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Ministério da Educação
Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica
Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro
Campus Realengo – Curso de Bacharelado em Farmácia
TRABALHO DE CONCLUSÃO DE CURSO
BACHARELADO EM FARMÁCIA
“Na+/ K+-ATPase: ASPECTOS GERAIS DA
ENZIMA, FORMAS CLÁSSICAS DE
MODULAÇÃO E NOVAS PERSPECTIVAS
COMO ALVO FARMACOLÓGICO”
Aluna: Renata da Silva Canário
Orientadora: Profª Drª Elisa Suzana Carneiro Pôças
Rio de Janeiro, 23 de março de 2013
Na+/ K+-ATPase: ASPECTOS GERAIS DA ENZIMA,
FORMAS CLÁSSICAS DE MODULAÇÃO E NOVAS
PERSPECTIVAS COMO ALVO FARMACOLÓGICO
Na + / K +-ATPase: OVERVIEW OF THE ENZYME,
CLASSIC FORMS OF MODULATION AND NEW
PERSPECTIVES AS PHARMACOLOGICAL TARGET
Renata da Silva Canário1, Elisa Suzana Carneiro Pôças2.
1. Bacharelado em Farmácia – Instituto Federal de Educação, Ciência e
Tecnologia do Rio de Janeiro – IFRJ – Campus Realengo.
[email protected]
2. Farmácia, Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de
Janeiro – IFRJ – Campus Realengo. [email protected]
RESUMO
A Na+/K+- ATPase é uma proteína transmembranar responsável por manter um
gradiente eletroquímico fundamental para o funcionamento celular. A regulação
por glicosídeos cardíacos inibe a enzima promovendo efeito inotrópico positivo
e benefícios hemodinâmicos desejados no tratamento para insuficiência
cardíaca. No entanto, o fato de esses fármacos apresentarem desvantagens no
seu uso justifica a busca por novos inibidores, incluindo estruturas nãoesteroidais, como os já descritos cumestanos, antracenos e xantonas. Mais
recentemente, demonstrou-se a relação da Na+/K+- ATPase na proliferação
celular de células tumorais, além de estudos que descreveram que baixas doses
de ouabaína, um glicosídeo cardíaco, podem aumentar a atividade da Na+/K+ATPase de forma a proteger culturas de hipocampo da isquemia experimental.
Deste modo, a Na+/K+- ATPase tem sido apontada como alvo farmacológico
para outras patologias além da insuficiência cardíaca, como, por exemplo, no
tratamento antitumoral.
PALAVRAS-CHAVE: Na+/K+-ATPase; glicosídeo cardíaco; novos inibidores,
cumestanos.
ABSTRACT
The Na+/K+ - ATPase is a transmembrane protein responsible for maintaining
an electrochemical gradient essential for cell function. The regulation by cardiac
glycosides inhibits protein promoting positive inotropic effect and hemodynamic
benefits desired in the treatment for heart failure. However, these medications
present disadvantages in their use justifies the search for new inhibitors,
including non-steroidal structures as the already described cumestans,
antracens and xantones. More recently, It was described the relationship of
Na+/K+ - ATPase in cell proliferation and studies have shown that low doses of
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ouabain, a cardiac glycoside, can increase the activity of Na +/K+- ATPase to
protect hippocampal cultures of experimental ischemia.Nevertheless Na+/K+ ATPase has been pointed as pharmacological target for other pathologies
besides heart failure, as in anti-tumoral therapy.
KEYWORDS: Na+/K+-ATPase, cardiac glycosides, new inhibitors, cumestans.
INTRODUÇÃO
Embora a Na+/K+-ATPase seja uma enzima de estrutura elucidada há
apenas algumas décadas, a mesma tem sido utilizada como alvo farmacológico
de substâncias oriundas de plantas e animais, denominados esteróides
cardiotônicos, em tratamento de insuficiência cardíaca congestiva (ICC) bem
antes disso. A primeira teorização a respeito da existência de uma bomba
iônica responsável pelo influxo de K+ e extrusão de Na+ localizada na fibra
muscular ocorreu no ano de 1941 com Robert Dean enquanto que sua
identificação e caracterização foram esclarecidas por Jens Christian Skou em
1957 (BATISTA, 2007).
Sendo um das ATPases mais extensivamente estudadas (AIRES et al,
2008), a Na+/K+-ATPase é uma isoenzima encontrada na membrana
plasmática de todos os mamíferos, responsável pelo transporte ativo de íons
por meio da hidrólise de uma molécula de ATP. Este transporte é fundamental
para a sobrevivência da maioria das células eucarióticas por estar envolvido na
manutenção de diversas funções celulares (BATISTA, 2007).
Apesar de sua grande semelhança estrutural com outras enzimas
presentes em abundância nas células eucarióticas como a H+/K+-ATPase e
Ca2+/Mg2+-ATPase, apenas a Na+/K+-ATPase possui regulação específica por
glicosídeos cardíacos (BATISTA, 2007).
Os glicosídeos cardíacos são fármacos utilizados em protocolos para
tratamento da ICC sintomática em pacientes de classe III (assintomáticos em
repouso e sintomáticos em atividade menor que a habitual) e IV (sintomático
apresentando dispinéia, fadiga em repouso e palpitação), em associação com
outros fármacos de primeira linha para o tratamento. Os glicosídeos cardíacos
não promoverem a regressão da doença, no entanto, atuam positivamente na
melhora dos sintomas, estabilização do quadro e prevenção de piora
(SOCIEDADE BRASILEIRA DE CARDIOLOGIA, 2002).
A inibição da Na+/K+-ATPase por esses glicosídeos cardíacos proporciona
o aumento dos níveis de Ca2+ intracelulares que interagem com as proteínas
musculares proporcionando a contração do miocárdio e, consequentemente
aumentando o bombeamento do sangue pelo coração (POÇAS, 2007).
