DISLEXIA NO ÂMBITO ESCOLAR: ESTRATÉGIAS PARA O TRABALHO COM
ALUNOS DISLÉXICOS NAS SERIES INICIAIS DO ENSINO FUNDAMENTAL 1
Sandra Regina de Melo
(Aluna do curso de Pedagogia da UEMG-Barbacena)
Elaine Leporate Barroso Faria
(Mestre em Psicologia pela UFJF
Professora e pesquisadora na UEMG-Barbacena)
RESUMO
Este trabalho de conclusão de curso tem como tema a dislexia no âmbito escolar,
em que pensamos as estratégias para o trabalho pedagógico com alunos disléxicos
nas series iniciais do ensino fundamental. Nesse estudo levantamos a questão
acerca de quais estratégias os educadores devem utilizar no trabalho pedagógico
com alunos disléxicos nas séries iniciais em sala de aula. A investigação se dá pela
importância da discussão do tema no âmbito educacional, para a identificação de
dificuldades de aprendizagem que envolve o aluno disléxico e as estratégias que o
educador deve utilizar no processo ensino/aprendizagem junto a esse aluno. Para a
realização do trabalho com a criança disléxica, o professor necessita ser capacitado
e ter conhecimento do que é a dislexia, quais são as causas do transtorno, bem
como saber como conduzir o trabalho pedagógico no sentido de potencializar a
aprendizagem e o desenvolvimento do aluno. Com essas informações o professor
pode trabalhar com o aluno disléxico em sala de aula, não deixando que este se
sinta excluído e com baixa autoestima. Certamente, quanto mais cedo é realizado o
diagnóstico da dislexia, melhor o desempenho do disléxico na escola e no trabalho.
O papel do professor é fundamental na formação do individuo, podendo assim
intervir no fracasso escolar e na evasão que o transtorno pode levar.
PALAVRAS-CHAVE: Dislexia, estratégias, aprendizagem.
INTRODUÇÃO
1
Trabalho apresentado no grupo GT4 da VIII Semana de Pesquisa e Extensão e III Semana de Ciências Sociais
da UEMG/Barbacena.
Atualmente alguns educadores, se preocupam com diversos problemas que
cercam seus alunos acarretando dificuldades de aprendizagem. Entre essas
dificuldades encontramos a dislexia. Este trabalho de conclusão de curso busca
estudar, conhecer e compreender a dislexia no ambiente escolar, como uma das
possíveis causas do não aprendizado da leitura e da escrita, para assim propor
estratégias eficazes no trabalho pedagógico junto às crianças com diagnóstico desta
dificuldade.
A pesquisa foi realizada através de um estudo de cunho bibliográfico baseado
em autores que falam a respeito da Dislexia, tendo em foco a atuação do professor
perante o aluno com essa dificuldade de aprendizagem, e como trabalhar com
alunos disléxicos das séries iniciais no âmbito escolar.
Assim, no primeiro capitulo - compreendendo a dislexia iremos tratar sobre o
papel social da leitura e escrita, discorrendo sobre o seu processo de aquisição,
abordaremos também a dislexia em seus vários aspectos, como definição, contexto
histórico e a inclusão do aluno disléxico em sala de aula.
No segundo capítulo - a influência da dislexia no processo de aprendizagem
ressaltamos a importância do diagnóstico e sinais de alerta de acordo com a faixa
etário do indivíduo, o caminho para a formação de leitura em nosso cérebro,
aspectos básicos da anatomia cerebral e o cérebro durante o processo de leitura. Na
tentativa de auxiliar o educador a conhecer a dislexia e de distingui-la das
dificuldades comuns de aprendizagem.
COMPREENDENDO A DISLEXIA
O papel social da leitura e escrita
A aquisição do conhecimento é um dos desafios para a criança que apresenta
algum tipo de dificuldade de aprendizagem. Ao nos depararmos com alunos que
apresentam dificuldades em assimilarem algum tipo de conhecimento, acarretando
déficits de aprendizagem, principalmente no que tange as áreas da leitura e da
escrita, na maioria das vezes, tais dificuldades são associadas com incapacidade
