Anais Nestlé Microbiota: artigos comentados

Propaganda
Anais Nestlé
Microbiota:
artigos comentados
TGI, desde a mais tenra idade, nossa mucosa intestinal é
exposta a uma infinidade de bactérias (1014 bactérias) que
compõem a microbiota intestinal, antes chamada simplesmente de flora intestinal. Estas bactérias interagem com o
rico sistema imunológico de mucosa, promovendo, desde
cedo, a tolerância oral e o reconhecimento de certos antígenos como “próprios” (“self-antigens).
Anais
Nestlé
Assim, O TGI configura vital interface entre o meio externo - com todos seus estímulos antigênicos, alimentares e
microbianos - e o meio interno. A mucosa intestinal ainda
exibe a capacidade de regular o movimento de partículas,
microrganismos e várias células do lúmen para a submucosa, através de complexos mecanismos que envolvem a
expressão de receptores celulares e o efeito de barreira
intestinal (“barreira seletiva”) com participação dinâmica das chamadas “tight junctions” (“junções apertadas”)
que, por sua vez, sofrem influências genéticas e de mediadores inflamatórios.
Microbiota:
artigos comentados
Entendendo o diálogo entre
a microbiota intestinal e o hospedeiro
Original: Fasano A. Understanding the dialogue: the microbial-host interaction.
Ann Nestlé 2009; 67: 9-18.
Neste cenário, o Prof Fasano, da Universidade de Maryland, Baltimore, apresenta-nos excelente revisão sobre
a íntima relação entre a microbiota intestinal e o nosso
organismo, num processo hoje denominado de “diálogo”
(ou “cross-talk”) entre as bactérias e os vários componentes da barreira mucosa intestinal, incluindo células
epiteliais e imunológicas (ex., células dendríticas, linfócitos intraepiteliais etc) (1). O artigo revisa as características
anatômicas e funcionais do TGI, com realce para o efeito
de barreira intestinal e para os aspectos imunológicos e
neuro-humorais. Finalmente, o autor trata da nova visão
fisiopatológica de algumas doenças, como a síndrome do
intestino irritável pós-infeccção e as doenças autoimunes.
Resumo
Adérson Omar Mourão Cintra Damião
• Professor Assistente-Doutor do Departamento
de Gastroenterologia da Faculdade de
Medicina da Universidade de São Paulo
(FMUSP)
• Membro do “Grupo de Doenças Intestinais”
do Serviço de Gastroenterologia Clínica do
Hospital das Clínicas da FMUSP
O trato gastrointestinal dos mamíferos é muito mais complexo do que se acreditava. Uma única camada de células epiteliais recobre o trato gastrointestinal
inteiro, proporcionando maior interface com o ambiente. O epitélio intestinal
é um sensor do ambiente luminal. Não apenas controla as funções digestivas,
absortivas e secretórias como também retransmite informações aos sistemas imunológico, vascular e nervoso da mucosa. Essas funções envolvem uma ampla
gama de receptores de reconhecimento de padrões (RRP) e tipos celulares que
produzem fatores de crescimento, citocinas e proteínas da matriz extracelular.
Além disso, microrganismos entéricos podem sequestrar vias ativadas por RRP
como parte do seu arsenal patogênico através do “mimetismo do hospedeiro”.
O entendimento da comunicação cruzada entre a microbiota entérica e o hospedeiro, em condições fisiológicas ou patológicas, pode trazer informações importantes sobre a patogênese de doenças locais e sistêmicas. Tal conhecimento pode
resultar na identificação de modernas estratégias terapêuticas para o tratamento
desses distúrbios.
