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Amamentacao e Sexualidade (1)

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Nº 7, Agosto de 2018
Documento Científico
Departamento Científico de
Aleitamento Materno
Amamentação e Sexualidade
Departamento Científico de Aleitamento Materno
Presidente:
Elsa Regina Justo Giugliani
Secretária:
Graciete Oliveira Vieira
Conselho Científico: Carmen Lúcia Leal Ferreira Elias, Claudete Teixeira Krause Closs,
Roberto Mário da Silveira Issler, Rosa Maria Negri Rodrigues Alves,
Rossiclei de Souza Pinheiro, Vilneide Maria Santos Braga Diégues Serva,
Yechiel Moises Checinski
Colaboradora:
Denise de Sousa Feliciano
Como todas as funções do corpo, a possibilidade de uma mulher amamentar um bebê está
relacionada aos demais fatores que a constituem
como indivíduo: psíquico, social e cultural. Nesse sentido, torna-se fundamental que o pediatra
que acompanha uma família durante a fase de
aleitamento materno esteja orientado quanto às
dificuldades derivadas de fatores alheios ao funcionamento do organismo, mas que podem impedir que suas funções vitais sejam comprometidas.
Freud (1893), ainda no início de suas pesquisas que fizeram dele o fundador da psicanálise,
foi chamado por uma família cuja mulher não
conseguia amamentar seu segundo filho, apesar
de expressar grande desejo em fazê-lo. Ela havia tentado sem sucesso amamentar o primeiro
filho, mas fora acometida de alguns sintomas que
inviabilizaram seu intento, como a pouca produção de leite e dores quando o bebê era colocado
para mamar, além de inapetência e insônia. Nessa
ocasião, após 15 dias de tentativas em vão, optou
por delegar a amamentação a uma ama de lei-
te. Quando deu à luz seu segundo filho, pretendia amamentá-lo e evitar uma ama de leite, mas
sintomas semelhantes aos que ocorreram com o
primeiro filho voltaram a aparecer, e com maior
intensidade. Como último recurso, seus médicos
recomendaram que ela visse Freud e pudesse
ser submetida à hipnose, técnica com a qual ele
iniciou suas investigações em psicanálise, mas
abandonou posteriormente por mostrar-se ineficaz para que as mudanças conquistadas fossem
duradouras. Essa intervenção possibilitou à mulher amamentar satisfatoriamente seu bebê até
os 8 meses. Um ano mais tarde, ao nascer seu terceiro filho, novamente os sintomas apareceram e
mais uma vez foi necessária a hipnose para conseguir amamentar seu bebê. Dessa última vez, a
mãe confessou a Freud seu descontentamento
por constatar que a hipnose poderia ter conseguido o que ela sozinha, com toda a sua vontade,
não havia conseguido.
Esse caso ilustra como os fenômenos intrapsíquicos têm influência significativa no desem-
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Amamentação e Sexualidade
penho da função materna de amamentar, tantas
vezes sugerida como simples e natural. Mesmo
quando a mãe está fortemente empenhada e
disposta, fatores psíquicos inconscientes podem
interferir no aleitamento materno, dificultando e
até mesmo impedindo-o.
Depois de Freud, muitos autores como Badinter (1985), Deutsch (1951), Klein (1997), Langer
(1981), Soifer (1980), Winnicott (1994), Maldonado (1976), Monteiro (2003), Feliciano (2009),
dentre outros, se ocuparam em pesquisas relacionadas à influência de fatores psíquicos nas dinâmicas da maternidade e lactação. Atualmente,
com todo o desenvolvimento da psicanálise e os
recursos para compreender a complexidade da
mente, podemos tê-la como um trunfo importante na compreensão de dinâmicas familiares e da
dupla mãe e bebê que chegam aos consultórios,
ambulatórios e maternidades com impossibilidades de praticar o aleitamento materno.
O objetivo deste documento científico é abordar alguns fatores de ordem psíquica que a amamentação desencadeia nas pessoas envolvidas,
que nem sempre são levados em consideração
nas consultas pediátricas de acompanhamento
durante o período de amamentação.
O principal elemento que se torna um imbróglio no aleitamento materno é o fato de que
o seio que produz o alimento do bebê também
ocupa um importante papel na sexualidade adulta, por seu caráter de zona erógena que participa
ativamente dos jogos eróticos de um casal.