intelectual, porém, o real problema pode ser uma dificuldade de aprendizagem,
denominada dislexia.
Sabemos que a leitura e a escrita são fatores importantes em nível de
desenvolvimento intelectual do indivíduo, sendo instrumentos necessários para seu
crescimento pessoal e inserção em nossa sociedade, portanto o educador deve
estar atento ao contexto social em que este está inserido, para que assim possa
compreender como se dão essas dificuldades no processo de aprendizagem.
O processo de aquisição da leitura e da escrita
A aquisição da leitura e escrita é uma das metas mais desejadas pelas famílias
e educandos. Neste processo, os educadores têm o papel fundamental, uma vez
que a aquisição das habilidades de ler, escrever e expressar-se oralmente em
diversas situações do nosso cotidiano implica em elaborar novos conhecimentos,
desenvolver a aptidão de interpretar textos orais e escritos, expressar ideias,
pensamentos e sentimentos, utilizando a linguagem adequada para cada ocasião
com sutileza e autonomia. (FERREIRA; DIAS, 2002)
Entretanto, nem sempre se obtêm sucesso no campo educacional. No
transcorrer do ensino, encontramos alunos paralisados diante do processo de
aprendizagem, rotulados pela própria família, professores e colegas como aqueles
que não alcançam os objetivos de aprendizagem, ou seja, por não saber ler e/ou
escrever e, desse modo, não seguem o padrão esperado pela escola e a sociedade.
De acordo com Silva (2009):
As crianças no início da alfabetização, quando começam a apresentar
atraso na aquisição da leitura e da escrita, muitas são rotuladas como
desatentas e preguiçosas, mas é preciso que a escola e a família saibam
intervir adequadamente e precocemente para que isto não gere na criança
frustração e abandono escolar. (SILVA, 2009, p. 473)
Embora sejam frequentes as diversas dificuldades e os distúrbios de
aprendizagem mediante o processo de ensino, a escola, bem como o professor,
devem ser conhecedores das características que a dislexia apresenta, ainda que a
mesma não seja ocasionada por fatores ambientais. Levando em consideração o
fato que a leitura é um dos instrumentos mais fortes na escolarização formal, o
individuo que apresente a Dislexia, necessita de uma educação que reconheça suas
dificuldades específicas, o que poderá contribuir de forma satisfatória para o seu
desenvolvimento.
O QUE É A DISLEXIA?
Para melhor compreensão a respeito do conceito de Dislexia, deve-se,
primeiramente, conhecer a origem da palavra. A palavra dislexia vem do grego e
latim e significa distúrbio de linguagem, (dis = distúrbio; dificuldade e lexia = leitura
e/ou linguagem). (IANHEZ; NICO, 2002)
De acordo com Silva (2003), a Dislexia é uma dificuldade de aprendizagem
caracterizada por problema na linguagem, de origem neurológica e genética,
caracterizada por problemas na leitura e na escrita, apesar de o indivíduo apresentar
inteligência normal e oportunidade econômica adequada. A dislexia não é
considerada uma doença, mas sim um funcionamento peculiar do cérebro para
processar a linguagem. Assim, o indivíduo disléxico apresenta dificuldade para
decodificar as palavras e realizar uma leitura fluente, correta e compreensiva.
Shaywitz (2008) corrobora com Menezes (2007), ao definir a Dislexia como
um problema complexo, tendo suas origens nos sistemas cerebrais que permitem ao
homem entender e expressar-se pela linguagem. Conforme as autoras, no indivíduo
disléxico, ocorre uma ruptura nos circuitos neurológicos fundamentais para a
codificação da linguagem, aparecendo problemas na leitura, na capacidade de
soletrar, de memorizar palavras e articulá-las, além de evocar certos fatos
encontrados nos textos.
A Associação Internacional de Dislexia (IDA, na sigla em inglês), em 2003,
propôs a seguinte definição:
Dislexia é uma incapacidade específica de aprendizagem, de origem
neurobiológica. É caracterizada por dificuldades de correcção e/ou fluência
na leitura de palavras e por baixa competência leitora e ortográfica. Estas
dificuldades resultam de um Défice Fonológico, inesperado, em relação às
outras capacidades cognitivas e às condições educativas. Secundariamente
podem surgir dificuldades de compreensão leitora, experiência de leitura
reduzida que pode impedir o desenvolvimento do vocabulário e dos
conhecimentos gerais. (IDA, 2003, citado por TELES, 2004, p. 4)
Esta definição de dislexia, adotada em 2003 pela Associação Internacional de
Dislexia é atualmente aceita pela grande maioria da comunidade científica. (TELES,
2009).
Segundo Myklebust (1972), a dislexia pode ser classificada como disfonética,
visual ou mista:
- Dislexia auditiva: afeta o processo cognitivo que relaciona os fonemas
(sons) com os grafemas (letras) na formação das palavras. Ler é de certa
forma ver e ouvir. A visualização pressupõe a auditorização dos grafemas,
isto é, a capacidade de simbolizar e de codificar a informação. Ler envolve
aquisições auditivas muito importantes como silabação (soletração) e
fonologia, que é a função auditiva de uma palavra num processo básico de
informação; exemplo: ouve-se MACACO e escreve CAMACO.
- Dislexia visual: quando as letras não são reconhecidas como letras
(tamanho, forma, linhas retas ou curvas, ângulos, vertical ou horizontal,
etc.). A leitura vai da identificação das letras á síntese das sílabas (audição)
e destas as palavras. Exemplo: Lê-se SOL e escreve LOS
- Dislexia Mista: processo auditivo-visual e visual-auditivo. (MYKLEBUST,
1972, apud, SOUZA, 2011, p. 20, grifos nossos)
Como pode ser observado, a Dislexia é uma dificuldade específica da leitura, de
origem biológica. De fato, contrariamente ao que alguns julgam a dislexia não está
associada a um baixo nível intelectual, pelo contrário, um disléxico pode revelar
padrões acima da média, para a sua faixa etária, em outras áreas que não a leitura,
padrões estes que veremos no decorrer deste trabalho.
CONTEXTO HISTÓRICO DA DISLEXIA
Conforme Shaywitz (2008) a Dislexia começou a ser foco de interesse da
sociedade a partir do século XVII. Segundo a autora, em 1676 foi relatado pelo Dr.
Johann Schmidt o caso de um homem de 65 anos que havia perdido a capacidade
de leitura após um derrame, condição que recebia a designação de Alexia Adquirida.
No final do século XIX, aparecem as primeiras referências à Dislexia. Vários
médicos da zona rural de Seaford, cidade situada na Inglaterra e no interior da
Escócia publicaram artigos em revistas especializadas, nos quais descreviam
diversos casos de crianças descendentes de famílias atentadas e educadas,
membros da sociedade vitoriana, que pareciam motivadas e inteligentes, com
professores interessados, mas que não conseguiam aprender a ler (SHAYWITZ,
2008).
Em 1968, a World Federation of Neurologia convencionou o uso da expressão
Dislexia de Desenvolvimento ou apenas Dislexia, instituindo assim a distinção entre
as dislexias Adquiridas, atualmente denominadas de Afasias; e a Dislexia
considerada como Congênita.
Os estudos feitos acerca da Dislexia, desde a primeira definição sobre o
conceito até os dias atuais, foram de grande importância para a definição desta
dificuldade de aprendizagem, além de sua detecção por meio das características
apresentadas pelos indivíduos que o possuem.
DISLEXIA E INCLUSÃO
No âmbito educacional, a inclusão de alunos com Dislexia se tornou cada vez
mais frequente. Diante disso, os profissionais de ensino devem estar atentos às
dificuldades que seus alunos apresentam, pois, é na escola, local onde a leitura e a
escrita são utilizadas de forma constante e, sobretudo, valorizadas, que a Dislexia,