Introdução
Por muito tempo pensou-se que o trato gastrointestinal (TGI) fosse responsável
apenas por fenômenos ligados à digestão e absorção dos nutrientes. Hoje, o TGI
alcançou o status de “órgão funcionalmente ativo”, com reconhecidas funções
digestivas, absortivas, motoras, neurendócrinas e imunológicas. Para tanto, o TGI
possui a maior superfície mucosa do organismo, é o maior órgão imunológico e
endócrino do nosso corpo e possui peculiaridades anatômicas e funcionais que
contribuem decisivamente para o exercício de sua vasta gama de funções. No
2
Microbiota: artigos comentados
Fisiologia do TGI
1) Características estruturais – O TGI possui características
bem peculiares em cada um dos seus segmentos, otimizando assim suas multifárias funções. Por exemplo, a
área de contato entre o conteúdo luminal e as células
epiteliais é triplicada pela presença das válvulas coniventes (ou circulares ou pregas de Kerckring) no intestino delgado. A alternância de vilos e criptas aumenta
a superfície mucosa em 10 vezes e os microvilos que
recobrem a superfície apical dos enterócitos aumentam
a superfície absortiva em cerca de 600 vezes.
As células epiteliais que recobrem o TGI também apresentam características diferenciadas ao longo dos segmentos
intestinais. As células das criptas têm maior atividade proliferativa que as superficiais e são primariamente secretoras e não absortivas. No intestino delgado, os enterócitos
apicais são primariamente absortivos, com hidrolases na
borda em escova (microvilosidades) como dissacaridases e
oligopeptidases que promovem a digestão final dos hidratos de carbono e das proteínas. No cólon, aparentemente,
essa divisão não é tão nítida e as células epiteliais (colonócitos) exibem propriedades secretoras e absortivas, independentemente da localização. Células produtoras de
mucina e fator trefoil (células mucóides) estão presentes
Nestlé Nutrition Institute
ao longo de todo o TGI, particularmente no jejuno e íleo.
A mucina e o fator trefoil agem sinergicamente lubrificando e protegendo a mucosa intestinal, configurando
importante barreira à penetração de elementos nocivos
e altamente antigênicos. A falta de mucina é um dos mecanismos propostos na etiopatogenia da retocolite ulcerativa. Prebióticos e probióticos estimulam a secreção de
mucina (2).
Além disso, duas populações de células presentes no TGI
são fundamentais no processo de “diálogo” entre conteúdo luminal e intimidade da mucosa: as células ênteroendócrinas e as relacionadas ao tecido linfóide intestinal (GALT = “Gut Associated Lymph Tissue”). Secretina,
colecistocinina (CCK), aminas (ex., serotonina), GLP-1
(“Glucagon-like Peptide-1”), Peptídeo YY, grelina são alguns dos peptídeos liberados por células especializadas da
mucosa intestinal em resposta a estímulos luminais. Essas
células êntero-endócrinas perfazem 1% das células da mucosa intestinal e são responsáveis por ações motoras, secretoras e regulação do apetite e saciedade (CCK, GLP-1,
Peptídeo YY, grelina).
O GALT, por sua vez, inclui uma série de células especializadas com importantes funções imunomoduladoras. As
placas de Peyer (no íleo principalmente), células M e linfócitos intraepiteliais são alguns dos componentes do GALT.
Sabe-se que nos primórdios da formação de nossa microbiota intestinal, durante os primeiros 1-2 anos de vida, a
colonização intestinal bacteriana é responsável pelo desenvolvimento estrutural e funcional do GALT. Uma de
suas principais funções, portanto, é fazer o reconhecimento da nossa microbiota intestinal como “própria”, discriminando microrganismos comensais de patogênicos. Células apresentadoras de antígenos (ex., células epiteliais,
células dendríticas etc), através dos chamados receptores
Toll-like (“TLRs – Toll-like receptors”), reconhecem e processam os antígenos bacterianos, gerando reação inflamatória e imunológica equilibrada (“inflamação fisiológica”)
(2). A partir deste reconhecimento há o desenvolvimento
de células T de memória que representam a maior parte
das células T no tecido linfóide intestinal.
2) Características funcionais e imunológicas do TGI – O TGI
é sede de intenso movimento de água e eletrólitos.
