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o GLOBO
POSSíVEL
NOBEL
Miguel Nicolelis explica como os avanços na ciência ajudarão no tratamento de
doenças neurológicas
Publicada em 08/05/2010 às 19hOlm
Isabel Marche=an - Especial para O Globo
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PORTO ALEGRE - Miguel Nicolelis é um cienlista cujas preocupações sociais fazem seu discurso por
vezes soar como o de um político. Porém, diferentemente da maioria dos políticos, ele não ficou só nas
palavras. Graças a seus esforços pessoais, e ao incentivo de apoiadores como a família Safra e a
Universidade de Duke, nos Estados Unidos, onde é codiretor do Centro de Neuroengenharia e coordena
uma equipe de pelo menos 25 pesquisadores, foi criado há cinco anos o Instituto Internacional de
Neurociências de Natal Edmond e Lily Safra, em Macaíba, na periferia da capital potiguar.
O projeto o traz ao Brasil a cada dois meses, mas desta vez a visita tem outros propósitos. Entre os quais,
explicar como a ciência pode ser um agente de transformação social na próxima segunda-feira, em Porto
Alegre, onde Nicolelis abre o ciclo de palestras Fronteiras do Pensamento. Um dos apoiadores do
Instituto é o Hospital Sírio-Libanês, de São Paulo, com o qual o cientista fez um acordo: montou um
laboratório de neurociência de "reputação internacional", em troca da instauração, pelo hospital. do
centro de saúde materna e infantil em Macaíba - o Instituto faz 800 consultas pré-natal por mês.
Nos próximos meses, os primeiros trutos dessa parceria chegarão às mesas de cirurgia do Sírio-Libanês,
quando a técnica de uso de eletrodos para decodificar a atividade cerebral. criada no laboratório de
Nicolelis, começar a ser usada para devolver movimentos a pacientes com paralisia.
Foi assim. "passando o chapéu" entre possiveis apoiadores, que Nicolelis trouxe até hoje 12 cientistas de
renome internacional para trabalhar em Macaiba. Na semana passada, por exemplo. apresentou o projeto
na Kennedy School. a escola de politicas públicas da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos.
Embora ninguém seja formalmente indicado ao prêmio Nobel (a forma como os premiados são escolhidos é segredo) Nicolelis vem sendo cotado para
receber o Nobel de Medicina desde 2008. Na entrevista a seguir, ele revela uma pequena parte dos feitos que justificam o reconhecimento
internacional.
O GLOBO: A partir das pesquisas realizadas no seu laboratório, um consórcio de 10 países quer criar uma veste robótica que devolveria os
movimentos a pessoas com paralisia. Qual o andamento desse projeto?
MIGUEL NICOLELlS: A veste está sendo construída na Universidade Tecnológica de Munique, que é membro do consórcio. O grupo de pesquisa
neste momento está construindo a veste, e nós estamos simulando no nosso laboratório computacionalmente
as características dessa veste.
O GLOBO: Ela vai ser a base para o desenvolvimento
de equipamentos,
aparelhos?
MIGUEL NICOLELlS: Não, a veste vai ser o artefato que as pessoas com paralisia severa vão usar
para poder voltar a andar. esperamos, com a técnica que nós desenvolvemos. Ela vai ser o novo
corpo dessas pessoas, como um exocsqueleto. Será para pessoas totalmente paralisadas.
O GLOBO: Que outras aplicações da tecnologia pesquisada em Duke. á tentativa de substituir a
ligação do cérebro com o corpo, podemos imaginar no futuro? Os braços mecánicos controlados
pelo cérebro já existem?
MIGUEL NICOLELlS: A gente está chegando muito próximo. Usamos matrizes de eletrodos
implantados no cérebro, filamentos que parecem cabelos, que permitem o registro da atividade
elétrica de grandes populações de neurônios. Essa técnica foi desenvolvida por nós. Existem vários
braços mecânicos sendo desenvolvidos, e estamos desenvolvendo a tecnologia para ler os sinais
cerebrais e permitir que a pessoa controle esse braço mecânico indiretamente com o cérebro.
Estamos testando isso em animais.
