A AGRICULTURA E SEUS IMPACTOS SOBRE O PROVIMENTO DOS SERVIÇOS ECOSSISTÊMICOS [email protected] Pôster-Agropecuária, Meio-Ambiente, e Desenvolvimento Sustentável ROBERTA FERNANDA DA PAZ DE SOUZA PAIVA. UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE, VOLTA REDONDA - RJ - BRASIL. A agricultura e seus impactos sobre o provimento dos serviços ecossistêmicos The agriculture and its impacts on the provision of ecosystem services Grupo de Pesquisa: Agropecuária, Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável Resumo Os elevados níveis de produção realizados com vistas ao atendimento das demandas da sociedade têm gerado cada vez maiores impactos negativos ao meio ambiente. Tais impactos contribuem para degradação do estoque de capital natural e, em consequência, para o prejuízo do provimento dos serviços ecossistêmicos. A agricultura, apesar de contar com tais recursos naturais para a obtenção de seus produtos, contribui de maneira decisiva para a degradação dos mesmos. Sendo assim, torna-se necessária a conscientização de que os ativos ambientais devem ser utilizados de maneira sustentável, a fim de se manter, no futuro próximo, a capacidade de produção e as condições adequadas à manutenção da vida humana e dos ecossistemas. Palavras-chave: Desenvolvimento sustentável, agricultura, externalidades. Abstract The elevated levels of production done aiming at attending the requests of the society have generated more and more negative impacts on environment. Such impacts contribute to the degradation of the stocks of natural capital and, consequently, cause damage to the provision of eco-systemic services. Agriculture, although relying on such natural resources for the obtaining of its products, contributes in a decisive way to the degradation of the same. So, the awareness that the environmental assets must be utilized in a sustainable way becomes necessary, so as to maintain the capacity of production and the appropriated conditions for the maintaining of human life and of the eco-systems over a near future. Key-words: Sustainable Development, Agriculture, Externalities. 1. INTRODUÇÃO Os elevados níveis de produção realizados com vistas ao atendimento das demandas da sociedade têm gerado cada vez maiores impactos negativos ao meio ambiente. A pressão exercida sobre os recursos naturais enquanto fatores de produção e sumidouros depositários de resíduos oriundos da utilização desses, faz com que as questões referentes a possíveis limites à sua utilização sejam discutidas. Tais discussões perpassam a tentativa de se alcançarem padrões satisfatórios de crescimento de maneira sustentável, ou seja, obter-se níveis de produção capazes de 1 Porto Alegre, 26 a 30 de julho de 2009, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural atender as demandas sem que se tragam prejuízos ao meio ambiente, garantindo sua utilização em condições satisfatórias pelas gerações presente e futura. 2. A QUESTÃO DO DESENVOVIMENTO SUSTENTÁVEL Por desenvolvimento sustentável entende-se, de acordo com o estudo da Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, intitulado Nosso Futuro Comum (1988), “aquele que atende às necessidades do presente sem comprometer a possibilidade de as gerações futuras atenderem suas próprias necessidades”. Para tal tanto, os recursos deveriam ser utilizados sem que seu volume ou características fossem alterados. Os recursos em questão seriam os recursos naturais, que constituem o capital natural que, em conjunto com o capital produzido e a mão de obra, compõe o capital total. Os processos tecnológicos seriam, segundo os economistas neoclássicos, os responsáveis por promover combinações eficientes entre os recursos, de maneira a eliminar qualquer tipo de limitação de algum desses. Sendo assim, segundo a perspectiva chamada por “sustentabilidade fraca” – conceito apresentado pelo economista Robert M. Solow – deveria ser garantida a possibilidade de produzir e não de se conservar qualquer fator de produção específico - principalmente o capital natural - (Veiga, 2005). Contrapondo tal conceito, alguns economistas neoclássicos difundem a chamada “sustentabilidade forte”, que defende a importância da conservação do capital natural, entendendo ser esse exaurível e, em conseqüência, limitante ao atendimento das necessidades humanas. Nesse contexto, o capital produzido não poderia substituir toda a infinidade de capital natural e de serviços fornecidos pelo mesmo. Essa última idéia contribui para uma das bases da Economia Ecológica, que conclui pela impossibilidade de substituição da totalidade dos recursos produtivos naturais pelos não-naturais, dando a idéia de substitutibilidade entre os fatores de produção a lugar à idéia de complementaridade, ou seja, a continuidade das atividades econômicas depende da existência de capital natural. Um dos casos mais evidente capaz de ilustrar a importância do capital natural e a impossibilidade de substituição do mesmo seriam as funções ecossistêmicas. Segundo (De Groot et. al, 2002), por funções ecossistêmicas entende-se a “capacidade dos processos e componentes naturais de fornecer bens e serviços que satisfazem as necessidades humanas, diretamente ou indiretamente”. Ainda segundo tais autores, essas