Transtornos alimentares: uma visão da análise do

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Transtornos alimentares: uma visão da
análise do comportamento
Hallana Simões Pires1
Maxleila Reis Martins Santos2
RESUMO:Este trabalho tem como objetivo abordar os transtornos alimentares mais comuns na atualidade. Os transtornos alimentares
mais relevantes em nosso contexto sociocultural são: a anorexia nervosa, a bulimia nervosa e a obesidade. Esses transtornos serão
analisados a partir da Teoria Comportamental, uma vez que essa se mostrou de extrema eficácia no tratamento desses transtornos
desde a década de 90. A relevância deste trabalho se deve ao significativo aumento do número de casos constatados nos últimos anos,
principalmente entre os adolescentes.
PALAVRAS-CHAVE:Comportamento, Transtornos alimentares, Anorexia, Bulimia, Obesidade, Terapia Comportamental Técnicas e tratamento.
INTRODUÇÃO
Nos últimos anos, alguns comportamentos associados à alimentação e à imagem do corpo têm sido bastante divulgados
nos meios de comunicação. As mídias, em geral, têm direcionado todos os seus “esforços”, especialmente para o público
jovem, exatamente porque é nessa fase da vida que as pessoas
costumam apresentar suas primeiras manifestações dos transtornos alimentares.
Os transtornos alimentares mais comuns na atualidade são
a anorexia nervosa, a bulimia nervosa e a obesidade. A Organização Mundial de Saúde estima que atualmente haja cerca de
180 milhões de obesos no mundo, e ao contrário da anorexia
e da bulimia nervosas, a obesidade não é classificada como um
transtorno mental. Ela é considerada uma doença crônica, multifatorial, caracterizada pelo acúmulo excessivo de tecido adiposo
no organismo. Segundo Ballone (2007), a grande maioria dos
casos de obesidade ocorre entre indivíduos na faixa etária infantil.
Ela também acomete indivíduos de outras faixas etárias, mas a
preocupação com as crianças é maior em virtude da repercussão
negativa em sua autoestima.
De acordo com o DSM – IV (1997, apud, Silva, 2005),
a anorexia e a bulimia nervosas são caracterizadas como uma
perturbação no comportamento alimentar, com presença de diversas alterações psicológicas associadas, que, frequentemente,
necessitam de intervenção psicológica e/ou psiquiátrica. Segundo Ballone (2007), esses transtornos acometem, em sua grande
maioria, pessoas do sexo feminino, principalmente adolescentes
e adultas jovens, e essas representam mais de 90% de todos
os casos de anorexia e bulimia. Além dos comportamentos que
estão relacionados às preocupações com a aparência, indivíduos
diagnosticados com transtornos alimentares costumam apresen50 l
Revista de Psicologia
tar outros transtornos psiquiátricos. De acordo com o DSM –IV
(1997), é comum a comorbidade com o transtorno depressivo
maior, transtorno delirante, fobia social e transtorno obsessivocompulsivo (TOC).
Apesar de termos disponíveis em literatura resultados satisfatórios no tratamento desses transtornos na abordagem
Comportamental, existem discussões atuais a respeito de como
este tratamento é feito. Yano e Meyer (2003), apud, Moriyama (2007) apontam que estes resultados insatisfatórios ocorrem
porque os terapeutas substituem os sintomas, pois enfocam os
diagnósticos psiquiátricos e apenas lidam com as respostas ou
comportamentos-problema, sem a realização de uma análise
funcional particular. Moriyama (2007) aponta novas possibilidades no tratamento dos transtornos alimentares, sugerindo uma
proposta fundamentada nos princípios do Behaviorismo Radical,
sendo esses transtornos compreendidos como classes de resposta que foram desenvolvidas pelo indivíduo a partir de suas
interações com o contexto em que vive.
O DSM-IV apresenta a descrição topográfica dos comportamentos-problema dos transtornos alimentares e, embora adequadas às propostas de intervenção psiquiátrica, não especificam
quais comportamentos estão atualmente ocorrendo, como eles
variam entre situações ou como diferentes contextos influenciam
a frequência, intensidade e duração das respostas características dos transtornos alimentares (Lappalainen; Tuomisto ,2005,
apud, Abreu; Cardoso,2008).
