aspectos da síndrome de burnout correlacionado com a

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ASPECTOS DA SÍNDROME DE BURNOUT
CORRELACIONADO COM A PROFISSÃO DA ENFERMAGEM
Luiz Carlos Schimitez1
Adriana Romão
Talita Cristina Maffei Da Rosa
RESUMO
O principal objetivo deste estudo foi identificar os fatores causadores da síndrome de
burnout em enfermeiros. Através de um levantamento bibliográfico, pode-se estudar
sobre a profissão da enfermagem, as causas desta síndrome, seus sintomas e prevenção.
Para isto foi realizada revisão literária em livros, periódicos e banco de dados da
internet, no período entre 1979 a 2007. A síndrome de burnout pode ser entendida como
um desgaste profissional facilmente observável em enfermeiros que trabalham
diretamente com pessoas, estando expostos a pressões emocionais repetidas, durante um
período de tempo prolongado. Suas principais características são o desgaste emocional,
a despersonalização e a reduzida satisfação pessoal ou sentimento de incompetência do
trabalhador, pois não ocorre satisfação com as ações realizadas e os próprios sucessos
no trabalho. É considerada uma resposta ao estresse crônico gerando problemas de
saúde, o trabalhador perde o sentido da sua relação com o trabalho. Pode-se verificar
que a profissão de enfermagem, por estar diretamente relacionada ao sofrimento do
paciente e por diferentes fontes estressoras está muito susceptível a síndrome de
burnout. E que se faz necessário adotar estratégias e mudanças de atitudes visando à
prevenção desta síndrome.
PALAVRAS-CHAVES: Enfermagem. Síndrome de burnout. Estresse. Prevenção.
INTRODUÇÃO
As pessoas vivem em um mundo com grandes recursos tecnológicos em que o
tempo passa em uma velocidade espantosa, devendo os problemas ter resolutividade
rápida e eficaz. Isto pressiona os indivíduos, gerando muitas vezes, um sentimento de
estar aquém da capacidade de resolução dos acontecimentos. Inicia-se uma era de
produção de sofrimento psíquico com forte ressonância no desencadeamento dos males
físicos (SANTOS; MIRANDA, 2007).
1
Enfermeiro, especialista em Urgência e Emergência pela FAFIPA, Faculdade Estadual de Educação,
Ciências e Letras de Paranavaí, Cascavel, PR (2009). Técnico de Enfermagem do Hospital Universitário
do Oeste do Paraná, Cascavel. Professor de enfermagem do CENAP Centro de Educação Profissional de
Cascavel, PR. Endereço: Rua José Caldart, 1118, Jardim Maria Luiza, CEP 85819-570 Cascavel – Paraná
Telefones: (45) 3037 3062 / 8804 5024. [email protected] / [email protected]
1
O trabalho passa a ser a mola propulsora de um suposto e fantasioso “mundo
melhor”, em que há reconhecimento, valorização e aceitação. As pessoas são instadas
sempre a melhorar, como trabalhadores a aumentar a produção e como indivíduos a
incrementar o consumo, criando-se desconforto, sofrimento e desequilíbrio quando não
se responde adequadamente às demandas, calcadas nas demandas do contexto social. O
trabalho passa a ser fonte de doença, devido a fatores extrínsecos e intrínsecos a ele
(SANTOS; MIRANDA, 2007).
A maioria das pessoas procura o trabalho para ter condições de atender às
necessidades básicas, poder consumir, ter satisfação e realizar-se profissional e
socialmente. Assim, o trabalho pode ser razão de satisfação ou insatisfação, gerador de
prazer ou de sofrimento. A forma como o trabalho está organizado, o ambiente
institucional e as condições de trabalho podem contribuir significativamente para o
(des) prazer do trabalho (SANTOS; TREVIZAN, 2002).
Segundo Codo, Sampaio e Hitomi (1993) o trabalho é o momento significativo
do homem, é a possibilidade da felicidade, da liberdade, da loucura e da doença mental.
Dejours (1992) coloca que a organização do trabalho promove sofrimento mental,
ressaltando os aspectos da divisão do trabalho, do conteúdo da tarefa, do sistema
hierárquico, das modalidades de comando, das relações de poder, sobre as questões de
responsabilidades, do ritmo e da jornada de trabalho.