de fato, aparece. Nesse contexto, as Instituições de ensino devem estar informada
e equipada, com profissionais capacitados e um currículo diferenciado, para poder
amparar o aluno disléxico, atendendo e respeitando suas dificuldades, limitações e
capacidades.
As discussões da atualidade deixam em evidência a necessidade do respeito
à diversidade em diferentes áreas da sociedade. Em um mundo cada vez mais
desigual, do qual apresenta diferentes grupos, dentre eles, os das pessoas com
necessidades especiais, indivíduos estes que, na maioria das vezes, encontram-se
destituídos de sua personalidade, rotulados e colocados à margem da sociedade.
Em conformidade com o exposto acima, A Declaração de Salamanca,
instituída na Conferência Mundial sobre Necessidades Educacionais Especiais,
realizada entre 7 e 10 de junho de 1994, na cidade espanhola de Salamanca,
determinou o acolhimento de todas as crianças nas escolas, independentemente
das suas condições físicas, intelectuais, sociais, emocionais ou linguísticas.
A Declaração de Salamanca salienta que:
O princípio que orienta esta Estrutura é o de que escolas deveriam
acomodar todas as crianças independentemente de suas condições físicas,
intelectuais, sociais, emocionais, lingüísticas ou outras [...] No contexto [...],
o termo "necessidades educacionais especiais" refere-se a todas aquelas
crianças ou jovens cujas necessidades educacionais especiais se originam
em função de deficiências ou dificuldades de aprendizagem. Muitas
crianças experimentam dificuldades de aprendizagem e portanto possuem
necessidades educacionais especiais em algum ponto durante a sua
escolarização. (UNESCO, 1994, p. 3)
A LDB 9.394/96 no art. 59 ressalta que devemos ter uma educação inclusiva
com um novo paradigma educacional, revendo objetivos e práticas, de modo que os
educandos com dificuldades de aprendizagem, necessidades especiais ou outras
condições que demandem respostas educativas diferenciadas, sejam incluídos de
forma que possam ser favorecidos para obterem sucesso no processo de ensinoaprendizagem. O artigo argumenta que:
“Os sistemas de ensino assegurarão aos educandos com necessidades
especiais:”
I - currículos, métodos, técnicas, recursos educativos e organização
específicos, para atender às suas necessidades;(...)
III - professores com especialização adequada em nível médio ou superior,
para atendimento especializado, bem como professores do ensino regular
capacitados para a integração desses educandos nas classes comuns;
(BRASIL, 1996, s/p)
Sob a resolução CNE/CEB nº 2/2001, as “Diretrizes nacionais para a
educação especial na educação básica”
Art. 5º Consideram-se educandos com necessidades educacionais
especiais os que, durante o processo educacional, apresentarem:
I - dificuldades acentuadas de aprendizagem ou limitações no processo de
desenvolvimento que dificultem o acompanhamento das atividades
curriculares, compreendidas em dois grupos:
a) aquelas não vinculadas a uma causa orgânica específica;
b) aquelas relacionadas a condições, disfunções, limitações ou deficiências;
(BRASIL, 2001, p. 70)
Nesse contexto, pode-se verificar que, a Dislexia constitui uma limitação da
aprendizagem e, os indivíduos diagnosticados como disléxicos, estão, deste modo,
incluídos no grupo de alunos com necessidades educacionais especiais.
A resolução CNE/CEB nº 2/2001 ainda define que:
[...] a ação da educação especial amplia-se, passando a abranger não
apenas as dificuldades de aprendizagem relacionadas a condições,
disfunções, limitações e deficiência, mas também aquelas não vinculadas a
uma causa orgânica específica, considerando que, por dificuldades
cognitivas, psicomotoras e de comportamento, alunos são frequentemente
negligenciados ou mesmo excluídos dos apoios escolares.
O quadro das dificuldades de aprendizagem absorve uma diversidade de