Do ponto de vista fisiológico, uma zona erógena concentra uma quantidade de inervações sensoriais que provocam no organismo a excitação
sexual preparatória para o coito. Essa característica do corpo se associa a uma representação cultural e psíquica que acompanha cada dupla, família
e sociedade como um fator importante que define
o sucesso ou insucesso da amamentação.
Para algumas mulheres, existe uma dissociação muito marcante entre maternidade e sexualidade, fincada na imagem da mãe santa e assexuada que permeia as mais diversas culturas, com
ícones como os quadros de virgens com bebês ao
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colo. Em função disso, muitas mulheres que amamentam perdem seus desejos sexuais e outras
caminham em direção ao desmame precoce por
não conseguir atribuir aos seios uma outra função que não a de atributo sexual. As sensações
sexuais que podem surgir em virtude do seio representar uma importante zona erógena podem
inibir a amamentação pelo desconforto moral
que desencadearia. Entretanto, para Deutsch
(1951) algumas mulheres psiquicamente mais
livres para o desempenho de suas funções maternas tendem a aceitar tais sensações e incorporá-las como inerentes ao processo de lactação
e perfeitamente aceitas por seu psiquismo. A
mesma autora afirmou estar convencida de que a
maior parte dos problemas de lactação estaria relacionada a fatores psíquicos que, analogamente
ao fisiológico, seriam uma espécie de cordão umbilical psíquico que ligaria o seio materno à boca
do bebê. Para ela, o conflito entre as tendências
egoísticas e as forças altruístas da maternidade
estariam subjacentes às dificuldades ou ao sucesso da lactação.
O Seio e as Turbulências
Identitárias Femininas
Um dos primeiros sinais que marca a entrada
da menina no mundo adulto é o crescimento dos
botões mamilares, que desponta como anúncio
do processo de tornar-se mulher. O crescimento
dos seios, que em geral vem acompanhado da
menarca, consolida a identidade feminina no que
tange à concretude corporal. Na contrapartida psíquica, essa etapa do desenvolvimento traz à tona
uma série de conflitos que tumultuam o universo
mental da menina, desde a estranheza de um corpo novo, com novos estímulos e necessidades, ao
efeito que sua nova imagem produz em seu meio
social. É uma experiência que mistura muitos afetos que incluem o medo pelo desconhecido e a
dor do luto pela infância que fica para trás.
Após esse período de abalo na identidade da
menina na qual o seio é o aliado mais significativo, percorre-se um período no qual o seio da mu-
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lher adulta é símbolo de sedução e sensualidade.
Essa marca é tanto pessoal quanto compartilhada
pelos olhares ao seu redor. Somente por ocasião
de uma gestação é que se dá um novo abalo em
sua relação com o seio, marcando nova etapa de
vida e identidade social.
Para nossa cultura ocidental o seio está associado ao atrativo erótico, dos mais importantes da vida sexual de um casal. As sensações no
mamilo são fortes aliadas na excitação genital. O
mesmo seio que o bebê vai mamar.
As terminações nervosas não mudam nas
duas situações. O que muda é a representação
psíquica e todo o engendramento mental que vai
permitir que a mulher, na amamentação, transforme as sensações de seu mamilo em um prazer
de natureza diferente do erótico. Os afetos despertados pela maternidade tornam o contato de
amamentar uma experiência de ternura e amor.
Não é um mecanismo mental simples e só terá
êxito se essa mulher teve um desenvolvimento
psicoemocional satisfatório e contar com recursos mentais para tal. A condição de que essa organização aconteça está relacionada a toda sua
história e marcas que ela nem mesmo pode acessar conscientemente e à sua atual vivência na relação com seu parceiro amoroso e a criança.
É fundamental para o aleitamento materno
que a mulher possa ser capaz de diferenciar emocionalmente os dois tipos de estímulos em seus
mamilos, sensual e maternal. Alguns dos impedimentos se dão em razão de a mulher associar
a sucção do bebê à estimulação erótica tanto do
contato da mucosa do bebê com o seio, quanto
das contrações uterinas reflexas ao ato de sugar,
o que torna insuportável amamentar, pelo caráter
incestuoso que adquire e a aterroriza, como ilustrado em Monteiro (2009): “A dor, as rachaduras
do seio, os abcessos mamários e o isolamento que
levam a mãe a se desligar do ambiente e da criança, respondem ao conflito inconsciente entre um
desejo sexual incestuoso e a tendência repressiva
oposta.” Sofier (1980).
