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Artigo simbolização

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A LIBERDADE EXPERIENCIAL E A SIMBOLIZAÇÃO DA EXPERIÊNCIA
“O paradoxo curioso é que quando eu me aceito como eu sou, então eu mudo.”
Carl Rogers
LUCAS AUGUSTUS DO ESPÍRITO SANTO RODRIGUES
RESUMO
O artigo em questão tem como foco aprofundar sobre as questões inerentes da
simbolização do processo pessoal para a melhor resolução de seu funcionamento ótimo.
Dessa forma buscar no relato de alguns casos, os que melhor configurem a experiência
no consultório e ilustre de forma palpável e coerente a liberdade experiencial. Com sua
base construída na Abordagem Centrada na Pessoa (ACP), são demonstradas algumas
das questões que envolvem o atendimento obtido da Clínica Escola de Psicologia
(CLEPSI). Tendo seu enfoque nas diferentes situações de angústia que comprometem a
noção do sujeito acerca de sua subjetividade.
Palavras-chave:
Simbolização,
Liberdade
Experiencial,
Funcionamento
Ótimo,
Abordagem Centrada na Pessoa, Acolhimento, Escuta, Rogers.
I. INTRODUÇÃO
Ao desenvolver uma articulação teórico-prática das atividades realizadas de acordo
com o Estágio de Formação de Psicólogo IV – no atendimento e escuta pela ACP. Serão
por meio deste apresentadas e elaboradas algumas questões acerca da simbolização,
pela forma que a imagem pessoal reflete nas experiências e a tomada de consciência que
muda em grande proporção a qualidade de vida na significação correta de suas relações.
É possível perceber, também, acerca da dificuldade de pontuar sua referência pessoal em
relação ao meio, de forma a se comprometer ao ponto de se desconsiderar como sujeito e
se descaracterizar da sua autenticidade.
Foi feito uma revisão bibliográfica sobre o tema proposto, a fim de correlacionar os
dados obtidos nas práticas, supervisões e deliberações sobre as questões, estudo de
caso e revisão de artigos e periódicos que, de acordo com a abordagem, o sujeito se
ancora mediante as angustias que o perpassam. Por isso é preciso traçar um enfoque
que melhor esclareça a simbolização e a a construção do desenvolvimento do mesmo.
O estágio se deu a partir de vários atendimentos, realizados desde o período que
se iniciou ao começo do primeiro período letivo em fevereiro de 2018 e se estendeu pelo
segundo período de agosto de 2018. Durante os atendimentos, que ocorriam na segundafeira e quarta, foram realizados inúmeros atendimentos, de pessoas de todas as raças,
idades e classes sociais, uma vez que o serviço é público e ofertado a toda comunidade.
Os atendimentos tinham duração média de 50 minutos, podendo variar para mais ou para
menos.
Este artigo ressalta a importância da intervenção diante da simbolização incorreta e
na reorganização do sujeito entre sua noção de si e sua experiência. A pontuação,
portanto, se dá pela ampliação e pelo contato pessoal e na congruência, e de acordo com
a construção da transferência para fortalecer a confiança e reestruturar a base referencial
que lhe dá subsídio. De forma que o cliente destituirá de si a responsabilidade pela
demanda externa e passará, pela aceitação incondicional, a sua liberdade inerente que
garante seu desenvolvimento.
II. A RELAÇÃO DA LIBERDADE EXPERIENCIAL COM A SIMBOLIZAÇÃO
Para se falar de uma simbolização correta primeiro é preciso falar em como se
constitui na relação psicoterapêutica a liberdade experiencial, a esta refere-se à liberdade
que o indivíduo precisa para verificar de maneira correta as suas próprias experiências e
representá-las adequadamente na consciência. Isso se dá, portanto as condições que
levam um indivíduo a avaliar e perceber se sua postura se deve a ela mesma e não com
referência a pessoas significativas.
Quando sua experiência é norteada e reconhecida por um desejo pessoal e não do
outro, haverá possibilidade de uma liberdade experiencial, assim sendo, o sujeito vai
explorando melhor a sua personalidade e identificando incoerências. Assim sendo, à
medida que simboliza as experiências corretamente, reorganiza a autoimagem a fim de
incorporar os elementos novos que foram corretamente simbolizados. A liberdade de
expressão se dará como meio por onde sua experiência e relação com o meio poderá ser
desenvolvida.