Participam desses processos a osmolalidade luminal, o
gradiente de absorção de água ao longo do intestino
(maior absorção nas porções superiores do que nas inferiores) e a bomba de Na-K presente na membrana
basolateral das células epiteliais intestinais (coordena o
movimento de sódio e potássio, ou seja, sódio para fora
da célula e potássio para dentro). No intestino delgado,
o fluxo de água do lúmen para o espaço intercelular é
maior que no cólon, em decorrência do maior fluxo
paracelular, via “tight junctions”. O fluxo transcelular
de água relaciona-se com o movimento de sódio através dos transportadores específicos de sódio na mucosa
intestinal e com a presença de proteínas de membrana
altamente seletivas e permeáveis à água, denominadas
“aquaporinas” ou canais de água. As aquaporinas lo3
calizam-se tanto na zona apical quanto na membrana
basolateral das células epiteliais do intestino delgado e
do cólon. Alterações nas aquaporinas foram descritas
em pacientes com doença inflamatória intestinal, o que
contribui para a diarréia nesses pacientes.
O autor ainda comenta sobre os mecanismos envolvidos na diarréia secretora provocada pelo Vibrio cholerae
no que diz respeito à inibição da atividade da bomba de
Na-Hidrogênio (NHE-2, NHE-3; NHE = “sodium/hydrogen
exchanger”), presente na membrana apical do enterócito, promovendo redução da absorção de sódio. Simultaneamente, a toxina do Vibrio cholerae estimula a secreção
de cloreto via estimulação do canal CFTR (“cystic fibrosis
transmembrane regulator”). Outros canais de cloreto na
mucosa intestinal foram descritos (ex., canais de cloreto
CLC e canais de cloreto ativados por cálcio) e são altamente ativados quando há edema celular e acidificação extracelular. Todos esses aspectos ressaltam a íntima relação
que existe entre o meio intraluminal, a mucosa intestinal
e o meio extracelular, constituindo um verdadeiro canal
de comunicação, vital para a homeostase do organismo.
O Prof. Fasano chama a atenção para a ação dinâmica das
“tight junctions”, que representam a principal barreira paracelular para a entrada de partículas antigênicas. Os mecanismos que governam a seletividade absortiva das “tight
junctions” (movimento de fluidos, macromoléculas, leucócitos etc) não estão completamente elucidados, mas dependem, em grande parte, da ação da zonulina, uma molécula que modula a permeabilidade das “tight junctions”.
Sua participação na proteção à entrada de microrganismos
também foi documentada. Algumas bactérias, entretanto,
podem agir sobre a zonulina, com aumento na permeabilidade intestinal e penetração e sensibilização excessiva antigênica, e deflagração de processos e reações autoimunes.
Mais uma vez, entra em cena, a interação (ou diálogo, nem
sempre muito amistoso) entre bactérias e meio intracelular.
Finalmente, do ponto de vista imunológico, o autor considera o GALT no contexto da tolerância oral, a importância
da secreção de IgA secretora, da imunidade inata (reconhecimento de antígenos via TLRs por células apresentadoras de antígeno) e da imunidade adaptativa equilibrada
(respostas Th1 e Th2).
O Prof Fasano termina seu artigo comentando a fisiopatologia mais aceita para explicar a síndrome do intestino irritável (SII) pós-infecção e as doenças autoimunes em geral.
No caso da SII pós-infecção, é sabido que pacientes com
gastroenterocolite aguda (GECA), após a infecção podem
desenvolver SII (20-30% dos casos). Os pacientes com SII
têm dificuldade em “clarear” seu conteúdo de células inflamatórias recrutadas durante a fase aguda. A mucosa,
repleta de células inflamatórias (ex., mastócitos, linfócitos,
neutrófilos etc) produz grande quantidade de citocinas e
mediadores inflamatórios (ex., IL-1-beta) que vão interferir nos processos de absorção e secreção de água e eletrólitos, na motilidade intestinal e na sensibilidade visceral.
No caso das doenças autoimunes, além da provável susceptibilidade genética, o aumento na permeabilidade intestinal, e consequente “bombardeio antigênico”, parece
ser uma condição necessária e que precede o desenvolvimento de doenças autoimunes.
Uma vez que mudanças na microbiota intestinal podem
causar impacto nas “tight junctions” e, por conseguinte,
na permeabilidade intestinal, com todas as repercussões
assinaladas anteriormente, estratégias que visem o restabelecimento de uma microbiota intestinal sadia (ex., prebióticos, probióticos, simbióticos) configuram interessantes
abordagens e perspectivas na prevenção e tratamento de
doenças inflamatórias intestinais, alérgicas e autoimunes.
