TRANPLANTE UMA NOVA PROPOSTA DARCY RIBEIRO A

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TRANPLANTE
UMA NOVA PROPOSTA
DARCY RIBEIRO
A presença por dois dias de Luiz Fernando dos Santos acampado diante
do edifício do Congresso numa greve de fome atípica produziu um belo
efeito.
A greve dele era negar-se a fazer hemodiálise até morrer, a fim de
pressionar os senadores a cotarem a lei que passará a reger o transplante de
órgãos.
Sua força, porém, é que encarava ali as dezenas de milhares de pessoas
que aguardam um transplante de um órgão para sobreviverem. Com sua greve
atípica conseguimos que fosse dada urgência ao projeto que foi votado no dia
29 último e aprovado por unanimidade.
Seguiu já para a Câmara dos Deputados, onde precisamos renovar as
pressões para que seja prontamente aprovado.
Essa lei que eu propus visa SUPERAR A SITUAÇÀO VERGONHOSA
DO Brasil nessa matéria. Somos o único país que exige, para que um órgãos
de um morto seja transplantado para salvar um vivo, que o morto, enquanto
vivo, procure um cartório e faça a competente doação.
Em razão dessa tolice assassina dezenas de milhares de pessoas esperam
por um coração, um fígado, um rim para substituir os seus que estão enfermos
e incuráveis, ou de olhos para recuperar a visão.
Em nenhum país do mundo se fazem tais exigências e, por isso, em
nenhum lugar existem as filas imensas de doentes clamando por um
transplante. A lei que proponho inverte o procedimento, determinando que
deve procurar um cartório quem não queria doar nada do seu corpo para salvar
vidas. Essa minoria é que deve ir a qualquer cartório para obter um carimbo de
não doador gravado na sua carteira de identidade.
Assim se asseguram os direitos de quem tem razões para não ser doador
– como ocorre com os judeus, por motivação religiosa -, sem converter
automaticamente todos os brasileiros em não-doadores.
Efetivamente, todas as dezenas de milhares de pessoas com menos de
50 anos que morrem vítimas do trânsito ou da violência têm seus cadáveres
intocáveis por orça da lei vigente.
Nossa lei toma naturalmente os cuidados indispensáveis para que não
haja abusos nessa matéria tão delicada. Para isso estabelece que só se podem
realizar transplantes de tecido, órgãos e partes do corpo nos hospitais públicos
ou credenciados, sob os quais se exercerá permanente vigilância.
Acresce que qualquer forma de traficância com órgãos passa a constituir
crime inafiançável, imprescindível e insuscetível de graça, indulto, suspensão
de graça, indulto, suspensão condicional, redução de pena ou qualquer
modalidade de cumprimento da pena em liberdade.
Minha Lei dos Transplantes, cujo relator foi o senador Lúcio Alcantâra,
representa, como se vê, uma inovação indispensável na legislação brasileira
quanto a uma questão relevantíssima.
Os transplantes que se vêm realizando há décadas ampliaram
enormemente sua aplicação graças a novas vacinas e antibióticos, que estão
permitindo a milhões de pacientes recuperar a saúde. A legislação vigente, em
sua estreiteza anacrônica, coloca o Brasil ora desse quadro, condenando à
morte dezenas de milhares de brasileiros a cada ano.
Em sua forma confusa e caótica ela pretende o impossível, que é levar
as pessoas a uma conscientização humanística tal que as converta, durante a
vida, em doadores post-mortem.
Nosso projeto, ao contrário, regula toda a matéria e só obriga a procurar
um cartório que não queira doar nada para transplante. Todos nós outros
seremos depois de mortos doadores virtuais.
Folha de São Paulo, 4 de março de 1996.
DOAR VALE UMA VIDA
Qual é a situação atual do transplante? – Avanços recentes na medicina
tornaram possível substituir os órgãos que não estão funcionando bem. Desde
1966, mais de 6.000 transplantes de rim foram realizados no Brasil. Mais
recentemente cerca de 400 transplantes cardíacos e 200 transplantes de
fígado foram realizados. Cerca de 2.000 transplantes de córnea são realizados
anualmente no Brasil. Atualmente pode-se transplantar com sucesso córneas,
rins, coração, pulmão, fígado, p6ancreas, pele osso e veias.