Esse meio facilitador na relação entre cliente e psicoterapeuta promoverá as
condições em que a simbolização se reorganizará, serão trabalhados os medos e as
necessidades em relação aos outros e trazer para si um funcionamento adequado e
eficiente capaz de se adaptar as suas demandas. Portanto, uma congruência será a
forma em que o sujeito se atualiza a fim de se tornar autêntico.
Para que o indivíduo seja autêntico, é necessário que ele simbolize as suas
experiências adequadamente. A imagem que ele tem de si, o que ele pensa que é,
deve coincidir com aquilo que ele realmente é. Caso a experiência seja simbolizada
corretamente na consciência, ou seja, caso essa representação, ou simbolização,
dessa experiência não seja distorcida ou reprimida, a auto-imagem vai se
reorganizado de modo que acaba coincidindo com o que ele realmente é. (ROGERS,
1977, p.65)
Ou seja, é justamente quando se estrutura a liberdade experiencial que se pode
tratar as questões da subjetividade como meios naturais a serem trabalhados na
integração do sujeito à sua imagem, onde entrará, sobretudo, em contato de seu núcleo
da experiência e proverá ao mesmo condições e organização de forma a atualizar seu
projeto pessoal.
III. AS IMPLICAÇÕES DE UMA SIMBOLIZAÇÃO INCORRETA
Rudio (2003) ressalta que “Podemos falar de congruência tanto para indicar a
harmonia entre experiência e consciência como também para designar a harmonia entre
organismo e imagem de si” (p.65). Tomemos um exemplo: um indivíduo cuja auto-imagem
é de uma pessoa bondosa, experiência uma situação em que nega ajuda a uma outra
pessoa, ajuda essa que poderia oferecer sem se esforçar. Como a experiência não está
de acordo com a auto-imagem, o indivíduo a distorcerá e pensará - não ofereci ajuda
porque me foi impossível. Assim preservará a auto-imagem. Contudo, dentro da
concepção rogeriana, ela não foi autêntica, não foi congruente. Segundo Rudio (2003), “O
homem sente ódio, mas também é capaz de amar. Ele rejeita, mas existe nele também a
atração pelo outro. Quer destruir mas também é impelido para a construção, etc. A
autenticidade consiste em equacionar todos estes elementos, de modo vivencial” (p.70).
Portanto, a simbolização errada pode comprometer e até mesmo distanciar o
sujeito de si, de forma a reforçar modelos, padrões e até morais que obrigam o sujeito a
se comportar de uma forma distorcida, tendo um entendimento que foge sua noção de si,
fugindo daquilo que é coerente ao seu funcionamento adequado. Assim sendo, muito do
que é feito pra se preservar uma auto-imagem irá também aprisionar o sujeito a uma
conduta pelo medo da perda, censura, negação do outro.
Tirando de si a condição necessária para confiança, passando a ser refém da
importância que dá aos outros. Já por outro lado, a simbolização correta, permite que o
sujeito se liberte de sua negatividade e se encare com dignidade e generosidade. O
mesmo indivíduo que tiver uma liberdade de experiência, perceberá que fazer o bem e
ajudar o outro, não haverá distanciamento da ação e sua forma de pensar, por estar de
acordo com seu funcionamento interno. Assim, esta estará de acordo com sua noção de
si, como há incoerência, não há necessidade de se preservar quando o reconhecimento e
a confiança em si dará o comportamento como natural e resultado de sua totalidade.
A simbolização dará conhecimento do sujeito acerca do que o envolve, criando
uma capacidade de avaliação mais madura e capaz de considerar seu meio de forma
mais madura e consciente. Rogers (Rogers & Kinget, 1977) ressalta que as ideias de
percepção e consciência são fundamentalmente sinônimas, contudo, “O termo ‘percepção’
se emprega, geralmente, com relação ao efeito de excitantes de fonte externa, enquanto
que o termo ‘consciência’ pode abranger o efeito de excitantes provenientes de fontes
puramente internas, como a memória ou os processos fisiológicos, e também o efeito de
excitantes de fonte externa” (p.164).