Referências bibliográficas
1. Damião AOMC, Leite AZA, Lordello MLL et al. Probióticos. In: Nutrição Oral, Enteral e Parenteral na Prática Clínica. Waitzberg DL
(ed). Editora Atheneu, São Paulo, SP, 4ª edição, 2009. p. 21152138.
2. Damião AOMC. Prebióticos, Probióticos e Simbióticos. In: Nutrição. Nóbrega FJ (ed). Editora Manole Ltda, São Paulo, SP, 2008.
p. 479-488.
Um dado que merece especial consideração é o fato de
bactérias intestinais – e também probióticos – interferirem
na permeabilidade intestinal, particularmente através da
interação com os receptores TLR 2 e TLR 4. Esses resultados demonstram a importância da microbiota intestinal
e da permeabilidade intestinal na alergia alimentar, nas
doenças autoimunes, nas doenças inflamatórias intestinais, entre outras. A permeabilidade intestinal ainda é
influenciada (aumentada) pela histamina, serotonina, leucotrienos, prostaglandinas, várias citocinas, entre outros
elementos, produzidos por uma gama enorme de células
presentes na mucosa intestinal como mastócitos, neutrófilos, linfócitos e macrófagos, durante a resposta imunoinflamatória. Todas essas reações, desde que devidamente
controladas, são fisiológicas.
4
Dr. Mário César Vieira
Síndrome do intestino irritável pós-infecção e
doenças autoimunes
• Professor do Departamento de
Pediatria - PUCPR
• Chefe do Serviço e Coordenador da
Residência Médica em Gastroenterologia
Pediátrica - Hospital Pequeno Príncipe /
Curitiba - PR
• Mestre em Medicina Interna pela
Universidade Federal do Paraná
• Especialista em Gastroenterologia
Pediátrica pelo St. Bartholomew’s Hospital
Medical College - Universidade de Londres
O Papel da microbiota na alergia
Original: Kalliomäki M. The role of microbiota in Allergy.
Ann Nestlé 2009; 67: 19-26.
Resumo
A teoria da higiene liga a epidemia crescente de manifestações clinicas de alergia, eczema atópico, rinoconjuntivite
alérgica e asma à baixa exposição a agentes microbianos
no início da vida, resultante de mudanças ambientais em
países industrializados. Neste cenário incluem-se a melhora
das condições de saneamento e de vida, a vacinação e o uso
de antibióticos, em conjunto com a diminuição no tamanho
das famílias e as mudanças na dieta. A descoberta de três
subgrupos de linfócitos T regulatórios revolucionou a base
imunológica original da hipótese da higiene denominada de
paradigma T helper 1/T helper 2. Quando há falha na tolerância oral a alergia ocorre. Estudos experimentais e clínicos
recentes demonstram claramente que tanto o desenvolvimento quanto a manutenção da tolerância oral são dependentes destes linfócitos T regulatórios imunossupressores.
Além disto, a microbiota intestinal tem-se demonstrado crucial para a expressão e a função adequada dos linfócitos T
regulatórios, portanto conectando a microbiota à alergia. De
fato, muitos dos estudos transversais têm demonstrado uma
composição diferente da microbiota intestinal em crianças
com eczema atópico em comparação com controles saudáveis. A maioria dos estudos prospectivos de seguimento
publicados até agora também demonstraram que as alterações na microbiota precedem o desenvolvimento da alergia.
As mudanças na quantidade de bifidobactérias, clostridia e
Escherichia coli são os achados mais comuns nestes estudos.
Há, no entanto, uma variação considerável nos cenários dos
diferentes estudos prospectivos, tornando difícil a interpretação das causas prováveis de variação nos resultados. Os
estudos futuros abordando o tema não deveriam apenas
usar novas técnicas moleculares de avaliação da microbiota
intestinal, mas também levar em consideração os vários outros aspectos discutidos neste artigo.
