FERTILIZAÇÃO IN VITRO (FIV), SOB UM OLHAR

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“FERTILIZAÇÃO IN VITRO (FIV), SOB UM OLHAR PSICANALÍTICO”
Talita Azambuja Nacif
Eixo: Corpo na Clínica
Palavras-chave: Corpo, mulher, narcisismo, estado de mente, luto e melancolia.
Resumo
Pensando no tema do congresso, Corpo, fiquei instigada a escrever sobre o que acontece, não
só no corpo, mas também e primordialmente na mente das mulheres que não podem engravidar de
modo natural. Segundo relato médico é cada mais frequente casais que procuram ajuda por meio de
fertilização in vitro, FIV. Cerca de trinta por cento dos casais brasileiros encontra essa dificuldade em
algum momento de suas vidas; seja na primeira tentativa de ter um filho ou, depois de alguns anos, na
tentativa de ter outros filhos. Felizmente, com o avanço da medicina, as chances de gravidez estão
cada vez maiores. Mas, para tanto, é necessário muito esforço físico e mental, principalmente por
parte da mulher, que é quem vai gerar o bebê. Doses grandes de hormônios são injetadas diariamente
em seus corpos e os procedimentos variam muito de caso a caso. Este trabalho pretende direcionar um
olhar psicanalítico ao estado de mente dessas mulheres durante a árdua tentativa de engravidar de
modo artificial.
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Federación Psicoanalítica de América Latina
Septiembre 13 al 17 de 2016
Cartagena, Colombia
Desenvolvimento
Em minha experiência clínica, atendendo algumas mulheres com dificuldade para engravidar,
me parece que a maioria delas passa por momentos de maior introspecção e desligamento do mundo a
sua volta. Como se o corpo estivesse doente, e muitas vezes está, elas se resguardam de atividades
rotineiras de outrora, na escuta de seus corpos e de suas mentes, que mudam dia após dia com as
intercorrências médicas e expectativas de todos a sua volta. O corpo das mulheres em tratamento de
fertilização pode causar a elas sensação de estranhamento frente as múltiplas mudanças; como a casa
muito engraçada que Toquinho descreve em uma de suas canções. A casa, representando
simbolicamente seus corpos, parece precária, estragada. É assim que minhas pacientes descrevem seus
corpos durante o processo de FIV.
“Pesquisas recentes dirigem nossa atenção para um estádio do desenvolvimento da libido,
entre o autoerotismo e o amor objetal. Este estádio recebeu o nome de narcisismo. O que acontece é o
seguinte: chega uma ocasião, no desenvolvimento do indivíduo, em que ele reúne seus instintos
sexuais (que até aqui haviam sido empenhados em atividades auto eróticas), a fim de conseguir um
objeto amoroso, sendo apenas subsequente que passa daí para a escolha de alguma outra pessoa que
não ele mesmo, como objeto. Essa fase equidistante entre o autoerotismo e o amor objetal pode,
talvez, ser indispensável normalmente; mas parece que muitas pessoas se demoram por tempo
inusitadamente longo nesse estado e que muitas de suas características são por elas transportadas para
os estádios posteriores de seu desenvolvimento” (Freud, 1911, p.68-69).
No autoerotismo as pulsões estão dispersas, havendo apenas o prazer de órgão. A diferença
entre a fase de autoerotismo e a de narcisismo é, justamente, a formação de um eu, que se torna o
objeto de investimento libidinal. Narcisismo então é um momento estrutural que faz parte da
constituição do indivíduo e a noção de patologia é sempre uma questão quantitativa, ou seja, quando
há um maior desligamento do investimento libidinal das representações de objeto.
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É possível que em algumas mulheres sujeitas a esses tratamentos de fertilização a libido sofra
uma introversão, termo usado por Freud para referir-se aos neuróticos nos quais a libido permanece na
fantasia, deixando de se dirigir para os objetos externos e retornando para o eu da pessoa em
sofrimento. Freud (1914) aponta algumas causas para esse retorno acontecer, entre elas, situações de
perda; a libido antes direcionada para o objeto se volta para o próprio ego.
Pensando nas mulheres que encontram dificuldades para gerar um filho, expressão da
potência feminina, gostaria de ressaltar o modelo do estado de mente do doente orgânico que Freud
utiliza para explicar o narcisismo. Essas mulheres podem não conseguir dirigir o olhar com atenção
para os objetos a sua volta. O adoecimento do corpo é uma ferida para o eu, é uma ferida ao
narcisismo. O barulho interno é maior e dificulta o entendimento do mundo externo. “Devemos então
dizer: o homem enfermo retira suas catexias libidinais de volta para o seu próprio ego, e as põe para
fora novamente quando se recupera” (Freud, 1914, p.89). Esta citação, a meu ver, se encaixa com a
problemática discutida no presente trabalho, no qual a ênfase se dá na impossibilidade por vias
“normais” de conceber uma criança.