necessidades educacionais, destacadamente aquelas associadas a:
dificuldades específicas de aprendizagem, como a dislexia e funções
correlatas; problemas de atenção; perceptivos, emocionais, de memória,
cognitivos, psicolinguísticos, psicomotores, motores, de comportamento; e
ainda a fatores ecológicos e socioeconômicos, como as privações de
caráter sociocultural e nutricional. (BRASIL, 2001, p. 43 e 44, grifo do autor).
A inclusão proposta pela CNE/CEB nº 2/2001 deve abarcar a todos os alunos,
atendendo as necessidades educacionais de cada um, sem qualquer restrição,
respeitando-os em suas diferenças e proporcionando qualidade no ensinoaprendizagem. Para que isso ocorra, a escola deve dispor de suportes como
recursos materiais, humanos e serviços especializados, permitindo a adaptação de
métodos e práticas de ensino e avaliação.
A INFLUÊNCIA DA DISLEXIA NO PROCESSO DE APRENDIZAGEM
Diagnóstico e indicadores da dislexia
Quando uma criança está aprendendo a ler, primeiramente ela descobre que
as palavras faladas são constituídas por partes. A identificação das palavras e a
transformação em sons é um processo simples, fácil e prático para muitas pessoas,
mas devemos considerar que também existem aqueles que não têm esta facilidade
e que muitas vezes se encontram com situações que os deixam constrangidos.
Estes indivíduos são considerados leitores deficientes.
Os disléxicos são leitores deficientes porque ocorre uma falha no sistema que
processa
a
linguagem, debilitando
a
consciência
fonêmica
do
mesmo e
consequentemente sua capacidade de segmentar a palavra falada nos sons
subjacentes. Os fonemas são definidos de forma menos clara, impedindo-os a
capacidade de uma leitura rápida e eficaz (Shaywitz, 2008), no entanto se a
metodologia de ensino for adequada poderão ser leitores fluentes.
Diagnóstico
O diagnóstico de dislexia é excludente, pois é necessário excluir qualquer
possibilidade de causa patológica que justifique as dificuldades apresentadas pelos
pacientes, e
deve
ser feito por uma equipe multidisciplinar formada por
psicopedagogos, fonoaudiólogos e psicólogos. É importante que todos os
profissionais envolvidos troquem informações para confirmar a dislexia, porque
através dessa troca de dados o encaminhamento poderá ser feito de forma
adequada. O diagnóstico deve ser esclarecedor para os pais, os educadores e os
profissionais que irão acompanhar o caso, assim também como o próprio disléxico,
com a finalidade de tentar estabelecer um prognóstico e encontrar caminhos
eficazes para o programa de reeducação e não rotular o indivíduo. (IANHEZ; NICO,
2002)
É
muito
importante
que
o
professor se
atente aos indicadores e
características da dislexia, pois isso impedirá que sejam crianças frustradas em sua
capacidade linguística e emocionalmente, pois “o maior obstáculo a que uma criança
disléxica atinja o seu potencial e siga os seus sonhos é a generalizada ignorância
acerca da verdadeira natureza da dislexia” (SHAYWITZ, 2008, p.101).
Os sinais da dislexia normalmente aparecem quando a criança ingressa na
escola no início da alfabetização, mas o educador deve estar atento que é muito
comum que no inicio da alfabetização as crianças confundam letras ou as escrevam
de forma incorreta, o que leva muitos pais e professores a questionarem se a
criança possui algum transtorno de aprendizagem.
Como descrito por Shaywitz (2008) refere alguns sinais de alerta:
No início da infância
Os primeiros indicadores envolvem basicamente a linguagem falada. O atraso
na aquisição da linguagem pode ser um primeiro sinal de alerta para prováveis
problemas de linguagem e de leitura. A partir do momento em que a criança inicia a
fala, devemos nos atentar aos seguintes problemas:
Nos anos de frequência do ensino pré-escolar

