O LUGAR-PRÓPRIO E O LUGAR-COMUM: A ARGUMENTAÇÃO A

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Modalidade do trabalho: Ensaio teórico
Evento: XXI Jornada de Pesquisa
O LUGAR-PRÓPRIO E O LUGAR-COMUM: A ARGUMENTAÇÃO A PARTIR DO
NADA NAS REDAÇÕES DO VESTIBULAR1
Rosita Da Silva Santos2.
1
Projeto de pesquisa realizado no curso de Letras da UNIJUÍ, vinculado ao Grupo de Pesquisa Interdisciplinar de
Humanidades no Ensino Médio - GEPEI.
2
Professora de Língua Portuguesa do Departamento de Humanidades e Educação (DHE) da Universidade Regional
do Noroeste do Estado do RS (UNIJUÍ). Mestre em Linguística pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)
e Doutoranda em Educação nas Ciências, pela UNIJUÍ.
1. Introdução
Argumentar é convencer, persuadir ou comover e é uma atividade intrinsecamente humana (Fiorin,
2015; Koch e Elias, 2016). Esta persuasão de que fala Koch e Elias faz-se, segundo Cícero, pelo
convencimento, quando se mobilizam argumentos para levar a aceitar uma tese, ou pela comoção,
quando isso é feito tentando alterar o estado de espírito do destinatário. (apud Fiorin, 2015, p. 19).
Um dos argumentos mais utilizados nas redações dos vestibulares é o argumento de lugar-comum.
Na retórica clássica, o conceito de lugar-comum possuía um valor literário e discursivo. Entretanto,
atualmente a ideia está ligada à ausência de originalidade. A expressão lugar-comum deriva do
latim locus comunis – é um tipo de discurso já visto e repetido. O uso abusivo desse tipo de
argumento revela a ausência de repertório linguístico próprio e certa limitação argumentativa.
Neste texto, busca-se apresentar o conceito e os tipos de argumentos por lugares-comuns,
analisando-os em situações reais: as redações do vestibular de inverno da UNIJUÌ – Universidade
Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul, em 2015. Os trechos retirados das redações
de candidatos às vagas no vestibular de inverno 2015 estão identificados como T1, T2, etc., e vão
de um a nove.
2. Metodologia
O presente empreendimento teórico-analítico se constituiu por um processo de análise textual
discursiva qualitativa (MORAES, 2003 ), visando aprofundar a compreensão do uso de argumentos
de lugar-comum nas redações do vestibular da UNIJUÍ. Para isso, fez-se a unitarização das
informações provenientes de um arcabouço teórico, separando-as por “unidades de significado ou
de sentido” (MORAES, 2003, p.195), num movimento de interlocução entre as concepções teóricas
do que seja argumentação de lugar-comum e as redações do vestibular (FIORIN, 2015; KOCH e
ELIAS, 2015).
O tema utilizado na redação do vestibular foi a sala de aula invertida, uma metodologia ativa, cuja
ideia central é de que o aluno assista previamente às principais explicações acerca do assunto a ser
trabalhado em aula, estudando no material indicado pelo professor, e, posteriormente, o encontro
presencial passa a ser a oportunidade para esclarecer dúvidas, realizar atividades, trocar
conhecimentos e fixar a aprendizagem. O texto motivador abordava o fato de que há países no
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mundo que estão adotando essa metodologia, tanto para a educação básica como para o ensino
superior.
3. Resultados e Discussão
O ato de defender um ponto de vista exige o uso da argumentação. A língua nos permite uma série
infinita de gradações argumentativas, que vão da concordância absoluta à discordância total,
passando por uma gama de sutilezas entre as duas. Tanto na oralidade quanto na escrita, é de
fundamental importância dominar estes recursos.
Escrevemos/falamos sempre com alguma intenção: informar, persuadir, divertir, etc. Quando nossa
intenção é persuadir, necessitamos de informações que extrapolam o simples ato de convencer,
visto que nossos discursos estão intimamente ligados a questões ideológicas que, muitas vezes,
interferem em nossas vontades.
É possível também que o texto de opinião nos leve à dúvida, que não conclua isso ou aquilo
simplesmente. Em qualquer caso, ele assume um ponto de vista, que, é claro, vai se chocar contra
outros pontos de vista. Daí a resposta ativa que a opinião exige: não estamos mais simplesmente
“absorvendo” informações, mas pensando sobre elas. (FARACO E TEZZA, 2013, p. 240)
As informações, segundo Faraco e Tezza (2013), por si só, não nos garantem solidez argumentativa.