Comentários
O trato gastrointestinal possui uma enorme variedade de
bactérias aeróbias e anaeróbias que interagem entre si em
um ecossistema complexo. Logo após o nascimento, o intestino previamente estéril do recém-nascido, começa a ser
colonizado pelas bactérias da microbiota materna e do meio
ambiente sob a influência de diversos fatores. Quando o
parto é normal, há contato muito precoce com a microbiota
Microbiota: artigos comentados
Nestlé Nutrition Institute
vaginal materna. O tipo de alimentação é essencial para a
definição da microbiota intestinal do lactente. O aleitamento materno predispõe ao desenvolvimento de uma microbiota com predominância de bifidobactérias e lactobacilos
(80-90%), enquanto no lactente em aleitamento artificial
essas bactérias correspondem a 40 a 60% da microbiota,
onde se desenvolvem ainda bactérias dos gêneros do clostrídio, estafilococo e bacteróides. A microbiota intestinal, que
se estabelece nos primeiros meses de vida, permanece relativamente estável durante a vida do indivíduo e tem funções
imunológicas, antibacterianas e metabólico/nutricionais.
O aumento na prevalência das doenças alérgicas nas últimas décadas tem sido ligado a mudanças nas condições e
hábitos de vida principalmente em países industrializados.
Tem-se reconhecido cada vez mais que as interações entre
o hospedeiro e as bactérias têm um efeito importante no
desenvolvimento de atopia.
Neste artigo de revisão, O Dr. Marko Kalliomäki da Universidade de Turku na Finlândia, aborda de forma minuciosa
as interações entre a microbiota intestinal e o sistema imune da mucosa para manter a homeostase. São revisados os
mecanismos envolvidos no desenvolvimento das doenças
alérgicas e de tolerância oral, incluindo o equilíbrio entre
células Th1, Th2 e células T regulatórias. Os novos métodos
moleculares que permitem o estudo microbiológico do intestino são discutidos, chamando a atenção para as novas
perspectivas de investigação do ecossistema intestinal.
O papel da microbiota intestinal adquirida no período neonatal no desenvolvimento da tolerância oral e de manifestações alérgicas é abordado com a revisão de estudos
clínicos e experimentais. Estes estudos revelam que a microbiota intestinal exerce papel fundamental na expressão
normal e na função de células T regulatórias que atuam na
tolerância a antígenos alimentares.
Nos últimos anos, a atenção ao papel da microbiota intestinal
em várias enfermidades, tem motivado as pesquisas com o
objetivo de buscar formas de intervenções terapêuticas com
a utilização de probióticos, prebióticos e simbióticos. Tem-se
demonstrado que os probióticos podem ter efeito adjuvante
nas funções imunológicas. No entanto deve-se ter em mente
que diferentes probióticos podem funcionar de forma diversa. Deve-se ter cautela ao selecionar o probiótico específico
para cada função. Ao se considerar a utilização desta modalidade terapêutica deve-se avaliar o tipo de probiótico, a dose
eficaz para o uso, e o tipo de enfermidade a ser tratada e/
ou prevenida. Nem todos os probióticos são iguais e não se
pode extrapolar as características identificadas através de estudo clínicos e/ou experimentais de um determinado probiótico e generalizá-las para outras doses ou cepas. Portanto, é
essencial que a indicação destas modalidades de tratamento
deva ser baseada em evidências científicas através de trabalhos com desenho metodológico adequado.
De uma forma geral, o interesse na influência da microbiota intestinal nas condições de saúde de seres humanos
permite um entendimento mais amplo dos fatores que
predispõe a diversas enfermidades e, como abordado neste artigo, abre novos horizontes para a abordagem preventiva e terapêutica das doenças alérgicas.
5
Carlos Alberto Nogueira
de Almeida
• Mestre e Doutor em Pediatria pela
Universidade de São Paulo
• Especialista em Nutrologia pela
Associação Brasileira de Nutrologia
• Professor do Curso de Medicina da
Universidade de Ribeirão Preto
• Diretor do Departamento de
Nutrologia Pediátrica da ABRAN
Microbiota intestinal,
obesidade e diabetes
Original: Bibiloni R, Membrez M, Chou CJ. Gut microbiota, obesity and diabetes. Ann Nestlé 2009; 67: 19-26.
