O EMPIRISMO, O TRANSCENDENTALISMO E OS PROTOCOLOS NA MEDICINA O EMPIRISMO E O TRANSCENDENTALISMO NA MEDICINA E A POLÊMICA PROTOCOLAR NA ABORDAGEM DAS PNEUMOPATIAS NA INFÂNCIA Nada mais justo reverenciar o empirismo, obviamente que não o experimentalismo irresponsável e sem desdenhar os protocolos, particularmente, os heterodoxos, os quais, por proporem alternativas consistentes, podem até ser encarados como uma nova ortodoxia, no entanto, desprovidos do caráter radical. A interpretação desse tributo ao empirismo, ainda que de certa forma fantasiosa e polêmica, fica à critério médico, todavia, não intenciona deixar a impressão de estarmos na contramão, remando contra as evidências ou de sofismar sobre os protocolos, independentemente da linha de tratamento estar focada na alopatia ou vinculada à homeopatia. A diferença entre estes dois métodos de tratamento consiste no emprego de remédios que produzem efeitos contrários aos das doenças na alopatia, enquanto que na homeopatia administram-se específicos, em doses infinitésimas, capazes de produzir em pessoas “sãs”, efeitos análogos aos sintomas das doenças à que se destinam combater. Trocando por miúdo: a homeopatia está direcionada à prevenção das doenças e a alopatia abrange tanto a profilaxia, através dos imunobiológicos e imunomoduladores, assim como a cura, o tratamento de resgate das doenças, endossado cientificamente e com o respaldo do aprimoramento tecnológico dos anos vindouros. Não há como tratar uma pneumonia ou meningite, à não ser com medicação alopática. Considerando-se esse adendo, não seria coerente subestimar o empirismo, haja vista que a medicina (alopática) apesar de se assentar em conceituações e condutas embasadas cientificamente, pelo menos é o que se idealiza, alguns conceitos são dogmáticos e, portanto, já deixam entrever um empirismo embutido e muitas das condutas se revestem do empirismo de forma ainda mais explícita ou menos implícita, `a exemplo das evidências que não contam com a chancela científica, controversas, mas, em contrapartida, gratificantes, uma vez que, frequentemente, são elas que fazem a diferença e daí seu lado apaixonante, o seu lado de magia. Aliás, a medicina nasceu empírica sincretizada com o naturalismo e com o transcendentalismo, e ao esboçar um histórico da medicina aos anos atuais, méritos sejam feitos à Ayurveda, que em sânscrito significa ciência (veda) da vida (ayur), emergente de cerca de 7 mil anos atrás, portanto, senão o mais, então, um dos mais antigos sistemas medicinais da humanidade e daí ser reconhecida como a mãe da medicina, a qual continua sendo a medicina oficial da Índia. Com uma técnica de baixo custo, desenvolvida pelos hindus em parceria com o Japão, frente às mesmas necessidades para atender as suas gigantescas populações carentes, teve seus princípios e ensinamentos difundidos e embasados pela medicina árabe, chinesa, grega e romana que a adequaram à sua epigenética. Assim, surgiu a Ioga- sistema místico-filosófico da Índia, o qual procura mediante determinados exercícios corporais, respiratórios, mentais, hipnóticos etc., o domínio absoluto do espírito sobre a matéria e a união com a divindade, ainda que por meio do sobrenatural- e as técnicas da medicina chinesa, com a introdução de agulhas metálicas finas em pontos chamados vitais do corpo humano para tratamento ou aliviar dores (acupuntura), a auriculoterapia e, entre outras técnicas orientais, a moxibustão que é o ato de queimar a moxa sobre a pele. E ao se prospectar aos séculos V e VI antes de Cristo, embora seja questionável a existência de faculdades e, muito menos, de universidades que conferissem diplomas que não oficiosamente, a medicina se fundamentava basicamente no naturalismo, aclamado com a célebre frase de que seu alimento seja seu remédio e seu remédio seja seu alimento, que consagrou a filosofia preconizada pelo médico grego Hipócrates e que se perpetua até ao nosso século XXI, com sectários que parafraseiam este princípio com os ditos populares do morre-se pela boca e o veneno pode estar na mesa. Dessa maneira, o