Observa-se uma turbulência identitária na
mulher, que precisa integrar os papéis entre ser
mulher e ser mãe. Entretanto, algumas delas não
conseguem a integração dos dois aspectos identitários e muitas vezes vivem apenas um deles em
detrimento do outro, reprimindo-o. Em alguns casais, essa dinâmica é compartilhada pelo homem,
fazendo com que o casal não retome a vida sexual, adotando um papel maternal exagerado que
deserotiza a relação. Ou quando a mulher não
tem um casal constituído com o pai da criança
abandona sua vida sexual mantendo-se ancorada
unicamente na relação com o filho, o que de certo
modo sobrecarrega a criança e dificulta seu desenvolvimento psicoemocional, repercutindo em
outras áreas do desenvolvimento.
Mas, tão importante quanto ser capaz de viver
e entregar-se à maternidade é poder conservar a
sensualidade e o desejo. Algumas mulheres ao se
tornarem mães se encantam a tal ponto que aniquilam sua feminilidade sensual, adotando um
papel exclusivamente maternal. Essa é uma das
causas frequentes de conflitos de casal e divórcios, além de ser uma atitude que sobrecarrega
a criança e impede que ela possa estar livre psiquicamente para suas relações sociais. Frequentemente, esses engendramentos psíquicos entre
mãe e filho aparecem quando a criança recusa-se
a receber outros alimentos que não o leite materno, ou não se adapta à escola e à companhia de
outros adultos, mantendo-se numa relação fusional com a mãe.
É certo que no período puerperal é esperado
que haja um tempo de reorganização do impacto
que a nova configuração familiar e novos papéis
impõem. Contudo, é frequente que essa desorganização inicial se cristalize numa escolha que não
integra as duas faces da identidade masculina e
feminina. Alguns casais chegam a adotar o “apelido” de mãe e pai entre si.
Em pesquisa sobre as dinâmicas psíquicas desencadeadas pela amamentação realizada com
mulheres durante o primeiro semestre de vida de
seus bebês, houve consenso sobre esses conflitos mencionados anteriormente e ilustrados por
depoimentos como: parece que ele (o marido) cortou a parte mulher e ficou só a mãe. Eu sinto que
ele me olha como se fosse mãe, não como mulher;
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Amamentação e Sexualidade
eu não voltei ainda a ser mulher, então acho que a
partir do momento que eu voltar a ser mulher, nosso relacionamento vai começar a ser de homem e
mulher. Acho que, por enquanto, eu sou mãe e ele
é o pai... não marido e mulher.” (Monteiro, 2003)
A possibilidade de “se dividir” entre mulher
sensual e mulher maternal depende fundamentalmente da relação vivida pela mulher com a
sua própria mãe e as construções imaginárias
que se constituíram e que agora se impõem na
vida com seu próprio bebê. As mudanças corporais e amamentação são derivadas desse mundo
intrapsíquico. Como afirma Felice (2000): “As
mudanças corporais devidas à gravidez, parto e
amamentação podem conflitar com os desejos
narcísicos da mulher de preservar o corpo como
objeto de atração erótica”. Em outras palavras, a
mulher que não pode doar seu corpo em amor
a um bebê pelo medo de perder seus atributos
revela insegurança que advém de sua infância
muito precoce.
O Seio no Universo
Mental Masculino
O ponto de vista masculino é complementar
à essa dinâmica vivida pela mulher, e não menos
complexa. Para ele, a marca inaugural do seio
está relacionada à sua vivência com a própria
mãe, nos primórdios de sua existência, época da
qual ele não tem os registros acessíveis em sua
lembrança consciente, mas tem as marcas afetivas inconscientes.
Essa experiência tão antiga fica por um longo período ausente da vida do homem, sendo
substituída no início da puberdade pelo caráter
de sensualidade que o seio adquire em sua vida
pessoal e grupal. Os seios de uma mulher passam
a ser representantes de sua vida erótica, com respostas corporais condizentes com atração sexual.
A dicotomia do seio ante a paternidade implica novos arranjos mentais que permitam que ele
abra mão do seio erótico em favor da alimentação
de seu filho ou filha, sem que com isso se perca o
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aspecto de sensualidade que vinha representando, para que se conserve o casal amoroso e não
apenas o casal parental.