Estudos como o de Fester; Nuremberger; Levitt (1962,
apud Heller e Kerbauy, 2000) fazem uma análise do comportamento alimentar. Segundo os autores, o comportamento alimentar pode ser aprendido, e os mesmos propõem a reeducação do paciente por meio de técnicas de autocontrole. Essas
técnicas referem-se a comportamentos específicos que diminuem
a probabilidade de emissão do comportamento a ser controlado,
que varia dependendo do transtorno alimentar do sujeito. Os desempenhos específicos referem-se à manipulação das condições
que influenciam o comportamento indesejado. Segundo Heller;
Kerbauy (2000), esse programa é vantajoso porque, quando o
autocontrole do comportamento alimentar já está instalado no
sujeito, permite que o mesmo mantenha seu próprio comportamento sob controle, além de ser capaz de reiniciar os desempenhos aprendidos se forem novamente necessários.
Tentar especificar a relação entre os transtornos alimentares
e o contexto nos quais esses são função, será o primeiro ponto
a ser trabalhado pelo analista do comportamento. Assim, o profissional fará uma análise funcional do comportamento-problema,
investigando os eventos antecedentes e consequentes a ele. Além
disso, é importante investigar as contingências passadas que instalaram os comportamentos que compõem o transtorno. Lembrando que é importante fazer essa análise em relação às contingências presentes, mas também investigar as contingências passadas
que foram instaladoras desses comportamentos que compõem o
transtorno.
Na maioria das vezes, os transtornos alimentares são tratados
com psicoterapia associada à medicação. No caso de tratamento
de anorexia e bulimia nervosas, a quase totalidade dos pacientes
veem o tratamento como uma ameaça, pois imaginam que o objetivo do mesmo é engordá-los. Segundo Silva (2005), o terapeuta não pode interpretar essa oposição, no sentindo de sentir que
esta ameaça recai sobre o próprio terapeuta, pois ela é gerada
pela forma distorcida como os pacientes se veem. Ainda segundo a autora, é preciso “negociar” a estratégia terapêutica com o
paciente para que um vínculo de confiança seja criado, facilitando
assim o tratamento do transtorno alimentar.
Dado o início do tratamento, é esperado que o paciente
diminua sua preocupação com a imagem corporal, e, com isso,
recupere seu padrão alimentar regular. Assim, aos poucos, ele alterará seus hábitos alimentares e reaprenderá a se relacionar com
os alimentos. Para isso, o terapeuta comportamental deverá identificar e corrigir as condições que favorecem o desenvolvimento e
a manutenção das alterações comportamentais que caracterizam
os transtornos alimentares.
Segundo Silva (2005), as técnicas comportamentais que são mais
utilizadas são: a reestruturação cognitiva (o paciente faz uma reavaliação e correção de suas cognições distorcidas, permitindo assim que
ele possa perceber que, na maioria das vezes, estava desvalorizando
sua capacidade de enfrentamento de determinada situação), treino
de assertividade, exposição e prevenção de respostas. Todas essas
técnicas devem ser adaptadas de acordo com a especificidade de
cada caso, seja em relação ao tipo do transtorno alimentar ou quanto
ao perfil do paciente. Para o sucesso do tratamento, é preciso que
haja um bom vínculo entre terapeuta e paciente, o mesmo precisa
sentir-se aceito, compreendido e confortável.
Segundo Silva (2005), o tratamento dos transtornos alimentares pode ser feito com psicoterapia em grupo ou individual. Isso
depende do diagnóstico médico e da gravidade de cada caso. Os
terapeutas comportamentais têm percebido o atendimento em
grupo vantajoso, pois assim que os resultados positivos começam
a surgir, o paciente sente a necessidade de inserir o “social” em sua
vida, e o grupo acaba sendo um grande facilitador nesse sentido.