Segundo Santos e Miranda (2007) ser profissional na área de saúde implica
lidar cotidianamente com situações de sofrimento, dor, morte, exclusão, frustração,
sentimentos de impotência ou onipotência, relacionamentos interpessoais conflituosos,
entre outros. O profissional de saúde nem sempre está preparado emocionalmente e
capacitado de modo técnico para atuar com essa dinâmica plena de obstáculos.
O sofrimento gerado pelo trabalho pode levar o indivíduo a desenvolver
estresse ocupacional e os transtornos a ele associados, destacando-se as doenças
psicossomáticas, doenças mentais e a síndrome de burnout. A função de administrador
da equipe de enfermagem, e por vezes a de organizador do trabalho da unidade de
assistência, pode desencadear sentimentos de culpa, incompetência, desqualificação,
insatisfação com as atividades desenvolvidas e a falta de reconhecimento (SANTOS;
MIRANDA, 2007).
A enfermagem profissional está se adaptando para atender as mudanças nas
2
necessidades e expectativas de saúde. Uma dessas adaptações pode ser notada na
expansão do papel do enfermeiro (SMELTZER; BARE, 2006). Devido às
responsabilidades aumentadas do enfermeiro generalista em seu ambiente de trabalho e
gerenciamento das equipes, pode ocorrer antecipação de sofrimento psíquico. Esta
pesquisa tem como pergunta norteadora a busca dos fatores geradores de sofrimento
psíquico no trabalho relacionado à síndrome de burnout. Representa um esforço em
encontrar respostas que tragam uma melhor compreensão dos fatores desencadeadores
desta síndrome.
A síndrome de burnout pode ser ocasionada pelo estresse no ambiente de
trabalho do enfermeiro, pela desvalorização profissional, pela tentativa de salvar vidas e
quando não se alcança os objetivos esperados pode ocorrer sofrimento psíquico,
impossibilitando-o de realizar adequadamente a sua função, tornando o ambiente de
trabalho um lugar de desânimo e ausência de perspectivas quanto ao seu crescimento,
desempenho e realização profissional.
OBJETIVOS
O principal objetivo deste estudo foi identificar os fatores que conduzem o
enfermeiro ao sofrimento psíquico relacionado à síndrome de burnout nas ações de
enfermagem. E também estudar sobre a percepção do trabalho de enfermagem e ações
alternativas para prevenir a síndrome de burnout.
METODOLOGIA
No presente trabalho utilizou-se uma pesquisa bibliográfica com abordagem
qualitativa, descritiva e exploratória. Foi realizado um levantamento bibliográfico
através da leitura de livros, artigos, revistas e banco de dados da internet, no período
entre 1979 e 2007, para estudar os fatores que conduzem à síndrome de burnout no
trabalho dos enfermeiros e a sua prevenção.
Conforme Minayo (2000) a pesquisa qualitativa responde a questões muito
particulares. Ela se preocupa, nas ciências sociais, com um nível de realidade que não
pode ser quantificado, pois trabalha com o universo de significados, motivos, crenças,
3
valores e atitudes, que corresponde a um espaço mais profundo das relações, dos
processos e fenômenos que não podem ser reduzidos à operacionalização de variáveis.
Já a pesquisa descritiva busca conhecer as diversas situações e relações que
ocorrem na vida social, política, econômica e demais aspectos do comportamento
humano, portanto analisa, observa, registra e correlaciona fatos sem manipulá-los. E a
pesquisa exploratória realiza descrições precisas da situação e quer descobrir as relações
existentes entre os elementos componentes da mesma (CERVO; BERVIAN, 2002).
PERCEPÇÃO DO TRABALHO DA ENFERMAGEM
A enfermagem é uma das profissões mais jovens, ainda que uma das artes mais
antigas. Teve seu início na antiguidade, com a vida familiar, e evoluiu como uma
extensão dos cuidados entre os membros das famílias. Pessoas substitutas eram
chamadas para amamentar recém-nascidos saudáveis e cuidar de outros membros da
família que adoecessem, envelhecessem e ficassem impotentes de cuidar de si mesmo.
Havia, comumente, mais necessidade de prestação de cuidados do que do ato de curar
(PESSINI, 2001 apud ROMÃO et al., 2007).
