar o forte de Sidi Guariach para completar a
defesa de ponto. A sua construção havia-se iniciado em 1890, mas surgiram
dificuldades por entrar em conflito com a cabila do mesmo nome, já que esta entendia
que o forte estava a ocupar parte do terreno da mesquita e do santuário. As obras foram
abandonadas e, em 1893, decidiu-se continuá-las. Os trabalhos que os presidiários
adiantavam de dia, os cabilenhos desfaziam de noite. No início de outubro, o general
Margallo – major da praça – decidiu que uma secção pernoitaria nas obras e que se
levantaria um fortim provisório, como defesa.
No dia 2 de outubro, os mouros atacaram as forças espanholas colocadas no
lugar. O ataque foi persistente e, pelo imprevisto, os reforços espanhóis não
responderam de forma adequada. Cerca de 200 espanhóis ficam cercados no fortim
provisório e nas obras de construção, sem possibilidade de ripostar ou de sair dali.
Margallo quis pôr-se à frente da operação de socorro e foi ao forte mais
próximo, o de Camellos, a partir do qual tentou organizar a operação, pedindo reforços
à praça, que foram chegando a conta-gotas e de forma desorganizada. Entre os que
chegaram em primeiro lugar, encontrava-se uma bateria de artilharia com duas peças.
Após várias horas, conseguiu-se formar uma coluna com cerca de 450 homens,
improvisada e diversificada, com a qual se iniciou o contra-ataque. Nesta primeira ação,
explodiu um dos canhões. Tentou-se chegar aos sitiados dispondo os homens em
guerrilha ou formando uma coluna, mas os esforços foram em vão.
À tarde, Margallo compreendeu que a força do resgate não ia poder alcançar o
fortim para libertar os sitiados. No entanto, tinha conseguido abrir um corredor entre o
fortim provisório e o de Camellos, por onde os mouros não passavam e por onde se
pediu aos sitiados que retrocedessem. As guerrilhas chegaram a cerca de 300 metros do
fortim, mas o inimigo - calcula-se que cerca de cinco mil homens - não as deixou chegar
mais perto. A operação terminou; os sitiados chegaram a Camellos e retiraram-se para a
praça. Os espanhóis tiveram 19 mortos e 51 feridos e com contusões. O fortim e as
obras foram destruídos. Margallo havia subestimado a reação cabilenha à construção do
forte. Contava, além do mais, com poucas forças de reserva em Melilha, já que tinha a
guarnição espalhada pelos fortes exteriores. A esta primeira agressão devia ter-se
55
respondido com uma ofensiva organizada que devia ter sido levada a cabo por um
exército expedicionário chegado da península.
A agressão havia chegado à imprensa e ao Parlamento espanhol. O ministro da
Guerra, general López Domínguez, sentia-se contrariado e era prudente em relação a um
avanço em Marrocos. Em Melilha, não havia lugar para se acolher um exército grande,
não existia um porto capaz, nem serviços sanitários, alojamentos ou armamento.
Calculava-se que o inimigo seria composto por cerca de cinquenta mil homens, metade
dos quais, pelo menos, estava armada. A resposta à agressão era difícil e foi-se adiando,
enquanto os cabilenhos se iam organizando e aumentando, dia após dia. A indecisão, o
atraso e a falta de operacionalidade agravavam a situação da praça espanhola e davam
força aos inimigos. As fogueiras acesas a cada noite no topo de Gurugu chamavam os
reforços, homens armados de todas as cabilas próximas. No dia 7, os cabilenhos
atacaram com fogo de fuzilaria a canhoneira Cuervo, que reconhecia a zona e que
respondeu com disparos de canhão. Pouco a pouco, chegaram reforços, enquanto no
Estreito se apressava o contrabando de armas para os mouros.
Entre os dias 15 e 18, uma comissão técnica do Ministério da Guerra avaliou a
situação; contudo, a ação espanhola era adiada. O ministro proibiu Margallo de dar
início às hostilidades e os marroquinos construíram trincheiras impunemente na zona
neutral. No dia 21, ordenou-se às autoridades marroquinas a destruição dessas
trincheiras, mas o paxá, que era a autoridade do sultão na zona, não respondeu. O Conde
de Venadito, cruzador comandado por Díaz Moreau, chegou à zona e abriu fogo contra
as trincheiras do sul da cidade. Foi a primeira reação espanhola; contudo, este
acontecimento incomodou sobremaneira o ministro López Domíngues, que começava a
perder a confiança em Margallo, enquanto este, por sua vez, perdia a paciência após
vinte dias de inatividade. O orçamento do exército havia diminuído após a organização
do ministério empreendida por López Domínguez; notava-se a escassez de meios e, a
Melilha, apenas foram como reforços cerca de 350 homens de dois batalhões dos
regimentos de Borbón e de Estremadura, sob o comando do general Ortega; o batalhão
de Caçadores de Cuba; três companhias de sapadores; quatro de artilharia e mais duas
baterias de artilharia de montanha.
No dia 27, começaram a entrincheirar os arredores do forte sitiado; no entanto,
os espanhóis foram novamente atacados. Foi a primeira ocasião em que a infantaria
espanhola usou as novas espingardas mauser. Os sapadores e as forças de proteção
retiraram-se para Cabrerizas Altas, mas, ao chegar, encontraram-se com as forças do
56
general Ortega, que haviam chegado antes do tempo previsto, e tiveram que apinhar
mais de 700 homens num espaço pensado para 150. Cercados os dois generais no forte,
Melilha ficava sob o comando do coronel Casellas, do regimento de África, que
organizou uma coluna de resgate. No dia seguinte, essa coluna pôs-se em marcha. A
empresa não era fácil, porque o inimigo era muito superior e estava perfeitamente
entrincheirado nos barrancos. Para se conseguir chegar ao forte, foi preciso desdobrar os
homens do Batalhão Disciplinar em guerrilha para conter a harcav marroquina. Aqueles
homens punidos portaram-se como heróis ao desocuparem o caminho até Cabrerizas
Altas, onde, enquanto isso ocorria, eram presenciados cenários angustiantes pelo
amontoamento e pelos tiros contínuos dos mouros∗. Margallo, desesperado, enviou o
tenente Juan Picasso, que havia acorrida a Rostrogordo para contactar telefonicamente
com a praça. O tenente, que, com o tempo e como general, viria a instruir o famoso
processo Picasso, chegou ao forte, mas não pôde comunicar porque as linhas estavam
cortadas. Voltou a Cabrerizas, apesar da situação de cerco. Com isto, obteve a Laureada
de San Fernando. Depois, Margallo, surpreendido e atribulado, quis desocupar a entrada
do forte, ordenando a várias companhias que saíssem e tomassem as suas posições, que
foram sempre rechaçadas pelo fogo inimigo. Insistiu em colocar duas peças de artilharia
na parte plana exterior para proteger os soldados. O próprio general saiu para
supervisionar a operação e foi atingido na cara por um tiro que lhe causou a morte.
Embora o general Margallo fosse considerado um herói da campanha, a sua
atitude durante os acontecimentos foi condenável. Primeiro, não deu importância aos
incidentes do início; depois, não soube neutralizar o ataque cabilenho. Decidiu ir para a
primeira linha, ficando cercado em Cabrerizas Altas, quando o seu papel, como major
da praça, obrigava a que nela permanecesse, dirigindo as operações. Por último,
cometeu a imprudência de sair do forte para vigiar a instalação de dois canhões,
morrendo devido à sua imprudência∗. Poucas horas depois, comandando um comboio
que chegava, o major José Valero Berenguer, explorador da Guiné Espanhola sobre
v
Harca - Em Marrocos, expedição militar de tropas indígenas de organização irregular [NT].
Os tiros vinham do fogo de fuzil ou espingarda dos mouros. Eram armas velhas e soavam
onomatopeicamente a pa-co, de onde deriva a expressão pacos para referir os atiradores rifenhos.
∗
A versão oficial destaca o heroísmo de Margallo, que foi socorrer um canhão em perigo. No entanto,
parece que a morte lhe chegou pela bala de um franco-atirador que o viu desprotegido ao abandonar o
abrigo de uma guarita de onde dirigia a operação. Ciges Aparicio, jornalista que publicou alguns livros e
muitos artigos sobre Marrocos, aponta maliciosamente que o tiro saiu das fileiras espanholas, por
vingança, devido ao contrabando de armas que o general fazia e que havia abastecido o inimigo. No
entanto, Ciges não tem nenhum indício de prova onde se apoiar. A sua insinuação poderá ter sido uma das
causas do seu fuzilamento, em Ávila, no início da Guerra Civil, quando era governador de distrito.
∗
57
quem voltaremos a falar, caiu mortalmente ferido. A morte deste ilustre africanista
deveu-se possivelmente a outra imprudência. Llanos Alcaraz relata-a assim:
O chefe administrativo do comboio, D. José Valero Berenguer, eminente
africanista, oficial distinguido na campanha de Cuba, homem de vasta ilustração
e de preclara inteligência, está na porta de Cabrerizas, fora do seu lugar,
excedendo-se no cumprimento do seu dever. Quando subia pela estrada,
marchava a corpo descoberto diante das carroças: o capitão primeiro-tenente do
Batalhão Disciplinar, D. Arturo Campos Hidalgo, ao passar junto de Valero,
disse-lhe:
— Está a expor-se sem necessidade (o fogo intensifica-se). Porque é que
não vai à direita de uma carroça, cobrindo-se o mais possível?
E Valero respondeu, sorrindo:
— A mim, as balas já me conhecem: não me fazem mal.
Na porta de Cabrerizas Altas, Valero seguia com interesse o
desenvolvimento do combate e disse, referindo-se aos inimigos:
— Como disparam! Como disparam!
Uma bala rifenha entra-lhe pela base do pulmão esquerdo e sai pelo
hipocôndrio direito, causando-lhe uma ferida gravíssima que, três dias
depois, lhe provocou a morte.19
O inimigo aproximava-se do forte e corria-se o risco de que os canhões caíssem
em seu poder. O primeiro-tenente do regimento da Estremadura, Miguel Primo de
Rivera, saiu com alguns soldados, que chegaram à luta corpo a corpo com os mouros,
mas conseguiram resgatar as duas peças. Com o tempo, o primeiro-tenente chegaria a
ser ditador. Pouco depois, as guerrilhas do Batalhão Disciplinar chegaram ao forte; o
cerco estava quebrado. Aproveitando a surpresa, organizou-se um comboio, no qual o
general Ortega e o seu estado-maior saíram para a praça com o cadáver de Margallo. No
entanto, não houve tempo para evacuar os feridos; os mouros voltaram a aproximar-se.
Os dados falam da dureza do combate desse dia: 32 mortos espanhóis e quase 200
feridos e com contusões. O forte de Cabrerizas Altas continuava cercado e, embora a
coluna de reforço tivesse conseguido introduzir alimentos e medicamentos, a escassez
de água era um problema grave.
58
No dia 29, chegou a Melilha o general Macías para substituir como
comandante-geral, o falecido Margallo. Com ele, chegaram os batalhões de Segorbe,
Tarifa e Catalunha, bem como o resto do regimento de Cuba, além dos cruzadores
Alfonso XII, Cuba e Luzón. A primeira coisa que Macías fez foi organizar um comboio
para o dia seguinte, com o objetivo de substituir as tropas cansadas de Cabrerizas Altas
e Rostrogordo e de levar abastecimentos. A operação desenvolveu-se com êxito, apesar
de ter causado 3 mortos e 9 feridos. Os canhões da praça e dos cruzadores
bombardeavam sem parar o campo inimigo e os cabilenhos iam já acusando o cansaço e
a falta de munições. No dia 3 de novembro, Macías preparou outra operação semelhante
e conseguiu chegar, de novo, aos fortes sem qualquer problema. As guerrilhas do
Batalhão Disciplinar foram, como sempre, a abnegada e eficaz vanguarda. Os
bombardeamentos da praça e da esquadra dizimaram o inimigo, que, apesar de insistir
no tiroteio, já não atacava em campo aberto.
A campanha estava quase acabada, mas ainda houve tempo para a «guerrilha da
morte» do capitão Ariza atuar. Tratava-se de um grupo de presidiários voluntários que,
em troca da redenção ou da redução de penas, efetuou quase uma centena de ações
arriscadas contra o inimigo, com o surpreendente balanço de apenas um morto∗. Em
dezembro, havia chegado um exército expedicionário sob o comando do general
Martínez Campos para pôr fim às últimas ações de guerra e assegurar a praça e o campo
espanhóis. A campanha havia terminado com 58 mortos, 151 feridos e 53 homens com
contusões espanhóis. Uma vez acabada, chegou, atrasado, ao porto de Melilha, o
cruzador Reina Mercedes, com 10000 espingardas mauser e 8 milhões de cartuchos
adquiridos à Alemanha. No dia 8 de dezembro, celebrou-se uma missa de campanha na
elevação de Sidi Guariach. O exército concluiu a operação defendendo o território
nacional, mas renunciou a qualquer ação de resposta sobre o território marroquino. Isto
desapontou alguns espanhóis, mas foi a mais diplomática das soluções.
Martínez Campos em Marraquexe
Após a guerra, chegaram as conversações de paz. O sultão enviou o irmão Muley
Arafa e, pela parte espanhola, chegou a Melilha, como chefe do Exército
∗
A guerrilha dissolveu-se por um incidente vergonhoso. Um dos condenados cortou as orelhas a um
mensageiro mouro que chegara para negociar. O condenado foi fuzilado. No entanto, esta é uma amostra
de costumes bárbaros de algumas tropas espanholas de mutilação do inimigo marroquino.
59
Expedicionário e plenipotenciário nas negociações, o general Arsenio Martínez
Campos. Em Melilha, estavam já 23000 espanhóis dispostos a avançar sobre o campo
marroquino, embora tal não fosse mais do que uma demonstração de força, já que o
governo não queria realizar atos que levassem à rutura do statu quo. As obras em Sidi
Guariach foram retomadas, para se concluir a construção do forte que seria chamado
Purísima Concepción. Martínez Campos ostentava o título de embaixador
extraordinário perante o sultão e dispôs-se a cumprir a missão, encaminhando-se para
Marraquexe. As suas pretensões eram claras: exigiria ao sultão o castigo dos rebeldes, a
entrega de 12000 espingardas e o respeito pela zona neutral. O general espanhol sabia
que não podia exigir muito ao sultão, porque não havia muitos recursos em Marrocos
para fazer frente às despesas públicas ordinárias; nem queria quebrar o estado de
paralisação das coisas, que as potências impuseram; nem se podia tornar inimigo de
outros países europeus por forçar uma situação complicada para o sultão. Este era um
homem angustiado pela situação. O jornalista de La Época, Rodrigo Soriano, que
acompanhava o general Martínez Campos, descrevia-o assim: «Levanta-se muito cedo,
trabalha bastantes horas, come muito sobriamente e descansa… É um homem taciturno,
que compreende a sua situação lamentável»20.
No entanto, as negociações não terminaram com as vantagens esperadas. O
tratado foi assinado no dia 5 de março de 1894, em Marraquexe. A fazenda marroquina
não podia fazer face a um pagamento muito elevado, já que estava quase em falência e
submetida à intervenção das alfândegas, como já vimos, para os pagamentos das dívidas
anteriores. No final, estabeleceu-se uma soma de 20 milhões de pesetas e adiou-se o
desarmamento e o castigo dos rebeldes. O governo de Sagasta aceitou umas condições
insuficientes, em parte forçado pela Grã-Bretanha, e obteve poucas vantagens para a
Espanha. Boada, jornalista do La Vanguardia, de Barcelona, que foi a Marrocos,
escrevia: «Não se tirou com isto, sem dúvida, todo o partido que, bem dirigido desde o
início, podia obter-se na questão de Melilha. No entanto, não se pode negar que, dado o
o estado a que o governo chegou, por erros que não vem a propósito recordar, não se
podia esperar muito mais»21. Foi garantida a nomeação de um novo paxá que
controlasse as cabilas vizinhas a Melilha, mas isso era pouca coisa, porque as tribos só
obedeciam às autoridades do sultão quando lhes apetecia, já que este carecia da força
necessária para impor uma conduta pacífica. E, embora o governo tentasse que a paz se
apresentasse como um grande progresso, a imprensa encarregava-se de demonstrar o
contrário.
60
À campanha de Melilha, haviam ido correspondentes dos principais jornais
espanhóis, que enviavam as suas crónicas diárias através do cabo submarino. A
quantidade de jornalistas dava a esta campanha um ar muito moderno e os espanhóis
sabiam o que ocorria no campo rifenho e nos arredores de Melilha. Provavelmente, foi a
primeira vez que houve um grande movimento de enviados a uma campanha espanhola.
Alguns dos correspondentes estiveram cercados com o general Margallo, no forte, ou
com Martínez Campos, na sua embaixada, e muitos deles reuniram as suas crónicas em
livros, pelo que o conhecimento direto dos factos é muito completo, uma vez que se
podem constatar os dados de uns e de outros∗. As guerras eram acontecimentos
populares que, além da tragédia que implicavam, despertavam a curiosidade na
população e reanimavam as rivalidades nacionais e os sentimentos patrióticos. Como
era habitual, e apesar de se usar já a câmara fotográfica, os redatores eram
acompanhados por excelentes desenhadores, que registaram os acontecimentos nas
ilustrações que eram publicadas nos jornais diários e nas revistas. Como consequência
desta guerra, a Guarda Civil chegou a Melilha para atuar como polícia interior.
∗
José Boada e Romeu, enviado do La Vanguardia de Barcelona, publicou Allende el estrecho (Barcelona,
1895); Francisco Hernández Mir, El Porvenir de Sevilha, Farrucos y gallinas (Sevilha, 1894); o capitão
Martín, La Justicia, Los sucesos de Melilha (Madrid); Nocedal, El Siglo Futuro, La campanha de Melilha
(Madrid, 1894); Luis Morote, El Liberal, Sagasta, Melilha, Cuba (Paris, 1908); Rodrigo Soriano, El
Liberal, Moros y cristianos (Madrid, 1895). Outros jornalistas não publicaram livros mas deixaram a
imprensa repleta de crónicas. A obra mais completa sobre a campanha deve-se a Adolfo Llanos Alcaraz:
Melilha (Madrid, 1894). Outra volumosa exposição é a de Álvaro Carollo: Al África, españoles!
(Barcelona, 1894?). Recentemente, apareceu La guerra de Melilha de 1893 (Madrid, 2008), de Agustín
Ramón Rodríguez González.
61
3
A PENETRAÇÃO EM MARROCOS.
A CONFERÊNCIA DE ALGECIRAS DE 1909.
MELILHA E O DESENVOLVIMENTO MINEIRO.
O PROTETORADO EM MARROCOS.
A GUERRA DE 1909-1914. A PENETRAÇÃO PACÍFICA E OS PRIMEIROS
PLANOS POLÍTICOS.
Daí em diante, os factos desenrolaram-se da maneira semelhante. Os espanhóis, vítimas
de agressões e ataques piratas, continuavam limitados a Ceuta, a Melilha e aos penedos
menores. A pirataria era a atividade regular ou ocasional de muitos dos habitantes
costeiros, que aproveitavam as embarcações encalhadas pelas tempestades ou, de forma
mais arriscada, atacavam as que navegavam perto da costa. A cobrança dos resgates
proporcionava benefícios grandes e confortáveis. O sultão carecia de autoridade para
controlar um império em decadência, endividado e sem um sistema político-militar
eficaz. As potências mantinham o statu quo à espera de chegar a acordos que
permitissem concretizar uma política de ocupação no norte africano.
No início do século XX, a Espanha estava ainda mais debilitada
internacionalmente pela perda de Cuba, de Porto Rico e das Filipinas, que havia deixado
uma crise de identidade nacional e um sentimento de frustração generalizado. A questão
africana tornou-se a única saída para garantir uma presença internacional e a suficiente
compensação perante o desastre colonial. Falava-se de forma desinibida dos direitos
históricos que a Espanha possuía em Marrocos, como justificação para as
reivindicações. Nesta matéria, os dois partidos da Restauração estavam de acordo, com
diferenças de estratégia, embora não de fundo. Em agosto de 1901, Silvela publicou um
artigo em La Lectura no qual o político conservador profetizava o final do statu quo, ou
situação transitória em que se deixava tudo como estava, e propunha um acordo com a
França para obter a parte correspondente aos espanhóis na divisão∗. O seu adversário,
Sagasta, parecia inclinado a pactuar também com a Inglaterra para evitar o seu
∗
O artigo «La cuestíon de Marruecos» surgiu sem assinatura, mas de imediato se espalhou a notícia de
que o autor era Francisco Silvela.
62
desagrado, pois não era possível arranjar uma solução que satisfizesse os dois lados.
Desta vez, Sagasta tinha razão.
Em 1902, a Espanha e a França chegaram a um acordo que se plasmou num
documento que dividia Marrocos entre os dois países, mas que não chegou a ser
aprovado por medo da oposição britânica.∗
∗
Já Silvela estava a chefiar um governo
conservador que foi muito cauteloso na questão. Era um tratado pelo qual a França
reconhecia a Espanha uma grande parte do território marroquino: quase todo o norte até
às cidades de Fez e Taza. O tabuleiro norte-africano tinha que ser considerado
globalmente e a solução tinha que passar pelo acordo entre todos os países com
interesses numa zona que vai do Egito a Marrocos. O Reino Unido tinha um enorme
interesse na navegação pelo Mediterrâneo e no controlo das margens do Estreito de
Gibraltar. As questões, de facto, resolver-se-iam sem a participação espanhola, mediante
uma teia complicada de acordos bilaterais.
A declaração franco-britânica de 8 de abril de 1904 culminava com uma série de
incidentes, sendo o mais importante o de Fachoda, cidade sudanesa, em que se
encontraram os exércitos coloniais da França e da Grã-Bretanha. O francês Marchand
havia chegado do Congo à frente de uma expedição e acampou em Fachoda. Dias
depois, chegou o britânico Kitchener com as suas tropas e montou o seu acampamento
em frente ao dos franceses. Não houve combates, limitaram-se a comunicar aos seus
governos a situação. Meses depois, o governo francês ordenou que Marchand se
retirasse. Os britânicos desejavam expandir-se a sul para enlaçar o Egito com o Cabo, e
os franceses queriam unir o Congo com a Somália. A França renunciou ao Sudão em
troca de a Inglaterra reconhecer o seu direito a Marrocos. No entanto, os ingleses
colocaram algumas reservas ao documento, como o livre comércio pelo Estreito de
Gibraltar, a proibição de o fortificar e a cessão a Espanha de uma zona no norte do país,
que se delimitaria num tratado franco-espanhol posterior.
Por este motivo, ou seja, dado que a Espanha não interveio no tratado, a França
considerou a zona norte como uma cessão a Espanha e não um protetorado diferente.
Também a Grã-Bretanha garantia que a Espanha não ocuparia a ilha de Perejil e que se
formaria em Tânger uma zona internacional. Tudo isto para evitar que um único país
controlasse as duas margens do Estreito, passagem obrigatória para Suez na rota para a
∗∗
Os espanhóis desejavam um tratado semelhante ao franco-italiano de 1901, em que a França deixava as
mãos livres para Itália na Líbia e esta reconhecia o protetorado francês em Tunes, sem oposição.
63
Índia. Por esta cláusula, o governo de Maura, representado pelo ministro de Estado,
Rodriguez San Pedro, negociou com o ministro francês, Delcassé, a extensão da zona
espanhola, que necessariamente devia estar compreendida entre o rio Sebú e Melilha.
Os espanhóis negociaram mal, careciam de força ou tinham pouco para oferecer a
França, mas o facto é que a franja atribuída a Espanha era muito pequena, de má
qualidade e povoada por tribos rebeldes. Não havia qualquer semelhança com o tratado
nonato de 1902, através do qual Espanha adquiria as terras até Fez e as ricas várzeas do
Lucus e do Sebú.
