mulheres e culturas do escrito nas cebs

Propaganda
Didática e Prática de Ensino na relação com a Sociedade
MULHERES E CULTURAS DO ESCRITO NAS CEBS
Sônia Maria Alves de Oliveira Reis -UFMG / UNEB
Carmem Lúcia Eiterer - UFMG
Este texto objetiva analisar as condições e as instâncias formativas por meio das quais um
grupo de mulheres camponesas, líderes das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) que
pouco ou nunca frequentaram a escola, construíram sua participação nas culturas do escrito. O
estudo insere-se no quadro de pesquisas a respeito dos modos de participação nas práticas
culturais relacionadas à leitura e à escrita por meio de distintas instâncias de socialização.
Partimos do pressuposto de que não existe uma cultura escrita já dada, e sim uma diversidade
de culturas da escrita que variam em função do contexto de uso e aprendizagem. No que diz
respeito ao entendimento das condições de letramento, o texto apresenta o sistema social de
ação que permite localizar as mulheres no campo educativo e entender como elas dão sentido
às suas ações na medida em que são sustentadas por um conjunto de suportes. Para orientar a
realização deste estudo, destaco Martuccelli (2007), Galvão (2010), Boff (1990) e outros. A
compreensão dos dados fundamenta-se na abordagem qualitativa. Utilizo diário de campo
constituído a partir da observação e entrevistas visando apresentar as condições e os modos de
acesso e participação nas culturas do escrito pelas mulheres camponesas. Os resultados da
investigação sinalizam que a cultura escrita envolve as práticas do escrito que não são
exclusivamente dependentes da língua escrita baseada no sistema alfabético. Portanto para
poder dar conta da diversidade das práticas e das interações das mulheres camponesas, é
preciso cruzar as várias dimensões da realidade vivenciada por elas.
Palavras-chaves: Mulheres, CEBs, Culturas do escrito.
Introdução
A reflexão que apresentamos é parte pesquisa de doutorado em andamento no Programa
de Pós-Graduação na FAE-UFMG. A investigação tem como fio condutor analisar as
condições e as instâncias formativas, por meio das quais, um grupo de mulheres camponesas,
líderes das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) que pouco ou nunca frequentaram a
escola, construíram sua participação nas culturas do escrito.
O estudo insere-se no quadro de pesquisas a respeito dos modos de participação nas
práticas culturais relacionadas à leitura e à escrita por meio de distintas instâncias de
socialização. Partimos do pressuposto de que não existe uma cultura escrita já dada, e sim
uma diversidade de culturas da escrita que variam em função do contexto de uso e
aprendizagem.
Segundo Galvão (2010, p. 218-220), “é polêmico e complexo conceituar cultura escrita,
já que o termo implica pensar algumas consequências, como o fato de essa cultura não ser
homogênea”. Nesse sentido, a autora afirma ser relevante pensar em culturas do escrito, pois,
EdUECE - Livro 3
02694
Didática e Prática de Ensino na relação com a Sociedade
dessa forma, é possível entender e abarcar as diversidades de práticas e usos que envolvem o
fazer cotidiano, bem como perceber os usos das culturas do escrito presentes em uma
comunidade, sem, contudo, priorizar uma prática em detrimento de outras. Assim, não se trata
de conceber o mundo da escrita, as práticas letradas, apenas como aquisição da habilidade de
escrever, o conceito deve ser extensivo a “todo evento ou prática que tenha como mediação a
palavra escrita”. Galvão considera a cultura escrita como “lugar – simbólico e material – que
o escrito ocupa em/para determinado grupo social, comunidade ou sociedade”. Entende que
não existe uma cultura escrita dada a priori, mas pode-se pensar que há uma diversidade de
culturas escritas que se alternam a “depender das necessidades e funções do contexto de uso e
de aprendizagem” (GALVÃO, 2010)i.
No que concerne ao entendimento das condições de letramento, por meio das quais o
grupo de mulheres camponesas em estudo – participantes das Comunidades Eclesiais de Base
– construiu sua participação nas culturas do escrito, consideramos necessário apontar a
existência de suportes - a exemplo da casa, da vizinhança, dos movimentos sociais e da igreja.
Nesses espaços, elas vivenciam, cotidianamente, experiências individuais e coletivas;
constroem relações com amigos; divertem-se; participam de reuniões, de cursos de formação
e de manifestações culturais e religiosas.
Na perspectiva de Danilo Martuccelli (2007), ao olhar para percursos individuais,
também é preciso não ignorar a rede de relações nas quais os indivíduos estão inseridos, que
não é apenas a rede de relações sociais. Cada vez mais os indivíduos contam com suportes
para se construir. Estes podem ser materiais ou simbólicos, e não importa quantos sejam ou se
são bons ou maus, mas, sim, o papel que desempenham nas experiências dos indivíduos. Esta
perspectiva parece bastante significativa, na medida em que pode permitir olhar para os
percursos das mulheres camponesas, buscando compreender os desafios que enfrentam na
busca de se constituírem como indivíduos.