Florence Nightingale, em 1851, conseguiu estabelecer um marco na história da
profissão da enfermagem, dos hospitais e da assistência ao cuidado humano. Na Guerra
da Criméia (1854-1856), Florence foi convidada pelo Ministério da Guerra da Inglaterra
para trabalhar junto aos soldados feridos, onde demonstrou extrema dedicação no
cuidado, enorme capacidade de trabalho e organização. Sua atuação contribuiu para a
diminuição do índice de mortalidade entre os soldados, cuidava dos ferimentos,
infecção e outras doenças. Foi a precursora dessa nova enfermagem que, como a
medicina, se encontrava vinculada à política e à ideologia da sociedade capitalista
(GEOVANINI et al., 2002).
Como se pode perceber sua luta foi árdua e a partir desses fatores vivenciados
por Florence Nightingale, a visão e a forma da atuação profissional geraram mudanças
significativas no processo de cuidar, uma vez que ela tratava o ser humano de forma
holística, ou seja, prestava assistência em todos os aspectos. No entanto, no decorrer da
história, o papel do enfermeiro ampliou-se progressivamente, o que acabou exigindo
maiores habilidades na sua assistência (ROMÃO et al., 2007).
4
Segundo Romão et al. (2007) isso pode ser evidenciado ao vislumbrar as
práticas de saúde no mundo moderno, as quais analisam as ações de saúde e, em
especial, as de enfermagem, sob a ótica do sistema político-econômico da sociedade
capitalista. Ressaltam o surgimento da enfermagem como atividade profissional
institucionalizada, esta análise inicia-se com a Revolução Industrial no século XVI e
culmina com o surgimento da enfermagem moderna na Inglaterra, no século XIX.
Segundo Geovanini et al. (2002) no Brasil a enfermagem caracteriza-se por
três fases principais: organização da enfermagem sob o controle de ordens religiosas;
desenvolvimento da educação institucional e das práticas de saúde pública com a
criação da Escola de Enfermagem Ana Nery; e o processo de profissionalização da
enfermagem.
A evolução e o desenvolvimento tecnológico, especialmente no conceito de
saúde atualmente exige do profissional maiores habilidades para desenvolver suas
atividades que não se restringe única e exclusivamente a prestar o cuidado, essência de
sua profissão, mas envolve aspectos mais amplos que podem dimensionar, qualificar e
aperfeiçoar o cuidado (ROMÃO et al., 2007).
Segundo Horta (1979) a enfermagem é uma ciência e uma arte. A ciência da
enfermagem deseja proporcionar um corpo de conhecimentos abstratos, resultantes de
pesquisas científicas e análises lógicas, e deseja ser capaz de transferir esses
conhecimentos para a prática. O uso criativo e imaginativo do conhecimento para a
melhoria do homem encontra expressão na arte da enfermagem. Cabe à enfermagem
desenvolver atividades para a manutenção e promoção da saúde, bem como para a
prevenção de doenças, sendo de sua responsabilidade o diagnóstico e a intervenção de
enfermagem. Seu objetivo é assistir as pessoas para atingirem seu potencial máximo de
saúde.
Conforme Pereira (2002) é crescente a importância do enfermeiro no processo
de gestão dos serviços de saúde. Estar preparado e manter-se competente para as
demandas do exigente contexto profissional requer contínua preocupação com o próprio
desenvolvimento, atenção aos possíveis cenários futuros e abertura para sua rede de
relacionamento, dos aspectos emocionais envolvidos no atendimento dos pacientes.
5
SÍNDROME DE BURNOUT EM PROFISSIONAIS ENFERMEIROS
O ambiente hospitalar é muito tenso e estressante. Conforme Santos e Trevizan
(2002), o limitado tempo e as poucas oportunidades de estar com a família,
principalmente nos fins de semana, a dificuldade em conciliar as férias com a família, a
proximidade dos plantões acarreta sofrimento por antecipação.
O trabalhador que atua em instituições hospitalares está exposto a diferentes
estressores ocupacionais que afetam diretamente o seu bem estar. Dentre vários, podemse citar as longas jornadas de trabalho, o número insuficiente de pessoal, a falta de
reconhecimento profissional, a alta exposição do profissional a riscos químicos e
físicos, assim como o contato constante com o sofrimento, a dor e muitas vezes a morte.
O desempenho destes profissionais envolve uma série de atividades que necessitam
forçadamente de um controle mental e emocional muito maior que em outras profissões
(ROSA; CARLOTTO, 2005).
