UNIFAI CENTRO UNIVERSITÁRIO ASSUNÇÃO

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UNIFAI
CENTRO UNIVERSITÁRIO ASSUNÇÃO
A IMPORTÂNCIA DA PSICOMOTRICIDADE NA ARTETERAPIA EM
UM HOSPITAL ONCOLÓGICO.
São Paulo
2010
1
A IMPORTÂNCIA DA PSICOMOTRICIDADE NA ARTETERAPIA
EM UM HOSPITAL ONCOLÓGICO.
THE IMPORTANCE OF PSYCHOMOTRICITY IN ART THERAPY AT A CANCER
HOSPITAL.
ELIANE LATTERZA1
Orientadora: Prof. Doutor Vânia RAMOS2
Resumo: O presente artigo vem demonstrar a importância da Psicomotricidade na pedagogia Hospitalar em
um hospital Oncológico Pediátrico, acentuando como um dos grandes benefícios percebidos a expressão
artística em arteterapia. Para tanto, foi analisada a proposta da Escola Especializada da Pediatria Schwester
Heine dentro do hospital A.C. Camargo que têm como um dos objetivos principais, destacar que o lúdico e as
artes em geral são instrumentos indispensáveis e facilitadores que ajudam a desenvolver as capacidades
afetivas, motoras e cognitivas, mesmo em meio às adversidades, assegurando assim o desenvolvimento e a
recuperação das crianças hospitalizadas.
Palavras-chave: classe hospitalar, câncer infantil, hospitalização, psicomotricidade e arteterapia.
Abstract: This article demonstrates the importance of psychomotricity in the hospital pedagogy of a
pediatric oncology hospital, accentuating the through great benefits perceived artistic expression in art
therapy. For this reason, the purpose of the Schwester Heine Specialized Pediatric School was analyzed. One
of this Schools principal objectives is to highlight that play, and the arts in general, are indispensable
facilitating instruments that help to develop affective, motor and cognitive abilities, even under adverse
conditions, which assures the development and recuperation of the hospitalized children.
Key words: hospital class, childhood cancer, hospitalization, psychomotricity and art therapy.
Introdução
Este artigo trás à tona a importância de um olhar pedagógico diferenciado voltado
às crianças que amargam dias, meses ou anos com hospitalizações freqüentes, mesmo na
fase de diagnósticos até a efetiva confirmação da doença.
A pesquisa do artigo refere-se a uma Escola Especializada referência em tratamento
oncológico, fundada em 15 de outubro de 1987, por Dona Carmen Prudente e Maria
Genoveva Vello, esta última dando continuidade até hoje na condição de diretora Escolar.
1
Professora de Educação Física pela FEFISA, desenhista pela EPA (Escola Panamericana de Artes de São
Paulo), Pedagoga pela UNIFAI, cursando pós-graduação em psicomotricidade pela UNIFAI, professora de
CLASSE HOSPITALAR, na Escola Especializada da Pediatria Schwester Heine do Hospital A. C. Camargo,
São Paulo.
2
Doutora em Ciências Sociais, Mestre em Gerontologia (PUC-SP), sócio titular nº 182 da S.B>P>.
Coordenadora do Curso de Pós- Graduação em Psicomotricidade da UNIFAI.
2
Atualmente a escola conta com 09 pedagogas da rede municipal e 4 da rede estadual que
formam um grupo peculiar atuando no hospital, sensível às necessidades da criança doente
e capaz de seguir o programa educacional da escola de origem dessa criança, com
adaptações curriculares, implementando de maneira flexibilizada um programa lúdico,
quando esta não estiver em condições físicas ou psicológicas para estudar. Para isso o
hospital conta com um convênio firmado entre a Fundação Antonio Prudente, Secretaria
Municipal de Educação e Secretaria Estadual de Educação, as quais cedem algumas
professoras que assim como a escola são especialmente preparadas para essa nova visão
pedagógica para acompanhar e ensinar crianças com neoplasia3.
O pedagogo de classe hospitalar com sua prática voltada a arteterapia e com ênfase
na educação psicomotora tem um papel fundamental possibilitando a esses
alunos/pacientes um trabalho consistente explorando as habilidades motrizes necessárias
ao desenvolvimento da consciência de si mesmo e do mundo exterior conquistando assim a
sua independência. È necessário privilegiar as experiências vividas pelo aluno/paciente,
sempre considerando a cronologia das etapas do desenvolvimento.
A escola é o lugar onde os saberes são trocados, pesquisados, comprovados, para
que o aprender seja uma conquista prazerosa. Sendo assim a psicomotricidade voltada às
artes e ao lúdico se tornam instrumentos indispensáveis e facilitadores para descobertas da
construção do conhecimento, desenvolvendo assim as capacidades afetivas, motoras e
cognitivas. Assim como toda escola, a Escola Schwester Heine tem sua fundamental
importância, proporcionando um ambiente de influência sócio-cultural, ambiente este que
encoraja os alunos/pacientes a explorar possibilidades, propor soluções, levantar hipóteses,
justificar seu raciocínio e avaliar as suas próprias conclusões.
Neste ambiente a autonomia é estimulada e os erros fazem parte do processo de
aprendizagem, devendo ser explorados e utilizados de maneira a gerar novos
conhecimentos.