Partindo do pressuposto de que ainda pouco se conhece da vida das mulheres
camponesas atuantes nas CEBs, um dos objetivos principais da pesquisa é reconstituir, por
intermédio da trajetória de vida de mulheres camponesas, a forma como elas vivem, seus
objetivos e instrumentos de luta por mudanças sociais; como reivindicam seus direitos de
mulheres; e de que forma as proposições de uma teologia masculina de organização da Igreja
atingem seus projetos de vida. Além disso, desejo compreender como elas participam de
situações que exigem a leitura e/ou a escrita, uma vez que pouco ou nunca frequentaram a
escola. Nesse contexto, que suportes favorecem a ampliação das habilidades de leitura e de
escrita?
EdUECE - Livro 3
02695
Didática e Prática de Ensino na relação com a Sociedade
Nas Comunidades Eclesiais de Base, as mulheres jogam com mecanismos que alteram a
condição de submissão, quando se apropriam de suportes externos, como a igreja, a
associação de moradores, por exemplo. Esclarecedor nesse sentido é o comentário de Maria
da Paz (38 anos).
Chega de machismo e de atitudes que venha ofuscar o brilho, a
sabedoria, a condição da mulher de ser protagonista da comunidade,
de ser líder, de ser mulher. A mulher camponesa deve querer ser
sempre mais, e quanto mais ela participa do sindicato, do movimento
de mulher, das associações, da escola, da comunidade, da pastoral
da criança e de muitos outros espaços e lugares ela conhece e deseja
viver com dignidade, ser mais [...]. É...é preciso conscientizar que o
homem não é superior à mulher, nem a mulher superior ao homem.
[...] Sofri muito por ser mulher, mas hoje sinto orgulho porque não
fiquei lamentando as privações, pelo contrário eu lutei pra escalar a
montanha e remover as pedras do meu caminho [...].
O relato de Maria da Paz e o de outras mulheres entrevistadas - em sua maioria negras,
originárias de comunidades rurais, líderes das CEBs e associações e que pouco ou nunca
frequentaram a escola – motivaram-me algumas questões para a pesquisa de doutorado em
andamento: Como um grupo de mulheres camponesas – participantes das Comunidades
Eclesiais de Base – construiu sua participação nas culturas do escrito? Quais são as
especificidades de aprendizagens dessas mulheres e que suportes favorecem a ampliação das
habilidades de leitura e de escrita? O pertencimento religioso no contexto das CEBs e a
participação nas culturas do escrito envolveram abertura e rompimentos com um universo
social, familiar e cultural? Que alterações tal participação desencadeou e tem desencadeado
no cotidiano dessas mulheres?
Para as mulheres camponesas, pertencentes às CEBs, cuja escolaridade é marcada pelo
analfabetismo ou pela pouca escolarização, o suporte religioso e a participação nas redes de
sociabilidade (MARTUCCELLI, 2007) representam uma importante dimensão, não apenas
por favorecer o acesso e a participação nas culturas do escrito, ampliando as possibilidades e
formas de coerções sociais, mas também pelo amplo leque de novas oportunidades que, de
forma oblíqua, aquilata suas trajetórias individuais.
Participação das Mulheres nas CEBs
As Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) surgiram nos anos de 1960, em um contexto
de rica fermentação popular. Nessa época, movimentos sociais e religiosos incitavam à
compreensão crítica da realidade e ao compromisso com a história. Em 1964, esse processo
EdUECE - Livro 3
02696
Didática e Prática de Ensino na relação com a Sociedade
iniciado foi bloqueado pelo golpe militar, porém este não conseguiu impedir que as
articulações e as dinâmicas iniciadas fossem interrompidas. Reinava no País ampla reação
contra tal situação, especialmente no mundo universitário e em setores populares, alimentados
pela pedagogia de Paulo Freire e pelos movimentos sociais.
Nos anos 1970, a experiência das CEBs irradiou-se por todo o Brasil e viveu um
momento de grande vitalidade. A partir dos anos 1980, as CEBs enfrentaram novos desafios
e, ao mesmo tempo, ampliaram os horizontes diante de temas como gênero, sensibilidade
ecológica, reivindicações étnicas, novo contexto religioso, domínio solitário do capitalismo
neoliberal e presença do pluralismo religioso (LIBÂNIO, 2011).
A propósito, Leonardo Boff (1990) focaliza a natureza das CEBs não como um
movimento dentro da Igreja, mas como a própria Igreja na base do povo. Em outras palavras,
a Igreja assimila as características do povo e nela ele pode expressar a sua fé com as
características de sua cultura, seus valores e seus desejos de libertação.