Os glicosídeos cardíacos de origem vegetal possuem distribuição restrita
e esporádica em apenas algumas dezenas de espécies. Em tempos mais
antigos, extratos de plantas contendo glicosídeos cardíacos já eram
preparados por egípcios, romanos e gregos na medicina popular como
diuréticos, tônicos cardíacos e eméticos. A primeira descrição feita do extrato
de planta do gênero Digitalis popularmente conhecida como dedaleira, utilizado
no tratamento ICC foi realizado no ano de 1775 pelo médico William Withering
(POÇAS, 2007).
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Os fármacos digitálicos em circulação no mercado atual são a digoxina e
digitoxina para uso clínico. Para uso experimental, principalmente in vitro,
utiliza-se a ouabaína, também um glicosídeo cardíaco, porém não digitálico
extraído das sementes do Strophantus gratus (NESHER, 2007 apud PÔÇAS,
2007, p.10).
Além da utilização de glicosídeos cardíacos na ICC, novas aplicações
para esses fármacos têm sido estudadas. O fato de haver o aumento de Na + e
redução do K+ intracelular levantou à hipótese de que a homeostasia em
células tumorais sofre modificação. Algumas linhas de estudo provaram que a
regulação da Na+/K+-ATPase por glicosídeos cardíacos em dosagens de 10 nM
a 500 µM podem reduzir tumores como os de mama e próstata já que a
proliferação das células tumorais está em grande parte relacionada com o
aumento da expressão da enzima (CHEN, 2005). Além disso, um interessante
estudo realizado em 2009 por Oselkin mostrou que baixas doses de
glicosídeos cardíacos (120nM) aumentam a atividade da Na+/K+-ATPase de
forma a proteger culturas de hipocampo da isquemia experimental.
Apesar de todos esses benefícios, novos fármacos inibidores da bomba de Na+
e K+ tem sido buscados como alternativa aos glicosídeos cardíacos que
possuem desvantagens com o seu uso como o baixo índice terapêutico e
efeitos adversos graves. EM 2001, então, foram testadas moléculas nãoesteroidais derivadas sinteticamente da wedelolactona, substância isolada da
planta Eclipta prostrata L. (Asteraceae) (POÇAS, 2001). Uma dessas
moléculas apresentou ação inibitória sobre a Na+/K+-ATPase sendo alvo de
estudo alguns anos depois (POÇAS, 2003). Derivados de compostos tricíclicos
como os antracenos, fluorenos (ZHANG, 2010) e xantonas também
apresentaram ação inibitória (XIE et al, 2012).
Sendo assim, por ser o alvo farmacológico de glicosídeos cardíacos para
o tratamento de diversas patologias como a insuficiência cardíaca, o câncer e a
isquemia, a Na+/K+-ATPase mostrou-se uma enzima de grande relevância
como alvo farmacológico.
Deste modo, este trabalho tem como objetivo realizar uma revisão
bibliográfica a respeito de aspectos gerais da enzima Na +/K+-ATPase, bem
como apresentar suas formas clássicas de regulação, evidenciando o
crescente interesse nesta enzima como alvo molecular não apenas na
insuficiência cardíaca, mas também para outras patologias.
METODOLOGIA
O levantamento bibliográfico foi realizado na base de dados PubMed e
Scielo (Scientific Electronic Library Online) utilizando-se as palavras-chaves
Na+/K+-ATPase, cumestanos como inibidores da Na+/K+-ATPase e glicosídeos
cardíacos associados à palavra Na+/K+-ATPase. Dados também foram colhidos
em teses de mestrado de 2007 e 2012 e tese de doutorado de 2007.
As buscas pelas palavras-chave totalizaram em 27.867 artigos. Foram
selecionados artigos que obedeceram a fatores de inclusão como: período de
publicação entre o ano de 2002 a 2012 e artigos que abordassem assuntos
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pertinentes ao tema. Já os critérios de exclusão foram: artigos publicados fora
do período desejado e assuntos não pertinentes ao tema.
ASPECTOS GERAIS DA NA+/ K+–ATPASE
A Na+/K+-ATPase é uma das principais proteínas transportadoras de íons
situada nas células de quase todos os mamíferos. Tendo como principal função
o transporte dos íons Na+ para fora da célula e dos íons de K + para dentro da
célula na proporção de 3:2, esta enzima está envolvida em numerosos
processos como captação de neurotransmissores, aminoácidos e açúcares,
extrusão de cálcio, mudanças no potencial elétrico de membrana mediado por
canais iônicos, volume celular, produção de calor e regulação do pH
intracelular. Além disso, a Na+/K+-ATPase tem papel fundamental no transporte
transepitelial, como, por exemplo, na reabsorção tubular renal de Na + e água
(POÇAS, 2007).
Todavia, é necessário energia para que o transporte de íons ocorra contra
o gradiente eletroquímico (transporte ativo). A enzima para a obtenção dessa
energia promove a hidrólise da molécula de ATP consumindo cerca de 17% do
volume total de ATP celular (SCHRAMM et al, 94 apud SMITH et al, 2004,
p.385).
Classificada como ATPase do tipo P, a bomba de Na + e K+ tem como
principais características: o resíduo aspartil no sítio catalítico o qual é
fosforilado pelo ATP durante o mecanismo de catálise e a existência de dois
estados conformacionais E1 e E2. A presença de dois estados conformacionais
foi considerada fundamental para o funcionamento do mecanismo de catálise,
pois a mudança de conformação de um estado para o outro que determina uma
transição de afinidade e de acessibilidade dos sítios catalíticos e de ligação aos
íons (AIRES et al, 2008). Na figura 1 podemos observar uma esquematização
dos intermediários formados durante o ciclo da Na+/K+-ATPase.