Falar, ouvir, ler, escrever e ser são competências básicas de comunicação que
ocorrem enquanto os alunos/pacientes interagem-se nas atividades. A escola da pediatria e
as pedagogas agem positivamente sobre o equilíbrio emocional do aluno, favorecendo um
desenvolvimento emocional sadio, para que ele possa “sentir-se seguro de si, saber
3
Neoplasia (neo= novo, plasia= formação). É o termo que designa alterações celulares que acarretam um
crescimento exagerado destas células, sem controle ou autonomia. Conforme suas características clínicas e
microscópicas, as neoplasias podem ser malignas ou benignas. Somente o tumor maligno é chamado de
câncer. ( Kit Educação em Câncer. Hospital do Câncer. Aguilla, Saúde Brasil, 2003)
3
interessar-se, associar-se com espontaneidade aos companheiros, dominar os impulsos do
comportamento socialmente negativo, seguir as instruções normais sem teimosia, procurar
ajuda junto ao professor, expressar sem receio as opiniões e necessidades ou dificuldades”
(FRANÇOSO e VALLE, 1999:61).
A psicomotricidade, como ciência da educação, pretende auxiliar a criança a
superar certas dificuldades que poderão prejudicar o seu rendimento escolar e sua
adaptação e sucesso social, afetadas em sua imagem e esquema corporal, devido ao
processo da doença e hospitalizações freqüentes. A psicomotricidade trabalha com muito
mais do que o corpo, trabalha com pessoas, num conjunto cognitivo, emocional e motor.
Os nossos gestos falam de nós, de nossa identidade, pois são movimentos muito
pessoais e todas as nossas ações motoras têm ressonância afetiva e cognitiva.
A educação psicomotora deve ser considerada como uma educação de base na préescola. Ela condiciona todos os aprendizados pré-escolares, leva a criança a tomar
consciência de seu corpo, da lateralidade, a situação no espaço, a dominar seu tempo, a
adquirir habilidades de coordenação de seus gesto e movimentos (OLIVEIRA, 1997:35).
Sendo assim a criança hospitalizada será beneficiada com os conhecimentos
psicomotores que deverão ser aplicados pelo profissional respeitando-se principalmente a
patologia de cada paciente.
A Escola da Pediatria desenvolve diariamente atividades relacionadas às artes nos
três espaços onde ela se localiza. Em cada espaço a realidade é um pouco diferente, porém
os alunos/pacientes são os mesmos que por vezes passam pelas três unidades(ambulatório,
laboratório e internação) no mesmo dia.
O que se espera é que a intervenção do psicomotricista aconteça para que a criança
adquira uma adequada maturação funcional perceptiva, uma disponibilidade psicomotora e
um aperfeiçoado controle psicotônico que lhes permitam encarar as aprendizagens
escolares triviais sem quaisquer carências instrumentais.
Esse aluno/paciente desenvolve com cada pedagogo um trabalho diferenciado,
adaptado a realidade do local, com horários mais restritos e espaço físico menor no
ambulatório e laboratório.
As observações feitas neste artigo são relacionadas à intervenção psicomotora
voltada às artes com as crianças e adolescentes internados no 5º andar, onde a necessidade
de aliviar as angústias e ansiedades são visíveis a todo instante.
4
Quando este aluno está internado, percebe-se a necessidade de seus acompanhantes
também participarem das atividades artísticas, lembrando que quando uma criança adoece,
adoece também toda a família (FONSECA, 1999).
Por muitas vezes os pacientes precisam se libertar da pressão de seus pais que de
uma forma inconsciente deixam transparecer toda a angústia por um suposto sentimento
de perda.
Na sala onde se desenvolvem as atividades artísticas o ambiente hospitalar deve ser
o mais descontraído e menos traumatizante, oferecendo melhores condições para o
aluno/paciente recuperar-se. As atividades propostas com a educação psicomotora dão ao
professor elementos seguros para a orientação da criança em fase de aquisição de
experiência de caráter dinâmico-manual.
A forma como a criança reage à presença de uma doença crônica depende, de
acordo com alguns autores, de determinados fatores que se relacionam com a própria
doença (ex: limitações de ordem física e/ou social, gravidade e prognóstico4; relacionados
com a própria criança (ex: personalidade, temperamento e idade); e relacionados ao
universo familiar(ex: estrutura familiar, capacidade de comunicação e capacidade de
resolver problemas(EISER, 1990;). Por exemplo, ao referir-se a crianças acometidas pelo
câncer, FRANÇOSO e VALLE (1999) relatam que o início do tratamento(normalmente o
primeiro ano) é o período que causa mais estresse, tanto na criança quanto em seus pais,
porque nesta fase o diagnóstico ainda é recente e o início do tratamento provoca grande
ansiedade. Das doenças crônicas congênitas, segundo PERES E LIANZA(2005) o câncer é
o que mais compromete o desenvolvimento psicomotor da criança não só por causa das
violentas reações à quimioterapia, mas também por causa do impacto emocional causado
pela doença (o cabelo muitas vezes cai, a criança vê-se atormentada pelo medo de morrer)
e isto interfere na sua motricidade ( SCHILDER,1981).
Ao se falar da importância da psicomotricidade e em destaque a arteterapia em um
hospital oncológico pediátrico, é necessário saber um pouco sobre o câncer infantil.