Resumo
A crescente epidemia de obesidade já não está mais restrita
a países desenvolvidos. A Organização Mundial da Saúde
alertou que havia cerca de 400 milhões de adultos obesos
no mundo em 2005 e aproximadamente 20 milhões de
crianças com excesso de peso.
Obesidade é uma questão de saúde complexa, com consequências sérias, como diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares, entre outras. Fatores comportamentais,
genéticos e ambientais foram abordados como fatores
que contribuem para o excesso de peso e a obesidade.
Evidências recentes indicam que a comunidade de microrganismos que habitam o intestino, conhecida como
microbiota intestinal, pode influenciar a absorção de nutrientes e o armazenamento de energia. Mostrou-se que
a composição dessa microbiota difere entre camundongos (e também entre humanos) obesos e magros, e isso
sugere que a modulação dessa composição é uma nova
forma de abordar o tratamento da obesidade e do excesso de peso.
Esta revisão avalia as evidências científicas disponíveis que
apoiam tais especulações. Também são resumidos resultados recentes de estudos que focaram as contribuições da
microbiota intestinal para o diabetes.
Comentários
No número um do volume 67 dos “Annales Nestlé” de
2009, Rodrigo Biblioni, Mathieu Membrez e Chieh Jason
Chou publicaram completa revisão sobre os conhecimentos atuais no que se refere à interação entre a microbiota
intestinal, a obesidade e o diabetes. O presente texto destaca os pontos principais discutidos pelos autores, com
ênfase àqueles de maior interesse para a prática clínica.
Os autores iniciam lembrando a elevada prevalência de
sobrepeso e obesidade no mundo, destacando sua im-
6
portância na gênese e manutenção do diabetes. Nesse
contexto, enfatizam que, apesar da aparente simplicidade da equação de ganho peso (consumo superior ao
gasto), numerosos fatores individuais contribuem para
o processo, em especial aqueles ligados à genética e ao
ambiente biopsicossocial. Especificamente do ponto de
vista ambiental, considerando-se que no trato digestório
de um adulto vivem cerca de 1014 bactérias, pertencentes
a numerosas espécies diferentes, parece inequívoca a importância dessa microbiota na intermediação entre os alimentos e os processos metabólicos de digestão, absorção
e incorporação de nutrientes.
Os estudos sobre a microbiota intestinal, apesar de antigos, têm apresentado importantes avanços na última
década, devido ao desenvolvimento de metodologias
avançadas, especialmente a utilização de seqüências de
nucleotídeos ribossomais. Essas novas abordagens têm
elevado, por exemplo, as estimativas sobre o número de
espécies bacterianas do trato digestório de 500, como se
acreditava até há poucos anos, para 15.000 ou 36.000,
dependendo do método de classificação. Essa gigantesca
população bacteriana apresenta, aparentemente, um padrão funcional bastante uniforme no ser humano, apesar
da importante variabilidade individual. A busca pelo detalhamento da interferência da microbiota intestinal na
saúde tem sido um dos desafios mais instigantes da ciência moderna. Técnicas que utilizam isótopos estáveis ou
screenings genômicos avançados têm sido desenvolvidas
e aplicadas, com resultados promissores. Nesse contexto, os autores destacam, por exemplo, a identificação de
novos microorganismos envolvidos na fermentação da
glicose e a observação de que bactérias comensais podem aumentar nossa capacidade de produção e conversão de energia, bem como o transporte e o metabolismo
de hidratos de carbono, com influência direta sobre o
balanço energético.
A maioria dos estudos referentes à influência da microbiota sobre a obesidade e o diabetes provêm, ainda, de
experimentos com animais. Os primeiros dados efetivamente impactantes foram obtidos através da observação
de que ratos “germ-free”, ou seja, nascidos e mantidos
em ambientem completamente estéril, são mais magros
que os tradicionais. Quando inoculados com bactérias
do ceco de ratos normais, criados convencionalmente,
passam a engordar mas, se submetidos a dieta obesogênica, mantém-se magros, levando à idéia de que a incorporação de uma flora intestinal teve impacto maior que
a dieta na produção de obesidade. Observou-se, posteriormente, que o baixo ganho de gordura dos animais
“germ-free” deveu-se à supressão da lipogênese hepática e à inibição da estocagem de triglicerídeos no tecido
adiposo. É evidente que a aplicação desse conhecimento
não é direta para o ser humano, uma vez que a colonização do trato digestório ocorre logo ao nascimento e é
um evento esperado. Por outro lado, espera-se que, em
breve, possam ser identificadas as espécies que, efetivamente, possam ser responsabilizadas pelo efeito descrito
Microbiota: artigos comentados
acima, a fim de que se possam desenvolver estratégias de
intervenção eficientes.
