percepção dos alunos do proeja acerca da filosofia no curso de

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PERCEPÇÃO DOS ALUNOS DO PROEJA ACERCA DA FILOSOFIA
NO CURSO DE DESENHO DE CONSTRUÇÃO CIVIL
GONZAGA, Antônia Edivaneide de Sousa1- IFPB
GONÇALVES, Hegildo Holanda2 - IFPB
Grupo de Trabalho - Didática: Teorias, Metodologias e Práticas
Agência Financiadora: não contou com financiamento
Resumo
O presente artigo constitui-se uma análise sobre o ensino de filosofia na Educação
Profissionalizante Integrada ao Ensino Médio, na Modalidade de Jovens e Adultos
(PROEJA), levando-se em consideração a percepção dos alunos do Curso Técnico Integrado
de Desenho de Construção Civil, do IFPB, Campus de Cajazeiras. Dessa forma, o objetivo
desse estudo consistiu em analisar a percepção desses sujeitos. Para tanto, foi aplicado um
questionário para 25 alunos do segundo período do supracitado curso. A problemática
motivadora dessa investigação surgiu a partir das seguintes indagações: o que é o saber
filosófico? Como situar o ensino de Filosofia nos cursos do Proeja? Qual a percepção desses
alunos quanto à Filosofia? Com base nas teorias de Oliveira (2004); Brasil (2007); Ghedin
(2009) dentre outros, é tecido um diálogo com os estudos desses autores sobre o ensino de
Filosofia, o saber filosófico e a percepção dos alunos. As reflexões apresentadas no texto
pretendem aprofundar teoricamente elementos conceituais que possibilitem a compreensão
das atividades do professor no seu desempenho de atividades. Através de análise
bibliográfica, o presente texto traz à tona os desafios da operacionalização do ensino de
Filosofia no âmbito da educação profissionalizante. Nesse sentido, o presente texto está
estruturado na seguinte ordem: em um primeiro momento é feita uma contextualização do
ensino de filosofia no âmbito da educação técnica de jovens e adultos; no segundo momento é
estabelecido um diálogo com os alunos do proeja a respeito da filosofia e, para tanto, foi feito,
inicialmente, uma contextualização do Curso em questão e, em seguida, construído o perfil da
turma entrevistada, a partir das seguintes categorias: faixa etária, sexo, estado civil, vida
escolar, o papel da filosofia no processo de formação profissional e, perspectiva de futuro.
Palavras-chave: Percepção. Filosofia. Proeja.
1
Pedagoga pela Universidade Estadual do Ceará (UECE), professora do Instituto Federal de Educação, Ciência e
Tecnologia da Paraíba (IFPB) e Pesquisadora do Grupo de Estudos em Ciência, Educação e Cultura (GECECIFPB). E-mail: [email protected]
2
Mestre em Filosofia pela Universidade Federal do Ceará (UFC), professor de Filosofia no Instituto Federal de
Educação, Ciência e Tecnologia da Paraíba (IFPB) e Pesquisador do Grupo de Estudos em Ciência, Educação e
Cultura (GECEC-IFPB). E-mail: [email protected]
16512
Introdução
O presente texto faz uma reflexão sobre o ensino de filosofia na Educação
Profissionalizante Integrada ao Ensino Médio, na Modalidade de Jovens e Adultos
(PROEJA), mais especificamente no Curso Técnico Integrado de Desenho de Construção
Civil.
Considerando que a filosofia é um elemento indispensável a uma formação que não se
limite apenas à dimensão técnica exigida pelo mercado de trabalho, mas que busque uma
compreensão de formação que encare a constituição dos sujeitos como resultado de todo um
processo, que como tal deve servir de aprimoramento para o educando3, buscamos investigar
a percepção dos alunos sobre a filosofia e o que ela representa na formação profissional de
cada um.
Nesse sentido, com o objetivo de analisar a percepção desses sujeitos, foi aplicado um
questionário para 25 alunos do segundo período do curso de Técnico Integrado, modalidade
PROEJA, de Desenho de Construção civil, do Instituto Federal de Educação, Ciência e
Tecnologia da Paraíba no Campus de Cajazeiras.
O Questionário foi administrado na turma do 2º semestre, visto que nesse período os
alunos estudam filosofia. Tomamos como amostra as vinte e cinco entrevistas, objetivando
analisar os dados e, assim, traçar o perfil do aluno do PROEJA e a visão dele sobre o papel da
filosofia na sua formação profissional. Dessa forma, as respostas dos entrevistados foram
distribuídas em 3 categorias: perfil dos alunos (faixa etária, sexo e vida escolar); a filosofia no
processo de formação profissional e, perspectivas de futuro.