Para os autores, as informações são “’cacos’ à espera de alguém que lhes dê sentido, que monte o
quebra-cabeças deste grande espetáculo” (p. 239). Não são informações “neutras”, mas carregadas
de entonação apreciativa e crítica, com um toque argumentativo, lembrando sempre o leitor do
outro lado da questão. Argumentação é, de acordo com Koch e Elias,
o resultado textual de uma combinação entre diferentes componentes, que exige do sujeito que
argumenta construir, de um ponto de vista racional, uma explicação, recorrendo a experiências
individuais e sociais, num quadro espacial e temporal de uma situação com finalidade persuasiva.
(p. 24).
Fiorin (2015) destaca que existem os lugares-próprios da argumentação e os chamados lugarescomuns. Os lugares-próprios seriam aqueles específicos de uma ciência, de um campo discursivo.
As leis, por exemplo, possuem lugares-próprios, visto que fazem parte do campo discursivo jurídico
e nos permitem estabelecer regras gerais. Já os lugares-comuns são “formas vazias comuns a todos
os argumentos” ou “estereótipos, proposições muito repetidas”. (Barthes, 1975, apud Fiorin).
De acordo com Fiorin (2016), há duas formas de conceituarmos lugar-comum: “A primeira é de
esquema argumentativo que pode ganhar os conteúdos mais diversos, é uma matriz semântica, um
molde discursivo” (p. 95). Esta é, segundo Fiorin, uma concepção aristotélica de lugar-comum, em
que o argumento serve de espaço para a construção de argumentos conflitantes. Fiorin (2016) traz,
como exemplo, o trecho do livro Amálgama, de Rubem Fonseca: “Quem mata um gato é capaz de
matar uma pessoa? [...] Matava cães e gatos, mas não dizia palavras torpes”. O autor destaca que,
no “exemplo dado, pode-se também enunciar o argumento de que quem pode o mais não pode
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necessariamente o menos. Assim, uma celebridade não pode fazer certas coisas que estão ao alcance
do homem comum”. (FIORIN, 2016, p. 95).
A segunda forma é como um “argumento pronto”, um clichê, ou seja, lugar-comum significa algo
que é do conhecimento de todos. Os provérbios são, por exemplo, lugares-comuns. Para Aristóteles,
seriam espécies de crenças coletivas. Alguns desses lugares-comuns, de acordo com Perelman e
Tyteca (2005, apud FIORIN, 2015, p.96-101), seriam a) lugar da quantidade: “quando uma coisa é
preferível à outra em virtude da quantidade”; b) lugar da qualidade: é aquele segundo o qual o
melhor é o raro, o único; c) lugar da ordem: superioridade da causa sobre o efeito; d) lugar do
existente: “declara a superioridade do que é sobre aquilo que é apenas possível”; e) lugar da
essência: o essencial é preferível ao fortuito; f) lugar da pessoa: apela para o valor da pessoa, sua
dignidade, seu mérito, sua importância.
Faraco e Tezza (2011, p.197) afirmam que toda opinião “transformadora, isto é, que está realmente
impregnada da vitalidade cotidiana, que está viva, necessita de informação”. De acordo com os
autores, não existe “opinião pura”, visto que
esse tipo de opinião completa, fechada e definitiva, são os lugares-comuns, os chavões, os clichês
da linguagem, os “dogmas” que existem justamente para suprimir opiniões. A opinião precisa de
informação; é esta que abre caminho, fornece argumentos e provas com os quais estabelecemos
nossos pontos de vista. (p. 197).
No trecho abaixo, percebemos o lugar-comum que apela para o valor da pessoa, sua importância, no
caso, o professor. Quando se aborda a questão da sala de aula invertida, em nenhum momento há a
proposição de ausência do professor.
(T1) Cada dia que se passa é raro escutar um aluno dizer que foi buscar informações em livros, pelo
contrário, a maioria certamente irá dizer que foi em algum site, algumas pessoas iriam dizer que
eles estariam desvalorizando a função dos professores, o que é errado, estão apenas encontrando
novas formas de obter conhecimento, e conquistando sua própria autonomia.
No trecho abaixo, o candidato afirma que o impacto na aprendizagem será maior. Entretanto, não
apresenta/fornece argumentos e provas consistentes para sustentar seu ponto de vista.