O câncer infantil deriva principalmente de tecidos embrionários com uma alta
capacidade proliferativa. Por um lado são muito agressivos, quando o diagnóstico se
encontra em fase avançada, por outro lado são altamente sensíveis à quimioterapia e
4
Prognóstico- em medicina, é conhecimento ou juízo antecipado, prévio, feito pelo médico baseado
necessariamente no diagnóstico médico e nas possibilidades terapêuticas. É predição médica de como a
doença X paciente irá evoluir e se há e quais são as chances de cura. (Kit Educação em Câncer. Hospital do
Câncer. Aguilla, Saúde Brasil, 2003).
5
radioterapia, havendo possibilidade de cura em mais de 60% dos casos (CAMERON,
1995). Quando uma criança é afetada por esta enfermidade, modifica-se toda a estrutura
familiar, bem como a comunidade a que pertence, pois todos são sensíveis ao sofrimento
de uma criança.
Ocorrem extensas e freqüentes hospitalizações, prolongados tratamentos que geram
ansiedade, depressão, sentimentos de solidão por causa da constante separação da família,
déficits físicos e imunológicos, atrasos no desenvolvimento psicomotor e escolar
(ARRASTOA, 1997).
Este sofrimento psíquico é também encontrado nas equipes de profissionais que
diariamente lidam com a dor, a doença e a morte. Acredita-se que toda a equipe que atende
crianças com câncer deve receber um apoio psicológico e uma formação especial e
específica para se lidar com este tipo de paciente.
E por que se falar da doença?
Para que se entenda a importância do pedagogo com conhecimentos na área
psicomotora auxiliando assim no resgate da auto estima trabalhando sua imagem e
esquema corporal, dentro de um hospital.
De acordo com Amaral e Silva (2007),
(...) a criação de classes escolares em hospitais resulta do reconhecimento de
que crianças hospitalizadas, independentemente do período de permanência na
instituição ou de outro fator qualquer, têm necessidades educacionais e direitos
de cidadania, onde se inclui a escolarização.
A educação é um direito de toda criança, mesmo em ambiente hospitalar. No
entanto, estudos realizados comprovam que, na prática, poucas crianças usufruem desse
direito, devido ao pequeno número de hospitais que prestam esse tipo de assistência. È de
suma importância que se reconheça a necessidade de integrar os profissionais da saúde,
para que assegure-se o desenvolvimento e a recuperação da saúde da criança internada.
O compromisso pedagógico em âmbito hospitalar demanda experiência e
flexibilidade de soluções na construção de conhecimento. Ao colocar as atividades
propostas em prática, as crianças têm a oportunidade de exteriorizar suas expectativas e
experiências
emocionais
individualizadas
conforme
explicam NASCIMENTO
e
HAELFNER(2007):
“no contexto hospitalar, cabe ao pedagogo perceber as intenções subjetivas das
respostas, as necessidades do paciente e tomar a iniciativa de quebrar barreiras,
transpor os muros da indiferença e deixar aflorar todo o seu afeto já que esse é
um sentimento que pressupõe interação. O processo cognitivo também envolve
6
o afetivo, através de relações e interações e para concretizá-lo é preciso ter
equilíbrio emocional para agir com atenção e tranqüilidade junto aos pacientes”.
A ação do professor é mergulhar neste universo e resgatar a auto estima de cada
paciente fazendo com que ele se relacione com outros pacientes, com a doença e com o
ambiente em que se encontra inserido. Segundo NASCIMENTO e HAEFFNER (2007); “É
importante que cada paciente forme um modelo autêntico de si mesmo e que use esse
modelo como processo de construção de uma auto-estima, que seja capaz de aceitar-se e
aceitar os outros, que se reconheça e conheça os outros.
A criança distante de sua casa e de sua família assusta-se ao chegar em ambiente
desconhecido. Desta forma, é muito importante para ela saber que existe um local repleto
de brinquedos jogos e estímulos. Neste sentido percebe-se a importância da
psicomotricidade na arteterapia para pacientes que precisam encontrar um meio de
expressão e criação e indiretamente vai ampliando o conhecimento deste aluno/paciente
sobre o mundo favorecendo o seu desenvolvimento cognitivo, afetivo, psicomotor e social
motivo pelo qual deve estar presente na vida de crianças hospitalizadas.
Estudos realizados por VALLADARES e CARVALHO (2005), objetivando
estabelecer uma comparação entre o desempenho do fazer tridimensional e da construção
com sucata hospitalar de crianças internadas, antes e após a intervenção de arteterapia
demonstraram que a mesma foi eficiente no que diz respeito as variáveis da
avaliação,concluindo-se que a arteterapia constitui-se em um meio que canaliza, de forma
positiva, as variáveis do desenvolvimento da criança internada e neutraliza os fatores
afetivos que, eventualmente surgem, além de estimular potenciais mais saudáveis da
criança, na maioria das vezes, pouco estimuladas no contexto hospitalar.
Estudos realizados em 2006, pelas mesmas autoras, levando em consideração que a
hospitalização pode ter efeitos maléficos sobre o desenvolvimento infantil, impedindo que
a criança dê seqüência a sua rotina diária e freqüente ambientes estimulantes, procederam a
um estudo objetivando avaliar o desenvolvimento e a qualidade do grafismo, antes e depois
da intervenção em arteterapia, com crianças em idade entre 7 a 10 anos, que encontravamse internadas em decorrência de moléstias infecciosas. Os resultados, demonstraram que as
sessões de arteterapia foram eficazes na promoção da qualidade das produções gráficas.