ATP
ADP
E1
E1P
3Na+
(intracelular)
2K+ (extracelular)
3Na+
(extracelular)
+
2K (intracelular)
E2
E2P
+
+
Figura 1 – Esquematização do ciclo Na /K -ATPase (Retirado de CAMPBELL,
1995 apud POÇAS, 2007)
Pi
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H2O
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Na figura 1, E1 representa o estado em que os sítios de ligação da
enzima se encontram voltados para o citosol apresentando maior afinidade
pelo íon Na+ e o sítio de fosforilação se localiza na região hidrofílica da
proteína. A partir de quando ocorre a entrada de 3 íons Na + nos sítios de
ligação, a enzima é imediatamente fosforilada por ATP em presença de Mg 2+,
gerando uma fosfoenzima de alta energia E1-P. Em seguida, a fosforilação do
resíduo de aspartil promove a mudança do estado conformacional da enzima
para E2-P. Nesse segundo estado o resíduo acil-fosfato encontra-se com a
constante de equilíbrio reduzida tornando a fosfoenzima de baixa energia. Essa
transição do estado E1-P para E2-P permite que os sítios de ligação a íons se
voltem para o meio extracelular. A nova conformação agora possui baixa
afinidade por íons Na+ sendo estes liberados no meio, e alta afinidade pelos
íons K+ onde 2 deles se ligarão ao sítio. Adicionalmente, é na conformação E2
que os sítios de ligação aos glicosídeos cardíacos se encontram voltados para
o meio extracelular possibilitando a interação de tais inibidores com a Na+/K+ATPase. Simultaneamente, ocorre a entrada de água no sítio catalítico
liberando o fosfato ligado ao resíduo fazendo com que a enzima retorne ao seu
estado E1 (AIRES et al, 2008).
Para sustentar todo o seu ciclo enzimático a Na +/K+-ATPase dispõe de
uma estrutura heteromérica composta pelas subunidades α, β e FXYD (Figura
2) podendo cada uma variar de isoforma conforme o órgão e a espécie. As
primeiras evidências da existência de isoformas foram descritas em estudos
feitos com preparações de roedores. O contraste entre o perfil heterogênico de
inibição Na+/K+-ATPásica em preparações de cérebro de rato descrito por
MARKS e SEEDS (1978) e o perfil das curvas de inibição das preparações de
rim de rato com uma única população enzimática indicou claramente a
presença de diferentes isoformas em ambos os órgãos. Atualmente, com os
avanços da biologia molecular são descritas quatro isoformas para as
subunidades  e : 1, 2, 3 e 4, 1, 2, 3 e m. Para a subunidade FXYD
em mamíferos foram identificadas 7 isoformas, sendo 5 auxiliares a Na+/K+ATPase (GEERING, 2005).
A subunidade α é tida como a mais importante por estar encarregada de
efetuar as principais atividades enzimáticas como as propriedades catalíticas e
de transporte contendo os sítios de ligação de íons, de fosforilação, de
interação com o ATP e de inibição por glicosídeos cardíacos. A isoforma α1
também chamada de housekeeping é encontrada em praticamente todos os
tecidos, sendo ainda a única isoforma encontrada no tecido renal, a α2 nos
músculos esquelético, liso vascular e cardíaco, no cérebro e em adipócitos, α3
em neurônios e ovários e α4 altamente expressas em espermatozóide estando
relacionada à sua mobilidade. (BLANCO et al, 2000). Quanto a afinidade aos
íons, cineticamente, α2 e α3 possuem uma maior afinidade ao íon Na + do que
α1, embora as três subunidades apresentem mesma afinidade pelo íon K +
(IBRAHIM, 1997apud POÇAS, 2007). O mesmo ocorre em relação à
sensibilidade à ouabaína onde as subunidades α2 e α3 são sensíveis à droga,
enquanto a subunidade α1 é tida como resistente (BLANCO e MERCER,
1998).
Na subunidade β, as quatro isoformas identificadas parecem estar
envolvidas na oclusão de K+ e na modulação da afinidade de K+ e Na+ sendo,
por isso, essenciais para a atividade normal da enzima. As isoformas β1 e β2
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podem ser encontradas em diferentes tecidos de mamíferos e pássaros
enquanto que β3 em anfíbios, ratos e humanos (BLANCO e MERCER, 1998).
Ao lado das subunidades α e β encontra-se a subunidade γ também
denominada subunidade FXYD que interage com Na+/K+-ATPase influenciando
aparentemente em sua afinidade pelo K+ extracelular. As isoformas da
subunidade FXYD também apresentam distribuição tecidual específica. A
isoforma FXYD1 (fosfolema) é expressa nos músculos cardíaco e esquelético,
a FXYD2 ou subunidade γ foi a primeira isoforma que se mostrou associada à
função da Na+/K+-ATPase renal, FXYD4 (Fator induzido por hormônio
corticosteróide – CHIF) é expressa no rim e cólon, e FXYD7 é expressa no
cérebro. Todas as isoformas mencionadas em adição a FXYD5, relacionada a
canais iônicos estão envolvidas na regulação específica da atividade
enzimática. As variações das isoformas demonstram uma complexidade na
regulação da Na+/K+-ATPase dos gradientes de Na+ e K+, necessários para a
realização de funções teciduais apropriadas, como a reabsorção renal de Na +,
a contratilidade muscular e excitabilidade neuronal (GEERING, 2005).