[...]




2008,
Dificuldade em aprender problemas ou cantigas simples tradicionais
Falta de interesse por rimas.
Palavras pronunciadas incorretamente; infantilismos persistentes.
Dificuldade em aprender (e em recordar) nomes de letras.
Não conseguir saber as letras do seu próprio nome. (SHAYWITZ,
p.137)
Nos anos de frequência do ensino pré-escolar e ao longo do 1º ano do 1º ciclo

Não compreender que as palavras podem ser decompostas; por
exemplo, [...] que a palavra malmequer pode ser decomposta em mal, me e
quer e que a palavra mal pode ser ainda decomposta e ‘m’ ‘aaaa’ ‘l’.

Incapacidade de aprender a associar letras a sons; por exemplo, ser
incapaz de associar a letra b ao som “b”.

Erros de leitura que não têm qualquer relação com os sons das letras;
Por exemplo, a palavra grande é lida como eco.

Incapacidade para ler palavras monossilábicas correntes ou para
soletrar mesmo as palavras mais simples, tal como tapete, gato, salto, sono.

Queixas sobre a leitura ser difícil; a criança foge e esconde-se,
quando chega a altura de ler.

História de problemas de leitura manifestados pelos pais ou pelos
irmãos. (SHAYWITZ, 2008, p.137 grifos do autor)
A partir do 2º ano
Problemas de linguagem:

Incorreta articulação de palavras longas, desconhecidas ou
complicadas; distorção de palavras – deixando de fora partes de palavras
ou confundindo a sequência dos elementos que compõem as palavras: por
exemplo: alumínio torna-se amulínio.

Expressão verbal não fluente – pausas ou hesitações frequentes,
imensos hum enquanto fala [...]

Uso de vocabulário impreciso, tal como referências vagas a coisas,
em vez de usar o nome do objecto.

Incapacidade para encontrar a palavra certa, confundindo também
palavras cuja fonia é idêntica: [...] humanidade em vez de humidade.

Necessidade de tempo para elaborar uma resposta oral ou
incapacidade de dar uma resposta oral rápida, quando interpelado.

Dificuldade em recordar partes isoladas de informação escrita
(decorar) – dificuldade em recordar datas, nomes, números de telefone,
listas aleatórias. (SHAYWITZ, 2008, p.138, grifos do autor)
Problemas de leitura:

Progressos muito lentos na aquisição de competências de leitura.

Falta de uma estratégia para ler palavras novas.

Dificuldade em ler palavras desconhecidas (novas, não familiares)
que têm de ser silabadas; fazer tentativas não fundamentadas para
adivinhar, quando está a ler uma palavra; falha em soletrar
sistematicamente as palavras.

Incapacidade de ler pequenas palavras “funcionais”, tal como: isso,
um, em.

Emperrar ao ler palavras multissilábicas ou não conseguir aproximarse da soletração da palavra.

Omitir partes de palavras, ao ler; não conseguir descodificar
componentes da palavra, como se alguém tivesse criado um vazio no
interior da palavra (consível para conversível).

Tremendo medo de ler em voz alta; evitar ler em voz alta.

Leitura em voz alta cheia de substituições, omissões e incorrecta
articulação de palavras.

Leitura em voz alta sincopada e laboriosa, não suave ou fluente.

Leitura em voz alta sem inflexão e semelhante à leitura de um texto
numa língua estrangeira.

Dependência do contexto para descobrir o significado do que é lido.

Melhor capacidade para compreender palavras em contexto do que
para ler palavras isoladas.

Desempenho desproporcionalmente pobre em testes de escolha
múltipla.

Incapacidade para terminar os testes dentro do tempo -limite.

Substituição de palavras do texto que não consegue pronunciar por
palavras com o mesmo significado, como carro em vez de automóvel.

Ortografia desastrosa, com o uso de palavras que não se aproximam
da sua real ortografia [...]

Dificuldade em ler os enunciados de problemas de matemática.

Leitura muito lenta e cansativa.

Trabalho de casa que parece infindável ou pais frequentemente
recrutados para ler.

Caligrafia pouco escorreita, apesar de poder ter grande facilidade
com o processador de texto – dedos ágeis.

Extrema dificuldade em aprender uma língua estrangeira.

Falta de gosto por ler; evitar ler livros ou mesmo uma frase.

Evitar ler por prazer, leitura parece ser demasiado extenuante.