Alguns homens não conseguem ver a mulher
como mãe e também parceira sexual, porque a
imagem materna fica associada à representação
da mãe assexuada de sua infância. Quando menino esse era o recurso psíquico ilusório que o
protegia da dor de reconhecer o lugar importante
que seu pai ocupava junto à sua mãe. A criança
deseja ser o único amor da mãe. Aos poucos e
dolorosamente a maturidade emocional aceita a
realidade de não ser o centro da vida materna, e
é uma das mais importantes aquisições mentais
do indivíduo.
No cenário aparentemente dual entre a mãe
e o bebê, muitas vezes o pai sente-se preterido e
sem lugar, o que transtorna toda a dinâmica familiar, incluindo a própria amamentação e às vezes
o desempenho do papel de pai. Embora haja de
fato uma dualidade mãe e bebê, a possibilidade
de entrega plena da mulher e condições psíquicas para viver a proximidade quase fusional que
o bebê precisa, vai depender também do quanto
pode contar com o apoio do pai da criança.
O pai, por sua vez, só poderá oferecer essa
sustentação se ele próprio não estiver excessivamente incomodado e impossibilitado de tolerar
ser excluído da dualidade mãe e bebê. Nesse momento, suas próprias vivências infantis no período do chamado complexo de édipo serão o esteio
no qual ele se apoiará ou não para esse lugar fundamental na relação com sua família atual.
É comum os homens viverem grande ciúme dessa relação do filho com sua esposa, seja
porque se sente excluído do prazer que percebe
haver entre eles, seja porque precisa temporariamente abster-se da sexualidade genital do casal,
que fica ofuscada ante à temporária substituição
do prazer erótico genital da mulher pela plenitude que a ternura ocupa em sua sexualidade. Entretanto, esse período também precisa terminar
e o bebê necessita que sua mãe se afaste e volte
para a dualidade do casal parental para dar-lhe
espaço de desenvolvimento psíquico, ainda que
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seja um período de dor e luto. É um afastamento
gradual que tem seu apogeu no desmame.
Se o homem não é capaz de ajudar a mulher
nesse distanciamento numa espécie de interdição e reivindicação da mulher ao seu lado, a
dupla mãe e bebê “se perde” numa vivência de
estagnação que vai desgastando e exaurindo a
todos.
O Casal
Por muitas razões psíquicas, não é incomum
que o casal que tem um bebê sofra dificuldades
para lidar com as mudanças descritas acima em relação às suas identidades e aos vários significados
que o seio adquire. Não é possível abordar neste
documento a pluralidade de fatores que estão implicados em termos mentais, pois são derivados
de toda a constituição do psiquismo e suas dinâmicas. Mas se o profissional está atento à influência desses elementos, poderá perceber quando
questões dessa natureza são impeditivas para que
a amamentação flua e se consolide durante o tempo necessário ao desenvolvimento do bebê.
Durante o primeiro mês após o parto, ante
a todas as mudanças descritas acima, mãe e pai
vêm-se sobrecarregados emocionalmente e confusos com o universo desconhecido. Além disso,
essas vivências trazem à tona as experiências
infantis muito precoces com todas as marcas de
tabu que a sexualidade carrega.
A sociedade ocidental traz em seu imaginário
a antiga marca de mãe-santa que está nas raízes
de nossa cultura, derivada da Virgem Maria e das
demais marcas religiosas judaico-cristãs. O desejo sexual e a eroticidade ficaram segregados
e atribuídos a mitos como Lilith, que teria sido a
primeira mulher de Adão, porém por ser insubmissa e “tentadora” fugiu do Éden.
Ao lado dessas representações culturais, soma-se o imaginário infantil no qual os pais tornam-se assexuados aos olhos dos filhos. É uma
solução psíquica que resulta da dor da criança
em ser excluída da dualidade do prazer compartilhado entre o casal, a tal tão disseminada ideia de
Édipo que ficou banalizada no discurso simplista
da paixão da criança pelo seu progenitor.
Na verdade, em psicanálise o conceito de édipo tem como função simbólica nomear a dor de
quem fica excluído de um prazer compartilhado,
vivência que constitui a capacidade de se relacionar em sociedade. De fato, é na relação com os
pais que a criança vive esse sentimento em caráter inaugural. E é importante para ela que os pais
possam sustentar o casal e tolerar a dor que advém para a criança. Algumas vezes os pais, condoídos com o sofrimento que inconscientemente
traz à tona sua própria vivência de infância, tentam desfazer os limites, incluindo a criança em
todos os espaços e com isso abandonam a vida
a dois.