A grande maioria dos casos de transtornos alimentares se
inicia na adolescência, porém no tratamento de crianças é necessário que as técnicas utilizadas sejam adaptadas à idade da criança. Silva (2005) indica a utilização de desenhos, jogos, histórias e
brincadeiras que fazem parte do mundo infantil para que assim a
criança se sinta à vontade para interagir com o terapeuta. A autora
ainda sugere que a participação dos pais seja intensa, uma vez que
sua colaboração é muito necessária para a realização das tarefas
propostas para serem feitas em casa.
Sendo apresentada uma noção geral de como o terapeuta
comportamental trabalha com os transtornos alimentares, se faz
necessária uma explicação um pouco mais detalhada de acordo
com o tipo de transtorno.
No tratamento da anorexia nervosa, o foco do atendimento
é a recuperação nutricional em função da debilitação física apresentada pelo paciente. Normalmente, os pacientes com esse
transtorno são levados à internação por estarem em condições
físicas muito precárias. Antes da necessidade de internação, é comum que os pacientes neguem a doença. A psicoterapia individual
(ou em grupo), a orientação nutricional, o acompanhamento de
um clínico geral e a psicofármacos são utilizados na maioria dos
tratamentos de pacientes anoréticos.
Sujeitos diagnosticados com bulimia nervosa costumam não
precisar de internação hospitalar, pois o seu grau de gravidade é
menor se comparado à anorexia nervosa. O tratamento desse
transtorno tem como objetivo a redução dos episódios de ingestão
alimentar descontrolados, auxílio no controle dos comportamentos
compensatórios (por exemplo, o uso de laxantes), e tratamento
dos sintomas do transtorno. O tratamento com uma equipe multidisciplinar também se faz necessário. Todos os profissionais inseridos no tratamento deste tipo de paciente devem adotar uma
postura não julgadora para que assim não seja reforçada a rigidez
autopunitiva dos mesmos, pois é comum em sujeitos diagnosticados como bulímicos o comportamento autopunitivo em situações
em que cederam às suas vontades, como, por exemplo, quando
comem alguma coisa que consideram bastante calórica.
Revista de Psicologia l 51
O tratamento com sujeitos obesos exige que o profissional
busque a modificação dos hábitos alimentares do paciente, o início
da atividade física e a redução do peso. Para a modificação desses
hábitos, são utilizadas algumas técnicas que também são utilizadas
no tratamento da anorexia e da bulimia nervosas. O terapeuta
comportamental deve estar atento aos sentimentos (comportamentos) de vergonha e inferioridade, que são bastante comuns
em sujeitos obesos. É preciso que ele diminua sua exposição às
condições que facilitam a alimentação inadequada. Técnicas de
prevenção de recaída devem ser utilizadas. O tratamento também deve ser feito com uma equipe multidisciplinar, assim como
dito acima sobre a anorexia e bulimia nervosas.
Por fim, é fato que estudos na área dos transtornos alimentares se fazem necessários, uma vez que o número de casos, independente do tipo de transtorno, aumenta a cada dia. Este trabalho
enfocou os três tipos de transtornos mais comuns atualmente,
porém é preciso ressaltar que existem outros tipos de transtornos
que também são importantes e devem ser estudados, como, por
exemplo, o transtorno dismórfico corporal, mas que não era foco
deste artigo. Os atendimentos feitos por psicólogos comportamentais, apesar de sua eficácia disponível em literatura, devem ser
repensados, uma vez que não pode-se ater ao “rótulo” do diagnóstico médico, levando então em consideração a importância de
uma análise funcional do comportamento-problema e avaliação
do repertório geral, dentre outras técnicas já citadas anteriormente neste trabalho.
REFERÊNCIAS
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Trabalho de conclusão de curso de doutorado. 233 p.
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SILVA, Ana Beatriz Barbosa. Mentes insaciáveis: anorexia, bulimia e compulsão
alimentar. 2. ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 2005. 272 p.
NOTAS DE RODAPÉ
1. Acadêmica do décimo período do curso de Psicologia do Centro Universitário
Newton Paiva
2. Professora e supervisora de estágio do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva
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