1 A RELEITURA DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL (1939

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A RELEITURA DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL (1939-1945) E A PARTICIPAÇÃO
DAS MULHERES BRASILEIRAS
JANE FARINAZZO / UFBA
Introdução
Este trabalho versa sobre a Segunda Guerra Mundial ocorrida no século XX, a
participação das mulheres brasileiras e suas atividades profissionais, envolvendo fatos
decorrentes deste conflito que aconteceu na Europa. Almeja-se com esta pesquisa histórica
elaborar um trabalho que seja. uma referência para as mulheres visibilizando as brasileiras que
não são contadas nos livros de História do Brasil e do pioneirismo dessas mulheres nas Forças
Armadas num momento de anormalidade que foi a Segunda Guerra. A formação das enfermeiras
que integraram a FEB (Força Expedicionária Brasileira) com um efetivo de setenta e três
mulheres, incluindo Exército e a Aeronáutica.
Há um desconhecimento considerável dos estudantes e pesquisadoras (es) brasileiros
quanto a este ingresso e uma restrita biografia das ex-integrantes da FEB e da FAB (Força Aérea
Brasileira). Esta conjuntura apresentava como pano de fundo um ressentimento do povo alemão
visando o não cumprimento do impositivo Tratado de Versalhes, herança da Primeira Guerra
Mundial, além dos outros regimes totalitaristas como o fascismo na Itália e as lutas entre cidades
que buscavam manter a preservação de invasão em territórios europeus, para o fortalecimento de
sua hegemonia.
Na Alemanha havia um conflito que envolvia a nobreza e a classe média que estava em
ascensão. Objetiva-se especificar que, sendo extremamente complexo e pouco discutido, este
tema foi desenvolvido com base em leituras e pesquisas feitas a partir da Segunda Guerra
Mundial, que teve sua origem no século passado. A força brutal e barbárie não tinham nenhum
limite. A história do século XX apresenta acepções que competem reflexões e outra leitura sobre
este período. Após as conquistas das Américas atos com esta particularidade também ocorreram
como se podem citar os inúmeros massacres dos índios.
No território existe, porém, uma maneira de organização da sociedade em busca de
autonomia, até porque, o povo e o poder soberanos são partes constituintes e imprescindíveis para
a concepção do Estado. Assegura HOBSBAWM que, na guerra: “os dois lados viram-se assim
comprometidos com uma insana corrida armamentista para a mútua destruição e com o tipo de
generais e intelectuais nucleares cuja profissão exigia que não percebessem essa insanidade”. A
partir deste raciocínio tudo indica que, o alcance da paz, torna-se algo muito remoto e perante
tantas atrocidades, conflitos, mortes e destruição, o surgimento de mulheres neste panorama deve
ser destacado e analisado, mesmo que pouco registrado em obras expressivas escritas por
historiadores.
Contexto Nacional
A Era Vargas no Brasil foi um governo que teve como característica dirigir-se as massas,
buscando sempre apoio nas organizações articuladas pelos trabalhadores, prometendo, portanto,
que, a industrialização seria um avanço que aconteceria de maneira rápida. As dificuldades se
apresentavam das mais diversificadas formas na sociedade brasileira. A Grande Depressão de
1929 deixou países de diversas localidades com crises financeiras.
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Não seria tão fácil cumprir a promessa de industrializar o País em pouco tempo. As
práticas do governo brasileiro tinham uma característica pendular. Faltava uma definição
concreta acerca de que lado estava, o presidente brasileiro.
Neste contexto, foi criada a FEB – que comandada pelo General João Batista
Mascarenhas de Moraes partiu para os campos de batalhas no território italiano. Neste episódio
registra-se um total de cento e oitenta e seis profissionais de saúde, entre eles as enfermeiras do
Exército que totalizavam sessenta e sete, das quais apenas seis, eram especializadas, em
transporte aéreo e as demais eram profissionais hospitalares.
Destaca-se, portanto, de fundamental importância, no que diz respeito à inserção dessas
mulheres na esfera militar, o fato da mobilização ter acontecido de forma voluntária, contribuindo
para a conquista feminina para o ingresso ns Forças Armadas. Na época, houve uma demanda
considerável pelo curso de enfermagem no Brasil.