Como os órgãos podem ser obtidos? – Este são doados por pessoas
como nós após a morte.
Existe grande necessidade para doação de órgãos? – Sim. Muitos
pacientes morrem esperando uma doação. Um órgão transplantado com
sucesso transforma uma pessoa doente numa pessoa com saúde.
Como eu posso ser um doador? – Basta ter o cartão de Doação Vale
Vida e comunicar sua família o seu desejo de doação.
Existe limites de idade para doação? – Não. Em qualquer idade, desde a
infância até a velhice, a pessoa pode ser um doador.
Eu devo me registrar com alguma central? – Não. Você deve carregar o
cartão na carteira e conversar a respeito com a família.
Qual é o calor do cartão de doação? – Este cartão indica que você deseja
doar seus órgãos após a morte. Você pode mudar de idéia a qualquer
momento. Para isto, basta jogar fora o cartão.
A doação de órgãos afeta o funeral ou deforma o corpo? _ Não. A
retirada dos órgãos é uma cirurgia que segue todos os rigores e procedimento
das cirurgias em indivíduos vivos.
Os órgãos transplantados são rejeitados? – Isto pode acontecer, mas
novas droga estão sendo utilizadas e diminuem a chance de rejeição. Em cada
5 transplantes renais apenas 1 é rejeitado e 4 são sucesso. Resultados
semelhantes são obtidos com transplante de coração e fígado.
TRANSPLANTE
O MITO DA ESCASSEZ DE ÓRGÃOS E TECIDOS
JOÃO BATISTA T. PINTO
O principal fator limitante ao número de transplantes em todo mundo é
a escassez de órgão e tecidos. Com exceção do Japão que, por limitações de
natureza religiosa e cultural, ainda não adotou o conceito de morte encefálica,
nos países desenvolvidos essa carência decorre da falta de doadores para
atender uma demanda transplantadora incessante. Já nos países em
desenvolvimento, não se pode atribuir a falta de órgãos à uma escassez real,
por dois motivos: não existem, nesses países, entre eles o Brasil, estudos
precisos sobre a capacidade geradora de doadores de órgãos e tecidos para
transplante; devido à falta de estrutura formal de procura de doadores existe,
na verdade, uma escassez ilusória, sendo mais apropriado considerar esse
fenômeno, à luz dos princípios de captação, com escape de doadores.
Somente agora as discussões sobre o baixo desempenho dos programas
de transplante, o Brasil passou a identificar o fenômeno do escape, ainda que
batizado com nome de uma das suas causas, ou seja, a falta de doadores.
Todas essas “razões” isoladas ou em conjunto, a rigor, foram insustentáveis
para justificar o baixo número de transplante, quando discutidas em
profundidade, porquê não alteram a epidemiologia da morte encefálica nem
contemplaram a procura do doador.
a) DEICIÊNCIAS DA LEGISLAÇÃO
O início dos programas de transplantes renal no Brasil, como em outros
países, prescindiu de lei específica. Assim, quando foram realizados os
primeiros transplantes renais em nosso país tanto com doador vivo
quanto com doador cadáver (1964/65), ainda não dispúnhamos da nossa
primeira Lei de transplante, publicada em 1968. Por outro lado,
seguimos realizando menos de 10 transplantes renais por milhões de
habitantes (PMP) anualmente, como fazíamos antes da promulgação da
legislação atual. Embora fosse necessária a Lei para que as equipes
transplantadoras não fossem consideradas clandestinas, isso não foi
suficiente para aumentar o número de transplantes como se esperava.