A suspensão da vida sexual faz parte de um
período de adaptação pelo qual passa a família, e
que envolve o corpo da mulher em seus hormônios que precisam ser reorganizados. Antigamente falava-se em “quarentena”, que era uma forma
simbólica de caracterizar essas adaptações. Não
há um tempo preciso para isso; naturalmente
acompanha o desenvolvimento do bebê, o restabelecimento do corpo materno e a familiaridade
da nova constituição familiar. Mas se o casal não
retoma sua vida sexual, cria-se um estado mútuo
de hostilidade e frustração que nem sempre é
consciente. Instala-se uma tensão na dinâmica
familiar.
O grande desafio de um casal após o nascimento dos filhos é poder integrar as faces materna e feminina na mesma pessoa, tanto do ponto
de vista da mulher quanto do homem. A amamentação não é a causa dessa desorganização da
identidade sexual do casal, mas a coincidência de
ser o seio a parte do corpo da mulher que viabiliza a amamentação e também uma das principais
zonas erógenas femininas impõe um conflito que
agudiza essa desorganização do casal.
A falta de espaço para a sexualidade do casal vai fatalmente desencadear conflitos tanto
intrapsíquicos quanto relacional. Mas na maior
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Amamentação e Sexualidade
parte das vezes o casal não se dá conta de que
a causa de brigas, incômodos e dificuldades na
dinâmica familiar e com a criança têm a sexualidade represada como raiz inconsciente.
Muitas vezes, todos esses conflitos inconscientes ficam camuflados no aparente cuidado e
preocupação com o bebê. Alguns casais relatam
que a criança, muitas vezes já crescida, só aceita
dormir abraçada à mãe, numa espécie de barreira contra a aproximação do homem, o que muito
frequentemente causa ressentimentos e ameaçam o relacionamento. A atitude da criança de
recusa na verdade é um conluio com os conflitos
intrapsíquicos do casal. Crianças pequenas são
extremamente sensíveis às angústias parentais
e reagem a elas tanto em contraposição quanto
como aliados.
Assim, a própria amamentação pode tornar-se
um escudo da reaproximação do casal quando ela
ocupa um espaço que parece excessivo nas necessidades fisiológicas da criança. É importante
que o pediatra esteja atento a esses manejos decorrentes dos conflitos mentais para não se aliar
a esses engendramentos e poder intervir como
ajuda familiar.
O Papel do Pediatra
Pela proximidade da família puérpera com o
pediatra, torna-se imprescindível que esse profissional esteja atento ao processo de readaptação e construção das novas identidades tanto
de cada um dos pais quanto do casal e da família
ante a chegada de seu novo membro.
No primeiro mês de vida da criança é esperado que todas essas questões mencionadas anteriormente sejam visíveis e façam parte desse
momento de rupturas e nova reorganização. Do
mesmo modo, é importante que o pediatra esteja atento a uma postura aparentemente sem
transtornos e conflitos, o que significa uma impossibilidade do casal de entrar em contato com
essas turbulências. A exemplo disso está o retorno muito precoce da mãe à sua rotina anterior ao
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nascimento, delegando a uma babá ou familiar o
cuidado com a criança, o que representa o terror
inconsciente à aproximação das vivências primitivas e imaturas do bebê. Essa angústia também
se faz representar no pai que nunca está presente nas consultas ou na rotina da criança, alegando
excesso de trabalho, o que se desdobra na solidão
da mãe não apenas para lidar com seus próprios
conflitos, mas pela sobrecarga que as tarefas com
o bebê e amamentação lhe impõem.
Observar detalhes em como a mãe se apresenta em seus cuidados pessoais também pode
ajudar a diagnosticar a necessidade de uma intervenção mais ativa do pediatra e eventualmente de um psicólogo. Mulheres que passam a se
descuidar da aparência, mas que em contrapartida esmeram-se na apresentação dos bebês em
roupas e acessórios, pode sinalizar a substituição
da autoestima que passa a ser transferida ao filho, como expressão de seu próprio eu (Szejer &
Stewart, 1997).
Toda a intensidade desse momento inicial
assume um estado depressivo saudável, conhecido como baby blues. A vulnerabilidade, especialmente da mãe que se desdobra em choros
contínuos e chamados frequentes ao pediatra
pelos mais simples motivos, precisa ser tolerada e compreendida como uma expressão e descarga emocional. A passagem desse estado a um
quadro depressivo mais preocupante é tênue,
demandando atenção e proximidade do pediatra
para que não haja medicalização ou preocupação
precoce, que impede o processo natural de acomodação psíquica.
