Genética Detecção de Mutações nos genes BRCA1 e BRCA2: Predição do Câncer de Mama e Ovário Introdução Existem inúmeros fatores que aumentam o risco de mulheres desenvolverem câncer de ovário ou mama. Dentre esses, a predisposição genética é certamente um dos mais significativos. Com a identificação dos genes BRCA1 e BRCA2 em 1994 e 1995, respectivamente, uma nova era de predição destas neoplasias foi iniciada (1,2). Os genes BRCA1 e BRCA2 codificam proteínas que participam do reparo das lesões do DNA. Mutações inativadoras destes genes levam à susceptibilidade aos cânceres de mama e ovário. Os mecanismos que determinam a especificidade por estes tecidos ainda não estão definidos (3,4,5). Incidência das mutações nos genes BRCA1/BRCA2 e risco Estudo revela que a prevalência de mutações nos genes BRCA1 e BRCA2 ao nascimento é de 1:476 e 1:667, respectivamente (6). Estima-se que a prevalência das mutações de BRCA1 e BRCA2 na população geral seja de 0.1% a 0.2%. A incidência destas mutações é maior em descendentes de judeus Ashkenazi, chegando a 1% (1). Em cerca de 10% a 16% dos casos de câncer de mama, mutações nos genes BRCA1 e BRCA2 são encontradas. Estas mutações correspondem a 75% dos casos de câncer familiar. No câncer de ovário, 10% dos casos são portadores de mutações do BRCA1 e BRCA2 (3,6). A tabela 1 estima o risco cumulativo, ao longo da vida, de câncer de mama e ovário em mulheres com mutações nos genes BRCA1 e BRCA2 (6). Tabela 1 (6) Risco cumulativo de Câncer de mama (%) Idade (anos) 50 60 70 BRCA1 42 65 84 BRCA2 51 77 91 Risco cumulativo de Câncer de ovário (%) BRCA1 24 38 60 BRCA2 7 17 26 Utilidade clínica da identificação das mutações do gene BRCA1 e BRCA2 O principal objetivo dos testes genéticos é a identificação das mulheres com risco genético de desenvolver câncer de mama e ovário. A American Society of Clinical Oncology e o National Society of Genetic Counselors indicam investigação genética das mutações dos genes BRCA1 e BRCA2 nas seguintes situações (1,7): • • • • • • Mulheres com história pessoal de câncer ou parentes próximos com câncer de mama. Famílias com múltiplos indivíduos com câncer de mama ou ovário. Mulher jovem com câncer de mama bilateral ou câncer de ovário e mama. Homens com história pessoal ou familiar de câncer de mama masculino. Mulheres com história pessoal ou familiar de câncer de ovário. Mulheres descendentes de judeus Ashkenazi. A realização da pesquisa das mutações do BRCA1 e BRCA2 em pacientes com história pessoal de câncer de mama é justificada pela maior chance de recorrência da neoplasia na mama contra-lateral naquelas pacientes portadoras dessas mutações (8,9,10). -1- Genética Recomendações para portadores de mutações nos genes BRCA1 e BRCA2 Trabalhos que estabeleçam quais são as melhores estratégias na condução destes pacientes ainda estão em andamento. • Vigilância intensiva: de acordo com o National Health Institute, nas portadoras de mutações BRCA1 e BRCA2, o início da realização de mamografias preventivas deve ser mais precoce, a partir dos 25 anos de idade, a cada seis a doze meses. Indica-se, ainda, exames clínicos a cada seis meses. O uso da ressonância nuclear magnética (RNM) pode gerar ganhos de sensibilidade nestas pacientes, entretanto, ainda não foi incorporado à rotina devido a sua menor especificidade. Quanto à prevenção do câncer de ovário, indica-se a realização de ultra-som transvaginal anual, a dosagem de CA-125 e exame ginecológico semestral (1,7,11). • Cirurgia (mastectomia e ooforectomia) profilática: sua indicação nas pacientes portadoras de mutações nos genes BRCA1 e BRCA2 é alvo de controvérsia, pois nem todas desenvolverão cânceres de mama e ovário. Autores que advogam contra sua realização descrevem que vigilância intensiva com detecção de câncer precoce também pode permitir a cura de um futuro câncer (3). Por outro lado, diversos trabalhos têm mostrado a eficácia das cirurgias preventivas na redução do risco, constituindo-se uma das estratégias a ser avaliada nas mulheres com prole já constituída (1,7, 12,13,14,15). • Quimioprofilaxia: o uso do Tamoxifen para redução do risco de câncer de mama contra-lateral está indicado pelo FDA. O uso desta droga nos portadores de BRCA1 e BRCA2 encontra-se em estudo (1,7). Nestes casos, o uso de anticoncepcional oral reduz o risco de câncer de ovário em 50-60%, entretanto, não existem trabalhos que avaliam se esta conduta pode aumentar a incidência do câncer de mama (16). O Instituto de Patologia Clínica Hermes Pardini dispõe: BRCA1 E BRCA2 - SEQUENCIAMENTO DE 68 MUTAÇÕES Método: seqüenciamento de DNA Material: sangue total em EDTA (mínimo de 4,5ml) Preenchimento de questionário obrigatório Referências 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. 10. 11. 12. 13. 14. 15. 16. Barnes-Kedar IM, Plon SE. Counseling the at risk patient in the BRCA1 and BRCA2 Era. Obstet Gynecol Clin North Am. 2002; 29: 341-66. Hedenfalk I, Duggan D, Chen Y, at al. Gene-expression profiles in hereditary Breast Cancer. N Engl J Med. 2001; 344: 539-8. Haber D. Prophylatic oophorectomy to reduce the risk of ovarian and breast cancer in carriers of BRCA mutations. N Eng J Med. 2002; 346: 1660-1661. Lee W-H, Boyer TG. BRCA1 and BRCA2 in breast cancer. Lancet. 2001; 358, S1. Naresh KN. 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