A criança hospitalizada encontra-se em fase de crescimento que provavelmente será
prejudicada em seu esquema corporal devido a inúmeros fatores como, por exemplo: muito
tempo de internação, superproteção dos pais (medo de expor a criança a quedas, dor, etc.),
7
falta de estímulos que auxiliem no desenvolvimento infantil para compensar a ausência de
movimentos durante as internações, sendo para isso importante a presença de um pedagogo
atuando junto à equipe multidisciplinar do hospital acrescentando e completando o
trabalho clínico.
Toda criança precisa experimentar seu próprio corpo, afirmava Piaget que em 1930
estudou as fases do desenvolvimento onde a criança, organiza-se e adapta-se
intelectualmente. Para que ela adquira o conhecimento, se faz necessário uma ação-física
ou mental sobre o ambiente, resultando assim na aprendizagem.
Não se pode esquecer esses estágios do desenvolvimento: sensório-motor, préoperatório, operatório-concreto e operatório-formal somente pelo fato da criança estar
doente, pois existe um lado saudável dela que o pedagogo deve resgatar e não deixar que
adoeça. E a partir desses estudos o professor em classe hospitalar deve ter plena autonomia
para trabalhar de forma diferenciada e individualizada descobrindo e planejando estratégias
que despertem o potencial de cada criança.
A partir daí entende-se que todo trabalho pedagógico num hospital deve ser
adaptado à sua realidade, levando-se em conta as características de cada patologia.
Outro ponto importante são os efeitos colaterais provenientes de um tratamento
com quimioterapia e radioterapia, ou outras medicações que irão alterar e interferir
diretamente no estado físico e psicológico do aluno/paciente sendo para isso necessário
sutileza na abordagem promovendo o desejo de cura que subjetivamente estão nos
pequenos gestos como: levantar da cama, tomar banho, tomar o lanche, se alimentar,
expressando a vontade de ir para a escola da pediatria.
A promoção desse interesse e dessa vontade é feita pela escola através da
arteterapia como tratamento psicoterapêutico utilizando como mediação a expressão
artística (dança, teatro, música, etc.) ou as representações plásticas (pintura, desenho,
gravura, modelagem, máscaras, marionetes, etc.).
A arteterapia compreende várias técnicas que podem e devem ser adaptadas à cada
realidade hospitalar. Ao decodificar o termo arteterapia, em sua raiz tem-se:
Arte: entendida como tendo a função de interpretar o mundo, provocar emoção,
reflexão, explicar e refletir as histórias humanas, representar crenças e homenagear idéias e
pessoas.
E o sufixo terapia: compreende a dimensão psíquica sem a qual nenhuma
modificação duradoura do comportamento poderia ser considerada. Assim o trabalho em
8
arteterapia centra-se no sujeito pesquisado, a fim de que ele encontre e elabore um
universo de imagens significantes de seus conflitos subjetivos.
A arte humaniza o homem. Com arte você pode ousar, mexer, brincar, sofrer,
modificar, criar de novo, etc. A linguagem artística permite que a criança exteriorize as
emoções. Trabalha também a auto-estima e a autoconfiança.
Uma verdadeira sessão de arteterapia deve ser ministrada por um psicólogo e cabe
a ele o psicodiagnóstico e a psicoterapia através das artes, porém o pedagogo de classe
hospitalar alinhavando saberes, com conhecimentos em psicomotricidade e psicologia está
habilitado a desenvolver um trabalho de fundamental importância em relação às artes,
observando com um cuidado especial a parte afetiva, cognitiva, física e social de seu aluno.
Este é o papel social da escola dentro de um hospital, sendo para isso necessário que o
professor não fique impermeável à arte que vem de cada criança, respeitando e entendendo
suas conquistas diárias. São conquistas que impulsionam e motivam o profissional a buscar
cada vez mais, especializações, cursos, instrumentalizando-se para que seu trabalho seja
coerente, honesto e promissor.
Paralelo às oficinas de arte, o professor com seu olhar pedagógico pode detectar
distúrbios, transtornos ou problemas psicomotores que deverão ser analisados em reuniões
pedagógicas e discutidos com a equipe multidisciplinar. Este olhar atento faz parte da
característica do profissional que com sua sensibilidade a cada dia aprimora mais e mais o
saber ver, ouvir e sentir de seu aluno.
Com esse mesmo olhar descobrem-se talentos e com releituras de obras artísticas
possibilita-se o reconhecimento das competências tornando o indivíduo o agente de sua
própria mudança.
A sessão de arte-terapia pode ser em grupo ou individual. Começa com
sensibilização do participante por meio de exercícios corporais ou de respiração, música,
leitura de textos ou visualização. Logo em seguida realizam-se os trabalhos e o participante
transpõe para a linguagem escrita o que percebeu no seu trabalho e verbaliza a experiência
com a ajuda do terapeuta.
O cuidador também é beneficiado. Não precisa ter um cunho terapêutico, mas é
uma boa estratégia para diminuir o estresse, a ansiedade e a angústia que afeta também
quem cuida do paciente.
É importante lembrar que segundo o Estatuto da Criança e do Adolescente, toda
criança e adolescente têm direito à educação e é assegurado à criança e ao adolescente
9
internados para tratamento de saúde por tempo indeterminado o acompanhamento
educacional durante o período de internação.
Com isso a disciplina de Artes não pode ser colocada em segundo plano, pois no
contexto hospitalar se torna imprescindível a comunicação do paciente e do cuidador
através da linguagem artística.
Segundo Arnheim (2004), a arte deve servir as necessidades humanas reais e
tornam-se visíveis os benefícios que as pessoas doentes recebem da arte, lembrando que
estes benefícios devem estar disponíveis a todos.