O homem também vive seu baby blues, ainda
que com uma roupagem diferente do da mulher.
Para ele, a quem culturalmente foi ensinado ser
forte e não chorar, as reações de sua depressão
ficam por conta de uma fragilidade somática que
faz com ele adoeça ou se acidente com mais frequência, ou ainda seja tomado de um torpor e
cansaço excessivo (Szejer & Stewart, 1997).
À medida em que o tempo passa, a tendência
é a estabilização de todo esse cenário familiar e
individual de cada um. Ao perceber uma cristali-
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zação desse quadro ou ameaças mais significativas de desmame precoce ou outros indicadores
de dificuldades mais expressivas, uma conversa
aberta com os pais pode ajudá-los a se reorganizarem. Outras vezes é importante reconhecer
que as tensões são mais profundas e pedem ajuda de um profissional de saúde mental que trabalhe especificamente com famílias de crianças
pequenas, entre 0 e 3 anos.
É importante que o pediatra não dissocie os
sintomas orgânicos dos fundamentos psicológicos que os acompanham, mesmo que ele não
tenha claro o engendramento que está subjacente a cada família, sobretudo à mulher. Supor que
as dificuldades são de ordem psíquica permitem
que o pediatra escute os pais sem minimizar os
sintomas e atribuí-los a fatores banais.
Dependendo da natureza dos conflitos inconscientes, o fato de se sentirem respeitadas
e acolhidas pelo pediatra pode ajudar a família
a se reorganizar gradualmente. Entretanto, nem
sempre a atitude do médico é suficiente, demandando uma assistência psicológica. A falta de
uma intervenção psicológica pode representar a
impossibilidade de amamentação ou mesmo outros sintomas ainda mais preocupantes como a
depressão da mãe ou do bebê.
A Sociedade
Contextualizar que o significado psíquico da
amamentação evoca a sexualidade de cada um,
incluindo os tabus e preconceitos que o tema implica, permite uma melhor compreensão das reações públicas ante o ato de amamentar.
Obviamente que é preciso criar condições e
políticas públicas que permitam que a mulher
possa ser livre para escolher amamentar em público ou preferir um lugar mais reservado. Entretanto, é fundamental estar atento que não se
trata de uma questão banal, nem para os que assistem à cena, nem para os envolvidos com ela.
Saber disso ajuda a favorecer ações que tenham
como prioridade as necessidades do bebê.
Considerações Finais
A sexualidade humana, assim como a intimidade, são assuntos de muita complexidade emocional. A amamentação tangencia essas duas faces do psiquismo trazendo à tona toda a história
psíquica dos que estão envolvidos, sobretudo a
mãe e o pai do bebê. Considerar a amamentação
com a multiplicidade de vértices que ela abriga é
a primeira conquista de um profissional de saúde
implicado em promovê-la. A dedicação e escuta
atenta e respeitosa do profissional que a acompanha pode fazer a grande diferença na vida dessas famílias.
A mente de cada pessoa é um universo particular e único. Julgamentos, preconceitos e generalizações são componentes que atrapalham
as boas relações de troca e desenvolvimento
entre as pessoas. Os conflitos de cada pai e mãe
podem ficar remexidos com o nascimento de um
filho, e tornam-se mais visíveis aos olhos e ouvidos de um profissional sensível. A atitude desse
certamente irá contribuir para a saúde mental da
criança que nasce e para a reorganização e solidez de sua família.
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Amamentação e Sexualidade
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de comunicação In Os bebês e suas mães. São
Paulo: Martins Fontes. (1968) 1994.