A leitura torna-se mais precisa ao longo do tempo, apesar de
continuar a faltar-lhe fluência e a ser laboriosa.

Baixa autoestima, acompanhada por sofrimento nem sempre visível
para os outros.

História de problemas com a leitura, a ortografia e línguas
estrangeiras em membros da família. (SHAYWITZ, 2008, p.139 - 140, grifos
do autor)
Devemos estar cientes que todas as pessoas se enganam ás vezes, pois
qualquer individuo pode confundir ou pronunciar de maneira incorreta palavras com
sons semelhantes uma vez ou outra e o aparecimento de apenas alguns sinais não
é motivo para preocupação, devemos nos atentar quanto à existência de uma
dificuldade durável ao longo de um período. Estes sinais que aparecem no decorrer
da vida são retratos da dislexia, e devem ser observados de perto e de forma
cautelosa (SHAYWITZ, 2008).
Antes de classificar o aluno com algum tipo de dificuldade é importante que o
docente repense suas práticas de ensino, para que não o rotule sem dar-lhe a
estimulação necessária para uma aprendizagem eficaz. É imprescindível o olhar
atento do professor e dos pais ao desenvolvimento da criança, percebendo que o
aluno
apresenta
sintomas
de
dislexia
devem encaminhá-lo a profissionais
especializados para um diagnóstico correto, pois a dislexia quando mal identificada e
diagnosticada pode trazer sérios e inúmeros prejuízos ao indivíduo.
Caminho para a formação da leitura em nosso cérebro
Em tempos remotos, a concepção da mente era baseada em noções religiosas
e filosóficas, todo o processamento do corpo humano se voltava para a alma, que
era responsável pelo seu funcionamento (SHAYWITZ, 2008).
Hoje sabemos que os pensamentos e as emoções são produto do cérebro. O
grande avanço das neurociências na atualidade nos permite compreender cada vez
mais os diferentes circuitos neurais agregados a diferentes funções intelectuais.
Aspectos básicos da anatomia cerebral
Segundo Shaywitz (2008), o cérebro é formado por duas partes iguais ou
hemisférios, o direito e o esquerdo. Como podemos ver na figura 1, próxima da testa
está localizada a parte frontal do cérebro, denominada como anterior e da orelha
para trás denominada de posterior, se encontra a parte detrás do cérebro. Cada
hemisfério cerebral encontrar-se dividido em quatro lobos ou seções: frontal,
parietal, temporal e occipital. Os lobos frontais são anteriores e os occipitais são
posteriores e os lobos parientais e temporais estão situados em meio a os anteriores
e posteriores. Os lobos de cada um dos lados do cérebro são imagens inversas
daqueles que estão do lado oposto do mesmo. O lado esquerdo do cérebro é
associado à linguagem.
Figura 1. Marcos anatômico do cérebro
Fonte: Shaywitz, 2008, p.87
A conexão entre os hemisférios direito e esquerdo é feita pelo corpo caloso,
uma ampla faixa de tecidos compostas pelos axônios das células nervosas, é a linha
horizontal que conecta os dois lados, tendo a função de carregar mensagens de um
hemisfério ao outro. Localizado abaixo dos lobos occipitais está o cerebelo, a parte
do cérebro que controla o movimento e a coordenação (SHAYWITZ, 2008).
O cérebro durante o processo de leitura
Através
de
pesquisas
feitas
a
partir de
imagens
cerebrais
citadas
anteriormente, Shaywitz (2008) alega que foram revelados padrões de ativação
cerebral diferentes nos leitores disléxicos se comparados aos padrões nos bons
leitores:
 Os bons leitores quando leem, ativam a região posterior do cérebro e
também, até certo ponto a parte anterior do cérebro.
 Os leitores disléxicos quando leem, apresentam uma falha neste sistema, Ao
invés de ativarem, como os leitores não disléxicos, as partes anterior e posterior do
cérebro, há uma subativação de caminhos neurais da parte posterior e uma
superativação da parte anterior do cérebro. Consequentemente eles apresentam
dificuldades para analisar as palavras e ao transformar as letras em sons.
Consequentemente eles têm problemas iniciais ao analisar as palavras e ao
transformar as letras em sons e mesmo quando amadurecem, continuam a ler
lentamente e sem fluência.