O acordo assinou-se em Paris, no dia 3 de outubro de 1904∗, e nele se atribuía a
Espanha uma chamada zona de influência, sobre a qual poderia atuar, realizar obras e
melhoramentos administrativos, económicos, militares e financeiros, mas sem alterar o
statu quo e respeitando a soberania e a autoridade do sultão. Além disso, reconhecia-se
a Espanha o direito a ocupar Santa Cruz de Mar Pequeña e uma franja no sul do país,
limitando com o Saara, concedido a Espanha definitivamente em 1900, na zona de
Tarfaya. Admitia-se que, nas zonas que lhes correspondiam, a França e a Espanha
podiam realizar obras públicas e explorar minas e pedreiras, direito que daria lugar ao
posterior conflito hispano-marroquino.
No entanto, ficava por resolver uma questão: o reconhecimento de alguma
vantagem para a Alemanha, país que sempre esteve interessado em África e que
mantinha uma política expansionista propiciada por Bismark. Em 1905, o cruzador
Hohenzollern levou o kaiser Guillerme II de visita a Tânger, como apoio ao sultão e à
soberania marroquina, tentando neutralizar as ações das outras potências europeias. A
Alemanha mantinha um comércio próspero e crescente no império que via ameaçado
pelos pactos entre a França, a Grã-Bretanha e a Espanha. Tentava romper a Entente
Cordiale, ou seja, o pacto de não-agressão e de organização da atividade colonial
subscrito entre a França e a Inglaterra em 1904, ao qual, mais tarde, se juntaria a Rússia,
formando-se a Triple Entente. A Alemanha tentava pactuar com a França e com os
outros países continentais e isolar a Grã-Bretanha. A posição espanhola não lhe
importava muito, porque não tinha interesse em conflitos. Procurava romper os estreitos
limites da conferência de Madrid de 1880, dando origem a uma nova conferência
internacional sobre Marrocos que favorecesse as suas pretensões.
∗
O acordo completou-se com uma permuta de notas no dia 1 de setembro de 1905.
64
A conferência de Algeciras
A Alemanha conseguiu, por fim, convocar uma conferência internacional para
tentar reduzir a influência da França e da Inglaterra em África. Entre 16 de janeiro e 7
de abril de 1904, decorreu a Conferência de Algeciras, com os representantes dos países
interessados∗. O representante do sultão encontrava-se presente, numa última tentativa
para manter a soberania nacional sem interferências, e os restantes países para obter a
sua quota numa hipotética divisão do país e do seu mercado. A ata final da conferência
pouco dizia, mas punha fim ao desejo, já não dissimulado, de acabar com o regime
marroquino e de o substituir por um protetorado. Tratava-se um documento pouco
comprometedor que escondia as verdadeiras conversações e aquilo a que, oralmente,
chegaram a acordo os principais países participantes. O mesmo aconteceu em Berlim,
em 1885, através de um simples documento oficial e muitas conversas nos salões onde
se mostravam intenções e se ajustavam interesses.
Romanones mostrava-se satisfeito por ter organizado uma conferência que, de
certa forma, mantinha o prestígio de Espanha e a sua participação internacional. Em
concreto, decidiu-se criar, em Algeciras, uma política de portos marroquinos, dirigida
pela França e pela Espanha, e um banco estatal que a França administraria. Nos oito
portos marroquinos abertos ao tráfico internacional, organizar-se-ia uma polícia
indígena com comandos europeus que vigiasse a ordem e perseguisse o contrabando. A
Espanha administraria a polícia dos portos de Larache e Tetuan; a França, a dos de
Rabat, Mazagão, Safi e Mogador; conjuntamente, ficariam encarregadas dos portos de
Tânger e Casablanca. Também se acordou que, nas suas respetivas zonas, a França e a
Espanha atuariam contra o contrabando, especialmente o de armas. Isto dava-lhes, na
prática, possibilidades quase infinitas de intervenção nos assuntos internos do país. No
entanto, nem se produziram as mudanças que a Alemanha esperava para aumentar as
suas expetativas nem se aboliu o sistema de observância do statu quo no sentido de
decidir a intervenção sem rodeios.
De facto, produziram-se efeitos contrários aos que a Alemanha esperava. O
bloco franco-britânico, que levava perfeitamente preparada a conferência e as suas
políticas coordenadas, revelou-se vencedor, reafirmando as suas teses. A soberania que
o sultão queria manter a todo o custo sofreu outros duros golpes com a criação da
∗
Alemanha, França, Espanha, Reino Unido, Império Austro-Húngaro, Bélgica, Itália, Países Baixos,
Rússia, Portugal, Suécia, Estados Unidos e Marrocos.
65
polícia portuária e do Banco do Estado de Marrocos. A Espanha conseguiu algo
importante no convénio posterior de Cartagena, de 8 de abril de 1907: o respeito pela
sua integridade territorial. A cautela com que a Espanha havia intervindo na questão
marroquina devia-se ao receio de que a Inglaterra ocupasse as ilhas Canárias ou
Maiorca, ou alargasse a sua base gibraltina. Nesse momento, depois do convénio, tanto
a França como o Reino Unido garantiram o território espanhol.
Com os acordos de 1904 e o pactuado em Algeciras, a Espanha e a França
possuíam já meios para atuar no território marroquino. O pretexto da ordem na zona e
uma função de polícia especializada no sentido mais amplo servir-lhes-iam para o fazer.
A partir de 1907, os acontecimentos precipitaram-se. A França pressionava
continuamente o sultão a admitir a necessidade de assistência técnica, financeira e
militar para, de uma vez por todas, contar sempre com os franceses no momento de
decidir a política do país e organizar a sua administração. Os franceses utilizaram alguns
incidentes que ocorreram nessa altura para forçar a sua intervenção direta. Com o
pretexto do assassinato do doutor Mauchamp, em Marraquexe, a França ocupou Uxda e
a parte a sul do Muluya; os espanhóis, por sua vez, ocuparam Restinga e Cabo de Agua,
em 1908, também com o pretexto de garantir a segurança de Melilha frente aos bandos
de cabilenhos rebeldes. Depois, alguns incidentes em Casablanca, durante os quais
morreram vários operários franceses, e a posterior perseguição de europeus serviram à
França para bombardear aquela cidade e, posteriormente, ocupá-la com a ajuda de cerca
de quinhentos fuzileiros navais espanhóis que desembarcaram do Álvaro de Bazán.
Com estes antecedentes, os batalhões franceses dedicaram-se a ocupar livremente
Chauia, a partir de Casablanca e Rabat até Marraquexe e Mequinez.
O governo de Maura mostrava-se cauteloso, conhecedor da débil posição de
Espanha para levar a cabo, nesse momento, uma ocupação de envergadura no território
marroquino, e assistia, preocupado, às ações francesas. Em 1911, a França ocupou Fez,
após outro incidente semelhante. A sorte marroquina estava lançada. A França atuava
livremente, sem oposição dos outros países ocidentais e sem quase nenhuma resistência
marroquina.
66
As minas do Rife e El Roghi Bu Hamara
Os mesmos acordos de 1904 deram a Espanha a possibilidade de atuar dentro da
sua zona de influência. Na cabila de Benibi-Ifrur, existiam algumas jazidas de mineral
de ferro que se julgavam ricas e rentáveis. As amostras de rocha conseguidas já haviam
sido estudadas, faltava apenas arranjar uma companhia solvente que tivesse os meios
necessários para a sua exploração. Depois de Algeciras, era a Espanha e não o sultão
quem devia atuar. E este assim o fez.
No entanto, a zona de Marrocos fronteiriça com Melilha, devido à ausência da
autoridade do Majzen, encontrava-se dominada por um cabecilha rebelde ao sultão, Abd
el Aziz, chamado Bu Hamara, que impôs a sua autoridade com base, por um lado, na
força e, por outro, no acordo com os chefes cabilenhos. Considerava-se a si próprio
pretendente ao trono, embora não passasse de um impostor, daí o sobrenome de El
Roghi∗; juntava a uma formação na Madraza de Fez e a alguns empregos no Majzen
uma fama de mago que inspirava um medo respeitoso entre a população supersticiosa.
Sabe-se que havia sido funcionário em Taza e que foi preso por falsificar assinaturas.
Depois de sair da prisão, foi para a Argélia e juntou-se à seita dos darkawa. Em certas
ocasiões, incorporava a personalidade de um irmão do sultão, Muley Hassan, que estava
há oito anos na prisão, para sustentar os seus falsos direitos ao trono. Contava com uma
guarda pretoriana que impunha a sua vontade e cobrava impostos a habitantes e a
comerciantes. Havia-se feito proclamar sultão, em Taza, em 1902, e, nesse mesmo ano,
venceu um importante exército enviado pelo verdadeiro sultão para o deter. Este,
apoiado pelos argelinos, recuperou Taza, em 1903, e impediu que El Roghi tomasse
Uxda. Bu Hamara retirou-se prudentemente para Farhana e Zeluan, nas proximidades de
Melilha, cujas alcáçovas dominava e onde instalou uma espécie de corte, e dedicou-se a
governar uma zona que beneficiava do comércio com os espanhóis. Desde então, o seu
poder no território era real e não se sentia importunado por autoridade alguma, tendo
submetidas as cabilas de Guelaya, Kebdana e grande parte do Rife. Para continuar com
a sua situação de quase soberano, procurou manter a ordem e a paz, e respeitava os
limites espanhóis. Entretanto, a Espanha mantinha uma postura de reconhecimento ao
sultão legítimo e uma relação contínua com o cabecilha da zona próxima.
∗
Significa “pretendente”, já que Bu Hamara fingiu ser irmão do sultão e aspirante ao trono.
67
Bu Hamara, por sua conta e risco, havia chegado a concluir negociações para
adjudicar, em 1907, por uma elevada quantidade de dinheiro, a exploração mineira de
cobre, prata, ouro e chumbo, em Kelaya, a um industrial francês chamado Massenet,
protegido do duque de Wagran. E, simultaneamente, concedia as minas de ferro de Beni
bu Ifrur a alguns espanhóis que formaram o Sindicato Espanhol de Minas do Rife. A
atitude de Espanha, com a qual sempre manteve boas relações mas que não podia
reconhecer a sua autoridade quase soberana e que ignorava os acordos que El Roghi
assinava, levou-o a uma certa hostilidade relativamente à presença dos espanhóis. Por
outro lado, os cabilenhos, que se sentiam donos da riqueza do seu subsolo, também não
viram com agrado a atuação de Espanha, pelo que o conflito estava, de novo, lançado.
Bu Hamara, ainda, iniciou uma campanha para dominar o Rife central, que o levou a
enfrentar a cabila de Beni Urriaguel, sofrendo uma tremenda derrota. Por último, o
sultão reorganizava as suas forças para acabar de vez com o cabecilha rebelde. Os
intervenientes em jogo eram muitos e preparavam-se para o desenvolvimento dos
acontecimentos.
A Espanha, como era lógico, ignorou as concessões mineiras de Bu Hamara e
decidiu outorgar as suas (sempre em nome do sultão) nos montes de Uixan (Beni bu
Ifrur), que coincidiam com as do rebelde rifenho. Os grupos espanhóis que competiam
pelas minas acabaram por chegar a um acordo e uniram-se formando a Companhia
Espanhola de Minas do Rife, da qual um dos cujos principais acionistas era o conde de
Romanones. Massenet, com alguns sócios espanhóis com os quais formou a Companhia
Norte Africana, obteve as minas de chumbo de Afra. As minas, algumas a céu aberto,
eram de fácil exploração e estavam próximas a Melilha. Havia-se obtido também
autorização para fazer um caminho-de-ferro que transportasse o mineral até ao porto
desta cidade e para a construção de caminhos, vivendas, fornos e outras instalações.
Essas minas foram exploradas até aos anos setenta do século XX e delas se obteve um
mineral de qualidade, sobretudo ferro, que se enviou para todo o mundo. Em algumas
épocas, como a Segunda Guerra Mundial, o ferro de Melilha era muito procurado pelas
potências para o fabrico de armas. Em 1907, iniciaram-se os trabalhos de construção
dos caminhos-de-ferro, já que cada companhia possuía um, e foram instaladas as
primeiras famílias de trabalhadores nas povoações construídas no lugar mineiro.
El Roghi havia cometido o erro de ir contra as cabilas do Rife central, querendo
dominar também Bocoya e Beni Urriaguel. Foi derrotado e, perante a sua debilidade, as
tribos do seu território começaram a revoltar-se contra o cabecilha e a organizar-se
68
contra os espanhóis. Queriam gerir eles próprios as concessões das jazidas situadas nos
seus territórios. Alguns chefes cabilenhos que apoiavam o rebelde também temeram
perder, com a sua queda, a parte das importâncias que lhes era destinada. Chegada a
altura, colocar-se-iam contra os espanhóis que os privavam do dinheiro. O poder de Bu
Hamara desmoronava-se e este estava consciente de que não podia ter várias frentes
abertas ao mesmo tempo, pelo que optou pelo acordo com os espanhóis. No dia 8 de
agosto de 1908, os cabilenhos de M’Taza e Beni Sicar atacaram as populações mineiras,
levando o que puderam e pondo em fuga os habitantes espanhóis. De acordo com o que
se havia pactuado com os espanhóis, Bu Hamara era o encarregado de punir estes
ataques, mas o seu poder estava a diluir-se. O rebelde optou por abandonar a região,
retirando-se para o interior do país, sendo derrotado e preso pelas forças do sultão, que o
levaram como prisioneiro para Fez numa carroça jaula, em agosto de 1909. Ali, foi
torturado e executado.
As cabilas ou tribos tentaram preencher o vazio de autoridade em que ficou
mergulhada a zona, voltando à tradicional independência entre elas e a esporádicos
laços de união quando tinham um inimigo comum. A atitude hostil destas cabilas
paralisou as obras mineiras e foi necessário regressar ao velho sistema de pactos, com
negociações intermináveis. A paralisação dos trabalhos, e tendo em conta que uma das
companhias era de capital francês, levou os franceses a ameaçar com o envio de tropas
se os espanhóis não tomassem o controlo da situação. O general Marina,
comandante-geral de Melilha, optou por levar por diante os trabalhos sob proteção
militar e por empreender algumas ações de punição sobre as tribos. Não acreditava que
fosse possível chegar a um acordo com as cabilas locais e temia que estas voltassem à
postura dos três últimos séculos de cerco da cidade de Melilha, situação que não ocorreu
enquanto se manteve o poder de Bu Hamara.
El Roghi trouxe consigo a paz e a sua ausência, a anarquia. Essa mesma
anarquia era o pretexto perfeito para que os espanhóis e os franceses interviessem
definitivamente no país. Por isso, a política deslizava por caminhos tortuosos e
introduzia rodeios pouco claros para chegar ao verdadeiro objetivo. O governo de
Madrid contrariou Marina e optou por enviar Alfonso Merry del Val à frente de uma
embaixada extraordinária junto do sultão, que não obteve resultados concretos, já que o
monarca pretendia que os espanhóis retirassem as tropas de Restinga e de Cabo de
Agua, ocupados em 1908. Para resolver a paralisação insuportável, no dia 7 de junho de
69
1909, as companhias obtiveram autorização espanhola para retomar os trabalhos
interrompidos após a partida de El Roghi Bu Hamara.
O general Marina e o começo da guerra
Como dissemos, em 1909, o comandante-geral de Melilha era Marina. Tratavase de um homem maduro, com uma grande carreira militar e de personalidade forte.
Havia nascido em Figueras, em 1850, e aos seis anos estava em Luzón (Filipinas), já
que o pai, também militar, fora colocado nesta colónia. Em 1863, de regresso a Madrid,
Marina ingressou como cadete no batalhão de Caçadores de Llerena. Três anos depois,
o alferes Marina voltou às Filipinas, onde esteve até 1872. Lutou na guerra carlista, às
ordens de Echagüe. Em 1874, na defesa de Tolosa, ganhou a Cruz de Mérito Militar de
1ª classe. Quando a campanha acabou, já era major. Depois de vários postos
peninsulares, Marina embarcou para a América, em 1889, porque havia sido nomeado
ajudante do capitão general de Porto Rico. Passado pouco mais de um ano foi, como
tenente-coronel, de novo às Filipinas, onde participou nas operações de Mindanau e
chegou a coronel. Foi ferido, novamente condecorado e promovido a brigadeiro. Em
1897, encontramo-lo a combater em Cuba, até se perder a guerra, o que o levou a
regressar a Espanha, sendo nomeado governador civil de Barcelona. Em 1900, era
general de 3 estrelas e, após vários comandos na península, foi colocado em Marrocos.
Portanto, Marina era um homem experiente, que estava no auge da sua carreira
militar. Havia sido soldado em várias guerras e conhecia o combate. Não era um homem
que estivesse ainda a iniciar a sua carreira e podia contradizer o ministro e o governo
quando as instruções deles, em sua opinião, não eram as corretas. O governo era
demasiado cauteloso no que dizia respeito aos assuntos marroquinos, para não contrariar
a França e a Inglaterra, mas Marina apoiava-se no que havia sido pactuado em Algeciras
para propor novos avanços que consolidassem as posições mineiras espanholas.
Marrocos era o seu posto desejado, uma terra para conquistar, depois de ver como se
perdiam Cuba, Filipinas e Porto Rico. Marina queria que as tropas espanholas
ocupassem permanentemente posições no campo mouro para proteger os trabalhos de
construção do caminho-de-ferro e as minas. Em concreto, quis conquistar o Atalayón,
uma pequena península dentro da lagoa de Mar Chica, ao sul de Melilha, a partir de
onde os espanhóis podiam repelir qualquer agressão. No entanto, não foi autorizado a
tal.
70
No dia 9 de julho de 1909, os mouros atacaram os trabalhadores do
caminho-de-ferro mineiro que estava a ser construído entre Melilha e as minas,
causando seis mortos e um ferido. O facto desencadearia a guerra, porque era grave o
suficiente para já não colocar mais obstáculos ao previsto na ata de Algeciras. Nesse
mesmo dia, assinou-se o decreto que mobilizava as brigadas de caçadores de Madrid, do
Campo de Gibraltar e de Barcelona, para as enviar a Marrocos e pacificar o país. Esta
chamada de reservistas, muitos deles casados e com famílias para sustentar, foi a origem
da Semana Trágica de Barcelona. Dada a estrutura distrital dos regimentos, quando um
se mobilizava já se sabia que todos os afetados eram do mesmo distrito e, como
consequência, todas as vítimas também o seriam. Esta circunstância atrasou, em 1893, a
chegada de reforços, porque politicamente era uma medida que introduzia a
desigualdade entre espanhóis. Em 1909, organizou-se uma revolta e uma greve geral
revolucionária de consequências sangrentas. O governo de Maura, muito debilitado
desde a lei do terrorismo∗, não tinha força suficiente para enfrentar a situação a não ser
com as armas da Guarda-Civil e com o exército. A batalha intestina obrigava a atrasar
as decisões em Marrocos. A partir de então, começou-se a ouvir em Espanha o famoso
grito «Maura, não!»; o político conservador viu-se destinado ao declínio e o sistema da
Restauração começou a deteriorar-se inevitavelmente.
Marina não tinha tropas suficientes para enfrentar os atacantes rifenhos,
precisava de reforços. Algumas decisões pouco acertadas no plano militar agravaram a
situação das tropas espanholas em África. A guerra não iria ser um passeio contra as
guerrilhas rebeldes, mas uma autêntica campanha contra um exército irregular mas
disciplinado e austero, que lutava na sua terra e que conhecia o lugar e as suas
vantagens de uma forma que surpreendeu, em muitas ocasiões, as forças espanholas. Os
combates desenrolar-se-iam em Gurugu, maciço montanhoso ao sul de Melilha, cujos
barrancos, causados pela erosão dos séculos, descem abrindo-se como funis
perpendiculares ao mar, oferecendo ao emboscado um abrigo seguro e dificultando a
ofensiva. Os barrancos sucedem-se de tal maneira que, superado um, aparece outro e
depois outro, numa série ilimitada de obstáculos. O solo era pedregoso e estava cheio de
grandes rochas que eram utilizadas como proteção. O caminho para as minas
∗
O projeto de Lei de Repressão do Terrorismo procurava combater os atentados anarquistas, mas incluía
grandes limitações à imprensa e aos sindicatos. Foi muito criticado por todos os setores da sociedade
espanhola, incluindo muitos liberais.
71
estendia-se entre os montes e o mar, podendo ser facilmente atacado a partir das
elevações, o que convertia os soldados espanhóis num alvo quase certo.
Após o ataque aos trabalhadores, Marina ordenou a colocação de metade das
forças de Melilha no território da agressão. Com três batalhões e uma bateria montada,
estabeleceu quatro posições defensivas: duas na vanguarda (Atalayón e Sidi Ahmed el
Hach) e duas na retaguarda (Segunda Caseta e Sidi Musa). No entanto, estas posições
padeciam dos grandes defeitos da ação espanhola em Marrocos. Eram dominadas por
elevações não ocupadas e deviam ser abastecidas diariamente por colunas com origem
na praça. O inimigo, escondido, limitava-se a disparar (com tiros de franco-atiradores)
durante todo o dia com as suas espingardas Lebel e Chassepot francesas, bem como
com os Remington americanos, que haviam adquirido em contrabando, ou com as suas
velhas espingardas de sempre. As posições eram atacadas e a defesa passava por ações
de socorro empreendidas desde Melilha. Os ataques eram cada vez mais abundantes e
causavam muitas baixas no lado espanhol.
Marina decidiu iniciar uma operação para contra-arrestar o poder dos cabilenhos.
No dia 21 de julho, o coronel Álvarez Cabrera saiu de noite de Melilha com o objetivo
de reforçar Sidi Musa, e assim o fez, após uma longa caminhada. Mas cometeu a
imprudência de colocar peças de artilharia nas ladeiras do monte sem conquistar as
elevações de Ait Aixa, de onde poderia dominar o campo. Conscientes do erro espanhol,
os inimigos atacaram, deixando os espanhóis numa situação muito comprometedora,
sob o fogo rifenho. A coluna era pequena para a ação e estava mal preparada, defeitos
comuns nas ações espanholas em Marrocos, e caminhou de noite, perdendo o contacto
com a praça, da qual não pôde receber ordens. Álvarez Cabrera avançava para uma
armadilha e Marina quis impedi-lo, mas o oficial de ligação não encontrou a coluna. Ou,
pelo menos, é o que a história oficial refere. Um autor explica-o de forma clara: «A
reduzida coluna colocada sob o comando do coronel Álvarez Cabrera, como a mesma
ordem expressa, teve que se formar com companhias de diferentes corpos, algumas
delas acabadas de desembarcar, e, segundo acreditamos, sem experiência de combate,
desconhecendo o terreno em absoluto e sendo completamente novas para o líder que
havia de as conduzir numa operação tão difícil e cheia de perigos»1.
Convém sublinhar que o improviso, a falta de conhecimento do terreno, a
ausência de tropas preparadas e o comando deficitário provocaram graves desastres nas
campanhas africanas. Este foi o primeiro de uma longa sucessão. Os marroquinos
aguardavam pacientemente até estarem numa posição de superioridade relativamente ao
72
inimigo. Frente aos espanhóis, evitavam o combate em campo aberto, onde eram
inferiores, e aproveitavam as dificuldades do terreno para organizar emboscadas.