“A arte diz o indizível; exprime o inexprimível, traduz o
intraduzível”. (Leonardo da Vinci)
A arteterapia em um hospital como instrumento da psicomotricidade tem como
objetivo principal:
9
resgatar o desejo de cura,
9
fornecer meios para a catarse (exteriorizando sentimentos e emoções)
9
desenvolver formas criativas de se lidar com a doença e diminuir o estresse.
9
diminuir a ansiedade e favorecer a aderência ao tratamento.
Durante as vivências nas oficinas de artes o professor deve ter como principal
objetivo o estímulo à criação de uma forma prazerosa, sem se preocupar com estética. Para
isso é importante fazer o aluno/paciente rir, lembrando que o riso é terapêutico, segundo
Marly Tocantins5. Trabalhos científicos atestam que quando você chora de rir, as lágrimas
e a boca passam a ter mais imunoglobulinas. O cérebro produz beta-endorfina que ajudam
a relaxar e reduzir a dor. Rir reduz a tensão muscular, oxigena o corpo, tem um efeito
antiinflamatório nas articulações e ossos e ocorre um fortalecimento psicológico e
espiritual( JON-KAR ZUBIETA. 2007).
“A arte é vivida como atividade fundamental e necessária, experenciada como
algo divertido, muito prazeroso, que traz plenitude e realização pessoal, sendo
válida em si mesma.” (BILBAO, 2004; 33).
A proposta em um hospital oncológico deve estar relacionada à educação
psicomotora que pode ser trabalhada em duas áreas: expressão do corpo e expressão dos
sentimentos.
5
Psicóloga junguiana, especialista em terapias corporais e pesquisadora em medicina natural.
10
A psicomotricidade dá ao estudo do movimento humano uma dimensão mais
científica trabalhando a linguagem, imagem do corpo, com os aspectos perceptivosgnósico e práxicos e toda uma rede interdisciplinar, promovendo um universo de reflexões
no sentido de facilitar o desenvolvimento global do aluno/paciente permitindo que ele se
expresse livremente no pensar e fazer.
É necessário um trabalho que encoraje a imaginação para melhorar a sua habilidade
de enfrentar e aprender a respeito da situação da doença e através da fantasia o professor
pode trazer à luz aquilo que está oculto ou que a criança oculta.
Para adultos, melhora na comunicação entre o terapeuta e o paciente e permite ao
paciente um maior controle do tratamento. Na quimioterapia ou na radioterapia, o paciente
não pode interferir em quase nada e quando ele realiza e finaliza um trabalho artístico,
promove um resgate de sua autonomia.
O doutor Paulo de Tarso Lima, responsável pelo grupo de medicina integrativa e
complementar do Hospital Albert Einstein, acredita que a tendência é incorporar cada vez
mais essas práticas. É a medicina baseada em evidências6.
Os desafios são diários e é preciso sensibilidade para abordar o adolescente para
uma proposta relacionada às artes.
Figura 1 - Realizando trabalho com trançado (B. L. 14 anos).
A abordagem deve ser sutil e de forma gradativa, pois o adolescente muitas vezes
se fecha em seu mundo, se demitindo enquanto sujeito, renunciando ao futuro. Esse estado
depressivo da criança ou do adolescente pode levá-los a regredir em suas aquisições
verbais e sociais e através dos desenhos e pinturas, o pedagogo poderá fazer uma leitura de
seus medos, angústias. Muitas vezes o adulto desconhece o que a criança sabe sobre a
6
Jornal-A Folha de São Paulo, 2009).
11
morte da mesma forma que desconhece o que ela sabe sobre sexualidade. Com a criança
menor a abordagem se torna mais fácil para uma atividade artística.
Outra abordagem importante é a alegria, o bem estar, representados pelo uniforme
colorido do professor sendo um facilitador, tornando-o familiar às crianças, sendo a marca
personalizada, ou seja, a identidade do profissional da área, facilitando assim o vínculo de
confiabilidade entre ele e o paciente.
Figura 2 - Professoras Iara e Eliane com um dos uniformes da escola.
Existe um lado mais saudável da criança que fica adormecido pelo processo da
doença, hospitalização e tratamento. E é esse lado adormecido que deve ser o desafio para
o educador. No ambiente hospitalar é provável que a criança experimente mais
dificuldades em se expressar do que na rotina diária (em casa ou na escola). Essa tarefa
trabalhosa e sublime deverá ser feita com um cuidado especial.
“O desenvolvimento do potencial humano precisa da solidariedade e da
empatia de uma mão amiga, de um olhar afetuoso, de uma mensagem de
esperança” (ANTUNES, 199:Vll).
Toda criança, especialmente as que vão se submeter a um processo cirúrgico, tem a
necessidade de se expressar, de criar, de estabelecer relações com o mundo e as artes em
geral favorecem a criança nestes aspectos, além de afastá-la do desagradável, da dor, da
ansiedade, da monotonia, proporcionando a exteriorização de impulsos agressivos, medos
e temores.
A criança hospitalizada precisa de estímulos e sabemos dos questionamentos que
surgem quando a enfermidade e a hospitalização aparecem em seu caminho
impossibilitando-as de ter seu desenvolvimento normal.
12
Figura 3 - Atividade com massa de modelar (K. A – 3 anos).
Segundo Gardner, não podemos perder o foco em relação aos estímulos dado a
essas crianças.