Esta guerra teve um caráter de expansão territorial, utilizando desenvolvidos submarinos,
um exército implacável envolvia conflitos de ordem política e de formação de um novo império.
Deve ser observado, no entanto, que no cenário internacional os territórios invadidos revelavam
que a questão da soberania do Estado sofre violação. Entende-se, no âmbito estatal, que o
processo beligerante é um instrumento de dominação, determinação e execução do Estado, logo,
este procedimento torna-se uma prática legítima, como uma forma de organização política para
fins específicos.
Havia ainda uma imediação de outros países com a América Latina, a esta proximidade
como as nações amigas. A guerra submarina se desenvolveu desrespeitando tratados
internacionais e a própria soberania do Estado. Tal acontecimento agravou as relações de
cooperação que vinha acontecendo. Os navios brasileiros não representavam nenhuma ameaça
aos Estados envolvidos na guerra. Não se tratava de navios inimigos a serviço de um determinado
sistema de governo a exemplo do nazismo ou antinazista. Os navios mercantes brasileiros foram
atacados por alemães. Em março de 1941, mesmo com identificação no convés, o Taubaté foi
torpedeado em costas brasileiras. Onde foi metralhado o conferente Fraga, além dos ferimentos
sofridos por parte da tripulação deixando em estado grave aproximadamente treze pessoas.
Neste mesmo ano, o navio Santa Clara desapareceu, na ocasião este navio fazia um
serviço para o governo federal. Há suposição de que este fato se deu nas costas dos Estados
Unidos e a perda da tripulação foi completa. Segundo CANSANÇÃO: “Durante o ano de 1942,
nossas perdas no mar foram superiores às da campanha da FEB na Itália. Os navios mercantes
eram pequenos e desaparelhados”. O Brasil mesmo com suas características de ser um país
pacífico, resolve então entra na guerra.
O navio Cabedelo partiu da Filadélfia com destino ao porto da Paraíba, mas não
conseguiu concluir sua jornada. Este fora torpedeado pelo submarino italiano Leonardo Da Vinci.
O Itamaraty depois de um mês de seu desaparecimento, entrou em contato com a Embaixada em
Washington na tentativa de obter alguma informação, porém nada foi informado. Consta apenas
que, viajando ao largo das Antilhas em 25 de fevereiro, cruzou com o submarino italiano e deste
episódio não restou nenhum sobrevivente. Foram muitos os ataques aos navios brasileiros no
período da Segunda Guerra Mundial. O que provocou uma reação da Marinha de Guerra sendo
acionada a Força Naval pelo Almirante Soares Dutra.
Houve uma trégua nos torpedeamentos que durou um curto período de 21 de novembro a
18 de fevereiro de 1943. O Brasil ao saber do pacto firmado da Alemanha com o Japão decidiu
através do Decreto de nº 18.811 romper com o Japão. Neste Decreto constava no Artigo 1º é
declarada a existência do estado de guerra entre o Brasil e o Japão. Deste modo o Brasil firmara
seu acordo com os aliados. Retorna os ataques dos alemães a Marinha brasileira.
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O contexto internacional
A Segunda Guerra Mundial apresentava um cenário onde, as causas do antagonismo bem
como das divergências entre os países governo democrático diferenciava-se do regime totalitário,
aprofundando os conflitos em territórios diferenciados do mundo. Nos países como Espanha,
Turquia, Polônia, China e Japão, havia ditaduras nas vésperas da Segunda Guerra. As oligarquias
oprimiam os povos, especialmente os latifundiários como a exemplo da Hungria. Os países de
regime democrático como Estados Unidos, a França, a Suíça, a Holanda, os países escandinavos
continuam com seu desenvolvimento. Neste cenário a reparações de guerra, após a Primeira
Guerra Mundial, geraram angústias e revoltas por terem sido injustas.
A Alemanha não pretendia efetuar o pagamento do que foi imposto no extensivo e
discriminatório Tratado de Versalhes, que fora acordado sem a presença de autoridades da
Alemanha. A França por sua vez queria receber o máximo possível para se reconstruir e
principalmente para impedir a recuperação do governo alemão. A Inglaterra apresentava uma
situação um pouco confortável, pois pretendia em virtude de seus negócios comerciais, buscava
contentar tanto a Alemanha como a França. Era um jogo de conveniência e equilíbrio nas
articulações comerciais e políticas.
