CONCLUSÃO

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CONCLUSÃO
Ao cabo desta obra, espero haver mostrado os aspectos essenciais do drama do homem
ocidental para o melhor conhecimento de si mesmo; como chegou à elaboração de uma
psicologia separada de suas raízes filosóficas e esvaziada, na medida em que aspirava ao
rigor científico, da própria reali dade designada etimologicamente pelo termo; e qual foi o
desenvolvimento da nova ciência, ou melhor, das novas ciências psicológicas, dada
doravante a diversidade dos campos de investigação e a dos métodos.
Desde a época de Wundt, quando as pesquisas, refletindo a mentali dade positivista de
então, aplicavam-se ao estudo abstrato de fenômenos psíquicos e de funções encaradas
como elementares, profundas mudanças ocorreram, devidas, sobretudo, às revoluções
psicanalítica e gestaltista, que impuseram a exigência de estudar o homem não mais
desarticulado por uma artificial divisão por partes, mas em sua totalidade. Totalidade essa
sobre a qual resta a entender-se, já que essas mudanças não impediram o behavio rismo
americano de reduzir a psicologia a uma ciência do comportamento que se mostrava
objetiva a ponto de excluir toda referência direta à vida psíquica e espiritual do homem;
solução obtida mediante um “empurrãozinho”, logo à primeira controvertido.
Em resumo, o desenvolvimento da nova psicologia mostrou que seu objeto dificilmente se
prestava aos métodos das ciências naturais, que então se imaginavam em total solução de
continuidade com a filosofia. E aconteceu, até, que esta, expulsa pela porta, entrou pela
janela, em particular sob o aspecto da fenomenologia husserliana e do pensamento de
Heidegger; a primeira, obrigando a aprofundar os processos da percepção; a segunda,
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tendo largas repercussões em psicopatologia. As perspectivas mudaram a tal ponto que a
fisiologia, longe de aparecer como modelo, tendeu ela própria a integrar-se numa
antropologia.
Seja como for, através das vicissitudes de sua história, a nova ciência ganhou um lugar de
eleição no crédito que as ciências humanas em geral conhecem.
Esta situação privilegiada, nas sociedades industriais, se prende a fatores diversos. Basta
pensar no prestígio de que gozam a psicopatologia e as psicoterapias, o qual pouco parece
abalado ainda pela “antipsiquiatria”, de recente manifestação. No desarvorar das crenças
tradicionais, com ensina mentos minados de longa data, é precisamente para o psiquiatra, o
psicana lista ou o psicólogo-conselheiro que se continua a voltar para estas diretivas das
quais o padre e o pastor tinham outrora a exclusividade.
O papel das ciências psicológicas, encarado nesse aspecto, é tanto mais importante quanto a
sociedade contemporânea, não só multiplica as condi ções que perturbam o equilíbrio
nervoso e mental, mas aumenta as exigências de escolaridade e profissionais impostas por
qualificações, sempre mais diferenciadas, o que submete a rudes provas os indivíduos
dentre os quais saem os vencidos que vão engrossar a multidão dos inadaptados. Tais condi
ções são favoráveis, além disso, ao progresso da psicotécnica e, até, dos testes projetivos e
da caracterologia, aos quais se pede um diagnóstico apressado das aptidões e das
tendências.
Em suma, muitas necessidades práticas contribuem hoje ao desenvolvi mento da psicologia.
No plano teórico, em relação à exigência de verdade, o problema de sua objetividade
científica se formula novamente.
Em dezembro de 1888, numa conferência na universidade de Genebra, onde era o primeiro
titular de uma cadeira de psicologia experimental, Théodore Flournoy declarava:
“Quantos capítulos de psicologia dita científica, positiva, em cujas entrelinhas o
preconceito metafisico transparece a cada passo e cujo tom respira mais o opium
theologicum do que a serena indiferença da ciência em matéria de crença filosófica!”
Tal apreciação, ,nutatis mutandis, por antiga que seja, é menos inatual do que se poderia
crer à primeira vista. Pois, a psicologia, complicando-se e diversificando-se, interferindo
com as outras ciências, não cessou por isso de manter ambíguas relações com o pensamento
filosófico. A mudança, em relação ao clima cultural prevalecente no início da Primeira
Guerra Mundial, é, sobretudo, que os ostracismos recíprocos se atenuaram muito, e que as
pesquisas se orientam, em geral, para uma apreensão dinâmica e multidimen sional do
comportamento humano.
Todavia, essa nova orientação não impede a psicologia de compor, às vezes, com as outras
ciências, uma visão do mundo que constitui uma filosofia disfarçada na medida em que
pretende explicar de maneira exaustiva as condutas do homem, até mesmo sua vida interior.
Assim a psicologia aparece doravante como uma espécie de Janus.
De um lado, ela se apresenta sob o aspecto de pesquisas inúmeras, que têm como objetivo
tanto a percepção quanto a função simbólica, o desenvol viniento da criança ou as
representações intergrupos, etc. Basta consultar as “memórias originais” e os exames
críticos publicados nos mais recentes números de L ‘Année Psychologique, para se
convencer da tecnicidade de experiências efetuadas num domínio rigorosamente
delimitado, quer se trate de um rato submetido a um programa de reforço contínuo ou da
construção do espaço gráfico na criança.