Quando uma companhia chegou em auxílio de Álvarez Cabrera, apenas encontrou o seu
cadáver e os de muitos outros espanhóis. Marina, que já contava com as brigadas
reservistas chegadas da península, foi ao lugar, apoiado por algumas forças militares,
entre as quais se encontrava o Batalhão de Figueras, que caiu numa emboscada e foi
duramente castigado. Não poder ocupar as elevações de Ait Aixa foi um duro revés para
o comandante-geral e determinou o trágico destino dos espanhóis. Os combates
generalizaram-se, embora, nos dias seguintes, reinasse uma calma relativa na franja que
separava o Gurugu de Mar Chica, que serviu para que os espanhóis reforçassem as suas
defesas. Os marroquinos dominavam as elevações do terreno e os espanhóis
defendiam-se com mais dificuldade no terreno plano. Cabrera era um militar experiente
e conhecedor de Marrocos. Havia sido encarregado de estudar o império e foi chefe da
missão militar junto do sultão. Conhecia o modo de combater rifenho e havia escrito
uma obra sobre este assunto, La guerra en África, publicada em 1893. Será que pecou
por excesso de confiança ou acreditou ser mais forte do que realmente era? Será que
teve a ousadia de avançar de noite com tropas pouco preparadas?
Nos finais de julho de 1909, Marina foi promovido a major-general. Contava já
com mais de 17000 soldados em Melilha e nos seus arredores, número muito importante
para combater os rebeldes rifenhos sem estrutura de exército. No entanto, a guerra
deixava de ser um acontecimento popular entre os espanhóis e convertia-se numa das
maiores causas do descontentamento da primeira metade do século XX.
O Barranco do Lobo
Enquanto o Gurugu estivesse nas mãos do inimigo, a situação na planície era
impossível de dominar. Nem se podia transitar pela franja costeira, nem se podiam
construir nem utilizar os caminhos-de-ferros mineiros. A harca (grupo marroquino de
combatentes irregulares) havia aumentado com a chegada dos cabilenhos de Beni
Urriguel, Quebdana e Beni Bu Yoghi. O cabecilha Amezián ou Mizzian começava a
exercer uma liderança indiscutível entre as tribos próximas da praça espanhola. Após o
revés, Marina preparou duas operações para o dia 27 de julho. Uma foi a saída de uma
coluna de seis companhias de infantaria e uma unidade de artilharia para proteger o
comboio e defender o segundo barracão, instalação de caminhos-de-ferro a cerca de 7
73
quilómetros de Melilha. A segunda consistiu em formar uma brigada de caçadores, sob
o comando do general Pintos, que vigiasse os barrancos do Gurugu, caso o inimigo
atacasse o flanco da secção de escolta do comboio que descia pelos mesmos. O comboio
de aprovisionamento chegou sem percalços. Pintos colocou a sua brigada na posição de
Lavaderos e outra parte dos seus homens e uma bateria, na pousada do cabo Moreno.
Formavam-na seis batalhões de infantaria, um esquadrão de cavalaria e as companhias
auxiliares. Pintos dispôs a vanguarda em guerrilha e levou a cabo várias manobras para
colocar três batalhões (Las Navas, Llerena e Arapiles) na entrada do Barranco do Lobo,
que começaram a subir, nele penetrando, como se fosse uma armadilha mortal. Os
batalhões já estavam diminuídos pelas ações anteriores e haviam perdido os seus
majores, mas continuaram.
Houve momentos de indisciplina, própria das tropas inexperientes, e erros
graves dos majores, que insistiram em subir pelo barranco, que estava batido a partir
dos flancos e em altura. Cada vez que se conquistava uma elevação, dava-se ordem para
prosseguir rumo à seguinte. Para isso, faltava capacidade, segundo as palavras de Corral
Caballé: «Os soldados não podem imitar as aves e, num voo rápido, passar de um cume
de uma montanha para o de outra, tinham que descer os barrancos e voltar a trepá-los e,
então, os cabilenhos, protegidos pelas pedras que lhes serviam de trincheira, abriam um
contínuo e mortífero»2. Martínez de Campos dizia: «Os atacantes perderam, de repente,
a noção do seu objetivo. Por trás de cada ondulação havia uma crista e por trás de cada
pedra havia um rifenho disparando»3. Um observador francês que presenciou a
campanha, o general De Torcy, assombrava-se com a dificuldade dos espanhóis na
campanha: «É impossível admitir que os acontecimentos das semanas anteriores, em
particular as circunstâncias dos combates dos dias 18, 20 e 23 de julho, não tenham feito
refletir o major e os espanhóis no geral - ainda novatos na guerra em África - e não lhes
tenham deixado ensinamentos úteis»4. Era a zona onde estava concentrada a maior
quantidade de inimigos, entre eles os que causaram a derrota de Álvarez Cabrera.
Marina tentou impedir o avanço para que os seus homens não subissem a parte
direita do barranco, porque, na sua ofensiva, não viam as elevações do terreno, mas já
era tarde de mais. As tropas espanholas estavam presas no buraco, dominadas pelo fogo
rifenho. «Era impossível evitar a confusão, precursora do pânico, e os batalhões
dizimados começaram a retirar-se, com ordem em alguns pontos, precipitadamente
noutros, abandonando azémolas com munições e sem poder retirar mortos e feridos, não
sendo poucos os que neste movimento de recuo caíram no fundo do barranco»5. O
74
general Pintos e os majores Arapiles e Las Navas haviam morrido. O coronel Aranda,
major da coluna de proteção da caravana, apresentou-se rapidamente para tomar o
comando. Os espanhóis haviam ficado com 143 mortos e 599 feridos.
Os espanhóis sofreram duas importantes derrotas e haviam compreendido à
força que o inimigo era mais numeroso, mais forte e estava mais bem preparado e
adaptado ao terreno do que eles pensavam. Marina teve que mudar de estratégia.
Aprendeu que o estreito corredor situado entre o Gurugu e o mar, caminho natural para
a cabila mineira de Beni bu Ifrur, era uma ratoeira na qual os mouros podiam impor a
sua força. Aprenderam também a usar a informação fornecida pelos balões cativos a
partir de onde se enviavam fotografias, desenhos e planos das posições inimigas no
monte e que serviam para a artilharia orientar as cargas. A artilharia espanhola tinha
boas peças Schneider de grande precisão e alcance no tiro, e cuja blindagem protegia os
seus soldados. Marina tinha já uma considerável quantidade de efetivos, mas, durante os
meses de agosto e setembro, não houve combates importantes, porque se havia decidido
preparar a campanha de outra forma e era necessário programar as novas ações. Em
agosto, havia chegado a divisão de Orozco, com Aguilera e São Martinho a
comandarem as brigadas. As tropas espanholas não cabiam na praça e tinham que
acampar no terreno exterior, ao abrigo da artilharia de Melilha e dos fortes.
Em agosto, Orozco exibiu um ato de força: foi pela Restinga, que era a língua de
terra que separava o mar de Mar Chica, e conquistou Zoco-el-Arbaa. Pensou abrir um
boqueirão para que as canhoneiras pudessem penetrar no Mar Chica e, assim, disparar
com facilidade para as ladeiras do Gurugu e para que os barcos abastecessem sem
perigo, por mar, as tropas situadas em Nador, mas não conseguiu. Dada esta
impossibilidade, optou-se por desembarcar as tropas e a bagagem, no Cabo de Agua,
mais a este, e, a partir daí, atacar sem ter que passar pelo estreito corredor que vai do
Gurugu ao mar. Desta forma, o coronel Larrea assegurava o controlo pacífico de
Akerman e Quebdana, nos finais de agosto. No dia 4 de setembro, Aguilera, com dois
batalhões de infantaria, abandonou Zoco-el-Arbaa e dirigiu-se para Quebdana. No seu
regresso, foram baleados pelos rifenhos da cabila e pelos que se haviam refugiado na
alcáçova de Zeluan, antiga corte de El Roghi. No dia seguinte, conquistou Lehdera, com
o apoio das baterias Schneider, que punham o inimigo em fuga. Pouco a pouco, os
espanhóis aprendiam a forma de agir do inimigo e decidiram nunca ir em colunas
enquanto os flancos não estivessem cobertos devidamente, em particular o que dava
para as montanhas. No dia 7, Aguilera conquistou definitivamente Akerman e a zona
75
plana da cabila, e, depois, Zoco-el-Arbaa. Os inimigos submetiam-se-lhe gradualmente
e a intensidade dos combates diminuía.
O final da campanha
Marina tinha uma enorme carência de recursos. Os mapas da época não eram
fiáveis, quase não se conhecia o terreno e deviam preparar-se as ações sem prévia
inspeção visual do mesmo ou arriscando-se no desconhecido. No dia 20 de setembro,
Marina decide lançar a ofensiva. Entende que é melhor cercar o inimigo no maciço de
Gurugu do que voltar a passar pelo corredor costeiro. No forte de Rostrogordo,
concentra uma divisão de caçadores sob o comando do general Tovar, uma divisão de
infantaria com o general Sotomayor e o resto das unidades de Melilha comandadas pelo
general Del Real. Para a ofensiva enviou apenas a divisão de Tovar, primeiro, com a
brigada de Alfau, que se dirigiu a oeste da cidade, para Hach Bissian, e, na sua
retaguarda, dois regimentos da brigada de Morales. A partir desse ponto, Marina e Alfau
atravessam o rio Jateb e chegam a Taurit, enquanto Morales e Tovar se desviam para
Taxdirt e Tafarat. Conseguiram chegar ao mar na outra costa da península de Três
Forcas, o que garantia o contacto com a armada.
Tovar encontra mais resistência no seu avanço para Taxdirt. O seu flanco
esquerdo é fustigado desde Tafarat e o Batalhão de Catalunha tem que se empenhar a
fundo para proteger o avanço e rechaçar o inimigo, ocupando as colinas de Taxdirt para
o conter, porque, embora este se tivesse retirado, não cessava de disparar. Quando
Tovar decide aliviar esta unidade, ao deixar livre a colina para os do Batalhão de
Catalunha, o inimigo decide atacar, com o propósito de a conquistar. A cavalaria de
Cavalcanti impede este ataque na famosa carga que lhe valeu a condecoração. O
tenente-coronel José Cavalcanti de Albuquerque y Padierna havia nascido em Cuba, em
1871. Estava casado com uma filha de Emilia Pardo Bazán. Havia combatido naquele
país e, ao regressar, foi adido militar em Roma. Também teve uma participação
importante na campanha de 1921, quando se viu obrigado a substituir o falecido
Silvestre. A República afastou-o da carreira militar e morreu em Madrid, em 1937. O
esquadrão chegou a fazer três cargas num terreno de solo duro e ligeiramente inclinado.
Os marroquinos não puderam fazer frente aos rápidos cavaleiros e fugiram, desistindo
do ataque. Os espanhóis salvaram-se. Ao cair da tarde, a situação era comprometedora,
com as forças espanholas atacadas por todos os lados sem que a reserva os pudesse
76
auxiliar. Depois, chegaram reforços enviados a partir de Rostrogordo, e outros, por mar,
tendo a situação acalmado.
Nos dias seguintes, os espanhóis foram avançando para o sul, cercando o
Gurugu pelo oeste e encontrando-se, pela primeira vez, com mouros que estavam do seu
lado, como Asmani El Gato, que colaborou com uma harca amiga. No dia 23, já
estavam em Zoco-el-Had de Beni Sicar. Neste ponto, ocorreu o acontecimento em que o
cabo Noval ganhou fama. Estavam numa patrulha que saiu de um posto avançado
quando foram cercados pelos mouros. Eram rifenhos de Beni Urriaguel, de Alhucemas,
que se haviam associado à luta. Haviam enganado os espanhóis da posição próxima, que
não disparavam, pensando que se tratava de amigos. Noval apercebeu-se da artimanha e
gritou «abrir fogo, que são eles!», e salvou os seus companheiros da emboscada, caindo
morto. Obteve a Cruz de San Fernando de 2ª classe.
Por sua vez, o general Aguilera manobrava pelo sul do Mar Chica para ocupar os
poços de Aograr, Zeluan e Nador. Neste último, que ainda nem era uma povoação,
Orozco descansou; no dia 26, chegou a divisão de Tovar para irem juntos, no dia
seguinte, para Zeluan. Duas colunas paralelas, muito numerosas, iam pelos terrenos
planos que os rifenhos não podiam defender nem atacar. Nesse mesmo dia, ocuparam a
povoação e a alcáçova de Zeluan. Pacificada a zona pelas duas tropas, o coronel
Aizpuru é encarregado de conquistar o Gurugu com três colunas que subiram pelo
labirinto intrincado de barrancos e contrafortes. Aizpuru conquista o pico Basbel, o
coronel Axó faz o mesmo com Kola e o coronel Miguel Primo de Rivera instala-se nas
elevações de Ait Aixa e Gorro Frigio. A ocupação de Ait Aixa foi tardia, porque, se
tivesse sido feita antes, como tentou Pintos de forma imprudente, os espanhóis teriam
dominado o campo plano e a campanha ter-se-ia desenvolvido de outra forma e com
menos baixas. Ainda assim, acabou com a conquista de Tazza e a defesa da zona,
criando posições fortes. Nos finais de outubro, o governo anunciou a repatriação das
tropas expedicionárias. O Governo Militar ou Capitania de Melilha elevou-se a
Capitania Geral e foi-lhe atribuído um efetivo de 20500 homens. A penetração em
Marrocos havia sido posta em marcha e, para isso, era necessário dispor de uma força
militar grande e efetiva.
Os espanhóis haviam travado uma dura contenda no território marroquino contra
um inimigo duro e experiente num tipo de guerra de resistência, emboscadas e
perseguições,
mas
inferior
em
número
e
em
organização.
Para
dominar
aproximadamente os 1700 quilómetros quadrados da península de Três Forcas, que
77
ficaram guarnecidos em defesa da cidade, foram necessários quase 48000 soldados e
gastou-se mais de 100 milhões de pesetas. «Nunca general algum do exército espanhol
chegou a reunir sob o seu comando tantos elementos modernos de combate como o
general Marina»6. A política nacional havia-se deteriorado e começava-se a ver
Marrocos como um problema sangrento, duradouro e pouco rentável. As baixas haviam
sido excessivamente numerosas. Atribuía-se a Marina certa condescendência para com
os mouros, inclinação para o acordo e falta de decisão no castigo definitivo. A forma
hispânica de fazer a guerra em Marrocos apresentava graves falhas, que podiam ter sido
corrigidas estudando a forma francesa de fazer a guerra na Argélia. Os espanhóis
teimavam em manter muitas pequenas posições que deviam ser abastecidas quase
diariamente. Os franceses, desde Bugeaud, colocavam no território grandes posições
bem defendidas e abastecidas, de onde saíam colunas móveis que castigavam o inimigo.
Os espanhóis combatiam com tropas inexperientes recrutas e reservistas, sem unidades
profissionais. Esta forma espanhola de fazer a guerra trará consequências desastrosas,
anos depois.
A instauração do protetorado
Como vimos, a atuação em Marrocos teceu-se através de uma complicada rede
de interesses entre os diferentes países europeus. A França, que era o ator principal
nesta ação, havia chegado a um acordo com a Itália para lhe entregar a Líbia, em 1901,
com a Inglaterra, para lhe ceder o Egito, em 1904, dando lugar à Entente Cordiale, e
nesse mesmo ano, com a Espanha, para lhe dar o que restava de Marrocos depois de
fracassado o tratado nonato de 1902, que Maura não quis assinar para não isolar a
Espanha da Inglaterra. No entanto, faltava contentar a Alemanha. A política agressiva
do kaiser não havia funcionado em Marrocos. A sua visita a Tânger, em 1905, não lhe
trouxe benefícios e a convocatória da Conferência de Algeciras não respondeu ao que
lhe interessava. As suas pretensões em Marrocos, país em que as suas companhias e os
seus comerciantes estavam a realizar bons negócios e tinham perspetivas de os tornar
maiores, não estavam nem de perto cumpridas. Em 1911, os alemães fazem uma nova
demonstração de força e uma reclamação de participação nos assuntos marroquinos,
enviando a canhoneira Panther ao porto de Agadir, que era o mais importante na zona.
O incidente podia ter causado uma guerra: não esqueçamos que a Primeira Guerra
Mundial começou apenas três anos depois. Tão pouco desta vez a Alemanha viu
78
satisfeitas as suas esperanças. A crise de Agadir resolveu-se diplomaticamente a favor
da França, que se viu apoiada pela Inglaterra e pela Rússia através da Triple Entente,
uma aliança que os três países haviam estabelecido. Após este episódio, a França ficou
definitivamente com as mãos livres em Marrocos, em troca de um pedaço do Congo
francês, que foi cedido à Alemanha, incluído no acordo assinado entre ambas as
potências, no dia 4 de novembro de 1911.
Ultrapassado este obstáculo, a França ultima o seu grande projeto norte-africano,
obrigando o sultão a assinar um acordo de instauração de um protetorado no império
magrebino, no dia 30 de março de 1912. As diferenças entre protetorado e colónia são
claras apenas em teoria. No protetorado, o país protegido continuava a conservar a sua
personalidade jurídica internacional e de direito interno. O país protetor limitava-se a
completar a administração insuficiente mediante a criação de uma estrutura política e
administrativa sobreposta, mas que atuava sempre em nome do sultão que cedera o uso
de competências soberanas. Na prática, o domínio do país protetor sobre o protegido era
tal que dificilmente se diferenciava de uma colónia, mais ainda tendo em conta que
havia colónias de diferentes tipos e com diferentes graus de domínio.
Após este passo, a França apressou-se a cumprir o pactuado com a Inglaterra em
1904 e convocou a Espanha para delimitar a zona que lhe corresponderia a norte; ambos
os países assinaram, no dia 30 de novembro de 1912, o tratado em que ficava
constituído o protetorado espanhol em Marrocos, ou a zona espanhola de protetorado,
como os franceses preferiram chamar-lhe. Além disso, a Espanha tinha a sua franja a
sul, adjacente ao Saara, de que falaremos no capítulo respetivo. A França levava a maior
e melhor parte, com grandes zonas de boas terras para agricultura e pecuária, zonas
mineiras e grandes cidades e portos. Também era a mais bem organizada e contava com
grandes alcaides e líderes com os quais o governo podia pactuar.
À Espanha, foi atribuída uma franja pobre, escassamente povoada, montanhosa e
rebelde, bem como alguns pequenos vales para a agricultura e as minas do sul de
Melilha. Tinha sido despojada de Tânger, a norte, da franja até à fronteira argelina, a
este, e do território de Fez, a sul. Apenas possuía uma cidade importante, Tetuan, outra
mediana, Larache, e três pequenas, Arzila, Alcácer-Quibir e Xauen. O território
dividia-se em cabilas belicosas, que se enfrentavam entre si, sem líderes regionais
importantes e contrárias ao poder colonial. O legado era um presente envenenado que a
Espanha teve que aceitar por dignidade nacional e, sobretudo, para não ficar fora do
jogo internacional da época.
79
Em agosto de 1911, quando o acordo com a França estava quase terminado mas
ainda não se havia assinado, os espanhóis ocuparam Larache, Alcácer-Quibir e Arzila,
onde a ajuda de El Raisuni foi fundamental para chegar à cidade e para a dominar sem
se disparar um único tiro. As ações foram encomendadas pelo tenente-coronel Silvestre,
que havia comandado a parte espanhola da polícia portuária de Casablanca e que se
destacaria, mais tarde, na crise de 1921. Os franceses, sem que estivesse estabelecido
formalmente o protetorado, haviam ocupado as zonas mais proveitosas do país e
destacado agentes nas duas margens do rio Lucus, que era a fronteira entre as zonas
francesa e espanhola. Face à possibilidade de tentarem ocupar alguma parte da zona
espanhola, particularmente Alcácer-Quibir, para o dar como um facto consumado, o
governo de Canalejas decidiu ocupar aquelas três cidades e as suas comarcas. Foi um
facto levado a cabo com êxito que teve um importante apoio da população, que via que
a decomposição do Majzen ia minando as estruturas económicas e favorecia o caos e a
violência. Canalejas, um impulsionador da ação colonizadora espanhola e do acordo
com a França, foi assassinado no dia 12 de novembro de 1912, alguns dias antes da
assinatura do tratado.
O protetorado espanhol organizou-se como passaremos a descrever. Embora
fosse mudando de umas etapas para outras, o esquema final não foi muito diferente do
que assinalamos.
Em primeiro lugar, existia uma Administração Central que se dividia em duas
partes:
a) Marroquina. Em primeiro lugar, estava o califa ou representante do sultão na
zona. Era escolhido pelo sultão entre os dois candidatos que o governo
espanhol apresentava. Ditava os decretos e a justiça administrava-se em seu
nome. O Majzen correspondente à autoridade do califa era composto pelo
grão-vizir ou chefe dos serviços administrativos, o vizir da Justiça, que era o
chefe da justiça na zona, o administrador dos bens do Majzen e o
administrador dos bens doados (fundações ou bens deixados para fins
benéficos). As nomeações eram efetuadas pelo califa através de decreto mas
com a autorização prévia do alto-comissário espanhol.
b) Espanhola. Em primeiro lugar, estava o alto-comissário, como chefe político,
administrativo e militar do protetorado espanhol. Dependia da Presidência do
Governo e tinha um vasto poder. Em segundo lugar, estava o delegado-geral
ou secretário-geral, que substituía o alto-comissário e era o chefe da
80
administração protetora. Era também competente em matéria de polícia e
segurança. Era o delegado de Assuntos Indígenas para os assuntos
marroquinos.Também havia o delegado da Educação e Cultura, o delegado
da Economia, da Indústria e do Comércio, o delegado das Obras Públicas e
das Comunicações e o delegado da Fazenda. Cada delegação tinha várias
direções ou serviços.
c) Existiam também alguns órgãos mistos ou organismos em que participavam
tanto funcionários espanhóis como marroquinos: Junta Superior de
Monumentos Artísticos e Históricos, Junta Central de Saúde, Junta Central
do Crédito Agrícola, Mechles el Ulama (relacionada com os direitos de
usufruto dos bens doados), Junta Central de Estatística, Comissão Central
para a Luta Antipalúdica e a Junta Central de Higiene Pecuária.
Simultaneamente, os serviços periféricos organizavam-se numa administração
local igualmente bicéfala:
1) Marroquina. A administração local dividia-se em circunscrições, à frente das
quais se encontrava um alcaide e que compreendiam o território de uma
cabila. Se nesta existisse uma cidade, o cargo convertia-se em paxá e o
território, em paxalato. Os umana el mustafadatvi administravam os bens do
Majzen; os umana das alfândegas, as mesmas; os nuddarvii, os bens doados e
os almotacés cuidavam dos mercados.
2) Espanhola. Coincidindo com as circunscrições ou paxalatos, os espanhóis
estabeleceram os corpos de oficiais territoriais, com um interventor a
comandar, que era militar e exercia no território as competências
administrativas, políticas e de polícia. Em cada corpo de oficiais, era
costume haver serviços de ensino, saúde, obras públicas, agricultura, polícia
e finanças. Nas cidades, existiam juntas municipais ao jeito de câmaras
municipais.
3) Órgãos mistos. Juntas locais de Monumentos, Saúde, Beneficência,
Depósitos Agrícolas, Estatística e Luta contra o Paludismo.
Por último, reconheciam-se as comunidades hebraicas, que tinham algumas
peculiaridades próprias.
vi
vii
Governadores responsáveis pela receita da cidade [NT].
Representantes dos donativos [NT].
81
As zonas rurais foram divididas em corpos de oficiais territoriais comandados
por um militar. O interventor formava parte de uma elite administradora. «O essencial
para o desempenho deste importante cargo é o domínio do idioma árabe; sem este
requisito elementar, não se poderá nunca conseguir o bom rendimento que se deve
esperar daquele que ocupa um posto político-militar», dizia o capitão Amigó, em 19287.