(T2) É fundamental as escolas e universidades adquirirem esse novo método de ensino, pois ele
apresenta uma grande contribuição, os jovens demonstram um impacto de aprendizagem muito
maior do que os que cursaram o ensino tradicional.
Quando usamos provérbios - “Devagar se vai ao longe, porque a pressa é inimiga da perfeição e a
esperança é a última que morre”(FARACO E TEZZA, 2011, p. 211) - o conjunto de frases é uma
demonstração de argumentos de lugar-comum, também conhecidos como chavões ou clichês.
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O mal do lugar-comum não está propriamente no fato de ser uma expressão muitas vezes usada. Na
verdade, todos nós dispomos de frases e expressões que se repetem muitas vezes em contextos
semelhantes – e dentro do jargão profissional (advogados, médicos, publicitários...) as “frases
feitas” podem até ser um instrumental de trabalho, em usos específicos, e não causam maiores
danos, mesmo porque a procura da originalidade permanentemente poderia nos transformar em
insuportáveis pedantes”. (FARACO E TEZZA, 2011, p. 211)
É importante reconhecer os lugares-comuns, mas essa não é tarefa fácil, porque “o chavão permeia
todos os pontos de vista e pode fossilizar mesmo a opinião mais honesta, sincera e bemintencionada.” (FARACO E TEZZA, 2011, p. 212). Segundos os autores, a face mais evidente deste
tipo de generalidade vazia é o uso de entidades como o homem, o mundo, os políticos, o jovem,
como “se as sociedades fossem todas constituídas de blocos absolutamente homogêneos”. Para
Faraco e Tezza, no lugar-comum, “esses blocos imaginários em geral se definem por afirmações
igualmente absolutas e incontestáveis – e tão confortáveis que acabam sendo repetidas à exaustão”
(2011, p.212). Exemplo disso é quando o vestibulando repete a ideia de que vivemos em um
mundo tecnológico e, por isso, a sala de aula invertida seria um grande avanço. Além disso, em
(T3), percebe-se o uso de generalidades vazias, como “vivemos em um mundo”, “nós seres
humanos” e “a sociedade de hoje”.
(T3) Estamos vivendo em um mundo rodeado de tecnologias, mundo este que está tomando conta
de nós seres humanos sem que nós percebemos (sic). Continuar na “educação passada” faz com que
nós não cresçamos diante da sociedade, pois querendo ou não a sociedade de hoje está cada vez
mais movida à tecnologia.
Nesse caso, uma forma de fugir do lugar-comum seria afirmando que a forma de construir
conhecimento é colaborativa e está havendo uma espécie de transformação cultural e que é
necessário que os educadores aprofundem o conhecimento sobre essa cultura digital, a fim de
compreender o universo dos estudantes. Isso é muito mais do que simplesmente aprender a mexer
nos celulares e computadores – o que é extremamente reducionista. É importante aprender/ensinar a
transformar informação em conhecimento e perceber a imensidão de informações na rede.
No exemplo anterior (T4), podemos também perceber uma apologia ao passado, como se a
educação, no passado, fosse melhor do que a que temos atualmente. Isso é um lugar-comum
denominado argumento do “laudator temporis acti” (apologista do tempo passado). Segundo Fiorin
(2016), são argumentos em que se glorifica o passado e se menospreza o presente, o que, no limite,
leva a fazer a apologia a uma idade de ouro. “Lembra um período feliz no passado, uma época em
que tudo funcionava”. (p. 99). Esse argumento de lugar-comum é considerado lugar da ordem,
afirmando a superioridade do anterior sobre o posterior. Percebe-se esse lugar-comum no exemplo
abaixo:
(T4) Antigamente, professores e alunos interagiam em sala de aula apenas, pois além de ser um
tempo em que os alunos desde pequenos ajudavam em casa, era um tempo de tecnologia fraca. Com
o passar dos anos as tecnologias foram melhorando assim facilitando o entendimento e explicações.
Com o surgimento da internet, notebooks, celulares entre outros, pode-se melhorar a educação, pois
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com essa tecnologia os professores passaram a interagir com os alunos e se expressar de melhor
forma, tendo mais conteúdo, fazendo os alunos buscar mais, e não ficar só na “sala de aula”.
Em (T4), além da apologia ao tempo passado, há o argumento do lugar da quantidade. Ao afirmar
que há mais conteúdo, o candidato parece relacionar ao fato de que quanto mais informação melhor.