+
+
Figura 2- Modelo estrutural da Na / K -ATPase (Retirado de BLANCO e MERCER,
1998)
No modelo estrutural acima estão representadas as subunidades da Na+/
K -ATPase. A subunidade α apresenta 10 domínios transmembrânicos, sendo
que seus grupamentos amino-terminal e carboxi-terminal estão no citosol; entre
os domínios 4 e 5 há uma longa alça citoplasmática que contem o sítio de
fosforilação catalítica e os seus sítios para interação com o ATP. A subunidade
β possui apenas um domínio de membrana com grupamento amino-terminal no
citosol e carboxi-terminal no meio extracelular. A subunidade γ ou FXYD possui
um domínio transmembrânico com grupamentos amino-terminal voltado para o
meio extracelular e carboxi-terminal para o citosol (AIRES et al, 2008).
+
[CANÁRIO&PÔÇAS, 2013]
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MODULADORES CLÁSSICOS DA NA+/K+-ATPase
Os glicosídeos cardíacos há séculos são utilizados em tratamentos para
ICC devido aos seus efeitos inotrópicos positivos e efeitos benéficos na
hemodinâmica. No entanto, a descoberta da Na+/K+-ATPase como o receptor
dos glicosídeos cardíacos só ocorreu no ano de 1963 por REPKE e PORTIUS
sendo o mecanismo de ação melhor esclarecido em 1977 por AKERA e
BRODY.
Quanto à estrutura química, os esteróides cardiotônicos são compostos
por um núcleo esteroidal acompanhado de um anel insaturado de lactona
possuindo ou não um glicosídeo. Seu núcleo esteroidal é precisamente
composto por 17 átomos de carbonos sendo o carbono 17 ligado ao anel de
lactona que varia quanto ao seu número de membros. Nos bufadienolídeos
(Figura 3.a) o anel apresenta 6 membros, enquanto que nos chamados
cardenolídeos (Figura 3.b) o anel de lactona apresenta 5 membros em sua
estrutura.
Figura 3 – Estrutura química da bufagenina (3.a) e digitoxigenina (3.b) (Retirado de
FRAGA E BARREIRO, Química Nova, 1996).
Na figura 3.a encontra-se uma ilustração de um bufadienolídeo,
bufagenina e na figura 3.b uma ilustração de um de um cardenolídeo,
digitoxigenina. Na figura 3.a e b podemos observar a diferença de 6 membros
(bufadienolídeos) e 5 membros (cardenolídeos) no anel de lactona,
respectivamente.
O glicosídeo cardíaco é assim definido devido a presença da porção
glicosídica (um ou mais açúcares) ligada ao carbono 3 do núcleo esteroidal da
molécula (Figura 4). Alguns exemplos de glicosídeos cardíacos bufadienolídeos
são a proscilaridina A e de cardenolídeos são a digoxina oriunda da Digitalis
lanata Ehrhart, digitoxina da Digitalis purpúrea L. e uma das mais estudadas e
que também será abordada neste artigo, a ouabaína oriunda da Strophantus
gratus Franchet (BATISTA, 2007).
[CANÁRIO&PÔÇAS, 2013]
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Figura 4 – Estrutura geral de glicosídeos cardíacos (POSSAS E DIAMANDIS, 2008).
Acima encontra-se a estrutura básica de um glicosídeo cardíaco com o
núcleo esteroidal, anel lactônico de 5 membros (cardenolídeos) e 6 membros
(bufadienolídeos) e a porção de açúcar.
Os bufadienolídeos também possuem origem vegetal como, por exemplo,
os originados da família Crassulaceae, assim como animal sendo encontrados
em altos níveis em anfíbios da família Bufonídae. Acredita-se que os altos
níveis de bufadienolídeos nesses animais auxiliam na migração entre
ambientes aquáticos onde o sal encontra-se presente ou não e, ainda como
mecanismo de proteção contra predadores. As convulsões e paradas cardíacas
provocadas em animais de pequeno porte pela intoxicação por bufadienolídeos
de sapos é semelhante a intoxicação por digitálicos (BATISTA, 2007).
O efeito inotrópico positivo desses esteróides cardiotônicos é resultado da
ligação do mesmo à subunidade α levando a inibição da Na+/K+-ATPase e
permite o aumento da concentração de Na+ intracelular. A força propulsora
para a extrusão de Ca2+ pelo trocador Na+/Ca2+ é então reduzida o que provoca
uma maior captação de Ca2+ pela Ca2+-ATPase de retículo sarcoplasmático
(SERCA) e, consequentemente aumenta o conteúdo de cálcio do retículo
disponível para a liberação de cálcio induzida por cálcio. Como resultado final,
tem-se na sístole uma maior disponibilidade de Ca2+ no citosol para interagir
com as proteínas contráteis, aumentando a força de contratibilidade do
miocárdio (AIRES et al, 2008).
Além do transporte de íons foi descoberta recentemente que a Na+/K+ATPase situada em tecidos não musculares possui a função de sinalização
celular iniciada com a interação do glicosídeo cardíaco com a enzima (Figura
5).
[CANÁRIO&PÔÇAS, 2013]
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Figura 5– Esquema representativo das vias de sinalização (XIE e ASKARI, 2002).
A figura acima se trata de um esquema representativo das vias de
sinalização ativadas pelos glicosídeos cardiotônicos quando interagem com a
Na+/K+-ATPase (em vermelho) situada no sinalossoma caveolar – um
microdomínio celular. Nele a Na+/K+-ATPase está ligada à proteína
transmembranar caveolina 1 colocalizada com EGFR, a tirosina cinase Src e a
proteína G monomérica, Ras. A ativação da sinalização celular ocorre por meio
da ligação da enzima com o glicosídeo cardíaco e estimulação subsequente da
proteína tirosina cinase Src que transativa o receptor do fator de crescimento
epidérmico (EGFR), juntamente com o recrutamento de proteínas adaptadoras
e Ras ativada leva ao incremento da produção de espécies reativas de
oxigênio (ROS) e ativação da cascata de cinases Ras/Raf/MEK/ERK (XIE e
ASKARI, 2002). De forma ainda desconhecida, tais processos resultam no
aumento do Ca2+ sistólico e diastólico e oscilações de Ca2+ em células do
epitélio renal, além de estarem envolvidas no de crescimento, proliferação e
diferenciação celular e metastáse.