Norteados teoricamente por Oliveira (2004); Brasil (2007); Ghedin (2009) dentre
outros, procuramos estabelecer um diálogo entre os autores, a legislação vigente e os
estudantes do PROEJA visando uma melhor compreensão a respeito do papel formador da
filosofia no âmbito dos cursos técnicos.
Com essa análise, esperamos dar um contributo para a discussão e o debate sobre a
formação profissional técnica, sobre o ensino de filosofia e sua dimensão formativa, bem
como favorecer o conhecimento sobre a prática docente e os saberes filosóficos.
3
Cf. Brasil (2006, p. 29)
16513
A Educação Técnica de Jovens e Adultos e o Ensino de Filosofia
Considerando o contexto das reformas brasileiras nos últimos anos, é perceptível que
vivemos uma realidade de reformas tanto no campo político quanto social, reformas estas que
incluem, também, a educação em seus diversos níveis e modalidades. Destacamos, nesse
sentido, como determinante dessas reformas, o Relatório da Comissão Internacional da
Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), criada
em 1993, sob a presidência de Jaques Delors. No Relatório são apresentadas as bases sobre as
quais devem se pautar o processo educativo, tais como: educação e cultura; educação e
cidadania; educação e coesão social; educação, trabalho e emprego; educação e
desenvolvimento; educação, investigação e ciência. A educação nesse contexto é vista como
um instrumento valioso para se amenizar os problemas e afastar os riscos das questões sociais
provocadas e agravadas pela globalização. Por conseguinte, a implantação e de políticas
educacionais, visando atender aos acordos neoliberais, principalmente na década de 1990, tem
impulsionado o debate sobre a exclusão social, a democratização do ensino, tanto no que se
refere ao acesso quanto à permanência dos indivíduos na escola pública.
É nesse contexto que a educação de jovens e adultos assume posição central, pois estes
são reconhecidos como portadores de direito à educação, no que diz respeito ao acesso a
recursos que favoreçam o desenvolvimento de competências e habilidades individuais e
coletivas4.
As Diretrizes Curriculares Nacionais apresentadas pelo Parecer CEB 11/2000, bem
como a resolução CNE/CEB 11/2000 definem três princípios que devem nortear a educação
de jovens e adultos no Brasil: Primeiro, a educação como direito público e subjetivo;
Segundo, a educação como direito de todos e, terceiro, a educação permanente. Decorrente
desses princípios, Oliveira (2004) apresenta as novas funções estabelecidas para a Educação
de Jovens e Adultos:
Reparadora - ao reconhecer a igualdade humana de direitos e o acesso aos direitos
civis, pela restauração de um direito negado;
Equalizadora – ao propor igualdade de oportunidades de acesso e permanência na
escola e,
Qualificadora – ao viabilizar a atualização permanente de conhecimentos e
aprendizagens contínuas (PARECER CEB 11/2000).
4
Cf. Oliveira (2004)
16514
Nessa direção, também é enfatizada a educação profissional de nível técnico, seja
concomitante, seja sequencial.
A Educação Profissional de Jovens e Adultos integrada ao Ensino Médio teve origem
no Decreto nº 5.478, de 24/06/2005 cuja denominação inicial era Programa de Integração da
Educação Profissional ao Ensino Médio na Modalidade Educação de Jovens e Adultos
(PROEJA). Nesse sentido, o programa surge como uma tentativa governamental de atender à
demanda de jovens e adultos sedentos de uma educação profissional técnica a nível médio,
que, na maioria das vezes, são excluídos5. A base de ação desse programa foi, de início, a
Rede Federal de Educação Profissional e Tecnológica.
Vale ressaltar que já havia, antes do Decreto nº 5.478, de 24/06/2005, instituições da
Rede Federal que desenvolviam ações voltadas para a educação profissional de jovens e
adultos, fato que motivou, ao lado de instituições parceiras e estudiosos, o questionamento do
Programa reivindicando que fosse ampliado no que tange à sua abrangência e
aprofundamento epistemológicos.
Essas experiências, em diálogo com os pressupostos referenciais do programa,
indicavam a necessidade de ampliar seus limites, tendo como horizonte a
universalização da educação básica, aliada à formação para o mundo do trabalho,
com acolhimento específico a jovens e adultos com trajetórias escolares
descontínuas. (BRASIL, 2007, p.12).