O interventor era uma figura ilustre que falava com os indígenas no seu idioma e estava
familiarizado com a sua cultura e os seus costumes. Vivia na zona que dirigia e tinha
um contato direto e preciso com o mundo rural. Os corpos de oficiais fiscalizavam as
autoridades marroquinas, sobretudo no que dizia respeito ao modo de exercer o poder
sobre os habitantes. Tinham funções de polícia e vigilância, para o que contavam com
forças da Mezjanía, polícia indígena, e da Guarda Civil. Dirigiam os serviços de
interpretação no seu território e controlavam os da educação, saúde, comércio,
beneficência, etc. Também tinham uma importante missão de informação. Pode dizer-se
que eram como delegados ou governadores de cada circunscrição, tendo também um
poder moderador ou de justiça em assuntos de pequena importância. Portanto, as suas
funções eram muito amplas e de difícil sistematização. A variedade de funções obrigou
os interventores a conhecer um tal número de disposições oficiais que o seu trabalho foi
altamente delicado e de realização muito difícil8. No entanto, foram a alma da
Administração espanhola no protetorado marroquino.
O sistema era complexo. Para a aplicação da justiça, por exemplo, cada grupo
racial ou religioso tinha os seus próprios tribunais: os espanhóis recorriam aos tribunais
civis ou eram julgados pelos militares, se pertenciam a esta classe. Os muçulmanos
tinham os tribunais do Majzen, que atuavam com total autonomia e, em algumas
ocasiões, podiam julgar os europeus, e os tribunais religiosos ou islâmicos. O direito
consuetudinário berbere era respeitado e as yamás ou assembleias de tribo estavam
encarregadas de ajuizar os casos que estavam sob a sua autoridade. Os hebreus tinham
tribunais israelitas em Nador, Larache e Tetuan, bem como um alto Tribunal Rabínico
em Tetuan. No protetorado, respeitava-se a liberdade dos cultos. O ensino primário era
administrado em árabe para os marroquinos, em espanhol para os espanhóis e em
espanhol e hebraico para os hebreus. Existiam dois ensinos secundários, o espanhol e o
marroquino.
A instauração do protetorado não deu origem a uma reação forte contra os
espanhóis nas zonas urbanas, mas agravou as contínuas campanhas de pacificação na
zona oriental, onde os cabilenhos se organizavam em torno de líderes tribais que os
82
levavam a lutar contra os espanhóis, a quem viam como ocupantes ilegítimos da sua
pátria. A zona ocidental não teve uma reação tão violenta: parece que, de início, uma
grande parte da população aceitou o novo sistema com alguma esperança de melhorias,
mas também surgiram cabecilhas como El Raisuni, que, após hesitações, se lançou
contra os espanhóis, procurando um poder que o tornasse forte também perante o sultão.
Mais guerra: as campanhas de 1911-1914
Em 1912, o general Alfau passou a ser o primeiro alto-comissário. A zona
espanhola estava só parcialmente ocupada. Em Melilha, como consequência da guerra
de 1909, havia-se dominado uma extensão de 300 a 600 quilómetros quadrados, que
abrangia o território mineiro. Na parte ocidental, apenas se ocupou Larache,
Alcácer-Quibir e Arzila. Ocupou-se Larache em julho de 1911, com a aquiescência da
população. Os espanhóis verificaram que o capitão francês Moreaux se havia
estabelecido próximo de Alcácer-Quibir com o pretexto de vigiar uma mehalla (tropas
do Majzen marroquino) e suspeitaram que a sua intenção era ocupar essa cidade. Os
espanhóis, aproveitando a situação de pilhagem e a falta de autoridade, desembarcaram
no dia 8 e, passados dois dias, o capitão Ovilo entrou em Alcácer-Quibir para a colocar
sob proteção espanhola. A zona ocupada foi posta sob o comando do tenente-coronel
Silvestre, que era o major da polícia de Casablanca.
Exercia grande influência na zona uma personagem feudal de estranha e rica
personalidade, excêntrica e cruel na sua forma de exercer o poder, muito próximo do
banditismo. Muley Ahmed el Raisuni tinha uma vasta formação jurídica e religiosa. Os
seus excessos haviam-no levado à prisão em Mogador, durante quatro anos. Voltou
cheio de ressentimento contra o sultão e viu na colaboração com os espanhóis a forma
de obter mais poder no território norte. Instalou-se em Zinat e serviu-se de artifícios
para sequestrar os ingleses Harris, Pericardis e McLean, bem como todos os que se
punham no seu caminho e pelos quais pensava poder obter resgate. Quando se deu uma
revolta contra o sultão, colocou-se ao lado do pretendente, sublevando as cabilas. No
momento em que os espanhóis chegaram, o seu poder tirânico estava consolidado e
podia submeter a zona. Por isso, Silvestre pensou que, com a sua colaboração, o
domínio seria fácil. E ao princípio foi: El Raisuni facilitou a conquista de Arzila e ficou
como paxá da cidade. No entanto, Raisuni e Silvestre tinham personalidades fortes,
83
eram pouco dados à negociação, imperativos e energéticos, e cedo surgiu o confronto
entre eles.
Em 1911, Alfau, comandante-geral de Ceuta, decidiu ocupar o campo exterior
até ao monte Negrón, seguindo o caminho aberto em 1860. Tanto ele como Larrea, que
era o comandante-geral de Melilha, tinham, nesse momento, um conceito protetor da
política colonial e tentavam ganhar os favores dos indígenas mediante obras públicas e
investimentos. Alfau aproveitava a construção da estrada Ceuta-Tetuan para mover e
estabelecer tropas. Após a instauração do protetorado em Marrocos, o comandante-geral
Alfau quis continuar com uma política de penetração pacífica que partia da premissa de
conseguir a colaboração das autoridades ou dos chefes locais. Estes pediam em troca
dinheiro, poder ou ambas as coisas. Alfau, que conhecia a debilidade deste
procedimento, tentou que El Raisuni fosse nomeado califa (representante do sultão no
protetorado espanhol), mas não o conseguiu, porque outros espanhóis, conhecedores da
inconstante e inquietante personalidade do marroquino e da sua insaciável voracidade
na cobrança de impostos, o impediram. Isto incomodou muito El Raisuni, que, já em
luta com Silvestre, sofreu ainda a ofensa de ver que este apoiava o seu rival Ermiki na
zona de Alcácer-Quibir e que atendia os que ele havia prejudicado. Em 1912, a estrada
já chegava a Cabo Negro e as tropas de engenheiros que a construíam e de infantaria
que a protegiam estabeleceram um acampamento no aduar chamado Medik e que se
converteria na vila de El Rincón de Medik, que é hoje uma cidade com cerca de 40000
habitantes.
Antón del Olmet descrevia-a, em 1913:
Sem ofensa, pode afirmar-se que El Rincón não é Paris. Quando está levante, é
impossível desembarcar. Hoje, com poente, pode-se fazê-lo, mas parcialmente.
Nem uma casa. Alguns barracões de cantineiros; montes de palha; automóveis
que vêm e vão, aprovisionando as tropas; um par de ovos que a esposa do galo
de Morón pôs e um café com leite que é apenas com lama. O incipiente, o que há
para se improvisar à força aparecem no Rincón de Medik. Mas não sejamos
avarentos. Ainda mais infeto foi Nador e hoje é uma pequena vila asseada onde
habitam a paz e o contentamento. Uma carroça, numa estrada espanhola feita
pelos nossos soldados e que ainda é massacrada pela guerra, conduz-se sem
demasiado rendimento até à cidade sagrada, até à Tetuan do nosso sonho e do
meu orgulho!9
84
Em 1913, Alfau entra pacificamente em Tetuan e dispõe-se a convertê-la na
capital do protetorado. Isto gerou uma revolta em várias cabilas próximas, tendo El
Raisuni aproveitado para chefiar a ação antiespanhola na parte ocidental. Esta rebeldia
duraria vários anos e passou por diferentes fases, mas foi muito resistente na parte que
vai de Tetuan a Xauen, Beni Arós e a foz do rio Lau. Deixou a cidade de Arzila e partiu
para os montes existentes entre Larache e Xauen, num lugar chamado Tazarut, onde
possuía um palácio que usou como residência habitual e quartel-general.
Na zona de Melilha, depois da guerra de 1909, as coisas não estavam
completamente pacificadas. Começava-se a dizer que o assunto não se resolveria até
que os espanhóis dominassem a baía de Alhucemas, ponto nevrálgico da revolta rifenha.
Os espanhóis mantinham em seu poder, desde 1910, quase toda a península de Três
Forcas, mas sem atingir o Kert até à sua foz, e estendiam-se pelo este até ao Cabo de
Agua, em frente das Chafarinas. Tinham o Gurugu, o Mar Chica e o território mineiro.
A oposição havia aproveitado o fim da campanha para atacar com maior fúria o governo
de Maura por não ter apoiado suficientemente o bastante o general Marina, que se viu
obrigado a demitir-se.
Os espanhóis haviam aprendido muito com a campanha de 1909. Conheciam
melhor o inimigo e mudaram o modo de combate. Tornaram-se populares alguns
manuais franceses de combate em África, que explicavam o modo de atuar do exército
francês na Argélia. Compreenderam que se deviam deslocar com colunas móveis e
surpreender o inimigo, que o mais importante era a estratégia e que deviam atuar com
mais de uma coluna em simultâneo. Os referidos manuais circulavam em francês e eram
obra de Yusuf y Frisch, um italiano que cresceu como cativo em Tunes e que, em 1830,
entrou com os franceses na Argélia, onde chegou ao grau de general de três estrelas10.
De acordo com o conceito de operações de polícia que o exército espanhol tinha, era
importante dominar o território útil.
Em maio de 1911, o general Larrea ocupava Zaio, junto ao rio Muluya, que era o
limite da zona espanhola. Deixou um destacamento ali e outro numa zona intermediária
com Zeluan. Nesta última localidade, o general Orozco colocou meia brigada. Não
tiveram oposição dos habitantes. Mais tarde, alargou-se a área com as ocupações de
Ras-Medua, Taurit e Harcha. Por último, parte da coluna levada por Orozco a Zeluan
deslocou-se até Segangan. Nesta parte oriental da zona, não encontraram resistência.
85
Os espanhóis queriam consumar o seu controlo sobre a península de Três Forcas,
ampliando o seu domínio até ao rio Kert, e pretendiam inclusivamente chegar mais
além, até El Garet. Para isso, o general Marina e o coronel Serra Orts haviam mantido
conversações com os chefes das cabilas e havia-se chegado a um acordo de ocupação
pacífica que posteriormente não se cumpriria. Queriam ocupar definitivamente a zona
que lhes correspondia e estabelecer aí a sua autoridade. O rio Kert é um canal seco na
maior parte do ano, pouco mais que um regato, que apenas parece um rio quando as
chuvas o enchem de água. Atravessá-lo pressupunha entrar nas cabilas de Beni Sicar e
Beni bu Gafar, lideradas por El Mizzian ou Amezian, homem de grande prestígio
religioso e humano que exercia uma influência notável. Velho conhecido dos espanhóis,
pela campanha de 1909, não era um cabecilha tão cruel nem tão despótico como era
costume. Juntava à sua vida guerreira uma profunda piedade islâmica. Os espanhóis
verificavam que eram continuamente agredidos pelos cabilenhos que se opunham à sua
presença e que eram apoiados pelas cabilas do Rife central, especialmente por Beni
Urriaguel e Bocoya. Em agosto de 1911, alguns trabalhadores da Comissão Geográfica
que elaboravam um mapa foram agredidos e, durante a noite, viram-se nos montes as
fogueiras que chamavam a harca contra a Espanha.
Os combates de agosto e de início de setembro foram duros e o general Larrea
empenhou-se enérgica e rotundamente contra as cabilas rebeldes. García Aldave, que
era capitão general de Melilha desde outubro de 1910, tentou impedir as agressões com
conversações, mas não hesitou em atacar os rebeldes. Os espanhóis mantiveram-se na
margem direita do Kert e os mouros não conseguiram passar o rio. As harcas chegadas
do Rife central, com numerosa cavalaria, deram uma dura luta aos espanhóis, que se
mantiveram nas suas posições devido à artilharia e às manobras da infantaria. No
entanto, o rio Kert ficou como uma fronteira entre o que os espanhóis podiam possuir e
o território rifenho alheio ao seu domínio, que permanecia com o seu tradicional
governo tribal. Larrea aproximou-se do Kert com três colunas diferentes e, no início de
setembro, já tinham a margem conquistada, mas sofriam constantes ataques
marroquinos nas posições de Izhafen, Taurit e, sobretudo, em Imarufen, que era a mais
desprotegida. Os espanhóis tiveram que conter o avanço para reforçar e fortificar estas
posições avançadas.
No início de outubro, apresenta-se em Melilha o ministro da Guerra, general
Luque, que parece mostrar-se satisfeito por ter chegado ao rio Kert e manter a margem
norte. No entanto, as aspirações não se ficavam por aí. Decide-se uma operação de
86
punição contra as cabilas inimigas, atravessando-se o rio de novo. É necessário referir
que, nesta fase, já se havia aprendido a tática francesa da terra queimada e os espanhóis
incendiavam os bens, as casas e as colheitas dos inimigos. No dia 7 de outubro, o
coronel Primo de Rivera chegou a Ifratuata e tentou fortificar a posição, mas retirou-se
para Imarufen, no dia 8. Tratava-se de uma manobra de distração para permitir a Orozco
chegar a Zoco de Zebuya, castigar o inimigo no seu terreno e queimar os seus bens. Até
ao dia 30 de outubro, não houve combates importantes. Os espanhóis mantinham as
suas posições, embora fossem fortemente fustigados. Numa das ações, morreu o general
Ordóñez e, para o substituir, foi enviado o general Aguilera, um militar prestigiado
veterano de Cuba, da guerra carlista e da campanha de 1893.
Os combates haviam servido aos Beni Urriaguel para fortalecerem as suas
posições costeiras, desembarcando em Alhucemas, pois temiam uma ação espanhola na
retaguarda. Em dezembro, a situação continuava por pacificar. A harca de El Mizzian
decide atacar definitivamente na noite do dia 21 de dezembro. Permanecia colocada em
Bu Ermana, a cerca de 10 quilómetros do Kert. E, dada a ordem, atravessaram o rio e
atacaram as posições espanholas, tentando conquistar as mais importantes do perímetro.
Era uma ofensiva em larga escala. Ocuparam as colinas de Taurit-Buxí e tentaram
conquistar Taurit-Zag, no dia 23; apenas o impediu a chegada das colunas de reforço
dos coronéis Ros e Serra. Posteriormente, juntar-se-ia a elas uma terceira coluna,
comandada por Aizpuru. No dia 25, os espanhóis contra-atacaram para reconquistar
Taurit-Buxí.
Aguilera apercebe-se de que a campanha apenas terminaria quando
conseguissem expulsar a harca para o outro lado do rio Kert, sem lhe dar a
possibilidade de voltar a cruzá-lo ficando como fronteira provisória entre o território
espanhol e o campo rebelde. No dia 26, decide organizar uma vasta operação que
abrangesse um extenso território, de Iazanen até Punta Negrí, e, para isso, organiza
cinco colunas sob o comando dos generais Carrasco e Ros, dos coronéis Serra e Aizpuru
e do tenente-coronel Regoyos. O objetivo era a colina de Izarrora. O inimigo era em
maior número do que se calculava. No dia 27, as colunas acamparam à vista do
objetivo, que foi conquistado nesse dia, obrigando os marroquinos a atravessar de novo
o Kert. Os espanhóis caminharam em condições penosas, sem descanso, constantemente
fustigados pelo fogo da harca e sofrendo um número de baixas que, em algumas
companhias, chegava a metade do seu total.
87
Havia chegado o ano de 1912 e havia-se reduzido a harca de El Mizzian; por
isso, os espanhóis decidiram alargar a zona para o sul, com a conquista do Monte
Arruit, e dominar as planícies de El Garet. A operação apresentava-se como a mais
importante das realizadas até então, não apenas por envolver o ponto mais distante de
Melilha até onde se chegava, mas também pela importância de dominar, a partir dessa
elevação, toda a planície de El Garet. A operação era chefiada pelo novo
comandante-geral espanhol, García Aldave. O primeiro objetivo, que era a conquista do
lugar, foi cumprido no final de janeiro de 1912. O segundo objetivo – atrair o inimigo
para o destruir –, não foi conseguido porque a harca estava cansada pelos castigos
excessivos. Uma vez conquistada a posição, o general Larrea permaneceu no lugar, com
o objetivo de empreender uma política de atração pacífica dos chefes das cabilas. Os
marroquinos, vencidos, não voltaram ao combate, embora se excedessem em atos de
pilhagem, roubos, ataques, sequestro e assassinatos de colonos e de mouros partidários
de Espanha. Embora a harca tentasse organizar-se de novo ao abrigo do monte Mauro,
foi definitivamente derrotada pelos espanhóis e dissolveu-se no final de março daquele
ano.
Os combates prosseguiram até abril de 1912, mas com menor intensidade. Em
1911, haviam-se formado os Grupos de Forças Indígenas Regulares, conhecidas
popularmente como os regulares, primeira tentativa espanhola de integrar indígenas
com comandos espanhóis em unidades profissionais, que o coronel Berenguer
comandava. No dia 15 de maio, os regulares de Berenguer enfrentaram a harca inimiga
num duro combate que deixou no campo de batalha o cadáver de El Mizzian. Isto
precipitou o fim da guerra. O cadáver de El Mizzian foi levado para Melilha e
posteriormente entregue, com todo o respeito, aos seus familiares, em Segangan, com
uma companhia de infantaria a prestar-lhe homenagem. Rosa María de Madariaga
explica por que razão foi levado previamente à praça: «Se os espanhóis levaram o
cadáver de Amezián para Melilha, era porque tinham particular interesse em que todos
na cidade, cristãos e muçulmanos, vissem que o morto era efetivamente ele. Com isso,
destruíam a lenda da sua imortalidade que circulava entre os rifenhos e desmoralizavam
a resistência, que se via privada do seu chefe carismático»11. Foi um homem que lutou
nobre e abertamente pelo ideal da independência da sua terra e, se não tivesse morrido,
provavelmente teria sido possível atraí-lo para a causa espanhola através do
reconhecimento da sua autoridade e autonomia. Foi um combatente que Abd el Krim
admirou mais que a nenhum outro.
88
No entanto, a guerra no Rife desenvolvia-se de outra forma. Os militares
espanhóis formavam-se nas academias para as guerras contra exércitos. «Precisamente
por ser uma guerra irregular, está-se sempre exposto a grandes surpresas favoráveis ou
adversas, pela mesma irregularidade que usa o inimigo; trata-se de uma guerra em que
quase todos os dados do problema são desconhecidos para quem comanda e para os
Estados-Maiores e, portanto, a resolução é mais difícil do que na guerra regular, em que
tudo se sabe, geralmente, tudo se presume, se forma um plano, se prepara e se
desenvolve com total regularidade e exatidão. Em África, não; na guerra africana, vai-se
sempre para o desconhecido»12. Em todo o caso, os espanhóis tinham que deslocar
grandes quantidades de tropas para poder vencer a resistência rifenha. Manter um
exército tão numeroso, que também sofria um grande número de baixas, era caro e
impopular. Os espanhóis sofriam um autêntico pesadelo de cada vez que as cabilas se
revoltavam e que tinham que abafar a revolta. Era muito dispendioso conquistar
território economicamente inútil. Cada vez mais, aumentavam as vozes contra a
presença espanhola em Marrocos, que, na opinião de muitos, apenas trazia sangue e dor.
Enquanto a guerra durou, as cabilas do Rife central (Beni Urriaguel, Bocoya e
Tensaman) apoiaram de forma decidida o El Mizzian, hostilizaram a ilha espanhola de
Alhucemas e as propriedades dos mouros amigos de Espanha, entre elas a casa do pai de
Abd el Krim. Os espanhóis respondiam com as baterias da ilha e com os canhões dos
navios da armada enviados à baía.
Os anos seguintes foram de relativa calma, pela complacência em manter as
posições e pelo empenho na penetração pacífica, que era cara, mas que não era
propriamente penetração, pois os espanhóis continuavam limitados nas linhas ganhas na
guerra. Durante a Primeira Guerra Mundial, a França pediu à Espanha que reduzisse as
suas operações e assim se fez. Não obstante, em 1916, colocaram-se outras posições
permanentes na outra margem do Kert, na cabila de Metalza, e fizeram-se incursões
pelo sul até o rio Muluya.
Penetração pacífica, penetração militar. Os planos para o protetorado
A situação na zona ocidental do protetorado apresentava-se um pouco mais
pacífica. Larache, Arzila e Alcácer-Quibir estavam ocupadas quase sem oposição e
Silvestre negociava de forma amigável com o xerife El Raisuni, paxá de Arzila, até que
as suas personalidades chocaram irremediavelmente. Em defesa de Fernández Silvestre,
89
há que dizer que a função protetora da autoridade espanhola não permitia os abusos, as
atrocidades, as rapacidade e os excessos que El Raisuni empregava para submeter as
cabilas da zona e exercer sobre elas o poder. Prisões chocantes, atrocidades ou morte
eram as penas impostas arbitrariamente pela justiça local por pequenos delitos ou
simplesmente por desrespeito da sua absoluta autoridade com gestos ou símbolos. No
entanto, Silvestre não havia calculado bem o poder de que dispunha o caudilho
marroquino; por isso, o confronto não acabou em submissão de um ao outro, mas numa
intranquilidade constante na zona que não permitia viagens por terra porque El Raisuni
e os seus homens praticavam o sequestro para cobrar o resgate, como nos melhores
tempos da pirataria, que, por sua vez, sempre havia sido um bom negócio no país,
praticado por autoridades, corsários ou bandidos.
O xerife havia compreendido que Silvestre atuava por conta própria, sem se
articular com a Legião Espanhola em Tânger nem com o Alto Comissariado, o que lhe
proporcionava maior margem de atuação. Silvestre cometia imprudências, uma atrás da
outra. Em 1913, decide aliar-se ao tradicional inimigo de El Raisuni, chamado Ermiki, o
que provoca a irritação do primeiro. Depois disto, Silvestre punha-se do lado de
qualquer um que estivesse contra Raisuni, tentando minar a sua autoridade em Arzila.
No final do ano, reconhecendo a impossibilidade do acordo com Silvestre, Raisuni
abandonou a zona e refugiou-se em Tazarut, nas montanhas, convertido já em inimigo
de Espanha e senhor do lugar. Raisuni garantiu a presença pacífica dos espanhóis ali,
mas não os deixava exercer toda a autoridade. A sua rebeldia resultaria na luta aberta
com as cabilas comandadas pelo xerife. O cabecilha sentia-se seguro nas montanhas de
Zinat, em Tazarut, em Beni Arós. Os espanhóis eram mais fortes na planície; tinham
artilharia e dominavam o combate em campo aberto.
Alfau, alto-comissário no protetorado, continuava com o seu desejo de ligar
Ceuta a Tetuan por estrada e telégrafo. A ocupação de Tetuan havia gerado uma forte
oposição entre as cabilas, chegando inclusivamente a formar uma harca em Ben
Karrich, que não chegou a atacar a cidade mas obrigou a desalojar o fondak de Ain
Yedida, ponto-chave na passagem das montanhas do caminho de Tetuan a Tânger,
embora, pouco depois, se conquistasse Laucien, nas proximidades. Os espanhóis
estavam obrigados a respeitar ao máximo os costumes, a religião, a forma de vida e a
ordem social muçulmana, para atrair pacificamente a população e evitar a guerra. O
impetuoso Silvestre continuava a ganhar a inimizade da população e, no dia 7 de julho
de 1913, a harca atacou Alcácer-Quibir, que se pôde salvar devido à carga dos
90
esquadrões da cavalaria sob o comando de Queipo de Llano. Entretanto, em Yebala, os
habitantes cortavam a estrada de Ceuta a Tetuan e causavam prejuízos aos viajantes.