Além disso, ao afirmar que a internet, notebooks, celulares e outros podem melhorar a educação, ele
está demonstrando, mais uma vez, que é a quantidade disponível de materiais tecnológicos que
poderão fazer a diferença, procurando validar a ideia de que alguma coisa é superior à outra por ser
proveitosa a um número maior de pessoas.
A opinião é um juízo individual, em que não se precisa necessariamente apresentar justificativas, e
argumento pressupõe que as razões de uma possível tese sejam apresentadas e confrontadas,
mediante uma explicação/justificativa de uma opinião.
A opinião, o direito à opinião e à sua disseminação impressa, e principalmente o acesso à
diversidade de opiniões (o que diz respeito também ao direito de acesso à educação) são aspectos
fundamentais das sociedades modernas. E nesse terreno argumentativo – toda opinião consistente
supõe argumentos – o texto escrito é absolutamente insubstituível. (FARACO E TEZZA, 2013, p.
239)
Para dar uma opinião, é preciso ter argumentos concretos que sustentem a ideia, caso contrário
estaremos simplesmente repetindo as vozes já cristalizadas, muitas vezes reproduzindo discursos
preconceituosos e criando estereótipos. É o que acontece no trecho abaixo, quando o candidato traz
a ideia de que a educação da escola pública é pior, se comparada à escola privada.
(T5) Todavia, no que diz respeito ao ensino fundamental, esse jeito novo de explanar o conteúdo
poderia não ser aceito, levando em conta de que crianças não possuem ainda discernimento
necessário para sozinhas procurarem por informações. Além disso, a educação, principalmente
pública, nessa fase, deixa a desejar em alguns pontos.
Para além da comparação entre escola pública e privada, em (T5) percebe-se o lugar do existente,
ou seja, a superioridade do que é sobre aquilo que é somente possível, do real sobre o que é
imaginário ou utópico. De acordo com o candidato, não podemos mudar esta realidade, pois “as
crianças não possuem discernimento necessário para sozinhas procurarem por informações”, o que
sabemos ser insuficiente como argumento para garantir a não implementação dessa metodologia em
sala de aula.
Outro argumento de lugar-comum, segundo Faraco e Tezza (2011), é aquele que aparece
“justamente para substituir a reflexão”, ou seja, ele cumpre a função de, ao tentar resolver tudo
“numa frase feita de sabedoria universal e indiscutível, eliminar qualquer necessidade
argumentativa” (p. 212). Percebemos isso no trecho em que o candidato afirma que “existem apenas
prós quando falamos dessa nova estrutura de ensino, mas será necessária uma grande mudança na
infraestrutura de todo o ensino”. Com esta afirmação, ele acaba se redimindo da necessidade de
dizer quais mudanças são necessárias, visto que é uma frase feita com valor universal.
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(T6) Aqui no Brasil o auxílio dessa tecnologia nas escolas é muito baixo, porque além de ser
novidade, falta o incentivo do governo, falta cobrança da comunidade, faltam recursos. Mas se isso
mudar, consequentemente vai haver uma melhoria na frequência de alunos nas escolas.
Outro exemplo é o que acontece quando responsabilizamos o governo pelas mazelas da sociedade,
inclusive pelas questões pedagógicas, como é o caso do tema em questão.
(T7) Muitos jovens brasileiros buscam em outros países, novas formas de ensino, para conseguir ter
uma boa formação e em consequência um bom emprego. O governo deveria procurar implantar
novas formas de ensino, como a sala de aula invertida.
Segundo Cristovão e Tezza, há um lugar-comum ideológico, que vai muito além de simplesmente
preencher linhas em uma redação escolar. Trata-se do reconhecimento e da repetição das vozes que
falam mais alto na sociedade. No exemplo (T7), percebemos o discurso do lugar da qualidade, ou
seja, o que é feito no exterior é melhor do que o que é feito no nosso país e para conseguir uma boa
formação é preciso estudar fora. Em (T8), o candidato afirma que a educação no país é “primitiva e
desvalorizada”, o que pressupõe conhecimento acerca do que seja uma educação primitiva, ou seja,
incivilizada, inculta, selvagem, no seu sentido literal. Seria este o sentido que o candidato queria
efetivamente dar ao seu texto?
(T8) Concordo que é fundamental que escolas e outras instituições pratiquem este método, pois,
além de motivar a sua capacidade mental, auxilia na aprendizagem. Desta forma, também o
professor é valorizado. Além disso, valoriza a educação no Brasil, como sabemos a nossa educação
ainda é muito primitiva e desvalorizada.