Deve-se reconhecer, entretanto, que a normatização do transplante,
tanto a de natureza legal e , principalmente, a de natureza ética,
encorajou, ao lado de novos métodos de imunossupressão, um salto
qualitativo nessa atividade por respaldar o aproveitamento dos órgãos e
tecidos do doador cadáver. Um reflexo dessa conjunção de fatores foi o
desenvolvimento de programas de transplante de outros órgãos e a
inversão de percentagens de transplantes renais com doador vivo/doador
cadáver: antes dessa normalização fazíamos mais de 80% dos
transplantes renais com órgãos procedentes de doadores vivos e, após a
mesma, alguns serviços suplantaram esse número com doador cadáver
sendo a média nacional hoje em dia de 50% para cada tipo de doador
mas ainda existe uma evidente sub-utilização de doador cadáver em
nosso meio. Assim a legislação foi necessária mas não foi suficiente,
para aumentar o número de transplantes, pelo menos o tanto que se
esperava.
b) FALTA DE INCENTIVO INANCEIRO AOS PROGRAMA DE
TRANSPLANTE
São bem conhecidas as várias alterações realizadas na tabela do SUS,
aumentando o valor da cirurgia do transplante renal em relação ao valor
dos procedimentos dialéticos, inclusão nessa tabela de valores até então
não previstos para a extração multiorgânica dos órgãos de doador
cadáver, das provas de histocompatibilidade etc., porém nenhuma
dessas medidas, por ser insuficiente, produziu, até agora, o efeito
esperado de aumentar expressivamente o número de transplantes
renais. A refratariedade do nosso nível de 7 a 8 transplantes renais por
ano PMP resistiu a todas essas medidas. Os estudos comparando a
demora de um transplante pelo SUS ( e outros sistemas similares), com
a espera mais curta quando o procediemnto foi coberto por outros
sistemas (mesmo estatais incentivados) demonstra que teremos que
discutir urgentemente a remuneração do transplante, até mesmo para
eliminar de vez antigas discussões de natureza ética e dar força aos
protocolos que estabelecem critérios justos de seleção do receptor.
c) BAIXO ÍNDICE DE DOAÇÃO
Os levantamentos sobre as chamadas ‘negativas familiares” realizadas
em nosso meio são heterogêneos quanto à metodologia empregadas.
Em média, esses estudos apontam para um índice de 20 a 30% de
negativa de doação quando a família do doador em morte encefálica é
abordada após confirmada essa condição. Se nós compararmos esse
índice com os 20 a 25% dos países da Europa Ocidental, onde a doação
é presumida na lei é informada na prática (se o próprio doador não
negou em vida, a família deve autorizar a extração), vemos que essa
diferença não é relevante, sobretudo se imaginarmos que as péssimas
condições do sistema sanitário do nosso país seriam suficientes para
desacreditar todos os programas de transplante perante a opinião pública
favorecendo desse modo a desconfiança e, consequentemente, a
negativa. Por outro lado, os profissionais de captação do chamado
primeiro mundo contam com a ajuda de freqüentes instrumentos de
conscientização e promoção da doação ( EDHEP, European Donor
Hospital Education Program) e de formação pessoal (TIT, Training The
Trainers). A rigor, deveriam se esperar portanto índices muito maiores
de negativas entre nós em comparação com populações
economicamente mais favorecidas, sistema sanitários mais humanizados
e pessoal mais treinado para obter a doação. Devemos lembrar que, na
disponibilidade de recursos técnicos, o número de transplantes
realizados, sobretudo com doador cadáver, depende, em ess6encia, do
nível do altruísmo da população: ao contrário de outras modalidades de
tratamento o substrato do procedimento, ou seja, o órgão, é grado a
partir de um sentimento de solidariedade em relação a um receptor
desconhecido e sito não pode ser determinado por nenhuma lei mas
sofre influência decisiva da credibilidade que a população deposita no
procedimento. Esses raciocínio foi útil para o CFM posicionar-se
contrariamente em recente discussão sobre projeto-de-lei que propunha
a mudança do consentimento informado para a doação presumida.