O Decreto nº 5. 478/2005 foi revogado e promulgado o Decreto nº 5.840, de 13 de
julho de 2006, o qual traz diversas mudanças no âmbito do PROEJA. Dentre as quais
destacamos: a ampliação da abrangência, admissão de sistemas de ensino estaduais e
municipais e entidades privadas, aprendizagem e formação profissional, bem como a alteração
para Programa Nacional de Integração da Educação Profissional com a Educação Básica na
Modalidade de Educação de Jovens e Adultos6.
No entanto, é importante destacar que para se consolidar como política pública de
integração da educação profissional com a educação básica é preciso ultrapassar as barreiras
de um mero programa voltado para a educação de jovens e adultos e estabelecer a condição e
as possibilidades de uma educação que assuma a condição humanizadora, ou seja, que
proporcione o desenvolvimento de ações pedagógicas, as quais valorizem tanto os saberes
5
6
Cf. Brasil, (2007), Documento Base.
Cf. Brasil (2007).
16515
quanto as experiências de vida e profissional desses sujeitos. Nesse sentido, o documento
base da educação profissional técnica de nível médio nos diz que:
O que realmente se pretende é a formação humana, no seu sentido lato, com acesso
ao universo de saberes e conhecimentos científicos e tecnológicos produzidos
historicamente pela humanidade, integrada a uma formação profissional que permita
compreender o mundo, compreender-se no mundo e nele atuar na busca de melhoria
das próprias condições de vida e da construção de uma sociedade socialmente justa.
A perspectiva precisa ser, portanto, de formação na vida e para a vida e não apenas
de qualificação do mercado ou para ele. (BRASIL, 2007, p. 13)
O ponto basilar que queremos destacar é, justamente, a garantia de que jovens e
adultos tenham a possibilidade de se tornarem sujeitos ativos do processo histórico. Para
tanto, faz-se necessário que a educação proposta, como acima citado, integre as diversas
dimensões humanas favorecendo a imbricação da formação profissional técnica, com uma
visão crítica que possibilita uma compreensão de si num mundo marcado pela contradição,
por um egocentrismo estrito que tem conduzido a uma esfacelação das relações humanas.
Por conseguinte, irrompe, como questão premente, a necessidade de uma formação
humana capaz de produzir um arcabouço reflexivo que vá além da educação meramente
técnica, ou seja, uma educação que “expresse uma política pública de educação profissional
integrada com a educação básica para jovens e adultos como direito, em um projeto nacional
de desenvolvimento soberano, frente aos desafios de inclusão social e da globalização
econômica” (BRASIL, 2007, p. 14).
É nesse contexto que entra em cena a filosofia como elemento indispensável à uma
formação que não se limite apenas à dimensão técnica exigida pelo mercado de trabalho, mas
que busque uma compreensão de formação que encare a constituição dos sujeitos como
resultado de todo um processo, que como tal deve servir de aprimoramento para o educando7.
O Art. 2º da Lei 9.394/96 destaca que a filosofia, ao lado das demais disciplinas do
ensino médio, tem duas tarefas importantes: a primeira, em um sentido mais abrangente,
consiste no “pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e
sua qualificação para o trabalho”, a segunda, um pouco mais específica, chama a atenção para
um tipo de formação “que não é uma mera oferta de conhecimentos a serem assimilados pelos
estudantes, mas sim o aprendizado de uma relação com o conhecimento” (BRASIL, 2006, p.
28).
7
Cf. Brasil (2006, p. 29).
16516
Os educandos descobrem a dimensão intelectual do saber filosófico no quotidiano das
aulas de filosofia. No entanto, é relevante destacar que a filosofia, apesar das inúmeras
dificuldades de reconhecimento que ela enfrenta, ainda assume um caráter problematizador
nas relações entre os indivíduos. Desse modo, é possível identificar na prática de sala de aula
de muitos professores, uma postura crítica e criativa ao tratar de assuntos polêmicos e ainda
tidos como tabus. Por conseguinte, também é perceptível que as discussões e debates em
sala, não tem o objetivo de se chegar a um consenso, mas a uma problematização e análise
critica acerca dos problemas sociais e existenciais dos alunos e da sociedade. “A tarefa do
professor, ao desenvolver habilidades, não é incutir valores, doutrinar, mas sim ‘despertar os
jovens para a reflexão filosófica’ [...]” (BRASIL, 2006, p. 33)
Portanto, o saber filosófico é um direito de todos, mas para garantir tal direito é
preciso conhecê-lo. Não amamos ou gostamos do desconhecido, por isso é necessário que a
educação brasileira dê esse direito aos jovens, o direito de filosofar, mas um filosofar repleto
de conceitos e esclarecimentos sobre as condições do ser no seu devir. Para reforçar a ideias
acerca do saber filosófico e do filosofar Ghedin (2009, p. 57) afirma que:
Filosofar é o ato de retomar, reconsiderar os dados disponíveis, revisar, vasculhar,
numa busca constante de significado. É examinar detidamente, prestar atenção,
analisar com cuidado. É uma espécie de entrega interpretativa que teoriza a prática e
pratica a teorização como possibilidade de compreensão e superação dos limites de
nosso ser, lançado no horizonte de sentido.