“Nunca pense em estímulos como meio de apressar o desenvolvimento de uma
criança. Estímulos são como alimentos e precisam ser dosados
adequadamente.” (GARDNER, 1994, p.22).
A relação da arte com o humano é capaz de possibilitar uma linguagem de abrir
novos caminhos de comunicação entre o consciente e o inconsciente.
A clientela é flutuante e para isso o professor não pode dar trabalhos muito
extensos. Os trabalhos normalmente são feitos também com os acompanhantes, pois se
percebe que esse binômio (criança e acompanhante) em muito fortalece os benefícios para
a criança no pré-operatório. A mesma sofre influências diretas de seus cuidadores e quando
esses cuidadores estão equilibrados emocionalmente melhores resultados podem ser
esperados com as crianças. A adaptação curricular em um hospital se faz necessária, onde
o professor com sensibilidade aproveita certos momentos, já que as situações são as mais
diversas e adversas possíveis.
Os materiais utilizados nas oficinas de artes são os mais variados, levando-se em
conta sempre a preocupação com a higienização por se tratar de um hospital.
O professor deve preparar o ambiente tornando-o agradável com diversos materiais
ao alcance dos alunos, sendo necessário que na sala de aula exista um local apropriado
para se guardar todo o material, incluindo as sucatas, para a realização dos trabalhos.
Esses materiais são: todos os tipos de papéis como, papel de seda, A4, cartão,
cartolina, celofane, Kraft, crepom, pardo, de dobradura; E.V.A.; tecidos variados; lápis de
cor, lápis preto, aquarelado, carvão, canetas hidrocor, giz de cera, cola quente, cola branca,
guache, pintura a dedo acrílica, tinta para tecido, lantejoula, brocal, miçanga, barbantes,
revistas,
sucatas,
tesoura,
papel
higiênico,
massinha
biscuit,macarrão, lixa, punção, aparelho de som e cds.
de
modelar,
massa
de
13
As atividades psicomotoras propostas devem respeitar as faixas etárias e considerar
os tipos de patologias com suas devidas limitações. São elas:
Colagem e recorte:
Figura 4 - Professora Eliane e paciente (G. S.- 7 anos). Confecção do painel com dobraduras, colagem e
recorte.
Trabalha o desenvolvimento psicomotor e organização de pensamento, que
funciona como uma análise da construção de uma nova forma. Simbolicamente o ato de
recortar ou de rasgar os papéis e posteriormente reuni-los, colá-los e recompondo-os
corresponde subjetivamente à vivência de cortes, rupturas, reparação e organizaçãoestruturação (VALLADARES E CARVALHO, 2005)
As atividades que estimulam a coordenação óculo-segmentária manual, como
recorte a dedo e com tesouras, picado, bordado, utilização e manuseio do lápis de cor,
favorece posteriormente no domínio da escrita e com a percepção visual mais apurada a
aprendizagem da leitura será favorecida.
Picado e Recorte com tesoura:
Figura 5 - Recorte com tesoura- trabalho de coordenação visomotriz delicada (A. L.- 9 anos).
14
É importante para que a criança comece a trabalhar a coordenação visomotora
servindo de base para o ato preensor e controle de movimentos. Começa-se com
movimentos precisos e de pequena amplitude (COSTALLAT, 1922).
Crianças tímidas ou inibidas farão o picado superficial e disperso e algumas vezes
não conseguem perfurar o papel. Ao contrário, crianças onde a agressividade se faz
presente a excessiva pressão acarretará em pontos grandes, chegando a rasgar o papel, ao
invés de perfurá-lo. Essa impulsividade e ausência de freio inibitório deixarão o papel
irregular com furos em apenas determinado lugar.
É importante que a criança aos pouco encontre esse equilíbrio educando assim seus
movimentos, pois mesmo hospitalizada o objetivo maior é integrá-la
de uma forma
harmoniosa promovendo uma consciência corporal para que se sinta bem dentro de sua
própria pele.
A espessura do papel será de acordo com o tônus muscular da criança. Na criança
hipotônica pode-se usar plásticos suaves obrigando-a a trabalhar a contração muscular
exercendo maior pressão sobre o material. Ao contrário, se ela for hipertônica, o material
utilizado deverá ser delicado para que a criança controle sua pressão.
Entende-se que a criança se encontra numa situação de fragilidade onde deverá ser
levado em conta seu estado emocional. Isso se traduzirá no trabalho onde a profundidade
dos pontos, a dispersão, a regularidade dos pontos, rasgar às vezes o papel ou não
conseguir perfurá-lo, são sinais de instabilidade emocional.
Atividades com tesoura são de caráter essencialmente dinâmico, desenvolvendo ao
máximo a coordenação visomotriz delicada.
Os quatro passos importantes e sucessivos são; ato preensor correto, manejo da
tesoura sem material, corte livre sobre o papel e recorte sobre o desenho sendo um
exercício fundamentalmente dinâmico-manual.
Modelagem: argila, massinha, pedra sabão, madeira:
15
Figura 6- Confecção de maquete “Arca de Noé, Animais feitos com massa de modelar (A.M.F.- 9 anos).
Figura 7- Releitura da obra de Tarsila do Amaral.
Permite a estimulação tátil e a capacidade de planejar e concretizar, despertando o
entusiasmo, o interesse e a ação da vontade. É uma atividade de relaxamento além de
fortalecer a musculatura e a harmonia pelo equilíbrio. Oferece noções de temperatura,
peso, textura, concavidade ou convexidade (NASCIMENTO, 2007)).