A veste vai ser o artefato
que as pessoas com
paralisia severa vão usar
para poder voltar a
andar, esperamos, com
a técnica que nós
desenvolvemos
O GLOBO: Quando podemos imaginar que isso estará sendo usado, aplicado por hospitais?
MIGUEL NICOLELlS: É dificil precisar, porque em ciência,você não pode dizer o momento em
que vai ter a eureka, mas eu estou trabalhando com um horizonte nos próximos anos.
O GLOBO: Quantos anos?
MIGUEL NICOLELlS: Nos próximos cinco, eu acho, a gente tem a chance de ter o protótipo clínico testado, e estudos clínicos cuidadosos que
demonstrem (a eficácia). Mas em termos de medicina, cinco anos não é nada. Para quem esperou séculos por isso, cinco anos é como se fosse um
milisegundo.
O GLOBO: E até que ponto isso vai ser acessível, ou será uma tecnologia muito cara para os pacientes?
http://oglobo.globo.com/ciencia/mat/20
10/05/07/miguel-nicolelis-explica-como-os-ava
.., 31/5/2010
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MlGUEL NlCOLELlS: Como qualquer tecnologia - o telefone celular, por exemplo - no momento em que ela começa a ser massificada, e as
demonstrações mostram que ela é útil e tem um beneficio muito grande, várias empresas vão se interessar em produzir, e o custo vai cair rapidamente.
E que nem o laptop, o iPod, todas essas coisas cujo preço caiu porque houve uma demanda enorme. A lógica de tecnologia é essa: uma vez que você
demonstra o breakthrough tecnológico, o custo tende a cair rapidamente. E como Santos Dumont dizia, o mais dificil é fazer o primeiro. Depois que o
primeiro está feito, é fácil.
O GLOBO: O senhor também diz que, ao estudar o cérebro, muito além de coisas como recuperar a motricidade de pessoas paralisadas, a gente vai
conseguir entender melhor o que é ser um ser humano, o que move os homens, quais os seus anseios. O que é, e quais as implicações de conhecer de
verdade o ser humanory
MIGUEL NICOLELlS: A essência, o trabalho principal do cérebro, é produzir comportamentos. Esse é o grande trabalho do cérebro. E nós somos o
resultado desse conjunto de comportamentos que cada um de nós produz ao longo da vida. E cada vida de cada ser humano que jamais existiu é única.
As condições individuais desse ser humano jamais vão se reproduzir, e jamais ocorreram antes. Então no momento que você entender como o cérebro
codifica informações e produz comportamentos, você vai ter nas mãos uma chave-mestra para entender porque os seres humanos fazem o que fazem.
Porque eles se comportam da maneira que se comportam, porque reagem da maneira como -reagem. A essência da nossa espécie está entre as nossas
duas orelhas, embora a gente às vezes não use o que tem disponivel.
O GLOBO: Em última análise quer dizer que um dia chegaremos
ao ponto de comandar esses comportamentos,
programá-Ios?
MIGUEL NICOLELlS: Não sei, tem gente que fala. mas tem uma distància muito grande entre entender e reproduzir, e tem gente que pinta os
cenários mais assustadores possíveis. Eu não penso dessa maneira.
O GLOBO: E os cenários assustadores
são de que tipo?
MIGUEL NlCOLELlS: Ai não é a minha especialidade. Está cheio de gente que se autodenomina
cenáríos catastróficos para a espécie humana. Eu não me aventuro nesse caminho.
futurólogo, ou seja o que for, e adora pintar
O GLOBO: O caminho da medicina vai na direção de encontrar no cérebro a chave para as doenças e os problemas?
MIGUEL NICOLELlS: Não tem outra alternativa, porque lá é onde está o problema. Lembranças
cérebro e da atividade cerebral.
psiquiátricas,
neurológicas,
está tudo dentro do
O GLOBO: Podemos vislumbrar o dia em que doenças vão ser detectadas no cérebro, muito antes de se manifestarem?
MlGUEL NlCOLELlS:
Sem dúvida. Essa é uma das linhas de pesquisa ativas do meu laboratório m:sse instante.