Em agosto de 1913, o general Marina substituiu Alfau como alto-comissário. A
primeira coisa que fez foi tornar o caminho seguro, através de uma série de postos
militares entre Ceuta, Medik, Rio Martín e Tetuan. Enquanto Silvestre aumentava o
perímetro ocupado de Larache com ações em Seguelda, Cuesta Colorada e Bufas,
Marina tentou contactar com o Raisuni, em maio de 1915, para chegar a acordos, mas
não o conseguiu: os cadáveres dos seus emissários apareceram nas proximidades de
Larache. Desconfiou de Silvestre, opositor a esta aproximação e partidário de dirigir um
golpe militar contra o cabecilha. Marina sabia que tinha 40000 homens entre Ceuta e
Tetuan, mas eram poucos para conquistar as montanhas e chegar a Xauen. Não poderia
consegui-lo sem a participação de Raisuni. «A estrada de Ceuta a Tetuan estava
ocupada por milhares de soldados, dez ou doze mil homens em penoso serviço de
vigilância, num caminho de 48 quilómetros. E, apesar de tal luxo de forças, apenas se
garantia a segurança das oito horas da manhã às cinco horas da tarde; à noite, a estrada
era dos rebeldes e as tropas recolhidas nos seus acampamentos, fortins e redutos eram
tropas sitiadas. Quantas sentinelas caíram vítimas dos disparos!»13.
Pouco depois, Marina demitiu-se e foi substituído por Gómez Jordana,
comandante-geral de Melilha até então. Jordana, perante as dificuldades que
apresentava a ocupação total do território e a sua submissão a Espanha, optou pela
negociação. No final desse ano, chegou a um acordo com El Raisuni, deixando-o
governar, em nome do sultão, as cabilas que submetesse. Fizeram-se operações
conjuntas para conquistar o fondak de Ain Yedida, que garantia a comunicação de
Tetuan e Larache e isolava, a norte, as cabilas de Anyera e Uad Ras, situadas em
território montanhoso e de difícil acesso por falta de caminhos. Colaborou também na
instalação de postos militares e nas operações contra as cabilas rebeldes. No entanto,
Raisuni continuou com a sua política de abusos e humilhação aos representantes de
Espanha, o que provocou a sua rutura com Jordana porque pensava que a sua
colaboração com a Espanha lhe retirava poder e prestígio entre as cabilas, com o risco
de surgir um novo líder que o substituísse. E também, como assinala Tessainer, porque
sabia que o território pacificado se integraria normalmente no protetorado espanhol,
como estava pactuado, e não lhe restaria nada. Quis excluir do protetorado os montes de
Yebala, de forma a continuarem sob a sua autoridade, mas os espanhóis não estavam
dispostos a ceder território a um líder local.
91
O contacto que Raisuni mantinha com os alemães era outro dos motivos que
preocupava os franceses e os britânicos, pois fazia pensar que o xerife tentava obter os
favores dos alemães perante uma hipotética derrota aliada na guerra. A partir de 1916, a
rutura começava a ser evidente e, em outubro desse ano, Raisuni cortou de novo a
passagem pelo fondak de Ain Yedida14. Silvestre havia deixado o seu posto no final de
1915 e alguns elementos civis espanhóis, em particular o cônsul Zugasti, ainda
mantinham, em 1917, contactos com Raisuni, procurando uma solução pacífica. No
entanto, para os militares, estava claro que apenas o confronto armado acabaria com o
poder do xerife e conseguiria a pacificação da zona. Em julho de 1918, as relações entre
Raisuni e as autoridades espanholas quase não existiram, mas ainda teve lugar uma
reunião em que os espanhóis negaram as armas que o marroquino pedia. O
alto-comissário pediu instruções ao governo para saber que conduta manter, mas não
obteve resposta. A queda de Maura levou Romanones a ministro de Estado no novo
governo liberal e, posteriormente, à Presidência do mesmo. No entanto, Gómez Jordana
faleceu no dia 18 de novembro de 1918, sendo substituído pelo general Dámaso
Berenguer, partidário da rutura com El Raisuni. As deferências acabaram quando
Berenguer ordenou, após a sua visita a Madrid, em março de 1919, que começassem as
hostilidades para conseguir a total ocupação militar do protetorado espanhol.
A presença espanhola na parte ocidental, fundamentalmente na sua capital,
Tetuan, foi provocando o surgimento de uma emigração de funcionários e militares com
as suas famílias que necessitava de comerciantes, construtores, transportadores, entre
outros, e que consolidou a colonização espanhola em Marrocos. Algumas pequenas
indústrias e as explorações agropecuárias acompanharam o início desta aventura
demográfica. A zona oriental desenvolveu-se em torno da mineração que se concentrava
no porto de Melilha. A aprovação do Regulamento Mineiro, em janeiro de 1914,
clarificou muitas dúvidas sobre o regime de concessões e garantiu a segurança jurídica
nas atuações. As administrações espanhola e francesa garantiam às empresas os seus
investimentos em Marrocos e isto fomentou as denúncias de minas. Também se criou
uma Comissão Arbitrária de Litígios para resolver conflitos entre concessionários,
denunciantes e administrações, assim como para adjudicar provisoriamente as
explorações. Existia uma crença antiga, que posteriormente se demonstrou ser falsa, na
riqueza mineira que o Rife central albergava e que atraiu aventureiros de toda a espécie,
exploradores de ouro e empresários que esperavam encontrar o filão mágico. Esta febre
92
pelo negócio pressionava o governo espanhol a ocupar a zona e a proceder à divisão
mineira.
Ao mesmo tempo, iniciou-se a colonização agrícola. Deve-se assinalar que tanto
a exploração mineira como a agrícola e a pecuária produziram entre os marroquinos um
forte sentimento de usurpação das suas terras e de invasão de estrangeiros que excluíam
os habitantes da terra. Assinale-se, também, que este sentimento correspondia, em parte,
à realidade dos factos e explodiria quando chegasse o momento oportuno, como
aconteceu em 1921. Os espanhóis sonhavam com uma exploração agropecuária do
território à maneira argelina. No entanto, não contavam que as terras fossem pobres e
carecessem de água suficiente. Por volta de 1915, constituiu-se a Companhia Espanhola
de Colonização, que se encarregava de dar início à exploração das planícies de El Garet,
perto do Monte Arruit, para atrair colonos espanhóis da península e do Oranesado,
deixando pequenas porções de terra a colonos marroquinos. A companhia limitava-se a
comprar terreno - e, na compra, estiveram envolvidos a fraude e o engano - e a vender
lotes de diversos tamanhos que se pagavam a pronto ou em prestações. Apenas uma
pequena extensão contava com regadios. A esta ação tem que se acrescentar o
estabelecimento de outros espanhóis nas várzeas do Muluya e do Kert, e ainda os que
colonizaram as margens do Lucus, na parte ocidental do protetorado, onde atuava a
Companhia Agrícola do Lucus. A presença dos colonos trazia consigo a construção de
caminhos-de-ferro, estradas, telégrafos e todas as outras obras de fomento de que
precisavam. O projeto apresentava avanços notáveis e um aumento da população
espanhola, mas a guerra de 1921 interrompeu a experiência, que foi retomada em 1927.
93
4
DO DESASTRE DE ANNUAL AO DESEMBARQUE DE ALHUCEMAS.
PACIFICAÇÃO
Em 1919, os espanhóis mal dominavam uma pequena parte do território do seu
protetorado: Melilha e a sua zona de influência até ao rio Kert, ou seja, a península de
Três Forcas, pelo este, até ao Cabo de Agua, em frente das Chafarinas. Dominavam,
ainda, Ceuta e o sul até ao Rio Martín e Tetuan, bem como a zona costeira entre o rio
Lucus e a fronteira internacional de Tânger. Era muito pouco território, descontínuo e
não pacificado. Desde 1912, mal se havia avançado e, quando se avançou, custou muito
esforço e um grande número de baixas. A Espanha não cumpria a missão protetora e
estava a desempenhar um mau papel perante as outras potências europeias, pela sua
falta de resolução e pela sua incapacidade militar. As comunicações entre Tetuan e
Larache ou Tânger apenas eram possíveis por mar. El Raisuni, completamente
distanciado de Espanha, dominava o interior. E as cabilas próximas de Ceuta cortavam
com frequência o caminho-de-ferro Ceuta-Tetuan e a estrada paralela.
A situação em Espanha era complicada. A vida social sofria convulsões que
afetavam a política, na qual intervinham cada vez mais os militares e o rei. Em
Barcelona, o sindicalismo revolucionário era neutralizado pelos sindicatos amarelos,
apoiados pelo patronato e pelo governador civil Martínez Anido, que haviam levado a
cidade a um clima de agitação, atentados e violência. As greves haviam-se estendido
por toda a Espanha. A Primeira Guerra Mundial havia terminado e, com ela, esse espaço
de interinidade nas relações internacionais. O exército espanhol estava mal organizado:
faltava preparação, armamento, instrução, e sobravam oficiais e comandos. Era um
exército que dificilmente poderia enfrentar outro exército europeu e, nessas condições,
tinha grandes dificuldades em submeter o inimigo real, o marroquino. Em 1917, haviam
nascido as Juntas de Defesa, uma espécie de sindicato militar que tentava conseguir
reivindicações salariais, protestava contra o estado de abandono das unidades, assim
como contra a arbitrariedade nas recompensas, e conseguiu ser legalizado pelo governo
de Dato. As Juntas atuavam sobretudo na península, ao passo que os militares
africanistas as foram ignorando pouco a pouco até se chegar à rutura total entre eles.
Uma das reivindicações era acabar com as promoções por méritos de guerra, coisa que
os que se encontravam colocados em Marrocos e eram favorecidos por esta medida não
94
estavam dispostos a aceitar, porque consideravam que o militar devia ir à guerra e ser
recompensado por isso, por oposição aos que viviam comodamente numa guarnição
distrital. Em Espanha, não havia um exército colonial diferenciado da metrópole, o que
agravava as diferenças que, por outro lado, continuaram até à República. A atuação de
alguns dirigentes das Juntas, como o coronel Márquez, levou as Juntas ao desprestígio e
os êxitos nas campanhas, a partir de 1922, deram grande popularidade aos militares
combatentes em Marrocos, os africanistas, cuja influência na vida política espanhola
aumentou.
De Tetuan a Xauen
Em 1919, o general Gómez Jordana foi demitido e Dámaso Berenguer passou a
ocupar o cargo de alto-comissário. Diz-se que esta decisão contrariou o general
Silvestre, comandante-geral de Melilha e muito próximo do rei. Em todo o caso, as
relações entre o primeiro e o segundo, mais antigo no escalão, nunca foram fáceis.
Berenguer ia combater o estado de desobediência generalizada no protetorado para
acabar definitivamente com a rebeldia e impor a autoridade espanhola. A penetração
pacífica havia fracassado e o acordo com as tribos não chegou. Estava na hora de
empreender uma ação militar que, por outro lado, era o que os militares estavam a pedir
há anos.
Desta vez, o governo concordou. O plano traçado por Berenguer consistia em
avançar ao mesmo tempo de Melilha e Tetuan até convergir em Alhucemas. Em
Melilha, atuaria Silvestre e em Tetuan, Berenguer. Provavelmente, ter Silvestre como
comandante em Melilha foi um erro grave, tanto pela sua possível rivalidade com
Berenguer, como pelo seu carácter impetuoso e pouco dialogante. É fácil pensar que
Berenguer, para evitar desencontros com Silvestre, o deixasse atuar sem se imiscuir nas
suas decisões.
Silvestre gozava de uma autonomia imprópria de uma organização hierarquizada
e de forte disciplina. No entanto, nem todos os erros se podem atribuir à liberdade de
ação de Silvestre, mas há que os repartir com a negligência do comando de Berenguer.
Fernández Silvestre era um militar colonial de escassa formação académica. Embora
houvesse estudado em Toledo, adquiriu a sua experiência militar em Cuba, sua terra
natal, e é possível que não estivesse suficientemente adaptado à tática da guerra em
Marrocos. No entanto, era um homem profundamente arraigado no país, em que esteve,
95
com breves ausências, desde 1909. Falava árabe, embora tivesse um profundo
sentimento de alteridade e de missão colonial. Não gerava a diplomacia e atuava pela
força quando a sua autoridade era discutida. Gómez Hidalgo, cronista do Heraldo de
Madrid, descrevia-o desta forma:
Silvestre era a espada que cortava, a pólvora que detonava. Sempre rude, sempre
forte, era o líder vitorioso dos soldados de ferro. De facto, no exército,
considerava-se como um título de valor e de resistência integrar as fileiras do seu
comando. Porque o que exigia às suas tropas era certamente inverosímil. Sem
notar que nem todos gozavam de uma natureza atlética como a sua, obrigava-os
a caminhar dias inteiros debaixo de um sol ardente e a lutar sem descanso a
qualquer hora, em qualquer parte, sem motivo algum, e isso com um desdém
aparente pelas vantagens estratégicas. Mas, como não era general que mandasse
a partir do seu gabinete e, de vez em quando percorresse aparatosamente as
linhas o que o seu automóvel podia chegar, mas era, antes, um homem
regiamente cordial, sempre montado a cavalo, aventurado no mesmo risco que
qualquer chefe de guerrilha, que era o primeiro a chegar e o último a abandonar
em os lugares onde se anunciava algum perigo, todos os seus oficiais e soldados
gostavam dele e usavam palavras de afeto para se lhe referirem.1
Berenguer também era cubano, mas mais culto e menos impetuoso do que
Silvestre. Veterano das guerras em Marrocos, tinha a honra de ter sido o criador dos
grupos de Regulares, em 1911. Foi proclamado general de três estrelas em 1918, sendo
nomeado ministro da Guerra. Havia publicado, em 1918, um livro intitulado La guerra
en Marruecos, em que resumia os conhecimentos militares sobre estas campanhas.
Posteriormente, chegaria a presidir o governo espanhol, após a queda da ditadura de
Primo de Rivera.
Ambos os generais começaram com o pé direito as suas respetivas campanhas.
Berenguer, desde a sua residência de Tetuan, dispunha de um exército mais numeroso e
equipado do que o de Silvestre, e as comunicações com a península eram mais rápidas e
fáceis. Em 1919, dá os seus primeiros golpes ao tomar, no dia 6 de outubro, o fondak de
Ain Yedida e garantir o livre-trânsito para Tânger e Larache pelo interior. Embora
nunca abandonasse a ideia do pacto com os habitantes do território, apoiou a sua
política de sedução na força das armas. Nesse mesmo ano, conseguiu notáveis avanços
96
na região de Larache. Em 1920, ocuparam-se as elevações de Gorgues, ao sul de
Tetuan. Trata-se de uma cadeia montanhosa à distância de um tiro canhão da cidade que
dominava o curso do rio Martín e onde, surpreendentemente, não encontrou oposição. O
terreno era propício à resistência, pois era fácil fortificar as elevações dominantes e
esperar ali a difícil chegada do inimigo. Mais difícil lhes foi chegar a Ben Karrich, no
caminho para Xauen, que foi conquistado no dia 25 de junho. Com estas ações, El
Raisuni viu-se limitado às montanhas e deixou desimpedidos os caminhos que partiam
de Tetuan. Em Gomara, o avanço fazia-se repartindo grandes quantias de dinheiro pelos
cabecilhas locais, embora alguns recusassem a ajuda económica e se opusessem ao
avanço espanhol, «sendo frequentes - como escreve Rosa de Madariaga - os confrontos
entre os partidários e os adversários da colaboração. Nestas condições, o avanço em
Gomara não se tornava tão fácil como se queria fazer crer à opinião pública»2.
No início desse ano, o tenente-coronel Millán Astray havia fundado A Legião ou
Terço de Estrangeiros, unidade profissional que estava encarregada de combater na
primeira linha em muitas das ações posteriores. O seu segundo comandante era o major
Franco. Tratava-se de uma unidade muito disciplinada, temerária e com uma grande
capacidade de manobra e combate, criada segundo o modelo da Legião Estrangeira
francesa que atuava na Argélia. A meio do ano, já estava preparada para entrar em
combate. No entanto, o Terço era apenas mais uma unidade, muito pouco numerosa em
relação ao total de forças espanholas em Marrocos.
O objetivo final desta primeira fase era a cidade de Xauen ou Chefchauen, no
centro da região montanhosa de Ajmas, e Beni Arós, a cerca de 70 quilómetros de
Tetuan. Conquistar a cidade significava pôr um ponta de lança no interior, isolar El
Raisuni em Tazarut e controlar, assim, as cabilas das montanhas. Para isso, Berenguer
saiu de Tetuan no dia 19 de setembro de 1920. A sua coluna era composta por cerca de
quinze mil homens, que avançavam pelo terreno plano, conquistando Zoco el Arba e
Dar Akoba, enquanto os cabilenhos se retiravam para as elevações, onde encontravam o
seu melhor modo de fazer a guerra. Quando se esperava uma guerra sanguinária, o
tenente-coronel Castro Girona, disfarçado de carvoeiro, entrou na cidade de Xauen e,
conversando com as autoridades, com promessas ou ameaças, conseguiu que abrissem
as portas às forças espanholas. No dia 15 de outubro, os espanhóis içaram a bandeira
nacional na localidade. Ao chegar a este ponto, como assinala Martínez de Campos3,
surgiram três problemas ao general Berenguer: assegurar a cidade, pacificar Beni Arós e
acabar com El Raisuni. Os ataques às posições espanholas e o tiroteio eram constantes,
97
porque os rebeldes conservavam os cumes próximos da cidade. O descuido não era
possível nesses dias. Castro Girona, negociador imprescindível, entrou em contacto com
Gomara e conseguiu levá-los à paz. Com isto, havia-se chegado à foz do Lau em abril
de 1921, montando-se ali um acampamento de base, que, mais tarde, daria lugar à
povoação de Uad Lau. O pacto de Gomara permitia aos espanhóis estabelecer a
comunicação entre Xauen e o Mediterrâneo. Faltava atacar Raisuni e conquistar a cabila
de Beni Arós, era nisso que os espanhóis se empenhavam no verão de 1921, quando
ocorreu a tragédia.
O avanço do general Fernández Silvestre
Berenguer defende-se no seu livro das acusações de que foi alvo. Assinala, em
primeiro lugar, que o seu plano consistia em escalonar as operações, ou seja, acabar a
campanha na parte ocidental antes de começar a correspondente à oriental, que o plano
de Silvestre exposto ao Alto Comissariado apenas contemplava chegar até ao monte
Mauro e que tudo o resto se efetuou sem um estudo prévio necessário por parte do Alto
Comissariado4. No entanto, acrescenta que não quis contrariar a urgência com que
Silvestre expôs o seu plano de conquista e que consultou o governo antes de o autorizar:
Embora no meu propósito não entrasse a intensificação, por agora, da ação em
Melilha, como é sempre conveniente ir ganhando o terreno que se puder nas
ocasiões favoráveis, autorizaria o general Silvestre a fazer o que me propõe, se
V.E. não vir algum inconveniente de momento. E que o governo não viu
inconveniente, deixando ao meu critério a decisão; e, como consequência,
autorizei o general Silvestre a dar início às operações projetadas quando
considerasse oportuno, avisando-me, de véspera, de cada um dos seus
movimentos5.
Berenguer não exerceu a sua responsabilidade, não impôs os seus critérios. Face
à impetuosidade de Silvestre no seu plano, talvez invejoso dos avanços ocidentais,
optou por deixar Silvestre fazer o que queria, em vez de conter e ordenar uma campanha
mais lógica.
Silvestre, por sua vez, havia conquistado, em abril e setembro de 1919, Dar
Drius, Tafersit, Azrú, Midar e Buhafora. Em dezembro de 1920, tinha submetidas as
98
cabilas tradicionalmente inimigas, como Tafersit, Beni Tuzin e Beni Ulichek.
Continuava a avançar para o centro do Rife, para a baía de Alhucemas, cuja possessão
asseguraria aos espanhóis o controlo das tribos mais belicosas e garantiria a paz. Desde
sempre, os espanhóis sabiam que, sem o controlo da baía de Alhucemas, não se podia
dominar a zona. Os projetos para a conquistar nunca foram executados até esse ano,
apesar do seu grande valor estratégico e político. Silvestre havia aproveitado um
corredor menos montanhoso existente a meio caminho do mar e da fronteira sul do
protetorado, deixando a costa de fora. Não tinha lugares apropriados para desembarques
nem planícies para estabelecer cabeças-de-ponte. O avanço de Silvestre desde Melilha
parecia assombrosamente fácil, mal encontrou resistência, o que podia ter sido
interpretado como um sinal de que o inimigo estava a concentrar-se num lugar propício
para o ataque, embora Silvestre o interpretasse como apaziguamento face ao seu poder
bélico. Atribuía-se a Silvestre uma boa estrela e essa sorte ditou o final da campanha. O
seu último passo antes de chegar ao rio Amekran era cercar e dominar os Beni Said, o
que conseguiu em meados de dezembro de 1920, com a conquista de Ben Tieb, de Dar
Kebdani e do monte Mauro.
Em janeiro de 1921, Silvestre estabeleceu o acampamento principal na colina de
Annual. Chegar ao coração do Rife, à baía de Alhucemas, na cabila de Beni Urriaguel,
era o último passo e estava ao seu alcance. Silvestre avançava de uma maneira pouco
prática. Ao conquistar um território, deixava uma posição guarnecida com mais ou
menos homens, conforme achasse necessário. Alguns acampamentos eram importantes,
com milhares de homens, como o monte Arruit ou Dar Drius, ambos no caminho de
Melilha, para além de uma reserva reduzida em Dar Kebdani. Outros eram quase um
fortim. Tinha as forças dispersas por todo o território, o que debilitava o seu exército.
Não atuava, como ensinavam os manuais, com colunas móveis rápidas; pelo contrário, à
medida que conquistava uma porção da região, dotava-a de uma polícia militar pequena
e inoperante. Contudo, as comunicações continuavam a processar-se com normalidade,
as posições abasteciam-se sem contratempos e os serviços de aguada não eram
perturbados. As posições careciam de água e era necessário ir buscá-la diariamente aos
caudais ou aos poços, organizando operações arriscadas de proteção e transporte. Os
alimentos e munições também eram fornecidos a partir da praça. Havia, portanto, uma
sensação de tranquilidade que, como veremos, era apenas uma falsa aparência.
Silvestre havia optado pelo confronto total porque o convénio com as cabilas era
impossível. Era chefe da polícia indígena e um militar ilustrado, bom conhecedor da
99
história e com relações frequentes com os cabilenhos, o coronel Gabriel de Morales, que
parecia cético relativamente à aventura e não dissimulava as suas dúvidas sobre o final
da mesma. Desde fevereiro, havia comunicado a Silvestre os seus receios sobre a
conduta dos Beni Urriaguel, a cabila mais poderosa do Rife central, em cujo território se
encontrava a baía. Sabia, por confidências, que as cabilas centrais preparavam uma
resposta mas esperavam prudentemente pelo momento certo. Aconteceu o pior: as
cabilas puseram-se à disposição de apenas um comando para combater o inimigo
comum. Em muito poucas ocasiões, possivelmente esta foi a primeira, se haviam unido
as cabilas de Rife. Normalmente, as alianças eram parciais e para se combaterem umas
às outras. Mas, desta vez, tinham um inimigo comum estrangeiro e um líder com
prestígio e autoridade suficiente. O inimigo era a Espanha e, posteriormente, também a
França; o líder era Abd el Krim el Jatabi.