Em humanos, vários estudos têm demonstrado a presença de diferenças na microbiota de pessoas obesas,
observando-se, por exemplo, altas proporções de Firmucutes e baixas de Bacteroidetes, quadro que é revertido
com o emagrecimento. A pergunta que ainda persiste é:
trata-se de causa ou conseqüência da obesidade? A busca para essa resposta tem sido conduzida também em
estudos com animais, inoculando-se ratos “germ-free”
não com a microbiota de ratos normais, mas sim de obesos. O que se observou foi um grande ganho de gordura
corporal nesses animais. Analisando-se o conteúdo do
ceco dos ratos obesos, observou-se maior capacidade
de quebrar polissacarídeos não-digeríveis, quantidades elevadas de ácidos graxos de cadeia curta e menor
quantidade de calorias eliminadas juntos às fezes, sugerindo maior capacidade de extrair energia da dieta, o
que poderia explicar, ao menos em parte, sua tendência
a engordar.
Em relação ao diabetes, os autores primeiramente lembram que a obesidade é o quadro que mais contribui
para sua instalação e manutenção, de modo que, qualquer fator, derivado da microbiota, que leve ao maior
acúmulo de gordura pode ser considerado, ao mesmo
tempo, diabetogênico. Acrescentam também que algumas complicações comuns do diabetes sofrem influência
da flora intestinal, especialmente a diarréia aquosa e a
periodontite. Por outro lado, as evidências atuais sugerem que a principal direção para os estudos com possibilidade de aplicação prática, nas prevenções primária
e secundária, ou mesmo no tratamento do diabetes,
deve estar ligada, diretamente, à homeostase da glicose.
Sabe-se, atualmente, que a resistência periférica à insulina, quadro freqüentemente ligado à obesidade e que
antecede a manifestação do diabetes, está fortemente
ligada a um estado de “inflamação crônica leve”. Têmse postulado que a microbiota possa exercer influência
sobre esse estado. Para testar essa hipótese, ratos obesos
e diabéticos foram tratados com antibióticos de largo espectro, de modo a tornar seu trato digestório estéril, e,
após duas semanas, observou-se normalização da glicemia de jejum e melhora da tolerância à glicose. Apesar
de, nesse experimento, os animais persistirem obesos, a
análise laboratorial indicou redução da concentração de
marcadores inflamatórios, o que explicaria os efeitos metabólicos observados.
dieta é enriquecida com Lactobacillus acidophilus. Esses
mesmos animais, quando recebem em sua dieta o Dahi
(produto lácteo de origem indiana que contém Lactobacillus acidophilus e Lactobacillus casei) melhoram a tolerância à glicose e reduzem as concentrações sanguíneas
de LDL, VLDL e triglicerídeos. Em relação aos prebióticos, estudos recentes mostraram que a suplementação
de animais diabéticos com oligofrutose melhorou a tolerância à glicose e reduziu a concentração de citocinas
plasmáticas proinflamatórias.
Os autores concluem lembrando que todo o esforço no
futuro próximo deve ser dirigido à transposição desses
achados para estratégias de combate às doenças crônicas
no ser humano, especialmente a obesidade e o diabetes.
Para atingir esses objetivos, ainda é preciso saber se, de
fato, a modulação da microbiota é capaz de beneficiar esses pacientes e, em caso afirmativo, se seremos capazes de
fazer essa modulação através de intervenções nutricionais
ou farmacêuticas.
O conhecimento científico na área dos pré e probióticos tem evoluído de forma muito rápida e consistente.
Ao profissional que atua na área clínica, cabe o importante papel de acompanhar atentamente esse desenvolvimento, bem como as recomendações baseadas em
evidências, provenientes dos organismos nacionais e
internacionais, a fim de não privar seus pacientes dos
benefícios, atuais e vindouros, que esse conhecimento
possa trazer.