Fatores inerentes à organização do trabalho, tais como a falta de condições
materiais para prestação de assistência com qualidade e de recursos humanos, são
causadores de desconforto e sofrimento (LEMOS; CRUZ; BOTOMÉ, 2006).
De acordo com Santos e Trevizan (2002) o sofrimento psíquico no trabalho de
enfermagem pode também ser desencadeado pela má qualidade das relações
interpessoais, pois a autonomia do profissional de enfermagem está submetida ao saber
técnico do médico, gerando tensão entre a equipe.
Segundo Mozachi (2005) o hospital é considerado um ambiente de trabalho
insalubre onde pacientes e profissionais estão expostos a agressões de diversas
naturezas, como agentes físicos (radiações), agentes químicos e agentes biológicos.
“A organização do trabalho, bem como os eventos situacionais específicos,
decodificados ou não, vivenciados individual ou coletivamente, em unidades críticas,
produzem efeitos sobre o modo de enfrentamento do sofrimento" (BECK, 2000 apud
LEMOS; CRUZ; BOTOMÉ, 2006, p. 01).
Conforme Stuart e Laraia (2001, apud Santos; Miranda, 2007) os estressores
desencadeantes de sofrimentos são entendidos pelos indivíduos como estímulos de
difíceis ou perigosos, que exigem intensa energia e promovem um estado de tensão e
estresse; podem ser de origem biológica, psicológica ou sociocultural.
6
De acordo com Smeltzer e Bare (2006) quando o estresse interfere com a
capacidade de uma pessoa agir de forma confortável e inibe o gerenciamento efetivo das
necessidades pessoais, essa pessoa se encontra em risco de apresentar problemas
emocionais. A utilização de métodos ineficazes e não-saudáveis de adaptação é
manifestada por comportamentos, pensamentos e sentimentos disfuncionais. Esses
comportamentos voltam-se para o alívio do estresse avassalador, mesmo que eles
possam causar problemas adicionais.
A enfermagem é uma ocupação particularmente estressante. As cargas de
trabalho sofridas pelos trabalhadores de enfermagem como exigências ou demandas
psico-biológicas do processo de trabalho geram, ao longo do tempo, as particularidades
do desgaste do trabalhador. As cargas psíquicas são aquelas constituídas por elementos
no processo de trabalho que são, acima de tudo, fontes de estresse (LIMA;
CARVALHO, 2000).
Embora haja consenso entre os estudiosos sobre a existência do estresse e
burnout, diversas controvérsias estão envolvidas. São teorias que nascem no contexto da
explosão da produção e consumo no capitalismo. Estresse refere-se a um esgotamento
pessoal que interfere na vida do indivíduo, mas não necessariamente na relação com o
trabalho. Burnout é uma síndrome que envolve atitudes e condutas negativas com os
usuários, clientes, organização e trabalho. É um processo gradual, de experiência
subjetiva, que resulta em problemas práticos e emocionais no trabalhador e na
organização. O trabalho da enfermagem propicia tanto uma quanto outra situação e
causa sofrimento e adoecimento (MUROFUSE; ABRANCHES; NAPOLEÃO, 2005).
A síndrome de burnout vem sendo pesquisada por estar relacionada aos
profissionais que atuam em setores como educação, saúde, segurança e outras
ocupações que implicam contatos com pessoas que necessitam de ajuda. Burnout pode
ser entendido como uma reação à tensão emocional, que resulta na redução da
motivação para o trabalho e na inabilidade progressiva de indivíduos para mobilizar
interesses e habilidades, visando à consecução de objetivos organizacionais
(BARBOSA; GUIMARÃES, 2006).
Segundo Braz (2006) a enfermagem se encontra entre as profissões mais
acometidas pelo burnout, haja vista a necessidade de o enfermeiro estar em constante
interação com pessoas, o que significa demandas emocionais estressantes, com
7
experiências repetidas de sofrimento, separação e morte. Além disso, a profissão é
pouco valorizada pelos próprios enfermeiros, o que contribui para um desgaste
profissional.
Conforme Barbosa e Guimarães (2006), o termo burnout é definido
literalmente como falhar, colocar fora ou tornar-se exaurido por excessivas demandas de
energia, resistência ou recursos, síndrome indesejável que se manifesta como reação a
situações estressantes de trabalho.