A subativação na parte posterior do cérebro representa uma espécie de marca
neural (figura 2) para as dificuldades fonológicas que caracterizam a dislexia.
Mesmo quando adultos, e com uma leitura precisa, são lentos e continuam
demonstrando esse padrão. (SHAYWITZ, 2008, grifo nosso).
Figura 2. Marca neural da dislexia: subativação dos sistemas neurais da área posterior do
cérebro. Do lado esquerdo, os leitores sem déficit ativam sistemas neurais que se encontram
na parte posterior do lado esquerdo do cérebro; à direita, os indivíduos disléxicos subativam
esses sistemas usados na leitura, os quais se situam na área posterior do cérebro, e tedem a
superativar as áreas frontais.
Fonte: Shaywitz , 2008, p.95
A Dra. Sally Shaywitz realizou um estudo com crianças disléxicas que
consistia num programa experimental de leitura com duração de um ano, após
frequentarem este tempo constatou que houve um reparo cerebral. As imagens
cerebrais revelaram que (ver figura 3), “Não só as vias auxiliares do lado direito eram
muito
menos
marcantes
como,
mais
importante,
registrava-se
o
ulterior
desenvolvimento de sistemas neurais situados no lado esquerdo do cérebro”.
(SHAYWITZ, 2008, p.99)
Figura 3. Intervenções eficazes a nível de leitura resultam na recuperação cerebral.
Ao final de um ano de intervenção eficaz de leitura crianças disléx icas desenvolveram sistemas
de leitura situados no lado esquerdo do cérebro (em preto), tanto na zona anterior como na
posterior.
Fonte: Shaywitz , 2008, p.98
Vimos que um indivíduo disléxico pode melhorar sua capacidade de leitura se
for sujeito a uma intervenção precoce através de um programa de leitura eficaz,
podendo assim tornar-se um bom leitor, mas para que isso aconteça de forma
satisfatória é de suma importância à compreensão sobre a dislexia, pais e
educadores devem estar atentos às diversas características que um indivíduo pode
apresentar no seu desenvolvimento da linguagem, observações esta que pode ser
feitas desde cedo, sem a necessidade de esperar com que a criança chegue ao
período de alfabetização.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A dislexia é uma dificuldade de aprendizagem da leitura. Tendo como causa
principal a utilização de áreas diferentes do cérebro para processar a informação
durante a leitura. O reconhecimento sobre a dislexia é fundamental no processo
educacional, os educadores necessitam ter habilidades que os tornem capazes de
identificar esta dificuldade em seus alunos e assim adaptar seu planejamento
pedagógico de forma que atenda as necessidades dos mesmos.
É necessário que pais e professores se atentem para as dificuldades de
aprendizagem de seus filhos e alunos. Quando aparecerem indicativos de dislexia, é
importante
que
haja
um diagnóstico
preciso, elaborado
por uma
equipe
multidisciplinar que possa estar descartando a hipótese da possível dificuldade,
quanto mais cedo forem identificadas as dificuldades, o trabalho com o disléxico na
sala de aula será mais eficaz. Para que assim possamos intervir de forma correta e
auxilia-lo de acordo com suas necessidades educacionais.
Não devemos rotular essa criança como incapaz perante o processo de
aprendizagem. As crianças com dislexia podem aprender, contando que se trabalhe
com estratégias e atividades adequadas para cada o tipo de disléxico, e
principalmente valorizando as suas capacidades.
REFERENCIAS
BRASIL, LDB : Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional : lei nº 9.394, de 20
de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. –
5°. ed. – Brasília : Câmara dos Deputados, Edições Câmara, 2010. 60 p. – (Série
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;
n.
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Disponível
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<http://pedagogiaaopedaletra.com/wp-
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______. Ministério da Educação. Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na
Educação Básica/Secretaria de Educação Especial - BRASIL:MEC/ SEESP, 2001.
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