É recomendada para crianças muito rígidas já que o contato muscular das mãos aos
pouco leva ao relaxamento e auxilia a criança a compreender a sua forma de ser e
descarregar o excesso de energia acumulada durante a sua forma de viver, no trabalho, na
família e na sociedade.
Pintura:
Figura 8- (L.A.R.- 5 anos) e seu pai em seu momento de criação.
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Permite a liberdade diante de uma folha de papel. As cores estão relacionadas com
as emoções. Liberdade também ao experimentar um conjunto de cores. O principal é
relaxar, experimentando sensações e emoções. As técnicas podem ser orientadas com
temas livres ou direcionadas. A aquarela trabalha o lado emocional, sendo que a criança
confronta-se com suas qualidades e dificuldades.
Desenho:
Figura 9 - Desenho e colagem- tema livre (F. A.-7 anos).
Figura 10 - Passeio na Pinacoteca, paciente cega observando obra de Tarsila do Amaral
(L.A.- 16 anos).
Atividades relacionadas aos sentimentos mais profundos. Os sentimentos e
conflitos dos indivíduos são frequentemente expostos involuntariamente, ou seja, o
inconsciente que fala por meio de imagens, principalmente por meio de desenhos. O
desenho estimula a criatividade, pois requer a expressão de idéia, atenção, imaginação e
concentração. Desenhar possibilita observar formas, linhas, cores, luzes e volume, sendo
assim estimula a psicomotricidade e favorece o desenvolvimento da coordenação motora e
espacial, podendo ser livre ou direcionado.
17
Desenhos com carvão desenvolvem a esfera cognitiva e a capacidade de abstração,
ordenando os pensamentos. Expressam sentimentos e emoções (luz e sombra), alegria e
tristeza.
Existem aspectos grafomotores que devem ser analisados, pois quando uma criança
pega um lápis para desenhar ou pintar a preensão e a pressão desse lápis revelará o tônus
dessa criança, se é, estável, forte ou fraco, indicando insegurança, falta de coordenação,etc.
Algumas crianças com disgrafia possuem desorganização no traçado com
hipotonia. O desenho também pode revelar dificuldade intelectual, dificuldade de
linguagem e pobreza cultural.
“Um símbolo pode ser universal, mas seu significado é individual.”
(DI LEO, 1991).
Paralelo aos trabalhos artísticos o olhar pedagógico do professor está nos pequenos
detalhes como no uso que a criança faz do lápis ou pincel (preensão), observando a
capacidade de manuseá-los, pegá-los e soltá-los. É importante a estimulação sensorial para
que a criança trabalhe as conexões com o cérebro.
Durante os trabalhos observa-se também qual o tipo de dominância lateral e muitas
vezes encontramos a destralidade ou sinistralidade falsas, pois a criança se encontra
impossibilitada de usar a sua mão de lateralização inata devido aos procedimentos clínicos,
como a punsão das veias naquela mão.
Desta forma existe uma adaptação da criança para usar a outra mão criando formas
alternativas para se lidar também com aquele problema
Construção (maquetes):
Figura 11- Atividade de socialização- Tema “Cidade de São Paulo”.
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Trabalha com atos de montar e desmontar e equilibrar, a percepção e o despertar de
valores, como noções de peso, tamanho, forma, posição e espaço.
Construir significa: edificar, estruturar, organizar, elaborar, projetar o futuro, ex
(maquetes).
Trabalho com sucatas e recicláveis:
Figura 12- Trabalho feito com garrafa pet.
Favorece a construção investigadora de criar perante a idéia de propor um novo
olhar diante do velho (sucatas). Essa atividade favorece o equilíbrio do bem estar devido
ao resgate de algo que pode ser reconstruído e transformado e proporciona a auto-estima e
a percepção de sua transformação interna.
Trabalho com música:
Figura 13- Cantor Marcello Mira (esq.) e professor Fábio (dir.) nas aulas de música.
Encontros musicais onde os pacientes e acompanhantes se reúnem para relaxarem e
aliviarem o estresse, possibilitando assim além do lazer, um reconhecimento de diferentes
ritmos,apreciações musicais pertencentes ao contexto jovem, da comunidade e de outros
meios culturais.
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Durante os encontros o aluno/paciente descreve aquilo que ouve e sente
(sentimentos e sensações) em relação às músicas e canções apreciadas. Constrói-se
instrumentos musicais com sucatas explorando assim os diferentes sons.
Teatro de fantoches
Figura 14 - Fantoche Gioconda confeccionado para apresentação nas aulas de música e
teatro, com pacientes e acompanhantes.
Realizam-se pequenas peças de teatro com a participação dos professores para
serem apresentadas nas festas. Improvisam –se cenas teatrais com os colegas a partir de
estímulos variados (tais como, temas, sons, gestos, objetos), integrando-se com eles
sabendo ouvir e esperar a hora de falar. As brincadeiras com fantoches e marionetes são
importantes no sentido de brincar de ser outra pessoa e usar o corpo e a voz, observar e
criar os gestos e diálogos.
Trabalhar com fantoches e marionetes desperta a criatividade, amplia a imaginação,
aperfeiçoa a concentração, trabalha a timidez, exercita a voz e suas entonações, valoriza o
trabalho em grupo, desenvolve a coordenação motora e valoriza a educação ambiental com
materiais de sucata.