Após a ascensão do sistema nazista ao poder, a prática política sofreu alteração. A política
externa da Alemanha buscou revisar as cláusulas constantes no Tratado de Versalhes, tal atitude
causou uma enorme aflição do mundo. Provavelmente nenhum governante previu que estava
preste a iniciar a maior atrocidade já registrada na história da humanidade. Para a Alemanha era
fundamental a união dos povos germânicos, foi uma necessidade da política militar do nazismo.
Com a união os planos de Hitler tornavam-se viáveis. Em março de 1935, houve a
restauração do serviço militar, onde o desejo de vingança e o ódio ideológico eram premissas
para fazer a Alemanha acompanhar o ritmo de desenvolvimento do país, após a Primeira Guerra
Mundial, os comprometimentos econômicos dificultavam o crescimento de nações européias, que
culminaram no conflito de 1939, onde se dera o inicio da maior guerra da história da
humanidade.
As crises anteriores a Segunda Guerra Mundial
Os países como Estados Unidos, França e Inglaterra, no decênio que precedeu o conflito
de 1939 a 1945, tem como ressentimento as distintas falhas no que se referia à preservação de paz
em escala mundial. A região do Reno, área que fora desmilitarizada pelo Tratado de Versalhes,
foi ocupada por tropas de Hitler em março de 1936. Ainda com o protesto do governo francês.
A tendência por hegemonia se fortalecia pressionada por seus interesses econômicos,
políticos e estratégicos. Neste cenário, de militares fanáticos pelo regime nazista, as cidades não
contavam com ajuda de outros países. O medo e terror eram vivenciados com muita facilidade,
onde homens, mulheres, crianças e idosos eram arrancados de suas moradias para a morte e os
feridos de guerra contavam com a sorte e a presença de mulheres voluntárias que arriscavam suas
vidas com um propósito, salvar outras vidas.
Ao aprofundar das relações de gênero nos ambientes de guerras, evidenciavam-se como
as mulheres eram acusadas ou diferenciadas. No regime nazista, as mulheres que contribuíram
com a política de Hitler tinham seus cabelos raspados. A guerra reforçava os papéis
estrategicamente definidos pelos homens militares.
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Aqueles que foram convocados de certa maneira perderam parcialmente suas funções e
assim sua autoridade sobre as mulheres, a ausência permitia tal comportamento. Pode-se afirmar
que, a guerra fez parte do construto em aumentar de reduzir as desigualdades entre mulheres e
homens. A história das mulheres e a história de gênero são caminhos fundamentais das pesquisas
em questão para um entendimento de como tais relações se estabelecem. Nas palavras de KESIC
destaca-se uma questão fundamental neste contexto: “a violência de gênero em tempos de guerra
é um fenômeno qualitativamente novo e distinto da violência cotidiana em tempos de paz, como o
estupro, os espancamentos, o assédio sexual”. A ONU – Organização das Nações Unidas
elaborou um informe em 1994, através da Comissão de Perito, onde afirma que mais de 4.500
casos foram documentados. Contudo, as diversas missões internacionais concordavam que os
homens, quando em estado beligerante, cometeram estupros.
Mulheres japonesas foram escravizadas nos campos de concentração na Segunda Guerra
Mundial. Mesmo diante de tantos documentos, os soldados negaram que tivesse participado
desses fatos, que comprovaram violação à dignidade humana. Do mesmo modo, após esta
referida guerra, o Estado não bastava para garantir o fortalecimento e aplicabilidade de normas
internacionais garantidoras da proteção humana, além disso, a jurisdição doméstica não era
suficiente.
Deste modo, a obrigação de reconstrução dos direitos humanos com modelo ético, diante
da carnificina que fora o Holocausto, tornava-se imprescindível. Este processo expressava para
toda humanidade, o repúdio a tal atrocidade e determinava como a dignidade humana estava
longe de ser respeitada em sua plenitude. No entanto, ainda assim, algumas transformações
aconteceram e a Declaração de Viena, divulgada em 1993 pela ONU, através de Conferência
Mundial dos Direitos Humanos, foi um marco para as mulheres, pois este documento pioneiro de
caráter internacional reconhecia os direitos da mulher como direitos humanos.