ESTERÓIDES CARDIOTÔNICOS ENDÓGENOS
Apesar de terem sido detectados primeiramente em plantas e animais,
estudos recentes revelaram a presença de esteróides cardíacos endógenos em
mamíferos tais como ouabaína e digoxina (cardenolídeos), marinobufagenina e
proscilaridina A (bufadienolídeos) (SCHONER, 2002). Esses esteróides se
encontram em níveis sub-nanomolares no plasma, podendo alcançar
concentrações um pouco mais elevadas em condições patológicas como
hipertensão e insuficiência cardíaca (FERRANDI et al, 2005).
No entanto, essas baixas concentrações seriam insuficientes para
promover um grau satisfatório de interação de esteróides cardíacos com a
bomba que pudesse vir a inibir o transporte dos íons Na + e K+ (modo clássico
de atuação) e dissipar os gradientes eletroquímicos. Por outro lado, através da
ação sinalizadora da Na+/K+-ATPase, esse mesmo grau de ligação teria a
capacidade de estimular alguns milhares de Na+/K+-ATPases por célula. Pelas
[CANÁRIO&PÔÇAS, 2013]
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características intrínsecas da amplificação de sinal por esse processo, essa
capacidade de estimulação seria suficientemente intensa para deflagrar a cascata
de transdução, em especial se ocorrer no sinalossoma caveolar.
GLICOSÍDEOS CARDÍACOS E SUAS APLICAÇÕES NA INSUFICIÊNCIA
CARDÍACA
O homem, embora tenha conquistado melhores condições sócioeconômicas, avanços científicos e tecnológicos que possibilitam o aumento da
longevidade da população em geral e dos cardiopatas, tem sido acometido pela
ICC de forma significativa mundialmente (SOCIEDADE BRASILEIRA DE
CARDIOLOGIA, 2002 apud JUNIOR et al, 2006, p. 53). Aproximadamente 23
milhões de pessoas são portadoras e 2 milhões de pessoas são diagnosticadas
com insuficiência cardíaca no mundo (NETO, 2004). Apesar de não haver
estudos epidemiológicos envolvendo a insuficiência cardíaca no Brasil, estima-se
que até 6,4 milhões de brasileiros sofram com a patologia. Segundo dados
obtidos do Sistema único de Saúde (SUS) e do Ministério da Saúde (MS), o
principal motivo da internação de pacientes com mais de 60 anos é a
insuficiência cardíaca e em 2000 foram realizadas cerca de 398 mil internações
por insuficiência cardíaca com ocorrência de 26 mil óbitos (SOCIEDADE
BRASILEIRA DE CARDIOLOGIA, 2002).
Diante dos altos custos de internação, a insuficiência também implica na
redução de qualidade de vida dos portadores da insuficiência cardíaca
aumentando o número de aposentadorias precoces e, consequentemente gastos
para o país. Sabendo-se que o Brasil tem o envelhecimento mais rápido do
mundo com previsão para o ano de 2025 de ser a sexta maior população de
idosos, o número de casos de insuficiência cardíaca deve multiplicar
particularmente a insuficiência cardíaca com função sistólica preservada
(SOCIEDADE BRASILEIRA DE CARDIOLOGIA, 2002).
A ICC segundo Lamb (1971) é dada como uma disfunção do coração em
que o sangue é bombeado de maneira insuficiente às necessidades do
organismo. A redução do bombeamento pode ser originada por idiopatias,
diabetes, estresse emocional, obesidade, dieta rica em gordura e sódio,
sedentarismo, idade, raça, sexo, história familiar da patologia entre outros
(SILVA, 2005).
Os principais causadores da ICC contemplando 95% dos casos são a
hipertensão arterial, arteriosclerose e alterações nas válvulas cardíacas. Dentre
outros fatores que reduzem a força de contratilidade cardíaca está a pressão
externa em torno do coração, deficiência vitamínica, miocardite (derivada do
reumatismo ou doenças infecciosas) e lesões no pericárdio (SOCIEDADE
BRASILEIRA DE CARDIOLOGIA, 2002).
O tratamento farmacológico empregado na ICC visa controlar sintomas
como a taquicardia, a redução da tolerância a exercícios, a falta de ar, o edema
periférico e pulmonar e a cardiomegalia, assim como promover a melhoria na
qualidade de vida do paciente acometido. Portanto, não existe a utilização de
um único fármaco na insuficiência cardíaca e, sim utilização de fármacos com
efeitos complementares e sinérgicos de forma a otimizar o tratamento
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(SOCIEDADE BRASILEIRA DE CARDIOLOGIA, 2002). No entanto, essas
associações medicamentosas devem ser realizadas com cautela, uma vez que,
os digitálicos podem ter seus efeitos terapêuticos reduzidos quando associados
aos diuréticos poupadores de potássio (hipercalemia) ou potencializados com
os diuréticos não-poupadores de potássio (hipercalemia) (HOSPITAL PRÓCARDÍACOS, 2006).