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José Hugo de Lins Pessoa (SP)
DIRETORIA DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS
Nelson Augusto Rosário Filho (PR)
REPRESENTANTE NO GPEC (Global Pediatric Education
Consortium)
Ricardo do Rego Barros (RJ)
REPRESENTANTE NA ACADEMIA AMERICANA DE PEDIATRIA (AAP)
Sérgio Augusto Cabral (RJ)
REPRESENTANTE NA AMÉRICA LATINA
Francisco José Penna (MG)
DIRETORIA DE DEFESA PROFISSIONAL, BENEFÍCIOS E PREVIDÊNCIA
Marun David Cury (SP)
DIRETORIA-ADJUNTA DE DEFESA PROFISSIONAL
Sidnei Ferreira (RJ)
Cláudio Barsanti (SP)
Paulo Tadeu Falanghe (SP)
Cláudio Orestes Britto Filho (PB)
Mário Roberto Hirschheimer (SP)
João Cândido de Souza Borges (CE)
COORDENAÇÃO VIGILASUS
Anamaria Cavalcante e Silva (CE)
Fábio Elíseo Fernandes Álvares Leite (SP)
Jussara Melo de Cerqueira Maia (RN)
Edson Ferreira Liberal (RJ)
Célia Maria Stolze Silvany ((BA)
Kátia Galeão Brandt (PE)
Elizete Aparecida Lomazi (SP)
Maria Albertina Santiago Rego (MG)
Isabel Rey Madeira (RJ)
Jocileide Sales Campos (CE)
COORDENAÇÃO DE SAÚDE SUPLEMENTAR
Maria Nazareth Ramos Silva (RJ)
Corina Maria Nina Viana Batista (AM)
Álvaro Machado Neto (AL)
Joana Angélica Paiva Maciel (CE)
Cecim El Achkar (SC)
Maria Helena Simões Freitas e Silva (MA)
COORDENAÇÃO DO PROGRAMA DE GESTÃO DE CONSULTÓRIO
Normeide Pedreira dos Santos (BA)
DIRETORIA DOS DEPARTAMENTOS CIENTÍFICOS E COORDENAÇÃO
DE DOCUMENTOS CIENTÍFICOS
Dirceu Solé (SP)
DIRETORIA-ADJUNTA DOS DEPARTAMENTOS CIENTÍFICOS
Lícia Maria Oliveira Moreira (BA)
DIRETORIA DE CURSOS, EVENTOS E PROMOÇÕES
Lilian dos Santos Rodrigues Sadeck (SP)
COORDENAÇÃO DE CONGRESSOS E SIMPÓSIOS
Ricardo Queiroz Gurgel (SE)
Paulo César Guimarães (RJ)
Cléa Rodrigues Leone (SP)
COORDENAÇÃO GERAL DOS PROGRAMAS DE ATUALIZAÇÃO
Ricardo Queiroz Gurgel (SE)
COORDENAÇÃO DO PROGRAMA DE REANIMAÇÃO NEONATAL:
Maria Fernanda Branco de Almeida (SP)
Ruth Guinsburg (SP)
COORDENAÇÃO PALS – REANIMAÇÃO PEDIÁTRICA
Alexandre Rodrigues Ferreira (MG)
Kátia Laureano dos Santos (PB)
COORDENAÇÃO BLS – SUPORTE BÁSICO DE VIDA
Valéria Maria Bezerra Silva (PE)
COORDENAÇÃO DO CURSO DE APRIMORAMENTO EM NUTROLOGIA
PEDIÁTRICA (CANP)
Virgínia Resende S. Weffort (MG)
PEDIATRIA PARA FAMÍLIAS
Victor Horácio da Costa Júnior (PR)
PORTAL SBP
Flávio Diniz Capanema (MG)
COORDENAÇÃO DO CENTRO DE INFORMAÇÃO CIENTÍFICA
José Maria Lopes (RJ)
PROGRAMA DE ATUALIZAÇÃO CONTINUADA À DISTÂNCIA
Altacílio Aparecido Nunes (SP)
João Joaquim Freitas do Amaral (CE)
DOCUMENTOS CIENTÍFICOS
Luciana Rodrigues Silva (BA)
Dirceu Solé (SP)
Emanuel Sávio Cavalcanti Sarinho (PE)
Joel Alves Lamounier (MG)
DIRETORIA DE PUBLICAÇÕES
Fábio Ancona Lopez (SP)
EDITORES DA REVISTA SBP CIÊNCIA
Joel Alves Lamounier (MG)
Altacílio Aparecido Nunes (SP)
Paulo Cesar Pinho Pinheiro (MG)
Flávio Diniz Capanema (MG)
EDITOR DO JORNAL DE PEDIATRIA