Após esta conquista, neste cenário aconteceu uma modificação, o que fosse caracterizado
delito de gênero de forma específica contra a mulher passava por julgamento respaldado pela lei.
Neste contexto, a perspectiva de analisar e refletir sobre gênero e as relações de poder, além de
todas as articulações que ocorriam nos mais complexos processos que envolviam as mulheres,
não deviam nos momentos significativos ser desvinculados das relações com o Estado ou ainda
no que se referia a dominação masculina da política e seus excessos. A história não registrava os
abusos e violência sexual contra a mulher como crime de guerra, simplesmente por não estarem
incorporados nos preceitos jurídicos.
Muitas modificações significativas aconteceram após as guerras da ex -Iugoslávia e
Ruanda, sendo esses episódios os pioneiros a serem julgados por uma corte de reconhecimento
internacional. Desta maneira tais acontecimentos serviram como parâmetros nas mudanças
ocorridas no direito humanitário internacional. A guerra foi se modificando de forma progressiva,
tanto no que diz respeito a sua natureza, quanto ao seu objetivo.
A história não permite que sejam feitas manipulações tornando variável algum fato,
porém, é possível e viável que seja reescrita por outra ótica além dos olhares e percepções
masculinas. A necessidade de se estudar, através de pesquisas, fenômenos históricos, tornam-se
evidentes, quando um determinado contexto não dá conta de explicar suas variáveis de ordem
social, econômica, política ou religiosa, quando a temática é gênero.
As mulheres e suas atividades
Neste aspecto, falta na historiografia um número maior de registros que identifiquem
como as transformações no cenário europeu foram acontecendo. Como as mulheres brasileiras e
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de outras nacionalidades trabalhavam, o que faziam, o que produziam e onde estavam quando os
homens retornaram com lesões irreversíveis da guerra. Por este prisma, falta identificar com mais
afinco, como os países foram reconstruídos, e se neste processo em que as estruturas familiares,
militares e geopolíticas, foram destruídas quase na sua totalidade.
O nazismo alterou substancialmente as condições de existência, ao ser revelado que não
havia nenhum limite ao mal praticado, imaginado e estrategicamente realizado. A ocupação
alemã em países como a França fizeram com que se perdesse qualquer direcionamento do que era
certo ou equivocado. A opressão ocupava todos os espaços. Não se percebia qual alternativa
possível resultaria em dias melhores. Esperança e convicção, não mais permeavam entre homens
e mulheres, que diante nesta situação que se alastrava sem ser contida.
Neste cenário, NYE relata o envolvimento das mulheres:
[...] aos milhares foram elas recrutadas para o esforço de guerra,
mostravam-se capazes de enfrentar as fábricas e fazer os serviços
dos homens. Na Alemanha, onde tantos homens morreram, elas
prosseguiram no trabalho e continuaram a ser necessárias [...]
também o esforço de guerra e a sensação de se cuidarem sozinhas,
juntamente com o desprazer ante o mundo masculino da guerra,
tornaram as mulheres menos inclinadas a retornar a seus papéis
tradicionais. (1995 p 97)
As mulheres viúvas encontravam-se nas narrativas bem como as crianças. As proibições
eram identificadas nos discursos. Nos acampamentos, as mentiras e manipulações assumiam o
comando nas vozes dos homens dos exércitos. A obediência cega fazia os homens e mulheres
recuarem suas vontades de liberdade. O fim parecia algo próximo para todos os envolvidos na
guerra. O natal não contava como grande celebração. Às noites felizes não permitiam que se
falasse de Deus, o líder espiritual afirmava que o inferno era um lugar onde Deus se revelava.
A trajetória nazista seguia seu curso ganhando liderança entre os participantes da
construção do Nacional Socialismo. Não havia momentos de reflexão entre os homens e as
mulheres com tudo que estava acontecendo, apenas sentimentos de medo e dominação, estavam
presentes nas vidas das pessoas, sequer articulavam estratégias para sobrevivência entre os
judeus. A comunicação de massa exercia um poder de manipulação incontestável.
Porém, antes de desenvolver aspectos da participação das mulheres na Segunda Guerra
Mundial, chama-se a atenção para a seguinte informação de BARTOV: “Nos últimos vinte anos,
as feministas têm se queixado da história predominantemente masculina que nos chegou do
Holocausto, e têm tentado desenterrar as histórias esquecidas e ignoradas pelas mulheres”.