A digoxina extraída da planta Digitalis lanata Ehrhart é reconhecida como o
glicosídeo cardíaco mais utilizado para tratamento da insuficiência cardíaca
congestiva e fibrilação atrial (WANG, 2012). Apesar da existência de novas
terapias, a digoxina ainda é indicada em combinação com os inibidores da
enzima conversora da angiotensina (PACKER, 1999 apud POÇAS, 2007, p. 1819) por proporcionar um efeito positivo na morbidez (KJELDSEN et al, 2002
apud POÇAS, 2007). Estudos clínicos como RADIANCE (Randomized
Assessment of Digoxin on Inhibition of Angiotensin Converting Enzyme), DIG
(Digital Investigations Grups) e PROVED (Prospective Randomized study of
Ventricular failure and Efficacy of Digoxin) fundamentaram o emprego clínico da
digoxina e, com base nesses estudos hoje se sabe que em portadores de
insuficiência cardíaca sintomática, em doses menores que as utilizadas
antigamente de digoxina (HOSPITAL PRÓ-CARDÍACOS, 2006) reduzem a
estimulação neuro-humoral com a diminuição dos níveis séricos de
norepinefrina, melhora o desempenho físico e reduz as hospitalizações, além
de não aumentar a mortalidade (BARRETO et al, 1998). A digoxina possui uma
ligeira diferença estrutural comparada a digitoxina. A adição de uma hidroxila
no C12 do corpo esteroidal torna a digoxina, em relação a sua farmacocinética
em ratos, uma molécula de meia-vida curta no plasma e de rápida excreção. A
digoxina é principalmente metabolizada pelos rins e a dose empregada está
relacionada à idade, peso e função renal do paciente (WANG, 2012).
A digitoxina é um produto natural isolado da Digitalis purpurea L. que
juntamente com a digoxina é amplamente empregado no tratamento de
insuficiência cardíaca congestiva nos Estados Unidos e Europa. Ambas se
ligam ao mesmo alvo Na+/K+-ATPase, no entanto, tendo em vista o perfil
farmacocinético, a digitoxina é mais estável e não prejudica pacientes com
disfunção renal. No entanto, com uma hidroxila a menos a digitoxina é mais
lipofílica, característica que torna seu tempo de meia-vida maior que a digoxina
aumentando a probabilidade de intoxicação (WANG, 2012).
Isolada da planta Strophanthus gratus Franchet, a ouabaína é um
glicosídeo cardíaco e uma importante ferramenta utilizada como controle da
inibição enzimática in vitro já que a sua fácil oxidação e sua baixa absorção oral
possibilitam apenas sua administração por via intravenosa. Em relação à
afinidade, as quatro isoformas da subunidade α da Na+/K+-ATPase em roedores
diferenciam entre si pelos valores de afinidade à ouabaína. A isoforma α1
encontrada em tecidos de rins é denominada isoforma resistente ou de baixaafinidade à ouabaína (IC50= 69,94 ± 8,52µM) sendo necessárias altas
concentrações da droga para a ação inibitória sobre a Na+/K+- ATPase.
Enquanto que para as isoformas α2 e α3 encontradas em tecido cerebral
denominadas isoformas sensíveis ou de altas afinidades (IC50= 0,0886 ±
0,0075µM), baixas concentrações de ouabaína já são suficientes para a inibição
(PÔÇAS et al., 2003).
A oleandrina, o principal componente da Nerium oleander é um glicosídeo
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cardíaco cardenolídeo de mesma potência que a ouabaína e mais potente que
a digoxina em testes de inibição da Na+/K+- ATPase realizados em córtex
cerebral de porco. Extratos da planta têm sido muito utilizados em tratamento de
dermatites e insuficiência cardíaca congestiva na China com menor risco de
intoxicação em mesma concentração de digoxina e ouabaína, justificado pela
forte ligação às proteínas plasmáticas.
NA+/K+-ATPase E SUA RELEVÂNCIA NO TRATAMENTO DO CÂNCER
A Na+/K+-ATPase foi identificada como um importante alvo farmacológico
para tratamento do câncer e, por conta disso, os glicosídeos cardíacos já
utilizados na insuficiência cardíaca poderiam ser utilizados como fármacos
antitumorais.
Especificamente no câncer de mama, diversos estudos observaram a
relação do hormônio 17 β-estradiol (E2) ao progresso do câncer de mama
constatando-o como principal causa da patologia (RUSSO, 2002, apud CHEN,
2005, p.1). De uma forma geral, é aceito que a maior parte dos efeitos
biológicos e alguns efeitos cancerígenos causados pelo E2 são mediados por
receptores de estrogênio como ERα e ERβ (PETTERSSON, 2001 apud CHEN,
2005 p.1). Para o tratamento do câncer de mama são então utilizados fármacos
anti-estrógenos com alvo em ERs. No entanto, muitos tumores tem se tornado
resistentes aos anti-estrógenos tornando necessário o desenvolvimento de
drogas alternativas (JENSEN, 2003). Uma revisão realizada em 2005 por Chen
uniu diversos estudos que evidenciaram a Na+/K+-ATPase com importante
função fisiológica e fisiopatológica e que, juntamente com os ERs está
relacionada com a evolução do câncer de mama (CHEN, 2005).
As justificativas para a redução da atividade proliferativa de células
cancerígenas por inibidores da Na+/K+-ATPase são a perturbação da
homeostasia do Ca2+ com o seu aumento intracelular resultando em apoptose,
assim como a diminuição de K+ intracelular que precede a ocorrência de
diversos eventos apoptóticos como a ativação de caspases e fragmentação do
DNA (PRASSAS et al, 2008 apud CARVALHO, 2012). Além disso, a ação
antitumoral dos glicosídeos cardíacos poderia estar relacionada com a ativação
da Src por meio da ligação à enzima levando a fosforilação do receptor EGFR
que, por sua vez ativa a cascata das MAP cinases envolvidas em eventos de
diferenciação e morte celular (XIE e ASKARI, 2002).