Nas CEBs, as pessoas encontram-se com seus semelhantes e compartilham as condições
difíceis de vida, estabelecendo laços sociais. Nessa direção, Martuccelli (2007) adverte que os
papéis comportam significados diversos, segundo a natureza dos laços que estabelecem. A
CEB significa um importante apoio afetivo para as mulheres camponesas, porém os papéis
não são definidos apenas institucionalmente, mas estão diretamente ligados aos processos de
socialização (MARTUCCELLI, 2007).
Com efeito, um dos traços mais marcantes das CEBs são os papéis que homens e
mulheres
ocupam
nas
comunidades.
Ali,
principalmente
as
mulheres
assumem
responsabilidades como: dirigir suas próprias comunidades, participar da construção da Igreja,
presidir o culto semanal, ministrar sacramentos, participar de encontros de formação,
organizar associações de moradores, dirigir sindicatos de trabalhadores(as) rurais, organizar
mutirões e marchas. Segundo Martuccelli (2007), o papel é definido pelo agenciamento entre
o indivíduo e a posição que ele ocupa dentro das estruturas sociais, e, quando os indivíduos
pertencem a uma pluralidade de círculos sociais, estão sujeitos a um número crescente de
tarefas sociais.
O engajamento religioso das mulheres camponesas nas CEBs pode ter consequências
não intencionais: pode motivar atitudes e comportamentos estratégicos por parte delas,
resultando, muitas vezes, em mudanças nas relações com os familiares e com a sociedade
mais ampla. Esse seria o caso tanto do pentecostalismo como das Comunidades Eclesiais de
Base no Brasil, que, além de contribuir para uma maior autonomia das mulheres, constituemse como modo de participação nas culturas do escrito.
EdUECE - Livro 3
02697
Didática e Prática de Ensino na relação com a Sociedade
Apontamentos finais
Vale lembrar que, estudos específicos sobre as Comunidades Eclesiais de Baseii revelam
que, ao resgatar histórias, memórias dos processos e percursos formativos das mulheres
camponesas, é possível apreender suas trajetórias de vida, refletir e (re)significar suas
concepções e modos de ser e atuar nos diversos espaços das CEBs, tanto como líderes, quanto
como mães, trabalhadoras rurais, esposas, etc. Sendo assim, adentrar as casas e conhecer as
histórias de vida dessas mulheres, ou, como afirma Abreu (2004), bisbilhotar suas
lembranças, suas práticas religiosas, sua vida cultural, suas inserções sociais e suas redes de
sociabilidades permitir-me-á rever, com olhos mais cuidadosos, seus cotidianos, seus fazeres,
suas trajetórias e seus modos de participação nas culturas do escrito. “Isso porque os estudos
sobre cultura escrita realizados em meio rural e que têm a Igreja Católica como foco são
bastante incipientes” (SOUZA, 2009, p. 18).
Referências Bibliográficas
ABREU, Márcia (Org.). Os números da cultura. In: RIBEIRO, Vera Masagão. Letramento
no Brasil - reflexões a partir do INAF 2001. São Paulo: Global, 2004.
BOFF, Leonardo. Nova evangelização, perspectiva dos oprimidos. Rio de Janeiro: Vozes,
1990.
GALVÃO, Ana Maria de Oliveira. História das culturas do escrito: tendência e possibilidades
de pesquisa. In: MARINHO, M.; CARVALHO, G.T. (Org.). Cultura escrita e letramento.
Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010. p. 218-278.
LIBÂNIO, João Batista. A religião no início do milênio. In: CRUZ, E. R.; DE MORI, G.
(Org.). Teologia e ciências da religião: a caminho da maioridade acadêmica no Brasil. São
Paulo: Paulinas; Belo Horizonte: Editora PUC Minas, 2011. (Coleção estudos da religião).
MARTUCCELLI, Danilo. Gramáticas del individuo. Buenos Aires: Losada, 2007.
SOUZA, Maria José Francisco. Modos de participação nas culturas do escrito em uma
comunidade rural no Norte de Minas Gerais. Tese (Doutorado) — Programa de PósGraduação em Educação, Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais,
Belo Horizonte, 2009.
i
Um aprofundamento na discussão em torno do conceito culturas do escrito pode ser encontrado também em
Chartier (2001; 2002); Galvão et al (2007).
ii
Para um panorama do campo de estudos específicos sobre as CEBs, consultar a revista eletrônica de Estudos sobre as
Comunidades Eclesiais de Base, Memória e Caminhada, criada em 2001 pela Universidade Católica de Brasília, organizada
pelo Iser/Assessoria. Disponível em: <http://www.ucb.br/textos/2/757/Revista/54MemoriaECaminhada>. Acesso em; 28 jul.
2011.
EdUECE - Livro 3
02698
Download