Outros exemplos de lugares-comuns seriam o fato de que o difícil é melhor do que o fácil, o novo é
superior ao que é aceito por todos. Essas “vozes” estão presentes, por exemplo, nas piadas – através
dos estereótipos – e nas afirmações absolutas dos fatos que nos rodeiam. Abaixo temos um exemplo
dessas afirmações: o fato de que ler livros, revistas, jornais é arcaico e menos importante:
(T9) Entretanto, as intituições brasileiras que cobram aquele velho estudo tradicional em salas de
aula, como ler livros, revistas, jornais e etc. Amanhã ou depois isso acabará sendo substituído por
algo que esclareça mais dúvidas e estimulando o aprendizado dos jovens.
Um novo modelo de ensino não pressupõe jogar fora os cânones, a tradição, mas perceber que, ao
longo de gerações, o perfil e a forma de assimilar os conteúdos por parte dos estudantes foram se
modificando. Por este motivo, o conceito de “sala de aula” passa por transformações para continuar
atendendo às necessidades e expectativas dos alunos. Isso não significa jogar fora a criança com a
água do banho, desconsiderando totalmente tudo o que já foi feito até o presente momento.
O que se percebe pelos exemplos acima é que os trechos não se propõem a contestar nada, não
transformam e não propõem novas maneiras de ensinar/aprender, ou mesmo novas reflexões –
simplesmente repetem vozes presentes na sociedade. Para evitar que isso aconteça, é preciso levar
em consideração a legitimidade da proposta que estamos defendendo, o desenvolvimento do
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raciocínio para demonstrar a aceitabilidade ou legitimidade dessa proposta e a quem se dirige o
nosso argumento.
Os discursos se constituem dialogicamente, na argumentação, e, por isso, é sempre importante
analisarmos que há discursos valorizados e outros vilipendiados; há discursos demonizados e outros
endeusados; há discursos ridicularizados pela sociedade e outros aceitos como verdades, mas
sempre argumentar é uma atividade discursiva de influenciar o nosso interlocutor por meio de
argumentos, com apresentação e organização de ideias, bem como estruturação do raciocínio, em
defesa de uma tese ou ponto de vista, levando em consideração a ideia da “justa medida” (FIORIN,
2015).
4. Conclusão
Com a perda do prestígio da retórica, no século XIX, a ideia de lugar-comum também foi alterada, e
passou a designar banalidade, clichê, e, por este motivo, hoje são condenados e ironizados pelos
manuais de produção textual. Não há problemas em utilizarmos argumentos de lugares-comuns; o
problema está em utilizarmos argumentos prontos, com conteúdos fixos manifestados através de
repetições.
É possível utilizar o lugar-comum como um importante recurso para apresentar uma tese que é
evidente por si mesma. Em “O guarani”, por exemplo, José de Alencar vale-se do recurso da
descrição do locus amoenus para traçar uma imagem do paraíso terrestre. Podemos não concordar
com a descrição feita por Machado (o paraíso como um lugar de beleza e exuberância da natureza,
abundância de sombras, árvores, flores, etc.), mas a figurativização deste espaço permite ao leitor
estabelecer uma relação entre natureza e homem; a harmonia do cenário representa o paraíso
terrestre.
E necessário sempre analisar do ponto de visto do conflito, visto que os lugares-comuns também
precisam de argumentos para sustentar seus pontos de vista. Por exemplo, se afirmamos que o
passado é a idade de ouro e que o presente é uma decadência, ou vice-versa, precisamos dizer por
qual motivo estamos afirmando tal coisa. Quanto mais expostos à diversidade de opiniões
estivermos, mais capazes somos de pensarmos sobre o mundo que nos cerca, visto que a
diversidade de opiniões conflitantes nos transforma e nos estimula a crescer.
5. Palavras-chave - Produção textual – Argumentação – Lugares-comuns
6. Referências bibliográficas
FARACO, Carlos Alberto e TEZZA, Cristóvão. Prática de texto para estudantes universitários.
Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2011.
FARACO, Carlos Alberto e TEZZA, Cristóvão. Oficina de texto. Petrópolis, RJ: Editora Vozes,
2013.
FIORIN, José Luiz. Argumentação. São Paulo: Contexto, 2015.
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KOCH, Ingedore Villaça e ELIAS, Vanda Maria. Escrever e argumentar. São Paulo: Contexto,
2016.
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