Pode-se afirmar que, ao ser introduzida a questão de gênero, estas convinham como um
instrumento, com particularidades sobre os testemunhos e não como memórias das mulheres.
Assim, prossegue BARTOV: “Vejo gênero como um veículo que media os modos
pelos quais certas imagens conseguiram circular na cultural visual da geração pós-memorial”.
Onde deveria haver reconhecimento, o viés de gênero como categoria analítica que não precisa
necessariamente sobrepor-se a outras categorias em suas análises. Na história, o registro de uma
garota nua vietnamita correndo com queimaduras pelo corpo ficou marcado como um momento
em que a infantilização, na figura feminina, causa uma angústia e desespero. Tal fotografia ficou
famosa em todo o mundo.
Ao ilustrar a vítima como infantilizada, identifica-se como mecanizado o masculino.
Quase de maneira despercebida, a ingênua representação daquele que fotografou aquele momento
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e imortalizou o sofrimento de uma criança, estava ali por não ter como escolher outro caminho. A
falta de sensibilidade do fotógrafo se contrapõe com o sofrimento daquela criança, que corria
com dores de seu corpo queimado, sem saber ao certo para onde e sequer o que devia fazer. Nas
reflexões de BARTOV “Nessa passagem completa e cheia de implicações políticas[...] os papéis
de gênero são claramente diferenciados:algozes, sejam nazistas ou israelenses, são masculinos,
enquanto as vítimas, sejam judias ou palestinas, são filhos de mães em luto”.
Se a reminiscência do Holocausto é evocada para dar contigüidades de políticas
contemporâneas, vale destacar que, isso incide por meio de recurso de familiares estereótipos de
gênero, promovidos pelo uso de reproduções de modelos excludentes. Na análise de Davis,
registra-se a conseqüente passagem em 1975 que diz o seguinte:
Penso que deveríamos nos interessar pela história tanto dos
homens como das mulheres, e que não deveríamos trabalhar
somente sobre o sexo oprimido, assim como um historiador das
classes não pode fixar seu olhar apenas sobre os camponeses.
Nosso objetivo é compreender a importância dos sexos dos grupos
de gênero no passado histórico. Nosso objetivo é descobrir o
alcance dos papéis sexuais e do simbolismo sexual nas diferentes
sociedades e períodos, é encontrar qual era o seu sentido e como
eles funcionavam para manter a ordem social e para mudála.(Davis apud Scott 1990 p.5)
A história foi construída ao longo dos anos, e o mundo das mulheres foi instituído a partir
do mundo dos homens, deste modo, não seria diferente sua situação em guerra. O desafio desta
parte da história, não contada com seus detalhes e particularidades, implica em buscar uma
minuciosa investigação acerca das experiências das mulheres que tiveram papel fundamental na
Segunda Guerra Mundial. Gênero representa um instrumento de demonstração das desigualdades
masculina e feminina e possibilita a visibilidade das mulheres na história.
As mulheres foram, por isso dizer, mobilizadas como os homens. Certamente gênero
torna-se uma forma, através da qual as construções foram estabelecidas sobre os papéis
determinados para homens e para as mulheres, que durante muitos anos, viveram suas vidas
dentro de casa. A invasão da Polônia, no entanto, mudou toda esta realidade. Os papéis sociais
foram se modificando a partir deste episódio. Na Segunda Guerra Mundial, as mulheres foram
convidadas pelo governo britânico, para auxiliarem de alguma forma. Jovens acima de 18 anos
foram convidadas devido o alto custo da guerra. Suas funções não eram livres de atos de
atrocidades, ressalta-se o relato na obra Rumo Equivocado, onde BADINTER retrata o seguinte
pensamento:
[...] inspetoras executavam seu serviço nos campos de
concentração para mulheres, bem como em campos de extermínio
como Auschwitz-Birkenau e Lublin-Maidanek. Cada campo era
dirigido por um homem da SS, mas, as inspetoras exerciam
autoridade direta sobre as detentas. Responsáveis pelas
humilhações cotidianas e pela tortura das prisioneiras, elas tinham
o direito de portar armas de fogo no trabalho e encarnavam a
força. (2005 p79)
Como não podiam transportar armas, as mulheres tinham que produzir munição, ou ainda,
trabalhar arando a terra, desempenhando funções junto à defesa civil como sentinelas e bombeiro.