Renato Procianoy (RS)
EDITOR REVISTA RESIDÊNCIA PEDIÁTRICA
Clémax Couto Sant’Anna (RJ)
EDITOR ADJUNTO REVISTA RESIDÊNCIA PEDIÁTRICA
Marilene Augusta Rocha Crispino Santos (RJ)
Márcia Garcia Alves Galvão (RJ)
CONSELHO EDITORIAL EXECUTIVO
Gil Simões Batista (RJ)
Sidnei Ferreira (RJ)
Isabel Rey Madeira (RJ)
Sandra Mara Amaral (RJ)
Bianca Carareto Alves Verardino (RJ)
Maria de Fátima B. Pombo March (RJ)
Sílvio Rocha Carvalho (RJ)
Rafaela Baroni Aurilio (RJ)
COORDENAÇÃO DO PRONAP
Carlos Alberto Nogueira-de-Almeida (SP)
Fernanda Luísa Ceragioli Oliveira (SP)
COORDENAÇÃO DO TRATADO DE PEDIATRIA
Luciana Rodrigues Silva (BA)
Fábio Ancona Lopez (SP)
DIRETORIA DE ENSINO E PESQUISA
Joel Alves Lamounier (MG)
COORDENAÇÃO DE PESQUISA
Cláudio Leone (SP)
COORDENAÇÃO DE PESQUISA-ADJUNTA
Gisélia Alves Pontes da Silva (PE)
COORDENAÇÃO DE GRADUAÇÃO
Rosana Fiorini Puccini (SP)
COORDENAÇÃO ADJUNTA DE GRADUAÇÃO
Rosana Alves (ES)
Suzy Santana Cavalcante (BA)
Angélica Maria Bicudo-Zeferino (SP)
Silvia Wanick Sarinho (PE)
COORDENAÇÃO DE PÓS-GRADUAÇÃO
Victor Horácio da Costa Junior (PR)
Eduardo Jorge da Fonseca Lima (PE)
Fátima Maria Lindoso da Silva Lima (GO)
Ana Cristina Ribeiro Zöllner (SP)
Jefferson Pedro Piva (RS)
COORDENAÇÃO DE RESIDÊNCIA E ESTÁGIOS EM PEDIATRIA
Paulo de Jesus Hartmann Nader (RS)
Ana Cristina Ribeiro Zöllner (SP)
Victor Horácio da Costa Junior (PR)
Clóvis Francisco Constantino (SP)
Silvio da Rocha Carvalho (RJ)
Tânia Denise Resener (RS)
Delia Maria de Moura Lima Herrmann (AL)
Helita Regina F. Cardoso de Azevedo (BA)
Jefferson Pedro Piva (RS)
Sérgio Luís Amantéa (RS)
Gil Simões Batista (RJ)
Susana Maciel Wuillaume (RJ)
Aurimery Gomes Chermont (PA)
COORDENAÇÃO DE DOUTRINA PEDIÁTRICA
Luciana Rodrigues Silva (BA)
Hélcio Maranhão (RN)
COORDENAÇÃO DAS LIGAS DOS ESTUDANTES
Edson Ferreira Liberal (RJ)
Luciano Abreu de Miranda Pinto (RJ)
COORDENAÇÃO DE INTERCÂMBIO EM RESIDÊNCIA NACIONAL
Susana Maciel Wuillaume (RJ)
COORDENAÇÃO DE INTERCÂMBIO EM RESIDÊNCIA INTERNACIONAL
Herberto José Chong Neto (PR)
DIRETOR DE PATRIMÔNIO
Cláudio Barsanti (SP)
COMISSÃO DE SINDICÂNCIA
Gilberto Pascolat (PR)
Aníbal Augusto Gaudêncio de Melo (PE)
Isabel Rey Madeira (RJ)
Joaquim João Caetano Menezes (SP)
Valmin Ramos da Silva (ES)
Paulo Tadeu Falanghe (SP)
Tânia Denise Resener (RS)
João Coriolano Rego Barros (SP)
Maria Sidneuma de Melo Ventura (CE) Marisa Lopes Miranda
(SP)
CONSELHO FISCAL
Titulares:
Núbia Mendonça (SE)
Nélson Grisard (SC)
Antônio Márcio Junqueira Lisboa (DF)
Suplentes:
Adelma Alves de Figueiredo (RR)
João de Melo Régis Filho (PE)
Darci Vieira da Silva Bonetto (PR)
ACADEMIA BRASILEIRA DE PEDIATRIA
Presidente:
Mario Santoro Júnior (SP)
Vice-presidente:
Luiz Eduardo Vaz Miranda (RJ)
Secretário Geral:
Jefferson Pedro Piva (RS)
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