O uso da oleandrina em pacientes com ICC e portadores de sarcoma de
Ewing, câncer de próstata e câncer de mama, revelou uma regressão destes
tumores, sugerindo que este fármaco teria um efeito colateral benéfico
(STENKVIST, 1999 apud CARVALHO, 2006). Já em 2006, foram publicados os
primeiros resultados de um estudo clínico de fase 1 do Anvirzel, o extrato
aquoso do Nerium oleander patenteado pelos EUA que demonstrou excelente
atividade contra tumores sólidos (MEKHAIL et al, 2006). Seu mecanismo de
ação difere conforme a linhagem celular. Existem quatro vias possivelmente
envolvidas na atividade antitumoral da oleandrina, todas elas relacionadas com
a inibição da Na+/K+-ATPase. Uma hipótese para essa atividade antitumoral
seria a inativação do NF-κβ, um fator de transcrição ativado no microambiente
inflamatório durante a progressão maligna capaz de regular a expressão de
citocinas que promovem os tumores e também genes de sobrevivência
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(KARIN, 2009). Outra possibilidade seria a ativação das capases, a formação
de ROS como resultado da lesão mitocondrial e fosforilação da PKB que induz
a formação do autofagossoma com consequente morte celular (CARVALHO,
2006).
A digoxina, por sua vez, parece inibir o crescimento de células tumorais
ao impedir a síntese e expressão dos genes da proteína fator-1 (HIF-1), um
fator de transcrição altamente presente em tumores que induz a angiogênese e
metástase (ZHANG, 2008 apud WANG, 2012). A digoxina também induz a
apoptose, cujo mecanismo se assemelha provavelmente ao de outros
glicosídeos cardíacos como a ativação das capases promovida pelo aumento
dos níveis de Ca2+ intracelulares (WINNICKA, 2007 apud WANG, 2012).
A ouabaína induz a apoptose pelos mesmos mecanismos de outros
glicosídeos cardíacos já mencionados por meio da fosforilação do EGFR e o
aumento dos níveis intracelulares de Ca2+ que alteram o potencial de
membrana mitocondrial permitindo o aumento de ROS que levam a apoptose
(WANG, 2012).
Quanto à digitoxina, ainda falta um estudo detalhado que confirme seu
mecanismo de ação antitumoral levando às hipóteses já conhecidas como a
perturbação da homeostasia iônica provocada pela inibição da Na+/K+-ATPase,
a ativação de sinais de proteínas que inibem a proliferação celular e de
iniciação da morte das células. Mesmo assim, com o pouco que se conhece a
digitoxina mostrou ter um potente efeito inibitório do crescimento de células
tumorais e indução a morte celular por apoptose em concentrações não tóxicas
para células normais. Em comparação com a digoxina e ouabaína a digitoxina
tende a ter uma maior potência em ensaios antitumorais (WANG, 2012).
NA+/K+-ATPase E SUA RELEVÂNCIA NA ISQUEMIA
No cérebro, a Na+/K+-ATPase desempenha um papel fundamental ao
manter os gradiente eletroquímicos dos íons Na+ e K+ (ZHANG, 2010). A
perturbação dos gradientes de tais íons despolariza as membranas neuronais
desativando os transportadores de Na+/H+, Na+/Ca2+ e Na+/K+/Cl- e a captação de
glutamato sódio-dependente contribuindo para uma lesão cerebral seguida de
uma isquemia (DOYLE, 2008). Um tratamento prévio contra tal lesão é o breve
período de isquemia denominado pré-condicionamento isquêmico, método que
prepara e protege a célula para suportar um tempo prolongado de isquemia com o
menor dano celular possível (SUCCI, 2012). O pré-condicionamento isquêmico
das células cardíacas, renais e cerebrais impede a redução da atividade da
Na+/K+-ATPase protegendo o coração, o rim e o cérebro de um quadro de
isquemia (WYSE et al, 2000 apud OSELKIN, 2010). Em culturas de hipocampo
notou-se que o aumento da atividade da Na+/K+-ATPase protegeu os neurônios de
uma isquemia experimental, no entanto, é improvável a utilização clínica do précondicionamento isquêmico (SCHALLER et al, 2002 apud OSELKIN, 2010).
Um estudo realizado em 2010 por OSELKIN e colaboradores mostrou que
baixas concentrações de glicosídeos cardíacos protegeram culturas de células de
córtex cerebral da isquemia experimental sendo uma alternativa ao précondicionamento isquêmico. Para os autores desse estudo o efeito neuro-protetor
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causado pelas baixas concentrações de glicosídeos cardíacos pode ser justificado
pelo aumento da atividade Na+/K+-ATPásica já que o aumento da atividade da
enzima poderia evitar a perda do gradiente iônico ou promover uma rápida
restauração do transporte iônico. O mecanismo molecular responsável pelo
aumento desta atividade enzimática é desconhecido, no entanto, é provável que
esteja relacionado com a indução da sinalização intracelular por meio da Na+/K+ATPase (OSELKIN, 2010).
NOVOS INIBIDORES NÃO-ESTEROIDAIS DA NA+/K+-ATPASE
Devido às desvantagens causadas pelos glicosídeos cardíacos no
tratamento de ICC como o estreito índice terapêutico e os efeitos adversos
graves como náuseas, vômitos, distúrbios visuais e arritmias, o seu uso é
evitado. Visando manter os benefícios hemodinâmicos, assim como a mais
nova ação antitumoral consequentes da inibição da Na+/K+- ATPase e o efeito
neuro-protetor a partir de baixas dosagens de glicosídeos cardíacos, a busca por
novos inibidores não é só um interesse acadêmico como industrial também.
Até o momento foram desenvolvidas algumas classes não-esteroidais de
inibidores da Na+/K+-ATPase. Por exemplo, no ano de 2001, em um programa
destinado à síntese de flavonóides biologicamente ativos foram escolhidos,
como moléculas-alvo, alguns cumestanos com diferentes padrões de
oxigenação dos anéis A e D. A realização desse ensaio de triagem
farmacológica resultou no primeiro registro de inibição Na+/K+-ATPásica por um
cumestano de ocorrência natural ,a wedelolactona isolada da Eclipta prostrata
L., e um de seus derivados sintéticos, o 2-metoxi-3,9-trihidroxi cumestano
(PCALC36) (PÔÇAS et al, 2001). Os cumestanos pertencem à família dos
flavonóides, especificamente ao subgrupo de isoflavonóides (Figura 6) que
possuem estrutura semelhante ao corpo esteroidal dos glicosídeos cardíacos.