Dessa forma, a tomada de consciência norteará o sujeito de si para seu meio, e
não do meio para si de forma a desregular e tornar disfuncional sua relação sobre si. Sua
constante atualização e adaptação dessa forma, é o que dará subsídio para uma
comunicação e harmonização, onde o respeito, compreensão, acolhimento de si, tira a
necessidade de aceitação dos outros sobre o sujeito.
IV. A ANGÚSTIA PRESENTE NA FALTA DA LIBERDADE EXPERIENCIAL
Foi possível perceber durante os atendimentos que o sofrimento como um todo,
não acometiam não só o corpo, como produziam um sofrimento palpável, uma angústia.
Na falta de uma devida simbolização, não só a pessoa fica a deriva e a mercê daquilo que
a consome, como se sente perdido em relação ao que fazer e como proceder em relação
a isso. Sendo a angústia a indicação de que há algo, mas não há clareza sobre sua causa.
Sendo assim, num primeiro momento, a angústia é um fenômeno psíquico inerente
ao ser humano. Filósofos como Kierkegaard e Heidegger apontam que a etiologia desta,
está na percepção do indivíduo como sendo responsável sobre si mesmo; mas como ela
não vai existir, quando o sujeito atribui seu sofrimento ao outro, ao externo e não a algo
que ele mesmo se relaciona e pela forma que se relaciona? Por isso se dá ao sujeito
acolhimento e condições para voltar-se a si.
Em um dos casos, ao atender o Caso A, a mesma apareceu no consultório com
uma ansiedade visível, batia os pés, mostrava inquietação, desconforto e estava
totalmente fora do lugar. Durante os muitos atendimentos e escuta à mesma, foi possível
perceber no seguinte discurso uma abertura “Sempre sou a responsável, não há
descanso, porque eu sei que se depender do meu marido, é outra criança para
cuidar.”[SIC]
Assim que entramos nesses pormenores, foi possível perceber a falta de amparo e
consideração do marido em relação aos esforços da mesma, principalmente que suas
decisões e sofrimentos não afetassem os filhos. Visto o quadro comprometido da mesma,
foi-se aproximando das frustrações, raiva e indignação perante a postura do cônjuge. E
depois de muitas sessões, estruturando sua simbolização correta acerca do mesmo,
percebeu que dali partia sua ansiedade.
Numa das sessões, após dar o basta ao mesmo e terminar seu casamento, a
mesma apareceu fortalecida emocionalmente, em paz e sem ansiedade aparente, ou seja,
ter simbolizado e dado nome e forma ao seu desconforto a aproximou e a fez perceber o
que estava comprometendo sua saúde mental. Ao dar nome e forma àquilo que estava
lhe consumindo, foi possível agir em função de sua referência pessoal e tomar as
providências que estavam ao seu alcance.
Outro momento de grande edificação enquanto psicoterapeuta, foi quando o Caso
B, uma cliente cadeirante que sofre de uma doença no sangue chamada SAFI, relatou o
seguinte “Estou com um terrível nó em minha garganta, dois nós. E eu não sei o que
é.”[SIC] E chorava compulsivamente. “Toda vez que tenho uma crise acabo naquele
hospital e toda vez que acordo, estou espetada de várias formas pra tomar medicação, eu
não tenho escolhas, subitamente, quando abro os olhos, já estou ali.” [SIC]
E continuou “Não tenho liberdade, essa doença é maior que eu, nem um animal é
tratado assim.”[SIC] Parti da seguinte intervenção “Entendo, quando você diz que não
tem escolhas e que nem um animal é tratado assim, você sente como se perdesse sua
humanidade por ser submetida sem levarem em consideração os seus desejos, como um
rato de laboratório, é isso?”