Dialogando sobre filosofia com os alunos
O Curso Técnico de Desenho de Construção Civil - Modalidade Proeja
Em conformidade com a política do Ministério da Educação – MEC (LDB, Lei
9394/96, Decreto nº 5.154 de 23 de julho de 2004 e Decreto n° 5.840, de 13 de julho de 2006,
que definem a articulação como a nova forma de relacionamento entre a Educação
Profissional Técnica de Nível Médio e o Ensino Médio, como também as Diretrizes
Curriculares Nacionais definidas pelo Conselho Nacional de Educação para a Educação
Profissional Técnica de Nível Médio, o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia
da Paraíba – IFPB, Campus de Cajazeiras, criou em 2009, o Curso Técnico Integrado de
Nível Médio em Desenho de Construção Civil, do Eixo Tecnológico em Infraestrutura, em
conformidade com o Programa Nacional de Integração da Educação Profissional à Educação
Básica na Modalidade de Educação de Jovens e Adultos (PROEJA).
16517
O objetivo do curso é atender, prioritariamente, alunos provenientes da EJA, na rede
Municipal de Ensino de Cajazeiras. O Curso de Desenho de Construção civil está organizado
em regime semestral, com uma carga horária de 2.400 horas, sendo 1.200 horas destinadas à
formação geral e 1.200 horas para formação profissional, distribuídas em três anos letivos,
com funcionamento no turno noturno, sendo acrescidas 300 horas, destinadas ao estágio
supervisionado ou ao trabalho de conclusão de curso – TCC, totalizando 2.700 horas de curso.
Perfil dos alunos entrevistados
Foi aplicado um questionário para 25 alunos do segundo período do curso de Técnico
integrado na modalidade PROEJA de Desenho de Construção Civil, do Instituto Federal de
Educação, Ciência e Tecnologia da Paraíba no Campus de Cajazeiras. O motivo pelo qual o
questionário foi aplicado no 2º período dá-se pelo fato de que é nele em que os alunos
estudam filosofia. Tomamos como amostra as vinte e cinco entrevistas, objetivando analisar
os dados e, assim, traçar o perfil do aluno do PROEJA e a visão dele sobre o papel da
filosofia na sua formação profissional. Dessa forma, as respostas dos entrevistados foram
categorizadas a partir dos seguintes temas:
Faixa etária
Dos 25 entrevistados, 64% têm entre 20 e 30 anos, 28% entre 30 e 40 anos e 8% acima
de 40 anos, conforme gráfico abaixo.
Gráfico 1 – Faixa etária dos entrevistados
Fonte: Elaborado pelos autores com base nos resultados da pesquisa.
16518
Desse modo, um fator relevante a se destacar é que, a partir do perfil etário dos
entrevistados, os alunos do PROEJA são jovens ou adultos com experiências de vida e
profissional. A esse respeito, Oliveira (2004) ao se referir às pessoas atendidas na educação de
jovens e adultos mostra a faixa etária como uma especificidade dessa modalidade de ensino,
ou seja, esses sujeitos são jovens, adultos ou idosos, que na faixa etária da escolarização, entre
os 7 e 14 anos, não tiveram acesso á escola, ou se evadiram ou foram expulsos dela. O
problema que se apresenta, aqui, está na esfera das práticas pedagógicas, ou seja, “há
diferenças de interesses, de motivações e de atitudes face ao processo educacional entre os
jovens, os adultos e os idosos” (OLIVEIRA, 2004, p. 50).
Sexo
No que se refere ao sexo, 76% dos entrevistados é do sexo feminino e 24% do sexo
masculino. Das mulheres entrevistadas, 73,68% são solteiras e 26,32% casadas. Das
entrevistadas casadas, 71,43% tem filhos. Dos homens entrevistados 66,67% são solteiros e
33,33% casados
Gráfico 2 – Sexo dos entrevistados
Fonte: Elaborado pelos autores com base nos resultados da pesquisa.