A transposição direta desses conhecimentos para a prática médica ainda não é possível, mas muita esperança
tem sido depositada no uso de pré e probióticos. Em
modelos animais, a ingestão de probióticos, como Lactobacillus casei, tem demonstrado capacidade de retardar o desenvolvimento do diabetes ou de melhorar os
sintomas daqueles já doentes. Ratos tratados no período
neonatal com drogas que destroem as células beta do
pâncreas apresentam melhor prognóstico quando sua
Nestlé Nutrition Institute
7
NOTA IMPORTANTE:
AS GESTANTES E NUTRIZES PRECISAM SER INFORMADAS QUE O LEITE MATERNO É O IDEAL PARA O LACTENTE, CONSTITUINDO-SE A MELHOR NUTRIÇÃO E PROTEÇÃO PARA ESTAS CRIANÇAS.
A MÃE DEVE SER ORIENTADA QUANTO À IMPORTÂNCIA DE UMA DIETA EQUILIBRADA NESTE PERÍODO E QUANTO À MANEIRA DE SE PREPARAR PARA O ALEITAMENTO AO SEIO ATÉ OS DOIS
ANOS DE IDADE DA CRIANÇA OU MAIS. O USO DE MAMADEIRAS, BICOS E CHUPETAS DEVE SER DESENCORAJADO, POIS PODE TRAZER EFEITOS NEGATIVOS SOBRE O ALEITAMENTO NATURAL.
A MÃE DEVE SER PREVENIDA QUANTO À DIFICULDADE DE VOLTAR A AMAMENTAR SEU FILHO UMA VEZ ABANDONADO O ALEITAMENTO AO SEIO. ANTES DE SER RECOMENDADO O USO
DE UM SUBSTITUTO DO LEITE MATERNO, DEVEM SER CONSIDERADAS AS CIRCUNSTÂNCIAS FAMILIARES E O CUSTO ENVOLVIDO. A MÃE DEVE ESTAR CIENTE DAS IMPLICAÇÕES ECONÔMICAS
E SOCIAIS DO NÃO ALEITAMENTO AO SEIO – PARA UM RECÉM-NASCIDO ALIMENTADO EXCLUSIVAMENTE COM MAMADEIRA SERÁ NECESSÁRIA MAIS DE UMA LATA POR SEMANA. DEVE-SE
LEMBRAR À MÃE QUE O LEITE MATERNO NÃO É SOMENTE O MELHOR, MAS TAMBÉM O MAIS ECONÔMICO ALIMENTO PARA O LACTENTE. CASO VENHA A SER TOMADA A DECISÃO DE INTRODUZIR
A ALIMENTAÇÃO POR MAMADEIRA É IMPORTANTE QUE SEJAM FORNECIDAS INSTRUÇÕES SOBRE OS MÉTODOS CORRETOS DE PREPARO COM HIGIENE RESSALTANDO-SE QUE O USO
DE MAMADEIRA E ÁGUA NÃO FERVIDAS E DILUIÇÃO INCORRETA PODEM CAUSAR DOENÇAS. OMS – CÓDIGO INTERNACIONAL DE COMERCIALIZAÇÃO DE SUBSTITUTOS DO LEITE MATERNO.
WHA 34:22, MAIO DE 1981. PORTARIA Nº 2.051 – MS DE 08 DE NOVEMBRO DE 2001, RESOLUÇÃO Nº 222 – ANVISA – MS DE 05 DE AGOSTO DE 2002 E LEI 11.265/06 DE 04.01.2006 – PRESIDÊNCIA
DA REPÚBLICA – REGULAMENTAM A COMERCIALIZAÇÃO DE ALIMENTOS PARA LACTENTES E CRIANÇAS DE PRIMEIRA INFÂNCIA E TAMBÉM A DE PRODUTOS DE PUERICULTURA CORRELATOS.
PUBLICAÇÃO DESTINADA EXCLUSIVAMENTE AO PROFISSIONAL DE SAÚDE. IMPRESSO NO BRASIL.
Download