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Este era o cenário constituído por mulheres durante os anos 30. Sua participação ocorria nos
espaços de inspetoras que, usavam a brutalidade apesar de suas funções simples como
trabalhadoras. No começo dos anos 40, um terço de toda produção britânica era de mulheres,
mais de oitenta mil trabalhavam na agricultura.
Além disso, cerca de quinhentas mil voluntárias da Grã-Bretanha e do Império exerciam
funções em forças consideradas auxiliares, essas funções incluíam o Serviço Naval Real das
Mulheres (WRENS), Serviço Territorial Auxiliar (ATS), Força Aérea Auxiliar das Mulheres
(WAAF). Nesta conjuntura de profissionais, havia as enfermeiras, e aquelas que trabalhavam
com vigilância antiaérea que forneciam assistência fundamental para as estratégias do
planejamento militar. As mulheres também participaram das Forças Especiais de Operações
(SOE), suas atividades exigiam coragem, pois estavam nas linhas inimigas exercendo funções de
mensageiras, sabotadoras e operadoras de rádio.
Assim a civilização ocidental, com as políticas externas da Inglaterra e França, a nova
ordem mundial, dentre outros acontecimentos, marcou de maneira profunda a modernização, nas
mais distintas áreas. Ocorreu a difusão do autoritarismo, os intelectuais e artistas viveram épocas
de conturbações, fracassou o comunismo, emergia poderoso o sistema capitalista. Segundo
alguns relatos, os momentos mais tristes vividos pelas mulheres quando encontravam entre
escrombos antigas lembranças, peças de vestuário e fotografias nas casas que foram
bombardeadas.
Nas reflexões de Katthe Linke há um relato onde ela afirmava que: “trabalhava então 16
horas nos fins de semana, durante a semana, cuidava de filhos e cursava a universidade”, o que
era uma exceção para a época em questão. Nos escombros, onde o cenário era de uma Alemanha
destruída, as mulheres utilizavam baldes, buscando pedras e tijolos nas cidades arrasadas pela
guerra. Seu ritmo de trabalho era semelhante ao de linha de montagem. Esses tijolos eram
lavados e separados para as reconstruções.Deste modo, as mulheres começaram suas longas
jornadas de trabalho na busca de reconstrução.
As mulheres que vivenciaram este episódio, as uniformizadas ou as ativistas nazistas
fizeram questão de esconder seu passado e desta forma foram consideradas mulheres inocentes e
não foram responsabilizadas por seus crimes nazistas, mesmo aquelas que tiveram suas
participações em front doméstico, apoiando, assim, os campos de batalha. A guerra tornara-se um
meio de vida, ou simplesmente serviram a pátria de acordo com a Lei de 21 de maio de 1935,
onde havia convocados homens e mulheres alemães para servirem à pátria ao se encontrarem em
estado de beligerância. Como adverte SCHWARZ em seu artigo:
Jovens mulheres solteiras, em particular, foram preparadas para
servir o esforço de guerra bem antes de a guerra começar (desde
que elas fossem do tipo racial correto e cobrissem os requisitos
sociais e políticos). Antes da guerra, o trabalho das moças foi
intensificado em dois programas: o Ano do Dever e o
Reichsarbeitsdienst – weibliche Jugend (o Serviço ao Reich –
Juventude Feminina), compreendidos como o equivalente ao
serviço militar compulsório dos rapazes. (2005 p161)
Os uniformes do serviço militar utilizados pelas mulheres eram folgados, sem muita
forma em comum. As moças foram cooptadas pelo regime nazista e se consideravam exercendo
posições de honra e privilégios. A maioria delas constituía o exército de reserva, que era
mobilizado para o esforço de guerra. Muitas das mulheres participavam das fábricas de
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armamentos, forças armadas, hospitais, os escritórios da Gestapo. Ao destacar as mulheres
brasileiras, prevaleceu nesta pesquisa, as obras da Major Elza Cansanção Medeiros, primeira
voluntária brasileira a apresentar – se para ir a guerra. Alagoana de coração e carioca de
nascimento fez publicações que tornou viável, o conhecimento de biografias das enfermeiras,
que, mesmo incompleta como afirma a própria autora, foram fundamentais para o
desenvolvimento deste artigo.