16519
Gráfico 03 – Estado civil (Mulheres).
Fonte: Elaborado pelos autores com base nos resultados da pesquisa.
Gráfico 4 – Estado Civil (Homens)
Fonte: Elaborado pelos autores com base nos resultados da pesquisa.
Vida escolar
Indagados sobre a vida escolar, 92% afirmaram ter feito o Ensino Fundamental em
escolas públicas e apenas 8% em escolas particulares. Mesmo dentro das contradições das
escolas publicas, vale salientar sua importância para a democratização do ensino e para o
ingresso dos trabalhadores no mercado de trabalho. Nesse sentido, Severino (2001) chama a
atenção para o fato de que a educação institucionalizada tem o dever de não ignorar essa sua
finalidade primordial, nem tampouco perder de vista a prepara para o mundo do mercado de
trabalho.
16520
Gráfico 5 – Vida escolar
Fonte: Elaborado pelos autores com base nos resultados da pesquisa.
Estes dados evidenciam que a maior parte dos entrevistados são provenientes de um
ensino fundamental oferecido pela rede publica de ensino, e como tais, vivenciaram as
carências inerentes a esse sistema de ensino.
A Filosofia no Processo de Formação Profissional
Foi solicitado, na entrevista, que os alunos falassem sobre a filosofia e sobre sua
importância na formação profissional, isto é, se a filosofia é ou não importante para a vida
profissional e por que. A esse respeito, 100% afirmaram ser a filosofia, de algum modo,
importante, é o que pudemos perceber nas respostas de alguns entrevistados:
“Sim, ajuda de alguma forma, posso falar melhor, pensar, afinal a filosofia, traz
8
sabedoria, inteligência. Etc.” (JOANA )
“Sim! Com o aprendizado mais detalhado faz com que percebemos o porque das
coisas, dos nosso direitos e deveres e também mostra tudo de um ponto de vista que
eu não conhecia ou pelo menos não queria conhecer.” (PAULO)
“Sim, ela mostra tudo que várias outras materias não mostra, o mundo nos dias de
hoje, como se dá com as pessoas, sexualidade, preconceitos e etc.”.(ANITA)
É mister ressaltar que mesmo sendo 100% das respostas positivas no que tange a
importância da filosofia, há uma variedade significativa quanto à justificativa dessa
importância. Alguns alunos consideram-na importante porque ela “é amor pela sabedoria e é
8
Utilizamos pseudônimos para preservar a identidade dos entrevistados.
16521
importante saber e amar o conhecimento...”; porque “se aprende muitas coisas e ajuda abrir
a mente para realidade.”; Porque “a filosofia faz parte do conhecimento e busca a realidade
das coisas.”;Porque “sem a filosofia não há conhecimento e sem conhecimento não se chega
a lugar nenhum.”porque “ensina a pensar e refletir, discutir, debater.”; porque “ensina a se
relacionar, a conhecer a verdade dos fatos, a ter valores morais e éticos na sociedade.”
Porque “a filosofia ajuda a aprender melhor as outras matérias e ensina a refletir e buscar o
conhecimento.; porque “toda matéria é importante para qualquer profissão, sem o
conhecimento ninguém pode aprender ser um bom profissional.”; porque “ensina uma visão
de mundo.”
Não analisaremos, aqui, as diversas concepções de filosofia subjacentes em cada uma
das respostas dadas. No entanto, chamamos a atenção para o fato de que, para além dessas
múltiplas concepções a filosofia cumpre um papel formador nos cursos de PROEJA e que não
correspondem “apenas à necessidade técnica voltada a atender a interesses imediatos, como
por exemplo, do mercado de trabalho” (BRASIL, 2006, p 29).
Perspectiva de Futuro
No tocante às perspectivas de futuro ao término do curso, podemos distribuir em
quatro grupos as respostas dos alunos. Primeiro, aparece com maior frequência (30% das
respostas) a possibilidade de ganho financeiro.
“Ganhar dinheiro fazendo planta de casas.” (PEDRO)
“Ganhar um pouco mais do que ganho hoje.” (ALEF)
Em segundo lugar aparece a possibilidade de ascensão de emprego, ou de cargo (28%)
Espero que alcance todos os meus objetivos desejados e um emprego melhor.
(MARCOS)
Espero conseguir um trabalho melhor (FELIPE)
Espero ter pelo menos um emprego próprio na área, por ser uma pessoa muito capaz,
na maioria das outras. (JOANA)
Em um terceiro grupo destaca-se, 22% do total, o desejo que trazem de exercer a
profissão na área de Desenho de Construção Civil.
“Espero exercer a função, pois sempre gostei de desenhar no inicio queria ser
arquiteta.” (ESTER)
“Me tornar uma profissional na área de desenho na Construção Civil. E mostrar que
independente da idade tudo é possível, basta correr atrás.” (JOSEFA)
“Espero bastante conhecimento e exercer a profissão.” (ANITA)
16522
Por último, 20%, prosseguir os estudos e ingressar numa faculdade:
“Eu espero ingressar na faculdade e pretendo ficar no ramo da construção civil,
quero aprofundar mais e conseguir ser uma arquiteta.” (ESTER)
“Espero alcançar fazer um curso superior e fazer valer um direito de cidadão digna e
responsável.” (FABIANA)
“Eu quero ter o 2º grau completo para engressar em outra carreira, fazer um
vestibular para educação física – é isso que penso, não gosto muito desenhar,
apessar de dar muito dinheiro para quem ingressa nessa carreira.”(FRANCISCO)
Gráfico 6 – Perspectiva de futuro
Fonte: Elaborado pelos autores com base nos resultados da pesquisa.
Considerações Finais
Pesquisar a percepção dos alunos do Proeja acerca da filosofia nos possibilitou
vivenciar o exercício da reflexão. Dessa forma, acreditamos que a práxis do professor de
filosofia no âmbito da educação profissionalizante, modalidade jovens e adultos, é
ressignificada a partir da visão dos alunos sobre o papel da filosofia na formação profissional.
Ao longo dessa análise algumas questões são pertinentes realçar:
Primeiro, a filosofia é elemento indispensável a uma formação que não se limite
apenas à dimensão técnica exigida pelo mercado de trabalho, mas que busque uma
compreensão de formação que encare a constituição dos sujeitos como resultado de todo um
processo, que como tal deve servir de aprimoramento para o educando;
Segundo, Os educandos descobrem a dimensão intelectual do saber filosófico no
quotidiano das aulas de filosofia. No entanto, é relevante destacar que a filosofia, apesar das
16523
inúmeras dificuldades de reconhecimento que ela enfrenta, ainda assume um caráter
problematizador nas relações entre os indivíduos;
Terceiro, quanto ao perfil dos entrevistados chegamos aos seguintes resultados:
• Perfil: A partir do perfil etário dos entrevistados, os alunos do PROEJA são
jovens ou adultos com experiências de vida e profissional;
• Sexo: No que se refere ao sexo, 76% dos entrevistados é do sexo feminino e
24% do sexo masculino, portanto, há uma maioria significativa de mulheres;
• Vida Escolar: Os dados evidenciaram que uma grande maioria dos
entrevistados (92%) são provenientes de um ensino fundamental oferecido pela
rede publica de ensino, e como tais vivenciaram as carências inerentes a esse
sistema de ensino.
• Importância da Filosofia: Mesmo 100% das respostas tendo sido positivas no
que tange à importância da filosofia, houve uma variedade significativa quanto
à justificativa dessa importância.
Portanto, acreditamos que, para além das múltiplas concepções, a filosofia cumpre um
papel formador nos cursos de PROEJA e, nesse sentido, ela não deve atender apenas a uma
necessidade técnica voltada aos interesses em que estão envolvidas a teoria e a prática do
ensino profissionalizante, abre-se espaço para as discussões sobre os instrumentais
apresentados nesse texto para que seja oferecida uma formação cada vez mais sólida aos
jovens e adultos.
REFERÊNCIAS
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Básica na modalidade da Educação de Jovens e Adultos: Educação Profissional Técnica
de Nível Médio. Brasília: agosto de 2007. (DOCUMENTO BASE).
_______. Lei Nº 9.394/96 – Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Brasília, DF:
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________. Conselho Nacional de Educação. Parecer CNE/CEB nº. 11/2001 e Resolução
CNE/CEB nº. 1/2000. Diretrizes Curriculares para a Educação de Jovens e Adultos.
Brasília: MEC, maio 2000.
_______. Decreto nº 5.154. Brasília, DF: Congresso Nacional, 23 de julho de 2004.
_______. Decreto nº 5.478. Brasília, DF: Congresso Nacional, 24 de junho 2005.
16524
_______. Decreto nº 5.840. Brasília,DF: Congresso Nacional, 13 de julho 2006.
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