O GLOBO: E como trabalha essa equipe?
MIGUEL NICOLELlS:
Essa informação eu não posso dar porque não foi puiblicada ainda. Logo logo nós vamos ter novidades sobre ela.
O GLOBO: Este ano?
MIGUEL NlCOLELlS: E possível. A gente não pode falar nada antes de a revista que está revisando o trabalho se manifestar.E
não pode comentar uma pesquisa que está sob revisão editorial.
uma norma. a gente
O GLOBO: O fato de o senhor ter idealizado e construido o instituto em Natal com seus esforços é um mea culpa por estar há mais de 20 anos
trabalhando fora do Brasil?
MIGUEL NICOLELlS: Isso não existe. Eu sou um cientista e cientistas não têm fronteiras. Fiz isso pela minha ligação com o Brasil. e não para saldar
qualquer dívida. Sempre digo que a gente vai embora do Brasil, mas o Brasil não vai embora da gente. Eu fiz isso pelo meu país. Devo muito ao pais
em outros departamentos, estudei aqui, cresci aqui e achei que era importante devolver ao pais alguma experiência que adquiri lá fora.
O GLOBO: O projeto do instituto existia há muito tempo na sua cabeça?
MIGUEL NlCOLELlS: Sim, mas ele só se tornou possivel em 2002, quando eu percebi que os
ventos políticos no Brasil tinham mudado, e na minha opinião era o momento propício para
construir um pais que a minha geração sempre sonhou e nunca conseguiu ter.
cérebro codifica
O GLOBO: Existem outros projetos semelhantesry
MIGUEL NICOLELlS: Temos (a Associação Alberto Santos Dumont de apoio à Pesquisa, uma
OSCIP presidida por Nicolelis) uma escola nos mesmos moldes de Natal na Bahia, que abriu
semanas atràs. E o Centro Educacional de Ferrinha, em Ferrinha. com 400 crianças. Também temos
um laboratório de pesquisas dentro do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, de neurociência
clínica aplicada, e tem outros projetos no papel que queremos desenvolver Brasil afora. Mas temos
que ir devagar porque o tranco é grande ..
O GLOBO: Como esse laboratório do Sirio-Libanês
tratamentory
trabalhary Tem interatividade
com pacientes em
MIGUEL NICOLELlS: O Hospital Sirio-Libanês queria um laboratório de neurociências clínicas,
de reputação internacional, e nós fizemos uma parceria na qual eu ajudei o hospital a montar,
equipar e contratar pessoas, e em contrapartida eles custearam nosso centro de saúde materna e
infantil em Macaiba. Foi uma parceria histórica, na qual um hospital de São Paulo passou a custear
serviços médicos de alto nivel na periferia de Natal em troca de uma tecnologia, de um knowhow de
construção de laboratório que eu tinha. Foi uma parceria ideal para ambos.
O GLOBO: A pesquisa desenvolvida
hospitalry
No momento que você
entender como o
informações e produz
comportamentos, você
vai ter nas'mãos uma
chave-mestra para
entender porque os
seres humanos fazem o
que fazem
no Sirio-Libanês já se reflete no tratamento dos pacientes do
MIGUEL NICOLELlS: Não, mas está começando agora. Esse ano nós associamos várias tecnologias que eu desenvolvi
hispital Sirio-Libanês, e estamos prestes a aplicá-Ias em novas cirurgias ao longo deste ano.
nos Estados Unidos para o
O GLOBO: Quais são as tecnologias?
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10/05/07/miguel-nicolelis-explica-como-os-ava
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31/5/2010
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MIGUEL NICOLELlS: Para o tratamento do mal de Parkinson, com novos eletrodos que desenvolvemos
cerebral durante a cirurgia, que auxilia o cirurgião a encontrar a localização precisa dos implantes.
e um método novo de registro de atividade
O GLOBO: Que efeitos isso tem no tratamento?
MIGUEL NICOLELlS: Existe toda uma redução no tempo cirúrgico, o que acarreta maior rapidez na recuperação
recuperação dos movimentos. O uso dessa tecnologia deve começar nos próximos meses.
pós-cirúrgica.
O foco é a