d) FALTA DE DOADORES
Embora se saiba que a demanda por transplante seja muito maior do que
o número de pacientes em lista de espera desconhece-se o seu número
real no Brasil. Sabe-se por exemplo, que existem, entre 1500 a 2000
pacientes em tratamento dialítico no país, aos quais se soma
anualmente um número de novos pacientes estimados entre 50 a 100
PMP, dependendo da facilidade de acesso à diálise. Como a mortalidade
dessa população (relativamente jovem em nosso país) é inferior a 10%,
o resultado dessa equação perversa é o inchaço incontrolável das listas
de espera onde, presume-se, constam menos da metade dos renais
crônicos em tratamento dialítico. Por outro lado, o potencial de
doadores de órgãos, quantificado até agora apenas por métodos
indiretos, suplanta em muito essa demanda em nosso país. Se
considerarmos que, entre as causas da morte encefálica (5% dos óbitos
hospitalares entrem TCE, hemorragias cerebrais, tumores cerebrais
primários e anorexia cerebral) apenas os traumatismos cerebrais
decorrentes de acidentes de trânsito (entre 250 a 500 mil) são
responsáveis por vergonhosos 25 a 50 mil óbitos, a disponibilidade de
órgãos para transplante não é tão escassa como se diz, mesmo
descontando-se todas as possíveis exclusões entre os doadores e os
receptores. O que falta na: verdade é estrutura de captação e melhores
condições para transplantar esses órgãos que estão aí disponíveis. A
rigor, o transplante prescinde até do doador vítima de acidente de
trânsito: os países que passaram a obrigar o uso de cinto de segurança
para motoristas ou capacetes para bicicletas, experimentaram de início
uma pequena queda no número de transplantes, logo compensada com a
flexibilização dos critérios de aceitação do doador cadáver. Enquanto
não dispusermos desse recursos não podemos falar em “falta de
doadores”
Jornal do Conselho Federal de Medicina, outubro de 1995
VISÃO PSICOLÓGICA DA DOR
PE. EVANGELISTA M. DE FIGUEIREDO
Essa é uma reflexão endereçada principalmente aos Agentes de
Pastoral e a todos os profissionais da saúde que buscam não apenas a
cura clínica do doente, mas nos eu mundo interior, escutá-lo,
compreendê-lo e curá-lo no seu ser como um todo: físico-píquicosocial-espiritual.
A dor e o sofrimento são estímulos, que na vida de uma pessoa
aparecem como um alarme. É o ladrão que entra sem pedir licença na
vida do indivíduo alterando o bem-estar da pessoa e provocando, como
resposta, um comportamento. Como alarme, a dor tem efeito positivo,
pois assim o indivíduo fica sabendo que algo não vai bem no seu
organismo e pode com antecedência procurar ajuda. Uma pessoa que
percebe que está queimando a sua mão, súbito recebe o estímulo e
procura o mais rápido possível retirá-la do fogo.
O problema é quando a dor e o sofrimento se prolongam por
muito tempo, ameaçando o equilíbrio físico, psíquico, social e
espiritual do doente. É muito importante notar que há uma estreita
ligação entre o estado emocional da pessoa e o sofrimento físico. Basta
observar como os indivíduos nervosos desenvolvem com mais
facilidade úlceras de estômago. A dor modifica o mundo interno da
pessoa. Se ela não consegue superar as perdas e os obstáculos
provocados na sua vida, pelo sofrimento contínuo, pode entrar em ânsia,
tristeza, frustração e principalmente em depressão, fechando-se em si
mesma, não querendo mais lutar, perdendo o sentido da vida e não
vendo mais saídas para o seu sofrer, o que pode levar até ao extremo do
suicídio. O problema é que todos esse sentimentos e principalmente a
depressão influenciam negativamente piorando o estado físico do
indivíduo, e a debilidade física aumenta a depressão, criando o chamado
‘ciclo vicioso’.
A DOR É UMA EXPERIÊNCIA INFLUENCIADA:
-Pela história familiar. A preocupação de sofrer um ataque cardíaco de
uma pessoa que sente dor no peito e teve alguém na sua família que morreu de
enfarto é maior do que uma pessoa sem antecedentes familiares de mortes por
doenças cardíacas.
-Pela história pessoal do indivíduo. A internação no hospital é uma
experiência dura para qualquer pessoa, mas, é mais difícil ainda para quem é
internado pela primeira vez. Geralmente quem já esteve internado mais de
uma vez, e tem uma doença de difícil cura, começa a informar-se sobre o seu
mal lendo revistas, livros, artigos, enciclopédias etc. Lê tudo o que encontra
sobre a seu mal, tornando-se muitas vezes mais informado do que o seu
próprio médico.