naturalismo transvestido de empirismo ou vice-versa reinaram absolutos, em termos de Brasil até pelo menos os anos de 1500- anos do pau brasil- referenciados como pajeísmo, neologismo criado não propriamente em deferência à catequese indígena pelos jesuítas, mas sim em função do misticismo envolvendo os curandeiros, os pajés dos índios brasileiros, os xamãs dos índios norte-americanos. Recursos bem-vindos, ainda que como aporte psicológico, uma vez que não haviam outros meios à não ser a crença mística e o emprego de ervas supostamente medicinais, o que configurava uma medicina naturalista- a arte e ciência de curar e prevenir doenças com base no natural. Se fizermos uma prospectiva aos anos atuais, corresponde à um cenário que se assemelha ao dos fitoterápicos- tratamento com remédios de origem vegetal (fitoterapia) - com as devidas ressalvas no que concerne à comprovação científica das propriedades medicinais de algumas ervas, em que ainda se conjectura muito e pouco se sustenta e à um cenário no qual os bastidores não deixam de se identificar com o cerimonial do umbandismo, nos terreiros com os orixás em saravaôs com xangô e seus axés. Reflete, portanto, o rito de uma liturgia religiosa que não deixa de preservar o encantamento do seu folclore, com suas crendices, superstições, simpatias (espadas de São Jorge, arrudas e pimenteiras), cantos, contos, festas e indumentárias, não muito distantes do xamanismo (“pajeísmo”), com o diferencial positivo de estar, no presente, sincretizado ao catolicismo romano com o reconhecimento de iemanjá (orixá feminino das águas, mãe d’água, sereia/ rainha do mar) como Nossa Senhora do Rosário e com o espiritismo da chamada mesa branca. Doutrina do pensador francês Allan Kardec e cujo paradigma brasileiro é o nosso eterno Chico Xavier com as suas psicografias, as quais, somadas a obras de outros paranormais, espelham uma ciência que tem alguma sustentação literária e um ritual sem as excentricidades do umbandismo, mas que abriga o quimérico transcendentalismo das intervenções mediúnicas a lá Bezerra de Menezes e João de Deus, as quais, por vezes, resplandecem com efeitos mais impactantes. Enfim, uma medicina que não há como caracterizar e bem distante de se abraçar, no entanto, nas devidas proposituras e independente do credo, de se respeitar, ainda que como um exercício de fé atrelado ao psicossomático das enfermidades, assim como foi no “pajeísmo” e nos tempos que antecederam inclusive o hipocratismo com o misticismo panteísta extremista, até mesmo por falta de alternativa, da doutrina aristotélica, que emergiu nos séculos IV a.C. graças ao filósofo grego Aristóteles. Assim, nos reportando finalmente aos tempos atuais, mesmo que se pesem os pesares, há de se admitir que a medicina empírica não deixa de se impor com certa soberba, obviamente que sem essa conotação, mas valendo-se do eufemismo, embora não soe agradável, como mandraca. Termo que originou o nome do mágico Mandrake, ilusionista capa de um magazine disputado de muito antigamente e daí outro neologismo: o da mandracaria. E mesmo que se concretizem os promissores avanços tecnológicos esperados para os anos vindouros, o empirismo- essa “mandracaria”- longe das técnicas do além, mas, sim, em íntima comunhão com a prática médica, o que pode lhe conferir ares intuitivos/ sensitivos/ de vidência- “feeling”- tende a não perder a majestade e muito menos do seu fascínio. O empirismo sempre se fará presente com o endosso do a critério médico expresso em bulários, compêndios e nos tratados e em conformidade com o jargão de que cada caso é um caso, explicitando a inviabilidade de se protocolar pessoas, a necessidade de se preservar a individualidade - os pacientes – e não padronizar condutas indistintamente. E é inconteste que continuará fazendo a diferença na abordagem diagnóstica e, sobretudo, nos tratamentos, particularmente cirúrgicos, das doenças de maior complexidade, uma vez que a teoria e a técnica cirúrgica na prática podem ser outras. E como é inerente do ser humano (alguns), o empirismo continuará despertando