funções podem ser agrupadas em quatro categorias primárias: Funções de regulação (capacidade dos ecossistemas naturais e seminaturais em regular processos ecológicos essenciais e sistemas de apoio à vida através de ciclos bioquímicos outros processos biosféricos); Funções de habitat (os ecossistemas naturais fornecem refúgio e habitat de reprodução para plantas e animais selvagens, contribuindo para a manutenção da diversidade); Função de Produção (a fotossíntese e a retenção de nutriente pelos autótrofos convertem energia, dióxido de carbono, água e nutrientes em uma ampla variedade de estruturas de carboidratos que são, então, usadas pelos produtores secundários para criar uma variedade mesmo mais ampla de biomassa viva.); Função de informação (provisão de oportunidades para reflexão, enriquecimento espiritual, desenvolvimento cognitivo, recreação e experiência estética.). Cada função seria, portanto, resultado dos processos naturais do subsistema ecológico total do qual ela é uma parte. Sendo assim, a medida em que a estrutura do ecossistema é degradada suas funções também o serão. A deterioração de parte do capital 2 Porto Alegre, 26 a 30 de julho de 2009, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural natural faz com que a interação entre os componentes dessa estrutura se torne deficiente, impedindo que as funções ecossistêmicas sejam desempenhadas de maneira satisfatória. 3. A AGRICULTURA E AS FUNÇÕES ECOSSISTÊMICAS A obtenção de margens de lucro cada vez mais elevadas nas atividades agrícolas depende cada vez mais de níveis de produtividade mais elevados, o que demanda a utilização crescente de materiais e métodos capazes de contribuir para tal resultado. Dentre esses, estão os fertilizantes e agrotóxicos, que apesar de contribuírem para a elevação dos níveis de produção contribuem também de maneira decisiva para a modificação das características dos recursos naturais existentes e, em conseqüência, do estoque de capital natural e do fornecimento dos serviços ecossistêmicos prestados através da interação entre seus elementos. A idéia de que fertilizantes e agrotóxicos possam ser substitutos perfeitos do capital natural acaba por estimular a utilização desses. No Brasil, as quantidades empregadas de agrotóxicos (3,23 kg/ha em 2005) e fertilizantes (apresentando crescimento de 69,44 Kg/ha em 1992 para 141,4 kg/ha em 2006, segundo dados do IBGE/IDS 2008) por área cultivada são elevadas, o que faz com que as externalidades negativas resultantes de utilização sejam cada vez maiores e mais difundidas. Tais efeitos negativos acarretam em danos sobre a saúde humana e ao funcionamento dos ecossistemas. O uso de agrotóxicos elevam os riscos aos consumidores de alimentos e aos trabalhadores que os manuseiam, podendo ainda contaminar o solo e as águas, recursos que, a partir da contaminação, teriam suas características alteradas e a capacidade de provimento dos serviços ambientais prejudicada. A aplicação de fertilizantes, por sua vez, estão associados à eutrofização dos rios e lagos, à acidificação dos solos, à geração de gases do efeito estufa, entre outros. Assim, podem ser observadas ao longo do tempo alterações nas características dos recursos que compõe o capital natural em sua totalidade, e pior ainda, modificações na sua capacidade de prover serviços ecossistêmicos indispensáveis à manutenção da atividade econômica, da harmonia do ecossistema e da qualidade da vida humana. Segundo Daly e Farley (2003), uma outra questão pertinente às análises dos ecossistemas seria a incerteza que os envolve. Além das funções e serviços ecossistêmicos conhecidos e os impactos gerados pela ação humana já estudados, podem existir outros impactos, recursos e serviços ecossistêmicos ainda não conhecidos. Tal incerteza também deve ser levada em consideração nas decisões de produção. 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS Apesar de alcançar níveis elevados de produtividade a agricultura moderna tem gerado impactos negativos sobre os recursos naturais. A degradação dos mesmos e a redução do estoque de capital natural podem tornar inviáveis as formas de seu uso a médio e longo prazos, já que o desempenho das funções e os serviços ecossistêmicos ficaria comprometido. Torna-se necessária a conscientização de que os ativos ambientais devem ser utilizados de maneira sustentável, com vistas a manter, no futuro próximo, a capacidade de produção e de atendimento das demandas da sociedade. 5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 3 Porto Alegre, 26 a 30 de julho de 2009, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural DALY, H., FARLEY, J. Ecological Economics: Principles and Applications. Washington, DC: Island Press, 2003. De GROOT, R.S., WILSON, M. A., BOUMANS, R.M.J., 2002. A typology for the classification, description and valuation of ecosystem functions, goods and services. Ecological Economics 41, 393-408. INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Indicadores de Desenvolvimento Sustentável. Brasil, Rio de Janeiro. 2008. VEIGA, J. E. Desenvolvimento Sustentável: O desafio do século XXI. Rio de Janeiro: Ed. Garamond, 2005. 4 Porto Alegre, 26 a 30 de julho de 2009, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural