Desorientação (confusão no tempo

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Neurociência e Saúde Mental
ALTERAÇÃO DA ORIENTAÇÃO
Existem duas estruturas temporais, o tempo subjetivo e o tempo objetivo,
correspondentes respectivamente ao tempo do eu e ao tempo do mundo. O primeiro
equivale ao tempo interior ou verdadeiro; e, o segundo, é o tempo cronológico.
Alterações das vivências do tempo e do espaço podem ser observadas em
estados patológicos neuróticos e psicóticos e sempre que estiver prejudicada a relação
entre o eu e o mundo. Há dias muito agradáveis que nos deixam a impressão de terem
transcorrido muito rápido, enquanto a mesma quantidade de tempo passada em situação
desagradável parece durar uma eternidade. Também o tempo de espera de algum
acontecimento bom parece excessivamente longo. A mesma distância de um dado
percurso parecerá maior ou menor, conforme, esteja-se empenhado em percorrê-lo com
mais ou menos prazer.
Nos estados depressivos e obsessivos, observa-se uma lentificação,
retardamento do tempo. Contrariamente ao que ocorre na ansiedade e dependência de
drogas. As esquizofrenias alteram as vivências temporais. A perda da continuidade da
consciência do tempo também ocorre nos estados de euforia do transtorno do humor.
Em relação às alterações espaciais, têm-se as alterações do espaço natural
que são aquelas que implicam na quebra da relação do corpo com o seu ambiente
produzindo modificações do tamanho e forma observada na macropsia e micropsia; são
fenômenos presentes nos delírios, psicoses esquizofrênicas, epilepsias (auras, estados
crepusculares) e intoxicações exógenas. No tocante as alterações do espaço intuitivo,
relacionam-se a certas fobias, pois envolve conteúdos simbólicos como medo de ficar
em lugares fechados, muita gente, etc.
Assim sendo, a orientação é um estado psíquico funcional consciente que
depende da integridade psíquica que uma vez perturbada altera-se. Esta orientação pode
ser autopsíquica e alopsíquicas. O indivíduo está orientado quanto fornece ele próprio
dados de sua identificação pessoal, revelando saber quem é, como se chama, que idade
tem, qual sua nacionalidade, profissão, estado civil, etc. Este atributo recebe o nome de
orientação Autopsíquica. Saber perfeitamente onde se encontra, o dia, o mês e o ano
atuais e qual a sua situação em relação ao ambiente, estabelecer associações coerentes
entre o momento presente e o passado, ter noção exata do tempo ou da época em que se
encontra chama-se orientação Alopsíquica.
Donde se infere que a orientação global do indivíduo carece do
funcionamento global e associado das funções psíquicas como sensopercepção, atenção,
memória, juízo de valor e raciocínio.
A avaliação da orientação implica informar-se sobre as noções do indivíduo
sobre si, sobre seu estado atual e sobre suas relações com o ambiente. Observa-se na
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desorientação autopsíquica que o indivíduo não “sabe quem é” fato este comum em
ocorrências que envolvem amnésias traumáticas, obnubilação da consciência e
demências. Nos esquizofrênicos pode ocorrer uma orientação verdadeira e falsa
simultaneamente, exemplo: paciente internado que diz estar na Igreja por acreditar estar
atendendo a um chamado divino e que admite, ao mesmo tempo, estar no hospital se
tratando. Já no delirium tremens, tem-se conservada a orientação autopsíquica e
desorganizada a alopsíquica. Os deficientes mentais perdem a orientação no tempo,
depois no espaço e, por fim, em si. A desorientação global pode surgir nos estados
crepusculares epilépticos e histéricos, nas síndromes confusionais psicóticas e infecções
agudas.
As desorientações podem ser: 1. apática decorrente de alterações da vida
instintivo-afetiva. Há lucidez e clareza sensorial com perda do interesse, inibição
psíquica do raciocínio. Típica da depressão; 2. amnéstica caracteriza-se pela
incapacidade para fixar os acontecimentos, orientar-se no tempo-espaço e em suas
relações com as pessoas do ambiente; 3. amencial nos casos de obnubilação da
consciência que se acompanham de dificuldades da compreensão e alterações da síntese
perceptiva; observado no delirium tremens e nas psicoses orgânicas; 4. delirante
observada nas psicoses esquizofrênicas onde, apesar da completa lucidez da
consciência, observa-se um tipo de desorientação resultado da adulteração da situação
no tempo e no espaço; 5. desdobramento da personalidade se caracteriza pela
autossugestão, comum nos histriônicas ocorrendo desorientação autopsíquica com
desdobramento em outra personalidade; 6. despersonalização caracterizada por um
inexplicável sentimento de estranheza típica dos estados febris e certas intoxicações
exógenas.
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Dr. Maurício Aranha - Sócio-Fundador da ANERJ - Associação dos Neurologistas do Estado do Rio de Janeiro.
Filiado da SBNeC - Sociedade Brasileira de Neurociências e Comportamento da USP. Filiado da APERJ Associação Psiquiátrica do Estado do Rio de Janeiro (Federada da ABP – Associação Brasileira de Psiquiatria e da
WPA - Associação Mundial de Psiquiatria). Pesquisador do Núcleo de Ciências Médicas, Psicologia e
Comportamento do Instituto de Ciências Cognitivas. Formação: Medicina pela Universidade Federal de Juiz de
Fora, Brasil. Psiquiatria Forense pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, Brasil. Psiquiatria pela Universidade
Estácio de Sá, Brasil. Psicopedagogia Clínica e Institucional pelo Grupo de Ação Educacional, Brasil. Psicologia
Analítica pela Universidade Hermínio da Silveira e Instituto Brasileiro de Medicina de Reabilitação, Brasil.
Neurolingüística pelo Instituto NLP in Rio & NLP Institut Berlin, Brasil/Alemanha. Neurociência e Saúde Mental
pelo Instituto de Neurociências y Salud Mental da Universidade da Catalunya, Espanha. E-mail: [email protected]
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