Nos primórdios da filosofia e do filosofar[*]

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Nos primórdios da filosofia e do filosofar
Sérgio A. Sardi
Há algo de estranho e admirável no mundo. Pensar, por exemplo,
que tudo poderia simplesmente não existir, ou que sequer sabemos o
que somos, para onde vamos e qual o sentido de tudo... pode até
causar vertigens. Pois, são muitas, e são decisivas as perguntas que
surgem quando indagamos o sentido último de tudo o que nos cerca.
Começa, aqui, uma singular experiência do pensamento, a
Filosofia, caminho trilhado desde a Grécia Antiga, ou ainda antes. Mas,
além de um começo na história, esse despertar está em cada um que
vivencia a mudança de percepção da realidade que as questões
filosóficas evocam. Assim como os gregos, um dia começamos a refletir
sobre os mitos que narram as origens, os porquês e a finalidade de
tudo. Como eles, passamos a estranhar aquilo que pensávamos ser
trivial, a duvidar do óbvio e a buscar as razões das nossas perguntas e
respostas.
Tudo se transforma?
Qual o problema que moveu os primeiros filósofos? Eles se deram
conta de algo surpreendente: tudo muda, tudo está constantemente
deixando de ser o que era para vir a ser outra coisa. Nada permanece
igual, nem sequer eu, ou você! Eis que surge o outro lado da questão:
Revista Mundo Jovem, Ano XLIV, nº 365, Abril 2006, p. 9. Sérgio A. Sardi é professor
do Departamento de Filosofia da PUCRS e Doutor em Filosofia pela Unicamp/SP.
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se tudo está em transformação, como é possível que o mundo, ou cada
um de nós, continue a ser, de certo modo, o mesmo?
Deve haver algo, pensaram os gregos, que permanece idêntico, no
fundo de tudo o que se transforma. Um princípio de estabilidade e
unidade, apesar da multiplicidade e da mutação incessante de todas as
coisas.
Tales e Anaxímenes, no século VI a.C., buscaram esse princípio no
âmbito do visível. Julgaram ser algum tipo de matéria, como a água, ou
o ar, que se transformaria naquilo que observamos na natureza,
podendo voltar a ser o que era. Porém, outro pensador, Heráclito,
seguiu um caminho diverso, propondo que a ordem do mundo estava no
próprio vir a ser contínuo de todas as coisas. Seria preciso ir além, e
filósofos como Pitágoras e Parmênides, dentre outros, pensaram a
estabilidade e a unidade do mundo a partir do invisível, chegando aos
números e ao Ser como princípios. Inauguraram, com isso, outro
problema: o das relações entre conhecimento e realidade. A busca
prosseguiu com Demócrito e Leucipo, no século V a.C., que conceberam
partículas indivisíveis, os átomos, a sustentar a existência do mundo,
uma idéia bastante familiar aos dias atuais.
O que é a verdade?
Algo começou a mudar quando Sócrates, nas ruas de Atenas,
passou a interrogar àqueles que diziam conhecer a verdade, até que se
dessem conta de que, no fundo, não a conheciam. Ele mesmo dizia
saber apenas que nada sabia. Livre de preconceitos, cada um poderia
fazer nascer, em sua interioridade, novas idéias. Pois só começamos a
filosofar quando percebemos que somos aprendizes do aprender, e
passamos a pensar sobre como pensamos. Com Sócrates, foi o próprio
homem o motivo de admiração e reflexão filosófica.
Platão retratou, em diálogos, este método de educação de
Sócrates, a maiêutica, assim como sua vida. Em “O banquete”, disse
que a sabedoria não pertence ao ser humano, pois é algo divino, mas é
preciso continuar a buscá-la, ser “amigo da sabedoria”, ou seja, filósofo.
Ele se voltou, então, contra a relação utilitária com o discurso e o
conhecimento que alguns sofistas representavam. Eles eram homens
que diziam poder defender igualmente teses contrárias, dependendo dos
interesses
em
jogo.
Para
tanto,
buscavam
iludir,
distorcendo
argumentos e promovendo uma luta verbal. Assim, Platão passou a sua
vida buscando distingüir as aparências da realidade. Mas, para isso,
precisou refletir sobre a totalidade do mundo e do conhecimento
humano.
Platão, assim como Aristóteles, que foi seu discípulo, concebeu o
mundo como um sistema, algo como uma pirâmide de idéias ou
conceitos, onde, no topo, ou princípio, deveriam estar aqueles que
abrangessem
a
realidade
como
um
todo,
conferindo
unidade
e
estabilidade ao real. Na base, as coisas múltiplas e mutáveis que nos
cercam. Discordaram, porém, sobre a relação entre essas idéias e o
mundo.
Aristóteles vai além, desenvolvendo a Lógica e os fundamentos
das ciências, como, por exemplo, a Física. De fato, o mundo atual seria
impensável sem o legado destes pensadores.
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