Abd el Krim era o chefe da cabila de Beni Urriaguel e tinha a sua casa em Axdir,
um pequeno aduar costeiro. Era filho de um chefe a quem queimaram a casa em 1909
por manter amizade com os espanhóis; esta relação, que se traduzia em benefícios,
permitiu-lhe que os filhos estudassem em Melilha e em Madrid. Abd el Krim, cuja
figura foi estudada amplamente por Maria Rosa de Madariaga, havia sido professor de
árabe ou chelja (dialeto rifenho) em Melilha, onde também foi juiz indígena e redator da
página árabe de El Telegrama del Rif. O irmão estava em Madrid, sendo bolseiro na
Residência de Estudantes e aluno da Escola de Minas da universidade. Abd el Krim
havia estado sempre muito próximo dos espanhóis, mas um incidente fez com que se
virasse contra eles. Em 1917, foi preso no forte de Rostrogordo. As circunstâncias não
são claras, pode ter sido devido a pressões francesas, por estar próximo dos alemães, já
que negociava em segredo com os Mannesman em plena guerra mundial. De facto, Abd
el Krim não foi condenado, estava numa espécie de prisão preventiva até que um dia
escapou saltando pela janela, caindo no chão pedregoso, o que o deixou a coxear para o
resto da vida. Apanhado e preso novamente, depois de posto em liberdade trabalhou em
Melilha mais uns meses. Possivelmente, o líder rifenho já seria um nacionalista
convencido. Havia visto Marrocos cair nas mãos dos franceses e dos espanhóis, havia
seguido o desenvolvimento da exploração mineira e, como tantos outros, sonhava com
um Rife rico, devido às minas, para o qual os espanhóis contribuiriam com ajuda mas
sem poder político. De regresso à sua cabila natal no final de 1919, começou a organizar
os seus habitantes de forma a superar as tradicionais instituições tribais e a preparar a
resistência armada contra os espanhóis com sistemas de exército moderno. O irmão
100
também havia regressado. Os seus dotes de organizador haviam acabado por ligar os
habitantes de Beni Urriaguel, Bocoya, Tensamen, Benu Tuzin e Beni Amart.
Os rifenhos adaptariam o seu modo tradicional de lutar às possibilidades de
armamento disponível. No entanto, era ilusório combater os espanhóis em campo
aberto. Por conseguinte, organizavam os seus combatentes em guerrilhas que
aproveitavam o caráter inexpugnável do terreno. Os rifenhos faziam emboscadas,
atacavam e desapareciam pelas montanhas antes que se organizasse a perseguição. Esta
era uma forma de fustigar continuamente o inimigo, mas não era forma de ganhar a
guerra. Possivelmente, esperavam conseguir outro tipo de armamento para lançar
verdadeiras batalhas, pois apenas contavam com fuzis e espingardas.
Em janeiro de 1921, Silvestre solicitou ao alto-comissário Berenguer autorização
para ocupar posições, o que obrigava a atravessar o rio Salah. Entre elas, estavam
Annual e algumas outras na costa que garantiam o abastecimento por mar. Em março,
instalam-se as de Sidi Dris, ao atravessar o rio Amekran, e Afrau, outra posição costeira,
mais a este, criada um pouco antes. Em frente, ficava a cabila de Tensaman. Silvestre
estava inquieto porque sabia que já fazia frente às mais poderosas e resistentes.
Provavelmente, viu-se obrigado a avançar mais além do prudente para garantir todo o
seu sistema de posições ou talvez quisesse aproveitar a situação de necessidade das
cabilas provocada pelas más colheitas. Talvez pensasse que, se havia chegado a esse
ponto sem grandes contratempos militares, o resto iria ser igual. Nunca atuou à maneira
argelina dos franceses, com poucas mas grandes posições e colunas móveis muito
operativas que castigavam o inimigo e deixavam para trás terra queimada. A tática de
Silvestre era de ocupação permanente; contudo, a disseminação de pequenas posições
não garantia o controlo total do território mas um trabalho de polícia que requeria a
pacificação prévia das cabilas.
Com a conquista de Beni Said, o território até ao rio Amekran estava nas mãos
de Silvestre. Tinha uma posição avançada em Annual e outra em Sidi Dris, que
apontavam diretamente para Alhucemas. O alto-comissário não impediu as ações de
Silvestre, sentia-se seguro. Em maio de 1921, Berenguer havia inspecionado a zona por
mar e por terra e não colocou obstáculos ao avanço do comandante-geral de Melilha. De
qualquer forma, havia-lhe exposto as suas dúvidas sobre a conveniência de prosseguir
pela costa ou pelo interior. Mas Silvestre já tinha o plano de continuar pelo interior,
apesar de, a partir de Ben Tieb, o caminho ser muito estreito, por entre desfiladeiros, e
101
de difícil trânsito. Contudo, até então, os abastecimentos faziam-se sem novidades e as
posições não eram incomodadas. Silvestre aproveita para viajar até à corte.
No entanto, em maio de 1921, começaram a chegar rumores confirmados pelo
coronel Morales e o major Villar de que um grande contingente armado espera os
espanhóis. Os contactos que estes oficiais da polícia indígena e o coronel Civantos,
governador da ilha de Alhucemas, mantêm com os marroquinos não oferecem
resultados favoráveis ao avanço. Abd el Krim, por sua vez, castigava os chefes
cabilenhos que entravam em conversações com os espanhóis. Silvestre parece atuar com
precaução, mas, no dia 1 de junho, conquista surpreendentemente Abarrán, uma posição
avançada situada numa colina. O major Villar conquistou-a durante a madrugada, com
mil e quinhentos homens, fortificou-a e deixou nela 100 regulares e 100 arqueiros com
quatro peças de artilharia. À tarde, os mouros atacaram e perdeu-se a posição. Embora a
maior parte dos defensores conseguisse salvar a vida e chegar a Annual, quase todos os
oficiais morreram, salvo o tenente Floresta, oficial de artilharia, que os mouros
prenderam para que os ensinasse a usar os canhões e que preferiu morrer de fome e sede
a fazer tal coisa.
A derrota foi vista como um pequeno revés, não se considerou nunca como um
facto importante. Berenguer escrevia: «Abarrán é um episódio doloroso, infeliz, da
guerra colonial; mas é um caso frequente durante a mesma e, geralmente, isolado nas
suas consequências. Abarrán foi uma surpresa, um excesso de confiança, a confirmação
da atitude rebelde, imprudentemente desconhecida, das cabilas de Tensaman e de Beni
Urriaguel; mas esta surpresa não se podia considerar como indício do que ocorreu
depois»6. Estas palavras escritas são estranhas, depois do ocorrido e conhecendo os
factos que se lhe sucederam. Abarrán foi um aviso do que viria, um ensaio de forças e
do modo de operar, um primeiro exercício de ataque. Não relacionar este episódio com
o que veio posteriormente é continuar a ser muito otimista ou muito inconsciente. Para
ocupar Abarrán, Villar chegou a acordos com os cabilenhos, que os aceitaram para,
depois, atacarem os espanhóis. Não há maior prova de que aquilo que se preparava
estava a ser ensaiado.
O alto-comissário conferenciou com Silvestre no Princesa de Astúrias, ao largo
de Sidi Dris, no dia 4 de junho. Mantêm posturas diferentes e há um desacordo entre
eles que converte a conversa numa disputa desagradável. Silvestre pede reforços
urgentes para finalizar a operação, as suas tropas estão no limite da elasticidade e
necessita de novas unidades para finalizar a marcha para Alhucemas. Berenguer não
102
atende a esta petição porque ele próprio necessita de todos os homens disponíveis na
parte ocidental do protetorado. Mas Berenguer não o impede de prosseguir com o plano
de avanço. Em todo o caso, a política de restrição orçamental do visconde Eza,
enquanto ministro da Guerra, não permite que o general Silvestre receba o armamento e
as munições que tinha pedido há meses, entre as quais se destacavam cerca de trinta mil
granadas.
Seguidamente, Silvestre ordenou que se conquistasse Talilit. Pretendia assegurar
o caminho para Sidi Dris, como forma de chegar ao mar e ser abastecido ou reforçado
por esta via; pretendia também garantir a passagem da retaguarda com Ben Tieb. Estas
três posições estavam no caminho costeiro de Alhucemas. Silvestre pensava que a harca
moura, entretida com a divisão dos despojos de Abarrán, deixaria que os espanhóis
continuassem a ser abastecidos.
A rota de Annual
No dia 7 de junho, ordena-se a conquista da posição de Igueriben, a cerca de 6
quilómetros de Annual, uma posição elevada que, ao contrário de Abarrán, não
dominava claramente o rio Amekran, mas que serviria para o controlo do caminho para
o mar. A posição situava-se num monte sem vegetação e todos os dias tinha que se fazer
a aguada numa ribeira a quatro quilómetros, o que pressupunha um duro combate contra
os cabilenhos emboscados e impunha a conquista prévia de uma colina dominante
chamada «de los Árboles». Os abastecimentos dependiam de Annual. A situação não
estava tão tranquila como anteriormente, havia nuvens de inquietude; as cabilas que
ainda não tinham sido conquistadas haviam formado uma harca numerosa. Os mouros
de regulares e a mehalla não recebiam os seus salários com regularidade e falava-se de
possíveis ataques e deserções. Os espanhóis ainda desconheciam que os indígenas de
Abarrán se tinham rebelado contra os seus chefes e disparado sobre eles.
O Exército de África é um corpo corrupto onde os cofres dos regimentos se
jogam nos casinos e o dinheiro destinado à roupa e à comida dos soldados é ilegalmente
utilizado pelos militares comissionistas. Vigarizam-se as listas de formatura,
simulando-se contar com mais tropas do que as que realmente existem, para se receber
as rações. Os oficiais comandantes dos acampamentos dormem em Melilha, deixando
sozinho o soldado de serviço. Os mouros, por sua vez, desejam vingar o despojamento
de terras de El Garet e das minas de Bu Ifrur, o desprezo que sofrem ao serem preteridos
103
nos contratos e os abusos cometidos contra as suas mulheres. A tradicional
independência rifenha tem, também, combustível com que aquecer o ânimo belicoso
dos seus integrantes. Abd el Krim não só sabe organizar os seus seguidores como
mantém o seu espírito de combate com promessas de riquezas e de uma vida melhor se
se derrotar o obstáculo à melhoria de condições, que são os espanhóis coloniais.
Silvestre toma decisões erradas. Dá licença ilimitada aos recrutas de 18 anos e
temporária aos de 19 anos. Substitui os veteranos por recrutas inexperientes de 20 anos.
Simultaneamente, insiste em pedir reforços, que não lhe são concedidos. No dia 9 de
julho, os espanhóis, na posição de Buimeyán, apercebem-se dos trabalhos que os
rifenhos fazem para atacar Igueriben e as defesas das trincheiras com que fortificam o
cerro de los Árboles, que nunca mais poderá ser conquistada pelos espanhóis para fazer
a aguada. Igueriben fica cercada e os seus defensores já não podem sair para procurar o
necessário. No dia 17 de julho, organiza-se, a partir de Annual uma coluna de socorro
sob o comando do major Romero López, que foi o último que conseguiu vencer o fogo
inimigo e entrar, dizimado, na posição. A partir de então, a situação torna-se
desesperada, pelo cerco que os cabilenhos fazem à posição.
Igueriben estava sob o comando do major Benítez, a quem se autoriza a
evacuação ou a rendição ao comprovar-se que as colunas de socorro não podiam chegar
até ele e deviam retirar-se, uma após a outra, perante o fogo inimigo. Benítez usa o
heliógrafo para comunicar com Annual: «Parece mentira que deixeis morrer os vossos
irmãos, uma mão cheia de espanhóis que souberam sacrificar-se diante de vós»∗. A
primeira questão – a da evacuação – era impossível para os trezentos homens com que
contava a posição face aos vários milhares de sitiadores; à segunda questão, respondeu:
«Os oficiais de Igueriben morrem mas não se rendem». Passaram quatro dias sem
ajudas e a comida havia terminado, haviam de beber a própria urina para mitigar a sede
e as munições chegavam ao fim. A última mensagem de Benítez por telégrafo ótico
dizia: «Restam-me doze cargas de canhão. Ao décimo segundo disparo, fogo sobre nós,
porque mouros e espanhóis estaremos misturados». Dos trezentos ocupantes de
Igueriben, apenas vinte e cinco chegaram a Annual. Quatro deles morreram ao provar a
água e outro, por asfixia. O inimigo rifenho obtinha a sua segunda vitória, sem
possibilidade de contra-ataque espanhol.
∗
Luis Casado Escudero, Igueriben, pp.197-198. Casado, tenente de infantaria, foi o único sobrevivente da
posição, foi feito prisioneiro por Abd el Krim e escreveu este livro como testemunho do ocorrido.
104
Na madrugada do dia 22 de julho, Silvestre convocou um conselho de guerra, na
sua tenda de Annual, que durou seis horas. A queda de Igueriben demonstrou a força
que tinha a harca inimiga e a debilidade do sistema de posições que Silvestre havia
estabelecido. O inimigo tinha já como objetivo a posição de Annual e o general
duvidava de que se pudesse defender, porque sofria das mesmas falhas de comunicação
e de abastecimento que Igueriben. Havia pedido – a Berenguer e ao ministro – reforços
da aviação e da marinha que bombardeassem o inimigo e não obteve nada. Não era
possível reforçar o exército de Melilha, não havia forças preparadas para acudir de
imediato. Ao amanhecer, viam-se cinco colunas inimigas a avançar sobre a posição. O
coronel Manella, comandante do Regimento de Cavalaria Alcântara, propôs que se
entrasse em conversações com o inimigo, o que foi recusado. Não se podiam render
perante uma tropa de mouros maltrapilhos. O coronel Morales, chefe da polícia indígena
e o homem que melhor conhecia os aldeãos, pensava que Abd el Krim podia liderar
perfeitamente as agressões contra os espanhóis mas não dominava suficientemente as
cabilas para lhes impor a paz.
Annual era uma ratoeira onde se concentravam cerca de 5000 homens, para além
do gado próprio de um contingente como esse. A resistência no lugar não teria
apresentado problemas se dispusesse de água, comida, medicamentos e munições, mas
não era assim. Para se fazer a aguada para tantas pessoas, havia que travar uma batalha
diária. Carecia-se de cisternas onde a armazenar e os barris nas traseiras das mulas eram
um alvo fácil. A sorte que antes havia sorrido tornava-se adversa. Annual escondia um
longo e tortuoso caminho, difícil de percorrer estando o inimigo organizado. Só o
desfiladeiro de Izummar, primeira dificuldade após o acampamento, era uma armadilha
difícil de vencer. Com os mouros nas elevações a disparar as armas modernas que
conseguiam através do contrabando de Tânger, apenas se podia desejar ter um menor
número de baixas organizando os flancos a meia altura e uma arriscada retaguarda para
proteger a coluna. Isso exigia o sacrifício de alguns e muita disciplina.
Havia-se decidido abandonar Annual e as outras posições mais avançadas e
rumar a Ben Tieb, a cerca de 15 quilómetros em linha reta, onde se aguardaria por
reforços. Assim, telegrafou-se a Berenguer e ao visconde de Eza, ministro da Guerra. A
retirada produziu-se imediatamente. Deram-se instruções apressadas e indefinidas para a
ordem de saída e retirada. No entanto, de maneira geral, não se seguiu nenhuma ordem
nem se cumpriram os mínimos requisitos militares para proteger a coluna dos flancos
organizados e escalonar a saída. Parece que o pânico começou no próprio momento de
105
abandonar a posição e causou uma debandada que ninguém pôde controlar nem
encaminhar. A ordem de saída e as ordens particulares dos comandos foram
desrespeitadas quase por completo. As tropas, aterrorizadas perante a morte próxima,
conhecedoras da crueldade dos mouros para com o vencido e testemunhas do que
ocorreu em Abarrán e Igueriben, decidiram correr desordenadamente. O inimigo estava
já nos arredores de Annual, sem que os espanhóis o impedissem. O caminho estreito
dificilmente permitia que passasse mais de uma pessoa de cada vez; mais à frente,
estreitava-se ainda mais, no desfiladeiro de Izummar, e descia para uma ravina
poeirenta. Cada um ia à sua maneira, fugindo apavorado. Burguete havia escrito antes:
«O contágio de um medroso, de um imprudente, corre como um regueiro de pólvora,
saltando o perigo de posto em posto»7.
Os comandos não podiam controlar a tropa, quando não eram eles os primeiros a
fugir, arrancando os distintivos. Aquele que conseguisse montava sobre uma
cavalgadura, mesmo que, para isso, tivesse que remover o ferido que a ocupava. O
pânico de uns contagiava os outros, largavam as armas e o equipamento para poderem
fugir com mais velocidade. A desordem era absoluta e ninguém parecia dominar a
situação. O coronel Manella, com a pistola na mão, tenta conter a enxurrada humana e
formar escalões para garantir a defesa, mas é impossível fazer obedecer uma maré
humana cujos comandos estão igualmente contagiados pelo terror. A ordem de retirada
abrangia a formação de duas colunas que estariam protegidas pelos flancos pela polícia
indígena e por regulares, mas os componentes destas unidades eram marroquinos que
cedo desertaram e se viraram contra os espanhóis. A formação diluiu-se na confusão de
homens e bestas que atropelou toda a zona, não se detinha nunca e não fazia frente ao
inimigo, que se limitava a fazer tiro ao alvo. Provavelmente, os rifenhos eram menos do
que se suponha, talvez uns poucos que se viram surpreendidos pelo desastre da
evacuação espanhola e decidiram aproveitar as circunstâncias.
Não estava previsto que o ataque sucedesse como efetivamente sucedeu, mas
aproveitou-se a confusão dos espanhóis e, perante a magnitude da tragédia, foi-se
avisando os cabilenhos, que se incorporaram pouco a pouco no festim de sangue. No
acampamento, ficou o general Silvestre, de quem nunca mais se soube. O seu
desaparecimento deu lugar a várias hipóteses sobre a sua morte, inclusivamente a uma
ou outra lenda sobre a sua existência remota e secreta.
A situação de pânico contagiou rapidamente todo o território e, uma após a
outra, foram caindo as quase cento e trinta posições que Silvestre havia estabelecido no
106
seu plano descabido. Umas foram simplesmente abandonadas pelos espanhóis e outras,
atacadas sem piedade quando o inimigo marroquino avaliou a dimensão do desastre. As
posições que se abandonaram ao mesmo tempo que Annual viram a mesma maré
desesperada de espanhóis a correr. O inimigo era implacável, matava, mutilava, não
respeitava a vida dos feridos e aproveitava o imenso espólio deixado. Os esquadrões de
cavalaria sob o comando do tenente-coronel Fernando Primo de Rivera, que, depois da
morte de Manella, ocupou o cargo do Regimento de Alcântara, esperavam à saída do
barranco e improvisavam cargas para conter os perseguidores e proteger o que restava
da coluna durante a marcha. A atitude heróica destes cavaleiros mitigou em parte a
carnificina da fuga e valeu a Primo de Rivera uma póstuma Cruz Condecorada de San
Fernando, entre outras condecorações.
No início, pensou-se em Ben Tieb para se reorganizar as tropas, mas essa
hipótese foi logo descartada, pela sua distância de Melilha, pela confusão nas linhas
espanholas e pela sua difícil defesa perante um inimigo convencido, com moral
vitorioso e inesperadamente armado com aquilo que os espanhóis deixaram para trás.
Ben Tieb era uma posição importante, com uma guarnição de 651 homens de infantaria,
cavalaria, engenharia, artilharia, intendência e saúde. Contava com duas secções e 189
cabeças de gado, e os seus arsenais estavam cheios. Em Ben Tieb, não havia ninguém
com autoridade para forçar os sobreviventes a ficar e resistir; à sua frente, apenas havia
um capitão, Lobo, que não conseguiu conter a maré agitada de fugitivos de Annual. Ao
chegar, a coluna não se reorganizou, mas continuou a fugir. Na retaguarda, os cavaleiros
de Alcântara tentavam proteger a retirada. As unidades estavam desfeitas e os seus
comandos naturais, desaparecidos ou incontactáveis. Entre a tropa espanhola, apenas
existia a urgência de conservar a vida. Separavam essa posição e Dar Drius apenas 10
quilómetros de terreno plano, sem montanhas, e os fugitivos preferiam chegar até lá. Era
maior e estava mais bem abastecida. A posição foi abandonada e incendiada, a coluna
continuou a sua marcha desordenada até Dar Drius, onde havia chegado, no dia 22, de
Melilha, o general Navarro, segundo comandante da Capitania.
A posição de Ben Tieb não podia ser reforçada por qualquer força de reserva. A
água e os alimentos apenas eram suficientes para alguns dias e, convertida em ratoeira,
Ben Tieb não permitia uma ação de ataque sobre o inimigo disperso pelos montes
adjacentes. A retaguarda, o único caminho estreito por onde podiam receber reforços,
estava cortada. Os espanhóis haviam chegado até ali sem lutar e, à primeira
oportunidade de batalha, fugiram perante os atónitos olhos rifenhos. Fugiam apavorados
107
e os rifenhos aproveitaram para os massacrar quase sem oposição. O líder rifenho havia
consolidado a sua posição de chefe após as vitórias de Abarrán e Igueriben, mas não
ousava atacar Annual em campo aberto porque isso seria colocar os seus perante o fogo
dos canhões. Mas deparou com a surpresa de um exército que abandonava a sua posição
de forma desordenada. O efeito psicológico foi grande, porque fez com que os
marroquinos notassem que eram capazes de vencer o exército europeu, desmoralizado e
sem convicção na vitória.
Em Dar Drius, esperava o general Navarro, a quem a situação surpreendeu mais
do que a ninguém; colocou-se à frente do que restava do exército, sem ter uma ideia
clara do que se podia fazer. No entanto, em Dar Drius, encontrava-se a tropa com mais
ânimo, fazendo trabalhos de reforço da fortificação e preparando-se para resistir. O
inimigo é mantido à distância e a sempre presente cavalaria de Alcântara, com o
tenente-coronel Primo de Rivera, protege a chegada de novos grupos de espanhóis. Teve
o auxílio dos soldados do regimento de San Fernando, do tenente-coronel Pérez Ortiz,
que constituía a força de guarnição nessa posição. Navarro havia pensado estabelecer
uma defesa escalonada, aproveitando as posições que mantinha: Dar Kebdani, Kandusi,
Drius e Telatza. Mas as tropas chegam desordeiramente sem os comandos à frente. Não
se podia improvisar uma organização, apenas manter dentro da posição, que tem água,
alimentos e munições, a maior parte dos fugitivos, que, naquele momento, eram mais de
2500 homens, mas cujo número continuava a crescer. Navarro deve encarar os factos,
mas falta-lhe serenidade. Vê-se surpreendido pelos acontecimentos. Desconhece
realmente quantas baixas o inimigo causou e de que forças dispõe. Ignora se os
comandos naturais das unidades continuam à sua frente ou se estão mortos,
desaparecidos ou correram para Melilha. Drius oferece proteção, mas está longe de
Melilha e do mar e é difícil que, em pouco tempo, chegue uma coluna de socorro.
Navarro tomou uma decisão que, certamente, foi o segundo grande erro do
desastre após a retirada de Annual: abandonar Dar Drius, juntar as forças que ainda
estavam dispersas nas posições e aproximar-se de Melilha. Não admitia qualquer crítica,
nem opinião contrária à sua. Possivelmente, pensava que, no Monte Arruit, a 30
quilómetros de Melilha, onde chegava o caminho-de-ferro, a evacuação da praça ou a
ajuda a partir dela se tornariam mais fáceis. Mas o Monte Arruit, como o general devia
saber, não era tão fácil de defender nem estava tão bem apetrechado como Dar Drius.
As posições que ainda resistiam continuavam a cair ou a ser abandonadas. Não
valorizou o suficiente a posição de Dar Drius, os seus armazéns e depósitos, o seu
108
paiol… Navarro procurava desesperadamente uma ajuda externa. Talvez o lógico
tivesse sido resistir em Dar Drius, porque tinha homens e armas para enfrentar um
exército irregular. Devia-se ter tentado uma defesa organizada, com ataques preventivos
aos rifenhos. Mas assustava-o a artilharia que havia caído em poder dos marroquinos, a
situação dos feridos, a distância de Melilha, a impossibilidade de serem socorridos
nesses dias, por terra ou por mar, e a desmoralização generalizada das tropas. Navarro
não via como fácil a defesa de Drius, pela falta de mantimentos e porque a posição
estava dividida em vários acampamentos. Para além disso, sempre pensou que
chegariam reforços a partir de Melilha e o caminho de Drius a Batel podia ser cortado
com facilidade∗.