A mulher que se encontra infértil pode ser vista, sob o olhar de estranhos, como egoísta e
alheia às questões que se passam no meio. É frequente, em minha experiência clínica, eu ouvir relatos
de mulheres com essa questão. Elas me contam que experimentam uma grande apatia pelas coisas à
sua volta e uma imensa vontade de dormir durante o percurso do tratamento. E para Freud (1914) o
estado de sono se equipara ao estado de doença, havendo uma regressão narcisista da libido, que
estava investida nos objetos, para o próprio eu.
O narcisismo, vai se diluindo quando nos deparamos com a noção do que é diferente e com a
noção de castração. Seguindo as idéias de Freud, a questão da castração tem a ver com o falo, que
pode ser representado pela força e pelo poder. O homem e a mulher terão que lidar com o falo, um
com a presença, e a possibilidade de perdê-lo e outro com a falta. As mulheres que apresentam
dificuldade de engravidar têm que lidar com a falta de um bebê, com a falta de capacidade de
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engravidar naturalmente.
Essas mulheres se deparam com feridas narcísicas no momento do
tratamento e a possibilidade de lidar com essa problemática dependerá dos recursos psíquicos de cada
uma, o quantum de vida do ego é que determinará se a pessoa conseguirá elaborar o luto do bebê
perdido, mesmo que nunca tido, ou se cairá em um estado patológico de melancolia.
Pude observar que há um retorno ao estádio do narcisismo na maioria dessas mulheres. O
retorno da libido em fase posterior do desenvolvimento é nomeado de narcisismo secundário. O
indivíduo então, tendo atravessado a fase do autoerotismo, a fase do narcisismo (marcada pela
constituição de um eu que é investido libidinalmente pela própria pessoa), a fase da escolha objetal
(na qual indivíduo escolhe outra pessoa como objeto de amor) retorna para um estádio em que a libido
é, novamente, dirigida para o eu; este estádio é nomeado como narcisismo secundário.
“Um egoísmo forte constitui uma proteção contra o adoecer, mas, num último recurso,
devemos começar a amar a fim de não adoecermos, e estamos destinados a cair doentes se, em
consequência da frustração, formos incapazes de amar” (Freud, 1914, p.92).
Felizmente as chances de sucesso de gravidez por FIV são cada vez maiores. No presente
trabalho, ressalto as saídas que são apresentadas pelas mulheres que não alcançam o resultado
almejado de gerar um bebê. Algumas podem cair doentes e perdurarem em um estado narcisista de
mente, melancólicas e sem condições de reinvestir a libido em outros objetos. Outras encontram
formas de amar que não a gestação, podendos sublimar seu desejo recorrendo à adoção ou a algum
trabalho com crianças, entre outras saídas.
Sabemos que o trabalho de luto implica segundo Freud (1917 [1915]), em um
desinvestimento libidinal do objeto perdido, que primeiramente volta para o eu e depois é reinvestido
em outro objeto. No primeiro momento há um sobreinvestimento, ou seja, uma sobrecatexia do
objeto. A pessoa fica lembrando-se do objeto perdido. Na situação de fracasso de um tratamento de
fertilização, a pessoa pode ficar recordando planos não concretizados pela não realização da gestação,
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ficar vendo pertences já comprados para o bebê sonhado, entre outras coisas. Mas, depois desse tempo
de sobreinvestimento o ego pode escolher entre morrer com o objeto ou aceitar a perda dele. Se a
pessoa tem recursos egóicos para elaborar o processo de luto, ela vai, por amor ao ego, desinvestir-se
desse objeto para reinvestir a energia que ficou livre no psiquismo, em outro objeto, em outros planos,
em uma nova tentativa de engravidar.
“O melancólico exibe uma outra coisa que está ausente no luto, uma diminuição
extraordinária de sua autoestima, um empobrecimento de seu ego em grande escala. No luto, é o
mundo que se torna pobre e vazio; na melancolia, é o próprio ego. O paciente representa seu ego para
nós como sendo desprovido de valor, incapaz de qualquer realização e moralmente desprezível; ele se
repreende e se envilece, esperando ser expulso e punido. Degrada-se perante todos, e sente
comiseração por seus próprios parentes por estarem ligados a uma pessoa tão desprezível” (Freud,
1917[1915], p. 251-252).
Na melancolia estão presentes as características do luto, mas também há o caráter de auto
depreciação e de autotortura. Como já mencionado no corpo deste escrito, é possível observar
regressões narcisistas em mulheres que se submetem ao tratamento de fertilização in vitro. O estado
melancólico também pode acontecer dependendo dos recursos egóicos de cada uma para buscar
reinvestir suas ações de vida em outros objetos. As mulheres que não conseguem fazer o processo de
luto se identificam com o objeto perdido e fica totalmente ocupado por ele. O estado melancólico
acontece pela dificuldade de entrar em contato com a perda, não dando assim espaço para à falta e
para o vazio. Além de a agressão, contra o objeto perdido ficar, em termos metapsicológicos,
economicamente controlada.