O
A
B
O
O
O
A
C
O
O
Flavonóide
Isoflavonóide
O
D
Cumestano
Figura 6 – Estrutura química básica do flavonóide, isoflavonóide e do cumestano
(POÇAS et al, 2001).
A figura 6 mostra as semelhanças e diferenças estruturais entre o
flavonóide e seus subgrupos isoflavonóides e cumestanos. Os flavonóides e
isoflavonóides são estruturas tricíclicas com dois anéis aromáticos (A e B) e uma
pirona (C) que se diferenciam apenas na orientação de orto para meta do anel B
com a pirona. O cumestano é o resultado da adição de uma carboxila no
carbono α da pirona juntamente com a ligação do oxigênio do carbono 4 ao
carbono 6 do anel B.
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No entanto, a wedelolactona também mostrou ter um efeito colateral
indesejável sendo um modulador potencial do canal iônico GABA A envolvido na
transmissão inibitória no SNC inviabilizando seu uso. Em estudo posterior, em
um estudo mais detalhado de seu mecanismo de ação molecular, o PCALC36
que demonstrou inibir a enzima através de um mecanismo distinto a da
ouabaína em testes in vitro tomando por base evidências como a não
seletividade por diferentes isoformas da Na+/K+-ATPase de tecido de rato e não
antagonização pelo aumento da concentração de K+. Além disso, comparado ao
vanadato, um inibidor da Na+/K+-ATPase que é cerca de 25 vezes mais potente
para inibir a Na+/K+-ATPase na conformação E2 que a conformação E1, o
PCALC36 apresentou mesma potência em ambas (PÔÇAS, 2003).
No entanto, pelo fato de ser de alta complexidade e de alto custo de
síntese a utilização do PCAL36 como futuro fármaco de ação inotrópica
positiva foi inviabilizada (POÇAS, 2007).
Dois derivados de antracenos e um derivado de fluoreno (Figura 7)
também apresentaram atividade inibitória sobre a Na+/K+-ATPase (ZHANG,
2010), no entanto, falharam em comparação aos glicosídeos cardíacos como a
ouabaína e digoxina por apresentarem potência 100 vezes menor (XIE et al,
2012).
Foi observada atividade inibitória em um derivado de xantona (Figura 7),
MB7 de estrutura semelhante ao antraceno e fluoreno com potência de inibição
similar a da ouabaína. Entretanto, diferentemente da ouabaína, a interação entre
o MB7 e a enzima não foi afetada em presença de ATP, Na+ e K+. Outra
diferença observada foi que o MB7 não afetou a atividade Src mesmo em
concentrações de máxima inibição. Embora ainda sejam necessários estudos
que comprovem a seletividade e especificidade da ligação do MB7 com a
Na+/K+-ATPase, o mesmo poderá ser um forte candidato a inibidor da enzima e
antagonização da ouabaína em tratamentos de insuficiência cardíaca (XIE et al,
2012).
Figura 7 – Estrutura básica de um antraceno, fluoreno e xantona juntamente com
seu derivado MB7 (WANG, 2012).
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Na figura 7 estão presentes os farmacóforos de diferentes classes como a
xantona, o antraceno e o fluoreno, mas que se assemelham estruturalmente por
serem compostos tricíclicos.
CONCLUSÃO
A Na+/K+-ATPase é uma enzima transmembranar fundamental para a
homeostasia intracelular. Composta pelas subunidades α, β e γ, as três
possuem função diferenciadas entre si, sendo a subunidade α e β tidas como
as mais importantes por possuir os sítios de ligação dos íons Na+ e K+ e de
ATP e modulação da afinidade desses substratos, respetivamente.
Essa enzima já era utilizada como alvo farmacológico de substâncias
oriundas de plantas e animais denominados esteróides cardiotônicos em
tratamento de insuficiência cardíaca congestiva em civilizações antigas. O
número de casos doenças cardíacas se encontra em ascensão devido aos
maus hábitos alimentares, ao sedentarismo, ao fumo e a significativa
industrialização e urbanização. Por isso, não muito diferente daquela época, os
glicosídeos cardíacos ainda são utilizados na ICC juntamente com fármacos de
primeira linha para o tratamento como os inibidores da ECA entre outros como
beta-bloqueadores e diuréticos.
Além disso, foi descoberta uma nova função para a enzima como a de
sinalização celular via essa ativada com a interação de glicosídeos cardíacos à
enzima.
O interesse pela Na+/K+-ATPase como alvo farmacológico não está
restrito ao tratamento da insuficiência cardíaca visto que, ao longo dos anos
estudos evidenciaram uma importante influência da enzima sobre o
desenvolvimento de outras patologias como o câncer e a isquemia e o possível
controle delas pelo uso de glicosídeos cardíacos.
Levando em conta todos esses fatores é importante que sejam feitas
buscas de novos inibidores da Na+/K+-ATPase com mecanismo diferenciado a
dos glicosídeos cardíacos a fim de se reduzir os efeitos adversos graves
causados por eles e também evitar intoxicações por possuírem baixo índice
terapêutico.
Novas moléculas têm sido estudadas como alternativas aos glicosídeos
cardíacos. Os derivados de cumestanos, antracenos, fluorenos e xantonas
apresentaram inibição da enzima, sendo principalmente o derivado de xantona,
hidroxixantona MB7 um forte candidato a inibidor da Na+/K+-ATPase e
antagonista da ouabaína.
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