Isso a fez até apontar para mim em esclarecimento “É exatamente isso! Eu não sou
algo assim, eu sou um ser humano!” emendei “Então você se sente desconsiderada e
desrespeitada, por ser sempre invasivo, por isso te rejeitar enquanto pessoa” Logo após,
a mesma relatou sobre seu segundo nó. “Todas as vezes eu preciso ir na fisioterapia por
causa dos AVC’s, e lá tento trabalhar minha movimentação, mas sempre são pessoas
mais velhas, ou as mais jovens que logo saem dali, eu fico. Eu tenho vergonha, quanto
mais eu vou, mais vergonha tenho.” [SIC] Então intervi. “Ali você sente que não é o seu
lugar, por serem mais velhos e você não ter a mesma idade, é como se você sentisse sua
vida passando e se colocasse no lugar e numa idade que não é sua.” Logo após a devida
simbolização ela suspirou de alívio e foi possível ver ficando mais leve e sua estrutura
emocional voltar.
Isso mostra o quanto a simbolização correta opera em função da congruência da
pessoa e configura seu funcionamento ótimo. Na relação que envolve a liberdade
experiencial para que a pessoa possa resgatar sua imagem como pessoa, como ser
humano, coisa que muitas vezes é comprometida, negada, ignorada e desconsiderada
pelas experiências mal desenvolvidas. Tanto por isso, é evidente a forma que a
interpretação e a falta de compreensão sobre uma experiência é o que torna ela um
problema. Tanto por isso, mostra a liberdade como fator essencial para estruturar as
condições do sujeito.
V. CONCLUSÃO
Neste estágio, foi possível compreender o quanto a escuta dá subsídio e garante o
desenvolvimento pessoal e o quanto o mesmo é capaz de nortear, muitas vezes de forma
a organizar uma referência negativa, e por fim, melhorar a relação da pessoa com ela
mesma. O quanto o manejo da escuta e intervenção pode ser capaz de forma terapêutica.
Sendo o acolhimento, não só garantir o espaço do outro, mas dar a ele confiança
suficiente para se ver com dignidade e de forma positiva, garantindo disposição e
condições ao encarar suas adversidades.
Levando, assim, a simbolização correta da experiência como veículo para se lidar
com as angústias, dando forma ao desconforto e ao sofrimento velado. No quanto o
enfrentamento pode dar esclarecimento e muitas vezes estruturar um desequilíbrio,
percebendo aquilo que, muitas vezes, é inevitável ou necessário pontuar. Mas que o
medo pode inibir e aplacar o potencial do indivíduo de desenvolver seus sentimentos de
forma adequada.
Tanto por isso, para alcançar um funcionamento ótimo, a tomada de consciência e
compreensão dos próprios limites e dificuldades, favorece na organização pessoal e
garante o desenvolvimento. Facilitar, portanto, a forma de identificar o sofrimento, é
essencial para que a referência deixe de ser externa, para se tornar pessoal e calcada na
própria demanda.
Assim sendo, ao concluir o presente artigo, demonstro uma articulação teóricoprática que revele o conhecimento obtido na experiência no trabalho de escuta e
atendimento psicoterapêutico prestado no Estágio de Formação Profissional IV – Pela
Abordagem Centrada na Pessoa e o quanto tais experiências são de suma importância
para o desenvolvimento profissional e que toda informação transmitida, independente de
qual seja no ambiente terapêutico, deve ser transmitida com total aceitação, consideração
e afeto para garantir o desenvolvimento. Quando se cuida das condições adequadas e
essenciais, tal como um jardim, o ser humano também cresce e amadurece.
VI-REFERÊNCIAS
FORMOSINHO, José Eduardo de Araújo. (2006) Rogers: Psicoterapia e Subjetividade –
Uma Reflexão Crítica
ROGERS, C. R. (1997a). Psicoterapia e consulta psicológica. 2ª ed. São Paulo: Martins
Fontes.
_____________ (1974). Terapia centrada no paciente. Lisboa: Livraria Martins Fontes
Editora.
_____________ (1997b). Tornar-se pessoa. 5ª ed. São Paulo: Martins Fontes.
_____________; KINGET, G. M. (1977). Psicoterapia e relações humanas: teoria e
prática da terapia não-diretiva. Carl R. Rogers & G. Marian Kinget. 2ed. Belo Horizonte:
Interlivros.
RUDIO, F. V. (2003). Orientação não-diretiva na educação, no aconselhamento e na
psicoterapia. 14ed. Petrópolis: Vozes.
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