Na manhã do dia 24, começa a retirada de cerca de 6000 indivíduos. Fazem
explodir a posição que estava intacta com a munição que não puderam transportar e
marcham em perfeita ordem, com os regulares na retaguarda. Para se chegar a Batel,
faltavam 20 quilómetros e os esquadrões de Alcântara multiplicam o seu trabalho para
proteger a coluna. Mas, no caminho, reproduzem-se os factos da retirada de Annual.
Perante os disparos inimigos, a coluna desfaz-se rapidamente devido ao pânico e vão-se
abandonando carroças, camiões, feridos e armas. O terreno enche-se de mortos. A maior
parte da coluna alcançou Batel, onde pôde descansar, beber, comer e repor-se durante
dois dias. No dia 27 de julho, iniciou-se a marcha para Tistutin, com o regimento de
Ceriñola na vanguarda. A posição era facilmente batível pelo inimigo e optou-se por
abandoná-la, também após o descanso. Da uma às duas horas da madrugada do dia 29,
iniciou-se a marcha para o Monte Arruit, que correu com normalidade até chegarem à
posição e serem recebidos pelo fogo inimigo a partir da povoação próxima.
A rendição de Monte Arruit
Nem em Batel nem em Tistutin havia armas ou munições. Navarro, além do
mais, não podia estabelecer comunicações com Melilha, onde já estava Berenguer,
Tetuan ou Madrid. Estava a sós na tomada de decisão. E decidiu recuar ainda mais até
ao Monte Arruit, com a esperança de poder resistir ali até à chegada de forças de
auxílio. Alguns preferiram seguir para Melilha e, desses, muito poucos lá chegaram.
∗
Luis Rodríguez de Viguri y Seoane, La retirada de Annual y el asedio de Monte Arruit, pp.30-31. Este
livro é o argumento final da defesa do general Navarro na causa seguida contra ele após o processo
Picasso, pelos acontecimentos que narrámos.
109
Eram caçados pelo caminho pelos atiradores rifenhos, morriam devido aos ferimentos
que tinham ou, os mais afortunados, eram presos. O Monte de Arruit foi uma ratoeira.
As tropas estavam cansadas, desorganizadas e sem munições. A posição estava
praticamente sitiada pelos rifenhos. Faltavam pão, água e medicamentos. As feridas
gangrenavam e os espanhóis sofriam de disenteria. O tenente-coronel Primo de Rivera,
após ter feito as últimas cargas dos seus esquadrões a passo, dado o esgotamento dos
cavalos, recebeu um tiro no braço. Amputaram-no sem anestesia e morreu pouco
depois.
Um
inconveniente
maior
e
inesperado
juntou-se
ao
sofrimento.
O
tenente-coronel de San Fernando, Pérez Ortiz, relata-o assim: «Não tinham passado três
horas desde a nossa chegada à posição quando tivemos uma sensação desagradável: o
canhão dispara e um projétil passa rapidamente de um extremo ao outro do
acampamento. Os mouros colocaram uma peça a cerca de 2000 metros e servem-se dela
antes daquilo que podíamos esperar»8. Até então, os espanhóis apenas haviam sofrido o
fogo das espingardas, mas, agora, os rifenhos tinham em seu poder peças de artilharia
espanholas e faziam-nas funcionar. Alguns soldados espanhóis feitos prisioneiros
haviam ensinado os mouros a dispará-las. A posição já não era defendida.
No dia 31, Navarro recebe um telegrama de Berenguer avisá-lo da
impossibilidade de organizar uma coluna de socorro porque as harcas rifenhas o
impediam. Havia idealizado um plano, que consistia no desembarque de tropas por
Restinga até Zoco el Arbaa, para chegar pela retaguarda do inimigo. No entanto, o
governo não lhe dava as barcaças necessárias. Com as tropas recém-chegadas a Melilha,
poderia tentar-se uma operação. Mas os generais que rodeavam Berenguer em Melilha
(Cabanellas, Fresneda, Neila e Sanjurjo) opuseram-se. Apenas o veterano Cavalcanti e
alguns coronéis, como Riquelme, reclamavam forças para tentar a operação. Não havia
suficientes tropas preparadas em Melilha. Não as podia obrigar a andar a pé 35
quilómetros até aos sitiados, em contínuo combate, e, posteriormente, a regressar.
Muitos dos chegados eram recrutas inexperientes. As baixas que o coronel Jordana
calculou seriam muito elevadas. Não se podia abandonar a defesa da cidade nem o
plano sistemático da reconquista do território. Berenguer não se atreve a tomar uma
decisão heróica e arrojada, possivelmente para não se meter na mesma aventura que
Silvestre.
A resistência em Arruit era dura. O inimigo impedia a aguada e fustigava a
posição sem descanso, com tiros de espingardas e de canhões. Fizeram-se operações
110
para abastecer os sitiados por via aérea, mas os fornecimentos caíam fora dos muros e,
quando eram recolhidos, o inimigo disparava, causando mortos. Só caiu algum gelo
dentro das muralhas, mas era insuficiente. Os aviões não podiam voar a baixa altitude
porque tinham medo de serem abatidos pelos tiros rifenhos. Os feridos morriam por
falta de medicamentos e as munições estavam a esgotar-se. Quase não havia comida
nem água. Os sitiados acreditavam que os Regulares e a Legião fossem salvá-los, pois
sabiam que estes haviam desembarcado em Melilha. Mas as tropas que chegavam a
Melilha esforçavam-se por defender a praça, já que se temia um ataque mouro, e o
escasso perímetro que os espanhóis conservavam. Fortificaram-se os arredores do
Gurugu e Zoco el Had, onde o chefe Abd el Kader, antigo inimigo de Espanha, em
1909, foi o único que se manteve fiel perante os atacantes, seus compatriotas. Devido a
este revés, Berenguer pôde suspender as operações que desenvolvia em Beni Arós e
mover forças da parte ocidental para Melilha, para tentar o resgate e proteger as poucas
posições espanholas, mas não o fez porque, provavelmente, essa solução apenas teria
precipitado a queda de toda a frente ocidental e não teria servido para manter a oriental.
Com as tropas sitiadas no Monte Arriut, o general Navarro rejeitou a opção de
continuar a retirada para Melilha. Alguns aconselharam esta última marcha para
alcançar, pelo menos, Zeluan. O general não se atreveu a tal: «O estado de extenuação
das forças, que todos os testemunhos confirmam, para além da falta de meios de
transporte e da escassez de munições, impedia sequer de, sem abandonar
desumanamente os feridos, tentar uma marcha. Também não era possível recuperar a
artilharia nem reconquistar a cidade mais próxima da posição e que encontrou ocupada
pelo inimigo, porque ambas as coisas exigiam um esforço superior ao que se podia pedir
a tropas tão fortemente castigadas»9. O moral dos combatentes espanhóis estava
arruinado. Houve algumas tentativas de sublevação e algumas deserções, mas não num
número que se possa considerar significativo.
No dia 7 de agosto, o próprio Navarro ficou ferido num ataque mouro e, no dia
seguinte, foi autorizado a negociar com o inimigo. Apenas resistia o Monte Arruit, onde
havia pouco mais de 3000 homens. As restantes posições caíram depois de uma luta
desigual. Algumas, como Nador e Zeluan, resistiram, mas a chegada dos rifenhos
transformou-se num banho de sangue, em que os espanhóis indefesos e desarmados
eram torturados, mutilados e mortos. A negociação com os mouros era conduzida pelo
major Villar. Os emissários de Abd el Krim e os chefes cabilenhos Ben Chel lal e Abd
el Kader chegaram a um acordo honroso: os espanhóis deixariam as armas, à exceção
111
das pistolas dos oficiais, e marchariam até Atalayón (em Mar Chica) sem serem
importunados. Navarro aceitou, autorizado por Berenguer, e foi conduzido com os seus
principais chefes à estação de caminho-de-ferro da região situada junto à posição, numa
tentativa desesperada de Ben Chel Lal para evitar o massacre. A partir daí, foram
enviados para Axdir, região de Abd el Krim, onde sofreriam em cativeiro com o resto
dos prisioneiros espanhóis. Pensaram de boa-fé que as condições da capitulação seriam
respeitadas e não encontraram outra solução possível para a situação.
Aqueles que ficaram na posição do Monte Arruit, já desarmados, foram
massacrados a bel-prazer dos mouros, que assaltaram a posição, sedentos de vingança e
sem obedecerem a instruções nem a ordens. Com isso, saldavam dívidas de humilhação
e de derrota, numa ação infame que não pode ser desculpada por factos anteriores, nem
pelo estado do Rife, nem pela forma tradicional como os rifenhos entendiam a guerra.
As cabilas de Beni bu Yahi e Metalza, as que sofreram os abusos na colonização
agrícola do Garet, fazem pagar com sangue as dívidas pendentes. Talvez se possa
explicar assim o facto de a liderança de Abd el Krim ser mais fraca do que nos fazem
supor e de se manter na luta contra o inimigo estrangeiro. Para controlar todas as
cabilas, Abd el Krim ia precisar da força dos seus e isso, definitivamente, seria visto
como a imposição dos Beni Urriaguel sobre todos os restantes.
Muito se tem escrito sobre o que se podia ter feito e não se fez. Sobre os erros
tremendos de Silvestre, que estendeu as suas forças por uma frente amplíssima,
deixando cabilas armadas à retaguarda e sem reservas para fazer frente a eventualidades
com as que não contou nem quis contar. Sobre Berenguer, que deixou Silvestre atuar
enquanto ele insistia, com muito mais forças e abastecimentos, na campanha de Beni
Arós e que não a suspendeu para auxiliar a Capitania de Melilha quando lhe chegaram
as primeiras notícias. Seja como for, o alto-comissário e responsável militar do
protetorado era Berenguer. Silvestre comportou-se como o autor irresponsável de uma
das maiores provas de incompetência militar contemporânea, mas ninguém o conteve.
Sentir-se-ia protegido pelo rei e, por isso, Berenguer não o deteve? Pode ser, mas tal não
é pretexto suficiente para justificar uma atuação tão calamitosa, que não teve em conta
as mínimas regras da arte militar. Possivelmente, foi uma grande imprudência avançar
com as duas operações em simultâneo, mas isso entra no domínio do discutível. Mas o
que originou realmente a tragédia foi o pânico desencadeado na evacuação de Annual. E
isto é um imprevisto que arruina qualquer plano de atuação. A tropa fugia assustada sem
que os comandos a pudessem conter, o terror apoderou-se de todos e o de cada um
112
alimentava o dos restantes. O comandante-geral, em vez de se colocar à frente da
operação, desapareceu.
Face a esta situação de comportamento irracional, os mouros apenas tiveram que
recolher os frutos sangrentos, sem arriscar qualquer combate. É muito provável que os
rifenhos fossem os primeiros a ficarem surpreendidos pela atitude espanhola. Os
espanhóis haviam-se derrotado a si próprios. O número de mortos espanhóis, nesses
dias de julho e agosto, é objeto de polémica antiga. De acordo com Juan Pando
Despierto, que lida com os dados das diversas fontes, pode afirmar-se que a soma de
todos os falecidos, entre as posições e a população civil dispersa pelo Rife, anda entre
os nove e os dez mil espanhóis10, um número suficientemente perturbador e que
expressa a dimensão da tragédia. Os algarismos sobre o número de rifenhos mortos
nunca se conhecerão. Por outro lado, Abd el Krim havia conseguido reunir várias
centenas de prisioneiros espanhóis, que obrigava, no seu cativeiro de Axdir, a trabalhos
forçados, em condições de alimentação e tratamento desumanas. Pedia por eles um
resgate elevado. A opinião pública tomou de imediato, como causa própria, estes
desgraçados e esforçou-se para denunciar as suas condições de vida, a inatividade do
governo para os resgatar e a falta de diligências para reunir o dinheiro, embora este
fosse usado, depois, para comprar armas para matar mais espanhóis.
Os espanhóis partidários do abandono de Marrocos multiplicaram-se. A
esquerda e parte da direita eram claramente contrárias à permanência. Alguns
entenderam esse desejo de fugir da guerra como anticolonialismo, quando se tratava
simplesmente de uma postura antibelicista. A guerra destruía as famílias mais pobres, as
que não podiam pagar a cota para livrar os seus filhos de entrar no exército. Após o
desastre e a sensibilização da opinião pública, desapareceu a possibilidade de iludir o
serviço militar mediante o pagamento de uma quantidade de dinheiro e o exército
tornou-se, então, verdadeiramente nacional. A existência de soldados das classes média
e alta favoreceu o melhor tratamento dos mesmos.
Ao governo, o desastre de Annual chegou como uma notícia do outro mundo.
Até então, havia deixado o assunto marroquino nas mãos dos militares e, a partir desse
momento da tragédia, apercebe-se das consequências políticas dessa atitude
abstencionista. O rei encontrava-se em San Sebastián, tal como o ministro da Guerra,
Eza. A partir deste acontecimento, a esquerda e os republicanos iniciaram uma batalha
parlamentar com um pedido de responsabilidades e de esclarecimento dos factos. Nesta
batalha, destacou-se Indalecio Prieto, que havia seguido a campanha de reconquista e
113
criticou severamente todo o ocorrido. A sua posição, e a do Partido Socialista,
resume-se a uma intervenção parlamentar, em outubro de 1921: «Oito mil mortos dão
direito, macabramente, mas dão, a exigir uma responsabilidade concreta, quando, como
neste caso, essa responsabilidade se revela de maneira clara, perfeitamente definida»11.
Prieto apontava a responsabilidade a Maura e, depois dele, ao rei. Continuou noutra
sessão: «Aqueles campos de domínio são hoje campos de morte; oito mil cadáveres
parecem agrupar-se em redor do trono, à procura de justiça»12.
O desastre foi o facto que precipitou o fim do sistema da Restauração, em crise
desde há algum tempo, pela corrupção dos partidos e o escasso avanço na
democratização. O governo de Maura não conseguiu sobreviver ao desastre e
Sanchéz-Guerra mal esteve no poder alguns meses. Deu lugar a algumas tentativas
militares de tomada do poder, como a que, em 1923, pretendia colocar como ditador o
general Aguilera, que acabariam na ditadura de Primo de Rivera, instaurada em
setembro de 1923. Teve também como consequência uma crise financeira motivada pela
enorme dívida contraída pelo Estado para fazer frente aos gastos da guerra. Foi o
catalisador de movimentos populares, primeiro como apoio ao governo para proceder à
contraofensiva e esmagar os rifenhos e, depois, contra o mesmo, pelo custo humano de
uma campanha longa e pela má gestão da questão dos prisioneiros.
Os espanhóis, que contavam com mais de seis mil homens à volta de Annual e
cerca de vinte cinco mil na Capitania de Melilha, com artilharia e cavalaria, armas
modernas e abastecimentos, não podiam calcular que algumas bandasviii irregulares,
mais ou menos organizadas por Abd el Krim, pudessem desafiar a sua força e atacá-los
no terreno elevado onde se situava o acampamento. Silvestre, na própria altura dos
factos, apercebeu-se dos seus graves erros. Ficará na história como o responsável da
grande derrota contemporânea de Espanha no terreno das armas∗. Contudo, Silvestre
não teve nunca a ordem terminante de conter o avanço, visto que Berenguer o deixou
atuar a seu bel-prazer. É possível que o impulsivo general estivesse apoiado e
viii
Grupo de gente armada [NT].
Os cronistas da época foram muito duros com Berenguer e não atenderam às suas possíveis razões.
Consideravam que Berenguer tinha deixado Silvestre mal equipado enquanto ele levava a maior parte das
tropas e do material para a zona de Tetuán. Entendiam, também, que o general Silvestre atuou sempre
autorizado pelo alto-comissário e que Berenguer foi negligente na alta inspeção militar que tinha
encomendadao em todo o protetorado. Podemos encontrar alguns exemplos sobre este assunto escritos
por Augusto Vivero, em El derrumbamiento (1922), por Rafael López Rienda, em Del Uarga a
Alhucemas (1925), por Francisco Hernández Mir, em Del desastre al fracaso (1922), por Gómez Hidalgo,
em La tragedia prevista (1921), ou por Vila San-Juan em Lo que no tiene nombre (1922), entre muitos
outros. Tudo isto motivou o livro de Ruiz Albéniz, Ecce hommo (1923), para salvar a figura de
Berenguer.
∗
114
estimulado pelo rei Afonso XIII. No entanto, quando se viu sem tropas suficientes, com
graves necessidades de abastecimento e problemas de comunicações, devia ter esperado
por ter mais força para enfrentar Abd el Krim, em vez de menosprezá-lo e tentar chegar
a todo o custo a Alhucemas no verão de 1921.
A guerra na frente oriental
No início, pensou-se que a guerra na parte de Melilha não tinha nada em comum
com a de Yebala. Berenguer acreditava que o chefe Abd el Malek, com quem havia
pactuado, manteria a zona calma. Nada mais longe da realidade! Os acontecimentos de
Melilha transmitiram-se rapidamente a Beni Aros. Essa zona montanhosa também
interessava ao líder Abd el Krim no seu projeto de república rifenha. Os espanhóis
teriam que suportar uma nova série de ataques, como o que os Beni-Issef lançaram
contra a posição de Akba el Kola na noite de 27 de agosto. Berenguer não deu
demasiada importância a este episódio, apesar dos 175 mortos. Mas os ataques
persistiram. As notícias de Melilha haviam animado os combatentes de El Raisuni, que
estava em Tazarut, quase cercado e à espera da batalha final. Os espanhóis haviam
reforçado Ceuta e Larache com a chegada de novos batalhões; contudo, tiveram que
mover para Melilha as tropas de choque da zona. Em 1921, paralisadas as operações,
decidiu-se evacuar para Tetuan, Xauen e as posições próximas. A saída de Xauen e a
descida até Dar Akoba poderia ter-se convertido noutro desastre como o de Annual,
mas, desta vez, as tropas seguiram as ordens e, com um elevadíssimo número de baixas,
chegaram ao seu destino. Protegeu-se Tetuan através de um anel defensivo que ia do
Lau até ao Gorgues.
A reconquista
Berenguer havia chegado a Melilha no dia 23 de julho de 1921. A cidade vivia a
angústia de pensar que seria a próxima a cair pelo ataque rifenho. A chegada de alguns
sobreviventes das posições e dos civis que escaparam das minas e do Garet havia
enchido a cidade de notícias alarmantes sobre o comportamento dos rifenhos e a
dimensão do desastre espanhol. Em Melilha, restavam quase mil soldados espanhóis,
insuficientes para conter os mouros. O medo sentia-se no ar porque estavam na mira das
espinguardas dos marroquinos que ocupavam o Gurugu. Se estes tivessem disparado
115
com a artilharia capturada, Melilha teria sido devastada. A chegada de Berenguer no
Bonifaz, que havia podido divisar, durante a sua navegação, as posições costeiras de
Sidi Dris e Afrau, sitiadas pelos rifenhos e sem possibilidade de serem socorridas
naquele momento (embora quase todos os de Afrau e alguns de Sidi Dris chegassem a
ser evacuados por mar), não tranquilizou a população porque não a acompanhavam
tropas. Apenas a cabila de Beni Sicar, a oeste de Melilha, com o seu chefe, Abd el
Kader, a comandar, permanecia leal a Espanha. Isso conteve a chegada das harcas. Mas
é possível que o medo pela reação europeia, se se tivesse consumado uma matança na
cidade espanhola, tenha feito com que os rifenhos não ousassem atravessar a fronteira
da cidade espanhola.
Na manhã do dia 24, o Regimento da Coroa chegou à cidade. A população
esperava no porto por qualquer notícia e recebeu os soldados como se fossem
verdadeiros heróis, como salvadores. Posteriormente, chegariam os regimentos de
Borbón, Estremadura e Granada. Um pouco depois, o clamor foi ainda maior, ao
aparecer o Ciudad de Cádiz com duas banderasix da Legião, que, desfilando ao
compasso da sua banda, se dirigiram ao perímetro exterior da cidade para garantir a sua
defesa, após ouvir a emocionada arenga do seu coronel. Comandadas por Millán Astray,
à frente de cada bandera estavam os majores Franco e Fontán. Estavam a combater em
Beni Arós e fizeram os 100 quilómetros até Ceuta em apenas duas jornadas.
Descansaram no navio e marcharam à frente, sem repouso. Pouco depois, chegavam
dois taboresx dos Regulares de González Tablas, considerados suspeitos por muitos
habitantes de Melilha devido ao facto de serem formados por mouros. Eza ofereceu a
Berenguer dezasseis batalhões e a munição que não quis ou não pôde fazer chegar a
Silvestre nos momentos mais angustiosos de Annual.
A crise militar havia desencadeado a crise política. Afonso XIII, numa tentativa
de salvar as aparências, chamou Maura para formar um governo, tendo este nomeado
Juan de la Cierva como ministro da Guerra. Ao mesmo tempo, iniciava-se a instrução
de um sumário que clarificasse as responsabilidades no desastre. É conhecido pelo
nome de Processo Picasso, pelo apelido do general encarregado do mesmo,
condecorado por uma ação em Rostrogordo, em 1893. O governo pôs um travão ao
trabalho deste senhor ou, pelo menos, tentou deixar fora da investigação os chefes
ix
Cada uma das companhias dos antigos Terços espanhóis [NT].
Unidade de tropa regular indígena pertencente ao exército espanhol e composta por várias milícias ou
companhias [NT].
x
116
principais. Mas Picasso era um homem de uma honradez indubitável, inacessível a
pressões e tinha uma enorme capacidade de trabalho. Devido a ele, hoje pode
reconstruir-se a maior parte dos acontecimentos. O seu trabalho terminaria quando o
entregou à comissão parlamentar de dezanove membros que se criou em 1922 e que se
transformaria na Comissão dos Vinte e Um em 1923. Depois, seria a base da acusação
perante o Conselho Supremo de Guerra e Marinha para processar os responsáveis. Os
condenados foram amnistiados pelo rei em 1924. Para evitar a condenação geral, salvar
a honra do governo de então e do monarca e evitar uma crise social e política alarmante,
o general Primo de Rivera fez um golpe de estado e constituiu-se ditador de Espanha.
Entretanto, os rifenhos apercebiam-se da verdadeira natureza da sua façanha.
Abd el Krim converteu-se no líder de uma aliança temporária de tribos, que
tradicionalmente estavam em conflito, e pretendia chegar a Tetuan. Algumas não
haviam esquecido velhas ofensas dos Beni Urriaguel, embora fosse tempo de pôr de
parte as desavenças. O seu receio era manter as armas e os prisioneiros em condições de
serem usados para o que ele concebia como um exército e que não se ocupassem das
cabilas que tendiam à autonomia. Os Beni Urriaguel, Tensaman, Beni Ulisek ou Bocoya
eram propriamente rifenhos, mas, ao atravessar o Kert, aparecia o território de Guelaya.
Tinham o mesmo inimigo mas não eram as mesmas tribos. Os rifenhos revoltaram-se
para defender o seu território do invasor espanhol, os acontecimentos levaram-nos mais
para além do seu terreno natural e não se encontravam confortáveis para lá do Kert.
Alguns líderes rifenhos não viam futuro na sua república e sabiam que, mais cedo ou
mais tarde, os espanhóis iriam reagir e derrotar a resistência armada. Por isso, estavam
claramente ao lado de Espanha, como acontecia com Abd el Kader e outros que
jogavam nos dois lados, ajudando os rifenhos mas entendendo-se em segredo com os
espanhóis. Assim, percebe-se a atitude de Be Chel Lal, ao salvar Navarro e os seus
oficiais, e a de Kadur Ben Amar, que fez o mesmo com os oficiais de Dar Kebdani.
Os rifenhos sabiam que os espanhóis reconquistariam o perdido. Para isso,
teriam de empregar todos os meios possíveis, mas sabiam que os empregariam.