Segundo Pereira (2001) existem mais de 2.500 referências sobre o burnout,
mas o primeiro a se utilizar do termo burnout foi Freudenberger em 1974, para
descrever exaustão física e emocional de profissionais de saúde mental. A maioria dos
autores segue usando esta denominação, Gil-Monte e Peiró em 1997 traduziram por
“síndrome de queimar-se pelo trabalho”. Estar queimado se emprega coloquialmente
para manifestar que se perdeu a ilusão pelo trabalho e que qualquer esforço destinado
para fazer as coisas bem é pouco mais que inútil; é estar esgotado emocionalmente e
mostrar uma forte atitude negativa para as pessoas com as quais se trabalha e para seu
próprio rol.
Portanto, burnout refere-se a uma síndrome na qual o trabalhador perde o
sentido da sua relação com o trabalho e faz com que as coisas já não tenham mais
importância, qualquer esforço lhe parece ser inútil. Trata-se de um conceito
multidimensional que envolve três componentes, que podem aparecer associados, mas
que são independentes: exaustão emocional; despersonalização e falta de envolvimento
no trabalho (MUROFUSE; ABRANCHES; NAPOLEÃO, 2005).
A exaustão emocional caracteriza-se por uma falta ou a carência de energia
acompanhada de um sentimento de esgotamento emocional. A manifestação pode ser
física, psíquica ou uma combinação entre os dois. Os trabalhadores percebem que já não
possuem condições de despender mais energia para o atendimento de seu cliente ou
demais pessoas, como já houve em situações passadas. Tratar os clientes, colegas e a
organização como objeto, "coisificando" a relação, é uma das dimensões da
despersonalização. Ocorre um endurecimento afetivo ou a insensibilidade emocional,
por parte do trabalhador, prevalecendo o cinismo e a dissimulação afetiva.
(MUROFUSE; ABRANCHES; NAPOLEÃO, 2005).
8
Nessa dimensão, são manifestações comuns, a ansiedade, o aumento da
irritabilidade, a perda de motivação, a redução de metas de trabalho e comprometimento
com os resultados, além da redução do idealismo, alienação e a conduta voltada para si.
A falta de envolvimento pessoal no trabalho é uma dimensão na qual existe um
sentimento de inadequação pessoal e profissional. Há uma tendência de o trabalhador se
auto-avaliar de forma negativa, com uma evolução negativa que acaba afetando a
habilidade para a realização do trabalho e o atendimento, o contato com as pessoas
usuárias do trabalho, bem como com a organização (MUROFUSE; ABRANCHES;
NAPOLEÃO, 2005).
Segundo Pereira (2001) os sintomas mais freqüentes associados ao burnout
são:
- pscicossomáticos: enxaquecas, insônia, gastrites, diarréias, palpitações,
hipertensão, dores musculares.
-
comportamentais:
absenteísmo,
isolamento,
violência,
drogadição,
incapacidade de relaxar, mudanças bruscas de humor e comportamento.
- emocionais: impaciência, distanciamento afetivo, sentimento de solidão,
irritabilidade, ansiedade, sentimento de impotência, desejo de abandonar o emprego,
baixa auto-estima, decréscimo de rendimento no trabalho.
Multifacetado, o burnout só pode ser compreendido à medida que se elucida a
dinâmica da sua complexidade, visto que inclui as percepções das condições de
trabalho, riscos e perigos, sobrecarga, desempenho dos papéis e importância social do
trabalho, as relações interpessoais, a adoção de novas tecnologias, o acesso à
capacitação, a participação no processo decisório, as relações com o entorno, a
remuneração, os múltiplos empregos e os valores conflitantes. A esses, devem ser
acrescidos, entre outros elementos, idade, sexo, tempo de exercício profissional,
sentimentos de auto-eficácia, centralidade do trabalho, estratégias utilizadas para lidar
com os problemas do cotidiano e disponibilidade de uma rede de relacionamentos que
forneça suporte social (FELICIANO; KOVACS; SARINHO, 2005).
Entretanto, à medida que as expectativas acerca da profissão, da organização e
do desempenho pessoal são contrastadas com a realidade, os sentimentos de que o
trabalho exige demais de si mesmo, de desgaste e esforço ao lidar com a clientela, de
frustração e insatisfação, além de persistente sensação de cansaço, conformam
9
diferentes amálgamas. Por isso, diante de uma situação de trabalho que é difícil de
suportar, mas que ainda desperta satisfação pela inegável importância da tarefa a ser
cumprida, a contínua tensão entre prazer e sofrimento repercute de modo diferenciado
sobre o envolvimento pessoal nas atividades profissionais (FELICIANO; KOVACS;
SARINHO, 2005).