-Pelo novo ambiente hospitalar. O próprio ambiente hospitalar significa
para o doente ser marginalizado. O doente entra num ambiente estranho do
qual não conhece as leis; de protagonista passa a ser espectador, sente-se
inútil, dependente de todos, com o tempo perde o seu lugar social, os eu status,
os eu trabalho, os seus amigos, os quais pouco a pouco vão se afastando do
ambiente triste do hospital. Não é fácil par o doente trabalhar com todas essas
perdas. Quem era conhecido como fulano, Fulana, na internação hospitalar
muitas vezes passa a ser identificado por um número, ou mesmo pelo órgão
doente. Eu mesmo, escutei rases como esta: “Hoje vamos fazer a cirurgia do
54, da neuro”. “Deixamos o fígado prá manhã de manhã’... Por outro lado, a
própria pessoa doente voltando toda a atenção para o seu órgão afetado corre o
risco de se identificar com ele, perdendo a sua verdadeira identidade de
pessoa.
-Pela cultura. Existem culturas que estão mais acostumadas ao
sofrimento e consequentemente mais capazes de suportar a dor. As mulheres
são mais fortes que os homens para conviver com a dor.
-Pelas motivações. Um soldado de guerra sente menos dor do que um
cidadão comum, porque direciona o seu sofrimento a um bem maior para ele,
que é a honra de defender a Pátria. São famosas as histórias dos Santos
Mártires que suportaram sofrimentos terríveis em defesa de fé, ou de pessoas
que por não conseguirem alcançar seus objetivos, queimaram as suas próprias
mãos sem demonstrarem de sentirem alguma dor. É muito importante o
significado que o doente dá ao seu sofrer.
-Pelo estado de ânimo atual do doente. Como foi dito antes, o doente
debilitado fisicamente, também sofre graves conseqüências emocionais. O
medo, a ânsia, a raiva, a angústia, a depressão, aumentam os sintomas da dor.
A depressão gera sofrimento, que, por sua vez gera depressão.
MECANISMOS DE DEFESA
Uma doença e principalmente uma internação hospitalar modificam
muito a conduta de vida interior e exterior da pessoa. A doença, quando
prolongada, nos coloca cara a cara com a idéia pouco agradável da morte que
s aproxima. Para suportar e sobreviver a tantas perdas o doente cria os
chamados “mecanismos de defesa”, que são truques com os quais o doente
procura desviar a atenção do seu próprio mal, para não pensar no pior e
consequentemente sofrer menos.
Elencaremos aqui alguns dos mecanismos de defesa mais conhecidos:
-Negação. O doente nega a sua própria doença, não aceitando-a. O
paciente diz: Isso não é nada, á uma dorzinha à toa, passará logo.
A negação da própria doença pode inclusive prejudicar o diagnóstico
médico. O paciente age como uma criança, que fecha o olho quando vê um
perigo, pensando que assim fugirá da realidade.
-Agressividade: O paciente não aceita a sua situação de doente, fica
nervoso contra a sua situação atual e sentindo-se incapaz diante do seu mal,
descarrega a sua frustração na primeira pessoa que lhe aparece à frente. Pode
ser o médico, a enfermeira, o agente de pastoral, ou mesmo o padre. O doente
chega a pensar que todos estão contra ele, inclusive o próprio Deus. A
agressividade não deixa de ter o seu lado positivo, no sentido que o doente
nessa fase ainda demonstra forças para lutar contra a sua situação.
-Depressão. É o contrário da agressividade. O doente se fecha em si
mesmo, entregando-se, agindo como um derrotado pelo destino, não querendo
mais lutar. É o sentimento mais terrível e destruidor. Pode levar a pessoa a
perder todo o sentido da vida, chegando inclusive ao suicídio.
-Regressão. Redução de interesse a seu corpo, egocentrismo. O doente
se torna criança, tentando atrair todas as atenções para si. Procura desenvolver
as necessidades primárias como comer, beber, dormir, etc. O paciente procura
ser o centro das atenções, ao redor do qual devem girar todas as pessoas.