Freud (1917[1915]), fala que a instância crítica vai atacar o eu como o eu atacou o objeto
antes do processo de identificação narcisista. O conflito intersubjetivo se transforma em um conflito
intrasubjetivo. Os ataques a si mesmas são por uma vontade de destruir o outro, podendo ser o outro o
bebê que não veio ou o médico ou ainda os medicamentos que não funcionaram e não trouxeram bons
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resultados. Ao invés de se frustrarem com esses aspectos, as mulheres se voltam contra elas mesmas
como resposta inconsciente a uma ambivalência difícil de ser tolerada. Então, passam a se autopunir,
mostrando profundo desencantamento por si próprias junto com a raiva proveniente de tamanha
frustração.
Seguindo Freud: “Existem, num dado momento, uma escolha objetal, uma ligação da libido a
uma pessoa particular; então, devido a uma real desconsideração ou desapontamento proveniente da
pessoa amada, a relação objetal foi destroçada. O resultado não foi o normal, uma retirada da libido
desse objeto e um deslocamento da mesma para um novo, mas algo diferente, para cuja ocorrência
várias condições parecem ser necessárias. A catexia objetal provou ter pouco poder de resistência e
foi liquidada. Mas a libido livre não foi deslocada para outro objeto; foi retirada para o ego. Ali,
contudo, não foi empregada de maneira não especificada, mas serviu para estabelecer uma
identificação do ego com o objeto abandonado. Assim a sombra do objeto caiu sobre o ego, e este
pôde, daí por diante, ser julgado por um agente especial, como se fosse um objeto, o objeto
abandonado. Dessa forma, uma perda objetal se transformou numa perda do ego, e o conflito entre o
ego e a pessoa amada, numa separação entre a atividade crítica do ego e o ego enquanto alterado pela
identificação” (Freud, 1917[1915], p. 254-255).
As mulheres que se tornam melancólicas pela frustração de obterem bons resultados no
processo de fertilização, identificam-se com o objeto transformando sua relação com ele em um traço
do eu. Na melancolia o indivíduo se torna o objeto com o qual estava ligado pelo amor e pelo ódio.
De acordo com a proposta deste trabalho, o ódio pode ser exemplificado com os momentos de raiva e
descontentamento pelas dores sofridas com os remédios, o tempo gasto nas consultas e ultrassons.
Além das diversas concessões que as mulheres em tratamento fazem, não podendo se exercitar,
trabalhar de maneira cotidiana e nem mesmo fazer muitos planos para um futuro próximo. As
relações de ódio no melancólico se reproduzem intrapsiquicamente. Ao invés do (a) melancólico (a)
se voltar contra o objeto perdido, a instância crítica é que julga e maltrata o ego da pessoa em
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sofrimento. Portanto, as mulheres inférteis e melancólicas podem recalcar o ódio por um bebê que não
veio, por um remédio que não funcionou, pelo parceiro que apresenta algum tipo de
comprometimento no sistema reprodutor e assim se autodepreciam com pensamentos reprovadores e
de desvalia.
Procurei enfocar mormente o aspecto melancólico de minhas pacientes, pois as que elaboram
o luto ou engravidam, conseguem seguir suas vidas com relativo conforto e menos sofrimento
psíquico. Para finalizar, quero enfatizar que é possível um trabalho analítico focado na ampliação de
arsenal psíquico para que as mulheres que se encontram melancólicas possam ter recursos egóicos e
reinvestir sua libido de novo no mundo externo.
Referências Bibliográficas
FREUD, S. “Notas Psicanalíticas sobre um relato autobiográfico de um caso de
paranóia (Dementia Paranoides)”, 1911, Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund
Freud, vol. XII, Imago, Rio de janeiro, 1969.
FREUD, S. “Sobre o narcisismo: uma introdução”, 1914, Edição Standard Brasileira das
Obras Completas de Sigmund Freud, vol. XIV, Imago, Rio de janeiro, 1969.
FREUD, S. “Três ensaios sobre a sexualidade”, 1905, Edição Standard Brasileira das Obras
Completas de Sigmund Freud, vol. VII, Imago, Rio de janeiro, 1969.
FREUD, S. “Luto e Melancolia”, 1917 [1915], Edição Standard Brasileira das Obras
Completas de Sigmund Freud, vol. XIV, Imago, Rio de janeiro, 1969.
Considerações sobre as conversas com médicos especializados em Fertilização em Vitro. Dr.
Paulo César Serafini e Dr. Alfonso Massaguer.
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