Cabe admitir que todos esses trabalhos são outras tantas contribuições válidas dos
profissionais da psicologia à nova ciência, mesmo se podem, às vezes, fazer pensar, no
plano da cultura, na atividade de certos animálculos inofensivos no mundo natural.. Que nosso tempo seja o da especialização, não é o caso de se admirar, e a maioria das
pesquisas exige doravante um trabalho de equipe. O escolho está somente em que a árvore
impeça de ver a floresta, ou, neste caso especí fico, que a acumulação dos fatos eclipse um
problema que permanece essen cial: o que é o homem, o homem não como coisa entre as
coisas, mas como sujeito?
É, então, que aparece a outra face da psicologia, muito menos marcada de modéstia.
A pluralidade das ciências humanas nada tem em si de redibitória. É a própria condição de
seu avanço. Aí não reside a questão. Está em que, ao nível da interpretação, os que não se
confinam em pesquisas bem comparti mentadas, crêem-se, às vezes, sem respeito para esta
“vigilância” preconizada por Husseri com relação ao saber, autorizados a encerrar o ser
humano num esquema que revela, sob a capa da objetividade científica, uma extrapolação à
base de projeções. Este “reducionismo”, esquecidiço do fato de que a pessoa humana é uma
variável independente, pode revestir aspectos diversos, ser tanto biologismo quanto
sociologismo, psicologismo quanto patologismo.
Se se tiver preocupação com um denominador comum às ciências humanas de nosso tempo,
poder-se-á encontrá-lo em particular na valorização da “corporeidade”, concebida de modo
muito diverso mas num mesmo cuidado de superar o dualismo tradicional da alma e do
corpo.
Da reabilitação do organismo e de suas expressões atestam tanto o renascer de interesse
para com as práticas da ioga quanto a voga que têm as técnicas de relaxação, a ergoterapia
em clínica, a psicologia e certas terapias de grupos, com métodos às vezes próprios a
escandalizar os profanos.
Tal tendência se enraíza, evidentemente, na mentalidade de nosso tempo, com o progresso
da sexologia a ir de par com a famosa “libertação sexual”. As pesquisas de Kinsey,
lembradas na presente obra, parecem muito timoratas depois que Masters e Virginia
Johnson, seus reputados continua dores, entraram na psicologia por técnicas que visam a
restaurar, pratica mente, as deficiências e as variações nas condutas sexuais.
É lícito pensar que a nova mentalidade é preferível à da época vitoriana que conheceu
Freud, para sua infelicidade, segundo alguns; mas bem neces sário é constatar que a caça
aos antigos tabus introduz novos, como os do sofrimento e da morte, hoje em dia.
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O problema da subjetividade profunda, que as perspectivas em que se inscrevem as
pesqusas resolvem de certo modo, fosse subrepticiamente, ou que elas indevidamente
ignoram, ressurge sempre, quer se queira ou não.
Lembrei que a tentativa de J. B. Watson de instaurar uma psicologia sem o recurso ao
“mentalismo”, pareceu a muitos psicólogos uma espécie de aposta. Não se poderia dizer
que ela foi mal sucedida, visto que reaparece agora através da obra de Burrhus Frederic
Skinner.
Segundo o célebre professor americano de Harvard, Watson teve o mérito de afirmar que a
realidade humana, também ela, é explicável em termos de estímulos e respostas, e que uma
psicologia verdadeiramente cientí fica não precisa absolutamente da aparelhagem criada
pela superstição do mental. A única fraqueza do watsonismo seria uma informação
insuficiente quanto às conseqüências do condicionamento “operante”; pois tudo é questão
de meio, e a observação direta dos fatos, graças a uma “tecnologia do compor tamento” em
constante desenvolvimento, permite renunciar seriamente aos métodos hipotético-dedutivos
aplicados a processos erroneamente considera dos afetivos ou mentais. Na medida em que
se compreender melhor a interação entre organismo e meio, será a variáveis acessíveis à
observação que serão atribuidos efeitos relacionados até o presente a fatores psíquicos.
Pois, sendo todos os organismos autômatos controlados pelo meio e o objetivo deles é a
redução das tensões por respostas adaptadas, a evolução mental é apenas o resultado de
ensaios conservados por reforços.
Objetar-se-á que o homem é um ser que luta para sua liberdade? Ilusão, segundo Skinner,
pois essa “vontade de ser livre” nada mais é do que certos mecanismos de comportamento
próprio ao organismo humano, e cujo efeito principal é evitar ou fugir os aspectos
“aversivos” do meio natural e social. Debater em termos conceituais de liberdade ou
dignidade humanas, é fazer obstáculo aos progressos tecnológicos em matéria de
comportamento.