admiração e respeito de um lado e ciumeira do outro. Comportamento esperado, até factível de ser encarado como normal, entre opositores que se fazem valer das mesas redondas, simpósios e seminários, palcos de disputa de prestígio. Afinal, o empirismo dá guarida às controvérsias e o que seria do espírito de porco sem as mesmas! No entanto, como o propósito não é propriamente o de ovacionar o empirismo, tampouco o de fomentar controvérsias infundadas e nos permitindo conjecturar sobre as obviedades, não se pode sonegar que são as evidências comprovadas cientificamente que realmente dão sustentação às condutas e daí a necessidade da Academia Americana de Pediatria, das Sociedades Médicas e dos Centros de Estudos, em rever as diretrizes clínicas para os tratamentos das doenças passíveis de protocolo à cada 5 anos, período estimado para que as normas sejam revisadas/ reavaliadas e, eventualmente, atualizadas. Com a devida vênia, este prazo, por guardar certa elasticidade, merece reflexão, pois, com a velocidade da internet, alguns artigos podem estar um tanto quanto obsoletos assim que recém editados. De modo que o Centro de Estudos do Complexo Hospitalar Edmundo Vasconcelos procura conciliar este tempo através das reuniões que promove anualmente com seu corpo clínico, para que cada especialidade ilustre as evidências recentes, as novas pesquisas em andamento assim como as inovações das técnicas cirúrgicas e de forma interativa junto aos participantes agregue experiência e estabeleça as normas/ regras vigentes. E o Departamento de Pediatria sente-se à vontade em eleger o tema à baila, pois foi pioneiro na implantação do serviço de assistência ao bebê chiador. Apesar do diagnóstico soar simpático, representa o protótipo/ paradigma das pneumopatias de maior complexidade, em vista da pluralidade de fatores que acometem os lactentes com crises de tosse, chiado no peito (sibilância) e/ou desconforto respiratório. Em termos acadêmicos, é um problema que debuta nos primeiros dois anos, particularmente no primeiro semestre, em especial no segundo trimestre de vida. Entre 3 e 6 meses, idade que coincide com o ingresso à berçários e com o desmame materno. Contudo, é importante ressaltar que estes sintomas podem eclodir em qualquer idade. Não é privilégio dos lactentes, inclusive pode assumir as mesmas características evolutivas (o mesmo padrão evolutivo) no que tange às recorrências frequentes e próximas, embora em escala progressivamente menor à medida que a idade avança, pelo menos é a tendência, e sob uma plataforma de abordagem não muito distinta, uma vez que a fisiopatologia está calçada na hiperreatividade brônquica. Fisiopatologia comum a etiologias distintas e daí as respectivas nomenclaturas diagnósticas de Bronquiolite e de Bebê chiador- empregadas nos primeiros 2 anos de vida- e as de Bronquite, Asma e a de broncoespasmo (BE), a serem empregadas a partir dessa idade. Fisiopatologia que faculta a instituição de um tratamento de resgate (alívio) protocolar nas agudizações (exacerbações) das crises, independentemente da idade do paciente, com corticosteroide sistêmico associado à medicação beta-2 adrenérgica inalatória de curta ação e antibióticoterapia na vigência de infecção bacteriana. Longe da pretensão de esgotar o assunto, que, em termos preventivos, exige uma abordagem diagnóstica e terapêutica multiprofissional complexa, é importante, até em atenção à tendência universal de se protocolar condutas, que se estabeleçam as indicações de alguns dos procedimentos de ordem multidisciplinar, pesando as dificuldades em realizá-los na população infantil, particularmente nos lactentes e pré-escolares, e consequentemente contabilizar os maiores riscos de resultados discrepantes com os achados clínicos e de interpretações ambíguas frente aos resultados inconclusivos em considerá-los excludentes ou como falso-negativos. Em suma: um quadro que propicia as controvérsias e quando, então, desponta o empirismo do faça o que faço porque dá certo e variáveis. PARA MAIORES DETALHES CONSULTE OUTROS ARTIGOS DISPONÍVEIS NESTA SEÇAO.