PREVENÇÃO
–
AÇÕES
PARA
MINIMIZAR
A
OCORRÊNCIA
DA
SÍNDROME DE BURNOUT EM ENFERMEIROS
Segundo Santos e Trevizan (2002) quando a organização do trabalho do
enfermeiro ocorre de modo autoritário, não permitindo mudanças, dificulta-se a
adaptação do mesmo ao meio organizacional que lhe foi imposto. É necessário, então,
um grande esforço psíquico do enfermeiro a adaptar-se e isso ocorre de modo sofrido.
Por esta razão, o enfermeiro deve agir com criatividade, flexibilidade e autonomia.
É evidente que todo trabalho novo gera ansiedade, medo, angústia, utopia e
incerteza. Isso decorre da pouca experiência dos enfermeiros na área que se propunham
atuar. Por sua vez, a universidade não consegue formar profissionais de enfermagem
devidamente habilitados para cuidar da pessoa que sofre em sua totalidade, como um ser
biológico, social, cultural, lingüístico e histórico (OLIVEIRA, 2006).
A realização profissional relaciona-se com a satisfação, com a supervisão, com
benefícios e políticas organizacionais e com o conteúdo do trabalho. Esse resultado
sinaliza que estar satisfeito com suas atribuições, com sua chefia e com os benefícios e
políticas da organização é um elemento importante de realização profissional e,
conseqüentemente, podem ser entendidos como fatores de proteção ao burnout. Essa
dimensão em muitas situações pode funcionar como um mecanismo de controle que
busca restaurar as perdas psicológicas, repondo um quadro de valores, crenças e
pressupostos orientadores de um comportamento coletivo conveniente aos objetivos
organizacionais. As instituições de saúde e seus profissionais possuem uma cultura
caritativa e assistencial. Percebem seu trabalho também como uma ”prática de ajuda”,
que obtém como recompensa, a “experiência de gratificação pessoal”. Esta crença, não
raras vezes, impede que o trabalhador identifique os estressores profissionais que
podem lhe causar danos a sua saúde mental (ROSA; CARLOTTO, 2005).
10
Atualmente, verifica-se uma tendência das organizações hospitalares no
investimento da estrutura física, mais especificamente estéticas de suas instalações, com
o intuito de gerar avaliação positiva no usuário, estando essa questão relacionada ao
mercado consumidor. No entanto, os profissionais que trabalham na instituição
precisam, acima de tudo, de melhores condições e organização de trabalho, com suporte
de seus supervisores, benefícios e políticas organizacionais que contemplem sua
qualidade de vida. Neste sentido, ao se constatar que muitos são os fatores de
insatisfação no trabalho que se relacionam às dimensões de burnout e a presença da
síndrome pode afetar a prestação de serviços e a qualidade do cuidado oferecido, já que
afeta o diretamente o cuidador, há que se pensar na necessidade de intervenções
pontuais de forma preventiva, principalmente com relação aos trabalhadores mais
jovens da instituição (ROSA; CARLOTTO, 2005).
Portanto, é preciso identificar caminhos para modificar essa realidade, sendo
fundamental que a prevenção e o tratamento do burnout sejam abordados como
problemas coletivos e organizacionais e não como um problema individual. Atualmente,
está sendo priorizada a estratégia de melhoria do suporte social no trabalho por meio
dos grupos de discussão, com o intuito de estimular a cooperação entre companheiros,
mas começa a despontar o recurso ao desenvolvimento organizacional como processo
dialógico de transformação das condições de realização do trabalho (FELICIANO;
KOVACS; SARINHO, 2005).
O planejamento/replanejamento do trabalho por meio das negociações
cotidianas é parte do conjunto de estratégias que visam a promoção e a prevenção em
saúde no ambiente laboral. Desse modo, é possível estabelecer compromissos para
conciliar as demandas provocadas pelos interesses conflitantes que perpassam as
situações de trabalho, quais sejam, da organização, das tarefas, dos cargos, dos setores
de trabalho, das pessoas e de seus grupos sociais, entre outros. Cabe lembrar que os
trabalhadores com base na experiência e no conhecimento construído na prática já
replanejam, informalmente, para tornar factível de execução, aquilo que foi planejado
por outrem, o que explica a diferença entre o trabalho prescrito e o real (FELICIANO;
KOVACS; SARINHO, 2005).