Benefícios percebidos
As atividades artísticas auxiliam a criança a aceitar com mais naturalidade as
situações indesejáveis adaptando-se às rotinas hospitalares, lembrando que a criança
impossibilitada de brincar tem o seu desenvolvimento comprometido.
A criança que desenvolve formas de se expressar está registrando a sua marca
pessoal, o seu estilo e o seu modo de ser no mundo (Chiesa). A arteterapia possibilita à
20
criança reconhecer-se nas imagens produzidas na criação plástica que são os símbolos que
retratam os conteúdos internos desconhecidos.
Essa dinâmica se dá através do diálogo que existe entre inconsciente e consciente e
esse processo proporciona a compreensão, expansão e integração das estruturas psíquicas.
A relação da arte com o humano é capaz de possibilitar uma linguagem de abrir
novos caminhos de comunicação entre o consciente e o inconsciente.
Os benefícios percebidos são:
•
diminuição da dor e desconforto físico,
•
estímulo à imaginação e à criatividade,
•
promoção da socialização e integração com o ambiente externo
•
exteriorização de sentimentos de tensões e angústias,
•
preparação da criança e do acompanhante para uma situação adversa que poderá
surgir,
•
possibilitar à criança e ao acompanhante uma sensação de liberdade no momento da
criação, pois como foi falado no começo o paciente durante as sessões de
quimioterapia ou radioterapia não pode interferir em quase nada e quando realiza e
finaliza um trabalho artístico, promove um resgate de sua auto-estima,
•
e continuidade ao processo global da criança através da estimulação física,
sensorial e social.
Segundo LEVIN, 2000 observa-se num trabalho hospitalar interdisciplinar a
importância da educação psicomotora junto às artes, auxiliando os pacientes que
visivelmente estão carentes de movimento, de gestualidade, onde suas estruturas tônicas
encontram-se quase sempre na defensiva, sem desejos de movimentos, de brincar, ou
qualquer outra coisa. Seus corpos cansados abúlicos precisam de motivação.
O processo de hospitalização causa sérias alterações e rupturas no relacionamento
com a família, escola, amigos, impondo à criança um ambiente desconhecido, sem
ludicidade e estímulos e permeado por normas e limites.
Segundo VIEGAS ( 1999:101) “Cada criança internada deixa para trás o mundo
das coisas comuns: os pais, a casa, os irmãos, os bichos de estimação, os brinquedos”. As
mães participantes estão presentes, mas há angústia. Por isso normalmente as crianças
hospitalizadas são muito tristes”.
21
Por tudo isso as aulas de arteterapia são feitas sempre com a participação de
pacientes e acompanhantes, onde se podem notar a interação e integração entre todos os
presentes.
Figura 15 - Trabalhos realizados por pacientes e acompanhantes.
O pedagogo observa as dificuldades físicas de seus alunos/pacientes, tendo a
sensibilidade de trabalhar respeitando-se as limitações provenientes dos curativos,
quimioterpia, punção das veias, etc.
Através das artes e vivências, cada paciente pode livremente dialogar com sua obra:
sofrer; sorrir; cantar, gritar, calar, aliviando assim de uma forma consciente ou
inconsciente seu coração e sua mente, superando a dor física e moral que vêm muitas vezes
mescladas com insegurança e incerteza do futuro. Essa catarse é necessária para que se dê
andamento ao tratamento, pois do contrário a presença da equipe de psicólogos será uma
constante.
Muitas vezes ao se perguntar a um adolescente com câncer sobre sua vida, pode-se
tirar a seguinte conclusão: Para ele o presente torna-se estático, o passado inaccessível e o
futuro inimaginável. Essa fala deve ser considerada com muita sutileza, e através do
resgate de sua autoestima este paciente poderá vislumbrar um futuro, bem como lhe
reintegrar a um espaço de convívio social do qual ele foi abruptamente afastado.
Esse raciocínio pode ser também evidenciado em MATOS e MUGGIATI
(2001:39), que assim afirmam:
“evidencia-se que a continuidade dos estudos incluindo as artes, paralelo à
internação traz maior vigor às forças vitais do enfermo, como estímulo
motivacional induzindo-o a se tornar mais participante e produtivo com vistas a
uma efetiva recuperação”.
Conclusão
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Conclui-se que os hospitais não só podem como devem ser ambientes que
apresentem estímulos para o aluno/paciente, implementando em sua prática diária,
cuidados que vão além da doença.
O objetivo principal é trabalhar com um vasto repertório de modalidades
expressivas de materiais artísticos como instrumentos que auxiliam na educação,
reeducação ou terapia psicomotora, possibilitando que o aluno/paciente se reconheça nas
imagens e dialogue com sua produção, consciente ou inconscientemente.
O educador deve entender que tudo que é positivo se edifica com maior facilidade
dentro de cada um, portanto deve fornecer subsídios para que este aluno/paciente e seu
acompanhante através das artes tenham a capacidade de mudar os pensamentos que
permeiam a sua mente criando um sistema imunológico.
Para isso é importante que no mapa amplo da vida desse aluno/paciente se crie
estratégias para lidar melhor com a doença de uma forma positiva, comparando e ajudando
os próprios colegas que se encontram na mesma situação.
Essa forma positiva de enfrentar a vida com todos os percalços é o objetivo
principal da psicomotricidade inserida no contexto da classe hospitalar que numa simples
frase resume o seu pensamento:
“Não podemos dirigir o vento, mas podemos regular as velas”. (Sêneca)
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