Germain Ayache13 questionava-se sobre a razão de terem mantido a resistência. Teria
sido mais fácil e menos sangrenta uma boa negociação política, porque não é fácil
conter uma guerra quando esta já está em marcha. Mais circunspeto que o seu irmão
Abd el Krim, Mahmed el Khatabi questionava-se, em muitas ocasiões, sobre o futuro da
sua rebelião e as consequências penosas para o seu povo, que entrevia. Contudo, Abd el
Krim estava já embrenhado no papel de líder da revolução rifenha e de dirigente de uma
117
nova pátria, erguida pelo valor dos homens comuns dos campos e das montanhas do
norte de Marrocos, que, com o seu valor e sacrifício, venceram um importante exército
europeu. Depois de Abarrán, poderia ter-se mantido a situação, mas a facilidade da
vitória e o incentivo das cabilas mais próximas de Melilha haviam feito o resto. Os
factos haviam ultrapassado os atores e Abd el Krim não aceitaria nunca um pacto com
Berenguer, embora o alto-comissário lhe oferecesse uma espécie de governo rifenho em
nome de Espanha, um cargo idêntico ao de califa.
Por volta do dia 15 de agosto, Berenguer já contava, em Melilha, com 35000
homens. Ordenou que se estabelecesse uma linha de defesa, que correspondia, mais ou
menos, à zona do combate de 1909. Fortificou-se com uma série de postos e fortins e
manteve-se os rifenhos longe de Melilha. O passo seguinte, repetindo a campanha
daquele ano, era conquistar o Gurugu, onde os rifenhos se encontraram,
surpreendentemente, sem defesas espanholas. Primeiro, chegou-se a Nador; depois, teve
que se socorrer Tizza, que estava cercada há quase cinquenta dias, e conquistar
novamente Zeluan e Tauima. No dia 2 de outubro, conquista-se Atlanten, o que
significou expulsar os rifenhos para o outro lado do rio Kert e conquistar todo o país
Guelaya. Cercado o maciço montanhoso do Gurugu, os espanhóis conseguiram, por fim,
recuperá-lo, no dia 10 de outubro. No dia 24, chegou-se ao Monte Arruit e
resgataram-se, para serem enterrados, mais de 2600 cadáveres de espanhóis que
apodreciam ao sol. Era a prova contundente do ódio desencadeado entre os rifenhos, o
incentivo para que a vingança espanhola se traduzisse em ações de grande violência,
inútil, e castigos excessivos e desumanos. Os espanhóis já haviam utilizado, contra os
tratados internacionais que a Espanha havia subscrito, bombas de gás mostarda entre as
populações rifenhas, sem discriminar mulheres e crianças.
No dia 10 de janeiro de 1922, após uma paragem, os espanhóis chegaram a Dar
Drius. Ali, conteve-se o avanço da reconquista, pois é onde começam as montanhas. Na
planície, os rifenhos não combatiam, conscientes da sua inferioridade em meios, mas
aguardavam, escondidos nos montes, que os espanhóis entrassem, para os caçar.
Berenguer deteve as operações até ter amadurecido o seu plano final. Os rifenhos
tinham já a preocupação da próxima guerra. Abd el Krim ordenou que se cavassem
trincheiras a partir do mar até Tafersit, uma linha quebrada com várias retas de 30
quilómetros que estava apoiada por casamatas e lugares resguardados. O passo seguinte
dos espanhóis seria chegar a Annual, conquistar todo o território perdido por Silvestre
118
três meses antes e preparar a conquista de Alhucemas. Isto ficou incompleto, porque os
acontecimentos na zona ocidental obrigaram a mudar o cenário bélico.
O presidente do conselho de Ministros, Maura, havia convocado uma reunião na
cidade malaguenha de Pizarra, para os dias 4, 5 e 6 de fevereiro de 1922. Na
conferência intervieram também os ministros da Guerra (La Cierva), da Marinha
(marquês de Cortina) e do Estado (González Hontoria), o alto-comissário (Berenguer), o
chefe do estado-maior central (Aizpuru) e o capitão da esquadra (almirante Aznar).
Decidiu-se que a solução era o desembarque em Alhucemas, mas tinha que ser
preparado convenientemente. Entretanto, devia-se utilizar os meios aéreos tanto para
bombardear as posições inimigas como para lançar ataques seletivos, de forma a manter
a inquietação do inimigo. Os rifenhos são informados e protegem a costa com as
baterias capturadas aos espanhóis. Em meados de março, afundam o navio Juan de
Juanes, que abastecia a ilha de Alhucemas.
Em 1922, sendo já presidente do conselho Sánchez-Guerra, os espanhóis, que
formavam três colunas dependentes de Larache, Alcácer-Quibir e Tetuan, haviam
encurralado El Raisuni no seu refúgio de Tazarut. Apenas restavam algumas elevações
no Yebel Alam que mantinham a cabila de Ajmas. A operação estava quase completa,
embora também acabasse sem efeito. Em julho desse ano, conhece-se a pena de
Berenguer, demitido do cargo de alto-comissário, sendo substituído pelo tenente general
Burguete, um militar condecorado em Cuba e autor de vários livros sobre a arte militar.
Sánchez-Guerra confronta-se com a reconquista da zona marroquina, a espinhosa
questão dos prisioneiros de Axdir e também com os conflitos entre as Juntas de Defesa
e os militares africanistas. O exército encontrava-se dividido, os presidentes das Juntas
oponham-se às promoções por mérito de guerra, como se havia feito sempre entre a
milícia, enquanto os africanistas entendiam que o risco das suas vidas nas campanhas,
em vez de viverem regalados nas guarnições provincianas ou nos gabinetes madrilenos,
devia ter a sua justa recompensa. As notícias sobre a corrupção e má conduta em
Marrocos deram alento aos presidentes das Juntas, mas estas foram proibidas, nesse
mesmo ano, pelo decreto de Sánchez-Guerra.
O avanço espanhol era rápido e não teve grandes contratempos. Em outubro de
1922, os espanhóis haviam reconquistado as posições montanhosas situadas entre o rio
Kert e a zona onde ocorreu o desastre. No dia 28 desse mês, conquistou-se o monte de
Tizzi Azza por meio de uma harca auxiliar e, posteriormente, construiu-se uma estrada.
Era um lugar de difícil acesso, uma posição em muito semelhante à de Annual, mas não
119
se quis repetir os erros de Silvestre. Procurou-se tê-la bem abastecida e com reforços
por perto, para o caso de uma urgência. Era a chave do território reconquistado.
Burguete havia dado uma grande importância a esta posição, mas tratava-se de apenas
mais um passo no seu plano de avanço para Alhucemas, um lugar estratégico para
proteger o caminho das tropas. E era também a barreira do território espanhol ou uma
cunha espanhola no território rifenho.
Sofreu um primeiro ataque violento no dia 1 de novembro: «Apesar de os ter
expulsado com um grande número de baixas, também as das nossas colunas não foram
escassas. Uma harca de dois mil homens aguentou as hostilidades nas imediações da
posição durante vários dias; e apenas abandonou a empresa quando acabou por se
convencer de que os tempos haviam mudado e as posições de Espanha não se abatiam.
Se tivesse contado com a autorização indispensável para empreender as operações que o
bom senso militar indicava, a harca teria sido perseguida e aniquilada, ficando livre a
passagem para o território cuja possessão causava aos governantes mais preocupação do
que regozijo», escrevia o cronista Hernández Mir14. A posição voltaria a ser
furiosamente atacada no verão seguinte.
Em novembro, os espanhóis, auxiliados pelas harcas de Amaruchen e por Abd
el Kader, já haviam chegado a Izummar, pelo interior, e a Afrau, pela costa, onde
estabeleceram de novo a posição, que foi atacada, sem êxito, pelos partidários de Abd el
Krim. Estavam quase na linha de Silvestre.
Em novembro de 1922, Burguete, que havia continuado com a reconquista do
território oriental, apresentou a demissão. Não havia conseguido avanços nem políticos,
nem na libertação dos cativos. Era partidário de uma ação imediata sobre Alhucemas,
que o governo recusou. O novo alto-comissário nomeado era um civil, o ex-ministro
Villanueva, que não pôde chegar no respetivo ano devido às suas indisposições.
Interinamente, ocupava o cargo o cônsul López Ferrer, em cujo mandato se libertaram
os prisioneiros. De seguida, tomou posse, no dia 16 de fevereiro de 1923, o
ex-embaixador em França, Luis Silvela. As capitanias militares já não dependiam do
alto-comissário, por este ser civil, mas diretamente do ministério, o que complicava a
sua atuação. O alto-comissário nunca se dirigia ao Ministério da Guerra, mas ao dos
Negócios Estrangeiros. Esta falta de coordenação fez com que o ministro da Guerra,
Niceto Alcalá-Zamora, apresentasse a sua demissão. Silvela tinha que dirigir a política
do protetorado de forma muito complexa. O futuro dependia do exército, em que ele não
mandava; devia tentar a concertação com os marroquinos, sobre os quais nada conhecia
120
porque não era um africanista. Aproveitou os conhecimentos e o bom trabalho do
coronel Castro Girona para criar um gabinete militar na Alta Capitania, que,
evidentemente, não fazia parte da estrutura hierárquica do exército em Marrocos.
A forma cautelosa de tentar resolver o problema que o governo continuava a ter
exasperava os ânimos de muitos dos atores principais. Havia sido nomeado
comandante-geral de Melilha Martínez Anido, que insistiu em avançar até Alhucemas,
propondo dois planos: um desembarque de dezoito mil homens ou a chegada por terra
de três colunas com vinte e quatro mil efetivos. O governo exigiu-lhe calma e o general
demitiu-se.
Os cativos de Axdir
A questão dos prisioneiros espanhóis nas mãos de Abd el Krim foi das mais
espinhosas em toda a crise de Annual. Apesar dos massacres e do assassinato
indiscriminado dos espanhóis que habitavam a zona ou que estavam colocados nas
posições e acampamentos, alguns foram presos e levados ao local do nascimento do
chefe rifenho, onde ficaram cativos. É verdade que os rifenhos preferiam prisioneiros
pertencentes ao corpo sanitário, para aliviar as doenças dos naturais do país, ou de
artilharia, para que os ensinassem a usar os canhões que tinham sido capturados aos
espanhóis. Mas houve muitos mais que se livraram da morte por sorte, pela compaixão
de alguns dos inimigos ou por qualquer outra circunstância. Os prisioneiros chegaram a
ser 491, dos quais 136 morreram devido ao sofrimento do cativeiro, 11 foram fuzilados
e 13 conseguiram escapar. Pelo menos 34 eram trabalhadores das minas; também
estiveram presas, nas piores condições de abusos, algumas mulheres e até crianças.
Entre os prisioneiros, estava o general Navarro, segundo chefe do Capitania de Melilha,
preso no Monte Arruit.
Abd el Krim utilizou os prisioneiros espanhóis para construir estradas e outras
obras públicas, como a rede telefónica e construções militares. Mantinha-os também
próximos de sua casa, como proteção face a ataques aéreos dos espanhóis. E, à maneira
tradicional rifenha, estabeleceu um preço pela sua liberdade, que o governo de Maura
recusou pagar por decisão política, como uma questão de honra nacional, e para evitar
que esse dinheiro se destinasse à compra de armas que iriam ser utilizadas contra os
espanhóis. Berenguer era contra, acreditava que devia realizar-se um esforço
humanitário acima de tudo, sem que isso diminuísse a firmeza da ação espanhola. Os
121
prisioneiros suportavam duras jornadas de trabalho, com escassez de comida e
debilitados pela doença. Passavam frio nos quartos inadequados da sua prisão,
dormindo sobre o chão. E aguentavam-se com as rações que a Cruz Vermelha lhes fazia
chegar, quando lhes eram entregues pelos rifenhos. Os oficiais, a quem obrigavam a
trabalhar algumas vezes, viviam separados do resto dos prisioneiros, junto dos seus
assistentes, em melhores condições, dentro da miséria. Estavam fortemente vigiados
para evitar as fugas e, quando tentavam escapar, o castigo era severo. «Em certas
ocasiões, eram obrigados a trabalhar, fazendo caminhos e outras obras, como acontece
atualmente com o capitão do batalhão de Engenheiros Aguirre, que dirige a construção
de uma casa para Abd el Krim»15.
Em julho de 1922, o jornalista natural da Estremadura Luis de Oteyza, diretor do
La Libertad, conseguiu chegar ao acampamento de Axdir e entrevistar Abd el Krim e
alguns prisioneiros. Acompanhavam-no os fotógrafos Alfonso e Rafael Hernández. As
fotografias das crónicas são o único testemunho que ficou daquela situação; algumas
delas reproduziram-se no livro de Oteyza, Abd-el-Krim y los prisioneros. A Oteyza,
grande defensor do pagamento do resgate, atribuía-se certa benevolência para com o
líder rifenho e considerava-se que não descrevia com clareza as duras condições do
cativeiro. Mais precisos nos detalhes e mais duros nos juízos sobre os seus captores são
os testemunhos dos que sofreram o cativeiro, como o tenente-coronel Pérez Ortiz, o
capitão Sainz Gutiérrez ou o sargento Basallo16.
Enquanto o governo tentava negociar com Abd el Krim, que atrasava a questão
porque não lhe interessava muito o destino dos espanhóis e, em todo o caso, apenas
queria o dinheiro em troca das suas vidas, a opinião pública reclamava a libertação. O
governo espanhol tinha a imprensa e a população contra si devido à lentidão na
reconquista, ao enorme esforço humano e económico que era necessário e à questão por
resolver dos cativos. A queda de Maura proporcionou uma saída. O novo ministro de
Estado, Santiago Alba, havia autorizado Horacio Echevarrieta, um industrial basco, a
efetuar diligências para resolver a questão. E este assim fez, pondo quatro milhões de
pesetas sobre a mesa de Abd el Krim. Embora se difundisse a notícia de que era
dinheiro privado, o mais provável é que a quantia procedesse das arcas públicas e que o
governo abafasse esta circunstância para minimizar as críticas. No dia 24 de janeiro de
1923, os espanhóis sobreviventes embarcaram nos navios que os aguardavam em
Alhucemas.
122
O ataque à zona ocidental e o abandono de Xauen
Enquanto acontecia o desastre na Capitania de Melilha e durante a guerra de
reconquista do território que se lhe seguiu, a situação na zona ocidental permaneceu
tranquila. Gomara não ofereceu resistência às bases costeiras espanholas, Xauen
permanecia ocupada desde que Castro Girona conseguira a entrada pacífica dos
espanhóis, subornando os cabecilhas locais, e El Raisuni continuava preso em Tazarut.
Faltava controlar a beliscosa cabila de Ajmas e parte de Beni Arós, para continuar o
caminho para Alhucemas. Todas as operações militares ficaram em suspenso até se
resolver a questão de Melilha.
Em fevereiro de 1924, os rifenhos, aliados a alguns gomaras, atacaram a posição
espanhola de M’Ter, que o coronel Serrano Orive garantiu. Abd el Krim havia decidido
colocar a zona sob a sua autoridade e enviou duas colunas com dois objetivos: obrigar
os espanhóis a retirarem-se e acabar com El Raisuni, com quem não conseguiu chegar a
acordo porque este último não quis colocar-se às ordens do cabecilha rifenho. Os
marroquinos haviam cortado o caminho de Xauen a Tânger. Primo de Rivera, que já era
ditador de Espanha, considerou a situação muito difícil e viajou para Marrocos. Na zona
de Melilha, pretendia retirar as forças de novo para a linha do rio Kert, mas num célebre
banquete que ocorreu em Ben Tieb, durante o qual apenas se serviram pratos com ovos
preparados de diferentes formas, em alusão à valentia, a Legião mostrou-lhe que se
negaria a retroceder. O ditador optou, então, por deixar as coisas como estavam em
Melilha e ordenou a retirada de Xauen.
As harcas ou tropas de Abd el Krim começaram a atacar as posições espanholas
nas montanhas de Xauen e a foz do rio Lau no verão desse ano. Uma das colunas era
comandada pelo seu irmão Mahmed e a outra, por El Jeriro, com uma poderosa
cavalaria. Os espanhóis perderam Ifartán e Tassa, com inúmeras baixas, e Jeriro
dirigiu-se a Xauen para isolar a cidade. Os espanhóis conseguiram anular essa ofensiva,
mas a cabila de Ajmas juntou-se à revolta e passou também à guerra aberta contra os
espanhóis. Para isolar Xauen, os rifenhos empreenderam ataques contra as posições
espanholas de Xeruta e Dar Akoba - defendida pelo tenente-coronel Emilio Mola -, que
eram as que garantiam as comunicações com Tânger e Laucien. Resistiram
desesperadamente, até que foram socorridas. Corriam os últimos dias de setembro de
1924. As colunas espanholas moviam-se cada vez com mais dificuldade e baixas, e as
que tentavam socorrer a posição de Uad Lau só podiam avançar por Gomara.
123
Primo de Rivera decidiu, então, abandonar todas as posições situadas a este de
Tetuan, concentrar as tropas na cidade e esperar até que se desse o desembarque em
Alhucemas. Para isso, devia retirar-se as tropas das posições avançadas de Xauen e,
uma vez todas reunidas, formar uma coluna que abandonasse a cidade e juntasse as
unidades dispersas por outros postos, disseminados pelo caminho.
No dia 17 de novembro, deu-se a saída de Xauen. Previamente, para evitar
situações como a de Annual, retiraram-se das posições menores que haviam sido
fustigadas durante semanas. Era uma noite sem lua, que favorecia a marcha pacífica,
embora dura. Ao amanhecer, os legionários foram atacados pelo fogo das espingardas,
mas a coluna conseguiu chegar a Dar Akoba. No segundo dia, os legionários
protegeram a saída de uma coluna até Xeruta, onde existia uma simples fortificação
espanhola. Chovia durante o trajeto e não havia tendas de campanha para passar a noite.
Na terceira jornada, com o mesmo temporal, a coluna chegou a Zoco el Arabaa. A
chuva havia enlameado o terreno. Os soldados mal podiam avançar, as carroças ficavam
atoladas, o gado não queria continuar. As baixas eram numerosas; o coronel Serrano
Orive morreu. Tiveram que permanecer vários dias nesta posição, defender-se dos
ataques mouros e efetuar várias saídas para atacar o inimigo, até Castro Girona ordenar
a retirada para Ben Karrich, já na linha de proteção de Tetuan, que Primo de Rivera
havia marcado com uma série de posições fortes para deter a harca inimiga na planície.
Houve várias centenas de mortos espanhóis. As posições do Lau haviam caído e alguns
dos seus defensores foram feitos prisioneiros por Abd el Krim, que se considerava já
senhor da zona; finalmente, conseguiu-se prender El Raisuni, que morreria dois meses
depois.
124
NOTAS
Capítulo 1
1
Mahmoud Abdelmoula, Puissance y décadence de l’Empire ottoman et la Régence de
Tunis des origines à 1867, p.48, citando M.H. Chérif.
2
Abdallah Laroui, Historia del Magred, p.244.
3
Charles André Julien, Historia de l’Afrique du Nord. Des origines à 183, Payot,
p.649.
4
Emilio Sola, Argelia, entre el desierto y el mar.
5
Víctor Morales Lezcanos, Historias de Marruecos, p.111.
6
Serafín Estébanez Calderón, Obras completas. Manual del oficial en Marruecos,
p.322.
7
Ibid., p. 474.
Capítulo 2
1
Pedro Antonio de Alarcón, Diario de un testigo de la guerra de África, volume I, p.43
2
Carlos Yriarte, Recuerdos de la Guerra de África. Bajo la tienda, p.16
3
Pedro Antonio de Alarcón, op. cit., volume I, p.149.
4
Yriate, op. cit., p.47
5
Ibid., p.79.
6
Gaspar Núñez de Arce, Recuerdos de la guerra de África. Miscelánea literaria, p.221.
7
Yriate, op. cit., p.229.
8
J. Gavira, El viajero español por Marruecos D. Joaquín Gatell (El Caid Ismail), p.25.
Gavira reproduz o Diario completo de Gatell.
9
Ibid., pp.122 e 123.
10
José María Burga, Recuerdos marroquíes del moro vizcaíno, p.14
11
Cristóbal Benítez, Viaje a Timbouctou, p.9
12
Ibid., pp.82 e 83
13
Ibid., p.139
125
14
Julio Cervera Baviera, Expedición al interior del Marruecos, pp. 14 e 15.
15
Ibid., p.73
16
Congreso Español de Geografia Colonial y Mercantil, volume I, p.45.
17
Francisco Coello, Intereses de España en Marruecos, p.8.
18
Ibid., p.30
19
Adolfo Llanos Alcaraz, Melilha. Historia de la campaña de África en 1893-1894,
pp.58-59.
20
Rodrigo Soriano, Moros y cristiano. Notas de un viaje (1893-1894), p.295.
21
José Boada y Romeu, Allende el Estrecho, p.551.
Capítulo 3
1
Teniente coronel X.L., Un episodio de la campaña de Melilha, p.4.
2
Manuel Corral Caballé, Crónica de la guerra de África, volume I, pp.352-353.
3
Carlos Martínez de Campos, España bélica. Siglo XX, p.73.
4
De Torcy, Les espagnols au Maroc en 1909, p.73.
5
Eduardo Gallego Ramos, La campaña del Rif de 1909, p.147.
6
Capitão X, Verdades amargas, La campaña de 1909 en el Rif, p.199.
7
Eladio Amigó, Marruecos. Ideario político-militar, p.13.
8
José Luis Villanova Valero, Los interventores. La piedra angular del Protectorado
español en Marruecos, p.92
9
Luis Antón del Olmet, Tierra de promisión. (Catecismo de la raza), p.70-71.
10
La guerra en África, de R. J. Frisch, traduzido por Francisco Echagüe e Felipe
Navarro e publicado em espanhol, em 1913. De la guerra en África, do general Yussuf,
foi traduzido por Juan Prats e publicou-se em espanhol em 1913.
11
María Rosa de Madariaga, En el Barranco del Lobo, p.78.
12
A. Serra Orts, Recuerdos de la guerra del Kert de 1911-12, pp.171-172.
126
13
Manuel L. Ortega, El Raisuni, p.146.
14
Carlos Federico Tessainer y Tomasich, El Raisuni. Aliado y enemigo de España,
p.162
Capítulo 4
1
F. Gómez Hidalgo, Marruecos. La tragedia prevista, p.158.
2
María Rosa de Madariaga, op. cit,. p.131.
3
Martínez de Campos, op. cit., pp.219-220.
4
Dámaso Berenguer Fuster, Campañas en el Rif y Yebala, p.3
5
Ibid., p.5
6
Ibid., p.34
7
Ricardo Burguete, La guerra y el hombre, p.42
8
Eduardo Pérez Ortiz, De Annual a Monte Arrauit y diez y ocho meses de cautiverio,
p.81
9
Luis Rodríguez de Viguri y Seoane, op. cit., pp.59-60.
10
Juan Pando Despierto, Historia secreta de Annual, p.307.
11
Indalecio Prieto, Con el rey o contra el rey, volume I, p.146.
12
Ibid.,p.191.
13
Germain Ayache, La guerre du Rif, pp.151.
14
Francisco Hernández Mir, Del desastre a la victoria, p.47. Este autor foi um
jornalista conhecido que cobriu todas as guerras marroquinas desde 1893. São fruto das
suas experiências vários livros e romances, La tragedia del cuota. Em 1921, foi
correspondente na guerra do jornal diário madrileno La Libertad.
15
Luis de Oteyza, Abd el Krim y los prisioneiros, pp.94-95.
16
Pérez Ortiz, op. cit., Sigfredo Sainz Gutiérrez, Con el general Navarro. En
operaciones. En el cautiverio, Francisco Basallo, Memorias del cautiverio.
127
Download