Resta a questão — se se hesita em identificar esses progressos ao progresso, sem mais —
de saber quem utilizará essa tecnologia e para que fins. Skinner não esquiva a questão, mas
sem poder certamente a ela respon der a não ser projetando, com talento, aliás, suas
esperanças e seus ideais, até mesmo suas próprias ilusões. Pois, se a pesquisa dos
“condicionamentos operantes” é uma coisa, outra é afirmar que o comportamento humano
possui mesma origem e mesma função que o dos animais; que é, em princípio, idêntico ao
do rato, cujo comportamento foi um dos primeiros objetos de estudo de Skinner. Chi se
contenta gode, como dizem os italianos. Mas restam forçosamente espíritos aos quais não
poderia satisfazer tal redução do homem a um esquema unidimensional.
Nós vimos que as interpretações, de parte da psicanálise, se apresentam mais nuançadas,
pois que Jung já criticava nas teorias freudianas e adierianas o seu caráter “redutivo”. Há
ainda epígonos de Freud a quem obsedam as pulsões a tal ponto de “explicarem” um
criador e sua obra em termos de homossexualidade, incesto, sadomasoquismo, narcisismo,
voyeurismo ou mega lomania. Mas são uma minoria e quase não contam. A maioria dos
autores que invocam a psicanálise a seu favor mostram doravante um espírito muito aberto.
O que ainda é mais, a orientação aberta pela análise existencial de Ludwig Binswanger, sob
a influência do pensamento de Heidegger, floresce
hoje nas duas cidades que interessam essencialmente à história da psicanálise:
em Zurique, onde Médard Boss instaura, a partir da “abertura para o mundo”, uma
medicina psicossomática que renova em profundidade a abordagem das doenças; em Viena,
onde Viktor Frankl se afirma, após Freud e Adler, como o promotor de uma terceira escola
vienense, denominada, um pouco curiosamente, logoterapia. Esta tem por caracteristicas
essenciais a distinção do psiquismo e do espiritual, a importância atribuida ao poder
humano de transcender-se, de aceder à liberdade e à responsabilidade. Frankl opõe a Freud
que o amor não é somente um derivado da sexualidade inibida, nem a sublimação um
simples resultado; e que a consciência, por sua capaci dade de opor-se às convenções, aos
valores e aos tradicionais, não pode ser identificada ao superego. Se o homem é num
sentido o produto da hereditariedade e do meio, é também, e sobretudo, o ser que deve
decidir por si mesmo. Diferentemente do animal, não é informado por seus instintos do que
deve fazer; e hoje, não sendo mais, de modo diverso do homem de outrora, in formado
pelas tradições, sente a tentação de um refúgio no conformismo ou no totalitarismo. Frankl
vê no que chama de “vazio existencial”, segundo ele sempre mais espalhado e que lhe
parece como um desafio à psiquiatria, um dos grandes males de nosso tempo. E dizer da
importância que a “logotera pia” confere ao sentido da existência, assim como à atitude
adotada em face de uma situação, pois o próprio sofrimento pode ser convertido em
realização (Frankl conheceu o horror dos campos da morte).
Vê-se que distância existe entre tal orientação e a de um Skinner.
Tudo bem considerado, através da pluralidade das ciências humanas emergem tendências
cujo critério de validez escapa à ciência como tal, pois reconduzem a uma opção existencial
dos pesquisadores. E o caso, diga-se de passagem, da atitude dogmática, adotada a priori,
por alguns dentre os que são a favor ou contra a parapsicologia.
Quando concluía a primeira edição desta obra, invocando a figura do velho Sócrates
obsedado pelo problema do sentido, relevava o fato de que o homem, hoje como ontem, se
vê confrontado com um problema essen cial: o do espírito encarnado, ou, se se prefere, o do
poder fazer-se, ao mesmo tempo, sujeito e objeto; sublinhava, então, a importância desse
princípio originário da humanidade, o qual fundamenta todos os outros assim como todas
as interpretações. E observava, a esse propósito, que as ciências psicológicas objetivam
fatalmente essa subjetividade fundamental, até quando renunciam a decompô-la em
elementos discordantes e que se podem justapor, para dela falar em termos de pulsões,
funções, atividades ou campos; pois, todas as variantes introduzidas na aparelhagem
metodológica não podem explicar esse enigma primeiro que constitui a emergência de um
ser que dá um sentido a tudo o que ele observa e experimenta.
Essas observações não visavam, absolutamente, a minimizar a contri buição das ciências
psicológicas, própria a esclarecer, como nunca antes, vários aspectos do psiquismo e do
comportamento, mas visavam unicamente a negar-lhes o poder de constituírem uma
antropologia desprovida de postulados filosóficos.
Esta convicção não foi abalada pelo reproche de certos críticos segundo o qual a psicologia
como ciência do comportamento é estranha a tais preocu
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pações. Pois, esta reserva se acha desmentida quando o psicólogo se arroga o direito de
reduzir a um esquema a totalidade do homem, isto é, deste ser que, embora permanecendo
ligado ao que o transcende, rompe incessantemente os limites nos quais o quereriam
encerrar.
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