Maslach e Leiter (1997/1999) apud Borges (2002) enfatizam os fatores do
ambiente de trabalho, defendendo que a identificação dos desencadeadores permite o
11
planejamento de ações preventivas. Apresentam, então, uma sistematização das
principais causas da síndrome de burnout, destacando os seguintes aspectos: o excesso
de trabalho, a falta de controle, remuneração insuficiente, colapso da união, ausência de
equidade e valores conflitantes. Seguindo tal sistematização, ao examinar-se ou explorar
a situação de uma determinada organização em busca do que está gerando a incidência
da síndrome, todos estes aspectos devem ser examinados.
Quando os referidos autores discorrem sobre o excesso de trabalho, referem-se
tanto a excesso de volume como ao excesso pela qualidade e/ou diversidade de tarefas.
Em referência aos valores conflitantes, não consideram pertinentes apenas o exame dos
conflitos entre valores dos empregados e da instituição como um todo, mas também
entre valores declarados e prática da organização. Recomendam explicitamente que seja
apreciada a coerência entre valores atribuídos como ideais à organização, a missão, os
objetivos e as políticas organizacionais.
Segundo Braz (2006) existe formas que podem vir a prevenir ou amenizar os
sintomas de estresse e burnout. É fazendo uma auto-análise quanto aos processos de
estresse e burnout, identificando os sintomas relativos, reconhecer as estratégias que se
podem utilizar para enfrentar os sintomas, alterar estratégias que estejam sendo pouco
eficazes, manter uma boa qualidade de vida com medidas apropriadas, tais como: adotar
uma boa alimentação, dormir bem, praticar exercícios físicos, repensar a forma de atuar
no trabalho; manter boa comunicação e ambiente agradável com a equipe de trabalho;
reservar um tempo para o descanso; realizar relaxamento e alongamento com respiração
adequada para prevenção dos sintomas do burnout.
A partir do momento em que o profissional tem conhecimento do que é a
síndrome de burnout, seus sintomas, os fatores que podem desencadear esta patologia, e
os recursos para minimizar os efeitos da síndrome de exaustão, ele poderá apresentar
um melhor padrão na qualidade de vida, tanto profissional quanto pessoal, além de
poder oferecer aos seus pacientes uma assistência de qualidade e humanizada, trazendo
benefícios para o paciente e para si mesmo, além de diminuir o absenteísmo, a fuga, e
os problemas relacionados com o desempenho profissional para a sua chefia, ou mesmo
para a instituição em que trabalha (BRAZ, 2006).
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CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ser enfermeiro é trabalhar com amor e dedicação, não é o simples dever de
trabalhar, cumprir horário. É ter dedicação e afeto. É contribuir para que o usuário seja
tratado como um ser humano, como um cidadão. O enfermeiro atual precisa navegar por
um conhecimento aberto, complexo que convive à busca, à reflexão, à intuição, à
curiosidade; não à incerteza, mas à possibilidade de múltiplas narrativas competitivas, à
polifonia, à ambivalência (OLIVEIRA, 2006).
O principal objetivo deste trabalho, identificar os múltiplos fatores que
conduzem os enfermeiros à síndrome de burnout, foi alcançado e através de um
levantamento bibliográfico, verificou-se que a síndrome de burnout vai além do estresse
crônico, nem sempre percebido pelos profissionais acometidos. O burnout afeta a vida
emocional, profissional e social. Todas as pessoas que convivem com o trabalhador
acometido sofrem junto, o paciente pela falta de interesse e motivação; os colegas de
trabalho pela indiferença, impaciência e dificuldade de concentração e os familiares pela
irritabilidade e distanciamento afetivo.
Foi pesquisado também sobre as estratégias para controle e prevenção da
síndrome. Considera-se, contudo, que a reflexão sobre as estratégias recomendadas
conduz à conclusão de que qualquer prescrição de estratégias a adotar deve variar
contigencialmente com as fontes estressoras identificadas em cada organização e com
sua inserção no cenário socioeconômico, o qual cria sentido para a sua missão. Para
tanto, este estudo não tem como objetivo encerrar-se aqui, e sim proporcionar fonte de
reflexos para futuros estudos e contribuição social para os profissionais de saúde e áreas
afins.
REFERÊNCIAS
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13
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