Considerações Finais
Na época, não havia tempo hábil para formação de enfermeiras. Havia uma carência de
enfermeira profissional. Deste modo, devido ao número reduzido dessas profissionais, o Exército
resolveu que aceitaria cursos com duração de três anos, o de Samaritana, de um ano ou ainda o de
três meses de Voluntária Socorrista. Assim, foram elaboradas as leis para as convocações,
iniciando em seguida o processo de recrutamento.
No estado do Rio de Janeiro, quatro cursos foram ministrados pela Diretoria de Saúde,
porém, apenas algumas enfermeiras foram aprovadas. Na Bahia, também foram ministrados
cursos, foram selecionadas cinco enfermeiras. O apartheid dos americanos não admitia nos
hospitais, enfermeiras negras ou mulatas, desta forma, foi solicitado ao Brasil que apenas
enviassem enfermeiras brancas para seus alojamentos.
Apesar dos preconceitos, foram enviadas pelos militares brasileiros, três mulatas. O
estado de Minas Gerais e Paraná também formaram enfermeiras nas primeiras turmas. As
enfermeiras brasileiras prestaram serviços no Teatro de Operação da Itália durante a Segunda
Guerra Mundial, sendo seis da Força Aérea que foram preparadas nos Estados Unidos. Das
enfermeiras que embarcaram para a Itália, por motivos diversos algumas retornaram para o
Brasil, deixando desta maneira apenas cinqüenta e quatro em serviço. As enfermeiras da
Aeronáutica todas foram oriundas da Escola Ana Néri.
A equipe brasileira, segundo CANSANÇÃO: “[...] atendiam solícitas e com eficiência
aos 1.200 pacientes que ali baixavam, quer brasileiro, quer americanos, ingleses e até mesmo
alemães”. Este é um testemunho da autora e na qualidade de enfermeira-chefe que atuou no 7th
Station Hospital em Livorno cidade italiana, no período da Segunda Guerra. Fizeram parte deste
quadro feminino na formação da primeira turma. As enfermeiras: Maria do Carmo Correia e
Castro, Berta Moraes, Elza Cansanção Medeiros, Jacira de Souza Góes, Silvia de Souza Barros,
Virginia Maria de Neimeyer Portocarrero, Heloísa Cecília Vilar, Olga Mendes, Ignácia de Melo
Braga, Neuza de Melo Gonçalves, Lúcia Osório, Sara Castro dentre outras. Essas e outras
mulheres foram classificadas e dedicaram suas vidas aos treinamentos militares para a guerra.
Neste contexto, retomam-se as relações de gênero, tanto nos aspectos estruturais como
ideológicos. Citando SCOTT que, chama a atenção: “a guerra, a diplomacia e a alta política não
têm a ver explicitamente com estas relações, o gênero parece não se aplicar a estes objetos e
então não parece pertinente para a reflexão dos historiadores que trabalham sobre a política e o
poder”.Consciência histórica somente repercute em implicações quando contidas em fatos
pesquisados considerando, portanto, que apenas no final do século XX surgiram preocupações
teóricas sobre gênero, inclusive com recorte de raça que merece análise também na ocorrência da
guerra.
A partir de estudos de produções literárias brasileiras, evidencia-se uma lacuna nesta
conjuntura histórica. Evidentemente, que a avaliação dessas pesquisas não contempla todas as
obras e referências acerca deste tema, mas, torna-se uma interessante pesquisa dada sua
dificuldade e complexidade sobre as mulheres nesta guerra. A participação das mulheres
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brasileiras na Segunda Guerra Mundial ocorreu de maneira efetiva, competente e consciente nos
mais diversificados momentos. Superando dificuldades, hostilidades e preconceitos as mulheres
efetivamente fizeram parte desta história.
REFERÊNCIAS:
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BADINTER, Elisabeth. Rumo equivocado. Tradução Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Civilização
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BARTOV, Omer, GROSSMANN, Atina. NOLAN, Mary. Crimes de Guerra: Culpa e Negação
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___________, 1...2...Esquerda...Direita...Acertem o Passo! Rio de Janeiro: Fundação
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KESIV, Vesna. Folha Feminina. Boletim da SOF na luta feminista. Artigo: O estupro como
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