No meu trabalho de enfermeira acompanhei muitos doentes que
tocavam a campainha chamando insistentemente a enfermagem. Na passagem
de plantão já alertávamos os colegas sobre a atitude de tais pacientes. O
problema é que às vezes a pessoa estava realmente precisando da presença da
enfermagem e por causa da sua atitude não recebia o devido tratamento.
-Projeção. O doente pode ver na enfermeira, no agente de pastoral ou
na freira, sua mãe, e no médico, seu pai. A projeção pode ser causada por
semelhanças físicas, tom de voz, e outras recordações que acompanham cada
um de nós, na maioria das vezes inconsciente. Por isso às vezes encontramos
alguém que nos diz: “parece que eu já te vi, mas não me lembro aonde!”. O
problema é quando também o profissional da saúde, através da projeção vê o
doente o seu filho.
-Fé exagerada. Alguns psicólogos vêem na fé exagerada, que
geralmente aumenta de maneira repentina quando a pessoa se adoece, um
mecanismo de defesa. A fé, nesse caso, é usada pelo doente para reconquistar
o amor de Deus e consequentemente receber ajuda. Muitos doentes procuram
até estabelecer um pacto de comércio com Deus. Se recuperar a sua saúde faz
algum sacrifício, ou mesmo, uma visita à Aparecida do Norte..., como se Deus
fosse um comerciante de bênçãos e favores. Deus é um bom Pai e nos ama
sempre, não é um ser que muda de humor de acordo com nossas atitudes.
Como Deus nos ama sempre, assim também nós devemos amá-lo sempre e
não somente nas horas das dificuldades.
Os mecanismo de defesa não são de tudo negativos, são até necessários
e ajudam os pacientes a superar as dificuldades.
Se não ajudaremos o doente a conviver essa nova realidade, as emoções
que invadiram a sua vida, acabam influenciando negativamente no processo
da cura.
ALGUMAS SUGESTÕES DE AÇÃO
No trabalho pastoral com os doentes é muito importante a observação,
ouvir mais do que falar, sem jamais julgar apressadamente. Jamais fechar a
pessoa em uma caixa de conclusões apressadas ou pré-fabricadas, ou
preconceitos pessoais. Cada pessoa é um mundo do sentimento, de emoções,
tristezas, alegria, etc. que deve ser respeitada na sua história, na sua
individualidade, no seu se mais íntimo e sagrado, muitas vezes desconhecido
por ela mesma.
-Não ser apenas simpático. O simpático é aquele que está sempre de
acordo com tudo e com todos. Se o paciente reclama da comida do hospital,
fala mal do médico, da enfermeira, etc., a pessoa, “o simpático”, concorda, se
fala bem, melhor ainda. É a pessoa que tem medo do confronto, que tem medo
de não ser aceito pelos outros.
-Não ser apático. Apático é aquela pessoa que se mantêm à distância do
doente por medo de se envolver com os seus problemas, com os seus
sentimentos e sofrer junto.
-Agir com empatia. Segundo Carl Rogers, “Empatia é sentir o mundo
íntimo dos valores pessoais do cliente como se fosse próprio, sem jamais
perder a qualidade do ‘como se...”. Sentir a sua confusão, a sua timidez, a sua
raiva, os seus sentimentos de ser tratado injustamente, como se fosse
próprios, tendo o cuidado de não confundir os sentimentos do paciente com
os próprios. Essa é a condição indispensável para instaurar uma relação
interpessoal produtiva”.
Empatia é estar pronto a escutar mais do que falar. Entrar no mundo do
doente, compreendê-lo. A partir do seu mundo caminhar com ele, partilhando
do seu sofrimento, das suas angústias e desilusões, jamais impondo soluções
apressadas. Agir a exemplo de Jesus Cristo, o qual sendo Deus não
permaneceu na sua condição divina, mas se fez humano, entrou no nosso
mundo, para caminhar conosco nos conduzindo a Deus, sem todavia perder a
sua condição divina. E saber sair de si, para viver no mundo do outro, sem
perder a sua identidade.
Para uma relação interpessoal a esse nível é de suma importância o
auto-conhecimento, para não confundir o sentimentos do paciente com os
próprios sentimentos.
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